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Substâncias cancerígenas são encontradas em população atingida por desastres ambientais

Um estudo realizado nos fios dos cabelos de 90 moradores de 14 comunidades do polo industrial e da sede de Barcarena, no Pará, que foram atingidas por desastres ambientais promovidos por empresas, apontou a presença de pelo menos 20 substâncias tóxicas, dentre elas três cancerígenas, sendo o chumbo, o cromo e o níquel.

Refinaria da Hydro em Barcarena, no Pará (Foto: Tarso Sarraf / O Liberal)

A coleta foi feita entre 2015 e 2017. Foram registrados 17 acidentes ambientais entre 2000 e 2015, todos relacionados pelo Ministério Público Federal (MPF). Entre eles, o naufrágio de um navio com 5 mil bois vivos, que morreram afogados em um trágico acidente em Vila do Conde.

Cerca de dez empreendimentos atuam na região, sendo duas indústrias da multinacional norueguesa Norsk Hydro, que recentemente despejou dejetos sem tratamento que contaminaram rios e igarapés. A empresa é responsável pela refinaria Hydro Alunorte e a Albrás Aluminio Brasileiro S/A. Os danos ambientais e sociais causados pelas mineradoras são investigados por uma comissão de sete deputados estaduais.

A pesquisadora doutora do departamento de química da Universidade Federal do Pará (UFPA), Simone Pereira, explicou que os elementos encontrados nos cabelos da população são extremamente danosos ao ambiente e às pessoas. De acordo com ela, o chumbo foi encontrado em quantidade bem acima do normal.

“91% da população pesquisada está com níveis de chumbo acima de 6 microgramas por grama, que é o nível médio encontrado em uma população não exposta, como Altamira”, informou a pesquisadora.

Segundo Simone, níveis de alumínio 100 vezes acima do controle foram encontrados em uma criança, além de cromo quatro vezes acima, manganês três vezes acima e níquel duas vezes. A análise da criança foi autorizada pela mãe, que revelou que o menino apresenta problemas de pele, coceira e dores de cabeça constantes. A água consumida pela família é encanada, mas o igarapé é usado para banho quando falta água. As informações são do portal G1.

Fizeram parte da produção do relatório pesquisadores da UFPA. O documento foi apresentado no salão paroquial de Barcarena e deve ser entregue às autoridades, como MPF e Governo do Estado. As pessoas submetidas a exames devem ser novamente examinadas, desta vez por meio da coleta de amostras de sangue.

Segundo estudo, 91% da população analisada está com níveis de chumbo acima do normal (Foto: Reprodução / TV Liberal)

Os resultados das análises feitas nos cabelos da população mostram, segundo a pesquisadora, quais substâncias estão saindo do organismo. A contaminação, de fato, só pode ser descoberta através do exame de sangue. “O relatório não indica ainda que as pessoas estão doentes. (…) Os que apresentam níveis menores não quer dizer que estejam isentas da contaminação”, explicou. “Essas pessoas estão precisando de uma atenção maior, principalmente da área da saúde, porque a partir do exame de sangue, elas precisam ser tratadas”, completou.

A empresa, por sua vez, afirmou que não teve acesso ao estudo e declarou, em nota, que “os resíduos da Hydro Alunorte são analisados conforme norma ABNT 10.004/2004, em laboratório externo e acreditado pelo Inmetro, e todos os resultados encontrados evidenciam que os parâmetros de chumbo, e de qualquer outro metal, estão muito abaixo do limite de referência”. A refinaria afirmou ainda que “a disposição de resíduos no DRS1 é devidamente licenciada pelo Governo do Estado através da sua licença de operação. O monitoramento de efluentes é realizado de acordo com os parâmetros determinados pela Resolução do Conama 430/2011 e não apresenta nenhuma alteração de metais”.

Entenda o caso

Irregularidades começaram a ser descobertas em fevereiro, quando fotos registraram vazamento de rejeitos da bacia de depósitos da mineradora. Logo após, vistorias realizadas por órgãos dos governos estadual e municipal, além do Instituto Evandro Chagas, tiveram início.

A princípio, a Hydro Alunorte negou qualquer incidente. Um laudo do Instituto Evandro Chagas, no entanto, desmentiu a alegação da empresa e confirmou a contaminação em diversas áreas de Barcarena, que foi provocada por uma ligação clandestina de eliminação de efluentes contaminados sem qualquer tipo de tratamento. A presença de metais pesados, entre eles o chumbo, em comunidades ribeirinhas, foi confirmada pelo documento.

Com isso, o Tribunal de Justiça do Pará (TJ-PA) determinou, no final de fevereiro, que a produção da Hydro em Barcarena fosse reduzida em 50%. Uma bacia de rejeitos da empresa foi embargada. O recurso foi acatado pela refinaria.

O segundo canal de despejo irregular foi descoberto em março pelo Ministério Público do Pará (MPPA) após vistoria. Ele era utilizado, segundo o órgão, para despejar efluentes sem tratamento diretamente no rio Pará em caso de grandes chuvas. Um terceiro canal, também irregular, foi identificado no mesmo mês pela Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (Semas).

De acordo com o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Estado (Alepa), Celso Sabino, o alvo da investigação “será todo impacto ambiental sofrido em Barcarena nos últimos anos”. Segundo ele, as vítimas das comunidades afetadas serão ouvidas, assim como os institutos de pesquisa e as empresas.

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