Vanguarda Abolicionista

'Vocês são os que não comem carne, né?' e o gado com fones de ouvido

especismo

Na verdade, o abate é tão somente uma das faces da escravidão animal – de forma diferente, podemos citar os cavalos de carroça, os coelhos em laboratórios de testes de produtos, o touro na tourada, o macaco no zoológico, a lagosta viva no restaurante chique, os cachorros nas fazendas chinesas, a lista é quase infinita. Quer dizer, há o abate final após uma vida de não-liberdade, e há a vida inteira de tortura, sem a bênção da morte como fim do terror. Se bem que, por exemplo, os cavalinhos de carroça são estourados a vida toda, e na finaleta alguns acabam no abatedouro, diferente de seus iguais que capotaram no asfalto e espumaram pela boca até a chegada do toque piedoso da senhora Morte.

Então o cidadão médio nivela a coisa como ‘não comem carne, né?’, pelo máximo de excentricidade que consegue vislumbrar – um abstêmio, como já ouvi certa vez. Pensar naquilo que não lhe traz um ganho imediato, e sempre para si, está fora de cogitação, pois desde o parar de fumar até a reza aos domingos, é sempre para benefício pessoal, em última análise.

Mas há uma realidade por trás do glamour aparente, desta opção não-escolhida que a maioria segue entoando tal como não escolheu o time de futebol para o qual torce, mesmo que grite e pule a cada jogo assistido. E a grande massa pensa, por ignorância ou remorso, que tudo é como no sítio da Vovó Donalda, com animais felizes e de estimação. Uma rápida análise das embalagens dos produtos em supermercado nos faz pensar que os animais voluntariamente dão sua vida pela carne servida aos humanos, a galinha cordialmente se esforça para dar os ovos aos humanos, o porco aparece com chapéuzinho de cozinheiro, etc. Sempre para os humanos, jamais seus corpos-ingredientes são gentilmente cedidos às feras, aos predadores naturais – os tão citados carnívoros! – ou a quem, vá lá, esteja moribundo e morrendo de fome. Sempre ao dono-patrão-proprietário-‘tutor’-patriarca-humano.

Aquela visão bucólica da pecuária, onde sempre parece que o gado está de fones de ouvido, praticamente meditando.

E os processos industriais ou da agricultura familiar não entram nesse cálculo, porque para quem morre ou dá seus anos de vida em troca de alimento diário, tanto faz se o algoz é de uma família quatrocentona latifundiária oligárquica ou é pobre, sem-terra. Há quem fique chocado ao ver uma castração a frio – ‘tradição’ cívica em regiões do RS – que ocorre sempre longe dos flashes da mídia comprometida em lamber as botas do patronato rural. Mas quem faz a castração a faca, faz de forma automática, com cigarro no canto da boca, já esquentando o fogareiro rústico para apreciar as bolas de touro, “que se abrem como couve-flor, quando está no ponto”, como já escutei.

Quem martela o gongo do antiespecismo pretende descolar as pálpebras da pessoa ao lado, largar uma bolinha de ping-pong nas ideias, com vistas não a um ganho seu, mas ao que percebe como justo. Talvez isso é o que provoque tantas reações contrárias e narizes torcidos, em um mundo onde quem não leva algum, está por fora.

E qualquer informação desagradável, imagem chocante, nada mais é que o mundo real, o expediente diário de quem decide a utilização deste ou daquele animal para seu lucro, ou para o lucro de seu patrão. Entretanto, a imagem desagradável do macaco no laboratório é fruto de quem acha que os animais estão aí para nos servir, a imagem desgradável do porco pendurado em ganchos é fruto de quem acha que os animais estão aí para nos servir de alimento, ‘e todo esforço é necessário, afinal de contas’. o antiespecismo aponta essa injustiça e propõe uma vida fora do que a ‘tradição’ manda.

Não se separa a atitude em gavetinhas etiquetadas, compartimentando as pessoas conforme os conceitos até então aprendidos – e que diariamente se provam errados. Não comer carne é ‘um pequeno passo para o homem’ etc. Mas é uma ação para abrir as demais portas, que como as pálpebras estavam seladas pelo bom-mocismo das ideias, pelo medo de parecer idiota.

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Natureza quadriculada ou 'se tem animal e lucro, tem arame farpado'

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A primeira conversa pega-trouxa que autoridades em geral e representantes do setor da pecuária repetem é ‘desenvolvimento sustentável’. Senão, vejamos. O Brasil ocupa a segunda posição em termos de rebanho de gado bovino, perdendo apenas para a Índia. Dados do Censo 2010 apontam 200 milhões de vacas e bois no país, sendo Corumbá, no MS, a cidade com maior população bovina – dois milhões. Já cai por terra o mito do Sítio da Vovó Donalda, onde há apenas uma vaca – com nome próprio, flor na orelha, fita na cabeça – que parece viver como um animal de estimação.

Ainda tem ingênuos que pensam a pecuária como uma atividade de manter o gado por toda a vida em bucólicos gramados, dando toda a assistência – ‘a vida que pedi a Deus’ – até que um dia ZAP!, tão rápido quanto um piscar de olhos, é feito um acerto de contas para dar de comer às legiões de esfomeados. Miseráveis esfomeados x vacas gordas usufruindo de spa em meio à natureza – eis como a coisa parece ser posta, na argumentação de alguns teimosos.

Há sempre um arame farpado separando a manada do resto da natureza. E especialmente de sua própria natureza, de correr um pouco, andar para qualquer lugar que não seja a rota do brete. Cada vez mais, é mais gado em menos espaço, em mais áreas – inclusive locais sagrados como Amazônia e Pantanal. Mas isso não conta na hora de reunir os amigos para um domingo de alegria. De outra forma, não flui.

Então temos que engolir um novo termo moldado de acordo com os novos tempos – desenvolvimento sustentável – e que parece aplacar o remorso que o cidadão comum começa a ter, ao ver as sacudidas da natureza. Lentamente, Tico e Teco vão se dando as mãos. Alguém fala que não come carne – e, estranhamente, não caiu fulminado por um doença terrível minutos depois, nem por um raio enviado dos céus. Pelo contrário, até está com exames de sangue melhorzinhos. A próstata agradece, inclusive.

Mas o termo serve pra acalmar qualquer leve desespero, tentativa de reflexão que venha a questionar o modus operandi deste nosso sistema de ruralistas fazendo crer que o desenvolvimento é para todos, sem conta bancaria própria no meio. Como se escravizar os animais para fins de lucro, com arames farpados para manter controle, seja algo que se deva agradecer. E depois os açougues distribuem a carne à legião de esfomeados, claro.

E a natureza, essa coisa amorfa que cabe no discurso de qualquer aventureiro, está se tornando quadriculada, em nome de um orgulho pela pujança de terceiros. Que, de alguma forma, incluem no pacote do progresso qualquer um que pegue uns bons cortes de carne no açougue, para o próximo domingo. De graça, claro.

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As planilhas de Excel da humanidade ou 'Animais de barriga cheia, animais de barriga vazia'

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Queria eu escrever coisas bonitas e fofas sobre os animais. Mas estaria escrevendo sobre uma parte, menor parte, de uma totalidade de seres que estão na Terra já para sofrer, criados e vindos com objetivos pré-definidos, e nada favorável a eles. Nada que os poupa da dor, da opressão e da vida de escravo, barriga cheia ou não.

Queria eu descrever cenas como as que correm pela Internet, de porquinhos se esfregando os focinhos, de porquinhos rosados dormindo entre flores ou em um cesto, bebê de quatro patas e com a mesma inocência, provocando um ‘ai que fófoi’ das pessoas. Mas esse não é o mundo lá fora, de criações em divisórias de concreto, merda sólida, líquida ou gasosa no ambiente, confinamento, retirada de dentes, castração, engorda e ‘vida’ como uma torturante sala-de-espera-de-dentista até o banho gelado final – para concentrar a circulação sangüínea junto ao petio – e a sangria obrigatória. Uma vida de pré-lombinho assado, pré-salame, pré-lingüiça, que nada tem a ver com o Gaguinho ou outros procos antropomorfizados que, quando criança, aprendemos a amar. Eu mesmo passei a minha infância apaixonado pela Miss Piggy, dos Muppets. Enfim.

Queria eu relatar como os pintinhos se protegem sob as asas da mãe, zelosa, imagem clássica que tanto ilustrou livros infantis. Mas o sistema, ajoelhado aos ditames do Dr Moreau, criou o frango, um zumbi-clone-mutação, que vive aos milhares durante poucos dias, para então alimentar – de forma especial, digamos – todo aquele que bate no peito para dizer ‘sou contra os transgênicos’. Aí pede pastel de frango, pois ‘é vegetariano’. Claro, todo mundo aqui tem um tio, e esse tio tem um sítio, e nesse sítio as galinhas vivem soltas e felizes e com pintinhos e não são mutantes. Acredito piamente que há um Sítio da Vovó Donalda na fé de cada um. Enfim.

Queria eu pintar quadros onde os cavalos correm livres o dia todo – “mordendo o vento na cara, bebe horizonte nos olhos, empurra a terra pra trás”, diz a canção ‘Potro Sem Dono’. Quadros como aquelas fotos decorativas onde há cavalos graúdos, longas crinas, gramados guardando sua presença, cavalinhos ainda aprendendo o potencial das próprias pernas. Mas – sempre tem o mas – basta abrir a janela para ver um cavalo miúdo, seco, na sede e Sol na cabeça, puxando a miséria humana sobre carroças. Se não puxa, apanha – essa regra é clara, e só não percebe a relação de poder quem romantiza, sempre, a figura humana, especialmente quanto mais pobre for. Mas o não-miserável cria cavalos, bota para correr no Jockey, faz montaria – acrho bizarro puxar um animal pela boca estando montado nele, e dizer ‘adoro cavalos’ ao mesmo tempo – e se diverte com rodeios, e bota o cavalo para ser veículo de transporte humano em desfile, forças armadas ou passeio. Escravos de barriga cheia, escravos de barriga vazia.

Queria eu escrever uma poesia sobre animais fofos e peludos, mas… não dá para ignorar o que acontece na indústria de peles, nos laboratórios de pesquisa.

Queria eu chamar ao palco todos os demais, submetidos a uma tirania humana que, tal seu poder, até eventualemnte vai se compadecer de tanto sofrimento, mas não abre as algemas. Separa bem o que vai sofrer do que vai ser afagado, o que será alvo separado do que vai ser bibelô, o que é praga afastado do que foi comprado para ser companhia e preencher vazios da vida, o que é ingrediente abundante e vai morrer dentro em breve, do que merece todos os esforços, captação de recursos e projetos governamentais para não morrer. Essa é uma escolha ditatorial humana, um exercício de poder que determina – tal como as barrigas cheias e barrigas vazias de sua própria espécie – quem é ‘polegar para cima’ ou para baixo, conforme o azar que teve na hora de nascer, e o respectivo encaixe nas planilhas de Excel da humanidade.

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