Colunistas, Direitos Animais

O artesão e a centelha

Um lugar comum da vida dos escritores profissionais, particularmente aqueles dos quais se exige grande prolixidade, como cronistas e colunistas de jornal, é a falta de assunto. Sobre o que escrever? O leitor (e o empregador) não quer saber se lhe faltam ideias ou notícias a comentar naquele determinado dia. Há que mostrar produtividade. É difícil manter um padrão de qualidade, de relevância e profundidade quando nos permitem tão pouco (uma lauda, com sorte) e nos exigem tanto (um texto por dia, e nem quero começar a pensar nos blogueiros profissionais, que precisam atualizar o conteúdo quase que de hora em hora).

Mas, afinal, do que estou reclamando? Em primeiro lugar, não sou escritor profissional. Em segundo lugar, não tenho uma coluna diária num jornal ou página de internet. Por fim, assunto é o que não me falta. Há tanta injustiça ocorrendo cotidiana e simultaneamente no mundo, que é humanamente impossível dar conta de tudo, mesmo que tenhamos apenas um dia para nos prepararmos. Pois a injustiça não descansa, não tira férias e não dá trégua.

Nos jornais de 25 de fevereiro de 2010 podemos ler: morreu, em decorrência de uma greve de fome , o dissidente cubano Orlando Zapata, perseguido político, condenado por “desobediência”, “desordem pública” e “resistência” [1], isto é: condenado e em última instância morto por confrontar um regime desumano – pois desumano é um regime que persegue seus oponentes e lhes deixa morrer de fome por intolerância e intransigência, não importando com quais fantasmas, reais ou imaginários, ele se bata, nem que propósitos, torpes ou sublimes, ele alegue ter. Seu funeral se deu sob estrita vigilância e algumas dezenas de subcidadãos cubanos foram detidos “preventivamente” [2]. Os políticos latino-americanos, que se dizem tão sensíveis às injustiças, silenciaram de forma vergonhosa, inclusive dois dos mais loquazes, que gostam de dar palpite em tudo, e que visitaram Cuba no mesmo dia: os presidentes do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, e da Venezuela, Hugo Chávez [3]. Cúmplices de um crime. Nenhuma lágrima será vertida por esse infeliz na casta de intelectuais e ativistas europeus e latino-americanos que dizem lutar por um mundo mais “justo e igualitário”. Não admira que um dos seus símbolos seja o globo terrestre invertido: eles não querem o fim da opressão, e sim a troca de papel entre opressores e oprimidos.

No dia 24 de fevereiro de 2010 a ONU divulgou que 346 crianças morreram no Afeganistão apenas em 2009, em função da “Guerra ao Terror”, 131 delas (37,8% do total) em função de ataques aéreos das forças da OTAN, que também atingiram mais de 600 escolas [4]. Apenas um dia antes foi noticiada a morte de 27 civis, confundidos com terroristas, também em ataque aéreo da OTAN, a qual reconheceu o próprio o erro e pediu “desculpas”; já o secretário de Defesa dos EUA simplesmente disse que “erros acontecem” [5].

E o que dizer da violência contra os animais, a mais covarde e injusta de todas, pois promovida contra seres incapazes de se defender? No dia 23 de fevereiro de 2010 veio a público o caso de animais criados pela indústria da pele na Finlândia, um dos maiores produtores dessa “mercadoria” em todo o mundo [6]. O vídeo-denúncia afirma que são 50 milhões de animais vitimados anualmente por esta indústria. Ele mostra pequenos mamíferos cobiçados por sua beleza, confinados, empilhados, mutilados, expostos a epidemias e danos neurológicos e, por fim, eletrocutados e asfixiados, tudo em nome da “moda”, enquanto estilistas e designers denunciam a “hipocrisia” e o “politicamente correto” contra sua “liberdade criativa”. Não deixam de estar certos quanto à hipocrisia. Afinal, grande parte dos seres humanos que alegam repulsa contra as atrocidades e a frivolidade do comércio de peles não abre mão do seu igualmente atroz e frívolo bife, frango grelhado, salame, ovo cozido, queijos refinados ou iogurte “light”, dentre outras especialidades da indústria da morte.

E esses são apenas exemplos recentes. Alguns número genéricos podem ajudar a colocar a questão em contexto. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do estado, foram 5.794 homicídios em 2009 e 5.717 em 2008, médias de cerca de 35 para cada 100 mil habitantes, estatística digna de países em guerra [7]. E, por falar em guerra, na Faixa de Gaza, na Palestina, apenas na ofensiva israelense do inverno de 2008-2009, mais de mil palestinos morreram. A região é ocupada por Israel desde 1948 e foi palco de inúmeros conflitos armados desde então, perpetrados pelos dois lados. Nessa disputa assimétrica, porém, a balança de sofrimento pende de forma inegável e desmedida para um deles: o palestino. Os palestinos convivem com a pobreza generalizada; violações frequentes das liberdades públicas e do direito de locomoção; a construção de um muro de concreto de “defesa”, que divide o território palestino e incorpora mais terra ao Estado de Israel; o bloqueio econômico que asfixia sua já limitada economia. Milhares de palestinos foram removidos à força de suas casas, desde o início da ocupação israelense. O índice de desemprego na Faixa de Gaza, segundo a OXFAM, supera a marca de 40% [8]. E, para piorar o quadro, corrupção, autoritarismo e disputas fratricidas entre as próprias autoridades palestinas atingem uma população que vive prisioneira há mais de seis décadas.

Por fim, neste exato momento, milhares de seres sensíveis estão sendo mortos, mutilados, torturados pelo simples fato de não serem humanos. Os dados defasados da FAO (de 2003) falam em 45,9 bilhões de galináceos, 1,24 bilhão de suínos, 345 milhões de caprinos e 292 milhões de bovinos abatidos por ano, para citar dados de apenas algumas espécies de animais “de criação”. As estimativas seriam de um total de 50 bilhões de animais abatidos para consumo em 2003, e, com o aumento do consumo de produtos de origem animal no mundo, a tendência é esse número apenas aumentar. E percebamos que esses dados se referem apenas aos países que fazem tal levantamento estatístico, apenas no setor da alimentação, excluindo o extermínio de animais em outras indústrias, e o número incalculável de animais marinhos mortos pela indústria pesqueira [9].

Dificilmente vocês ouvirão manifestações públicas de repúdio a eventos dessa natureza de uma mesma fonte. Pois, infelizmente, a solidariedade humana é bastante seletiva. O sofrimento de uns vale mais que o de outros, a depender de afinidades culturais, étnicas, sociais, políticas, ideológicas e, claro, afinidades de espécie.  Perdidos entre cada lado do muro da Guerra Fria, que não mais existe no mundo material, mas persiste e persistirá por muitas décadas no mundo das ideias, as vítimas humanas da opressão continuarão a existir e multiplicar-se. Quanto aos animais não humanos, os humanos opressores e oprimidos, cotidianamente, irmanam-se ao menos nessa prática, numa matança de escala incomparável para servir seu paladar, curiosidade e orgulho de superioridade, num holocausto fútil e absolutamente evitável. Nas palavras de meu amigo e colega escritor Rafael Jacobsen: “apesar de o número exato de pessoas exterminadas pelos nazistas nos campos de concentração ainda ser objeto de pesquisa e debate, as estimativas mais avantajadas apontam para (…) um total de 22.130.000 pessoas (sim, mais de 22 milhões). Faço mais um rápido cálculo mental e começo a rir: esse número representa mirrados 0,04% em comparação com os tais de 50 bilhões de animais mortos a cada ano. Súbito, a imensa tragédia do holocausto adquire contornos de brincadeira de criança” [10].

Tudo isso se dá enquanto alguns, como eu, se dedicam a este inocente (e alguns diriam inócuo) ofício de pensar e escrever. Não admira mesmo que ativistas das mais variadas causas tenham uma certa desconfiança daqueles que usam a pena como arma, e a verdade como munição. O que palavras vãs podem contra as dores que se materializam a cada hora, minuto, segundo? “Palavras, palavras, palavras”, como diria Hamlet. Como a palavra pode aliviar a dor? O que resta diante de tantas insanidades? Toda a experiência humana, toda a sua história, seus feitos, conquistas, suas artes e descobertas empalidecem, tornam-se fúteis, perdem sentido quando a vida humana e animal é tratada com total descaso e descartada como lixo; quando os indivíduos são silenciados, atados, perseguidos e, por fim, mortos, apenas por serem mais frágeis ou pensarem diferente ou terem uma origem diversa; quando suas mortes são desconsideradas, como se jamais sequer tivessem existido; vistas como efeito colateral ou mal necessário; ou tidas como resultado da ordem natural das coisas, um sofrimento material sobre o qual não pesa qualquer sofrimento moral, seja por seus algozes, seja pelas testemunhas omissas.

E, no entanto, a palavra tem poder, sim.Todos nós, mesmo os mais imediatistas e voluntaristas, e os menos eruditos, trabalhamos com ideias e conceitos que alguém um dia se deu ao trabalho de colocar no papel. O escritor dificilmente inaugura alguma tendência. A originalidade é uma impossibilidade matemática: com tantos seres humanos vivendo ao mesmo tempo, expostos aos mesmos estímulos, alguns deles partilhando dos mesmos interesses ou vivendo sob as mesmas condições, é difícil comprovar o pioneirismo em qualquer corrente filosófica. Contudo, o escritor dá método e coerência às ideias que estão soltas no mundo.

O escritor é um artesão da palavra. Se ele pouco ou nada cria, ainda assim sua arte e ofício são mais importantes do que a maioria é capaz de admitir ou mesmo reconhecer. Ele verbaliza as tendências de sua época, é um porta-voz de seu tempo. Não cria revoluções, mas ajuda a propagá-las, incendiando as mentes de seus contemporâneos. Ele fabrica a cola que une aqueles que partilham de suas ideias, dá a estas a coerência necessária para a ação consciente e eficaz, e as exporta para além do estreito círculo em que elas habitam. Sua palavra pode ser a última arma que resta para jogar luz sobre a brutalidade que é praticada nas sombras e questionar a indignidade que é justificada pelos tiranos. O artesão pode, pela sua pena, lançar aquela centelha de dúvida, esperança ou entusiasmo que possibilita a mudança e inspirar aquele vislumbre de sabedoria e conhecimento necessários para despertar consciências e, em última instância, conquistar a vitória sobre a ignorância e a injustiça.

Sinto profunda tristeza quando vejo meus semelhantes calarem diante de todas essas formas de tirania, desmerecerem a vida de suas vítimas e negligenciarem sua dor. Se nada mais posso fazer por esses indivíduos feitos não indivíduos, corpos animados transformados em matéria inanimada, posso ao menos usar minha pena e minha voz para denunciar seu flagelo, demonstrar minha indignação e minha recusa em compactuar com uma realidade tão atroz. Nesse caso, a palavra não é apenas uma forma de aliviar o próprio sofrimento que experimentamos diante do sofrimento alheio. É também uma forma de despertar consciências para que talvez, no futuro, elas sejam abolidas, para nunca mais virem a se repetir.


[1] “Anistia Internacional pede a Cuba que libere seus prisioneiros políticos”. In: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2010/02/24/ult34u219092.jhtm. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[2] “Comissão denuncia prisão de opositores antes de enterro de dissidente”. In: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2010/02/25/funeral-de-dissidente-cubano-sob-vigilancia-e-repressao.jhtm. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[3] “Análise: Visita de Lula a Cuba sinaliza a sucessor importância de laços”. In: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u698312.shtml. Acessado em 25 de fevereiro de 2010. Sobre a proverbial política externa ativa do governo Lula, gostaria de recordar a antológica observação do ex-presidente argentino Néstor Kirchner: o Brasil quer eleger até o Papa. Claro que nosso governo usou a falácia da “não-intervenção” para silenciar sobre o prisioneiro cubano, assim como já fez sobre as eleições fraudadas e repressão popular no Irã. A desculpa colaria se nosso governo tivesse tido o mesmo pudor ao tratar do golpe de Estado em Honduras e das bases estadunidenses na Colômbia. O presidente também nega ter recebido qualquer carta dos dissidentes cubanos. Diante do currículo (ou folha-corrida) desse governo, quem dá um tostão pela veracidade da alegação? Dizem que nossa política externa é autônoma e afirmativa, mas a mim parece mais hipócrita e covarde, com certeza refletindo as melhores qualidades dos homens e mulheres que a comandam.
[4] “Ataques aéreos mataram 38% de crianças vítimas de conflito afegão em 2009”. In: http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2010/02/24/ult1807u54493.jhtm. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[5] O GLOBO. “OTAN mata por engano 27 civis no Afeganistão”. 23 de fevereiro de 2010, p. 26.
[6] “Grupo pelos direitos dos animais denuncia sete fazendas de pele, na Finlândia”. In: https://www.anda.jor.br/?p=48376. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[7] “Taxa de homicídios no Rio não usa base do IBGE”. In: http://urutau.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/Uploads/SaiunaImprensa10_059.pdf. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[8] OXFAM. “The Gaza Strip: A Humanitarian Implosion”. In: http://www.oxfam.org.uk/resources/downloads/oxfam_gaza_lowres.pdf. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[9] JACOBSEN, Rafael. “Ano Novo, Velhos Números”. In: http://vista-se.com.br/site/ano-novo-velhos-numeros. Acessado em 25 de fevereiro de 2010.
[10] Idem.

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Artigos

Ano novo, velhos números…

Sendo um físico teórico, um dos meus instrumentos de trabalho mais preciosos é a matemática. Por isso, com o tempo, apaixonei-me pelos números e, cada vez mais, enxergo neles uma beleza ímpar. Há ocasiões em que quase chego a duvidar de que sou um físico legítimo, pois a matemática envolvida nos problemas de pesquisa às vezes me fascina muito mais do que as questões físicas em si. Ao acompanharem meus trabalhos, alguns colegas, em tom de galhofa, dizem: “Olha, só posso parabenizá-lo por ter entrado para o time dos matemáticos puros.” Outros, mais austeros, aconselham: “Acho que você deveria perder menos tempo com a matemática e mais tempo com a física.” Mas eu sou teimoso e ainda acho que uma equação fala mais do que três bilhões e meio de palavras. A beleza dos números me seduz.

Todavia, sou um caso quase isolado: a maioria das pessoas detesta lidar com números, torce o nariz para fórmulas, sofre engulhos só de ver um gráfico. Mas sigo convicto da verdadeira maravilha que os números representam. Não é fantástico perceber, embora não se saiba a razão, que qualquer número par pode ser escrito como a soma de dois números primos? Não é simplesmente de cair o queixo que uma mesma proporção esteja presente em fenômenos tão distintos quanto a multiplicação de indivíduos nas sucessivas gerações de um casal de coelhos e também em diversas medidas do corpo humano (a altura total e a medida do umbigo até o chão; a altura do crânio e a medida da mandíbula até o alto da cabeça; a medida da cintura até a cabeça e o tamanho do tórax; etc.)? Ou, mais fundamentalmente, não é desconcertante o fato de que um mesmo conjunto de símbolos, uma mesma construção lógica, que é a matemática, sirva bem a propósitos tão prosaicos quanto contar conchinhas na beira da praia mas também nos permita calcular há quantos bilhões de anos nosso universo existe?

Sim, os números estão repletos de beleza, mas também podem ser extremamente cruéis. Há contextos em que a beleza dos números se esvazia por completo; então, a matemática já não é capaz de provocar qualquer sensação de enlevo. Ao contrário, nesses casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona tudo que há de pior em nós, seres humanos: a desesperança, a revolta, o ódio. Os números que descrevem o holocausto animal constituem um desses casos.

Em 2003, com base nas estatísticas da FAO (Food and Agriculture Organization
of the United Nations) sobre agricultura, o Secretariado da União Vegetariana Europeia, apresentou o número de animais mortos no mundo para consumo humano durante aquele ano. Os números foram estabelecidos a partir de relatórios provenientes de mais de 210 países, mas devemos levar em conta que alguns países e territórios não fornecem dados. Os números foram os seguintes:

– Galinhas e frangos: 45 bilhões e 900 milhões

– Patos: 2 bilhões e 260 milhões

– Porcos: 1 bilhão e 240 milhões

– Coelhos: 857 milhões

– Perus: 691 milhões

– Gansos: 533 milhões

– Carneiros, ovelhas, cordeiros: 515 milhões

– Cabras: 345 milhões

– Bois, vacas, vitelos: 292 milhões

– Roedores: 65 milhões

– Pombos e outras aves: 63 milhões

– Búfalos: 23 milhões

– Cavalos: 4 milhões

– Asnos, mulas, machos: 3 milhões

– Camelos e outros camelídeos: 2 milhões

A matéria do Centro Vegetariano* sobre o tema alerta ainda que a soma de todos esses números fornece um total de mais de 50 bilhões de animais, sem ter em conta os animais aquáticos (peixes e crustáceos). Os números referem-se apenas aos animais abatidos nos matadouros. Excluem-se os animais de criação extensiva (geralmente para consumo doméstico), assim como os que são alvo da caça, difíceis de contabilizar por não haver qualquer tipo de controle. Certamente não estão incluídos nos números os desafortunados animais assassinados em rituais religiosos e tampouco os cães e gatos
exterminados em sua globalizada Auschwitz particular, os famosos centros de controle de zoonoses. De tudo isso, só podemos depreender que a realidade é muito pior.

Diante desses números, toda beleza se esvai, escorre feito o sangue dos inocentes animais mortos em nome de nossos vícios e de nossa ganância, restando, então, a carcaça exangue do puro horror. São dados antigos, mas basta olhar ao redor para perceber que as coisas não podem ter melhorado (e, nesse caso, mesmo que os números caíssem pela metade, a chacina ainda teria dimensões dantescas).

Em um trabalho publicado em 2001, Luiz Antonio Pinazza, redator de pecuária e política agrícola da Revista Agroanalysis**, da Fundação Getúlio Vargas, joga um balde de água fria no otimismo vegetariano:

*A formulação das tendências de consumo é investigada pelo The International Food Policy Research Institute (IFPRI), seguindo um modelo alimentar mundial em que se incluem dados originários de 37 países e grupos de países e 18 produtos. Conhecido como Impact (International Model for Policy Analysis of Agricultural Consumption), o cenário do início dos anos 90 até 2020 prevê um aumento do consumo da carne e do leite de respectivamente 1,8 e 3,3% nos países em vias de desenvolvimento e de 0,6 e 0,2% nos países desenvolvidos. Ou seja, até 2020, em toneladas métricas, os países em vias de desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas de carne e mais 223 milhões de leite. *

Resumo da ópera: o número de animais mortos só vem crescendo e vai crescer ainda mais. Se, em 2003, as estatísticas mais modestas apontavam 50 bilhões de vítimas, hoje, no final de 2009, estamos, certamente, encerrando um ano em que tal número foi superado e vamos receber, de braços abertos, um novo ano em que, mais uma vez, o recorde será batido. Ano novo, vida nova? Infelizmente, penso que não: ano novo, velhos números; ano novo, idênticas atrocidades. Um interessante testemunho do século XIX pode ajudar a ilustrar a constância do banho de sangue em que vivemos imersos.

O romancista russo Leon Tolstói (1828-1910), por sua vez, levou a cabo a experiência à qual a maior parte de nós se recusa, aquela mesma experiência considerada pelo filósofo escocês John Oswald (1760-1793) como um alerta à sensibilidade natural do homem: Tolstói visitou um matadouro. O escritor, bem como qualquer vegetariano de qualquer outra época, estava acostumado a viver em uma sociedade erigida sobre a exploração animal. Já ouvira todas as razões antigas e conhecidas pelas quais, supostamente, matar animais para comer é aceitável e até natural, coisas como “Deus permite”, ou “todo mundo faz assim”. A respeito disso, escreveu ele:

“Não existe mau cheiro, som, monstruosidade aos quais o homem não consiga se acostumar a ponto de deixar de ver, escutar e cheirar a aparência, o som e o odor do mal.”

Tal convicção reforçou-se ainda mais com sua visita ao matadouro, descrita por ele nas seguintes palavras:

“ (…) na longa sala, já impregnada com o cheiro de sangue, só havia dois açougueiros. Um soprava a perna de um carneiro morto e batia no estômago inchado com a mão; o outro, um rapaz de avental emplastado de sangue, fumava um cigarro torto. (…) Depois de mim entrou um homem, aparentemente um ex-soldado, trazendo um jovem carneiro de um ano, preto com uma marca branca no pescoço, de patas amarradas. Este animal ele o pôs sobre uma das mesas, como se numa cama. O soldado velho saudou os açougueiros, que evidentemente conhecia, e começou a perguntar quando o seu patrão lhes permitia ir embora. O camarada com o cigarro aproximou-se com o facão, afiou-o na borda da mesa e respondeu que estavam de folga nos feriados. O carneiro vivo estava ali deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era horrivelmente revoltante.”

Para nós, hoje, seria um alívio (ainda que um alívio questionável) descobrir que os matadouros de agora são menos “revoltantes” do que aquele que Tolstoi descreve. A verdade é bem outra. A frieza com que os animais são mortos é exatamente a mesma. São diferentes apenas duas coisas: hoje, os animais são mortos em escala industrial, no que poderíamos de chamar de verdadeiras “linhas de desmontagem”, que contam com as mais bizarras tecnologias (esteiras com ganchos para suspender as vítimas, serras elétricas, tonéis de escalda etc.); além disso, os matadouros não param mais nos feriados – funcionam noite e dia, ininterruptamente, para atender a imensa e crescente demanda por carne. O que mudou, em suma, foram os números, muito mais grandiloquentes do que seria capaz de imaginar o mais megalomaníaco dos genocidas.

Abro uma revista que assino e que acabo de receber em casa, uma publicação da comunidade judaica, e encontro mais uma matéria sobre os horrores perpetrados pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Descubro que, apesar de o número exato de pessoas exterminadas pelos nazistas nos campos de concentração ainda ser objeto de pesquisa e debate, as estimativas mais avantajadas apontam para 3.5 milhões de poloneses não-judeus, 3.5 milhões de poloneses judeus, 2.5 milhões de judeus de outras  racionalidades, 6 milhões de civis eslavos, 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 1.5 milhões de dissidentes políticos, 800 000 ciganos, 300 000 deficientes, 25 000 homossexuais, 5000 Testemunhas de Jeová, fornecendo um total de 22.130000 pessoas (sim, mais de 22 milhões). Faço mais um rápido cálculo mental e começo a rir: esse número representa mirrados 0,04% em comparação com os tais de 50 bilhões de animais mortos a cada ano. Súbito, a imensa tragédia do holocausto adquire contornos de brincadeira de criança. Olho para a televisão e vejo uma repórter alarmada informar que, apesar da constante queda nos números, mais de 2 milhões de pessoas ainda morrem em decorrência da AIDS todos os anos. Faço uma ágil regra-de-três, descubro que esse número – 2 milhões – é o número de animais oficialmente assassinados em apenas 20
minutos e caio na gargalhada. Aprimorando o ensaiado olhar de luto, a repórter passa à nova manchete, a qual ela própria define como “uma carnificina”: 38 mortos no feriado de Natal nas estradas federais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Recuso-me a fazer qualquer conta sobre isso; naquele momento, a notícia soa-me completamente ridícula, algo que nem merece ser computado.

Como disse, em certos casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona tudo que há de pior em nós, seres humanos, inclusive a frieza perante a desgraça. É quase  impossível não ser sufocado por tal número – 50 bilhões! –, frente ao qual todas as misérias humanas parecem ínfimas, desprezíveis, negligenciáveis, assim como aqueles centésimos e milésimos após a vírgula que são dispensados quando, em um problema matemático, enunciamos a resposta final. Não acho bonito, não é isso o que desejo, mas a frieza dos números toma conta de mim. Viro um cubo de gelo. Insensível.

É claro que a maneira mais decente de encarar esses funestos eventos, a matança de animais humanos e não-humanos, é pensar sobre o drama individual, sobre a experiência dolorosa de cada um deles, sobre a tortura física e mental que cada qual, intimamente, teve de suportar antes da morte. Quando resumimos (ou ocultamos) tudo isso através de números, deixamos de lado a real dimensão do drama e corremos o risco da insensibilização. É, de fato, uma pena que sejamos obrigados a conviver com estatísticas tão berrantes e macabras. E é ainda mais lastimável que, ao que tudo indica, essas estatísticas, no ano que se inicia, venham a ser ainda mais berrantes e mais macabras. Recuso-me, portanto, a festejar mais um ciclo de matança que se inicia. Enquanto todos estiverem fazendo a tradicional contagem regressiva para a chegada do novo ano, permanecerei calado. Minha contagem particular começará à meia-noite em ponto: um, dois, três, quatro, cinco… e vou contabilizando, em tempo real, os animais mortos nesse recém-nascido 2010. Mas a matemática, nessas horas, é implacável, e eu logo descubro ser impossível a tarefa: são mais de 38 000 assassinatos a cada segundo.

Ao redor do mundo, o ano já se inicia com a tétrica ceia, repleta de corpos chamuscados sobre as mesas, modesto prenúncio de tudo que está por vir. Paradoxalmente, as pessoas desejam paz umas às outras, com as bocas cheias de nacos de carne. Tenho vontade de repreendê-las, “Tirem o cadáver da boca para falar!”, mas fico quieto. Penso novamente em Tolstói, que há muito já alertava sobre quão vãos serão todos nossos anseios de paz enquanto a violência fizer parte de nossos atos corriqueiros. Dizia ele: “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”. Haverá mesmo.

Mais uma vez, os galináceos se salvarão, afinal ciscam para trás e, portanto, não é de bom agouro devorá-los em noite  réveillon; os porcos, no entanto, fuçam para a frente, e, por isso, tornam-se os defuntos mais cobiçados. O leitão da ceia é apenas um infeliz que se adiantou às estatísticas. Enquanto o porco fuça para a frente, fica para trás, bem para trás, perdendo-se na poeira da distância, qualquer sinal de escrúpulo ético.
Um novo ano se anuncia. Vai começar tudo de novo…

Referências Bibliográficas

* Centro Vegetariano
**Planeta Orgânico  


Rafael Jacobsen
é coordenador do Grupo Porto Alegre da SVB.

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Entrevistas

O veganismo como forma de se posicionar no mundo

Rafael JacobsenRafael Bán Jacobsen é físico, professor, escritor, poeta e músico, além de atuante defensor dos direitos animais. Nasceu em Porto Alegre, no dia 21 de maio de 1981. Vegetariano ativista, é fundador e atual coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) em Porto Alegre, proferindo palestras sobre o tema em encontros nacionais (site www.svbpoa.org). Recebeu o prêmio “Ativista Vegetariano do Ano” conferido pela Sociedade Vegetariana Brasileira por ocasião do 1º Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-Americano (2006). Participa, ainda, do Grupo pela Abolição do Especismo (GAE) de Porto Alegre (site: www.gaepoa.org), entidade que, além de promover o estudo crítico de textos filosóficos sobre o abolicionismo animal, realiza periodicamente manifestos de grande repercussão no Rio Grande do Sul.

ANDA: Físico, professor, pianista, escritor e ativista pelos direitos animais; suas credenciais são muitas, e, em cada área na qual você atua, maestria e singularidade são evidenciadas. Sim, somos fãs de seu trabalho e queremos saber: a par das especialidades já listadas, em que mais você se destaca?

Rafael: Antes de mais nada, agradeço muito pelos exageros, digo, pelos elogios (risos). Não tenho certeza se, de fato, me destaco em todas essas atividades às quais me dedico, mas, certamente, eu as desempenho por gosto e vocação. Mas pensando em alguma outra habilidade que eu tenha, bem, as pessoas costumam dizer que eu cozinho bem, embora eu não cozinhe com frequência por pura falta de paciência. Além disso, dizem que eu teria talento para ser humorista. Aliás, o meu arremedo de stand up comedy com situações vividas por vegetarianos no dia a dia já de tornou famoso por aí. Também dizem que sou bom para fazer imitações. Desde o colégio, sempre imitei todos os meus professores, mas também faço imitações de celebridades, desde as mais óbvias, tipo o Lula e o Sílvio Santos, até outras mais insuspeitas, como a Marília Gabriela.

ANDA: Autor do premiadíssimo romance “Solenar” e do novo “Uma Leve Simetria” e de uma série de contos e crônicas publicados em veículos diversos, seu apreço pela boa literatura é claro. Quando e como se deu a descoberta e o desenvolvimento de seu gosto por ler e escrever?

Rafael: A paixão pelas letras surgiu muito cedo em mim. Cresci cercado de livros e em uma família de leitores e contadores de história – coisa que, aliás, é bastante judaica. Talvez a única coisa que tantas mulheres e homens judeus tenham tido em comum através dos tempos até nossos dias, desde os filósofos medievais até os anarquistas do século XX, é o respeito pelos livros, pela inteligência, pela educação e pela cultura. Assim, minha aproximação com as letras foi quase natural, e, tão logo aprendi a ler e escrever, já ousei inventar e registrar minhas próprias histórias. Desde então, jamais deixei de buscar refúgio nas letras. Apesar dessas constatações, é difícil precisar o que leva alguém a se tornar um escritor. Tive a sorte (ou azar) de nascer assim. Desde que me entendo por gente, criei mundos na minha imaginação, e, quando aprendi a ler e a escrever, as muitas leituras às quais me entreguei acabaram fomentando a transposição dessas minhas fantasias para o papel, sob a forma da escrita. Mas concordo bastante com a escritora Marilene Felinto que diz: “Escritores são pessoas que, num determinado momento da vida, sofreram algum tipo de trauma que os levou a ter essa compulsão pela literatura, pela criação de um mundo paralelo ao mundo real. Preferia não ter que escrever, mas é como se eu não tivesse direito a essa opção. Escrever é um atrapalho.”

ANDA: Conte-nos, também, como e quando surgiu o veganismo em sua vida. Foi tranquila a adesão a essa “filosofia” de vida?

Rafael:
Tornei-me vegetariano da noite para o dia, sem refletir muito e sem influência direta de alguma coisa externa. Durante minha infância, sempre ajudei minha mãe a recolher e tratar animais de rua, ficava revoltado com parentes que iam pescar, tinha terror ao ver cavalos mal tratados pela cidade, mas não estendia essa compaixão e, mais do que isso, esse respeito aos animais que me serviam de alimento. Um certo almoço, diante de um pedaço de frango, um mal-estar súbito me tomou, um sentimento de culpa terrível. Não consegui terminar aquela refeição e, daquele dia em diante, deixei de comer carne. Foi praticamente uma “revelação”. Isso foi há doze anos. Na época, eu não conhecia nada sobre vegetarianismo, o que até foi muito bom, porque, assim, eu também não tinha os preconceitos que as pessoas em geral têm em relação ao tema (tanto que nem me intitulava “vegetariano”, eu era apenas “alguém que não come carne”). Por isso, ao contrário de muitos que fazem a transição para o vegetarianismo, eu não tive grandes preocupações, não tinha medo de ficar fraco ou doente, não pensava que me alimentar sem carne seria mais caro ou trabalhoso, nada disso. Foi, portanto, uma mudança bem tranquila. Nos meses que se seguiram a essa “revelação”, como disse, eu me dediquei a tentar racionalizar aquele sentimento que me levara a abdicar da carne e comecei a buscar, na internet, receitas sem carne, informações sobre criação e abate de animais, e logo descobri toda a crueldade e, mais importante, toda a falta de ética que está envolvida na obtenção de produtos de origem animal como um todo. Não havia, então, a enorme quantidade de sites e grupos de discussão que hoje temos; mesmo assim, tudo que vi e li foi mais do que suficiente para mim. Poucas semanas depois de largar a carne, abandonei os demais produtos de origem animal e abracei o veganismo. Hoje, o veganismo é uma das coisas mais importantes da minha vida, é a minha forma de me posicionar no mundo, e é algo tão forte que, acredite se quiser, não consigo ter lembranças nítidas de mim mesmo comendo animais (exceto por aquele último frango); é como se fosse tudo um filme velho e borrado sobre algo que é puramente ficcional e jamais aconteceu na realidade. Tendo respondido a pergunta, faço uma observação quanto a essa designação que, frequentemente, usamos para o veganismo: uma “filosofia” de vida. Concordo, sim, que se trata de uma filosofia entre aspas. Recentemente, tive a alegria de hospedar em minha casa o historiador vegano Bruno Müller, meu amigo pessoal, e debatemos, entre vários temas, o veganismo enquanto “filosofia” de vida. Motivado por essa discussão, ele escreveu um texto que, penso, vale a pena citar para fomentar um debate sobre essa forma que tanto empregamos para definir o veganismo: O veganismo não é uma opção de vida. É um imperativo ético. Um dever. Se é um dever, é uma regra. Uma regra obrigatória. E obrigatória para todos. Senão, seria uma regra arbitrária e, consequentemente, sem sentido. (…) Fazer do veganismo uma “opção individual” torna a prática ainda mais nobre: enquanto todos os outros se entregam aos prazeres da carne, nós nos abstemos estoicamente. Por consciência. É uma “filosofia de vida”: que chique! É uma bela forma de angariar simpatia, eu admito. Mas não é honesto.    

ANDA: Sendo coordenador da SVB – Porto Alegre, você vem acompanhando a popularização do veganismo e o desenvolvimento do ativismo local em primeira mão. Como têm seus conterrâneos – conhecidos por sua alimentação rica em defuntos – reagido às tentativas da SVB-Porto Alegre de promover a educação e a conscientização, por uma vida mais ética?

Rafael: Porto Alegre é um lugar de opostos, por tradição. Aqui, ou você é gremista ou colorado fanático; ou você é petista (eleitor do PT) ou ferrenho anti-petista; ou você é maragato ou é chimango. É uma coisa quase histórica essa bipolarização. Por isso, na mesma medida em que o churrasco come solto em Porto Alegre, ela é também uma das cidades em que o movimento vegetariano é mais forte e articulado. Já dizia o bom e velho Isaac Newton: a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas de sentido contrário. Em Porto Alegre, por exemplo, há mais de 20 restaurantes vegetarianos, número comparável apenas a São Paulo. Com trabalho da SVB na cidade, que começou aqui em 2005, tenho reparado que o interesse pelo vegetarianismo é crescente, cada vez mais pessoas aderem ao vegetarianismo e ao veganismo (principalmente jovens). Também está se firmando um ativismo da causa. Nunca antes ocorreram tantas palestras, seminários, encontros e manifestos relacionados ao vegetarianismo (por exemplo: quando antes alguém tinha visto encenações com bandejas de carne humana e churrasquinho de gente na entrada da Expointer, uma das maiores feiras agropecuárias das Américas, ou pessoas de preto, no Dia de Finados, chorando em torno de uma lápide com fotos de animais, colocada em frente à maior churrascaria da cidade, ao som da Marcha Fúnebre?). De 2005 para cá, surgiu não apenas a SVB – Porto Alegre, mas também outras importantíssimas ONGs voltadas ao veganismo e aos direitos animais, como o Grupo pela Abolição do Especismo (GAE – Poa) e a Vanguarda Abolicionista, todas desempenhando um excelente trabalho. Ou seja: apesar dessa cultura de exploração animal que temos aqui no Rio Grande do Sul, as reações positivas têm superado as expectativas. Porém, quando atravesso, na hora do almoço, a praça de alimentação lotada de um shopping e não consigo ver um prato sequer sem um pedaço de bicho em cima, é impossível deixar de sentir um certo desânimo. Penso que lutar pela causa é quase um trabalho de enxergar gelo. Mas, mesmo que isso fosse verdade, não seria razão suficiente para deixar de lutar por algo em que acredito.

ANDA: Grupos e ONGs brasileiras – como VEDDAS, SVB, Gato Negro e mais – têm proporcionado à população muitos congressos, oficinas, encontros e todo tipo de eventos nos últimos anos. Estes promovem educação e confraternização a todos que buscam um mundo mais ético, e você, que ativamente participou de vários desses eventos, está qualificado a criticar/elogiar/sugerir melhorias aos mesmos. Manda:

Rafael: De fato, participei, seja como ouvinte ou palestrante ou organizador, de todos os grandes eventos atuais ligados à causa, como os Congressos Vegetarianos Brasileiros, o Encontro Nacional de Direitos Animais e o Primeiro Congresso de Bioética e Direito Animal, além de muitos eventos de menor porte em todo o Brasil. Considerando-se que a causa do veganismo e dos direitos animais no Brasil ainda é engatinhante, posso dizer que a qualidade e a quantidade desses eventos está muito boa, eu diria mesmo surpreendente para uma país que a recém começa a conhecer a existência dessas questões. A única questão que realmente me preocupa é a precoce fragmentação do movimento, coisa que se reflete diretamente nesses eventos. Certas ONGs não têm afinidade com outras, alguns expoentes da causa divergem de outros, e, assim, acaba havendo um boicote interno a essas iniciativas. É comum ver todos os membros de um dado grupo ignorarem solenemente um evento promovido por outro, ver um palestrante recusar um convite para participar de um seminário pelo fato de que algum “desafeto” estará também presente, e assim vai. Tudo isso me aborrece bastante. Eu me orgulho muito (e, sim, me gabo disso) de ter livre trânsito e bom diálogo com todas as ONGs que defendem a causa dos direitos animais e do veganismo no Brasil. Mas, infelizmente, percebo que sou exceção.

ANDA: Como está a agenda da SVB-Porto Alegre para 2010? Muitos projetos e eventos por vir?

Rafael: A agenda desse ano está especialmente movimentada, porque Porto Alegre sediará a terceira edição do Congresso Vegetariano Brasileiro, de 23 a 26 de setembro de 2010. Depois do sucesso das duas edições anteriores, é uma grande responsabilidade conduzir os trabalhos para a concretização da terceira. E, de fato, estamos trabalhando muito para fazer um belo evento. É verdade que Porto Alegre não tem as lindas praias de Floripa (que foi sede do Congresso Mundial), tampouco possui as 300 opções veganas de São Paulo e também não chega a ser o quarto município mais rico do Brasil, como Belo Horizonte. Mas não é por isso que Porto Alegre não vai ser a número um em participantes do congresso! Em breve, colocaremos o site do evento no ar e abriremos as inscrições – e esperamos que vegetarianos e simpatizantes de todo o Brasil se inscrevam em massa. Isso porque o Congresso Vegetariano Brasileiro é o grande evento do vegetarianismo no nosso país, uma grande reunião com variadas palestras, oficinas, demonstrações culinárias e apresentações artísticas, constituindo, assim, uma oportunidade única de confraternização e troca de ideias. Imperdível mesmo!

ANDA: Você é judeu. Praticante? Conte-nos sobre a relação de sua fé com o veganismo.

Rafael: Sim, sou um judeu praticante no sentido de que costumo frequentar a sinagoga pelo menos para a cerimônia de cabalat shabat, gosto de observar as festividades e estudar os textos fundamentais do judaísmo. E gosto, especialmente, de estudar as relações entre judaísmo e veganismo. Eu, particularmente, enxergo muitas conexões! Na Torá, a proibição de ingerir sangue, por exemplo, é enfática. Os judeus costumam contornar essa proibição lavando e se salgando a carne em um intrincado processo. Mas não importa o quanto se lave e se salgue um pedaço de carne, o sangue sempre estará ali. Assim, a proibição de ingerir sangue, se levada a sério, implicaria o vegetarianismo. Continuando nessa linha, devemos lembrar que, na Torá, existe o mandamento de não causar tsaar baalei chayim (sofrimento aos animais), e me parece suficientemente óbvio que a criação e o abate de animais são, sim, fonte de imenso sofrimento para os animais. Mas existe ainda, na Torá, um elemento ainda mais fundamental que, na minha visão, parece apontar para o veganismo. Se entre todos os mandamentos, leis, rituais e tradições do judaísmo tivéssemos de eleger o que há de mais importante, é certo que as opiniões convergiriam para os Dez Mandamentos, os quais, por sua vez, segundo os sábios, podem ser sintetizados num único princípio básico e essencial, tão essencial que é chamado “regra de ouro”: “Ama o próximo como a ti mesmo.” A maioria dos rabinos interpretam o “próximo” aqui referido como “teu próximo em mandamento”, isto é, os que estão sujeito à Aliança de Abraão (patriarca dos judeus) com Deus, o que, trocando em miúdos, seriam os judeus, excluindo-se, portanto, os gentios. Uma minoria de comentaristas rabínicos, no entanto, considera a regra de ouro aplicável a todos homens e mulheres. Essa interpretação ganha força se tomarmos a regra de ouro em sua forma negativa, conforme formulada pelo grande sábio Hilel, no fim do século I a.C.: “O que te é odioso, não o faças a teu próximo.” Sendo assim, se valesse a regra de ouro apenas entre judeus, estariam abertos precedentes absurdos como, por exemplo, a possibilidade de um judeu roubar ou matar um gentio sem violar aquele que é o núcleo essencial da mensagem de Deus, o que é absurdo. Logo, o princípio de amor e não-ofensa ao próximo deve se estender, no mínimo, a todos homens e mulheres. Interessante notar a tendência que os homens têm de buscar aplicar princípios éticos apenas àqueles próximos realmente mais próximos, aqueles mais semelhantes a si, excluindo, a todo custo, o maior número possível de outros indivíduos. A teoria interpretativa de não-validade da regra de ouro para quem não seja judeu segue nesse barco, o barco da segregação, que conduz diretamente aos mais diversos tipos de preconceito, sentimento esse que já fomentou, por exemplo, as atrocidades cometidas pelos nazistas nos campos de concentração. Então, eu pergunto: se é notoriamente perigoso e moralmente injustificável restringir nossa esfera de princípios éticos, por que insistimos em fazê-lo? Se é perfeitamente possível e indolor estender esses princípios não só a todos seres humanos, mas também a todos seres que, como nós, possuem corpos físicos sensíveis e interesse de manutenção da própria integridade e existência autônoma (leia-se “os animais”), por que não fazê-lo? Em vez de se questionarem sobre tais fatos, a maioria dos judeus prefere continuar em sua ignorância, acreditando que recusar carne de porco constitui o supra-sumo da abnegação e da santidade. Eu, ao contrário, avalio que, ante tudo isso, só resta o caminho do veganismo.

ANDA: “Vegansexualismo” – que tal e por quê?


Rafael:
Se a questão sexual estiver atrelada a um relacionamento que se pretenda duradouro, seja de que natureza for (casamento, namoro, amizade colorida), parece-me impossível que o veganismo não seja compartilhado por todos os envolvidos (e note-se aí que fiz questão de não restringir o número de envolvidos). Isso porque o veganismo não é uma dessas questões que podem ser contornadas em um relacionamento intenso e diário, não é uma mera questão de gosto pessoal, não é equiparável a divergências entre os cônjuges na escolha do time de futebol, por exemplo; como eu já disse, o veganismo é uma forma de se posicionar no mundo nas mais diferentes frentes: política, filosófica, ética, moral, estética, gastronômica, sociológica. Sendo assim, acaba havendo um verdadeiro abismo psicológico entre um vegano e um não-vegano, uma profunda ruptura que, na esmagadora maioria das vezes, inviabiliza a construção de um bom relacionamento. Porém, em se tratando de sexo casual, não creio que o ser ou não ser vegano importe muito; aliás, nesses casos, na minha opinião, nem saber o nome importa (risos).

Entrevista concedida, com exclusividade, à repórter da ANDA, Rachel Siqueira

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