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Vegetarianismo não tem idade

Por Marcela Godoy (da Redação)

Conheci o Zetti em Curitiba. Ele recitou o poema, de sua autoria, que, sob sua autorização, reproduzo abaixo. Providencial, para essa época de “festas” de fim de ano. Foram poucos minutos de conversa. Mas o suficiente para saber que Zetti é uma dessas pessoas que você tem vontade de ficar perto só para ver se, por osmose, pega um pouquinho de sua sabedoria.

Nesses poucos minutos de prosa, aprendi muitas lições. Entre elas, que nunca é tarde para escolher o vegetarianismo para pautar nossas ações durante nossa existência terrena. Zetti nasceu em plena Segunda Guerra. E tornou-se vegetariano em 1995. Sua juventude é inspiração. E revela-se em suas palavras e atitudes. Obrigada, Zetti, pelo seu exemplo e pelas palavras de libertação animal (humano ou não) contidas em seus contos, prosas e poesias.

Leitão Pururuca

1ª Parte: Na Pele do Porco
Queria ser um porco
Até penso que já sou
Sempre fui.
Sempre fui sua agonia.
Agora mesmo,
Grito eu mesmo,
Morro eu mesmo,
Se preciso.
Facada não é preciso
Amar é preciso.
Não! Não quero ser traiçoeiro:
Nem faca, nem prisão – chiqueiro.
Meu coração é de porca:
Porca mãe das dores sou.
Leitão Pururuca na mesa?
Velório.
Natal – luzes – inocência?
Velório.
Leitão não é homem:
Pega, mata e come!
Porca mãe das dores sou.
Pururuca:
Parece engraçado
Ser tua mamãe.
Engraxado – torresmo.
Assim mesmo
Te abraço – te pego no colo.
Vamos! Me olhe, sorria!
Solte um grunhido
Um gemido – que seja.
Tua mãe é que te chama.
Jogaram-te na chama
Desta nova inquisição.
Porca mãe das dores sou.

2ª Parte: Parem!
Jesus nasce,
Porquinho morre de véspera.
Para Jesus – realeza
Para porquinho – frieza
Cristãos: imagem e semelhança
do Deus Eterno
E também das geleiras eternas.
Cristãos ou não:
Por favor, parem de matar
Ou ao menos,
Parem prá pensar!
Parem!
“Parem o mundo que eu quero descer”
Descer do caminhão entulhado,
Empilhado… de focinhos.
Navio Negreiro moderno!
Para onde vão tantos focinhos?
Para onde, meu Deus, para onde?
Para os verdes campos?
Para as verdes matas?
Sim, irão para os campos…
De concentração.
Da Sadia – da Perdigão.
Sim, irão para as matas.
Muita mata!
Mata! Mata! Mata!
Porca mãe das dores sou.

3ª Parte: A Curva do Rio
Prezado amigo, irmão:
Acorde deste sono milenar!
Pururuca: acorde, que este dormir não é seu.
Saiamos daqui desta festa
Ritual – máscara – horror… velório.
Vamos fuçar lá no rio
Ou te banho neste rio…
De lágrimas.
Não quero tal coisa bizarra,
Grito de dor e farra.
Macabra festança,
e pro túmulo pança,
não quero que vás.
Te faço uma cova – te enterro,
Na curva do rio.
Bem no fundo – do meu coração.
Te envolvo em meu manto
Te cubro de beijos,
Te faço acalanto.
Te aninho em meu ninho,
Materno – fraterno,
Da porca que sou.
Porca mãe das dores sou.

4ª Parte: O Presépio
Meu porco, meu punk:
Rasparam teu pelo,
Cabelo arrepiado.
Safado é mesmo
Quem come torresmo
E prá não te matar
Assina procuração,
Prá Sadia e Perdigão
E em todos os natais,
Tem Jesus e os animais.
Presépio criado e armado
Por um coração bichado
Que foi o Santo de Assis
Cenário lindo:
Menino sorrindo,
mulher dando o seio,
animais no meio.
Que pena! Que pena!
Veja a próxima cena:
Na mesa, com certeza,
Assado, recheado, enfeitado.
É churrasco!
Coincidência ou não, termina em asco
O cheiro é forte
Leitão não tem mesmo sorte.
É a morte, não tem perdão
Assinaram a tal procuração
Assinaram – assassinaram
Segue portanto a festa
Luzes, música, orquestra.
E o que mais me espanto
É esse canto que diz:
Noite feliz, noite feliz
Preferível fosse um hino
Manifesto dos suínos
De revolta, de protesto
Porca mãe das dores sou

5ª Parte: Espírito de Porco
Talvez por esta razão
Sinto estranha mutação:
Compaixão e porco se fundem em mim
Entranhas de porco estão em mim
Sentimento de porco
Focinho de porco
Coração de porco
Uma cara de porco está em mim
Similar a minha infância:
Quando um porquinho morria
Um parente
Gente fria,
Faca fria, reluzente
Penetrava no porco
E no coração do menino

6ª Parte: O Grito
Esguicho de sangue quente
Lágrima quente
Menino aflito
E o grito, quase infinito do porco
Coração do porco para
Coração do menino…dispara
Por favor amigo leitor
Partilhe comigo e o porco esta dor:
Incorpore um espírito de porco
Chore!
Ouça o grito!
Ouça o eco!
Som prá valer que ressoa
Mas se em ti doer, que doa:
Churrasco, asco, asco, asco…
Alcatraz – humano atroz
“Liberdade, liberdade!
Abre as asas sobre nós”
Castro Alves por piedade, seja agora nossa voz
Por tudo o que é sagrado
“Senhor Deus dos desgraçados
Dizei-me voz Senhor Deus
Se é loucura, se é verdade
Tanto horror perante os céus…”
“…Astros, noites, tempestades
Rolai das imensidades,
Varrei os mares tufão!”
Nos ares som estridente
Ouça o eco novamente
Cristão clemente? Mente, mente, mente…
Inclemente predador, dor, dor, dor…
Clamor de amor no salame, ame, ame, ame…
Vitela, prato farto, refinado
Boi que engorda confinado:
Tudo termina em finado
Mesma sina é a feminina:
Mortadela, morte dela, morte dela
Boi no pasto é desmatar, matar, matar, matar…
Das frutas sobra o caroço
Dos bovinos no Mato Grosso, osso, osso, osso…

7ª Parte: Berros
Ditadura em animais
Há tempos imemoriais
Ditadura, dura, dura, dura…
– Ato Institucional!
-AI-5 animal é assim:
Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!
Berros a cada segundo
Ecoando pelo mundo
Reverberandoberrandoberrando
E peixe que não berra
Mas sente dor
Literalmente se ferra

8ª Parte: Somos Mãe
Covardia, sacanagem, degradante.
Nada há mais revoltante
Para o menino que chora
E que ainda mora em mim.
Que de tanto querer bem
Mãe da porcada é também
Aquela mesma senhora
De quatro patas – focinho
Que em dezembro 24
Assam o filho porquinho
Festival pleno de horrores
Porca madona das dores
Todo ano – me ufano de ser.
Mil vezes te matam,
Te assam, te comem,
Porca mãe das dores sou.
Honrado me sinto
De ser a mãe porca
De ser mãe cadela
De ser mãe perua
Mãe pata
Mãe vaca
Mãe gata
Mãe cabra
Mãe cobra
Coelha
Ovelha
Mãe d’água, limpa ou suja
Mãe coruja
Mãe de toda passarada
Mãe sardinha enlatada, atum
(Coração de mãe sempre cabe mais um)
Mãe galinha
Abelha rainha
Mãe natureza
Mãe Terra!
Em toda beleza
Que a palavra encerra.
Terra – terráqueos
Humanos – batráqueos
Como se fossem um só
É pau – é pedra – é pó
Camarão
Com barba ou sem barba
Com rabo ou sem rabo
Com teta ou sem teta
É aqui o planeta
Azul Borboleta
Primo – primata – macaco
Bem vindos a este mui lindo barraco
Somos todos farinha do mesmo saco

9ª Parte: Compaixão
Inclusão sem igual – entre iguais
Compaixão
Perfume floral
Pólen de vida,
Infinitesimal
Leveza e graça
Pólen fumaça que o vento levou
Em nossos corações desabrochou.
Porta aberta escancarada
Invasão da bicharada
Arca de Noé – guarida
Paixão pela vida
Assim é que somos:
Voz dos que não tem voz
Humanos – gente
Demasiadamente humanos
Somos nós
Todos nós
Vegetarianos

Outros versos e prosas do Zetti, sobre os animais humanos e não humanos, podem ser lidos em http://www.zettinunes.blogspot.com/ .

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Você é o Repórter

Só consegui pedir desculpas…

Monique Waknin Marinho
moniquewaknin@gmail.com>

Em 2010 vi atrocidades feitas com os animais e a natureza. Só consegui pedir desculpas…

Que 2011 seja um ano repleto de esperança e luta pela preservação da natureza e respeito à vida dos seres.

Desculpas à nossa Mãe (natureza).
Aos mamíferos, aves, insetos e bactérias.
Aos que tem vértebra, ou não.
Os que voam ou rastejam sobre pedras; e as próprias pedras.
Plantas que oxigenam nossa ganância.
Carros, televisões, aviões e moedas.
Ao céu, o sol e à lua.
Peço desculpas.

Também àqueles que matam.
E se matam.
Levam apenas a ambição.
Pelo povo civilizado, que constrói regras.
Regras de vestir, regras de agir, regras, regras.
Peço desculpas.

Pelo controle civilizado desde a infância.
Machos racionais que ditam leis.
Gritos contidos dos corações apagados.
E ao grito dos desesperados.
Peço desculpas.

À perseverança das ondas do mar.
Aos cães, gatos e crianças presas em aquários.
Pela falta de reflexão, pelo sadismo incontrolável dos homens.
Pelo sofrimento infligido aos seres.
Peço desculpas.

Pela ingratidão ao que nos oferece.
Pelo que não oferece e tiramos de ti.
Às árvores que arrancamos de sua terra.
Ao perfume das flores que não mais existem.
Ao canto mudo dos pássaros.
Peço desculpas.

Pelos gases tóxicos que lhe presenteamos
Pelo aquecimento que causamos;
Aos tsunamis, furacões e terremotos,
Que se desdobram para salvá-la,Mãe (natureza),
Peço desculpas.

Ao sangue derramado,
Pelo cadáver de seu filho temperado,
Ao espírito dos animais
Lembrando de seus olhos de dor
Peço desculpas.

Às espécies extintas,
Às que aguardam seu fim,
Ao mico-leão-dourado, aos tubarões massacrados, à onça pintada
Pela nossa ignorância
Peço desculpas.

Por aqueles que não se importam
E pelos que lutam.
Pelos que perdem o sono
E os que te fecham os olhos,
À todos nós e por todos nós,
Peço-lhe que aceite nossas humildes desculpas.

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Olhar Literário

Dádiva

Ao longo desse ano e meio da coluna “Olhar Literário”, o texto mais significativo que escrevi parece ter sido o menos lido ou apreciado, aquele composto em homenagem à memória de Caio Fernando Abreu: “A morte dos girassóis”.  Ele falava do tempo, da fugacidade do ser, da vida que escoa pelas nossas mãos e da incomensurável interrogação que nos habita a alma. Poderia também se chamar “Crônica do Sol Poente”, voz que se debruçava sobre o poeta dos jardins e das flores. Não sei. Talvez significasse, na realidade, o contrário disso tudo. É porque o texto evocava o sol, a vida, a vontade de recuperar o que se perdeu, a força indestrutível das coisas frágeis.  Mais ainda. A crônica celebrava os girassóis renascidos a cada manhã.

Um ano depois, neste mesmo espaço, eu gostaria de retomar o tema. E desta vez sob outra perspectiva, a do instante. Digo isso porque há alguns anos, já não me lembro quando, eu testemunhei essa imagem única, fugidia e bela. Foram instantes plenos, que apareceram sutilmente em uma tarde de primavera. Há quanto tempo? Já não sei mais. Eu nem estava preparado, nem a esperava, mas a vi. Eu a vi com toda sua sutileza e esplendor, vi sua face serena e inesgotável. Como pétala que se refaz, como estrela que se acende, como névoa que se esparrama, eu a vi. Ela era branca e leve e delicada. Naquele instante eu a percebi e quis retê-la. Em vão procurei eterno sol.  Sobrou-me a memória e nada mais.

Devo então recordar o que se passou. Caminhávamos pela rua, a nossa rua viva, a rua da nossa casa florida, a rua das árvores e dos pássaros. Íamos a pé, minhas filhas ainda pequenas e a vira-lata Coquinha em direção ao jardim da praça central.  Naquela tarde branca, a rua florida parecia respirar. O jardim era vivo e as árvores nos reconheciam.  Um dia que parou no tempo.  Estávamos na praça do jardim, nossa cachorrinha serelepe pelo gramado, quando a nós se juntaram outros amigos caninos – Suri, Billy e Bilinha –, que tantas vezes nos acompanhavam naqueles passeios inesquecíveis. Um dia feliz, em que todos os cães amigos se juntaram em uma tarde branca de primavera. Um dia para não esquecer.

Foi então que, sentado no banco da praça, pude testemunhar o momento em que eu não poderia mais desejar coisa alguma neste mundo. Em meio ao jardim em flor, a alegria das crianças e a bagunça dos cães que subiam em um monte de areia e rolavam, de um lado a outro, para depois saírem em disparada pelo gramado, enfiando-se nos arbustos, chafurdando na terra, brincando de perseguição, mordendo delicadamente uns aos outros. Senti algo sublime naquela cena, um momento perfeito no tempo físico, um instante que gostaria de reter, como pequena dádiva.  Foi então que eu pressenti – ó maldita racionalidade – que aquele momento representava o apogeu, a inocência, a felicidade. Oh tempo, lastima-me e consola-me. Eu havia visto a plenitude nos olhos e nos gestos daqueles seres tão queridos.

Depois, como tudo na vida, isso se perdeu. O tempo passou, as crianças cresceram, mudamos daquela casa.  Tudo se foi. Resta agora a rua morta, com flores extintas e árvores destroçadas.  Os cães amigos, que nos saudavam e corriam pela praça,  nunca mais vimos.  O que terá sido deles? Melhor não perguntar, melhor deixá-los bem guardados na memória dos afetos, melhor ficar com a imagem suspensa daquele dia branco. Billy, Bilinha e Suri – onde quer que estejam – nós os veremos  sempre felizes e companheiros, correndo em um mundo de sonho, em uma tarde branca de primavera, em um belo instante que ficou. Com a alma enternecida, quero encerrar esta crônica transcrevendo um poema de Czeslavo Milovz. Chama-se “Dádiva”:

Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo.
Eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha de pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Endireitando-me,
vi o mar azul
e velas.

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