Jornalismo cultural, Notícias

Colunista do New York Times defende que veganos “estão do lado certo da história”

Por David Arioch

“Quero insistir para que você dê uma chance aos veganos – amá-los e celebrá-los em vez de ridicularizá-los (Fotos: University of St. Thomas/We Animals/Jo-Anne McArthur)

O colunista do jornal New York Times, Farhad Manjoo, defendeu em artigo de opinião publicado na quarta-feira (28) que veganos “estão do lado certo da história”.

Manjoo declarou que muitas pessoas hoje defendem a importância de se abdicar do uso de canudos de plástico em benefício do meio ambiente ou então publicam apaixonadamente que alguém precisa fazer algo sobre a Amazônia, mas poucos vão além disso.

“Mas poucos de nós abrem espaço em nossa visão de mundo para reconhecer a carcaça na sala: a evidência irrefutável de que nosso vício em carne está matando o planeta”, apontou.

O colunista também reconheceu que muitos, inclusive ele, ensaiam um ambientalismo que não praticam como deveriam – algo que ele classifica como “performativo”.

Também pediu que os leitores parem de tirar sarro dos veganos. “Quero insistir para que você dê uma chance aos veganos – amá-los e celebrá-los em vez de ridicularizá-los. Precisamos de mais vozes veganas”, frisou e citou que já não se pode negar o impacto e a crueldade que envolve a agricultura animal industrial.

Farhad Manjoo abordou ainda a importância de se reconhecer a senciência e profundidade emocional dos animais, e reforçou críticas ao custo ambiental da carne e a insustentabilidade de sua ascensão global. “Os veganos estão irrefutavelmente do lado certo da história”, enfatizou.

Para o colunista, resumir veganos a “pregadores” é apenas uma reação ao fato de que veganos externalizam a dissonância cognitiva que as pessoas experimentam quando apoiam a exploração desnecessária de animais visando consumo.

“O mínimo que você pode fazer é tratá-los com respeito e gratidão, porque eles merecem”, exortou.


 

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Artigos, Notícias

Uma quebra da paradigma: de “coisa” a seres vivos conscientes

Por Luana Michels*

Foto: Pixabay

Sabidamente, nosso ordenamento jurídico contém dois regimes para regulamentar as relações jurídicas: o de bens e o de pessoas. No entender do Código Civil Brasileiro, bens são objetos denominados como materiais ou imateriais, e, os animais, por não se enquadrarem como pessoas, apesar de seres portadores de sentimentos, são considerados bens coisificados, ou seja “coisas”, as quais, são suscetíveis de apropriação e que possuem um valor econômico.

No dia 08 de agosto p.p., na votação que ocorreu no Senado Federal, uma grande batalha foi travada pelos direitos dos animais. O Projeto de Lei n. 27 de 2018 (PL27/18), apresentado, propôs mudar o status jurídico dos animais não humanos – que, até então, eram tidos como “coisa”, a fim de reconhecê-los como seres biológicos, ecológicos e sencientes, tendo, portanto, natureza emocional. Ademais, estabeleceu seus direitos especiais e sua personalidade própria, de acordo com sua natureza “sui generis” e com suas características específicas, por lhes definir também como sujeitos de direitos despersonificados.

O PL27/18 alerta para o fato de que a legislação deve ser adequada às normas da Carta Magna brasileira, definindo um regime jurídico especial aos animais não humanos, o que é essencial para uma proteção específica, por ser voltada ao seu bem-estar e aos seus direitos especiais.

Em apenas cinco (5) artigos, dos quais quatro (4) definem seus objetivos, o PL27/18 visa não apenas a proteção dos animais, mas a construção de uma sociedade mais consciente e solidária para com os animais. Não obstante, foram excetuados dessa proteção, com base em emenda aprovada (Emenda n.2), os animais empregados na produção agropecuária, em pesquisas científicas e aos que participam de manifestações culturais registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro, uma vez preservada a sua dignidade.

Obviamente, por alterar o conteúdo inicialmente proposto, que almejava beneficiar a todos os animais, tal emenda não se mostrava favorável aos interessados. Todavia, ao ser vislumbrado que o PL n. 27/18 não alcançaria a aprovação, devido a interesses econômicos e por divergências sociais, foi preciso realizar tratativas que visassem uma possível aprovação, esforço este que resultou em duas (2) emendas.

A primeira, objetivava beneficiar somente os animais domésticos, entretanto, foi rejeitada, possibilitando maior abrangência, como era desejado precipuamente, ou seja, continua se estendendo não só aos animais domésticos, mas também aos domesticados, aos silvestres, aos nativos, aos exóticos e aos selvagens [1].

Já a segunda emenda foi aprovada, excluindo do reconhecimento atribuído aos animais citados acima, a proteção estabelecida no projeto inicial. Aqui, cabe chamar a atenção, para o fato de que, ao estabelecer a expressão “empregados na produção agropecuária”, também ficaram protegidos pelo texto inicial, os animais utilizados para o consumo, mas que não estejam situados na linha de produção, nem sejam usados em manifestações culturais, conforme já explicado, a exemplo de galinhas domesticadas e bovinos, que não tenham tais destinações..

Ademais, os equídeos, as cabras, as ovelhas, os suínos e outras espécies podem devem se enquadrar na proteção, pois embora alguns sejam usados na indústria, outros são selvagens e até domésticos contemporaneamente.
Eis a íntegra do texto final, com a Emenda, que altera o artigo 3º do PLC nº 27, de 2018 que passa a vigorar com a seguinte redação:

“Artigo 3º. Os animais não humanos possuem natureza jurídica sui generis e são sujeitos com direitos despersonificados, dos quais devem gozar e obter tutela jurisdicional em caso de violação, vedado o seu tratamento como coisa.

Parágrafo único. A tutela jurisdicional referida no caput não se aplica ao uso e disposição dos animais empregados na produção agropecuária, pesquisa científica e aos que participam de manifestações culturais registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro, resguardada a sua dignidade.” (NR)

Assim, há que se ter em conta que, embora o PL 27/18 não alcance a todos os animais, representa uma quebra de paradigma que trará diversos benefícios no que tange à proteção da maioria das espécies, incluindo as discriminadas, que não se enquadrem no texto dessa emenda.

É importante, ainda, pontuar que a matéria é de extrema complexidade e demasiadamente divergente dentro do contexto atual, exigindo um estudo mais aprofundado da matéria excetuada. Certo é que os animais em situação de exclusão no projeto de lei não cairão no esquecimento e poderão obter em um futuro, distante ou nem tanto, a mesma tutela legislativa.

No reverso do entendimento, incorre em evidente equívoco quem afirma que o PL 27/18 trouxe um retrocesso em relação à proteção dos animais, quando sabidamente até então sempre foram considerados meros objetos.
Basta relembrar, que o Código Civil vigente, em sua primeira parte, tem redação idêntica ao anterior que datava de 1916, determinando móveis, os bens suscetíveis de movimento próprio, é dizer, os semoventes.

Ao se abordar o tema, faz-se necessário não apenas o olhar humanitário, mas também um empenho multidisciplinar, sob pena de se recair em mera argumentação desprovida de conhecimento científico suficiente, tornando tal igualdade provavelvelmente longínqua. Logo, é possível afirmar, de maneira inegável, que o PL27/18 deu o primeiro passo, sem o qual, não seria possível dentro do ordenamento jurídico brasileiro um avanço da legislação para a preservar efetivamente a dignidade dos animais.

[1] – Considerando que não serão citadas a lei específica atribuída a cada espécie.

Referências bibliográficas

1. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponivel em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 07 de julho de 2019.

2. BRASIL, Lei n. 10.406/2002, institui o Código Civil. Publicada no Diário Oficial da União, de 11 de janeiro de 2002. Disponivel em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em 07 de julho de 2009.

* Luana Michels é advogada Criminal dos Direitos dos Animais, mestre em Ciências Criminais pela PUC/RS, graduanda em Medicina Veterinária da UNIRITTER e esteve presente na votação do #PL27 – #animalnaoecoisa.

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Ministro do STJ defende que é preciso amadurecer discussão sobre a dignidade dos animais não humanos

Por David Arioch

Para o ministro, grande parte das leis de bem-estar animal ainda carregam em si uma herança antropocêntrica e não biocêntrica (Acervo: STJ)

Em julgamento realizado em março, envolvendo um caso de alegação de maus-tratos e guarda provisória de um papagaio domesticado apreendido pelo Ibama em São Paulo, o relator e ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), OG Fernandes, reconheceu e utilizou conceitos dos direitos animais e da natureza para fundamentar seu voto, que também foi compartilhado pelos ministros Mauro Campbell Marques, Assusete Magalhães, Francisco Falcão e Herman Benjamin.

No acórdão, o ministro concluiu que, como o animal convivia há mais de 23 anos com a mesma tutora, inclusive criando laços afetivos, a retirada do papagaio depois de largo período de domesticação implica na violação dos direitos do próprio animal.

No entanto, deixou claro que é necessário tomar medidas que assegurem o bem-estar animal e não permita a eternização de situação irregular de criação não autorizada de animal silvestre. “É certo que a criação irregular deve ser reprimida e combatida, até porque é esse tipo de atitude que fomenta o comércio ilícito de animais silvestres”, pontuou.

OG Fernandes acrescentou que a justiça deve ser repensada sob uma nova racionalidade distinta da lógica hegemonicamente traçada e reproduzida nas instâncias ordinárias – de forma a impulsionar o Estado e a sociedade a pensarem de maneira radicalmente distinta dos atuais padrões jurídicos.

“Portanto, faz-se necessária uma reflexão no campo interno das legislações infraconstitucionais, na tentativa de apontar caminhos para que se amadureça a discussão acerca do reconhecimento da dignidade aos animais não humanos, e, consequentemente, do reconhecimento dos direitos e da mudança da forma como as pessoas se relacionam entre si e com os demais seres vivos”, defendeu o ministro, antagonizando a objetificação e a inferiorização que priva os animais não humanos de serem reconhecidos como sujeitos de direitos.

O ministro também admitiu que, mesmo com a existência de um significativo rol de legislações voltadas para a proteção e cuidados com os animais, grande parte dessas leis ainda carregam em si uma herança antropocêntrica e não biocêntrica.

Fernandes utilizou como referência a obra “Reflections on Animals, Property, and the Law and Rain Without Thunder”, de 2007, do professor Gary Francione, e destacou que ainda nos encontramos em um processo de construção de uma consciência ecológica. Porém, a sociedade ainda considera o bem-estar dos animais apenas quando não estão em conflito com seus interesses particulares e econômicos:

“A rigor, o que vem acontecendo é a condenação de determinados atos intoleráveis de violência para que o próprio ser humano veja seus padrões morais atendidos. Os animais não humanos são poupados da crueldade considerada nociva à preservação dos bens fundamentais do homem, e, portanto, isso impede que sejam enjaulados, exibidos, caçados, mortos, submetidos a experiências e usados como meio de diversão).”

O ministro OG Fernandes também fundamentou seu voto informando que a corte colombiana reconheceu em 2016 o Rio Atrato, o rio mais caudaloso da Colômbia, como sujeito de direitos, o que resultou em sanções contra o poder público em decorrência de negligência e degradação ocasionadas pela iniciativa privada contra o rio, sua bacia e afluentes, situados no departamento de Chocó.

O ministro citou ainda a obra “Direitos da Natureza”, de 2016, de autoria da diretora da organização Métodos de Apoio à Práticas Ambientais e Sociais (Mapas), a advogada Vanessa Hasson de Oliveira:

“A natureza não é algo apartado da espécie humana e os demais seres da coletividade planetária, assim como os seres humanos, são a própria natureza em sua universalidade e diversidade”, referenciou Fernandes. O Mapas é uma ONG que cria métodos e práticas que visam melhorias para a saúde do meio ambiente e da sociedade.

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O julgamento do Recurso Especial 1.797.175/SP foi feito pela 2ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no dia 21 de março.

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Vereador luta pelo reconhecimento da senciência animal no México

Divulgação

Hiram Brahim, vereador da cidade de Gómez Palacio, no México, está lutando até seu último dia de mandato pela aprovação de um pacote de ações de promoção à proteção animal no município.

Ele defende que todos os animais são sencientes, possuem emoções complexas e assim como seres humanos, são capazes de sentir e reagir negativamente e positivamente à situações.

Dentro desse entendimento, Hiram reforça que é dever do Estado respeitar a integridade, cuidar e alimentar os animais, e principalmente, prevenir e impedir qualquer ato de crueldade contra eles. O vereador solicita também campanhas de castrações gratuitas como uma estratégia para um controle populacional ético.

Sem se declarar um ativista pelos direitos animais, Hiram defende que a verba do Estado é suficiente para cuidar tanto da população humana, quanto da animal. E afirma que cabe à administração municipal de Gómez Palacio fornecer os recursos necessários para que todos os animais sejam respeitados e tenham qualidade de vida.

O mandado de Hiram Brahim está próximo do fim, mas seu sucessor na Câmara Municipal, Miguel Salgado Salas, se comprometeu a dar continuidade às propostas abolicionistas de Brahim.

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Coelho não mede esforços para libertar seu amigo gato

Apesar de ser uma realidade já reconhecida legalmente em alguns países, a senciência animal ainda é ponto polêmico em alguns discursos daqueles menos habituados ao cotidiano no reino animal.

Este vídeo fascinante é um exemplo de não só de como os animais são capazes de sentir e amar, como também mostra o poder da amizade no reino animal. O cuidador do coelho mostrado na filmagem capturou imagens do animal cavando freneticamente a beira de um galpão.

Compreensivelmente, o espectador achou a situação um tanto confusa, pelo menos até que pudesse notar a pata de um gato estendendo-se por debaixo do galpão. A verdade é que o coelhinho estava em uma missão de libertação de seu melhor amigo!

É fascinante observar que o coelho não só demonstra compaixão, mas também age deliberadamente em favor de outro ser que está em necessidade.

Coelho cava sem parar abrindo espaço para libertar seu amigo gato | Foto: Daily Mail
Coelho cava sem parar abrindo espaço para libertar seu amigo gato | Foto: Daily Mail

O coelhinho continua a cavar até que seu amigo tivesse espaço suficiente para sair, e em pouco tempo eles estavam juntos novamente. O coelho parecia um pouco cansado, mas ficou claro o quão grato o gato estava, uma vez que ele permaneceu do lado do coelho durante o restante do vídeo.

Que cães e gatos estão disponíveis para adoção em abrigos em todo o mundo é de conhecimento público, porém existem também inúmeros coelhos a espera de um lar e uma família. Coelhinhos exigem tanto amor, carinho e atenção quanto gatos e cachorros.

Os amigos finalmente reunidos não largam um do outro | Foto: Daily Mail
Os amigos finalmente reunidos não largam um do outro | Foto: Daily Mail

É importante ressaltar, contudo, que adotar qualquer animal doméstico é um compromisso sério. Os animais devem ser tratados com o mesmo amor, respeito e cuidado que qualquer outro membro da família. Além disso, ter um animal doméstico pode ser dispendioso.

De comida saudável, contas de veterinário, camas, brinquedos até cuidados com higiene e muito mais, é importante certificar-se de que o tutor esteja apto e consciente da responsabilidade que envolve cuidar financeiramente e amorosamente de um animal, tanto no presente como no futuro. É um compromisso para a vida inteira.

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Deputados do Reino Unido votam contra o reconhecimento da senciência animal na legislação pós-Brexit

Capacidade de sentir dor e ter emoções dos animais é negada pelo deputados do Reino Unido | Foto: Divulgação
Capacidade de sentir dor e ter emoções dos animais é negada pelo deputados do Reino Unido | Foto: Divulgação

Na contramão de evidências cientificas e o conquistas legais no mundo todo, o governo Tory (partido conservador do Reino Unido) negligenciou de forma ostensiva os direitos animais esta semana. Uma decisão obtida por meio de voto declara que os animais não têm emoções ou sentimentos, incluindo a capacidade de sentir dor. Enquanto debatiam o projeto de lei Brexit, os deputados votaram para não transferir para a lei do Reino Unido partes da legislação da União Eropeia que reconhecem que os animais têm sensibilidade e podem sentir dor e ter emoções.

A ANDA noticiou toda a campanha contra o assassinato de milhões texugos e a tentativa de trazer de volta a caça às raposas no Reino Unido, porém ativistas se mostram surpresos e decepcionados após o esforço realizado. Na medida em que o governo começa a moldar o projeto de lei da retirada da União Europeia em 2019, foi realizada uma votação para rejeitar a legislação da UE que vê animais não humanos como seres sencientes. Quando o Reino Unido deixar a UE, não serão apenas texugos e raposas que serão ameaçados por essa mudança na lei, mas todos os animais (exceto os domésticos). Basicamente os animais que representem lucro ficarão indefesos contra a exploração.

Essa votação vem na contramão de extensas evidências científicas que comprovam que animais (além dos domésticos) têm sentimentos e emoções, alguns até mais fortes que os humanos.

Mas os políticos claramente pensam entender melhor de cérebros de animais do que a maioria dos cientistas do planeta. Esta completa falta de lógica leva a crer que muitos desses deputados provavelmente têm menos inteligência do que uma água-viva.

Na mesma sociedade em que um gato atirado a uma lixeira causa ultraje nacional e a maioria da população se revolta contra atitudes como essa, consome-se sanduiches em grandes quantidades, feitos por cadeias de fast foods locais que provavelmente foram feitos utilizando galinhas ou bovinos que sofreram abuso a vida inteira. A imagem passada é a de que o povo do Reino Unido só se importa com animais se eles forem bonitinhos e domésticos.

Atualmente, 80% da legislação de bem-estar animal do Reino Unido vem da UE, uma vez que a votação envolve o questionamento ultrapassado do fato dos animais serem sencientes, todo o resto perde o sentido. Se o governo não acredita que os animais podem sentir dor, certamente nenhum dos seus direitos será protegido.

Quando o Reino Unido deixar a UE, os animais domésticos serão protegidos pela Lei de Bem-Estar Animal de 2006, porém e quanto aos animais selvagens, os abusados em laboratório e aqueles que estão em outras formas de cativeiro? Um exemplo disso é o teste de cosméticos em animais. Segundo a legislação da UE, é ilegal testar em animais cosméticos como sabonete líquido e verniz para unhas. Mas isso poderia facilmente ser descartado assim como o reconhecimento de animais como seres sencientes foi.

A partir desse panomarama infelizmente projetamos um futuro muito sombrio para os animais, onde a caça é reintroduzida, os laboratórios são livres para testar em animais com tanta crueldade quanto quiserem e fazendas são cada vez menos regulamentadas.

Esse desenrolar dos fatos mostra o quanto o Brexit pode causar danos em potencial. A votação da retirada do reconhecimento da senciência animal da legislação do Reino Unido é um acontecimento de impacto, mas é pouco divulgado nos principais veículos de notícias mundial. À medida que cada lei da UE que protege os animais é posta à votação, quantos direitos e absurdos mais serão desmantelados sem serem levados ao conhecimento do público. Por que a população não foi consultada sobre quais leis estão sendo modificadas?

Nos próximos dois anos, o governo pode fazer uma série de mudanças tão volumosa em relação aos direitos animais que, quando chegar 2019, as leis tenham mudado tanto que nenhuma campanha de conscientização neste momento poderá reverter as decisões tomadas. Os ativistas serão forçados a escolher ou um ou dois direitos “mais importantes” para receber de volta, e tudo o mais passará incontestado.

Será muito difícil mudar cada uma das leis aprovadas quando forem implementadas em 2019. O momento de ação é agora, de confrontar os deputados, à medida que a votação ocorre no Parlamento.

Nas próximas semanas e meses, os deputados vão votar o futuro dos animais, do meio ambiente e por consequência dos seres humanos no Reino Unido. Essa votação sobre os sentimentos dos animais precisa ser desafiada, assim como todo e qualquer absurdo que o governo conservador tentar fazer contra eles.

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Nova publicação será dedicada à senciência animal

Redação ANDA – Agência de Notícias dos Direitos Animais

Reprodução/iStock
Reprodução/iStock

Uma nova revista científica não é meramente um novo local para a publicação de pesquisas. Ao contrário: encoraja o desenvolvimento da ciência, criar uma nova comunidade de investigadores e, até certo ponto, contribuir para o estabelecimento de novos campos.

Recentemente, Stevan Harnard criou uma nova revista dedicada ao estudo do sentimento animal. E com base na repercussão das publicações feitas na internet, o veículo pode ser um enorme sucesso, reporta o NPR.

As primeiras questões tratadas na revista foram a dor sentida por peixes, o luto dos animais, entre outras.

Na introdução do editorial da revista nomeada “A senciência animal: Revista Interdisciplinar sobre Sentimento Animal”, Harnad escreve: “A edição inaugural será iniciada com a pergunta mais importante (para peixes) que é se os peixes podem sentir dor.”

“Os membros das espécies não humanas em discussão não serão capazes de participar da conversa, mas seus porta-vozes e defensores, os especialistas que melhor os conhecem irão”, continua ele.

O tom dos comentários de Harnad mostra o que mudou nos últimos anos e como o lançamento da revista é tão imperativo.

“Por mais difícil que seja de acreditar, acho que os cientistas estão muito divididos sobre a senciência animal. Porém, a convicção por parte de muitos sobre esse assunto é um fato de enorme importância moral, social e política e tem aumentado consideravelmente”, diz o filósofo Alva Noë, em artigo no NPR.

“Se não houver nenhuma mudança radical teórica, eu acho que há uma questão ética. A vida dos animais importa e sempre que essas questões vêm à tona, a convicção de que os interesses animais precisam ser levados a sério é agora uma norma”, completa ele.

Ainda não dá para saber qual será o alcance da publicação e qual será sua influência entre cientistas. Mesmo assim, a “Senciência animal” está dedicada a explorar em profundida o que, como, e por que os organismos sentem.

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Budismo e a Declaração de Cambridge sobre a Senciência Animal

Artigo: Buddha Weekly (Tradução: Dhamirah Hashim/ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

Da esquerda à direita: Ani Ngawang Samten, Dalai Lama e Lama Zopa Rinpoche
Da esquerda à direita: Ani Ngawang Samten, Dalai Lama e Lama Zopa Rinpoche

Um grupo internacional de neurocientistas cognitivos e outros especialistas de destaque fizeram uma declaração forte, endossada por Stephen Hawking, afirmando que todos os “animais não-humanos… incluindo polvos” são sencientes e sentem emoções como medo e felicidade. Na Argentina, um orangotango ganhou direitos não-humanos contra seu tratador do zoológico. Recentemente, nos jornais, um macaco ganhou os direitos de uma foto selfie sobre o proprietário da câmera.

O avanço em direitos não-humanos suscita a questão, do ponto de vista budista, quando temos a promessa de libertar todos os seres sencientes – ou não matar – quem é que incluímos? Se a nossa definição inclui todos os seres até insetos e polvos, como podemos reconciliar nossa dependência em seres “inferiores” para a sobrevivência?

Cada vez mais, professores estão falando sobre a senciência não-humana e o sofrimento desnecessário para esses seres. Quando o Dalai Lama famosamente protestou “crueldade com galinhas” em 2012, foi inspirado por uma abundância de compaixão (ver “Dalai Lama e galinhas” abaixo). Como a “Declaração de Cambridge” de um grupo internacional de cientistas proeminentes, informando que até mesmo polvos sentem emoções, muda o nosso ponto de vista? Mais importantemente, o que diz o nosso professor? Para ajudar a fornecer introspecção, coletamos os ensinamentos de Buda, o Dalai Lama, Bikkhu Bodhi, Thich Nhat Hanh, Zasep Tulku Rinpoche, Karma Lekshe Tsomo, Lama Zopa Rinpoche, Kyabje Chatral Sangye Rinpoche, Geshe Thubten Soepa, e, é claro, Stephen Hawking e os cientistas de Cambridge.

Buddha: Primeiro Preceito “Abster-se de tirar a vida”

Budistas Mahayana, que prometem “liberar todos os seres sencientes” são muitas vezes vegetarianos por compaixão pelo sofrimento dos seres não-humanos – para cumprir o voto Bodhisattva e o primeiro preceito do Buda de não matar. Para outros, é muitas vezes conveniente evitar o assunto, uma vez que somos frequentemente culturalmente educados para aceitar a matança necessária de animais para a sobrevivência.

O Primeiro preceito de Buda em Pali lê: “Panatipata veramani sikkhapadam samadiyami” que se traduz mais ou menos como: “Eu me encarrego do preceito de abster-se de tirar a vida” Para muitos, isto significava a vida humana. Para outros, particularmente zen budistas, isso significava qualquer criatura que respirasse.

Declaração de Cambridge: “Humanos não são únicos em possuir … consciência.”

“Evidência convergente indica que os animais não-humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos, e neurofisiológicos de estados conscientes, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso da evidência indica que os humanos não são únicos em possuir os substratos neurológicos que geram consciência. Animais não-humanos, incluindo todos os mamíferos e pássaros, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem estes substratos neurológicos. “- A Declaração de Cambridge sobre Consciência

Os cientistas demonstraram que as emoções e tomadas de decisões se desenvolvem em todas as formas de vida, até moluscos cefalópodes. Até mesmo Steven Hawking e outros gigantes endossaram a declaração, intitulada “A Declaração de Cambridge sobre Consciência.” Emitida por um grupo proeminente de neurofisiologistas, neuroanatomistas, neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas e neurocientistas computacionais  – essa afirmação deixa pouco espaço para diminuir os níveis de compaixão por formas de vida “inferiores”.

Na esteira desta declaração, um orangotango em um zoológico argentino venceu direitos de personalidade jurídica em uma luta para determinar se ele havia sido ilegalmente privado de sua liberdade. Além disso, o crédito para a “selfie” mencionada está sob revisão legal para determinar se o macaco ou o proprietário da câmera merecia o crédito.

Em outra notícia relacionada, o professor Marc Bekoff escreveu na Psychology Today: “Sabemos, por exemplo, que os camundongos, ratos e galinhas exibem empatia …” O que nos leva à galinhas e o Dalai Lama.

A carta de “Crueldade com Galinhas” de Dalai Lama

Em 2012, o Buddha Weekly relatou a carta de protesto do Dalai Lama, na qual ele escreveu ao KFC: “Eu tenho estado particularmente preocupado com o sofrimento de galinhas por muitos anos.” Na época o KFC matava 850 milhões de frangos por ano (a partir de 2010 ). O Dalai Lama escreveu ao KFC, pedindo-lhes para abandonar seu plano de abrir restaurantes no Tibet “por cause do suporte da sua corporação para a crueldade e o assassinato em massa”. [1]
Na época, a PETA proclamou que galinhas “sentem dor e têm personalidades distintas e inteligência”, o que foi amplamente zombado publicamente. Esta constatação posterior dos cientistas da Universidade de Cambridge parece apoiar ambos a PETA e as razões para o protesto do Dalai Lama.

Matar é proibido no Budismo – claramente um dos principais preceitos – mas isso é muitas vezes simplesmente interpretado como significando a morte “humana” – na base de que animais inferiores não são sencientes. Mesmo se matar “animais inferiores” for necessário para a sobrevivência, a doutrina da Metta proíbe budistas de causar sofrimento.

O Dalai Lama explicou como ele se tornou um vegetariano depois de testemunhar a morte de uma galinha. “Foi a morte de uma galinha que finalmente fortaleceu minha determinação para me tornar vegetariano. Em 1965, eu estava hospedado no Government Guest House no sul da Índia. Meu quarto observava diretamente a cozinha. Um dia eu por acaso vi o abate de um frango, o que me fez decidir me tornar um vegetariano. ”

Ele também explicou por que ele particularmente focava em galinhas. “Os tibetanos não são, em regra, vegetarianos, porque no Tibete os vegetais são escassos e a carne forma uma grande parte da dieta básica. No entanto, considera-se mais ético comer a carne dos animais maiores, como yaks, do que os pequenos, porque menos animais teriam de ser mortos.”
Até mesmo Buda não era um vegetariano estrito. Ele comia o que seus patrocinadores forneciam em seu prato, incluindo a carne. Foi, segundo a tradição, carne contaminada que o levou à sua morte e paranirvana.

Bikku-Bodhi
Bikku Bodhi

Bhikkhu Bodhi: Ser Senciente – “Qualquer Ser com Respiração”

Theravadan Pali Canon tende a apoiar a noção de toda vida como senciente. O conhecido professor Bikkhu Bodhi explica “pana” (do Primeiro Preceito em Pali ‘”pana” significa “respirar, ou qualquer ser vivo que tem respiração e consciência”.) O professor Venerável explica que isso inclui toda a vida animal, incluindo insetos, mas não a flora. A palavra “anipata” significa “golpear, e inclui tanto matar e ferir ou torturar. Claramente, é fundamental evitar tirar a vida de “qualquer ser com a respiração.”
Um elemento-chave na motivação. Acidentalmente pisar em um inseto ou atropelar um animal na estrada geralmente não entraria em conflito com o Primeiro Preceito.

Zasep Tulku Rinpoche
Zasep Tulku Rinpoche

Zasep Tulku Rinpoche: “Nós não devemos ferir outras pessoas e animais.”

Venerável Zasep Rinpoche, diretor espiritual de Gaden para o Ocidente, enfatiza o “modo de vida correto” para seus alunos. Ele é inequívoco em seu conselho sobre o peso igual de importância entre os seres humanos e não-humanos. Rinpoche escreveu em suas orientações: “O meio de vida correto é um dos aspectos do nobre caminho óctuplo; é um importante princípio budista que nós, como praticantes do Dharma, pratiquemos o modo de vida correto. Não devemos machucar outras pessoas e animais, e devemos fazer o melhor uso dos recursos da terra, de maneiras que não causem dano social e ambiental.”

Karma Lekshe Tsomo
Karma Lekshe Tsomo

Karma Lekshe Tsomo: “Examinar … Motivação”

Karma Tsomo, professora de teologia e uma freira tibetana disse: “Ao fazer escolhas morais, os indivíduos são aconselhados a examinar a sua motivação – aversão, apego, ignorância, sabedoria ou compaixão – e pesar as conseqüências de suas ações à luz dos ensinamentos de Buda.”
O mesmo critério seria importante em questões de “auto-defesa” incluindo a defesa de um país em tempo de guerra. De acordo com Barbara O’Brien, “cerca de 3.000 budistas” servem “nas forças armadas dos EUA, incluindo alguns capelães budistas. O Budismo não exige pacifismo.” Mais uma vez, porém, a motivação é a chave, neste caso, a “motivação” do país patrocinando o soldado. A ação que levou à morte é devida à motivação negativa do país, tais como a ganância, apego, ódio ou ignorância?

Thich Nhat Hanh: “Nenhuma morte pode ser justificada”

O famoso monge Zen e pacifista, que uma vez foi nomeado para o Prêmio Nobel da Paz é inequívoco em sua visão do primeiro preceito contra a matança: “Não podemos apoiar qualquer ato de matança; nenhuma pode ser justificada. Mas não matar não é suficiente. Devemos também aprender maneiras de impedir outros de matar. Não podemos dizer: “Eu não sou responsável. Eles fizeram isso. Minhas mãos estão limpas.” Se você estivesse na Alemanha durante a época do nazismo, você não podia dizer: “Eles fizeram isso. Eu não fiz.” Se, durante a Guerra do Golfo, você não disse ou fez qualquer coisa para tentar parar a matança, você não estava praticando esse preceito. Mesmo se o que você disse ou fez não conseguiu parar a guerra, o importante é que você tentou, usando a sua percepção e compaixão.”
O venerável professor não só era um ativista pacifista bem conhecido, ele também era vegetariano. “Mesmo que tenhamos orgulho em ser vegetariano, por exemplo, temos de reconhecer que a água em que fervemos nossos vegetais contém muitos microrganismos minúsculos. Nós não podemos ser completamente não-violentos, mas por sermos vegetarianos, estamos indo na direção da não-violência. Se queremos dirigir para o norte, podemos usar a Estrela do Norte para nos guiar, mas é impossível chegar à Estrela do Norte. Nosso esforço é somente para prosseguir nessa direção.”

Lama Zopa Rinpoche
Lama Zopa Rinpoche

Lama Zopa Rinpoche: “Os animais experimentam sofrimento inacreditável”

O mais venerável professor Vajrayana, Lama Zopa Rinpoche respondeu a um aluno sobre o tema do vegetarianismo: “Como há cada vez mais pessoas tornando-se vegetarianas, isso significa que cada vez menos animais serão mortos. Então é muito importante. No mundo as pessoas comem carne principalmente por causa do hábito; tantas pessoas não têm pensado que os animais experimentam sofrimento inacreditável.”
Mais tarde, ele descreveu como viu uma vaca lutando para não descer uma rampa para a morte: “Um homem estava puxando-a da plataforma, mas a vaca não queria descer. Então eu pensei, eu não posso parar o sofrimento do animal, mas o que posso fazer enquanto vou ao redor do mundo para ensinar, mesmo que seja em sutra e tantra, vou anunciar ou pedir se as pessoas podem tornar-se vegetarianas. Isso é algo que eu posso fazer.”

Voto Bodhisattva: “Liberar todos os seres sencientes”

No Budismo Mahayana, muitas vezes, a definição de “seres sencientes” é qualquer ser que é capaz de experimentar Dukkha (sofrimento). De acordo com os cientistas de Cambridge, estes são todos os seres até e incluindo polvos.

No sutra, os seres sencientes são descritos como todos os habitantes dos três reinos do samsara dentro das seis classes de seres. Incluído nas seis classes são animais, peixes, insetos – qualquer criatura com mente. Particularmente no que diz respeito à doutrina Tathagatagarbha, todas essas criaturas têm Natureza de Buda inerente, “o potencial intrínseco de transcender as condições de Samsara e atingir a Iluminação.”

Khabje Chatral Sangye Dorje Rinpoche
Khabje Chatral Sangye Dorje Rinpoche

Kyabje Chatral Sangye Dorje Rinpoche: “Carne, a comida pecaminosa.”

O grande Kyabje Chatral Rinpoche Rinpoche, um yogi Dzogchen altamente realizado, era um oponente vocal da carne por toda a sua longa vida, de 1913-2015. “Se você come carne, vai contra os votos que se faz em buscar refúgio no Buddha Dharma e Sangha. Porque quando você consome a carne que você tem que consumir a vida de um ser. ”

No capítulo 2 de “ação compassiva”, ele escreveu: “carne, a comida pecaminosa, não é permitida de acordo com os três votos: Os votos de liberação individual, o os votos Bodhisattva e os votos tântricos”

Por outro lado, muitas budistas não são vegetarianos. Buda mesmo ensinou monges a comerem tudo o que era colocado em sua tigela, incluindo a carne, a menos que eles sabiam que o animal havia sido morto para os monges.

Buda ensinou a bondade amorosa – mas não apenas para seres humanos?

Sem dúvida, praticantes budistas praticam a compaixão e bondade – metta – para os seres sencientes. A doutrina da “Karuna” ou “simpatia ativa” e boa vontade “para suportar a dor dos outros” não é discutível – pelo menos não nas escolas Mahayana. Mesmo se nós interpretamos “compaixão” como um método hábil usado pelo Buda para demonstrar a ideia equivocada do “eu independente” e “você independente” – não pode haver dúvida de que a bondade para os seres sencientes não é opcional.

Não há dúvida de que o Buda ensinou a benevolência para com todos os seres sencientes, não apenas seres humanos. Por que isso é fundamental? Porque Buda também ensinou a doutrina do renascimento – que podemos renascer como insetos, animais inferiores, e outras formas de vida. Compaixão por todos os seres, até insetos rastejantes, não está implícito, parece ser explicitamente recomendado. Isso não significa que os budistas devem ser vegetarianos, mas pelo menos que nós devemos sentir simpatia pelo sofrimento de todas as criaturas.

Geshe Thubten Soepa: “A carne não é permitida”

Em uma série de perguntas e respostas sobre o vegetarianismo com Geshe Thubten Soepa, um professor FPMT-registrado, ele responde: “Nos ensinamentos de Mahayana Buda proibe de comer carne por completo. Em muitos sutras diferentes (o Lankavatara Sutra, o Grande Sutra do Nirvana no Angulimala Sutra, o Sutra sobre a capacidade do elefante, o Sutra da Grande Nuvem), é ensinado que, se alguém está tentando viver com grande compaixão, então comer carne não é permitido. Isso ocorre porque temos que ver todos os seres sencientes como nossa mãe, irmão, filho, etc. Também no Angulimala Sutra, Manjushri perguntou ao Buda, “Por que você não come carne?” . Ele respondeu que ele viu todos os seres como tendo natureza búdica e que essa era a sua razão para não comer carne. Portanto, se você pratica Mahayana e come carne, é uma contradição.”

A Declaração de Cambridge sobre a Consciência

No dia 7 de julho de 2012, um proeminente grupo internacional de neurocientistas, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e neurocientistas computacionais cognitivos reuniu-se na Universidade de Cambridge para reavaliar os substratos neurobiológicos da experiência consciente e comportamentos relacionados em animais humanos e não humanos.

Embora a pesquisa comparativa sobre esse tópico seja naturalmente dificultada pela inabilidade dos animais não humanos, e muitas vezes humanos, de comunicar clara e prontamente os seus estados internos, as seguintes observações podem ser afirmadas inequivocamente:

O campo da pesquisa sobre a consciência está evoluindo rapidamente. Inúmeras novas técnicas e estratégias para a pesquisa com animais humanos e não humanos tem se desenvolvido. Consequentemente, mais dados estão se tornando disponíveis, e isso pede uma reavaliação periódica dos preconceitos previamente sustentados nesse campo. Estudos com animais não humanos mostraram que circuitos cerebrais homólogos, correlacionados com a experiência e à percepção conscientes, podem ser seletivamente facilitados e interrompidos para avaliar se eles são necessários, de fato, para essas experiências. Além disso, em humanos, novas técnicas não invasivas estão prontamente disponíveis para examinar os correlatos da consciência.

Os substratos neurais das emoções não parecem estar confinados às estruturas corticais. De fato, redes neurais subcorticais estimuladas durante estados afetivos em humanos também são criticamente importantes para gerar comportamentos emocionais em animais. A estimulação artificial das mesmas regiões cerebrais gera comportamentos e estados emocionais correspondentes tanto em animais humanos quanto não humanos. Onde quer que se evoque, no cérebro, comportamentos emocionais instintivos em animais não humanos, muitos dos comportamentos subsequentes são consistentes com estados emocionais conhecidos, incluindo aqueles estados internos que são recompensadores e punitivos. A estimulação cerebral profunda desses sistemas em humanos também pode gerar estados afetivos semelhantes. Sistemas associados ao afeto concentram-se em regiões subcorticais, onde abundam homologias neurais. Animais humanos e não humanos jovens sem neocórtices retêm essas funções mentais-cerebrais. Além disso, circuitos neurais que suportam estados comportamental-eletrofisiológicos de atenção, sono e tomada de decisão parecem ter surgido evolutivamente ainda na radiação dos invertebrados, sendo evidentes em insetos e em moluscos cefalópodes (por exemplo, polvos).

As aves parecem apresentar, em seu comportamento, em sua neurofisiologia e em sua neuroanatomia, um caso notável de evolução paralela da consciência. Evidências de níveis de consciência quase humanos têm sido demonstradas mais marcadamente em papagaios-cinzentos africanos. As redes emocionais e os microcircuitos cognitivos de mamíferos e aves parecem ser muito mais homólogos do que se pensava anteriormente. Além disso, descobriu-se que certas espécies de pássaros exibem padrões neurais de sono semelhantes aos dos mamíferos, incluindo o sono REM e, como foi demonstrado em pássaros mandarins, padrões neurofisiológicos, que se pensava anteriormente que requeriam um neocórtex mamífero. Os pássaros pega-rabuda [1] em particular demonstraram exibir semelhanças notáveis com os humanos, com grandes símios, com golfinhos e com elefantes em estudos de autorreconhecimento no espelho.

Em humanos, o efeito de certos alucinógenos parece estar associado a uma ruptura nos processos de feedforward efeedback corticais. Intervenções farmacológicas em animais não humanos com componentes que sabidamente afetam o comportamento consciente em humanos podem levar a perturbações semelhantes no comportamento de animais não humanos. Em humanos, há evidências para sugerir que a percepção está correlacionada com a atividade cortical, o que não exclui possíveis contribuições de processos subcorticais, como na percepção visual. Evidências de que as sensações emocionais de animais humanos e não humanos surgem a partir de redes cerebrais subcorticais homólogas fornecem provas convincentes para uma qualia [2] afetiva primitiva evolutivamente compartilhada.

Nós declaramos o seguinte: “A ausência de um neocórtex não parece impedir que um organismo experimente estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência juntamente como a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e as aves, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos”.

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No limite da senciência

cnidários

De tempos em tempos somos surpreendidos por “novas descobertas científicas” no que diz respeito ao sentimento de dor em animais. Recente estudo da Universidade do Texas demonstrou o que qualquer pessoa que já tenha manipulado ou observado cefalópodes deveria saber: Polvos e lulas são capazes de sentir dor.

Estudo semelhante, de uma universidade da Irlanda do Norte, havia constatado não muito antes que lagostas, camarões, caranguejos e siris sentem dor – nada que qualquer pessoa que já tenha sido abordada por vendedores de lagostas frescas no litoral do Nordeste brasileiro não pudesse saber, pois quando o vendedor aperta os olhos do animal esse pula de dor. É a prova que o vendedor usa para demonstrar que a lagosta está tão fresca quanto viva, e para o cliente a prova de que esses animais sentem, de fato, dor.

E quem não conhece a expressão “como um siri na lata”? Esses animais são costumeiramente fervidos vivos e não há tampa de panela que os segure quando a água se aquece. É necessário colocar tijolos ou outros pesos para que os animais não escapem. Ora, o que seria essa força muitas vezes superior as suas capacidades naturais senão uma tentativa desesperada de fugir a dor?

Esse mesmo estudo considera razoável concluir que o mesmo se aplique a outros artrópodes, tais como os insetos e aranhas, que possuem sistema nervoso semelhante. Mas podemos ir mais longe: Qualquer pessoa que já tenha batido uma picareta na terra e partido, sem querer, uma minhoca ao meio, deve tê-la visto pulando e se contorcendo. Isso é sinal externo de dor.

Em 07 de julho de 2012, um grupo de proeminentes cientistas da área das neurociências se reuniu, na Universidade de Cambridge, para declarar que devido as semelhanças entre o cérebro humano e o cérebro de outros vertebrados, podemos inferir que esses animais não-humanos também são conscientes e sujeitos ao mesmo estado interno pelos quais passamos no que se refere as emoções.

Nada que alguém que conviva com animais já não saiba. Não precisamos saber quão complexo é seu sistema nervoso e se o animal possui nociceptores, basta observar o animal em seu comportamento diário. De que forma o animal se comporta perante estímulos potencialmente ou efetivamente danosos?

O animal manifesta sintomas de ansiedade, tédio, irritação, ou pelo contrário, alegria, satisfação ou afeto? Muitas pessoas tendem a crer que apenas os animais mais próximos de nós são passíveis de sentimentos, enquanto que os mais distantes ou menos simpáticos são praticamente animais-máquinas cartesianos. Nada mais longe da verdade.

A dor, embora uma sensação negativa, possui um motivo positivo para existir. Trata-se de um mecanismo evolutivo que alerta o indivíduo em relação a perigos iminentes, com possível ameaça à vida, possibilitando a fuga ou defesa. Se os animais semoventes não sentissem a dor como uma sensação desagradável eles não evitariam os perigos e, por conseguinte, morreriam mais cedo.

É fácil verificar como a sensação de dor é importante. Pessoas que por algum motivo não sentem dor (hansênicos ou portadores de Insensibilidade Congênita à Dor com Anidrose – CIPA, p. ex.) não se cuidam. Estão sempre com os ossos fraturados, com a língua mastigada ou com pedaços de membros arrancados ou cortados. Pessoas com lepra na antiguidade constantemente eram comidas por roedores enquanto dormiam, elas acordavam literalmente com pedaços de seus corpos desfigurados.

Tratando ainda do sentido evolutivo da dor, fica aqui uma resposta para a ladainha boçal carnistas: “E alface, não sente dor?” A resposta é que não, até onde sabemos. Alfaces não tem qualquer defesa contra predadores, eles permanecem imóveis seja lá o que se passe no ambiente à sua volta. Elas não se movem para perseguir seu alimento, para buscar o sol ou a sombra, nem por qualquer outro motivo.

Sua própria imobilidade tornaria as sensações desagradáveis evolutivamente desnecessárias. Além disso, não vemos nada que lembre um sistema nervoso nos vegetais (movimentos como geotropismo, hidrotropismo, fototropismo, quimiotropismoetc não ocorrem de forma intencional e, portanto, não devem ser considerados indícios de senciência).

E ainda que seja dado aos vegetais o benefício da duvida, os animais que comemos consumiram número muito maior de vegetais que consumiríamos se os consumíssemos diretamente. Questão de entender a pirâmide de níveis tróficos, onde mais alto nos encontramos mais recursos animais e vegetais consumimos.

Embora vegetais supostamente não sintam dor, animais certamente o fazem e é nesse ponto que devemos nos concentrar, ao menos em um primeiro momento, nos organismos que evidentemente possuem substrato neurológico que permita a consciência.

O ser humano evoluiu, através de longo processo gradual, de outras formas de vida animal, tendo a senciência surgido ao longo desse processo em tempos muito remotos.

No grupo dos vertebrados todos os organismos partilham estruturas homólogas no que diz respeito à estrutura cerebral. A Declaração de Cambridge declara que os substratos neurais das emoções parecem não estar confinados às estruturas corticais, portanto não são exclusivas dos mamíferos mais inteligentes ou do ser humano.

A crença de que animais agem meramente por instinto não procede, porque no que diz respeito às sensações e emoções, eles agem exatamente como os seres humanos. Não é a capacidade de raciocínio que torna um animal (ou um ser humano, mais ou menos sensível à dor ou mais ou menos passível de sentimentos).

No entanto, agir como humanos ou “quase” como humanos não é o objetivo dos animais não humanos. Tendemos a ver golfinhos, chimpanzés, cães, papagaios africanos cinzentos e outros animais como quase humanos, seja porque sonham, seja porque são capazes de perceber seu próprio reflexo no espelho e saber que olham para si mesmos (auto-percepção). Tomar a nós mesmos como medida para conferir senciência para o outro é um grande erro especista.

Sabemos com certeza que, no grupo dos vertebrados, pelo menos mamíferos e aves experimentam o sofrimento psicológico, além da dor física que certamente é sentida também por todos os demais vertebrados e pela maioria dos invertebrados. No entanto, é falho crer que devamos respeitar apenas os direitos de seres auto-conscientes ou capazes de sentirem a dor psicológica, pois a dor física deve ser motivo suficiente para evitarmos causá-la.

Porquanto a ciência seja falha em poder determinar o limite da senciência, creio que devamos adotar o principio da precaução em relação aos sentimentos dos animais. Animais que apresentam sinais externos de dor e estresse certamente sentem dor, mas não apenas eles. Animais que não apresentam sinais perceptivos de dor, mas que fogem propositalmente a estímulos dolorosos devem ser considerados sencientes, quais sejam.

Animais que apresentam sistema nervoso organizado ou mesmo difuso, como no caso dos cnidários, devem ser organismos sensíveis. Vemos como anêmonas se retraem perante ameaças, e como buscam ativamente seu alimento mesmo sendo fixas ao substrato. Vemos como hidras, medusas e caravelas forrageiam atrás de seu alimento, e como fogem de predadores. Se isso não for senciência não sabemos o que é.

Cnidários são o grupo de invertebrados mais complexo após os poríferos e neste grupo já encontramos células nervosas e células sensoriais, já encontramos células contráteis e toda a maquinaria necessária para perceber o ambiente à sua volta e fugir da dor. Esses animais não possuem cérebro, mas redes nervosas espalhadas pelo corpo e que de certa forma se coordenam.

Os equinodermos (estrelas do mar, ouriços do mar, bolachas do mar, pepinos do mar, ofiuros) são certamente sencientes. Nós os vemos se protegendo de predadores, buscando intencionalmente abrigos ou intencionalmente buscando seu alimento. Esses animais possuem anéis nervosos em volta da boca e vários nervos se irradiando daí para todo o corpo.

Igualmente sencientes devemos considerar todos os vermes (platelmintos, asquelmintos, anelídeos), com seu sistema nervoso central ainda incipiente, constituído de gânglios cerebroides e anéis nervosos; os moluscos com seu sistema nervoso ganglionar (e não apenas os cefalópodes, dentro desse grupo, pois mesmo os gastrópodes e bivalves possuem gânglios cerebroides, pedálicos e viscerais como as lulas e polvos tão celebrados como sencientes). E certamente os artrópodes, com seu sistema nervoso ganglionar.

Ainda necessitamos que a ciência valide a senciência animal, para que descubra o que já sabemos há tempos, que devemos respeitar seus direitos, por mais distintos que seu organismo seja do nosso.

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