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A Loba Capitolina e as ‘delícias’ do descobrimento

Do que sabemos dos medas, persas, assírios, babilônios, fenícios, cartagineses, gregos, romanos, germânicos, hebreus, árabes, Idade Média, Renascimento é uma sinistra relação de fomes e empanturramentos”
(Luís da Câmara Cascudo)

A estátua de bronze que reproduz, em tamanho natural, uma loba alimentando os lendários gêmeos Rômulo e Remo transformou-se no símbolo da cidade de Roma e num dos ícones culturais que povoam o imaginário coletivo dos italianos. A estátua da Lupa Capitolina assim denominada por integrar o acervo dos Museus Capitolinos em Roma, traduz, sob determinada ótica, a própria interação simbiótica entre o homem e o mundo natural. De fato, o acolhimento, o cuidado e a relação interespécies é algo relativamente disseminado na natureza como um todo.

Segundo consta, Rômulo e Remo eram filhos de Marte, deus da guerra, e da vestal Rea Silvia, uma sacerdotisa que, em virtude de seus compromissos religiosos, deveria manter-se virgem, sob pena de castigo capital. Não lhe sendo, portanto, permitido criar os gêmeos, a mãe colocou os recém-nascidos num pequeno cesto e os jogou no Tibre, rio que atravessa Roma.  A correnteza, que poderia tê-los levado para alto-mar, conduziu-os até uma margem seca. Marte então, na tentativa de salvar os filhos, envia uma loba que os amamenta junto com suas crias. Pouco depois são encontrados pelo pastor Fausto, que deles se apiedou e os recolheu, fazendo-os criar pela sua mulher, Larentia. Quando já crescidos, tal como narra a lenda, Rômulo mata Remo na disputa pelo comando da cidade, iniciando o período monárquico subsequente.

Fato é que por muito tempo os italianos atribuiram aos etruscos a autoria da referida estátua de bronze. Essa atribuição muito se deve à admiração que os primeiros nutrem em relação aos últimos. Até cerca de 500 a.C. os etruscos representavam a nação Etúria, Tuscia ou Tirrena e seu território abrangia a atual região da Toscana e Úmbria. Eram tidos como grandes escultores e artistas, trabalhando o metal com esmero. Todavia, essa pretensa ligação entre a origem da estátua representativa do mito de fundação de Roma e os etruscos sofreu severo golpe em agosto de 2008, quando cientistas da Universidade de Salerno contestaram sua idade por meio da datação com carbono-14. Descobriu-se que a estátua era bem mais nova do que se imaginava e que fora feita por volta do século XIII ou XIV d.C. e não 1.800 anos antes.

A notícia causou alvoroço e certa decepção para a maior parte dos italianos. Mal comparando, seria como se descobríssemos que as magníficas obras de Da Vinci não fossem de sua autoria, ou que os afrescos da Capela Sistina tivessem sido pintados séculos depois do que se supunha. Os romanos, como mencionado, possuem uma forte identificação com os etruscos, dos quais efetivamente receberam fortes influências nas artes, na política, na religião e na gastronomia.

A história da Loba Capitolina, na realidade, serviu como uma introdução para que chegássemos ao ponto que nos interessa em particular: a transmissão irrefletida da influência gastronômica de nossos antepassados e a tradição do elogio da dita “boa” mesa ou da “boa” cozinha, que utiliza necessariamente produtos de origem animal. No caso específico dos antigos habitantes da Toscana, se é certo que não foram os responsáveis pela famosa obra de arte, foram conhecidos como grandes banqueteiros. Tal como assinala a jornalista Jadia Lopes, “descreviam-nos como amantes do luxo e da ostentação. Observando as cenas dos banquetes eternizadas nos afrescos e relevos dos túmulos, qualificavam-nos de ‘escravos do ventre’ (gastriduloi). O poeta veronês Catulo (84 a.C. – 54 a.C.) chamou-os de gordos (etruscus obesus), embora naquela época também se associasse a obesidade à boa saúde e prosperidade material. O banquete tinha para os etruscos duplo significado.

 O primeiro era religioso. A comilança acontecia durante uma cerimônia fúnebre e homenageava o morto. O outro era social. A qualidade da comida atestava o status social do defunto. No início, só os homens compareciam aos banquetes. As mulheres foram admitidas mais tarde e, pela posição em que aparecem nos afrescos e relevos, seriam as esposas dos convivas e não prostitutas, como nas comilanças em Pompeia. O ovo era o primeiro prato servido. Seguiam-se peixes do mar e água doce, moluscos, morcelas, carnes assadas em geral, de caça, galinha, faisão, ganso e a obrigatória porcheta ao forno – leitoazinha desossada e recheada. A seguir, vinham frutas e tortas de queijo e mel. Bebia-se vinho misturado com água e ervas que suscitassem alegria ou facilitassem a digestão. O poeta romano Horácio (65 a.C. – 8 a.C.) contou que em um desses banquetes foi servido um ‘riquíssimo grou (ave pernalta) ao sal’”.

A maior parte das pessoas, ainda hoje, enxerga nessa descrição um elogio à chamada “boa mesa”, ou à cozinha tradicional, exclusivamente voltada aos supostos prazeres sensoriais dos pratos servidos e, simultaneamente, completamente alheia e descompromissada com a moralidade daquilo que se come. Essa desconexão é perturbadora e também se faz notar na recente obra Delícias do Descobrimento: A Gastronomia Brasileira no Século XVI, de autoria de Sheila Moura Hue (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008). O livro, que já no próprio título valora positivamente a culinária ibérica medieval, aborda os textos de missionários, senhores de engenho, aventureiros e viajantes de diversas nacionalidades que por aqui aportaram e põem o leitor em contato com a cozinha brasileira do século XVI.

Há dois pontos capitais que sobressaem da leitura do texto: o primeiro deles é a triste percepção de que o abuso e a exploração dos animais não-humanos são frutos de uma longeva e impressionante continuidade histórica; o segundo é que a obra não se limita a trazer um relato histórico dessa cozinha, mas também se presta a elogiá-la e, também aí, desvela uma anacrônica apologia da utilização de animais para a configuração da dita “boa mesa”.

Nesse trabalho de recuperação do que se comia no Brasil logo após o descobrimento, a autora divide a obra começando pelas plantas e, em seguida, passando aos animais. Para cada espécie de animal abordada, há uma receita típica, trazida dos tratados de cozinha portuguesa e do livro de cozinha da infanta D. Maria (Lisboa, INCM, 1986). Não há como resistir à tentação de citar alguns trechos relativos à essa última parte, que demonstram, à toda prova, uma insensibilidade exploratória sem limites, aumentada em nossos dias com o advento da criação industrial de animais para abate.

Segundo consta, naquele período a carne de paca era muito valorizada. “Era uma das melhores que há na terra”, segundo Gândavo, o primeiro a descrever esse mamífero roedor. Todos os portugueses comparam o sabor da carne de paca (Agouti paca) ao da carne de porco. Mas o francês Jean de Léry achava o gosto parecido com vitela, e via para a bela pele do animal um mercado certo na França: ‘É muito bonita, manchada de branco, pardo e preto e se o tivéssemos seria muito apreciado no vestuário’. As cutias também não escapavam de melhor sorte: “para que todas as suas potencialidades se revelassem, requeria os mesmos cuidados que a carne de paca: não as esfolavam, apenas pelavam-na, como um leitão. A pele crocante era seu grande atrativo”.

Curioso notar a enorme gama de crendices populares que, felizmente, poupavam parcialmente algumas espécies, como no caso da própria cutia, que não era ingerida pelas índias grávidas com o receio de que as crianças nascessem magras; dos tamanduás, que também não eram comidos pelos índios, pois deles tinham nojo pelo fato de se alimentarem de insetos; ou ainda dos quatis, pouco consumidos por serem considerados impuros: “vivem na beira de regatos, alimentando-se de restos de animais mortos que ali se encontram”.

O livro continua com o seu rol de animais utilizados como instrumentos na gastronomia. O relato atroz segue com a narrativa a respeito do abate, bem como de receitas, de macacos, gambás, golfinhos, aves das mais diversas espécies, peixes, moluscos, répteis e anfíbios. Todos impressionam. Sobre a captura do peixe-boi, por exemplo, a autora reproduz o que afirma Soares de Sousa: “a estes peixes se mata com arpões muito atados a um barril ou boia, porque lhe largam com o arpão a arpoeira, e o arpoador vai numa jangada seguindo o rastro do barril ou boia, que o peixe leva atrás de si com muita fúria, até que o peixe se vaza todo de sangue, e se vem acima da água morto. Ambrósio Fernandes Brandão relata que havia grandes pescarias de peixe-boi, animais dóceis que se deixam pegar facilmente, e que eram capturados em grupos, com pouco esforço”.

As descrições aterradoras não se limitam aos animais ditos “silvestres”. Há inúmeras receitas culinárias cujas vítimas são vacas, porcos, cabritos, galinhas, perus etc. As porcas, vistas como mero mecanismo reprodutivo, “pariam uma infinidade de leitões, todos muito tenros e saborosos”. Os mutuns, ave parecida com o pavão, “eram mortos a flechadas ou caçados com cães”. Os tucanos, segundo o padre Fernão Cardim, “eram bons para comer”. A “fartura” dos peixes do mar também já era bastante explorada. O diário de navegação de Pedro Lopes de Sousa, relativo ao dia 16 de outubro de 1531, conta que: “fomos com os batéis fazer pescaria e em um dia matamos dezoito mil peixes, entre corvinas e pescadas e anchovas; pescávamos em fundo de oito mil braças; quando lançávamos os anzóis na água, não havia aí vagar de recolher os peixes”. Os polvos, por sua vez, eram capturados sem clemência nas marés baixas e, “para se comerem os açoitam primeiro, e quanto mais lhe derem mais então ficam moles e gostosos”.

Assim como os italianos admiram a voracidade etrusca e tentam manter as suas práticas culinárias, nós tendemos a valorizar as nossas cozinhas tradicionais e toda sua absurda glutonia. Os relatos tanto de lá como de cá revelam esse cruel e egoísta descompromisso com a vida. Como mencionado, há uma triste rotina de continuidade histórica da culinária que se utiliza de produtos de origem animal e que explora a vulnerabilidade alheia. Devemos quebrá-la. Os hábitos alimentares, os pratos e as formas de comer devem merecer contínua reflexão ética. Termino, de forma propositadamente irônica, com a frase da contracapa do livro Delícias do Descobrimento: “o leitor está servido”?

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