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Uma pista oferecida por Derrida e Roudinesco

A questão animal não é uma questão entre outras, naturalmente. Se a considero decisiva, como dizem, já há tanto tempo, em si mesma e por seu valor estratégico, é que, difícil e enigmática em si mesma, ela representa também o limite sobre o qual se apagam e determinam todas as outras grandes questões, e todos os conceitos destinados a cingir o próprio do homem, a essência e o futuro da humanidade, a ética, a política o direito, os direitos do homem, o crime contra a humanidade e o genocídio. (Derrida, 2001, p. 81)

Há quem defenda que a defesa dos direitos animais pode se sustentar em intuições e empatia, quando não na mera compaixão. Talvez isso seja possível no nível da decisão individual, embora possa não atingir uma sólida garantia de manutenção no tempo. Quando se pretende ir além da noção de “faço a minha parte” e se cultiva o entendimento de que não queremos ser meros exemplos, mas ativos na divulgação de um ideário, a fundamentação se faz necessária, imprescindível até, assim como o conhecimento de áreas pouco exploradas e não menos esclarecedoras.

Ninguém sustenta um embate, apoiado no sentimento e na empatia e, de outro lado, é difícil apresentar a defesa animal sem encontrar uma oposição – seja com argumentos banais para cuja réplica já temos cartilhas, seja com consistência, de onde partem análises menos idealizadas do “progresso” do discurso em defesa dos animais. Também será difícil sustentar uma mudança de vida no nível pessoal baseada na empatia e do sofrimento, do qual podemos simplesmente nos distanciar, evitar e, por fim, voltar a ignorar.

Cada vez temos mais literatura especializada e de qualidade no campo da questão animal, defendendo direitos animais ou os contestando. Desconhecê-las não é inteligente. Adotar uma linha e se tornar seguidor acrítico, tampouco. Produzir teorias com caráter dogmático não parece guardar afinidade com a proposta filosófica e, quando ocorre, em geral não parte de filósofos.

Alguns textos foram se tornando clássicos, para não dizer óbvios, quando se iniciam leituras sobre a causa animal. Um diálogo parece-me ter passado despercebido, embora repleto de fôlego analítico, falhas e acertos. Trata-se de um diálogo multidisciplinar estabelecido entre Elisabeth Roudinesco, historiadora e também referência destacada na psicanálise, e Jacques Derrida, que dispensa apresentações.

Derrida estabelece seus pressupostos ao colocar a questão da animalidade para além do fonocentrismo ou do logocentrismo, encaradas como tentativas de simplificar ou menosprezar por meio do limite oposicional aquilo que é muito mais complexo e menos límpido: “o homem é um deles, e irredutivelmente singular, sabemos; mas não existe O Homem versus O Animal.” (p. 82) Derrida problematiza o corte, tema caro também à antropologia, entre natureza e cultura ou, neste caso, entre os animais e o animal humano.

Admitindo o histórico de violência contra os animais, reconhece como a mais grave, qualitativa e quantitativamente, a violência atual – industrial, científica e técnica – como algo a ser mudado e que diz muito de quem é o homem. A esta pergunta quem é o homem atual, a senhora Roudinesco definirá, sem o querer, páginas adiante e com muita sinceridade. Ao ser questionada sobre o que faria se passasse na frente de sua casa diariamente um caminhão de bezerros levados ao matadouro, responde: não comeria mais carne ou me mudaria.

A seguir, ela tenta se emendar, alegando que, para compreender uma situação e obter o recuo necessário, é melhor não ser testemunha ocular. Uma premissa nada válida, por exemplo, para a antropologia, preconizadora da pesquisa de campo e para quem o distanciamento se efetiva por meio de uma triangulação entre teoria, impressões do pesquisador e impressões das fontes primárias, e nunca abre mão de ser mais do que testemunha ocular, uma testemunha que participa.

Bem, mas o que fica de sua resposta é, por certo, um sentimento comum a este homem que coloca o seu bem-estar e prazer, seja o de ingerir, seja o de não saber, neste caso colados, acima de qualquer dever moral. De imediato chama atenção o fato de que, apesar de fazer forte oposição à equiparação dos animais aos homens no que diz respeito a direitos jurídicos, mantendo a noção de corte como garantidora para estatuto de sujeito de direitos, Roudinesco incluiu numa seleção de nove temas por ela definidos como “das grandes interrogações que perpassam nossa época” um intitulado “Violência contra os Animais” e todos eles estão publicados no livro “De que Amanhã… diálogo (Rio de Janeiro, Zahar, 2001), nome retirado do poema de Victor Hugo (Oh! Amanhã é o grande momento! De que amanhã se trata? Espectro que nos segue lado a lado, e que se chama amanhã.)

Por mais que o título do capítulo sobre animais nos suscite o enfoque bem-estarista, o que o diálogo entre dois importantes pensadores nos traduz são reflexões nada óbvias ao campo em que transitamos com nossas referências usuais. Porém sim, há partes que podem perfeitamente ser classificadas como bem-estaristas, porque Derrida vê a emergência de uma mudança de mentalidade em curso no rumo do repúdio à violência contra os animais e, ao mesmo tempo, parece se contentar com o fato de que é possível “mudar as condições qualitativas, a quantidade, a avaliação da quantidade, bem como a organização geral do campo da alimentação” (p.99). A intuição me sugere que ele teme ir além, muito embora gostasse. Em outra passagem do referido diálogo, ele dirá: “na transformação do direito atual, mesmo conservando a axiomática geral do direito humano, progressos podem ser feitos para o aprimoramento das relações entre os homens e os animais no sentido do respeito máximo. Não estou dizendo que não se deva tocar na vida animal, digo que não se deve, alegando a violência existente entre os animais, na selva ou em qualquer outro lugar, se entregar às piores violências, isto é, ao tratamento puramente instrumental, industrial, químico-genético deles” (p. 93)

Note-se que Roudinesco está sempre confrontando Derrida e que Derrida não chega a ousar nada que se aproxime do abolicionismo, embora se mantenha irredutível no ataque à violência contra os animais. A objeção de Roudinesco ao vegetarianismo é estranha para nós. Sua ideia de que é preciso comer carne não se refere a aspectos nutricionais, mas psicanalíticos. Recebe de Derrida a seguinte resposta: “não basta se proibir de comer carne para se tornar não-carnívoro. O processo carnívoro inconsciente tem muitos outros recursos se não acredito na existência do não-carnívoro em geral. (…) A psicanálise nos ensinou: os vegetarianos também podem incorporar, como todo mundo, e simbolicamente, o vivo, a carne e o sangue – de homem ou de Deus…” ou do animal. (p. 87) Isso porque “existe no consumo da carne, como aliás no caso da pena de morte, uma estrutura sacrificial, e portanto um fenômeno cultural ligado a estruturas arcaicas que persistem e que é preciso analisar. Provavelmente nunca se deixará de comer carne ou (…) algum substituto da coisa carnada.” (p. 91)

Enfim, ele aposta numa substituição simbólica, enquanto ela resiste a esta possibilidade, baseada na força da pulsão de destruição. Embora o diálogo siga por outros caminhos (eles falarão sobre touradas, personalidade jurídica, genocídio, contrato jurídico, passarão por Kant, Bentham, Lévinas, Lacan, Heidegger, Adorno, Ferry), essa foi a parte que mais me interessou, que lamentei não tivesse sido mais explorada e que, penso, deveria interessar aos movimentos de defesa animal, isto é, perscrutar o que está por trás da defesa da ingesta de carne, que esteja para além do paladar e da ordem do dietético. Que estão escondidas e caladas em camadas mais profundas, enquanto nós, da defesa animal, só mexemos na exterioridade.

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