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Cruz Vermelha Portuguesa organiza tourada e lucra com evento

Maurício Pereira
mauriciocgpereira@gmail.com

A Cruz Vermelha Portuguesa, delegação do Cadaval, organiza neste dia 19 de junho uma tourada cujas receitas (valor obtido após pagas as despesas com a organização de tal evento), dizem, revertem para a referida delegação.

Apesar de a Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval desmentir tal organização ela poderá ser comprovada no link:

http://www.cm-cadaval.pt/Events/PesquisaEventos.aspx?uid=89278336-2ab1-4b51-bb8c-be010d488a54&cat=0&d=17-06-2011

Já seria inaceitável, hipócrita e demonstrativo de uma total falta de escrúpulos aceitarem dinheiro resultante duma prática que, segundo definição da própria UNESCO:

“A tauromaquia é terrível e venal arte de torturar e matar animais em público, segundo determinadas regras. Traumatiza as crianças e adultos sensíveis. A tourada agrava o estado dos neuróticos atraídos por estes espetáculos. Desnaturaliza a relação entre o homem e o animal, afronta a moral, a educação, a ciência e a cultura.”

Pior ainda é ser a própria Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval a organizar tal evento e com a conivência da direção nacional da Cruz Vermelha que até agora nada fez para anulá-lo.

Efetivamente a Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval poderia optar por concertos de música, amostras de arte, peças de teatro e toda uma série de outros eventos culturais e/ou desportivos éticos, e que até poderiam resultar num maior retorno financeiro, mas prefere ainda assim organizar e promover uma prática absolutamente repugnante para em seguida, tal qual Pôncio Pilatos, lavar as mãos do sangue resultante da tortura de seres sencientes não humanos.

Às constestações apresentadas no mural do Facebook da página Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval por dezenas, se não mesmo centenas de pessoas, algumas até que contribuíram fisica e financeiramente para a Cruz Vermelha Portuguesa, a moderação do mural, numa atitude muito pouco moderada e até mais parecida com o “lápis azul” da censura do estado novo, resolveu apagar todos os comentários, deixando somente os residuais posts de apoio e os posts da própria administração do mural.

Destaca-se, por exemplo, o post do Vice-Presidente da delegação do Cadaval, que afirma:
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“Vou deixar um esclarecimento adicional a quem interessar.

A delegação da Cruz Vermelha do Cadaval, não tomou a iniciativa para fazer esta corrida, ela foi proposta por um grupo de jovens aficionados, que se dispuseram a organizar a corrida e oferecer os possíveis lucros à Cruz Vermelha do Cadaval, esta corrida iria existir na mesma mesmo que não fosse em beneficência da Cruz Vermelha. Dada a necessidade premente de apoios financeiros para ajudar pessoas necessitadas, e embora para a direcção da Cruz Vermelha este não fosse obviamente o espectáculo que escolheríamos para nosso benefício, e a aceitação do mesmo não tenha sido de forma nenhuma pacífica, o que acabou por prevalecer foi os possíveis benefícios que poderiam advir deste evento para os mais necessitados do nosso concelho. É muito fácil ser moralista de barriga cheia, em casa dos papás a jugar em consolas que custam mais do que famílias inteiras têm para comer durante meses. Quem quer que seja que se arroga o direito de ser moralista para com uma instituição com a Cruz Vermelha, devia em primeiro lugar olhar para espelho e perguntar a sim próprio o que é que já fez para minorar o sofrimento dos seus vizinhos que passam fome, do que é que já prescindiu para dar de comer a alguém ou comprar um medicamento que pode fazer a diferença entre a vida e morte de um idoso, de quanto do seu tempo é que já prescindiu para fazer voluntariado, se tiver respondido positivamente a todos estes pontos, então eu reconhece-lhe o direito a criticar esta iniciativa e eventualmente julgar a decisão da Cruz Vermelha, caso contrário, tenham vergonha na cara, peçam uma ficha de inscrição da delegação, façam-se voluntariado e depois na condição e voluntários ou sócios critiquem e arranjem soluções melhores de financiamento, enquanto não fizerem isso tenham vergonha.

João Reis
(Vice-Presidente da CVP Delegação do Cadaval)”

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Para além do rídiculo do post ao usar de comparação de cenários incomparáveis, para além de mentir ao afirmar que o evento não é organizado pela referida delegação (que é de fato conforme ficou comprovado atrás), constata-se que, a somar a tudo isto, o Sr. João Reis (relembre-se vice-presidente da delegação do Cadaval) ainda agride grosseiramente quem se indigna com este evento atirando indiscriminadamente e para onde está virado atingindo inclusive vários voluntários e elementos da sociedade que contribuem e/ou contribuíram para a própria Cruz Vermelha Portuguesa.

Constata-se assim que, além da falta de escrúpulos e ética, a Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval mente, censura e agride.

Tudo com a conivência da direção nacional que, relembre-se, até agora nada fez para se opor a tal evento e responde num post colocado no mural com o seguinte comentário:

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“Em face dos comentários produzidos sobre a Corrida de Touros da Pêra Rocha do Oeste, a realizar dia 19, no Cadaval, esclarece-se que a Delegação do Cadaval da CVP não é organizadora do evento. Os organizadores propuseram-se atribuir um subsídio à Delegação do Cadaval para fins humanitários. A Cruz Vermelha continua fiel aos seus Princípios. http://www.cruzvermelha.pt/movimento/principiosfundamentais.html
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Também a direção nacional da Cruz Vermelha Portuguesa mente, ao afirmar que a organização de tal evento não é da Cruz Vermelha Portuguesa – Cadaval (quando é, como atrás ficou provado) e denigre a sua imagem ao remeter para os seus “Princípios”.

Pergunta-se então: “Quais princípios”?

O de organizar um evento e recolher dinheiro sujo de sangue proveniente duma prática que, como definido pela própria Unesco, consiste em “torturar e matar animais em público”? Tendo a Cruz Vermelha Portuguesa variadíssimas opções?!

Serão esses os princípios?

Solidariedade não coabita com derramamento de sangue de seres sencientes, humanos ou não humanos.

A Cruz Vermelha Portuguesa, ao permitir que a sua delegação do Cadaval organize repugnante evento, optou por não respeitar o princípio mais básico da ética, conforme tão bem definido por Albert Schweitzer:

Ética é a responsabilidade por tudo quanto vive estendida para além de todos os limites”.

A Cruz Vermelha Portuguesa, ao permitir que a delegação do Cadaval organize tal evento, sujará as suas mãos com sangue.

Não com sangue resultante da prática dos seus “Princípios”, mas sim com sangue de “torturar e matar animais em público”.

A Cruz Vermelha Portuguesa, mantendo esta atitude, “afronta a moral, a educação, a ciência e a cultura”.

Colaboro física e financeiramente para algumas associações de cariz humanitário, de cariz ambiental e também de defesa dos direitos dos animais.

Inclusivamente já contribuí muitas vezes para a CVP.

Deixo então o apelo, apesar de saber que cairá em saco roto!

Apelo então para que a Cruz Vermelha Portuguesa anule esta iniciativa e, para além de cancelar a organização deste evento, se exclua da aceitação de quaisquer receitas obtidas de forma desviada, torturante e repugnante como são as touradas.

Existem muitas opções e será lamentável se a Cruz Vermelha Portuguesa não aceitar tal apelo.

Mas como sei que a CVP não anulará esta repugnante iniciativa no futuro e enquanto a CVP apresentar esta postura mentirosa, censuradora, desviada de princípios e ausente de quaisquer escrúpulos como tem demonstrado, seguramente nunca mais contribuirei com e para a CVP.

Prefiro desviar os meus recursos físicos e financeiros, mesmo que parcos, para associações e instituições que efetivamente seguem princípios éticos.

E elas existem, e a fazer um trabalho muito meritório.

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Leis da física vs. princípios éticos

Sem lei alguma, o reino é do caos [do grego cháos]. Caos não significa simplesmente desordem, embora seja comum usar o termo para dizer isso, pois este conceito, o de desordem, pressupõe uma ordem qualquer, ora alterada ou mesmo destruída. Caos, simplesmente, significa aquilo no qual a lei entra para dar um configuração ainda não existente.

A ciência da física dedica-se ao estudo das leis que, ao entrarem na matéria original não delineada, permitem que essa matéria forme espaços, dando mais tempo aqui, menos tempo ali, átimos de tempo acolá. Esse é o mundo físico que nos rodeia. O mundo da matéria da qual nosso organismo é constituído. Sem o compasso do tempo, essa matéria seria apenas um amontoado orgânico, sem funções próprias, servindo apenas de pasto para a fermentação bacteriana e a reprodução de suas colônias.

Na vida diária obedecemos às leis da física antes mesmo de termos ouvido as palavras “física” e “leis”, de termos compreendido o que significam, ou de termos ido à escola.

Obedecemos às leis da física desde o dia do nascimento, quando nos põem na posição correta para mamar. Se errarem a posição, nos afogamos no leite materno. Depois, quando o início da digestão desse leite exige que o ar parado no estômago saia para que o leite possa aí repousar, nos põem outra vez na posição vertical, porque o ar, sendo mais leve do que a matéria orgânica do leite, e em menor quantidade do que ela, tende a subir, saindo de volta pelo orifício superior do nosso sistema digestório. Assim a vida se garante: obedecendo as leis mais simples da física, as mais básicas.

Acontece que, se não as obedecermos, sofremos danos. Se, em vez de apoiar bem a planta dos pés no solo, o bebê inventa de atirar-se para a frente, ele cai e machuca o rosto, quebra um braço, o nariz. O mesmo sucederá para o resto da vida: cada vez que desobedecer a uma lei da física, o animal, humano ou de outra espécie, sofrerá um dano.

A vida não tem prosseguimento na desobediência às leis que mudaram a matéria caótica e a tornaram cósmica ou orgânica, dando a ela um destino, uma função, uma tarefa. Uma vez assim ordenada, para continuar a existir, aquelas leis que a forjaram precisam ser respeitadas. Se não o forem, quem as desobedece sofre um dano.

Analogamente ao que ocorre na física, o mundo dos valores éticos, daquilo que é sagrado e não deve ser destruído, também tem suas leis. Elas põem ordem no caos dos desejos, dos impulsos, das fantasias, da imaginação, tornando-o um espaço sagrado, o espaço do simbólico no qual podemos projetar o desenho daquilo que gostaríamos que representasse para nós mesmos e para o outro a essência do nosso ser.

Para que a natureza sagrada do ser humano não se perca no ritmo dos impulsos iniciados pelo movimento da matéria orgânica, é preciso que o sujeito ordene suas ações de acordo com princípios éticos. Eles não podem inverter a posição dos valores, colocando o que é fundamental no lugar do que é instrumental.

Viver a vida seguindo o modo próprio da espécie na qual nascemos, sem trairmos essa espécie e sem a atrofiar, esse é um valor sagrado, em todas as espécies de vida. Se isso for sacrificado em nome de outro valor qualquer, por exemplo, o acúmulo de bens, o ritmo frenético de consumo, a busca incessante por prazeres fugazes, aquele valor sagrado da vida se dilui e se confunde com o que é meramente instrumental.

Precisamos de leis para traçar o desenho do nosso caráter, tanto quanto precisamos de leis para forjar o desenho do nosso corpo e o configurar plenamente, com todos os tecidos, órgãos, sistemas e células. Sem ética nos perdemos nesse emaranhado da fisiologia e anatomia animais.

Bem, se precisamos igualmente, tanto das leis da física orgânica e inorgânica, quanto de princípios éticos, por que obedecemos as leis da física mas pisamos na ética?

Conforme escrito acima, se desobedecemos as leis que regem a plasticidade da matéria que forma nosso corpo, nos machucamos, destruímos nossos tecidos e membros. Sair da casa pela janela do quarto, caminhando, a partir do segundo andar, é um bom exemplo de desobediência às leis da física. Desse modo, tendemos a obedecer a tudo o que nos traz alguma vantagem imediata, tudo o que nos propicia prazer imediato. Nossa natureza hedonista nos leva a isso, sem que tenhamos tomado qualquer decisão. Também fomos treinados, desde bebês, para aprender a obedecer as leis fundamentais que regem a posição de um corpo em movimento no espaço.

Entretanto, quando falo de ética, tenho que escrever tratados para que as pessoas possam entender que também devem obedecer seus princípios. Por quê? Porque não fomos treinados para seguir leis, normas ou princípios éticos. Geralmente os pais pensam em proteger o bebê, a criança, o adolescente, das dores que ele possa provocar em si mesmo desobedecendo as leis da física, da química. Pensam que assim ele aprenderá também que não deve desrespeitar os princípios éticos. Mas, entre um aprendizado e o outro há um precipício, não apenas prático, mas também neuro-neural.

A área do nosso cérebro responsável pelo aprendizado das lições do movimento no espaço não é a mesma responsável pelo aprendizado da moralidade, isto é, do movimento em meio a valores sagrados que não podem ser pisados, sob pena de a espécie humana perder sua essência e tornar-se mais uma espécie animal, sem qualquer design moral.

Quando desrespeitamos as leis da física nos machucamos. Quando não respeitamos limites ao agir, e agimos como se nosso corpo, nossos impulsos, nossos desejos fossem indomáveis e estivessem acima do valor do corpo dos outros, dos desejos dos outros, das necessidades dos outros, não sentimos nada errado, nenhuma dor, nenhuma fratura, nenhuma lesão.

Por isso, continuamos a fazer mal a eles, porque quem sente o dano não somos nós. Esta é a razão pela qual parece tão natural obedecer as leis da física, e tão difícil agir com ética: porque o resultado da desobediência às leis naturais se volta imediatamente contra nossos interesses. Ao contrário, pelo menos a curto ou médio prazo, quando desobedecemos aos princípios da ética, o mal não se volta imediatamente contra nós, porque nós o projetamos sobre aqueles que sofrem os desdobramentos de nossas ações.

Quem sente o mal da desobediência das leis físicas somos nós. Quem sofre o mal da nossa desobediência das leis éticas são os outros. Aqui está a diferença entre violar as leis da natureza e violar a ética.

Quando agimos de modo ético, o bem que fazemos afeta os outros. Quando agimos de modo não ético, o mal que fazemos afeta os outros. No primeiro caso, nosso interesse pessoal não está em pauta. No segundo, nós o protegemos acima de tudo. Por isso tem sido tão fácil para toda gente, ser anti-ético em relação aos demais animais.

O mal que fazemos aos animais e a outros humanos não se volta, pelo menos não imediatamente, contra nós. São eles quem sofrem os danos, a tortura, a crueldade do aprisionamento, dos ferimentos, do empilhamento, da falta de ar puro, da comida processada e cheia de fungos, da privação do alimento que seria próprio de sua natureza. A dor que causamos a eles não é sentida por nós. Desobedecemos a todas as leis da física que regem seus organismos, ao privá-los do movimento, do sol, do ar puro, da terra, da grama e das interações sociais e amorosas que teriam feito sua vida ser plena, caso não houvessem sido forçados a nascer confinados.

Ao fazermos tudo isso, desobedecemos a todos os princípios da ética. Mas, o mal que a desobediência a esses princípios causa, não é sentido por nós, e sim por eles. Por isso, seguimos em frente, cuidando, é claro, em cada esquina que cruza uma preferencial, para não enfiar nosso carro debaixo de outro que a estiver usando. Não atentar para isso feriria uma lei básica da física: se dois corpos forem jogados no mesmo espaço ao mesmo tempo, dependendo da massa de um e do outro e da velocidade do deslocamento, pode ocorrer que as massas orgânicas e inorgânicas envolvidas sejam comprimidas num amontoado onde nada mais fará qualquer sentido ou terá qualquer valor. Danos totais.

Não percebemos ainda que fazer o mesmo contra os outros causa danos morais totais. Damos a preferencial, obedecendo sem hesitar as leis da física. Entretanto, pisoteamos os princípios éticos, pois desse massacre resulta prejuízos imediatos e diretos apenas para os outros. Assim pensamos. Perdemos, no entanto, nossa essência sagrada. Mas nem toda gente já desenvolveu a sensibilidade para a sacralidade da própria essência.

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Ética holística

Na perspectiva holista, totalidades organizadas são consideradas constituídas de valor por manterem sua ordem a partir de fins próprios. O que as torna valiosas é o fato de que existem por si mesmas, independentemente de servirem, ou não, a fins externos ou alheios. Na ética ambiental, Aldo Leopold (The Sand County Almanac, 1949) foi o primeiro a declarar que o valor da natureza se dá pela inter-relação de todas as formas de vida, e a perda de tal valor, pela destruição ou dano ao todo. Fundada nessa concepção nasce a chamada ecologia profunda, bem representada na teoria de Baird Callicott.

Uma ética holista pode ser elaborada tendo-se a perspectiva do valor da vida de todas as espécies, vegetais, animais e de outros tipos, normalmente considerados pela ética antropocêntrica sem qualquer dignidade moral. Para a ética holista, o que importa é estabelecer princípios morais que possam orientar as ações humanas tendo por finalidade a preservação do todo da vida, animal e vegetal.

A questão, no entanto, conforme pontuada por Marti Kheel (Nature Ethics: An Ecofeminist Perspective, 2008), é que julgar o valor moral de algo vivo por sua capacidade de tramar-se com outras coisas, de gerar dependência, de criar vínculo, pode nos levar a erros morais. Muitos dos malefícios sofridos pelos seres vivos devem-se à capacidade que certas práticas de mercado e hábitos (ethos) de consumo têm de se tramarem absolutamente com quase todas as nossas decisões, desde a escolha do que colocamos no prato a cada refeição, até a escolha do que colocamos em nossos carrinhos quando buscamos alimentos e produtos de higiene entre gôndolas de supermercados, passando pelas escolhas que (não) fazemos quando adquirimos produtos básicos necessários à manutenção do nosso modo de vida (lâmpadas, celulares, CD’s, canetas, papel etc.).

Se o sistema de produção industrializado encontra formas de acumular lucros oferecendo certos produtos aos consumidores, e encontra (ou cria) nestes a demanda equivalente para dar vazão ao que é produzido, tal sistema, por sua capacidade de envolver tudo e todos, deveria ser considerado moralmente bom, se adotássemos a perspectiva holista totalitarista de que o que sabe tramar-se e interligar-se num todo tem valor moral e deve ser preservado. Se, por um lado, a ética não pode sucumbir a esse conceito holista, por outro, não pode julgar seus próprios fundamentos abrindo mão absolutamente de qualquer perspectiva holista.

O valor da vida, humana, animal, vegetal e de qualquer outro tipo, não pode ser calculado pela capacidade que cada uma delas tem de ajudar a manter o todo. Poder enredar tudo não é sinônimo de preciosidade, muito menos de moralidade. Quando animais são fabricados num sistema de produção e abate que causa danos totais à vida deles, considerando-se que, no sistema de confinamento, são forçados a nascerem mesmo que para eles não esteja prevista a liberdade de viver a vida que sua espécie lhe propiciaria, essa produção está vinculada ao sistema de mercado que os consumidores dessas mercadorias (carne, leite, ovos, lã, seda, mel, couro, peles, graxas etc.) fomentam. O sistema que produz animais como se fossem objetos para uso e consumo humano é um sistema capaz de enredar todas as iniciativas individuais (ethos) de consumo.

Os veganos sentem claramente o quanto é difícil viver seguindo o princípio ético da não violência (ahimsa, na tradição ayurvédica e budista) contra os animais e a natureza. Quando precisam adquirir um produto, raramente obtêm algo que não tenha sido fabricado com dano, dor e morte de animais.

É preciso ter cuidado quando se dá ênfase à capacidade de alguma coisa de tramar-se num todo, pois essa capacidade pode não ser moralmente boa. Há relações humanas de dependência emocional, sexual, econômica, por exemplo, que retratam a natureza do vínculo amoroso como um vínculo que abarca todas as esferas da vida, na parceria. Relações totalitárias também podem ser cultivadas com a pressuposição de que tem valor apenas aquilo que é capaz de agregar-se a um todo, diluir-se nesse todo, fomentar o todo. Éticos não holistas temem que a diluição do valor de um indivíduo no valor da totalidade da relação na qual está tramado seja o melhor caminho para o estabelecimento do domínio e da servidão. Conforme bem o lembra Marti Kheel, o senhor e o escravo também estão tão interligados que a quebra de um dos elos representa o fim da relação. O caso é que uma relação de domínio humano sobre todas as formas de vida é uma relação de senhorio sobre elas. Os humanos conseguiram enredar a natureza inteira em sua forma de vida, estabelecendo uma relação holista totalitária com ela. Mas esse tipo de capacidade não traduz o sentido moral de igualdade que a ética visa preservar. Há, portanto, um holismo totalitário e outro igualitário ou libertário, algo a ser considerado quando se defendem direitos animais e ambientais na perspectiva abolicionista.

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