Jornalismo cultural, Notícias

Descartando Descartes

A frase do filósofo francês René Descartes, “Cogito, ergo sum” que ficou mundialmente famosa como “Penso, logo existo”, foi criada para dizer que apenas os humanos são capazes de pensar. Mas ele estava enganado.

Animal “sente”. Mas da onde brotam os sentimentos? Se é do pensamento, eles também pensam. Foto Gerhard Gellinger/Pixabay

A maior parte das pessoas cresceu ouvindo (e acreditando) que “animal não pensa”. No entanto, hoje a própria ciência admite que os animais sentem dor física e psicológica, que ficam alegres, tristes, com raiva, medo e que expressam inúmeros sentimentos e emoções.

Mas onde nasce o sentimento? Da onde brotam as emoções?

É no pensamento. É impossível desconectar sentimento de pensamento, pois, sentimento é o resultado de um pensamento que formulamos em torno de situações e experiências que assistimos ou que vivemos.

Descartes (1596 a 1650) argumentou que tinha dúvidas e que as dúvidas eram a maior prova da existência do pensamento. Logo, se os seres humanos podiam pensar é porque existiam. Na visão dele os animais não tinham alma, não podiam pensar nem sentir dor e, portanto, não era errado usá-los como cobaias. Infelizmente esse argumento sustenta até hoje milhares de experimentos dolorosos com animais.

“Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento” – Voltaire. Foto Christine Sponchia/Pixabay

Mais de 100 anos depois, outro filósofo francês, François Marie Arouet, conhecido como Voltaire, dedicou uma parte de seu “Dicionário Filosófico” (1764) para rebater os argumentos de Descartes:

“Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam! Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, ideias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembro tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento…

Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias. Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrarem-te suas veias mesentéricas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à natureza tão impertinente contradição.”

“Os animais têm sentidos, sensações, ideias e memórias” – Voltaire. Foto Marc Rascual/Pixabay

Foi de fato um discurso muito convincente e comprovável. Teve lá seus adeptos naquela época e tem até hoje, mas já era tarde. A sociedade científica já tinha se dado o direito de “fazer sofrer”. Paralelo a isso, a sociedade em geral também já tinha assimilado a ideia de que só o ser humano é capaz de pensar e isso perpetuou a escravidão e a tortura de qualquer outra criatura viva.

Já era tarde para descartar os argumentos de Descartes.

Voltaire ainda escreveu:

“Animais têm suas faculdades organizadas como nós, recebem a vida como nós e a geram da mesma maneira. Eles iniciam o movimento da mesma forma e comunicam-no. Eles têm sentidos, sensações, ideias e memórias. Animais não são totalmente sem razão. Eles possuem uma proporcional acuidade de sentidos” – Lettres de Memmius à Cicéron  (Cartas de Gaius Memmius a Cícero) em 1772.

Já ficou provado que os animais são seres sencientes. Ninguém mais duvida que eles sentem. Mas ainda há grande resistência, até mesmo de quem ama os animais, em admitir que eles pensam, ainda que numa escala diferente da nossa, mas de acordo com suas necessidades e o ambiente em que vivem e, além disso, estão em plena evolução.

*Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

 

 

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Destaques

Vaca que caiu do caminhão de matadouro e fugiu por três horas, ganha o direito à liberdade

Foto: Warriors4life/Instagram
Foto: Warriors4life/Instagram

Uma vaca em uma fuga desesperada pela vida causou caos em uma rodovia depois de cair da traseira de um caminhão que estava a caminho de um matadouro que passava por uma estrada movimentada.

Os carros que trafegavam rumo à cidade foram interrompidos durante o pico da manhã de sexta-feira na Rodovia Monash, no sudoeste de Melbourne, Austrália, quando a pista da direita foi fechada e o limite de velocidade caiu para 40 km/h.

A polícia foi chamada para gerenciar o tráfego por volta das 6h30 e prendeu a vaca a uma cerca no meio da estrada, enquanto esperavam os resgatadores de animais Warriors 4 Wildlife chegarem com um transporte especializado.

Após encurralado o animal ficou pastando pacificamente na faixa mediana, perto da Clyde Road, mas desconfiado, ficou resistente quando os socorristas tentaram convencê-lo a entrar no veículo, causando um impasse de três horas.

Após resgatada a vaca foi levada a um veterinário para um exame completo de saúde.

A ONG que atua em defesa dos animais, o nomeou de Clyde em homenagem à via nas proximidades em que o bezerro foi encontrado, acreditasse que o animal caiu de um caminhão que seguia rumo ao matadouro, segundo o 10 Daily.

As equipes de resgate disseram que ele se tornará parte da família, juntando-se a outras vacas e a uma série de outros animais que vivem no abrigo.

Seres sencientes

A fuga desesperada desse animal, que provavelmente experimentou todos os horrores de uma vida em confinamento, servindo apenas aos propósitos de lucro dos seres humanos, deixa evidente o quanto esses seres são capazes de sentir, sofrer, e compreender o que se passa com eles.

Exploradas durante toda a sua vida para produção de leite, vivendo grávida e submetidas a inseminações subsequentes, sem poder ver seus filhos ou mesmo desfrutar do sol e da liberdade, essas vacas vivem existências miseráveis.

Foto: Farm Sanctuary/Twitter
Foto: Farm Sanctuary/Twitter

Quando os filhotes são do sexo feminino, o que representa lucro, elas terão o mesmo destino de suas mães, ou seja, passarão a vida toda presas, servindo aos propósitos comerciais humanos. Quando bezerros são destinados à morte imediata ou vendidos à industria de carne.

Compreendendo a realidade de suas existências há diversos registros de vacas que choram ao seguir para o matadouro e outras que se jogam de caminhões em alta velocidade quando têm a oportunidade de escapar. Elas arriscam suas vidas para poder escapar ao seu destino.

Vacas são seres sencientes, elas sentem, amam, sofrem, tem capacidade de criar vínculos duradouros e compreender o mundo ao seu redor.

A melhor maneira de não contribuir com o sofrimento desses animais é adotar uma alimentação vegana. Estes seres não são comida para servirem de alimento ou produtos para serem vendidos. São companheiros de planeta, com o mesmo direito à vida a que temos nós, seres humanos.

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Notícias

Filhote de elefante brinca com bola improvisada em reserva africana

Foto: Kruger Sightings
Foto: Kruger Sightings

As imagens flagram o momento adorável em que um bebê elefante pratica suas habilidades no futebol usando um pedaço de esterco em forma de bola.

O filhote gira e chuta a bola improvisada com os pés enquanto se diverte na Reserva de Sabi Sand, na África do Sul.

Ele até domina a bola perfeitamente antes de virar bruscamente e chutar o brinquedo fazendo um “drible”.

Dando uma longa corrida, o bebê corre em direção a bola e a chuta com a perna da frente – mandando-a para longe, uma distância em torno de um metro.

Isso parece incomodá-lo, enquanto ele vira a tromba e lança a perna direita da frente na direção da bola.

O jovem paquiderme foi avistado por Dylan Royal, um guia do Kamp de Beyond Kirman, enquanto ele dirigia seu jipe em 30 de setembro.

Ele disse que havia deixado o acampamento de manhã cedo para procurar um leopardo perdido, mas, em vez disso, deu de cara com o pequeno rebanho de elefantes.

Royal disse: “Paramos para observá-los por um tempo e não demorou muito para que o menor deles saísse do mato, entrando na estrada após sua bola de futebol feita de esterco de elefante ter rolado por ali.

Foto: Kruger Sightings
Foto: Kruger Sightings

“Parecia que ele estava nisso desde antes de chegarmos lá, porque estava tão concentrado em sua bola de estrume que nem percebeu que tinha companhia”.

“Ele parecia tão impressionado com suas próprias habilidades que até chutou e rolou a bola usando estratégias diferentes e as quatro pernas na brincadeira”.

Royal disse que os elefantes jovens costumam ser divertidos de se observar porque se envolvem em todo tipo de coisas interessantes.

Mas ele confessou também que o bebê elefante era “certamente uma das coisas mais fofas e engraçadas que já tinha visto ou ouvido falar”.

Ele continuou: “Assistimos e apreciamos a cena por mais algum tempo e então parei de filmar”.

Foto: Kruger Sightings
Foto: Kruger Sightings

“Foi como se o filhote percebesse que eu não estava mais filmando porque perdeu o interesse na bola de esterco e o rebanho caminhou um pouco mais para dentro do mato”.

Ele acrescentou: “Quando perdemos a visão da maior parte do rebanho, decidimos seguir em frente. Enquanto passávamos pela bola abandonada, o pequenino veio correndo e bramindo em nossa direção, chutando areia e fazendo um pouco de birra, até deixarmos a área e seu brinquedo em paz”.

Elefantes são animais selvagens e não devem ser incomodados, para observá-los sem perturbá-los assista de longe e não interfira com o cotidiano ou a interação entre os animais. Toda forma de vida merece respeito.

Foto: Kruger Sightings
Foto: Kruger Sightings

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Notícias

Estudo aponta que vacas podem ser otimistas ou pessimistas

Uma nova pesquisa relatou que as vacas podem ser otimistas ou pessimistas, e isso contribui para a forma como elas lidam com o estresse inerente à sua vida na fazenda.

A pesquisa foi realizada na Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, e publicada em uma edição recente da revista Scientific Reports.

Ela diz que esses traços de personalidade, semelhantes aos humanos, podem se tornar evidentes desde a tenra idade, variando de animal a animal.

“Em humanos, sabemos que os traços de personalidade podem realmente afetar a forma como as pessoas lidam com o estresse, lidar com desafios ou mesmo afetar suas vidas sociais e assim por diante”.

“Nós realmente nos perguntamos se isso também era aplicável aos animais”, disse Benjamin Lecorps, um estudante de PhD envolvido no estudo, em um comunicado.

O novo estudo mostrou que vacas podem ser otimistas ou pessimistas (Foto: Live Kindly)

Os pesquisadores observaram que as vacas que foram identificadas como pessimistas frequentemente apresentavam sinais elevados de estresse, como maior temperatura ocular e eram mais vocais do que vacas otimistas.

A temperatura dos olhos aumenta quando um animal detecta uma ameaça, desencadeando uma resposta no sistema nervoso simpático que aumenta o fluxo sanguíneo para os olhos.

Os resultados mostram um valor significativo na adoção de legislação que apóia o tratamento de animais humanos.

Estudos como este podem ajudar a melhorar ainda mais os padrões de bem-estar, levando em conta os níveis de estresse dos animais e seus traços únicos de personalidade.

“Se temos animais que são mais vulneráveis ​​ao estresse, é provável que eles estejam mais propensos a adoecer mais tarde ou a não lidar com as situações desafiadoras a que são submetidos na pecuária leiteira de rotina”, disse Lecorps.

A pesquisa espelha as recentes conclusões do Parlamento de Bruxelas, que recentemente concedeu aos animais níveis mais altos de proteção como “seres sencientes”, capazes de emoções e sofrimento.

 

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Vídeo mostra vaca se ajoelhando para olhar nos olhos de criança

(da Redação)

Foto: Facebook/L214 Ethique et Animaux
Foto: Facebook/L214 Ethique et Animaux

Uma jovem vaca e um pequeno garoto compartilharam um movimento profundamente comovente – e isso foi capturado por uma câmera.

Um vídeo que está se tornando viral entre os amantes de animais mostra um bezerro e uma criança permanecendo a centímetros de distância um do outro e parecendo se olhar curiosamente.

Conforme o bezerro se aproxima do garoto, que se abaixa na grama para ter uma visão melhor do animal, algo mágico acontece. A vaca chega mais perto, e se ajoelha para ficar no mesmo nível do menino.

Conforme a filhote olha profundamente nos olhos da criança, o cinegrafista suspira diante da cena, que mostra dois seres de espécies diferentes parecendo reconhecer-se um ao outro.

Foto: Facebook/L214 Ethique et Animaux
Foto: Facebook/L214 Ethique et Animaux

Para as pessoas que sabem o quão complexas e doces as vacas podem ser, esse encontro não surpreende. “Bovinos são seres altamente sociais, que formam fortes laços com as suas famílias e seus rebanhos”, disse Susie Coston, diretora  nacional de abrigos da Farm Sanctuary, ao The Dodo. “Eles também são muito curiosas. Nós vemos bezerros, como esse, que são atraídos para crianças – porque eles sabem que também são crianças. Esta jovem vaca estava se comportando de maneira muito gentil ao se ajoelhar para encontrar o menino”.

Embora a cultura do consumo de carne tente disseminar a ideia de que animais criados pela pecuária não têm a capacidade de ter sentimentos, é consenso entre os que os conhecem minimamente que eles têm emoções como as nossas.

Na sequência, quando o garoto fica de pé, a jovem vaca se assusta e corre de maneira alegre. Apesar de seu tamanho, as vacas “podem ser extremamente tímidas quando não estão em seus rebanhos”, explica Coston.

Un veau curieux rencontre un petit garçon. L’attitude du veau est très touchante.Si on regardait les animaux avec nos yeux d’enfant, nous nous rappelerions les êtres sensibles et uniques qu’ils sont.

Posted by L214 Ethique et Animaux on Terça, 7 de julho de 2015

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A senciência e a defesa dos animais

A senciência dos animais é fato comprovado cientificamente desde dezembro de 2012.

Um grupo de neurocientistas canadenses, chefiados pelo doutor Philip Low, ao fazer estudos comparados, cotejando o cérebro humano ao de um animal, concluiu e subscreveu um manifesto ao mundo científico que os animais possuem consciência como todos nós. Inclusive emoções, sentimentos, o que, na verdade, já se sabia empiricamente. Agora, há respaldo científco, e Low citou também algo marcante — agora, não poderemos mais dizer que não sabíamos.

Entendia-se, primeiramente, que o córtex cerebral na espécie humana seria o responsável pela consciência. Mas, depois de reiterados estudos, concluiu-se que as zonas cerebrais responsáveis pela inteligência, memória, bondade são as mesmas entre humanos e animais.

Sabe-se hoje que os animais sentem tristeza, alegria, por outro animal ou ser humano, no caso, seu tutor. O luto animal, por exemplo, pode alterar o comportamento dele, provocando apatia e letargia.

À luz dos fatos e cientes nós destas novidades, haverá imperiosa necessidade de vermos os animais com olhos diferenciados da bondade e do respeito. Infelizmente, durante milênios, os animais foram vistos como seres de quinta categoria, a serviço da Humanidade, através da alimentação e do esforço, sempre em benefício de todos nós.

No século 17, René Descartes, proeminente filósofo que cunhou a emblemática frase Penso, logo existo, trazia consigo uma concepção meramente radical e antropológica, ou seja, que os animais eram seres mecânicos, desprovidos de dor, portanto, amplamente favorável às pesquisas laboratoriais, como a prática da vivissecção.

Na verdade, essa é uma concepção paradoxal, haja vista que um homem inteligentíssimo, responsável pelo pensamento cartesiano, não poderia pensar desta forma tão cruel e imprudente. Mais tarde, ao final do século 19, o fisiologista francês Claude Bernard definiu-se amplamente favorável a esta prática, possuindo no sótão de sua casa um biotério para estes fins, vivisseccionando os animais. Sua esposa e filha, não suportando mais os gritos dos animais, abandonaram-no, mudando-se de residência e criando a primeira instituição francesa na defesa dos animais.

Hoje, finalmente, sabemos que os animais começam a ser vistos com mais respeito, principalmente, por parte de nossa sociedade, e, inclusive, a cada dia que passa, novos adeptos e simpatizantes da causa em sua defesa surgem, aumentando o contingente de pessoas defensoras dos animais. Os governantes, a partir de agora, terão que atender ao clamor popular a favor dos animais, defendendo leis mais rígidas, em substituição à atual, tão incipiente e não punitiva para crimes de maus-tratos.

No momento a lei que ampara e protege os animais, no caso Lei federal 9.605/98, artigo 32, ainda é tímida, superficial, incipiente, não punindo os que mutilam, abandonam, maltratam os mesmos. Todavia, com a reverberação da causa animal no Brasil, comissões na defesa dos animais surgem a todo instante e, aqui no Rio de Janeiro, temos a CPDA/OAB, Comissão de Proteção e Defesa dos Animais da Ordem dos Advogados do Brasil, assim como comissões da Alerj e Câmara Municipal.

No Brasil, são aproximadamente três milhões os animais abandonados. Contudo, estamos nos fortalecendo para debelar o incêndio da omissão na defesa desta causa.

Fonte: Jornal do Brasil

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Estudos demonstram que animais têm consciência e colaboram com luta por direitos

Por Vinicius Siqueira (da Redação)

Foto: Reprodução
Já é fato sabido que macacos de reconhecem em frente ao espelho (Foto: Reprodução)

Atualmente a ciência vem comprovando algo que já está sendo discutido há anos: os animais não humanos também tem consciência de si, do mundo ao redor e também sentem dor. De macacos, golfinho a papagaios, polvos e moscas, todos eles conseguem perceber a si mesmos num ambiente, todos eles sentem medo, felicidade, frustração e tantos outros sentimentos que sempre foram designados como exclusivamente humanos, e sentem dor, segundo as pesquisas de renomados cientistas de Harvard, MIT, Princeton e do Instituto Max Planck. As informações são da Galileu.

As consequências de tal conclusão é um passo enorme para a luta pelos direitos dos animais, já que iguala o status dos animais não humanos com os animais humanos. Não há, então, justificativa plausível para levar dor a qualquer animal ou para desconsiderar seu valor moral intrínseco.

Um dos animais que ajudou a chegar a esta conclusão foi o papagaio Alex.

Alex, que tinha como tutora e neurocientista Irene Peppenberg, foi um grande exemplo por conseguir entender os conceitos de “maior” e “menor”, por decorar mais de 100 palavras e, de maneira surpreendente, por conseguir articular os conceitos e sílabas das palavras para formas novas. O neologismo foi a prova de que Alex possuía uma consciência capaz de resolver problemas lógicos.

Foto: Reprodução/Folha
Foto: Reprodução/Folha

Em sua “experiência” crucial, Irene apresentou a imagem de uma banana e o nome da fruta para o papagaio, que logo o decorou. Em seguida apresentou a imagem de uma cereja e disse-lhe seu nome, da mesma maneira ele prontamente decorou. Foi então que a cientista lhe mostrou a imagem de uma maça e perguntou-lhe o nome da fruta. O papagaio sugeriu “banerry” (uma mistura de Banana + Cherry, cereja em inglês. Algo como “baneja”, se traduzido). Como a maçã é branca por dentro, ele associou com a Banana e, como ela é vermelha por fora, ele associou com a cereja.

Já Bruno van Swinderen demonstrou que a Drosophila melanogaster, a mosca-de-fruta, tem atenção seletiva. Ela prende sua atenção de maneira seletiva, o que requer comportamentos cerebrais mais complexos e exige níveis de consciência. Até mesmo polvos demonstraram ter um certo nível de consciência ao se comportarem de maneira diferenciada para imagens de seus predadores e imagens de suas presas, indicando um “sofisticado circuito neural no cérebro”, segundo o pesquisador David Edelman.

Como tratamos os outros animais?

Com estas conclusões, fica cada vez mais difícil admitir que o tratamento dado pelos humanos aos outros animais é legítimo. Dizer que animais podem ser produzidos em escala industrial para consumo humano, ou que podem ser superalimentados para a fabricação de patês, não parece mais ser justificado pela suposta falta de consciência dos animais.

Além da questão da consciência, os animais merecem respeito, também, por serem passíveis de sentir dor. Eles têm interesse próprio, querem viver. Este interesse precisa ser respeitado.

O escritor Jonathan Safran Foer dedicou três anos para pesquisar em documentos, revistas, livros e estatísticas, além de ter ido ver com os próprios olhos dentro de fazendas e granjas como era o tratamento dado pela indústria alimentícia aos animais. Os animais, sejam eles quais forem, morrem de maneira brutal, com pancadas na cabeça, pauladas em fêmeas grávidas, surras para “bom comportamento” (para a submissão do animal aos criadores) e alguns retiram a pele dos animais ainda vivos e de maneira sádica.

No aspecto prático, resta conseguir direitos plenos para os animais, de modo que não sejam tratados como propriedade ou mercadoria e que, assim, não sejam objeto de exploração econômica, como em circos, no cinema, em zoológicos e na indústria alimentícia. Apesar de pouco ser, de fato, concluído sobre o assunto, ativistas do mundo inteiro agem para denunciar e discutir as relações de humanos e animais não humanos.

No Brasil, em São Roque (SP), manifestantes protestaram contra o uso de cachorros em experiências de produtos farmacêuticos; já no Peru, ativistas denunciaram a “Festa do gato”, que promove a matança e consumo de gatos; no Chile, ativistas invadiram um rodeio e foram agredidos pelos participantes; e na Bolívia, manifestantes protestaram em frente à ONG que promove seminários para a realização de experiências com animais. Todos estes manifestantes têm lutado pelos direitos dos animais e precisam ser ouvidos.

Reconhecer a consciência em animais não humanos foi um passo importante, mas sendo consciente ou não de sua própria existência e do mundo ao redor, os animais ainda precisariam de respeito pleno e reconhecimento de sua alteridade, portanto, um tratamento que não os reduzissem a uma mercadoria (um que nem mesmo os colocassem em tal categoria).

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Notícias

Criação animal intensiva. Um outro Holocausto?

Uma eterna Treblinka. Assim é a vida dos animais criados para alimentar as pessoas, dispara o filósofo britânico David Pearce. “Suspeito que nossos descendentes venham a considerar o modo como seus ancestrais trataram membros de outras espécies não apenas como não-ético, mas como um crime no mesmo nível do Holocausto”, afirmou na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line.

Em seu ponto de vista, não é preciso que o ente seja inteligente para sofrer profunda aflição: “uma convergência de indícios evolutivos, comportamentais, genéticos e neurocientíficos sugere que os animais não humanos que exploramos e matamos sofrem intensamente – da mesma maneira como ‘nós’”. Assim, é necessário desenvolver um “senso mais inclusivo e solidário de ‘nós’ que abranja todos os seres sencientes”. E completa: “as limitações intelectuais de animais não humanos são uma razão para lhes dar maior cuidado e proteção, não para explorá-los”.

Pearce questiona, também, sobre o sentido ético de consumir carne: “o prazer que muitos consumidores têm ao comer carne de animais mortos tem moralmente mais peso do que o sofrimento embutido em sua produção?” Uma de suas ideias é a produção de carne in vitro, alimentação “isenta de crueldade” que daria um passo importante para o desenvolvimento da civilização. “Os maiores obstáculos a um mundo sem sofrimento serão éticos e ideológicos, não técnicos”, emenda.

David Pearce é filósofo e pesquisador inglês, representante do chamado “utilitarismo negativo” em ética. Destacou-se em 1995, ao escrever um manifesto online nomeado The hedonistic imperative, no qual defendeu a utilização de biotecnologias para abolir o sofrimento em toda a vida senciente. Os principais escritos de David Pearce baseiam-se na ideia de que há um forte imperativo moral que impele os seres humanos a abolirem o sofrimento em toda a vida senciente. Em 1988, com Nick Bostrom, fundou a Associação Mundial Transumanista.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que aspectos o abolicionismo e o veganismo são importantes na construção de uma sociedade mais ética e solidária em nossos dias?

David Pearce – Tomemos um exemplo concreto: um porco. Um porco tem a capacidade intelectual – e, criticamente, a capacidade de sofrer – de uma criança pequena de 1 a 3 anos. Nós reconhecemos que as crianças pequenas têm direito a amor e cuidado. Em contraposição a isso, criamos intensivamente em confinamento e matamos milhões de porcos usando métodos que acarretariam uma sentença de prisão perpétua se nossas vítimas fossem humanas.

É claro que um porco não é um membro de “nossa” espécie. Mas a questão não é se existem diferenças genéticas entre membros de raças ou espécies diferentes, mas se essas diferenças são moralmente relevantes. Diferentemente dos humanos, os animais não humanos carecem da estrutura neocortical que possibilita o uso da linguagem. Entretanto, por que esse módulo funcional haveria de conferir alguma espécie de status moral singular a seu proprietário? Deveriam os surdos-mudos humanos ser tratados da forma como tratamos os “animais irracionais”? Intuitivamente, nós imaginamos que os seres humanos sejam “mais conscientes” do que os não humanos que exploramos. Isto é porque a maioria dos adultos humanos são mais inteligentes do que a maioria dos animais não humanos. Mas existe qualquer prova dessa ligação entre destreza intelectual e intensidade de consciência? O que é notável é como as mais “primitivas” experiências pelas quais passamos – por exemplo, a agonia pura ou o pânico cego – são também as mais intensas, ao passo que as mais cerebrais – por exemplo, a geração de linguagem ou a demonstração de teoremas matemáticos – são fenomenologicamente tão tênues que quase não são acessíveis à introspecção.

Em suma, não é necessário ser inteligente para passar por profunda aflição. Uma convergência de indícios evolutivos, comportamentais, genéticos e neurocientíficos sugere que os animais não humanos que exploramos e matamos sofrem intensamente – da mesma maneira como “nós”. Portanto, o que se faz necessário, em minha opinião, é um senso mais inclusivo e solidário de “nós” que abranja todos os seres sencientes.

Abolicionistas e veganos

Um consumidor de carne poderia responder que nós deveríamos valorizar uma criança pequena mais do que um animal não humano funcionalmente equivalente porque a criança humana tem o “potencial” de se tornar um ser humano adulto intelectualmente maduro. Mas este argumento simplesmente não funciona, pois nós reconhecemos que uma criança com uma doença progressiva que nunca completará 3 anos é digna de amor e respeito da mesma forma que as crianças que estão se desenvolvendo normalmente. Dentro da mesma lógica, as limitações intelectuais de animais não humanos são uma razão para lhes dar maior cuidado e proteção, não para explorá-los.

Talvez uma observação terminológica seja útil neste ponto. O termo “vegano” está bastante bem definido. Um vegano é um vegetariano rigoroso que não consome produtos de origem animal. Em contraposição a ele, o termo “abolicionista” tem sentidos múltiplos. Dois deles são relevantes neste contexto. Um sentido se deriva da bioética: os abolicionistas creem que deveríamos usar a biotecnologia para eliminar progressivamente todas as formas de sofrimento, tanto humano quanto não humano. O segundo sentido se deriva dos textos do jurista americano Gary Francione. Francione sustenta que os animais não humanos só precisam de um direito, a saber, o direito de não ser considerados propriedade. Por conseguinte, deveríamos abolir o status dos animais não humanos como propriedade. Bem, certamente é viável ser abolicionista em ambos os sentidos. Mas eles refletem perspectivas diferentes: é possível ser abolicionista num sentido, e não no outro.

IHU On-Line – Por que não deveríamos comer produtos de origem animal?

David Pearce – Atualmente, milhões de pessoas no mundo desfrutam de um estilo de vida vegano isento de crueldade. As tradições culturais do subcontinente indiano são em grande parte veganas. Uma minoria pequena mas crescente de pessoas no mundo ocidental também adotaram um estilo de vida vegano isento de crueldade. Comer, ou não, produtos de origem animal é, em última análise, uma questão de opção. Abrir mão de alimentos de origem animal não exige um sacrifício pessoal heroico, mas meramente uma branda inconveniência pessoal.

Na verdade, se a pessoa se der o trabalho de explorar a culinária vegana, verá que há uma variedade imensa de pratos entre os quais se podem escolher. Afinal, há literalmente milhares de vegetais ou verduras diferentes, mas apenas alguns poucos tipos de carne. Então, em termos éticos, acho que temos de perguntar o seguinte: o prazer que muitos consumidores têm ao comer carne de animais mortos tem moralmente mais peso do que o sofrimento embutido em sua produção? Podemos alguma vez justificar a “posse” de outro ser senciente – quer humano, quer não humano? Segundo que direito?

Não vou tentar me confrontar aqui com os amoralistas ou os niilistas morais. Os niilistas morais sustentam que todos os juízos de valor são puramente subjetivos, isto é, nem verdadeiros, nem falsos. Mas até mesmo eles normalmente deploram o abuso de crianças. Na medida em que o abuso de crianças é moralmente errado, é arbitrário negar que o abuso de criaturas funcionalmente equivalentes também seja moralmente errado.

IHU On-Line – Quais são os diferentes desafios dessas duas correntes hoje, frente à indústria da carne e as plantações massivas de soja e milho, cultivadas para alimentar o gado?

David Pearce – Talvez o desafio mais desanimador seja a apatia moral. George Bernard Shaw observou sagazmente que “o costume reconcilia as pessoas com qualquer atrocidade”. Infelizmente, essa observação não é menos verdade hoje em dia. Se pressionadas, muitas pessoas – talvez a maioria das pessoas – reconhecerão que a criação intensiva de animais em confinamento é cruel. Mas, na maior parte, depois elas vão encolher os ombros e continuar a consumir carne e produtos de origem animal como antes. Outros consumidores de carne parecem imaginar que a criação intensiva de animais em confinamento é apenas um pouco superlotada e que o “gado” é sacrificado sem dor, como um animal de estimação doente que sofre a eutanásia nas mãos de um veterinário gentil. Poucos e poucas de nós jamais estiveram dentro de um matadouro.

Nem todos os consumidores de carne estão tão pouco dispostos a se envolver com argumentos morais. Alguns intelectuais consumidores de carne tentam racionalizar o egoísmo com a chamada Lógica da Despensa. A Lógica da Despensa é o argumento de que, se os animais não humanos não fossem criados em escala industrial para nosso consumo, eles não existiriam – o que se pressupõe, neste caso, é que a vida na criação intensiva em confinamento vale ao menos minimamente a pena viver. Assim, em algum sentido, nossas vítimas estão, sem querer, em dívida conosco. Assim como é formulado, esse argumento justificaria que se criassem bebês para consumo humano, e não apenas animais não humanos. Por analogia, o argumento também permitiria a escravidão humana, ao menos se os escravos fossem criados para essa finalidade. Mais relevante, porém, é que os animais criados intensivamente em confinamento passam quase toda a sua vida abaixo do “zero hedônico”. Em muitas casos, a aflição deles é tão desesperada que precisam ser impedidos de se automutilar. A crença de que os seres humanos estejam fazendo alguma espécie de favor aos animais criados em escala industrial exige uma extraordinária capacidade de enganar a si mesmo.

Sofrimento institucionalizado

Vale a pena enfatizar que a miséria suportada por animais criados intensivamente em confinamento é sofrimento institucionalizado, e não apenas um “abuso” isolado. As empresas da “indústria” da carne têm uma obrigação jurídica de maximizar os lucros dos acionistas. Mesmo que essas empresas quisessem tratar os animais cativos menos insensivelmente, essas reformas seriam contrárias à lei se as medidas de bem-estar diminuíssem o retorno para os acionistas, uma vez que o custo tiraria as firmas “ineficientes” do mercado.

IHU On-Line – O que se pode fazer, então?

David Pearce – Bem, creio que uma estratégia de mão dupla é vital. Por um lado, precisamos usar argumentos morais e campanhas políticas para conscientizar as pessoas da difícil situação dos animais não humanos. Muitos consumidores de carne ficam genuinamente chocados quando veem vídeos saídos clandestinamente de criadouros industriais de animais ou matadouros que mostram o que realmente acontece lá. “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos nós seríamos vegetarianos”, disse Paul McCartney. Talvez não, mas o processo de conversão certamente se aceleraria.

O que é mais controvertido, entretanto, é minha opinião de que nós precisamos de uma opção de reserva para usar quando a persuasão moral fracassa: tecnologia de produção de carne in vitro. O desenvolvimento de carne deliciosa, produzida artificialmente sem uso de crueldade, de um gosto e uma textura que sejam indistinguíveis da carne produzida a partir de animais intactos será potencialmente escalável, sadia e barata. A primeira conferência mundial sobre produção de carne in vitro foi realizada em Oslo, na Noruega, em 2008. Eu urgiria todo o mundo a apoiar a New Harvest, a organização sem fins lucrativos que está trabalhando para desenvolver carne produzida em laboratório.

Poder-se-ia supor que a maioria dos consumidores jamais venha a comer um produto tão “não natural” quando a carne produzida artificialmente chegar ao mercado. Mas um momento de reflexão sobre as condições não sadias e não naturais dos animais criados intensivamente em confinamento mostra que o argumento do “desagrado” não pesa muito. Na verdade, nosso sentimento de repugnância pode até atuar a favor dos produtos isentos de crueldade em lugar dos animais abatidos. Se os consumidores soubessem o que entra atualmente em produtos de carne e frango – os úberes das vacas com mastite e tumores que caem dentro do leite, os porcos com tumores que entram diretamente no moedor, a gripe suína (H1N1), o hormônio de crescimento de bovinos, toneladas de antibióticos que diminuem a resistência humana, contaminação desenfreada com E. coli, etc. –, não iriam querer comprá-los a preço nenhum. É preciso admitir que com a tecnologia atual só conseguimos produzir carne in vitro com uma qualidade semelhante à carne moída; mas no futuro deveria ser possível produzir em massa bifes de primeira qualidade. A maior incerteza são as escalas de tempo.

Treblinka animal

Sei que muitos militantes em defesa dos animais não se sentem à vontade com a perspectiva da produção de carne in vitro. Eu também me sinto assim. Será que a clareza moral total não seria melhor? Se vejo um açougue ou carne de qualquer espécie, penso em Auschwitz. Ainda assim, muitos consumidores de carne sentem água na boca ao ver carne de animal morto e afirmam que jamais poderiam abrir mão dela.

Do ponto de vista nutricional, isso não faz sentido, mas acho que temos de aceitar o desenvolvimento de carne artificial porque sua fabricação e comercialização em massa possibilitará que as pessoas moralmente apáticas também tenham uma alimentação isenta de crueldade. Quando a maioria da população mundial tiver feito a transição para uma alimentação vegana ou com carne produzida in vitro, prevejo que criar outros seres sencientes para o consumo humano será tornado ilegal sob o direito internacional – assim como é o caso da escravidão humana atualmente. É claro que prever os valores de gerações futuras é algo que contém muitas armadilhas. Mas suspeito que nossos descendentes venham a considerar o modo como seus ancestrais trataram membros de outras espécies não apenas como não ético, mas como um crime no mesmo nível do Holocausto. Como observa o autor judeu Isaac Bashevis Singer, ganhador do Prêmio Nobel, em The Letter Writer (1968): “Em relação aos animais, todas as pessoas são nazistas; para os animais, há um eterno Treblinka.”

IHU On-Line – Em que medida a prática do veganismo e o abolicionismo demonstra preocupação com a alteridade e com a saúde do Planeta Terra em sentido mais amplo?

David Pearce – Tanto um estilo de vida vegano quanto um compromisso com o projeto abolicionista em sentido mais amplo certamente podem expressar uma reverência pela vida na Terra. Ahimsa, que significa não causar dano (literalmente: evitar a violência – himsa) é uma característica importante das religiões do subcontinente indiano, particularmente do budismo, do hinduísmo e em especial do jainismo.

A abolição do consumo de carne vermelha também reduziria os gases emitidos por vacas, ovelhas e cabras que contribuem para o aquecimento global – uma das principais ameaças planetárias com que nos defrontamos nesse século e além dele. Mas a prática do veganismo também pode expressar um ódio puramente secular à crueldade e ao sofrimento. Um ateu cuja vida interior seja um deserto espiritual pode assumir um compromisso com o bem-estar de toda a senciência também. Para ter êxito, precisaremos construir a mais ampla coalizão possível de ativistas e simpatizantes, tanto religiosos quanto seculares.

IHU On-Line Como podemos compreender o anunciado “pós-humano” no século XXI, quando milhões de pessoas seguem se alimentando de carne e, portanto, de sofrimento e morte?

David Pearce – A adoção global de uma alimentação isenta de crueldade assinalará uma importante transição evolutiva no desenvolvimento da civilização. Talvez a transição leve séculos. Por outro lado, é possível que uma combinação da militância em favor dos animais e do desenvolvimento de tecnologia de produção de carne in vitro produza a revolução alimentar no mundo todo dentro de décadas. Mas tornar-se pós-humano tem um alcance maior do que adotar pessoalmente um estilo de vida isento de crueldade.

Os animais que vivem livremente, “selvagens”, muitas vezes também sofrem terrivelmente – através de fome, sede, doença e predação. A vida darwiniana na Terra está baseada na exploração – basicamente, em que criaturas vivas devorem umas às outras. A “cadeia alimentar” poderia parecer um fato perene da Natureza, no mesmo nível da Segunda Lei da Termodinâmica. Isto tem sido verdade ao longo de centenas de milhões de anos.

Entretanto, uma reação fatalista à “Natureza vermelha [de sangue] em seus dentes e garras” [alusão ao famoso poema “In Memoriam A. H. H.” de Alfred Tennyson] subestima o inaudito poder transformador da ciência moderna em relação ao mundo vivo. Agora deciframos o código genético, a biotecnologia nos permite potencialmente reescrever o genoma dos vertebrados, reprojetar o ecossistema global, regular a fertilidade da espécie toda por meio da imunocontracepção e, em última análise, abolir o sofrimento em todo o mundo vivo.

Neste momento, essa espécie de cenário parece fantasiosa, para não dizer ecologicamente analfabeta. Mas esse projeto será tecnicamente viável no decorrer deste século. Os maiores obstáculos a um mundo sem sofrimento serão éticos e ideológicos, não técnicos.

IHU On-Line – Em que aspectos o veganismo e o abolicionismo destronam a condição antropocêntrica do homem?

David Pearce – A tradição judaico-cristã – e, na verdade, todas as religiões abraâmicas – situa o Homem no centro do universo. É difícil reconciliar esta concepção da humanidade com a teoria da evolução por seleção natural e a síntese neodarwiniana. Mas suponhamos que Deus exista. Todas as tradições concordam que o Deus todo-poderoso é infinitamente compassivo. Se reles mortais conseguem visionar o bem-estar de toda a senciência, deveríamos supor que Deus seja mais limitado na amplitude ou profundeza de Sua compaixão? Essa limitação da benevolência de Deus não parece coerente. Lembre-se também de que o livro de Isaías prediz que um dia o leão e o cordeiro se deitarão lado a lado. Bem, a engenhosidade humana pode fazer assim – só que não apenas pela oração. Um mundo livre de crueldade só pode surgir pelo uso compassivo da biotecnologia: reengenharia genética obrigatória para carnívoros e outros predadores; controle da fertilidade transespécies, implantes de neurochips, vigilância e rastreamento por GPS, nanorrobôs em ecossistemas marinhos e toda uma gama de intervenções técnicas que estão além da imaginação pré-científica.

IHU On-Line – Como o veganismo pode apoiar uma mudança da forma como as pessoas comem e,também, diminuir a fome no mundo?

David Pearce – Uma transição global para uma alimentação vegana isenta de crueldade não irá ajudar apenas os animais não humanos. A transição também ajudará humanos subnutridos que poderiam se beneficiar dos cereais que atualmente são destinados aos animais criados em escala industrial. Ocorre que a criação intensiva em confinamento não é só cruel, mas também energeticamente ineficiente. Tomemos apenas um exemplo. Ao longo das últimas décadas, milhões de etíopes morreram de “escassez de alimentos”, enquanto a Etiópia plantava cereais para vender ao Ocidente para alimentar o gado. Os hábitos de consumo de carne do Ocidente sustentam o preço dos cereais, de modo que os pobres nos países em desenvolvimento não têm condições de comprá-los. Em consequência disso, eles morrem aos milhões. Em meu trabalho, eu exploro soluções futurísticas, de alta tecnologia para o problema do sofrimento. Mas qualquer pessoa que queira seriamente reduzir o sofrimento tanto humano quanto não humano deveria adotar um estilo de vida vegano isento de crueldade hoje.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

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Direitos animais: O enfoque abolicionista

Atualmente, o abolicionismo reclama a necessidade de uma clara definição de seu conceito para entender a importância que possui em relação à concessão de direitos aos animais. Tento aqui prevenir um possível uso maléfico, através de versões extensivas ou ambíguas, preservando o conceito para não desgastar o termo.

O abolicionismo nega a condição de propriedade dos animais não-humanos. Encara um ponto de partida diferente daquele habitualmente considerado para a defesa dos animais, possibilitando um novo e eficaz marco teórico para a análise da realidade. Graças a ele, podemos começar a formular novas perguntas, ao invés de continuar insistindo na ineficiente procura por mais respostas para as mesmas perguntas de sempre, abordando assim novas perspectivas. Julgam-no “extremista”. Na realidade, isso é só aparência. Verdadeiramente extremista é o grau de opressão e utilização a que sujeitamos os animais não-humanos, apropriando-nos das suas vidas de maneiras espantosas e incontáveis.

Na teoria dos direitos animais do professor Gary L. Francione, o termo “abolicionismo” é conceituado pelo autor quando se refere às medidas legais cabíveis no sentido de suprimir a condição de propriedade dos não-humanos. Estas medidas, consideradas dentro do objetivo abolicionista – e opostas, portanto, à reforma bem-estarista, que considera seguir utilizando os animais como recursos – são chamadas de “proibições”, para que não ocorra confusão com o objetivo final a longo prazo, qual seja, a abolição da propriedade de animais não-humanos. Os critérios que Francione indica para considerar estas proibições como parte da mudança final no sentido da abolição são colocados para dar início, e não para finalizar a abordagem deste assunto. O indiscutível é a diferença entre estas e a reforma bem-estarista, útil para quem defende a postura filosófica do bem-estar animal, que são aqueles que, em definitivo, a formularam e a fomentam desde organizações ad hoc – como, por exemplo, os Colégios de Veterinários, organizações bem-estaristas, projetistas de abatedouros ao estilo Temple Grandin, indústrias exploradoras ou entidades protecionistas – que “só se dedicam aos animais sem lar”. Desta maneira, o abolicionismo refuta as campanhas e os projetos legislativos bem-estaristas de qualquer natureza, sem importar quem os sustente, porque só procuram uma mudança no trato aos animais não-humanos, sem questionar a utilização em si dos mesmos. A reforma, introduzindo supostas melhoras, vai no sentido inverso ao do projeto abolicionista, porque serve aos interesses de propriedade dos exploradores e é por isso que para estes elas são aceitáveis. Estas reformas não são feitas com o fim de ajudar aos animais não-humanos a saírem paulatinamente do controle daqueles que os exploram, bem como sequer evitam formas de exploração maiores e mais sofisticadas.

Nesse sentido o abolicionismo é semelhante, por exemplo, ao movimento contra a escravidão à qual institucionalmente estiveram submetidos os povos de ascendência africana. Os mesmos foram considerados propriedade dos senhores brancos, sendo comercializados principalmente com o objetivo de servir de mão-de-obra e serventes aos seus amos conquistadores e exploradores do Novo Mundo. Eric Williams considera que a origem da escravidão negra foi econômica e não racial: teria se originado na necessidade de baixo custo da mão-de-obra e não na cor do trabalhador, sendo o racismo uma racionalização posterior para justificar a opressão de outros seres humanos . Desta forma, o “complexo de superioridade” que cultivou o racismo, baseado nas características biológicas e hereditárias assinaladas como símbolos de inferioridade – e não de diferenciação – do grupo dominado, sustentou e perpetuou o sistema, inclusive depois da abolição. Assim, a violência se mostra endêmica ao controle da posse de animais que têm o impulso de escapar, revelando que a escravidão é algo mais que um problema econômico. O racismo e o especismo transitam em patamares similares. É que as coisas não são coisas: são sempre coisas “de alguém”. E nesta sociedade, esse “alguém” pode possuir estas “coisas” tanto para levá-las a dar um passeio pelo parque quanto para convertê-las em um rentável escravo .

A ideologia do bem-estar animal, que orienta e explica a regulamentação das atividades que exploram os não-humanos como recursos, se projeta operativamente na aplicação das leis vigentes. Porém com o nascer de cada dia, continuam havendo vítimas e carrascos nos abatedouros, produtos e consumidores nos negócios, livres e escravos nas crenças. O ser sensível “protegido” – na terminologia da normativa bem-estarista – segue sendo matéria prima para produzir presunto, queijo ou corpos de experimentação. Segue degradado aos limites da jaula e do matadouro. O agir humano, conforme estas leis, não resultou em mudanças consideráveis no nível de desprezo pela vida não-humana. O público consome os animais com a convicção de que há organizações que lutam no combate à extinção e pelo tratamento digno, e colabora com sua assinatura quando perguntado se estes animais importam.

Em 1996, Francione escrevia o que iria repetir em janeiro de 2007 numa entrevista para o VeganFreak : Neste momento da história da relação entre os humanos e os demais animais, os ativistas não deveriam usar seus recursos para tratar de conseguir mudanças legislativas pró-abolição, isto porque esta medidas inovadoras teriam que reunir critérios muito difíceis de alcançar. São eles :

1. Deve constituir uma proibição.

2. A atividade proibida deve ser parte integrante de uma instituição exploradora, constituindo uma atividade da mesma.

3. A proibição deve reconhecer e respeitar o interesse não-institucional do animal. Isto é, um interesse real de indivíduo e não o do seu proprietário para explorá-lo.

4. Os interesses dos animais não podem ser negociados. Isto significa que devem prevalecer mesmo que isto não implique em benefícios para os humanos.

5. A proibição não deve dar espaço a formas alternativas, supostamente mais “humanas”, de criação dos animais. É o caso típico de permitir a criação extensiva de animais – em vez de intensiva – na indústria de utilização de animais e de produtos alimentares de origem animal.

Não só estes critérios são difíceis de se reunir como também são difíceis de se exigir numa campanha, estando tão enraizada a idéia da propriedade de seres sencientes não-humanos. Francione considera necessário que toda energia disponível seja dirigida no sentido de semear uma mudança de paradigma centrada na negação do uso e da exploração dos animais não-humanos, para construir um movimento social e político que possibilite alcançar estas proibições rumo à abolição da escravidão. Isto conduziria à adoção do veganismo como aplicação do abolicionismo na vida diária.

Necessitamos perceber os profundos laços que existem entre a exploração animal, a economia e a sociedade em si mesma, num momento de absoluta crise ambiental cujas principais causas se situam na idéia do domínio sobre a natureza e na separação entre o humano e o resto da animalidade não-humana numa tentativa de justificar esta opressão. Uma mudança de atitude das pessoas gerará uma mudança significativa na condição em que hoje padecem milhões de não-humanos. Neste sentido, o veganismo é uma atitude de respeito a toda vida animal não-humana senciente, que implica num modo de vida onde se evitam voluntariamente o uso, consumo e/ou participação em atividades derivadas desta escravidão, exploração e morte. Não é um fim em si mesmo, senão a lógica conseqüência de um olhar não-instrumental sobre os não-humanos, que os reveste com um valor inerente.

O movimento pelos direitos animais teve início há pouco tempo. O abolicionismo questiona a servidão e propõe na prática uma transformação real na nossa relação com os animais não-humanos. Como abolicionistas, nossa tarefa consistirá em criar diariamente este movimento através de milhares de movimentos locais livres de contradições e repletos de receitas antiespecistas: todas 100% vegetarianas.

 

© Ana María Aboglio, Advogada, especializada em Direitos dos Animais.
© Tradução: Lucas Laitano Valente – © Ediciones Ánima.

Fonte:  Anima

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Ciência Ética

Por Sérgio Greif

Certa vez uma amiga questionou em um programa de televisão “Eu só quero saber, por que que a ciência não pode ser ética?”. Embora essa não fosse uma pergunta retórica, e tenha sido repetida três ou quatro vezes durante o programa, ela ficou sem resposta por parte de seus interlocutores, praticantes de vivissecção.

Vivissecção, literalmente “cortar vivo”, é um termo genericamente usado para se referir à experimentação com animais. Diferente de seres humanos, animais vivos jamais se oferecem para participar de experimentos e, independente do fato de serem mais ou menos inteligentes, animais são organismos sencientes (ou seja, organismos dotados de sentimentos e sensações).

Todo organismo senciente tem interesses, e independente de quais sejam os interesses individuais particulares de cada espécie, todas partilham um interesse comum que é o de fugir ao sofrimento e á morte e buscar uma sobrevivência compatível com sua natureza. O confinamento de animais ou sua utilização para finalidades distintas daquelas para as quais o animal naturalmente se desenvolveu, sua submissão, seu subjugo, a aplicação de qualquer ação prejudicial ao indivíduo que seja, vão de encontro aos interesses desse indivíduo.

A utilização de animais em experimentos vai de encontro aos interesses particulares desses animais. E então retornamos à pergunta: “Por que que a ciência não pode ser ética?”. A resposta para a pergunta é que a ciência não apenas pode ser ética, a ciência deve ser ética. A ética é pressuposto da boa ciência e a ciência deve estar acima de tudo condicionada à ética.

Quando Louis Pasteur solicitou a D. Pedro que cedesse prisioneiros brasileiros para serem usados como cobaias em seus experimentos, D. Pedro cortesmente recusou. À época não havia legislação que formalmente proibisse a utilização de seres humanos como cobaias. Apesar disso, e da alegação de possíveis benefícios que poderiam advir desses experimentos, a idéia de pegar um ser humano saudável e utiliza-lo contra sua vontade em um experimento era extremamente repulsiva para o regente. E isso era verdadeiro mesmo considerando que as cobaias em questão seriam a “escória da sociedade”.

Em outro exemplo, mais recente, temos o histórico dos experimentos nazistas. Não é o caso, mas ainda que os experimentadores tivessem uma invejável formação científica, que seguissem protocolos experimentais amplamente aceitos e que tivessem por objetivo fazer avançar o conhecimento humano acerca de determinado tópico, não poderíamos considerar que o que se praticou em campos de concentração fosse boa ciência.

O questionamento está acima do questionamento metodológico ou da finalidade dos experimentos. É muito anterior e mais urgente. Faz-se necessário questionar o objeto de estudo, os meios que se utilizou para chegar àqueles fins. A ciência nazista não seria boa ciência nem que 60 anos depois pudéssemos considerá-la útil. Foi inútil, mas mesmo que tivesse sido o contrário continuaria questionável.

E pouco importaria se os advogados de defesa no julgamento de Nuremberg lançassem mão de argumentos referentes à possível utilidade daqueles experimentos, e quantas pessoas poderiam se beneficiar dos mesmos no futuro, porque nada apaga o fato de que aquelas pessoas não deveriam ter sido utilizadas como cobaias.

Note-se, portanto, que quando trabalhamos com casos de experimentação anti-ética em seres humanos não estamos prontos a aceitar argumentos utilitaristas, sobre o pequeno número de vidas que precisaram ser sacrificadas para beneficiar tantas outras. Isso porque o pensamento utilitarista contraria os direitos individuais.

É impensável, por exemplo, que se proponha como solução para deter o avanço da AIDS a eliminação de todos os portadores do vírus HIV. Embora essa medida fosse provavelmente efetiva para atingir essa finalidade, o preço em vidas torna-a inaceitável. Citando Cícero “A mera idéia de que uma coisa cruel possa ser útil e já por si imoral”.

Vemos, portanto, que a ética está acima de qualquer coisa que possamos considerar como sendo “ciência”, e que, pelo menos para o caso da experimentação com seres humanos, não se pode aceitar a argumentação de que o número de pessoas que precisariam ser sacrificadas é pequeno quando comparado com o número de pessoas que seriam beneficiadas com os experimentos.

Quando pensamos em termos humanos, em pleno século XXI, não podemos aceitar que experimentos forçados sejam realizados nem mesmo com cidadãos que tiveram seus direitos cassados, com cidadãos mal-quistos pela sociedade. Não podemos aceitar argumentos referentes à formação inquestionável do experimentador. Não podemos aceitar argumentos referentes ao suporte legal de tais experimentos (tomemos como exemplo as leis da Alemanha nazista para saber que leis nem sempre são éticas).

Por que com animais seria diferente? A resposta está no fato de que embora animais sejam amplamente reconhecidos como criaturas sencientes, a sociedade não aceita que animais tenham direitos. E se não aceita é porque se beneficia dessa não aceitação. Em épocas não muito remotas não se reconhecia os direitos das mulheres ou de outros povos, de outras raças, mas a falta de reconhecimento desses direitos individuais sempre careceu de boa argumentação.

Seja uma explicação religiosa, seja uma explicação fundamentada em um mito ou em uma característica que de fato não deveria ser considerada na atribuição de direito, hoje esses argumentos não servem mais para diferenciar homens e também não deveriam servir para fazer distinção entre homens e animais.

Feitas essas considerações, resta-nos agora analisar o discurso que defende o uso de animais como cobaias de laboratório. Basicamente, todo esse discurso se baseia na idéia de que experimentos com animais beneficiam seres humanos. Oportunamente esse argumento será combatido com base nas diferenças fisiológicas existentes entre os diferentes organismos, de diferentes espécies, bem como no método per se, que parte do pressuposto de que doenças recriadas de maneira artificial são de fato a doença.

No entanto, por hora aceitemos que a idéia de que experimentos com animais são necessários é verdadeira, e analisemos esses experimentos pelo ponto de vista da ética. É fato que a maior parte dos seres humanos irá preferir matar um rato ou um cão a matar um homem. A discussão não deveria se desviar para esse fato, porque não se trata aqui de “matar” esse ou aquele ser, mas de tentar salvar a vida de um utilizando o outro como mero recurso.

Certamente prefiro a vida de meu filho à vida do filho de meu vizinho, isso não me dá o direito de utilizar o filho de meu vizinho como recurso para salvar a vida de meu filho. É natural que em uma situação extrema escolhamos pela vida daqueles por quem temos mais afinidade, é diferente de matar ativamente aqueles por quem temos menos afinidade.

Frequentemente escutam-se questionamentos de pessoas favoráveis à vivissecção que lançam mão de metáforas para tentar desconstruir argumentos em favor dos direitos animais. Uma metáfora bastante recorrente é a de quem prefiriria-se salvar de um naufrágio, uma criança ou um cão (ou um rato). Essa metáfora não tem nenhum propósito, ela nada tem a ver com vivissecção, porque aqui não se trata em precisar escolher entre duas vidas que estão em perigo. Trata-se de uma vida em perigo e outra que nada tem a ver com o assunto.

Para que a metáfora do afogamento servisse para expressar o que se passa na vivissecção o cenário deveria contemplar uma pessoa se afogando no mar e outra, de um barco, atirando um rato na água. A cena é surreal mas expressa exatamente o que se passa na ciência. Pois não há uma explicação clara para se atirar o rato ao mar, nem pode-se explicar de que forma isso salvará o homem que se afoga, mas todos concordam que é melhor ter um rato do que um homem se afogando. A ironia é que o rato não pode salvar o homem e por fim ambos se afogam.

Preferir não significa conferir mais direitos. Podemos em um naufrágio preferir salvar a um amigo em detrimento de uma outra pessoa, desconhecida. Porque fizemos essa escolha não quer dizer que prejudicamos a outra pessoa, apenas não tivemos condição de ajudá-la. O caso é diferente de ativamente prejudicarmos um desconhecido para ajudarmos a um conhecido, como seria o caso, por exemplo, de retirarmos seus órgãos vitais para favorecermos uma vida que para nós é mais preciosa.

No primeiro caso (do naufrágio) não estamos negligenciando o direito da pessoa à vida; no segundo (do roubo de órgãos vitais) estamos nítida e ativamente contrariando um direito individual. No primeiro caso não é uma questão de anti-ética, no segundo sim.

Embora utilizemos critérios pessoais para definir de quais seres humanos gostamos e de quais não gostamos, isso nada tem a ver com o valor inerente dos indivíduos. Pelo ponto de vista da ética todos possuem o mesmo valor inerente e gozam, portanto, dos mesmos direitos. Assim também deve ser em relação aos animais.

Determinado ser humano pode considerar que a vida de um rato não vale nada; que o rato vale os R$ 5,00 que foram pagos por ele; que o rato não é uma criatura em extinção e que portanto sua morte não fará falta ou qualquer outro pensamento que possa se passar. Mas o fato é que essa estrutura de pensamento ignora que cada ser senciente é um individuo e que portanto goza de direitos inalienáveis.

Comparativamente, não faz muito mais de 100 anos que seres humanos podiam ser comprados por alguns contos de réis; e se a existência de muitos exemplares fosse condição para ignorar direitos individuais quanto valeria a vida de um chinês?

É claro que colocar valor em uma vida senciente é contrariar a ética. O valor da vida de um ser senciente não pode ser mensurado, não importa o que digam nossos costumes. A ética está acima do espírito do tempo. Ela está acima das leis que governam os povos. As leis podem, em determinada época, afirmar o direito de possuir escravos, de saquear vizinhos ou crucificar inimigos. Embora as leis digam que se pode fazer isso, a ética sempre dirá que não se pode.

Independente de considerarmos ratos animais simpáticos ou criaturas desprezíveis, matá-los será sempre errado. Isso porque certo ou errado nada tem a ver com nossas preferências particulares.

O debate ético não é uma opção na ciência, sua presença é mandatória. Ele não deve envolver apenas acadêmicos e especialistas, mas principalmente leigos e pessoas não envolvidas com a academia. É curioso que no desespero de desviar o foco de atenção vivissectores lancem mão de seus títulos para desencorajar questionamentos.

É desnecessário que o vivissector leve para o debate seu currículo, seus títulos e sua experiência no exterior. No campo da ética toda essa formação é irrelevante. O debate ético antecede todo o desenho experimental. Não importava quantas especializações possuía Joseph Menguelle, e se seus projetos foram aprovadas por um Comitê de Ética do Campo de Auschwitz constituído de nazistas que obviamente não reconheciam os direitos de seus prisioneiros.

Qualquer debate relativo ao uso de animais em experimentos deve focar nos temas chave, quais sejam, o questionamento ético, fundamentado verdadeiramente nos direitos animais e o questionamento científico, fundamentado na boa ciência.

A presente coluna – Ciência Ética – foi inaugurada com um texto que enfoca os aspectos (anti-)éticos da experimentação animal. Em textos futuros continuaremos a tratar do assunto, mas incluiremos também material referente aos aspectos técnicos da experimentação animal, sobre métodos substitutivos e sobre a boa ciência.

Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino.

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