Vanguarda Abolicionista

Freak fora de foco ou 'Roadkill cuisine'

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo / E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita / Indesculpavelmente sujo” – Fernando Pessoa, em ‘Poema em linha reta’

Então esses dias passou em algum canal de TV a cabo – olha, eu nem tenho televisão em casa, o que recomendo a todos – uma reportagem sobre um ‘freegan’ na Inglaterra. O sujeito, já adentrado nos anos, come os animais atropelados que encontra pelas rodovias de seu país. Texugos já com larvas, carniça de aves e outros acepipes são recolhidos do asfalto, levados para casa e congelados até o preparo. A alegação dele é que ‘blá-blá-blá’.

Dentro de seu potencial deseducador, o programa não explicou nem separou freegan de meagan, e quem nunca tinha ouvido falar em tal termo – estimo que 99% da audiência – já aprendeu errado. Meus cordias cumprimentos à tecnologia.

De outra sorte, a tola idéia de se consumir animais não-humanos morto pelo ‘acaso’ – a chamada roadkill cuisine – vai como um capricho da eterna fixação anal humana de comer carne, comer carne. Sim, para o animal tanto faz – supostamente, já que ninguém aqui, por mais que arrote certezas religiosas, sabe o que está atrás da cortina do capotamento final. Mas até aí ninguém come o cachorro da família, depois que ele parte para o paraíso dos focinhos, postes e rabos-a-serem-cheirados. É mais fácil apenas ir à feira e comprar legumes etc, e cuspir no sistema sem B12 animal na saliva, mas a ordem materna do ‘come tudo, filhinho’ impede que o povo se permita pensar de forma crítica.

Não basta o humano ser carnista como garantia de normalidade, aquela coisa que cumpre o que está escrito no caderninho, sem que ninguém faça piada, e ainda aparecem sub-gênios fazendo uso do corpo morto daquele que cruzou uma rodovia no diabo do instante errado. Haja asfalto, animal silvestre, estômago de ferro e MUITO tempero para matar a fome dessa gente.

Fora que esse tipo de coisa dá idéia para muito freak que, por falta de foco ou por raiva dos vegetarianos-veganos-ou-simpatizantes, se dispõe a dar seu show frente aos amigos incrédulos – obviamente munidos de câmera e contando os minutos para correr ao YouTube.

Ficam os não-humanos nessa condição de alvo, prato principal, figurinha para filatelia, culpado por A ou B, responsável por C ou D, fetiche ambientalista, peça de museu, ralo, argamassa para preenchimento de vazios sentimentais, ‘galinha-dos-ovos-de-ouro’, bibelô, matéria-prima, moeda podre, altar dos desesperados e… fetiche oral.

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Destaques, Notícias

Empresa de brinquedos debocha do sofrimento dos animais vítimas de atropelamento

Por Lobo Pasolini (da Redação)

Foto: Reprodução/Vírgula

Uma empresa inglesa chamada Roadkill, uma expressão que se refere aos animais acidentalmente mortos por carros em estradas, vende bonecos que simulam os corpos dos animais amassados, com as entranhas escapulindo e olhos esbugalhados.

É óbvio que o que eles querem fazer é algum tipo de humor negro, mas infelizmente eles calcularam errado as possíveis consequências de fazer marketing em cima do sofrimento e da morte de outros seres.

O maior problema é a maneira como a empresa faz seu marketing. Em um dos vídeos de promoção da empresa, um menino compra um coelho de uma pet shop e depois o joga de um viaduto. Quando a câmera foca no corpo, o que se vê é um brinquedo Roadkill, contradizendo em cheio a ideia de que o animal morreu ‘por acidente’.

Até mesmo uma postagem do blog brasileiro Vírgula notou que o marketing dessa empresa vai longe demais: “Alguns [vídeos] são de gosto um pouco duvidoso e não nos espantaria se acabassem virando alvo de organizações de defesa dos animais. Afinal de contas, bichinho de pelúcia tudo bem, mas não é para ninguém sair por aí jogando coelhinhos na estrada, né?”

Bichinho de pelúcia realmente tudo bem, mas não bichinhos amassados por uma máquina que invade cada vez mais o habitat de animais silvestres.

Os hipócritas da Roadkill têm, ainda, a audácia de declarar em seu website que “gostam de animais” e que fazem doações para a WWF e RSPCA. Recentemente eles adotaram um urso-polar, eles dizem.

Assista aqui a um dos vídeos da Roadkill, em que um coelho é cruelmente morto por uma criança:

Eu imagino que as pessoas por trás dessa empresa se acham o suprassumo da ironia, mas eles não passam de irresponsáveis promovendo violência junto a um público jovem e altamente impressionável e influenciável.

Roadkill é o equivalente de fazer a “Barbie Estuprada” para vender para meninas.

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