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Assassinatos de animais e seus aspectos psicológicos

Não passa uma semana sem que eu seja tomada pela indignação e tristeza de me saber humana. Não, não estou falando de mais um escândalo político. Infelizmente eles não me surpreendem mais. Refiro-me aqui a matança de animais, especificamente cães e gatos na cidade de Caxias do Sul (como em centenas de outras). É impressionante, mas o homem consegue superar-se todos os dias na covardia, vileza e mesquinhez, aliás, sentimentos próprios da sua espécie. Sabe-se que a relação do homem com o animal e a natureza na civilização ocidental (e hoje cada vez mais em todas as outras civilizações) tem sido regida pelo domínio daquele sobre tudo com que se depara e quase sempre da forma mais torpe e desprezível. Os maus tratos aos animais nasceram sobretudo na crença bíblica de que Deus outorgou ao homem poder sobre todas as criaturas e do pensamento filosófico que se desenvolveu, assentado numa dualidade ontológica, o qual vem legitimando toda sorte de exploração da natureza e dos animais.
 
Ao fazer uma análise psicológica sobre o assunto, pode-se afirmar que crianças que torturaram ou mataram animais tem grande chances de tornarem-se adultos cruéis, frios, vingativos e sem sentimento de compaixão para com seus semelhantes. A barbárie contra animais é hoje considerada como um sinal de distúrbios psiquiátricos. Um estudo do perfil de criminosos feito pelo FBI – a polícia norte-americana -, em meados do ano 2000, demonstrou que a maioria (94%) da crueldade intencional foi cometida por homens (dados do PEA). O fator predominante, “a prova da masculinidade” é a maior causa. O jogo da dominação é importante na caça e especialmente em rodeios, onde se arremessa animais ao chão amarrando-os e imobilizando-os por meio da dor. Essas exibições são intencionais, talvez inconscientemente, para impressionarem as fêmeas e competir com outros machos, num claro sentimento de impotência e inferioridade, ou talvez porque se achem superiores e necessitem se auto-afirmarem, ou porque projetem seus impulsos agressivos sobre os indefesos animais demonstrando assim sua covardia reprimida. De qualquer forma, tanto os participantes de rodeios e rinhas de galo, quanto os envenenadores e espancadores de cães e gatos, passando pelos pesquisadores que utilizam animais vivos como cobaias em seus experimentos, adquiriram valores que foram desenvolvidos em uma cultura cuja ciência não reconhece o sofrimento e nutrem defesas contra o reconhecimento do sofrimento de seres sencientes não-humanos.
 
Os homens renunciaram ao canibalismo, negros foram libertos da escravidão e hoje as mulheres têm direito ao voto. Está mais do que na hora de acabar com as práticas que submetem os animais à crueldade, sejam para que o homem se divirta ou se alimente. A humanidade, como animais, está apenas emergindo da fase de balbuciar e destruir, e um dia olhará para trás com embaraço e vergonha do sofrimento que causou por tão longo tempo a estes seres que sofrem, que sentem fome, frio, amor e dor. Uma dor que o ser humano não tem o direito de lhes infligir.
 
 
 
Texto publicado nos jornais A Gazeta e o Tempo Todo de Caxias do Sul, no ano de 2007, e foi entregue em mãos à Anda, pela própria autora.
 

Cleila Maria Fochesato Sartor ,Psicóloga, bacharel em Direito e em Serviço Social e pós-graduada em Ética e Filosofia Política

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