Colunistas, Olhar Literário

Reflexos de luz

Prometi uma crônica poética de fim de ano e ainda estou aqui folheando, a esmo, este maldito pergaminho de Física que tanto me atormentava em tempos idos. Vejam só que curioso… Num trecho da apostila está escrito que o fenômeno da reflexão consiste no ato de a luz voltar a se propagar no meio de origem, após incidir sobre um objeto ou superfície lisa. Usada na projeção de imagens tridimensionais – prossegue a lição – essa técnica se aplica na construção dos espelhos e, também, nos sistemas de lentes dos telescópios. Décadas depois do colegial eu continuo sem entender nada. Para mim a capacidade de ver a própria imagem refletida ou o fragmento vivo do universo desconhecido que pulsa acima das nossas cabeças ainda causa uma sensação de perplexidade.

Se bem que há uma outra coisa inusitada que os reflexos de luz provocam na gente. Tem a ver com as especulações sobre o Eu profundo que nos habita, estas caraminholas da consciência agônica capazes de aumentar nosso humano sofrimento. Posso até arriscar a dizer, de modo didático, que a placa refratora gera aquilo que os físicos chamam de reflexão especular. E eis que, de repente, surge a presença iluminada do homem diante do homem. O Eu e o Outro qual duplo dividido entre o céu e a terra, entre o ser e o não ser, entre a realidade e a representação. Disposto a tirar a prova dos nove, detenho-me a observar o estranho vulto que se metamorfoseia a cada dia no espelho e pergunto: quem és tu?; corpo vivo, luz refletida ou nada disso? Acho melhor parar com tantas cismas e voltar ao texto.

O foguetório lá fora ofusca o brilho das estrelas e eu, em sofridas linhas, vou tentando encontrar inspiração para o artigo. Ajusto a sintonia para abafar o rumor que sobe das ruas e uma ideia começa a surgir. Vem duma música ao longe, não me lembro o seu nome, qual reflexo difuso de luz fugidia. O que diz a letra? Love this funny thing /I never really go/ Ijust go alone and sing a song / I dont know my way / wheather go or stay… Seria real ou tudo em mim permanece ficção? Seja como for, da minha gaiola de concreto armado deixo correr o rio da memória. O tempo então se torna a quarta dimensão do espaço e tudo parece mais leve. O brilho da estrela extinta já não é passado, ele vive dentro aqui. Posso agora sentir tudo outra vez, reconhecer, ressurgir. Uma inocência quase primitiva faz-me acreditar que não estou só. Tenho a certeza de dormir para depois acordar.

A canção toca no rádio e eu fico a questionar se ela não é fruto da minha mente expatriada. Penso no Dostoiévski da grande dor existencial, na poesia de Cesariny com suas esquinas desencontradas, penso no Cortázar das flores amarelas e na tragédia contemporânea de Antônio Marinheiro. Procuro a poética no mundo vasto mundo em que vivemos e quase nada encontro. Por onde andará o compositor latinoamericano sem dinheiro no banco? Em que perdida esquina ficou o Clube da Esquina? E da melodia mais bela do trio de máscaras andrógenas que ousou desafiar a ditadura militar, quem é que Fala? Cadê o rebelde incompreendido que não pôde botar seu bloco na rua? Por que fecharam o Blue Riviera das noites insones da boemia? E o soul daquela jovem voz contralto para sempre silenciada? Penso neles todos, na obra que legaram ao mundo, no brilho irradiado de sua Arte, penso nos vivos e nos mortos. Enquanto isso, no rádio, a doce canção não me deixa.

Clic. Um sujeito invade o quarto e acende a luz, a pretexto de assistir do alto o amanhecer do ano que nasce. Enquanto aguarda a meia-noite o intruso assume o controle de tudo: escancara a janela, desliga o som, quebra o sonho e, não satisfeito, senta-se ao computador para mexer no texto que aparece na tela. Pelo visto ele não gostou de nada, altera sem dó nem piedade meu pobre script natimorto. Sem conseguir traduzir “Reflexos de luz” ao inglês, troca o título para “Luz extinta”. Seu artigo, até onde consegui ler, afirma que toda reflexão poética é inútil e que a estética romântica está morta e enterrada. Porque na vida real, segundo ele, não há lugar para o simbólico e tampouco para sentimentalismos… Em seguida o crítico levanta-se da cadeira, abre uma garrafa de vinho e se posta à janela, como que a ofertar um brinde a 2016. No céu de guerrilhas faiscantes o estrondo das bombas e foguetes é saudado pela multidão em festa.

BRUUUUUMMM!!! Cristo Senhor, o que foi isso? Um morteiro ou sabe-se-lá-o-que estoura bem aqui e arrebenta a vidraça, projetando meu visitante para trás. O sujeito aterrorizado, cego pelo clarão, ensurdecido pelo barulho e mudo pelo susto, parece um animal acuado. Ele agora é um gato eriçado de olhos enormes, ele é uma ave perdida e depenada, ele é um cão ofegante capaz de atravessar portões, ele é um peixe asfixiado pela pólvora, é um bicho trêmulo a se enfiar pelos cantos. – Calma irmão, isso passa, calma! As luzes artificiais vão se apagando uma a uma e aos poucos tudo sossega, menos o meu compatriota agachado com as mãos sobre a cabeça. Olho para o relógio: já é madrugada e o prometido texto do reveillon nem sequer pude enviar. Mas que se dane o conto poético, há alguém a sofrer e que precisa de ajuda. Passados o susto e as horas, recolhidos os cacos do chão, religo o som e aquela velha canção – “That Love” (agora lembrei o seu nome!) – torna a pacificar o mundo…

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Colunistas, Desobediência Vegana

Veganismo: não faça as coisas por mim

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Pintura de Mark Ryden

Uma das frases mais simples e admiráveis está no movimento punk: faça você mesmo. Não espere por ninguém. Não siga, não seja mais um. Invente, se não houver alternativas ao seu redor. Se estende para além da música. Não seja como aqueles que se deixam influenciar por qualquer suspiro e seguem a corrente, manipulados até os ossos.

Quando trabalhamos com a educação e direitos animais, é comum ouvirmos que somos fanáticos religiosos. Nascemos com a imposição de comer carne, mas temos que ouvir que estamos ‘impondo um modo de alimentação’.

O caso é que, como as perguntas são sempre as mesmas, as respostas acabam sendo sempre as mesmas e claro, há respostas para quem pergunta e argumento, se é o caso de precisar. Até mesmo a ciência que se considera isenta, tem lá seus dogmas, sobretudo os que nós tentamos derrubar. Como, por exemplo, a vivissecção, método ultrapassado, segue sendo defendido ferrenhamente por cientistas obsecados. Cada movimento pode ter seus fanáticos, seus loucos e os que tentam, através do convencimento, motivar pessoas e trazê-las para sua ideia.

Nossa iniciativa, no entanto, não é convencer, é ser. Através da informação, se o sujeito adulto não tomar consciência de tudo o que o cerca, não somos nós que iremos o submeter. A sociedade por demais já o submete.

A motivação aqui é ética e a motivação religiosa é outra. Por isso religião tenta convencer. Cada religião convence para seu dogma, independente dele ser coerente ou conectado com a prática. E, cá para nós, “É necessário mesmo pedir perdão?”. A pessoa motivada por ética não precisa convencer. O outro é que se contradiz nas próprias palavras. Nunca precisei dessa técnica, e acho que é isso que irrita muita gente…. Os vivisseccionistas saem da sala nos debates, se alteram visivelmente, e isso sim é um comportamento muito semelhante a quem tenta convencer pelo fanatismo.

Justamente na ciência, onde eles poderiam descobrir novas alternativas, além das que existem e evitam usar, para o já ultrapassado modelo animal.

O fato de eu não ser perfeita também não é o que faz uma pessoa se tornar vegana. Uma pessoa se torna vegana por que leu a respeito, por alteridade, por respeito ao outro, por uma série de fatores que vai além da pessoa que lhe transmitiu a informação.

Portanto, se uma pessoa deixou de ser vegana por que leu um artigo, por que não ‘concordou’ com uma ideia minha ou de qualquer outrém, é por que precisa amadurecer para o fato de que o veganismo não está nas pessoas, está em algo maior que isso. Todos que conheci que se tornaram veganos, o fizeram por si mesmos. Alguém pode ter feito a conexão, mas depois desta ligação, o voo é livre.

E, lembrando, estamos falando aqui de adultos. Quem deixa de ser vegano pela opinião de alguém, é por que não está bem certo do que deseja ou não consegue afirmar-se perante os demais.

Existem infinidades de pessoas escrevendo sobre este tema, e muitas delas são celebridades, outras são pessoas comuns. A maior parte inclusive, mais contribui para colocar mais confusão na cabeça das pessoas, mais espalha desinformação do que esclarecimento. Boa parte dos leitores apenas lê em redes sociais, um fenômeno atual, uma horda de analfabetos funcionais que mal sabem interpretar fotografias, e apenas se atém a memes.

O professor, o escritor, o jornalista, o sujeito que escreve, é fonte eterna de influência e precisa saber disso. Ele deve usar cada linha como uma arma e uma ferramenta de trabalho que irá transmitir o que deseja, mas do outro lado, espera-se que o leitor tenha cérebro para ler, maleabilidade para sacar e compreender as sutilezas de cada texto, sem que com isso, tenha um xilique cada vez que não gostar do que leu.

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Você é o Repórter

Evento de lançamento do livro “Escritos Éticos & Picaréticos”

Dennis Zagha Bluwol
dennis_zb@yahoo.com.br

A editora independente Ética & Picarética convida para o lançamento do livro ESCRITOS ÉTICOS & PICARÉTICOS, de Dennis Zagha Bluwol – um Zine-Livro de produção simples contendo:

– Três crônicas onde a pauta do Veganismo e questões ligadas à libertação animal e humana, assim como a reflexão sobre a experiência humana e civilizacional no planeta são questões primordiais.

– Três contos de ficção com temas diversos.

– Um artigo teórico intitulado “Críticas ao Conceito de Natureza, ao Ambientalismo e ao Veganismo em Tempos de Capitalismo ”.

 – E mais…

Local: ESPAÇO IMPRÓPRIO (Rua Dona Antonia de Queiroz, 40 Consolação – São Paulo/SP)

Dia 14/08, às 20h

Venda de comida vegana. Venha comer e conversar!

Livro à venda no dia por R$ 10,00.

Publicação independente que depende de vender as primeiras cópias para pagar as segundas, para pagar as terceiras….

Contatos: eticaepicaretica@gmail.com

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Tao do Bicho

Crianças, animais e reflexões

Uma vez encontrei uma amiga que me contou que a sua filha mais nova – uma menininha de apenas três anos – havia brigado com ela por uma razão que eu aprovaria. O motivo da briga foi uma barata. Minha amiga disse que ao bater numa barata com um chinelo, para matá-la, sua filhinha disse: “– Você nunca mais faça isso! Não viu que ela (a barata) já estava indo para a casa dela?” Sensacional, não é mesmo? Baratas são consideradas repugnantes e indignas de qualquer tipo de compaixão, mas aquela garotinha foi capaz de ter esse sentimento por ela. De onde veio tal compaixão? Certamente não foi com a família, ou a sociedade, que ela aprendeu isso.

Outro episódio muito interessante foi uma conversa que ocorreu entre outra menina – de três anos também – e sua mãe, a respeito do enterro de um familiar. Sua mãe me contou que ficou totalmente desconcertada diante de uma série de questões que teve início quando a menina perguntou qual seria o destino do corpo de seu avô. A partir daí houve um bombardeio de perguntas do tipo: “Se quando a gente morre fica só o corpo, isso também acontece com os animais? Se o corpo do avô seria enterrado, por que os corpos dos animais são servidos como comida?” E mais: “Para que nós possamos comer os animais, eles tinham que ser mortos, ou morriam naturalmente?” Incrível, não é mesmo?

É interessante notar que nem todas as crianças fazem perguntas desse tipo. Mas a verdade é que as que fazem tais indagações acabam, de um jeito ou de outro, recebendo respostas mentirosas ou, no mínimo, tendenciosas como: “Sim, os animais são mortos para nos servir como alimento porque estão aqui para isso; sim, eles são mortos para ‘virar comida’, mas não sofrem nada; sim, são mortos e alguns até sofrem um pouquinho, mas esse é um mal absolutamente necessário porque não podemos ter uma boa saúde com uma dieta isenta de carne e outros itens de origem animal” etc. etc.
Todos nós já temos, desde crianças, uma programaçãozinha interna que pode ser chamada de espírito, alma (ou outra denominação), a qual, posteriormente, vai mudando e se adaptando, pelo menos em parte, ao mundo que nos circunda. Essa modificação de nossa essência interior vai paulatinamente se intensificando na medida em que vamos recebendo a influência da matriz de racionalidade que constitui a realidade construída na qual vivemos. Essa aquisição de novas “lentes” – através das quais passamos a perceber e sentir nosso entorno – de certa forma obnubila essa instrução que vem de dentro, que faz parte de nossa essência. Passamos por um adestramento que faz com que determinadas perguntas não sejam mais colocadas, sob pena de parecermos ridículos e, com o tempo, até mesmo a nossa forma de pensar vai se modificando. E algumas questões que, guiadas por nossa intuição, seriam fortemente rejeitadas, passam a ser naturalizadas ou banalizadas, como por exemplo, o sofrimento dos outros.

Muitos animais com os quais convivemos vêm a nós como crianças pequenas, nos admirando, nos fazendo companhia e pedindo nossa compaixão. O que lhes damos em troca? Está cada vez mais evidente a necessidade de praticarmos um consumo ético e nos preocuparmos com a origem dos produtos que consumimos: se causam sofrimento aos animais; se exploram o trabalho de seres humanos; se geram impactos ambientais ou sociais etc. Nosso dinheiro pode alimentar cadeias muito destrutivas. Esta é uma boa orientação para a montagem da nossa mesa: que mundo estou ajudando a construir e a perpetuar por meio das minhas escolhas individuais?

Que possamos aquilatar o quanto nossas escolhas – na sociedade industrial – têm sido as piores possíveis no que tange à natureza, aos animais e a nós mesmos, seres humanos. Um fio condutor muito profícuo para uma reflexão crítica a respeito de nosso porvir no planeta é o conceito de especismo, uma vez que, a partir dele, muitas questões, cuja interdependência é pouco clara, se manifestam de maneira inequívoca. Deixemos que desperte a criança que há em cada um de nós.

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