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Caça: o refúgio dos psicopatas

Por Lobo Pasolini   (da Redação)

A idéia de caçar, de perseguir e matar animais convenientemente equipado com uma arma de fogo, tem encontrado suporte entre um nicho de celebridades geralmente ocupado por homens hiperativos: o chamado chef, ou cozinheiro em português. Esse tipo de celebridade não se vê apenas como uma pessoa que faz comida para os outros. Não, hoje em dia eles são também antropólogos, sociólogos, catalisadores sociais etc. E alguns deles, tais como o americano Michael Pollan e o brasileiro Alex Atala, encontram na caça uma rebuscada metáfora de sua masculinidade em crise; tentam metrossexualizar um hobby ultra-conservador que nada mais é do que a manifestação de uma deformação emocional humana – matar por prazer.

O caçador está no mesmo nível do sujeito que frequenta rinhas de cães e galos, touradas, farras de boi e qualquer outra atividade que traz embutida a desvantagem para o animal de modo que o humano possa sempre emergir vitorioso e se divertir às custas da extrema dor alheia. É como uma operação de aumento do pênis às custas da vida de uma criatura. É também uma forma de sadismo. 

Eles podem dizer que matar um animal no mato é menos cruel do que executá-lo no matadouro. Mas obviamente esse argumento não serve para os veganos. Além do mais, por que então os caçadores têm o hábito macabro de posar ao lado de sua vítima morta e em alguns casos pôr suas cabeças como troféus nas paredes de suas casas? Não é possível comparar o sujeito que trabalha em um matadouro com um caçador: o primeiro em geral é um trabalhador explorado que provavelmente parou nesse emprego por falta de opção. O caçador faz da matança uma espécie de terapia sinistra. Além do mais, um erro não pode ser justificado por outro. 

Andrew Linzey, teólogo, escritor e diretor do Centro de Oxford para a Ética Animal, dedicado à discussão da ética no tratamento dos animais, escreveu sobre o assunto da caça recentemente, baseado em um spam que ele recebeu oferecendo um pacote de caça com preços reduzidos. Dizia o texto publicitário do email não solicitado: “Eu entendo que algumas pessoas se sentiriam mal ao saber que milhões de pássaros são mortos a tiro por caçadores todo ano na Argentina. Eu entendo porque eu me dou conta que é sua natureza e instinto. Eu caço pelas mesmas razões, porque está na minha natureza e no meu instinto”.

Sobre esse uso dos termos natureza e instinto, Andrew comenta sobre a falta de lógica em se reduzir obrigação moral à natureza e instinto. “Eu digo ‘reduzir’ porque moralidade não pode ser adequadamente caracterizada como ação por natureza e instinto. Na verdade, agir moralmente às vezes significa agir contra nossos sentimentos naturais, como por exemplo nosso desejo de vingança. Se agir de acordo com a nossa natureza fosse idêntico a agir moralmente, nós seríamos todos santos”.

A caça não pode ser nunca defendida como uma forma de turismo eco-sustentável, como o fez Alex Atala na revista Trip (leia trechos da entrevista abaixo). Controle de população? Uma falácia, os animais não necessitam que o façamos por eles. Na verdade, o único controle de população necessário é o da espécie humana. Uma forma de comunhão com a natureza? Se você considerar o estupro como um gesto de amor, então talvez. A caça é a negação de todos os avanços morais que a humanidade aos poucos vem conquistando. Ela é uma atividade repelente que merece a nossa mais severa repúdia.

http://www.oxfordanimalethics.com/index.php?p=comment&item=5

Alex Atala escreve sobre a sua relação com a caça

…”Minha constituição física é onívora. Então, fica claro que existe um duelo interno entre matar e o obter o prazer de comer. Gosto de pescar; melhor ainda, gosto de caça submarina; melhor ainda, adoro a caça propriamente dita. Essa é uma questão filosófica que aprendi a aceitar e sei que não vou “dissolver”. Vamos pensar na mesma questão de outra maneira: comer e reproduzir são atividades vitais. Nós, que gozamos de inteligência, transformamos essas atividades em prazer. E há quem prefira comer”…

Alex “killer machine” Atala, com algumas de suas presas, em suas andanças por lugares tão diferentes como o Amapá e o Canadá   Fotos: Arquivo pessoal
Alex “killer machine” Atala, com algumas de suas presas, em suas andanças por lugares tão diferentes como o Amapá e o Canadá Fotos: Arquivo pessoal

“Pois é, venho de uma família de pescadores. Arrumei esse motivo para explicar meu lado animalesco. Vou usar o exemplo da caça submarina, coluna do meio dos meus defeitos: nem tão lúdica quanto a pesca, nem tão violenta como a caça. Sair pela manhã, pegar o barco e encarar o mar, conseguir pegar um peixe (que parece – mas não é – tarefa simples); limpá-lo, levá-lo para casa, prepará-lo e comê-lo restaura não só o esforço que fiz durante a longa jornada: restaura minha alma, porque me põe em harmonia com a natureza; restaura meu papel masculino de prover alimento. Pode ser mais um defeito, mas me orgulho dele.”…

…”A primeira coisa que tenho a dizer é que, a partir do manejo sustentável dos nossos recursos naturais é possível, sim, caçar, pescar e, até, extrair árvores de forma racional e respeitosa. Digo mais: as nossas florestas tão violentadas só terão o respeito devido no dia em que valerem mais em pé do que deitadas. Então, a caça, a pesca e a extração podem, sim, ser ótimas ferramentas de conservação.”

 …”A fome é um problema mundial; o homem não produz o suficiente para a alimentação humana e muitos métodos de produção de alimento são infinitamente mais nocivos do que caçar e pescar. “…

…”Todos querem desfrutar da natureza. E vamos combinar que viver corretamente deve ser muito chato. “…

Leia a entrevista na íntegra na Revista Trip

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