Notícias

Conheça o impacto que a adoção de uma alimentação vegana tem sobre o planeta

Foto: Kinder World
Foto: Kinder World

O Dia Mundial do Veganismo foi comemorado pela primeira vez em 1º de novembro de 1994 como forma de celebrar o 50º aniversário da Vegan Society UK (Sociedade Vegana do Reino Unido) e também do termo “vegano” em si. A data agora é reconhecida como o dia em que a Vegan Society foi fundada e como o Dia Mundial do Veganismo no mundo todo.

O Dia do Vegismo é uma oportunidade para promover os benefícios de uma alimentação vegana e do veganismo em geral. O termo vegano foi cunhado por Donald Watson e é uma derivação da palavra vegetariano. Naquela época, a diferenciação entre os termos era que os veganos não consumiam laticínios. Mais tarde, isso se estendeu aos ovos e, em 1951, o veganismo havia se tornado um movimento de pessoas que não participavam da exploração de animais de nenhuma forma.

Esse conceito de não-violência e compaixão por todas as criaturas da natureza é essencial para a filosofia vegana. Para os veganos, isso é tanto uma questão de ética quanto de saúde. A dieta vegana é totalmente baseada em vegetais, tornando-a rica em fibras e pobre em colesterol, resultando em muitos benefícios para a saúde: reduzindo o risco de doenças cardíacas, diabetes, obesidade e pressão alta.

A cada ano, há uma série de festivais e exposições realizadas em todo o mundo por sociedades veganas. Além disso, existem muitos eventos locais, palestras e demonstrações de culinária organizadas por veganos.

No atual contexto mundial, onde relatórios assinados por especialistas e organizações mundiais de renome acusam a possível extinção da espécie humana, caso nosso modo de lidar com o planeta não mude, adotar o veganismo deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade.

O comportamento humano movido por ambição desmedida e desrespeito a toda forma de vida e ao meio ambiente, levou os recursos do planeta à beira da extinção. Dados divulgados amplamente na imprensa mundial apontam que, no atual sistema de alimentos praticado, não há como sustentar uma população global que cresce a cada dia.

Emissões de carbono descontroladas, acordos mundiais de combate aos poluentes com metas fracassadas, falta de compromisso dos governantes e a mudança climática, também conhecida como crise do clima, causam a morte de milhões de espécies com o aumento da temperatura do oceano.

O degelo que afeta diretamente as populações de pinguins faz com que as aves não tenham mais os platôs usados para reprodução e nascimentos dos filhotes e obriga ursos polares, sem as rampas e icebergs nos quais estão acostumados a se mover para se alimentar, a invadir cidades a aldeias próximas em busca de comida.

O desmatamento e as queimadas, práticas comuns para deixar terras de florestas prontas para a pecuária e a indústria da carne, destrói tesouros preciosos em forma de árvores e diversidade biológica, tão necessárias ao equilíbrio e bem-estar do planeta.

Pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, que realizaram o mais abrangente estudo sobre os impactos da produção de alimentos no meio ambiente, concluíram que os produtos de origem animal são os piores inimigos ambientais que existem.

“Uma dieta vegana é provavelmente a melhor maneira de reduzir seu impacto no planeta Terra, não apenas gases do efeito estufa, mas acidificação global, eutrofização, uso da terra e uso da água. É muito mais efetivo do que cortar seus voos ou comprar um carro elétrico” – disse Joseph Poore, que liderou o estudo.

Basta observar, refletir e se conscientizar. Pelo planeta e pela humanidade a melhor maneira de se celebrar o Dia Mundial do Veganismo é se tornando vegano.

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.


 

​Read More
Artigos

Desafios do modo de vida vegano

1. A paz e não-violência para os animais é o objetivo final buscado pelo vegano e vegana. Qualquer benefício pessoal que possa resultar dessa nova forma de viver é consequência da atitude vegana, não sua finalidade.

2. A justiça social e ambiental são meios para que se alcance a paz e não-violência para todos os seres vivos. A defesa da natureza e sua preservação implica no cuidado atencioso de todas as formas de vida, e na abstenção de tudo o que implica escravização de animais.

3. Os direitos fundamentais animais precisam ser defendidos com a mesma tenacidade com a qual se defendem os humanos.

4. A saúde humana precisa ser assegurada sem a exploração de animais e sua submissão a experimentos.

5. A higiene, limpeza e beleza humanas não podem ser obtidas às custas da vida, do bem-estar e da desfiguração de animais.

6. A pele e a preservação da intimidade do corpo humano não devem ser protegidas às custas da tortura e morte de quaisquer animais.

7. Os nutrientes para o organismo humano devem ser assegurados por alimentos estritamente vegetais, descartando-se a hipótese de usar animais para prover matéria alimentar humana.

8. Da mente humana devem-se erradicar as ideias, conceitos e argumentos que justificam e fomentam o uso de animais. Se não se usa matéria animal para comer e vestir, também não se a usa para falar.

9. Os produtos à venda no mercado mundial devem ser desmontados em sua composição, para que se possa ter ciência dos ingredientes que compõem a alimentação, o vestuário, adornos, cosméticos, material de limpeza, higiene, e todos os produtos da indústria química, das tintas aos componentes high tech, do lazer aos esportes.

10. Aos jovens se deve dizer a verdade sobre a exploração e escravização dos animais. Dos mais velhos se deve cobrar a indiferença em relação ao fato de terem se deixado levar pela propaganda no que diz respeito à melhor forma de prover as necessidades da família.

11. À tradição alimentar e moral animalizada devemos dar um adeus. Desassinar o contrato de expropriação da vida animal é nosso desafio.

12. Dos governantes não há o que esperar na defesa dos direitos fundamentais dos animais, pois a maior parte deles é eleita pelo agronegócio. Via de regra, todo governo é movido pelo capital. Quando se trata de atender à vida em desgraça, especialmente se a desgraça afeta milhões de indivíduos, os governos não sabem o que fazer. Isso vale para a desgraça dos milhões de humanos abatidos por forças às quais não podem fazer frente, tanto quanto para a de bilhões de animais abatidos por forças igualmente avassaladoras.

13. Para tornar-se vegano num mundo animalizado são necessários todos os anos restantes de nossas vidas. Quando nos damos conta de que algum produto ou serviço é oferecido às custas da escravização ou morte de animais, tal produto ou serviço precisa ser dispensado para sempre.

14. O dever positivo direto de respeito aos direitos animais não nos autoriza a negociar unilateralmente nosso padrão de vida contra o direito deles de terem sua vida boa.

15. Ser vegano não é algo estático, de fato não é sequer um estado de ser. É um movimento contínuo, uma luta contínua, não contra alvos externos, mas contra alvos internos. É uma maneira de passar a limpo os arquivos mentais que nos conduzem intuitivamente em nossas escolhas diárias. Ser vegano implica em abrir mão das intuições morais herdadas da tradição e pôr no lugar delas um princípio ético do qual não se abre mão na hora de comer, de ir para a cama, de divertir-se e de instruir-se.

16. Surpresas estão reservadas para os que se tornam veganos. Por detrás de cada dobra de tecido alimentar ou do vestuário, de cada item ou componente dos objetos de uso diário esconde-se a história da exploração, sofrimento e morte de animais não-humanos. Ser vegano é ter disposição para examinar tais pregas e alisá-las uma a uma. Enquanto já nos despregamos de dez ou quinze itens que antes constituíam nosso consumo diário, há quem sequer tenha se despregado de um ou dois deles, carne e laticínios, por exemplo.

17. Vivendo no mesmo plano terrestre dos outros humanos e tendo sido formatados na mesma matriz cognitiva e moral deles, precisamos aprender a olhar para o que eles ainda não fazem, como se fôssemos nós quem ainda não houvéssemos feito coisa alguma. Em vez de apontar para o outro, precisamos apontar para nossas práticas. Se somos coerentes, outras pessoas farão dela um espelho. Se fracassamos, quem mais tem a perder com nosso fracasso são os animais. É preciso abolir a ética animalizada antropocêntrica e em seu lugar construir um modo de vida com base numa ética genuinamente animalista.

* Trecho final da apresentação de abertura da Sociedade Vegana em São Paulo, março de 2010, proferido pela filósofa Sônia T. Felipe.

Leia a apresentação na íntegra aqui.

​Read More
Direitos Animais

A (re)definição de vegetarianismo: o horizonte dos direitos animais

Introdução

A discussão acerca da proposta da Sociedade Vegana de um novo conceito, o “protovegetarianismo” e de uma definição mais rigorosa, e etimologicamente mais correta, do conceito de vegetarianismo, tem suscitado bastante polêmica no meio do movimento vegetariano e de defesa animal.

Acompanhando as discussões, tenho percebido uma linha argumentativa de objeções à nova proposta que afirma basicamente o seguinte: trata-se um “revisionismo”, que questiona uma definição já consagrada de vegetarianismo, de pouca implicação prática para a causa, excludente da ampla “comunidade” vegetariana que não se enquadra na nova definição, sendo, portanto, uma proposta de viés autoritário baseada num preciosismo conceitual. Essa releitura autoritária e excludente estaria sendo promovida por uma “elite” com vistas a impor sua visão ortodoxa, monolítica, menosprezando a “diversidade” existente no movimento vegetariano.

O próprio conceito de “revisionismo” tem em si mesmo uma carga pejorativa, associado, por exemplo, às interpretações reformistas do marxismo, uma doutrina política revolucionária; e à negação da existência do Holocausto perpetrada pelo regime nazista. Ao “revisionismo” marxista geralmente se contrapunha a acusação do “marxismo ortodoxo”, dogmático e autoritário.

Como se vê, os defensores da nova terminologia acabaram enquadrados no pior dos dois mundos: revisionistas e ortodoxos. Afora a contradição dessa dupla acusação, veremos que nenhuma das duas se sustenta. Por fim, acrescento que, longe de um preciosismo nascido do amor à teoria, a proposta de um novo conceito é de importância política e estratégica para o movimento.

Revisionismo ou resgate?

Em primeiro lugar, não consiste a proposta da Sociedade Vegana em revisionismo, mas antes em um resgate do sentido original, e etimologicamente mais preciso, do conceito de vegetarianismo.

Originariamente, o termo vegetariano se referia a uma dieta estritamente baseada em vegetais, como já apontado no texto fundamental  da Sociedade Vegana sobre o protovegetarianismo, e como também pode ser consultado em diversos documentos disponíveis da seção de história da página da International Vegetarian Union na internet. Sua criação antecede a da Sociedade Vegetariana, na Inglaterra, e era definida como uma “dieta vegetal”. Não é por outro motivo que foram cunhados termos como “lactovegetariano” e “ovolactovegetariano”. Fosse “vegetariano” sinônimo de abstinência apenas de carne, esses termos seriam simplesmente redundantes.

Desse modo, se há alguma vertente “revisionista” do movimento, esta é aquela que associou vegetarianismo a uma dieta que inclua ovos e leite (o que eu chamo de “ovolactismo”, dado o apego e a centralidade desses alimentos para essa vertente). Esta é a vertente que vem se impondo no movimento desde a criação da Sociedade Vegetariana na Inglaterra, em 1847, que foi também aquela que propagou o mito de que o termo deriva do latim vegetus (forte, vigoroso), e não de “vegetal”. A pesquisa com textos de época, entretanto, desmente essa versão. A confusão foi tamanha que se propôs que a Sociedade Vegetariana passasse a se autodenominar Sociedade pela Reforma Alimentar, e sua dieta, definida como VEM (vegetais, ovos e leite, nas iniciais em inglês).

Com o passar dos anos, entretanto, a posição da Sociedade Vegetariana prevaleceu, e a confusão se impôs. E isso não teve implicações negligenciáveis. Ela perpetuou e propagou uma visão equivocada e deficiente sobre as implicações éticas de uma dieta que inclua ovos, leite, mel e outros subprodutos de animais, mesmo que não diretamente derivados de sua morte. A cegueira da sociedade, e mesmo de muitos vegetarianos, quanto a essas implicações éticas está diretamente ligada ao fato de a definição hegemônica de vegetarianismo não confrontá-las. E, como tenho defendido, não há como separar o vegetarianismo de um fundamento ético. De modo que, tanto do ponto de vista etimológico, quanto do ponto de vista ético, não faz sentido falar numa dieta vegetariana que não seja estritamente baseada em vegetais.

Se existe uma elite e uma ortodoxia no movimento vegetariano e de defesa animal, este está materializado em entidades como a Sociedade Vegetariana britânica, a WSPA e a PETA: de um lado, o ovolactismo, de outro, o bem-estarismo. São essas as ideologias hegemônicas no movimento desde sua origem, no ocidente. Esse é o dogma, a ortodoxia: aquele que legitima o uso e a exploração de animais. É contra este dogma que o veganismo tem se levantado, desde a década de 1940. Já era tempo de esta ortodoxia ser desafiada também no Brasil. É com este objetivo que surgiu a Sociedade Vegana.

Portanto, a proposta da Sociedade Vegana não é revisar um conceito e adequá-lo à sua visão do mundo, mas sim resgatar seu sentido original, e revitalizá-lo com o devido rigor ético e etimológico.

Da importância dos conceitos

E este debate vai muito além do preciosismo conceitual. Conceitos são parâmetros que orientam a comunicação, transmitem ideias e definem o horizonte de pensamento daqueles que os aplicam. A existência ou ausência de um conceito é reveladora do contexto histórico, político, social e até geográfico de um povo. A definição de um conceito tem uma importância política e estratégica, como o estudo dos movimentos políticos demonstra. Esta hipótese pode ser verificada com dois exemplos.

Em primeiro lugar, toda palavra é um conceito. Copo, vaso, garrafa, frasco e tubo são todos recipientes de líquidos. Contudo, não são conceitos intercambiáveis. Eles comunicam o contexto e o propósito com que um determinado recipiente recebe um determinado tipo de líquido. Para atestar a importância dessa diferenciação, basta pensar na enorme diferença que faz um líquido como a estricnina estar contido num frasco ou num copo.

Uma evidência da importância política dos conceitos pode ser apresentada por meio de duas inovações da Revolução Francesa: o sistema métrico decimal e o calendário revolucionário. O calendário passou a fazer referência às estações do ano (Brumário, o mês das neblinas; Termidor, o mês mais quente do verão; Germinal, o mês da germinação, e assim por diante). A semana continha dez dias – assim, deixava de existir o domingo, sem o qual os cultos cristãos deixariam de pautar a vida pública, tornando-se um culto privado, e no longo prazo perderiam sua influência. A dificuldade de manter dois calendários paralelos poria o próprio culto em perigo, mesmo na vida privada.

Da mesma forma, o sistema métrico decimal, que acabou consagrado, oferecia um sistema de medidas universal, simétrico e perfeitamente racional, diferente das medidas locais, arbitrárias, e até mesmo baseadas em medidas do corpo do rei (daí medidas como “pé” e “polegada”), que prevaleciam até então. O sistema métrico decimal e o calendário foram duas expressões do pensamento iluminista – racionalista, universalista e secular – que inspirou a Revolução Francesa. O triunfo de suas inovações seria o triunfo de suas ideias.

Todo conceito é limitado e limitante, é verdade. Daí muitas pessoas preferirem se esconder sob o discurso pseudocrítico da oposição aos “rótulos”, noutra forma de referência pejorativa. Isso nada mais é do que o medo ou indisposição de assumir compromissos, de tomar uma posição, de fazer escolhas. Coisas que, claro, são impossíveis na vida em sociedade.

Conceitos são importantes, como sabe qualquer cientista ou filósofo. Sem eles, a comunicação se torna confusa, senão impossível. E as ideias que eles comunicam são aquelas que irão pautar nossas ações. Por isso as discussões filosóficas, teóricas e conceituais não constituem mera divagação intelectual. Elas definem os parâmetros e o objetivo de um movimento. Se existe um movimento pelo vegetarianismo, faz uma enorme diferença se esse movimento advoga apenas a abstenção de carne ou a abstenção de todo alimento extraído de um animal. Essa definição também nos informa sobre o que, afinal, leva as pessoas a se tornarem vegetarianas: saúde? religião? ética? Ser vegetariano ético implica apenas se abster de matar? Ou igualmente se abster de explorar? São todas essas questões que começam a ser respondidas a partir do momento em que nós esclarecemos o que entendemos por “vegetarianismo”.

O sentido político e estratégico do vegetarianismo

Daí, então, chegamos à questão central por trás do debate sobre a definição do vegetarianismo: o sentido político e estratégico do resgate do conceito original.

Esse debate tem um efeito direto sobre o movimento pelos direitos animais. Pois aquelas pessoas que hoje conhecem o vegetarianismo como uma dieta frequentemente desvinculada de qualquer ideologia e, quando vinculada, uma ideologia reformista e bem-estarista, no futuro conhecerão um vegetarianismo alicerçado sobre o abolicionismo e os direitos animais. Um vegetarianismo que não mais legitima o uso e a exploração de animais para fins de alimentação, que expressa a dimensão dietética de uma visão de mundo mais ampla, o veganismo.

Isso significa que o ponto de partida da difusão do vegetarianismo não terá mais a ambiguidade que hoje carrega.  E, desse modo, o movimento dito de defesa animal terá de enfrentar com mais clareza suas próprias contradições. Perceberá com maior nitidez a distinção entre aqueles que defendem as reformas bem-estaristas e legitimam o uso dos animais, e aqueles que de fato defendem os direitos animais, isto é, o respeito pela vida, liberdade e integridade desses animais, e a rejeição inequívoca de sua exploração para fins humanos.

Não partimos do pressuposto, como tem sido aventado, de que aqueles que nós chamamos de “protovegetarianos”, porque ainda consomem alimentos derivados de animais, irão adaptar sua dieta para continuarem a ser “merecedores” do título de “vegetarianos”. Muitos não o farão.

Nossa proposta não tem esse caráter imediatista. Ela é de médio e longo prazo, de importância vital não para alguns indivíduos, mas para os rumos de todo um movimento. Queremos suscitar o debate, levantar um questionamento amplo, que envolva não apenas os protovegetarianos, mas o movimento de defesa dos animais e do vegetarianismo, e da sociedade como um todo.

Nos protovegetarianos, esperamos provocar a reflexão sobre os limites éticos de sua dieta. No movimento pelos animais e pelo vegetarianismo, esperamos provocar a reflexão sobre quais são, afinal, seus objetivos, e até onde podemos ir na defesa dos animais sem abdicar do falso direito de explorá-los. Da sociedade como um todo, esperamos que ela tenha contato com uma concepção coerente de vegetarianismo, e que essa concepção também a desafie a questionar o especismo e antropocentrismo nela arraigados, a naturalização da exploração animal e o estatuto moral e legal dos animais.

Conclusão

O debate já está em andamento. Isso quer dizer que a proposta está cumprindo seu papel. Esperamos que desse debate saiamos com um movimento fortalecido, de propósitos claros.

Essa mudança conceitual terá um efeito direto e fundamental sobre toda a causa. O movimento em favor dos animais ganhará clareza e coerência. E a partir do momento em que a sociedade em geral entender “vegetarianismo” como dieta estritamente baseada em fontes vegetais, as pessoas que despertarem para o problema irão ver o consumo de ovos e leite como os protovegetarianos de hoje veem o consumo de peixe, isto é, incompatível com o conceito de vegetarianismo e a racionalidade por trás dele. Logo, elas não vão parar na abstenção da carne.

Claro que o vegetarianismo, nos dias atuais, não está sempre vinculado a uma objeção ética quanto à exploração animal, e assim continuará sendo, mesmo que o termo deixe de ser vinculado ao consumo de subprodutos de animais. Entretanto, para que a sua dimensão ética volte ao centro do debate, a separação conceitual entre vegetarianismo e regimes alimentares que perpetuam a exploração animal se torna inevitável.

Questionar ideias consagradas é a base de toda transformação social. O que define o caráter “autoritário” de um movimento são seus métodos e objetivos. Nós, da Sociedade Vegana, defendemos um movimento pelos direitos animais fundado sobre o método da não violência e o objetivo da abolição da exploração animal. Não há nada mais distante do autoritarismo do que esses princípios.

Por fim, em resposta àqueles que nos acusam de desconsiderar a diversidade do movimento, cabe ressaltar que a diversidade não é um fim em si mesmo. Ela deve estar condicionada ao grau de justiça e emancipação que confere à sociedade. Práticas que violam os direitos mais fundamentais dos indivíduos não podem se legitimar sobre um suposto respeito à diversidade de pensamento e costumes. Nesse sentido, um movimento vegetariano que perpetua e é conivente com a exploração animal não é legítimo. Ele o será apenas na medida em que contribua para a emancipação dos animais e sua plena inclusão na comunidade de direitos.

​Read More
Colunistas, Direitos Animais

Veganismo, vegetarianismo e protovegetarianismo: definições e concepções

Introdução

Uma pequena frase chamou a atenção de algumas pessoas no meu último texto. Ela remete, de fato, a um problema prático e conceitual com o qual se defronta qualquer um que deseje refletir sobre a questão animal: a disparidade de pensamento e prática que cerca o movimento dito de “defesa” animal e que, consequentemente, põe em questão a própria definição do que é um defensor dos animais. Dizia ela: “Um ‘defensor’ dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa”.

O debate acerca do vegetarianismo e do veganismo está paralisado por más concepções e más definições. O progresso da causa em defesa dos animais está refém dessas limitações, pois elas colocam em xeque a própria noção da existência de um “movimento” e de quem o integra. A mais grave definição é aquela que classifica como vegetariana a dieta que inclui alimentos derivados de animais. A mais grave concepção é aquela que vê o veganismo como um fim em si mesmo.

Nesse texto pretendo abordar esses dois problemas. Com ele, pretendo defender basicamente duas hipóteses: primeiro, que não há como separar o vegetarianismo da objeção moral que o motiva, sendo a limitação do vegetarianismo a uma corrente dietética uma invenção contemporânea; segundo, que essa mesma objeção moral é limitada e foi, no presente, escondida por aqueles mesmos que se propunham a difundir o vegetarianismo. A partir dela, chego a duas conclusões: primeiro, que tanto do ponto de vista ético quanto dos pontos de vista lógico e etimológico, portanto, o vegetarianismo não pode ser entendido senão como uma dieta que exclui totalmente os “alimentos” de origem animal; segundo, assim sendo, a dieta vegetariana assim definida não é simplesmente uma “meta”, mas a dimensão dietética do veganismo, que é o único caminho coerente com a objeção moral que dá origem ao vegetarianismo e o ponto de partida para qualquer defensor dos animais.

A dieta e seu fundamento ético

A noção de que a dieta vegetariana é aquela que exclui somente restos de animais mortos é enganosa e incoerente. Segundo o discurso hegemônico, “vegetariano” deriva da raiz em latim “vegetus”, que significa “forte”, “vigoroso”. Assim, o fato de o “vegetariano” ter uma dieta à base de alimentos de origem vegetal seria apenas uma feliz coincidência. Na verdade, “vegetus” também é a raiz etimológica de “vegetal”, não havendo, portanto, como separar uma dieta “vegetariana” da sua base a partir de fontes vegetais.

A extensão do conceito de “vegetariano” às dietas que incluem alimentos que, embora de origem animal, não derivam diretamente da morte de um animal, só pode ter alguma justificativa na tradição histórica. Historicamente, tanto no Oriente como no Ocidente, os adeptos da dieta “vegetariana” abstinham-se apenas dos restos de animais mortos, mas admitiam o consumo do leite e, mais restritamente, dos ovos. Na tradição hindu, por exemplo, o ovo é equivalente à carne, na medida em que representa o embrião de um ser vivo. O leite, contudo, não só não implica a morte, como é símbolo de vida e comunhão – a mãe dá o leite ao seu filho, permitindo que este sobreviva e se desenvolva. Desse modo, na mitologia hindu, a vaca assume a força de uma divindade-mãe, que renova constantemente esse ciclo de vida e comunhão do ser humano.

Assim, chegamos ao primeiro ponto que pretendo salientar: ao analisarmos a existência de uma tradição vegetariana na história da humanidade, partindo das religiões orientais baseadas no princípio da não violência (ahimsa), até a difusão do vegetarianismo no Ocidente a partir do século XIX, não há como escapar da constatação de que todas elas se fundam a partir de uma convicção moral acerca da relação entre seres humanos e animais. Esse próprio substrato moral serviu como justificativa para admitir a inclusão de leite e, em alguns casos, ovos, na dieta (da mesma forma que admite cogumelos, por exemplo, que não são vegetais, mas fungos). E é justamente essa “emenda” no conceito que denuncia a limitação do seu fundamento ético original, como veremos mais adiante.

É fantasioso alegar que é possível separar a dieta vegetariana de um fundamento ético. Mesmo que de forma limitada e antropocêntrica, a objeção ética ao abate de animais esteve sempre na raiz da adoção do vegetarianismo, incluindo aqui as suas motivações espirituais. Apenas em tempos muito recentes, com o avanço dos conhecimentos sobre a nutrição, surgiu essa curiosa figura híbrida e amorfa do “vegetariano pela saúde”.

Essa figura não é apenas recente mas, eu diria, intencionalmente inventada. Na Europa do século XIX o limitado conhecimento sobre nutrição humana requeria, de fato, a preocupação de comprovar a viabilidade de uma dieta vegetariana para a saúde humana. O que é, de fato, totalmente diverso – na verdade, diametralmente oposto – à ideia de que o vegetarianismo é acima de tudo uma corrente dietética. Como pode o vegetarianismo ser antes uma razão de saúde, se até há poucas décadas ainda se levantavam fortes questionamentos sobre sua viabilidade e adequação à saúde humana?

A figura do “vegetariano pela saúde”, portanto, foi criada e instrumentalizada pelos grupos vegetarianos organizados – e aqui me refiro ao papel histórico das Sociedades Vegetarianas ocidentais, desde a primeira delas, fundada na Inglaterra em 1847 – tentando escamotear a motivação que inspira a maioria dos que aderem ao vegetarianismo, e nele persistem. Fantasiando o vegetarianismo de corrente dietética, tentavam assim diminuir a resistência ao debate e conquistar maior legitimidade perante o todo das sociedades.

Os limites da ética vegetariana tradicional

Afirmar a existência de uma tradição ética do vegetarianismo, é bom que se diga, não implica justificá-la. Nenhuma prática valida-se simplesmente pela tradição. Se uma tradição demonstra-se equivocada e limitada, ela deve ser abandonada ou transcendida. E é isso o que, de fato, está em debate: transcender a nossa visão tradicional da relação ser humano/animal não humano, inclusive a tradição do vegetarianismo. A ética vegetariana tradicional permanece refém do antropocentrismo e oferece uma falsa resposta aos dilemas morais da relação entre humanos e animais não humanos. Ela somente sobrevive pelo velamento do próprio dano que ela afirma combater: o abate.

É impossível domesticar e criar animais sem reduzi-los à condição de propriedade, de objeto. E é justamente isso que torna o animal vulnerável a todo tipo de violação dos seus interesses fundamentais, inclusive o interesse à vida. Portanto, qualquer uso de um animal é uma violação de todos os seus interesses fundamentais. O abate é apenas consequência de todo o processo anterior de objetificação. Ao consumir o leite e o ovo, estamos também consumindo a dor, o sangue e a morte dos animais de quem extraímos esses produtos, e das crias que deveriam ser beneficiárias deles. Tomar leite significa uma apropriar-se de uma vaca, forçá-la a procriar artificialmente, separá-la de sua cria, matar a cria e matar a própria vaca, assim como comer ovo significa reproduzir esse mesmo processo com a galinha e o pinto. Esse processo não é uma invenção moderna, embora a sociedade industrial tenha tornado a sua brutalidade intrínseca mais evidente, pois eliminou qualquer mediação mágica e mitológica na relação de exploração ser humano/animal, preservando apenas o seu interesse bruto, potencializando ao extremo toda a violência nele contida. A violência, contudo, está inserida na própria lógica da exploração animal e é inseparável desta.

O discurso pró-vegetarianismo tradicional, não obstante, crê que o único mal está na fase final do processo de exploração, o abate o que, naturalmente, é um absurdo tanto ético quanto lógico. Se os vegetarianos do século XIX estavam limitados pelo contexto histórico a um conhecimento rudimentar da nutrição humana e da ética, os avanços das duas matérias a partir do século XX não mais justificam a preservação dessa concepção retrógrada do vegetarianismo. Assim, ao definir e promover o vegetarianismo como uma dieta que exclui apenas os produtos da morte de um animal, os “vegetarianos” e organizações de promoção do “vegetarianismo” assim definidos estão legitimando diretamente a exploração e também o abate de animais ao qual nominalmente se opõem. São falsos defensores dos animais, falsos profetas. Nos dias de hoje, um indivíduo que assim procede não está sendo apenas incoerente, mas igualmente hipócrita. Não é mais possível, no mundo contemporâneo, ignorar, mascarar ou mitificar o dano que causamos aos animais quando os criamos, mesmo que não para consumi-los diretamente, mas para consumir seus subprodutos.

Vegetarianismo e protovegetarianismo

É pensando nisso que nós, da Sociedade Vegana, aqui no Brasil, pretendemos resgatar o sentido do “vegetarianismo” com o rigor tanto ético quanto etimológico que o conceito requer. O vegetarianismo é uma dieta que exclui todo e qualquer alimento de origem animal, não apenas aquele que derive da morte direta, mas também os demais, que derivam da exploração direta que inevitavelmente também os levará à morte.

Os vegetarianos das épocas anteriores, mesmo que bem intencionados, foram contidos pelas limitações históricas de suas épocas, a limitação de suas concepções éticas, e a limitação de seu conhecimento prático, que hoje está disponível. Por isso, defendemos que eles são “protovegetarianos”, isto é, indivíduos que, inspirados por uma objeção moral ao abate de animais, defenderam a adoção de uma dieta que excluísse apenas os frutos diretos desse abate, sem questionar a instituição da exploração animal e assim, contraditoriamente, legitimando não apenas a exploração, mas também o próprio abate. Eles foram pioneiros, abriram o debate, apontaram caminhos, mas não conseguiram, pelas limitações de seu tempo, oferecer uma solução coerente ao dilema ético que nos apresentaram.

Hoje, os “protovegetarianos”, contudo, são aqueles que ou permanecem na ignorância, ou recusam-se a dar o inevitável passo adiante, se queremos levar a sério o dilema ético que nos impõe a exploração animal. E, nesse processo, contam com a cumplicidade ativa das organizações de suposta promoção do vegetarianismo e bem-estar animal. Ao promover dietas que legitimam o uso de animais, como o “ovolactovegetarianismo” e normas de bem-estar para o uso de animais, essas organizações apenas perpetuam a violência que os seres humanos impõem aos animais não humanos. Nesse contexto, o protovegetarianismo e o bem-estarismo precisam ser enfrentados diretamente como uma falsa solução para o dilema ético da exploração animal.

E, embora do ponto de vista individual, a persistência do protovegetarianismo – uma dieta que ainda admite determinados alimentos de origem animal – possa ser vista como uma fase embrionária e transitória em direção ao vegetarianismo de fato – uma transição que muitos indivíduos jamais irão concluir –, do ponto de vista de um movimento de defesa dos animais, o protovegetarianismo não pode mais ser entendido nem mesmo como um meio para o qual o vegetarianismo é um fim.

Veganismo como meio

O próprio vegetarianismo, redefinido como uma dieta que exclui completamente alimentos de origem animal, baseado quase inteiramente em fontes vegetais, não é uma resposta suficiente para o dilema ético que o motiva. Foi a partir dessa constatação que Donald e Dorothy Watson, ativistas britânicos do século XX, conceberam, em 1944, o conceito de “veganismo”, e fundaram a primeira Sociedade Vegana. Por “veganismo”, eles definiram a prática de abster-se da contribuição direta e voluntária de todas as formas de exploração animal – não só a criação de animais para a produção de alimentos, mas também todas as outras formas de objetificação dos animais, incluindo os outros fins pelos quais animais são criados e reproduzidos, como a experimentação científica, e também a pesca e a caça.

Foi isso que eu quis dizer quando afirmei que “Um ‘defensor’ dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa”. Pois não se pode, honestamente, ser um defensor da causa animal e contribuir conscientemente para a exploração e objetificação dos animais não humanos.

 Embora nos dias de hoje ser totalmente vegano seja virtualmente impossível, pois todos contribuímos de algum modo para a exploração animal, aqueles que acreditam no dever de respeitar os animais têm o dever de abdicar de toda forma consciente de exploração animal que estiver ao seu alcance. E o vegetarianismo, que é a dimensão dietética do veganismo, é também justamente aquela sobre a qual temos o maior controle no nosso cotidiano e, portanto, o ponto de partida para a construção individual do veganismo.

O próprio veganismo, por sua vez, embora seja uma construção cotidiana, é uma construção que não pode ser adiada e cujo aperfeiçoamento deve ser sempre buscado. Não pode mais ser visto como resultado da abnegação ou “estado da arte” da evolução ética pessoal. Vegetarianismo e veganismo são, ambos, não fins em si mesmos, e portanto “metas” a serem perseguidas ad eternum e pontos de chegada. São, isso sim, pontos de partida, a primeira meta daqueles que se pretendem defensores dos animais – muito mais importante do que participar de manifestações de rua, fazer panfletagens, assinar petições. Mais importantes do que promover debates, pois como é possível debater e argumentar com credibilidade e coerência em favor dos animais, se não praticamos em nós mesmos aquilo que defendemos no plano das ideias?

Conclusões

Historicamente, não há como separar o vegetarianismo do fundamento ético que o motiva. Também historicamente, esse fundamento mostrou-se limitado ao enfatizar apenas o sofrimento e o abate, sem considerar o uso, ou seja, a objetificação do animal. No mundo de hoje, porém, os avanços do conhecimento científico, bem como a evolução da filosofia da ética, tornam inevitáveis e inescapáveis a revisão e evolução tanto do conceito de vegetarianismo quanto de seu fundamento ético.

Essa fundamentação ética implica o reconhecimento de que os animais não humanos têm interesses fundamentais – a vida, a liberdade e a integridade – que são violados quando os usamos como objetos para fins humanos, interesses que devem ser respeitados. Tal reconhecimento, por sua vez, implica definir tais interesses como direitos que os animais possuem, por isso chamados de direitos animais. Não apenas o abate, mas toda forma de exploração animal, da qual o abate é uma mera extensão, representam violações desses direitos. Sendo assim, a abolição da exploração animal o único meio de realizar plenamente os direitos animais.

A partir desse aprofundamento da discussão ética e filosófica da questão animal, a coerência impõe não apenas a adoção de um conceito mais rigoroso – e etimologicamente mais preciso – de vegetarianismo, mas sua inserção no conceito mais amplo de veganismo, a partir do reconhecimento de que o vegetarianismo é, ele mesmo, uma resposta insuficiente para o dilema da exploração animal, que não existe nem é perpetuada apenas para os fins da alimentação humana.

Sendo assim, um movimento de defesa dos animais que mereça este nome deve abandonar definitivamente as falsas soluções que não confrontam diretamente o problema da exploração animal, ou seja: todas as dietas não vegetarianas, incluindo as protovegetarianas, e as políticas bem-estaristas de regulamentação que legitimam e perpetuam a exploração animal. Nosso papel, como defensores dos animais, é promover os direitos animais e o veganismo, do qual o vegetarianismo é a dimensão dietética.

Assim, os direitos animais devem ser definitivamente adotados como a base ética e filosófica do movimento em defesa dos animais, tendo a abolição como meta e o veganismo como sua dimensão prática. Desse modo, o veganismo não é um caminho incerto, ao qual nem todo defensor dos animais está vinculado. Tampouco é o ponto de chegada de uma trajetória de vida de busca do respeito pelos animais. Ele é o ponto de partida. Não é um fim em si mesmo, mas um meio para os fins da abolição e dos direitos animais.

​Read More
Notícias

Manifesto marca lançamento da Sociedade Vegana

Com palestra da filósofa e ativista Sônia T. Felipe, “Filosofia dos direitos animais: a ética vegana e suas implicações”, será oficialmente lançada hoje, às 16h45, no restaurante Vegethus Consolação, em São Paulo,  a Sociedade Vegana.

Os membros fundadores divulgaram hoje o Manifesto que já está disponível no site da Sociedade Vegana.

Leia na íntegra abaixo:

Manifesto  
No mundo de hoje, mais que em qualquer época anterior, os valores da paz, da não-violência, da justiça e da igualdade de direitos inspiram grande parte dos seres humanos. Ainda que a violência, a guerra, a injustiça e a desigualdade persistam, elas são cada vez menos vistas como a ordem natural das coisas, e cada vez mais denunciadas como violações de diretos fundamentais dos indivíduos. Entretanto, os seres humanos clamam pela não-violência, pela paz, solidariedade e direitos dos menos favorecidos, sem se darem conta de sua contribuição para a persistência desses males.

Gandhi ensinou que “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Não se pode pedir por não-violência, paz e justiça, e, ao mesmo tempo, promover a violência e a injustiça. Uma das formas mais graves e generalizadas de violência e injustiça é aquela à qual submetemos os animais não-humanos. Nesse sentido, não se pode falar em transformações positivas reais sem falar em veganismo.

O veganismo é uma filosofia, uma concepção ética e um modo de vida, pautados sobre o fundamento dos direitos animais, ou seja, o reconhecimento de que os animais, sendo seres sencientes, devem ser incluídos em nossa comunidade moral e ter seus interesses respeitados.

São interesses dos animais:

•a continuidade de sua própria vida;
•a liberdade e autonomia para buscar os meios para sua sobrevivência e seu bem-estar; e,
•não serem utilizados como recursos ou meios para fins humanos, tendo sua existência propósito em si mesma.
A todos esses interesses correspondem direitos, os quais são violados quando animais são submetidos à exploração e à condição de propriedade. O respeito aos direitos animais somente ocorrerá com o fim de sua apropriação e exploração. Por isso, o veganismo propõe a abolição do consumo de todos os produtos e atividades que implicam exploração animal:

•alimentação: consumo de carne de quaisquer animais, vertebrados ou invertebrados, ovos, leite, gelatina, mel, cochonilha, etc.;
•vestuário: uso de couro e outras peles, lã, penas, plumas, seda, etc.;
•entretenimento: zoológicos e aquários, circos com animais, rodeios, touradas, corridas de animais, feiras e exposições de animais, rinhas, vaquejadas, farras-do-boi, cavalgadas, esportes que utilizam animais, etc.;
•trabalho animal: tração e transporte, cão-guia, cão farejador, cão policial, cão segurança, etc.;
•experimentação animal: procedimentos científicos ou didáticos, testes de segurança ou de qualidade de produtos diversos;
•caça e pesca;
•comércio de animais domésticos, exóticos ou silvestres;
•utilização de animais em rituais religiosos;
•outras formas de exploração animal.
Nos sistemas e estilos de vida hoje predominantes ocorre um favorecimento das espécies animais com as quais as pessoas se identificam, havendo rejeição, indiferença ou desprezo pelas espécies com as quais não ocorre essa identificação. Dessa forma, atribui-se valor à vida animal de acordo com preferências pessoais. Se se gosta de cães, chimpanzés e mamíferos marinhos, então suas vidas têm algum reconhecimento; se, vacas, galinhas e porcos são animais que não geram empatia, sua submissão ao jugo humano é tida como legítima, assim como os benefícios advindos de sua exploração.

Chamamos especismo a discriminação contra espécie, tão arbitrária e irracional quanto o racismo e o sexismo, entre outras. O veganismo é a única forma coerente de combate ao especismo.

Assim como a sociedade não tolera o racismo e o sexismo, nossa luta é para que ela também não tolere o especismo. O veganismo, ao tratar do respeito aos direitos de seres sensíveis e conscientes, afirma que sua adoção não deve ser vista como questão de opção pessoal, mas de obrigação moral.

Cada organismo animal é um indivíduo, e como indivíduo tem seus direitos. Seu valor independe da espécie à qual ele pertence, se rara ou abundante, útil para algum propósito humano, ou não. Sua existência possui valor em igual medida e se justifica por si mesma.

O veganismo deve ser amplamente praticado e jamais vinculado a outras filosofias, ideias e crenças que não sejam a dos direitos animais. Ele não deve ser um modo de vida restrito a uma pequena parcela da população ou identificada com uma certa “tribo”. Manter o veganismo atrelado a outras práticas e ideias é condená-lo a permanecer em um círculo restrito de pessoas.

Ainda que o veganismo dependa da iniciativa de cada indivíduo, apenas a sua prática por toda a humanidade irá assegurar que os animais tenham seus direitos respeitados. Ademais, como em toda grande mudança, a transição para esse modo de vida não é algo que se faça sozinho. O indivíduo que realiza essa escolha, em geral busca o auxílio de outras pessoas ou informações que já estejam disponíveis. Nesse sentido, se pode entender a necessidade da existência de pessoas que estejam dispostas a compartilhar suas experiências, divulgar o veganismo e disponibilizar informações que sejam confiáveis.

O trabalho de divulgação do veganismo, do vegetarianismo e dos direitos animais consiste em esclarecer sobre esse princípio e modo de vida, notadamente o que se refere à nutrição, à dieta vegetariana e à abolição da exploração animal. A Sociedade Vegana promoverá o veganismo com base em informações confiáveis e bem fundamentadas, de modo a desfazer mitos, informações pseudocientíficas e falsificações históricas.

Os direitos animais são a base do veganismo. Não é possível falar em um, sem citar o outro. Os demais tópicos, como nutrição, benefícios à saúde e questões sócio-ambientais, são assuntos subsidiários que contribuem para sustentar e argumentar em favor do veganismo.

Qualquer indivíduo ou organização que se proponha a falar em direitos animais deve fazê-lo tomando como base apenas os interesses fundamentais desses animais. Não é aceitável que se busque simplesmente regulamentar, disciplinar ou justificar a exploração animal. Isso não atende aos interesses dos animais e certamente não pode ser sustentado por uma pessoa que adote o veganismo.

Da mesma forma, é importante que esclarecimentos sejam feitos com relação ao vegetarianismo: não é uma filosofia, nem um modo de vida. O vegetarianismo é exclusivamente uma corrente dietética que exclui da alimentação os ingredientes de origem animal, mesmo que sejam subprodutos e derivados que não resultaram diretamente na morte imediata do animal. Pessoas que consomem peixes, ovos, leite, mel ou outros produtos de origem animal não são genuinamente vegetarianas.

Entende-se que o abandono repentino de todos os produtos de origem animal da dieta não seja uma prática comum e que a maior parte dos vegetarianos atravesse um período de transição, no qual alguns itens são abandonados, enquanto outros permanecem. No entanto, sabe-se que nem todos os que abandonam alguns ingredientes de origem animal se tornarão vegetarianos, podendo mesmo aumentar o consumo dos produtos de origem animal que permaneceram na dieta. Dessa forma, esses hábitos alimentares híbridos podem representar até mesmo um incremento na exploração animal.

Do mesmo modo, pode-se enganar a si mesmo crendo que o consumo de produtos de origem animal obtidos de forma considerada mais aceitável, “ética” ou “humanitária” não apresenta problemas; pode-se querer defender que assim está-se levando uma vida compatível com o  bem-estar desses animais. Procedendo dessa maneira, não se contribui para o bem-estar animal, apenas se promove sua exploração, tornando-a mais aceitável aos olhos do grande público. A única forma de consumo verdadeiramente consciente e ético é a que não inclui produtos de origem animal.

O veganismo e os direitos animais podem ser consistentemente defendidos tendo como base a ética, a razão pura e argumentos cientificamente fundamentados. Sua difusão deve ser feita através de uma educação capaz de estimular o rompimento de paradigmas, com mensagens claras e objetivas. Eis o principal propósito da Sociedade Vegana.

14 de março de 2010, data de fundação da Sociedade Vegana, uma sociedade de caráter pacifista e não-violento, criada fundamentalmente para divulgação dos direitos animais e do modo de vida vegano.

Sociedade Vegana





​Read More
Você é o Repórter

Sociedade Vegana será lançada neste domingo, em São Paulo

Bruno Müller

bvegmuller@gmail.com

Confirmando o lançamento da Sociedade Vegana neste domingo, 16h45, no restaurante Vegethus Consolação, em São Paulo, com palestra da filósofa Sônia T. Felipe intitulada “Filosofia dos direitos animais: a ética vegana e suas implicações”.

Nesse dia será também divulgado o Manifesto de fundação da Sociedade Vegana.

Após a apresentação, seguirá uma confraternizaçã o entre os presentes. A entrada é franca.

O endereço:

Vegethus Consolação
Rua Haddock Lobo, 187
200 metros do Metrô Consolação
Cerqueira César – São Paulo – SP

Telefone para contato: (11) 2306.2116

Abs,

Bruno

​Read More
Notícias

Lançamento oficial da Sociedade Vegana será realizado no dia 14 de março, em SP

(da Redação)

A filosofia dos Direitos Animais e o modo de vida vegano vêm se tornando cada vez mais conhecidos, e sendo cada vez mais debatidos, em nossa sociedade. Desse modo, há uma constante necessidade de que a divulgação dessas ideias seja realizada tomando como base a ética e o conhecimento científico, sem as influências de correntes de pensamento e práticas que não promovem o verdadeiro respeito pelos animais.

É nesse contexto que surge a Sociedade Vegana, comprometida com a promoção dos Direitos Animais e do veganismo, e a abolição de todas as formas de exploração animal, por meio da educação e do conhecimento, a partir dos princípios da ética, paz e não violência.

No dia 14 de março de 2010, a partir das 16h45, no restaurante Vegethus Consolação, na cidade de São Paulo, será lançada oficialmente a Sociedade Vegana, com a palestra da filósofa e ativista Sônia T. Felipe, “Filosofia dos direitos animais: a ética vegana e suas implicações”, seguida de confraternização.

Lançamento oficial da Sociedade Vegana:

Data: 14 de março de 2010

Local: Vegethus Consolação, Rua Haddock Lobo, 187, Cerqueira César – São Paulo – SP

Hora: 16h45

Palestra seguida de confraternização: “Filosofia dos direitos animais: a ética vegana e suas implicações”, com Sônia T. Felipe.

​Read More