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A utopia Norte-Americana

Foto de outubro mostra o chimpanzé Tommy em sua jaula em Gloversville, Nova York (Foto G1: AP Photo/The Leader-Herald, Bill Trojan)
Foto de outubro mostra o chimpanzé Tommy em sua jaula em Gloversville, Nova York (Foto G1: AP Photo/The Leader-Herald, Bill Trojan)

Quando ingressamos no Projeto GAP, há mais de uma década, perguntamos aos seus advogados por que não entravam com um pedido declaratório na Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos, solicitando os direitos básicos dos grandes primatas e seu reconhecimento como Pessoas Não-Humanas. A resposta frustrante é que a sociedade Norte-Americana, e seu sistema judiciário, não estava ainda maduro para aceitar uma tese dessa índole.

Quando recebemos a notícia de que uma corte do Estado de Nova Iorque negou a categoria de “pessoa legal” ao chimpanzé Tommy, que o advogado e lutador pelos direitos dos primatas Steven Wise tinha solicitado, não nos surpreendeu.

A sociedade Norte-Americana ainda é uma sociedade impregnada de racismo. Atualmente vemos como a minoria negra se manifesta nas ruas de diversas localidades daquele país para fazer valer os seus direitos, dificilmente conquistados, porém, não totalmente, há poucas décadas atrás.

Se o racismo permeia ainda na mente de tantos cidadãos, é inconcebível pensar que uma minoria, que nem Norte-Americana é, mas africana, consiga avançar em sua luta pelos direitos básicos naquela sociedade.

A luta vai continuar, já que Steven Wise e seu projeto dos Direitos para os Não-Humanos vão atingir outros tribunais superiores.

Talvez Tommy, com mais de 40 anos, morando na casa de um cidadão que conseguiu sua tutela de um centro de entretenimento onde ele trabalhava, não consiga ver o resultado dos esforços de humanos Norte-Americanos que desejam ver o racismo extinto daquele grande país.

Quebrar paradigmas não é fácil, ainda mais em uma sociedade com uma longa história de abusos e exploração contra minorias, que tentam alcançar um status igualitário em sua sociedade.

O Projeto GAP continua em seu propósito mundial de fazer reconhecer os Grandes Primatas como Pessoas Não- Humanas. Em cada país que conseguir, isto será um avanço que vai repercutir no resto do Planeta. Cada ação judicial que se ganhe fazendo valer os direitos dos grandes símios será uma vitória mundial. Não devemos desistir; o racismo deve ser extirpado da alma humana e a conquista dos direitos de nossa minoria primata esquecida será uma vitória que não tem preço.

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Educação Vegana

Educação vegana é radicalmente utópica

Um novo ano letivo acaba de iniciar. Muitas turmas novas e centenas de cabeças e corações juvenis.

Com apenas duas semanas de aulas já conseguimos perceber o poder alienador das mídias, da família, da religião e de um “sistema” de ensino neoliberal domesticador de corpos e almas. É impressionante ver um adolescente defender aguerridamente dogmas que lhes foram passados como verdades absolutas pelos pais, líderes religiosos e pelas mídias, diante dos questionamentos levantados nas aulas de filosofia (ética animal). Apenas alguns poucos se deixam conduzir pelo perigoso caminho da duvida. Duvida ou duvidas que podem nos levar a uma nova visão sobre o que é bem antigo. “Filosofia é reaprender a ver o mundo” dizia Merleau-Ponty.

Tanto o professor vegano quanto os poucos alunos e alunas que se recusam fazer genuflexão diante da moral de rebanho, são rebeldes, “subversivos dos subversivos”.

Paulo Freire disse certa vez que:

“Não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmamos. Uma das questões centrais com que temos de lidar é a promoção de posturas rebeldes em posturas revolucionarias que nos engajam no processo radical de transformação do mundo. A rebeldia é o ponto de partida indispensável, é deflagração da justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia enquanto denuncia precisa se alongar até uma posição mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente anunciadora. A mudança de mundo implica a dialetização entre a denuncia da situação desumanizadora e o anuncio de sua superação no fundo, o nosso sonho”.

Usar os termos “rebelde”, “revolução”, “engajamento”, “radicalismo” e até acreditar que é possível mudar o mundo hodiernamente é pedir para ser taxado de antiquado, nostálgico, marxista, socialista, sem noção, etc. No entanto, não vejo a possibilidade de mudança no atual estado de coisas sem nos rebelarmos, não nos moldes “rebelde sem causa”, mas com uma causa nobre pela qual se rebelar. Não vejo a possibilidade de uma mudança sem engajamento político num processo revolucionário de abolição de toda exploração animal, humana e não-humana. Não vejo possibilidade de mudança sem sermos radicais, ou seja, irmos às raízes de todo o mal praticado contra todos em estado de vulnerabilidade, e extirpá-lo, não com mais violência, nada de lei de Talião, mas com conscientização crítica e autocrítica.
Sonho? Utopia?

Educação vegana é radicalmente utópica, por isso revolucionária. É uma ação direta pedagógica onde a filosofia da práxis que a alimenta vai além da barreira das espécies.

Sobre sua radicalidade já discutimos em outro texto. Sobre seu caráter utópico – não a utopia como concebida pelo senso comum, como sinônimo de devaneio, idealismo, sonho de quem não tem noção da realidade, mas –, como “inédito viável”, como “sonho possível”, como “sonho estratégico”, vejamos um pouco.

Sem utopia não há revolução. É necessário ver a utopia como dialetização entre a denuncia da incoerente naturalização do especismo e o anuncio de sua superação através do modo de vida vegano.

No processo de ensino do modo de vida vegano na escola percebemos que aqueles poucos alunos e alunas que abraçam a característica crítico-radical da filosofia estão mais próximos de tomar a decisão de adotar esse modo de vida, por serem aqueles poucos que fazem o exercício reflexivo necessário para se tomar tal decisão. A grande maioria, infelizmente, já está bem contaminada pelas benesses do consumismo animalizado, desumano e reificador. Duvidar do que tradicionalmente me foi legado é pecaminoso, questionar a cultura do mal institucionalizado é herético, subversivo demais para esses adolescentes. Dentre essa maioria, alguns tentam se mover para fora da cômoda caverna antropocêntrico-especista, mas o máximo onde conseguem chegar é no estágio bem-estarista da vida acomodada. Às vezes, mais que seus pais e avôs, essa grande maioria dos adolescentes luta ferozmente pela manutenção do status quo. Triste realidade. A inculcação do habitus especista, e não menos, sexista, racista e elitista foi muito bem feita na infância desses adolescentes relutantes.

No processo de ensino do modo de vida vegano na escola percebemos que cada um tem seu tempo para despertar sua consciência animal. Alguns são damascenos, a maioria, relutantes. Toda mudança é laboriosa, mas é possível. O educador vegano acredita firmemente que o inédito mundo vegano sonhado hoje é viável, é possível.

A educação vegana abolicionista formal tem a árdua tarefa de ensinar, ou pelo menos apresentar para a grande maioria dos adolescentes relutantes que como observou Nietzsche, “não é porque alguns não conseguem se libertar de seus próprios grilhões que estarão impedidos de libertar os demais”.

Em Jaulas Vazias, Tom Regan diz:

“Quanto menos capazes as pessoas forem de defender seus direitos, maior é nosso dever de defendê-los para elas. Limitados no nosso poder e influência, não conseguimos fazer tudo para defender todas as vítimas da injustiça. Entretanto, o que podemos fazer é mais do que nada. O fato de não podermos fazer tudo para todas as vítimas da injustiça não significa que devamos nos contentar em não fazer nada por nenhuma delas”.

Mais adiante o pensador estadunidense enfatiza,

“nós simplesmente não podemos fazer tudo por todas as vítimas. Mas eu também observei que esse limite não é zero. O fato de não podermos fazer tudo em defesa daqueles que são incapazes de se defender não significa que devemos nos contentar em não fazer nada. O que podemos fazer? O que deveríamos fazer?”.

Na mesma linha de raciocínio – ao discutir a genuína radicalidade do modo de vida vegano abolicionista – nos ensina a eticista Sônia t. Felipe:

“Se é verdade que não é possível ser absolutamente vegano, também é verdade que não é necessário ser onívoro para gozar de saúde, disposição e ter respeito por seres que nascem com formatos diversos do nosso. Não poder fazer tudo não leva a concluir que então continuaremos a não fazer nada. Isso é niilismo moral”.

O quietismo criticado por esses três pensadores é movido pela consciência ético-política denunciadora. A educação vegana abolicionista é dialética, denuncia e anuncia, acredita que a mudança é possível. Mudança que vem de uma longa conscientização crítica e autocrítica, projeto de vida que se estende por todo o restante dela.

O educador vegano nunca conseguirá convencer toda uma sala de aula, ou um colégio por inteiro, por mais que faça uso do mais refinado raciocínio ético, que o modo de vida vegano abolicionista é o mais coerente primeiro passo na construção de uma biografia eticamente genuína, mas ele tem o dever de apresentar essa radical utopia. Não conseguir levar todos os alunos e alunas a reflexão crítica sobre nossas ações e omissões não o impede de conduzir alguns nesse processo.

Se os adolescentes são naturalmente “rebeldes sem causa” como muitos dizem, precisamos mais que dar-lhes uma causa pela qual se rebelar, precisamos promover sua transformação em uma postura revolucionária, engajada no processo radical de transformação do mundo.

Quanto às questões postas por Regan, “o que podemos fazer? O que deveríamos fazer?”, o educador Paulo Freire tem a resposta:

“É exatamente a historia que temos que criar com nossas mãos e temos que fazer. É o tempo das transformações que temos que realizar. É o tempo do meu compromisso histórico. Por essa razão somente os utópicos – e enquanto utópicos revolucionários – (quem foi Marx senão um utópico, quem foi Guevara senão um utópico) podem ser proféticos e podem ser esperançosos”.

Um novo ano letivo se inicia. Firmes e esperançosos, nós educadores veganos, reafirmamos nosso compromisso histórico com a revolucionária educação vegana. Somos utópicos, somos radicais, somos abolicionistas, não é possível ser menos.

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Direitos dos Grandes Primatas

Um país para os chimpanzés

Créditos: Friends of Washoe

Pode ser qualificada como utopia, ou uma ideia irracional, ou uma proposta demagógica. Porém, é uma ideia instigante e talvez um sinal de solução para salvar uma espécie condenada irremediavelmente a extinção se algo dramático não for feito nas próximas duas décadas.

Os autores desta “proposta” são os responsáveis por ter aberto ao conhecimento do mundo do que é um chimpanzé, e até onde ele é similar a nós. Washoe, a chimpanzé que morou na casa de Roger e Deborah Fouts até os cinco anos de idade, que aprendeu a linguagem dos sinais, e que acreditava ser humana e que os chimpanzés eram “uns bichos peludos”, foi motivo do livro Next of Kin. O livro os descobriu para o mundo e foi traduzido em dezenas de idiomas, inclusive o português (sob o título Nosso Parente Mais Próximo).

Washoe transmitiu os conhecimentos adquiridos para sua família e chegou a comunicar-se pela linguagem dos sinais, usada pelos surdos-mudos. O casal Fouts esteve no início do mês em Barcelona, em um museu da cidade num bate papo “Conversando com chimpanzés”.

Na ocasião, a proposta instigante saiu dos lábios e cumplicidade de ambos, diante da grande pergunta: o que fazer para evitar a extinção da espécie Pan (Homo) troglodytes? O cativeiro não é solução, é um remendo desesperado para salvar as vidas iminentes de serem ceifadas pela truculência humana. A solução definitiva é dar um país a eles, onde tenham soberania, direitos, normas e garantias. Um país onde não existam traficantes de animais, caçadores emboscados, nem humanos que os tentem explorar. Um país que eles já tinham e lhe foi arrancado pela cobiça de mineradores, zoológicos, circos, traficantes, empresários do show business e dezenas de outros humanos irracionais. Um país com uma selva densa, que lhe sirva de refúgio, e que os proteja dos inimigos de ontem, hoje e do futuro. Um país que era deles e lhes foi roubado. Todos os chimpanzés do mundo vão ter o direito de ser transferidos para lá, não serão exibidos mais em zoológicos, não trabalharão em circos, nem serão “pets” em casas de humanos; não serão mais necessários os Santuários para abrigá-los. O único Santuário será o país dos chimpanzés, no centro da África, de onde eles saíram para espalhar-se, contra sua vontade, no mundo.

Foto: Daily Mail

A ideia genial dos Fouts talvez seja uma utopia, porém é também um desafio. Eles têm direitos, tinham um país que lhes foi arrancado; a humanidade, se ela existe, pode fazer agora justiça e devolver-lhes a Pátria que era deles antes de existirmos como espécie. No fim, eles estavam aqui antes que nós e têm o direito adquirido, que nós temos usurpado.

A solução está dada… Quem terá a coragem de implementá-la? É uma utopia, porém com alguma chance de ser realidade! Lutemos por ela! O mínimo que podemos fazer por uma espécie com tão profundos laços genéticos e históricos.

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