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Bióloga e ativista Paula Brügger é exemplo de força, inspiração e amor pelos animais

Por Bruna Araújo

Foto: Arquivo pessoal

Bióloga, autora e ativista em defesa dos direitos animais, a colunista e consultora ambiental da ANDA, Paula Brügger, é, sem dúvida, um dos principais nomes do ativismo brasileiro quando se fala em proteção do meio ambiente e dos animais. Exemplo de uma mulher forte e a frente do seu tempo, Paula atuou como professora na Universidade Federal de Santa Catarina por quase 40 anos, escreveu dois livros, coordenou projetos premiados, colaborou em publicações estrangeiras e cursos de pós-graduação. Seu currículo é imenso, seu coração mais ainda.

Tutora de duas cadelinhas sem raça definida e mãe de um rapaz, aos 64 anos, ou como ela gosta de chamar, na idade “Beatles song” (em alusão à música “When I’m Sixty Four”, do quarteto inglês), a bióloga não pretende parar tão cedo. Em uma entrevista exclusiva à ANDA, Paula fala sobre sua infância, carreira, ideias e desejos para o futuro. Tente não perder o fôlego.

O início

O princípio era o verbo. O verbo amar. Desde jovem Paula acolhia em seu coração uma série de anseios e fabulações. Não existia hierarquia de ideias, mas em seu espírito, desde sempre, transparecia toda ânsia de libertação que guiaria sua vida. “Não me lembro de ter um único sonho. Acho que era um caleidoscópio deles. Mas, em termos de sensações imemoriais meu maior sonho talvez estivesse, desde muito cedo, ligado à liberdade. Lembro-me de alguns desenhos que fazia de animais, sempre correndo livres por verdes campos. Eles eram eu, de certa forma. Expressavam o que eu queria para mim e para um mundo que, na minha visão, seria perfeito”, disse.

O respeito à vida sempre esteve presente da vida de Paula Brügger. Quando criança, ela já engatinhava em seu entendimento sobre a senciência e o especismo. “Os animais mais próximos de mim foram os cães. Tive pouquíssimo contato com gatos até a vida adulta porque meus pais eram muito ‘cachorreiros’. Tive também contato com vários animais de fazenda, como galinhas, patos, bois e vacas, e um cavalo, em especial. Meus avós paternos tinham uma fazenda e meus avós maternos um sítio. Dessa forma, apesar de morar na cidade, estava sempre em um desses dois lugares”, revela.

Ela conta que uma experiência a marcou profundamente. “Uma vez ouvi uma conversa sobre um bezerro que seria sacrificado porque estava sem uma das patas. Minha lembrança era de alguém ter dito que um lobo-guará havia atacado o tal bezerro e arrancado uma de suas patas. Fiquei muito abalada, doente mesmo. Acho que tinha uns seis anos. Ao me verem chorar ‘um rio’, meus avós disseram que iam encomendar um sapatinho de madeira para colocar no lugar da pata perdida, e que o bezerro não seria mais morto. Acreditei na história e fiquei aliviada”, recorda.

A história do bezerrinho a acompanha desde então e lhe traz muitas reflexões. “Mais de uma década depois, conversando em família, me lembrei do fato e achei pouco plausível que o tal sapatinho, ou tamanco, como alguns chamaram na época, tivesse mesmo sido feito. E, claro, não foi. Meus avós já haviam falecido e meus pais não se lembravam direito daquele episódio que tanto tinha me amargurado. Mas, ao que parece, o bezerrinho tinha nascido com uma malformação. Não fora obra de lobo-guará algum. O fato é que foi sacrificado. Chorei de novo, uns doze anos depois. É interessante como os adultos mentem sistematicamente para as crianças. Tenho um pequeno texto na ANDA onde abordo essa e outras questões“, lembra.

Paula Brügger explica ainda que o desejo de ser livre é intrínseco a sua própria existência. “Desde tenra idade o chamado ‘estado selvagem’ sempre me causou fascínio. Acho que essa identidade acabou influenciando a minha escolha profissional e o meu ‘estar’ no planeta. Também, por exemplo, apesar de sempre ter praticado vários esportes entre quatro paredes, até hoje, os que mais amo são aqueles de contato direto com a natureza. É somente nesse contato direto que ouvimos soar os ‘tambores da tribo’ (risos). No que tange aos animais, sempre tive muita sensibilidade. Mas a noção de direitos só veio muito depois, ao trilhar a trajetória acadêmica e ler os textos de alguns ícones como Tom Regan, Peter Singer e Gary Francione”, afirma.

Ela assevera que isso foi fundamental para a construção de sua consciência de mundo. “O bom da visão vanguardista de direitos animais é que ela não entra em conflito com a da mera sensibilidade, embora seja possível reconhecer direitos sem que se tenha sensibilidade. O oposto, entretanto, não é verdadeiro. Conheço diversas pessoas que têm, de fato, alguma sensibilidade para com os animais, mas não entendem (lógica ou emocionalmente) que isso não basta e que precisamos lhes garantir direitos. Penso que o especismo seletivo esteja no cerne dessa questão, ou seja, a inteligência emocional dessas pessoas é limitada, só consegue operar dentro de um determinado escopo de espécies e de atitudes (ou tratamento) dos animais. Para escapar dessa armadilha é preciso dar inteira razão ao filósofo Gary Francione que afirma que o importante não é o tratamento dos animais, mas o uso de animais. Em outras palavras, os animais não podem ser propriedades dos humanos. É muito pertinente traçar aqui uma analogia com a escravatura humana. É claro que para um escravo é muito melhor ser bem tratado, do que mal tratado. No entanto, o que havia (e ainda há!) de abominável e moralmente repugnante é a banalização da (monstruosa) instituição da propriedade em si”, acredita.

Missão

A bióloga define a evolução da sua carreira como “razão e emoção perfeitamente amalgamadas”. Ela afirma que sua trajetória acadêmica foi espelhada nas causas que defende. “Comecei como ambientalista e me tornei uma ambientalista-animalista (risos). Sigo firme, apesar dos pesares, por acreditar que ambas as causas sejam justas e extremamente urgentes. Lamento, porém, que o cenário tanto nacional quanto mundial seja tão sombrio, apesar de alguns avanços importantes. É preocupante constatar a cegueira que envolve a inexorável ligação entre diversas lutas ambientais e o nosso preconceito especista, como o eclipse da biodiversidade e as mudanças climáticas. Poderíamos discutir essas questões de forma integrada via legislação, políticas públicas, e projetos educacionais. Como disse, avanços há. Mas também temos muitos retrocessos de grande monta e abrangência. A questão é que não acredito que tenhamos mais do que uma década e meia para reverter os processos destrutivos que estão em curso. É de arrepiar a previsão de Isaac Newton de que o ‘fim do mundo’ será em 2060. A previsão científica para o ‘fim dos oceanos’ é para 2048. Assustador, não é?”, provoca.

O esforço e a resiliência são características de Paula Brügger e a sua trajetória profissional e acadêmica são provas disso. Ela possui especialização em Hidroecologia, mestrado em Educação e doutorado em Ciências Humanas. Ela também é autora dos livros ‘Educação ou adestramento ambiental?’, com três edições, e ‘Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas’. Criar e compartilhar conhecimento é sua paixão. “Passei 37 anos da minha vida na carreira docente, na UFSC. Comecei lá no início, na categoria ‘auxiliar’, até me aposentar há quatro meses, como ‘titular’. Durante esse período, fora o ensino, tive vários projetos de pesquisa e extensão, todos voltados para a questão ambiental, para a educação, ou para os direitos animais. Acho que o mais emblemático de todos – ou pelo menos o que foi mais longevo (15 anos) – foi o projeto de educação “Amigo Animal”, desenvolvido em parceria com as secretarias municipal e estadual de educação (Florianópolis e Estado de Santa Catarina) e com a DIBEA (Diretoria de Bem-Estar Animal)|Florianópolis. Participei ainda, como todo docente, de vários órgãos colegiados, comissões, etc”, resume.

Ela conta ainda que, mesmo em uma nova fase de vida, pretende se manter atuante. “Hoje minha ligação com a UFSC permanece viva junto a dois grupos de pesquisa: o Laboratório de Estudos Transdisciplinares (LET) e o Observatório de Justiça Ecológica (OJE), onde atuo como coordenadora junto com a professora Letícia Albuquerque, primeira docente no Brasil a oferecer uma disciplina de direitos animais. No âmbito do Observatório sempre estamos desenvolvendo atividades como cine-debates, discussões de textos em grupos, cursos de curta duração e encontros, como o III Encontro Catarinense de Direitos Animais, agora em agosto, todos gratuitos. Tenho participado também, como colaboradora, em disciplinas de graduação e pós-graduação o que para mim é um imenso prazer porque adoro uma sala de aula (risos)”, confessa.

Reconhecimento

Paula revela que o amor pelo aprendizado esteve presente desde os seus primeiros passos. “Acho que sempre fui meio C.D.F.(risos). Aos onze anos de idade tirei o primeiro lugar num concurso de redação no Rio de Janeiro. Depois, ao terminar o segundo grau, no Colégio Rio de Janeiro, e na Aliança Francesa recebi umas homenagens por bom desempenho, com premiações em livros, mas nem me lembro direito de detalhes. Acho que não tenho registro disso porque não dávamos muita importância (nem eu, nem meus pais) a essas coisas. Da parte deles, achavam que não fazíamos mais do que a obrigação (risos). O que tenho guardado é uma medalha de ‘Honra ao Mérito’ de quando me formei em Ciências Biológicas, na UFSC (1981), e depois um prêmio de ‘Exemplo Voluntário’, em 2006, por conta do projeto ‘Amigo Animal'”, destaca.

Ela conta também que recentemente recebeu duas premiações internacionais. “Em 2017 o livro ‘Impact of Meat Consumption on Health and Environmental Sustainability’, no qual sou co-autora ao lado dos renomados Robert Goodland e Jonathan Balcombe, recebeu o prêmio de melhor livro do ano, na categoria Best Sustainable Food Book. Agora em 2019, para minha surpresa, as editoras do livro ‘Social Marketing and its Influence on Animal Origin Food Product Consumption’, entraram em contato com os autores para anunciar a indicação de segundo lugar no International Book Awards, categoria Marketing and Advertising”, disse.

E completa: “Esse foi um genuíno honroso segundo lugar porque, como destacou uma das editoras, a premiação é conferida a publicações muito tradicionais e a nossa é bastante anti-mainstream. Ficamos muito felizes porque tanto a primeira premiação quanto essa última indicação evidenciam a impossibilidade de ignorar os temas em questão. No meu capítulo, intitulado It’s the speciesism, stupid! Animal Abolitionism, Environmentalism and the Mass Media, ressalto a importância do papel educador (ou deseducador) dos meios de comunicação na formação de valores no sentido lato. Precisamos de um novo paradigma para a construção de uma cultura não especista, compassiva com os animais, e responsável com o meio ambiente”.

Futuro

Paula Brügger afirma que não planeja parar de produzir e incentivar o conhecimento. Apesar de adorar ter tempo extra para praticar Kung fu Shao Lin do Norte e Windsurf. “Pretendo continuar atuando junto aos meus grupos de pesquisa na UFSC, mas também me agrada muito a ideia de ter mais tempo para ler (e escrever) e mais tempo para as pequenas coisas da vida que são vorazmente sugadas e destruídas pela sucessão alucinante de acontecimentos e demandas que caracterizam a vida estressante da maioria de nós hoje. Momentos simples, como apreciar a beleza singela de minúsculas flores selvagens que normalmente chamamos de ‘mato’, são cada vez mais caros para mim. Experimentar a sensação de ‘eternidade’ – de um ‘não-tempo’ – quando ficamos sentadas em silêncio, eu e minhas duas SRDs, é outro desses momentos felizes em nossos passeios diários”, reflete.

Sobre o futuro do país, a bióloga afirma que deseja muitas coisas. “Que pudéssemos voltar no relógio do tempo. Ou que as pessoas acordassem para a triste realidade que vivemos e tomassem as rédeas da história. Desejo que não se concretize o acordo EU-Mercosul, que promete aprofundar ainda mais o absurdo modo de produção de itens de baixo valor agregado e infinitas externalidades sociais e ambientais, além da total objetificação da vida dos animais não-humanos. Que pare o desmatamento. Que os ruralistas e outras bancadas retrógradas não sejam mais a principal força propulsora de uma legislação que afeta adversamente a todos, animais humanos ou não. Desejo que as pessoas pautem suas atitudes pela razão e não pelo ‘fígado’. Que, se não podem enxergar com o coração, que se rendam à ciência que mostra que os animais devem ser sujeitos de direitos e não coisas. Poderíamos começar por aqueles explorados e mortos para nos servir de alimento sem necessidade, aqueles que são comprovadamente sujeitos de suas vidas. Desejo muitas outras coisas”, anseia.

Homenagem

As contribuições de Paula à UFSC e à causa animal são memoráveis e isso será reforçado no III Encontro Catarinense de Direitos Animais. Evento realizado no dia 16 de agosto na UFSC. Promovido pelo observatório de Justiça Ecológica (OJE/UFSC) e pelo Programa de Pós-graduação em Direito (PPGD/UFSC), o encontro homenageará a professora Paula Brügger e abordará o tema “Abordagens emancipadoras antiespecistas”.

Para a bióloga, o evento é uma bela oportunidade de problematizar a questão dos direitos animais de uma perspectiva interdisciplinar. “Esse próximo encontro, terceiro de uma série, será mais um momento de congraçamento e de reflexões. É muito importante poder, de tempos em tempos, reunir pessoas de diferentes formações acadêmicas, mas cujo foco converge para os direitos animais. Esse evento, em particular, será ainda mais especial para mim, uma vez que serei homenageada por pares que tanto admiro não apenas como profissionais, mas também como seres humanos”, concluiu Paula.

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Colunistas, Tao do Bicho

Trump, tramps e o nosso incondicional apoio à proibição das vaquejadas

Por Paula Brugger

Jornal da Paraíba
Jornal da Paraíba

Vivemos tempos difíceis. Embora estejamos em pleno século XXI, nossa cultura e nossos costumes continuam fortemente impregnados de traços sexistas e especistas, entre outras formas de exercício da tirania e da opressão.

Há cerca de uma semana, em uma votação histórica, o STF – Supremo Tribunal Federal decidiu pela inconstitucionalidade da lei cearense 15.299/2013 que regulamentava as vaquejadas no estado. Com o entendimento da Corte Máxima do país, a vaquejada passa a ser considerada uma prática ilegal, relacionada a maus-tratos a animais e, portanto, proibida (1).

A Constituição Federal é clara em sua redação no que diz respeito à proteção aos animais. No parágrafo primeiro, inciso VII, do artigo 225, afirma-se ser dever do Estado “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais à crueldade (grifos nossos).

Os ministros que votaram pela inconstitucionalidade da vaquejada – uma prática na qual a possibilidade de não haver crueldade é nula – cumpriram, por conseguinte, com muito zelo, o que determina a Carta Magna de 1988. Há ainda outros diplomas legais que coíbem a crueldade com os animais, como a lei a Lei Federal nº. 9.605, de 1998, mais conhecida como Lei de Crimes Ambientais.

Entretanto, apesar de a decisão do Supremo ter efeito vinculante aos órgãos do Poder Judiciário e à Administração Pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal (2), observam-se reações contrárias à acertada decisão da Corte Suprema em alguns lugares do país.

Isso acontece porque enquanto existir a pecuária haverá tentativas de cometer esses e outros tipos de crimes contra tais animais, uma vez que a pecuária fornece a “matéria-prima” para esses abusos. A pecuária no Brasil, e no resto do mundo, é um dos setores que mais lesa o meio ambiente (3) e, nesse sentido, fere mais uma vez a CF no mesmo artigo que salvaguarda os animais da crueldade. Assim é a redação: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

Mas, além da crueldade para com os animais, da destruição do meio ambiente e da associação desse setor com formas de trabalho análogas à escravidão, há o poder arrebatador do império político da carne (4) que, juntamente com outros setores retrógrados, formam a chamada bancada BBB: Boi, Bíblia e Bala.

Eis que, seis dias após a decisão do STF, o jornal  Folha de São Paulo publicou uma matéria, com um conteúdo bastante tendencioso (5), que termina com uma referência ao apoio de Renan Filho – filho do “Rei do gado” em Alagoas (6) – à abjeta prática da vaquejada. Segundo a reportagem, Renan Filho, que criticou a decisão do Supremo, “chamou os praticantes das vaquejadas de ´heróis’ e disse que o esporte  é ´patrimônio cultural´ do Nordeste” (sic).

É triste aquilatar que, enquanto faltam saúde e educação no país – o que provavelmente está no cerne da ausência de questionamento público massivo do conteúdo de medidas como a PEC 241, por exemplo – sobram manifestações a favor da execrável vaquejada.

Isso nos faz pensar que ainda é muito forte a idéia de que “Gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata”. Mas, ao contrário do que pretendia a letra da música em questão (7), de Geraldo Vandré, com gente continua não sendo muito diferente. E isso, em plena era da chamada sociedade da informação e do conhecimento (serão pertinentes esses termos?).

Há cerca de também uma semana foi notícia em todo o mundo o vazamento de um vídeo sexista no qual o candidato à presidência nos EUA, Donald Trump, entre outras ofensas, declarou em alto e bom som que toda mulher tem um preço (8), nivelando todas as mulheres à categoria de – belo trocadilho! – tramps (ou seja, vagabundas).

Políticos poderosos e truculentos, como Trump, precisam aprender que a grande maioria das mulheres não está à venda. Nem todas negociam suas existências em troca de uma vida de privilégios, luxo e riqueza. Nem todas são como as que eles compram, feito “gado valioso”, com os soldos maculados com o sangue e o suor da exploração dos humanos e não humanos que são vítimas de suas sanhas destruidoras. Esses seres repugnantes, que não vêem que suas tramps não passam de arremedos do que seja uma mulher, são os mesmos que promovem a matança de animais indefesos (9) e que advogam a política do “pão e circo”, a fim de perpetuarem suas canalhices ad aeternum.

A letra especista (ainda que tenha se prestado a fins revolucionários) do protesto político de Vandré é um exemplo de como diferentes formas de opressão estão interligadas. Sua leitura crítica também aponta de forma clara os limites dos velhos  paradigmas antropocêntricos no que toca à tecitura de um novo modelo de civilização. Enquanto permitirmos o exercício da tirania sobre os outros animais, haverá violência contra as mulheres, contra as minorias étnicas e contra todos os que são vulneráveis nessa engrenagem que alimenta a ignorância e a morte.

Nesse sentido, a Suprema Corte brasileira deu um passo gigantesco nesse mês de outubro de 2016. E é por essa razão que reiteramos o nosso irrestrito e incondicional apoio à decisão do STF, sobretudo àqueles ministros que honraram e ratificaram o que prega a Constituição Brasileira.

Notas:
(1):Veja aqui.
(2): Veja aqui.
(3): Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO). (2006). Livestock’s long shadow: environmental issues and options. Disponível aqui >; Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO). (2013). Tackling climate change through livestock: a global assessment of emissions and mitigation opportunities. Disponível nesse link.
(4): Entre as empresas do setor, destaca-se a brasileira JBS, maior produtora mundial de carne. Veja Heinrich Böll Foundation & Friends of the Earth Europe. (2014). Meat Atlas: Facts and figures about the animals we eat. Disponível aqui.
(5): Folha de São Paulo de 12/10/2016; “Nove estados têm protestos pela vaquejada” (B.10)
(6): Veja aqui;  acesse o link.
(7): Referência à letra da música “Disparada” de Geraldo.
(8): Acesse a matéria.
(9): Acesse a matéria.

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Colunistas, Tao do Bicho

LATAM versus Especismo

Proteção Animal
Divulgação

Parabenizo a LATAM por não mais transportar nenhum tipo de animal vivo cuja finalidade seja a pesquisa/ experimentos em laboratórios, ou qualquer outro tipo de estudo supostamente científico [1].

Além de indefensável sob o ponto de vista ético – pois submete seres sencientes ao sofrimento físico, psicológico e à morte – a vivissecção falha em um critério fundamental para que seja considerada uma prática verdadeiramente científica: a predictabilidade.

Os animais não humanos não podem ser considerados como bons modelos analógicos causais. Diferenças evolutivas nos sistemas biológicos de humanos e roedores, por exemplo, desencadeiam um efeito cascata que resulta em marcadas diferenças em importantes propriedades biomédicas entre as duas espécies.

O “modelo animal” é falho porque existem diferenças, entre nós e eles, na anatomia, na fisiologia, nas interações ambientais, nos tipos de alimentos ingeridos, etc, que resultam na não-correspondência na absorção, distribuição e metabolismo de substâncias. As condições de laboratório são também mais controladas do que na vida humana e as doses administradas aos animais podem ser muito maiores do que as prescritas aos humanos, em termos de peso corporal. As vias de inoculação de diferentes substâncias (oral, anal, peritonial, vaginal, etc) exercem, ainda, uma grande influência sobre os resultados dos testes.

De acordo com um estudo da Food and Drug Administration (FDA), os efeitos adversos de medicamentos causam cerca de 100.000 mortes por ano nos EUA. Isso acontece porque a esmagadora maioria das novas drogas (em torno de 95%) não é segura ou não funciona em humanos, apesar dos testes pré-clínicos realizados em animais [2].

Não é razoável afirmar que é impossível prescindir dos modelos animais quando não há um investimento sistemático (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, estudos epidemiológicos e outras fontes de informação).

Os defensores da experimentação animal são muitas vezes os mesmos que afirmam que não é possível abolir o consumo de animais na alimentação humana, o que é uma falácia. Uma declaração infeliz nesse sentido partiu do então coordenador do Conselho Nacional de Experimentação Animal (CONCEA), Marcelo Marcos Morales, que afirmou em rede nacional (TV Globo) que “precisamos dos animais na alimentação” [3]. Estão duplamente equivocados. E é lamentável que ignorem os resultados de estudos provenientes de instituições de pesquisa renomadas mundialmente [4].

Transcrevo, mais uma vez, um trecho de uma entrevista do Dr. Philip Low sobre a “Declaração de Cambridge sobre Consciência” que anuncia a presença de consciência em todos os mamíferos, aves e outros animais como os polvos: “O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade”, conclui Low [5].

Tudo isso faz da vivissecção uma prática abominável tanto sob o ponto de vista ético, quanto científico.

Paula Brügger
Professora Titular do Deptº de Ecologia e Zoologia/ Coordenadora do Observatório de Justiça Ecológica – OJE/UFSC [6]

Notas:
[1]: Empresa aérea LATAM proíbe transporte de animais de pesquisa no Brasil

[2]: Dados citados na revista “Good Medicine”, publicada pelo Comitê de Médicos por Uma Medicina Responsável (Physicians Committee for Responsible Medicine – PCRM) vol.XXV. n.2: p.06-07.

[3]: SVB envia carta ao CONCEA esclarecendo que não “precisamos de animais para comer”, como declarou seu coordenador

[4]: No que tange à dieta humana, veja: Position of the American Dietetic Association: Vegetarian Diets e também: Parecer Técnico CRN-3 Nº 11/2015 – VEGETARIANISMO. Quanto à vivissecção, a lista é muito mais numerosa. Veja, por exemplo, GREEK, Ray & GREEK, Jean. Specious Science: How Genetics and Evolution Reveal Why Medical Research on Animals Harms Humans. London, New York: Continuum, 2003.

[5]: “Declaração de Cambridge sobre Consciência”: The Cambridge Declaration on Consciousness e também: “Não é mais possível dizer que não sabíamos”, diz Philip Low

[6]: Texto elaborado a partir de BRÜGGER, Paula. Modelos animais. In: Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004: 63-120; 125-128; Por que somos contra os “modelos animais”

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Colunistas, Tao do Bicho

Je NE suis PAS Charlie!

Causou-me horror e perplexidade uma charge intitulada “Migrants”, publicada pelo jornal francês Charlie Hebdo, na qual a imagem de Aylan Kurdi, o pequeno refugiado sírio morto afogado ano passado na costa da Turquia, é associada ao episódio no qual centenas de mulheres teriam sido vítimas de violência sexual na cidade alemã de Colônia, na noite do Réveillon de 2015 para 2016.

Na charge, de autoria de Riss [1], pergunta-se: “No que teria se transformado o pequeno Aylan se ele tivesse crescido?” A resposta é que (se não tivesse morrido na travessia pelo mar) o menino teria se tornado um “bolinador de nádegas” [2].  No desenho da charge dois homens, com semblantes de animais (um com focinho de porco e outro que lembra um macaco), correm atrás de duas mulheres aterrorizadas.

Quem pensa que é este senhor para promover, sem cerimônia, o linchamento moral de todo um povo – em bloco – exatamente como se fez em regimes totalitários como o nazismo?

Não é a primeira vez que o semanário francês, que se julga “genial”, achincalha a imagem da morte trágica dessa criança inocente [3], símbolo extremo de todas as vítimas de um contexto perverso maior, dominado pela guerra e pela ganância.

É interessante notar que num momento histórico no qual há um recrudescimento do ódio contra imigrantes ocorra um fato de tal monta. E, claro, a extrema direita e os movimentos neonazistas tiram partido de tais acontecimentos [4]. Em sua arrogância e fúria enlouquecida, Riss e o “Hebdo” fomentam, por conseguinte, ainda mais, a cizânia entre europeus e imigrantes, além de provocar o ressentimento dos povos cuja cultura é por eles tripudiada.

E o que isso tudo tem a ver com a coluna Tao do Bicho?

Primeiro, é impossível não ser tomado por um sentimento de profunda indignação e desesperança quando se aquilata que os proponentes da charge em questão são teoricamente representantes de uma espécie de “nata” intelectual e cultural europeia.

Mas também, como comentado antes, os “assaltantes sexuais” da caricatura de Riss têm caras de animais (um porco e um macaco) e isso nos leva a outras questões: além do racismo, Riss reforça outra forma de preconceito que é o especismo. Mais uma vez reforço a importância da mídia na formação de valores no sentido lato, ou seja, os meios de comunicação “educam”; não existe imparcialidade em suas mensagens escritas ou gráficas. No que tange à nossa relação com as outras espécies animais, venho sublinhando que a educação ambiental crítica deve rejeitar valores antropocêntricos e especistas, e promover abordagens e valores mais biocêntricos, ecocêntricos e zoocêntricos, ou seja, deve ensinar a abrir mão de exercer domínio sobre o outro. Outras expressões de dominação são o imperialismo, o racismo, e o sexismo, as quais são, todas, formas de hierarquias. As hierarquias, por sua vez, são, a rigor, ego-ações [5].

Jeffrey Moussaieff Masson em seu livro “Beasts” afirma que os humanos parecem ter uma propensão irrefreável a estabelecer hierarquias, o que inevitavelmente sinaliza o desejo de dominar os outros. Ele argumenta ainda que a hierarquização é algo mau não só para indivíduos, mas também para toda a sociedade [6].

É monstruoso “urinar” sobre o cadáver de um menino indefeso. Os jornalistas do pasquim Charlie Hebdo colocam em risco não apenas suas próprias peles, mas também as vidas daqueles que consideram seus semelhantes – os franceses caucasianos – na medida em que fornecem combustível para tanto ódio.

Se francesa fosse, estaria eu às portas do “Hebdo” não para lhes prestar qualquer forma de homenagem ou solidariedade, mas para brandir um cartaz de protesto: “Pelo fim do racismo, do imperialismo, do especismo e de todas as formas covardes e cegas de domínio sobre os outros.

Termino indicando um link no qual a rainha Rania, da Jordânia, sugere uma outra versão do que seria o futuro de Aylan Kurdi [7]: “Ele poderia ter sido médico, professor ou pai carinhoso”. Ou quem sabe até um ativista pelos direitos humanos e dos animais?

Notas:
[1]: Diretor do jornal semanal francês Charlie Hebdo; a charge pode ser visualizada no link.
[2]: No original “tripoteur de fesses”; tradução minha.
[3]: Matéria do Globo.
[4]: Ver notícia.
[5]: BRÜGGER, Paula. Educação ou adestramento ambiental? Chapecó: Argos/ Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004, p.164-165.
[6]: Masson, Jeffrey M. Beasts – what animals can teach us about the origins of good and evil. New York: Bloomsbury, 2014.
[7]: Ver link do G1.

Dedico este texto a meu pai que, muito chocado com a publicação da charge, foi o primeiro a me telefonar para conversar sobre o assunto.

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Colunistas, Tao do Bicho

Uma década do livro “Amigo Animal” – e fim de um projeto de 15 anos

Dia desses um amigo comentou que viu uma citação minha no Facebook de uma colega de trabalho dele. Como não tenho “Face”, pedi que ele me transcrevesse a citação pois fiquei curiosa sobre a sua origem.

A citação era de meu livro “Amigo Animal  – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas”, de 2004.

Naquele momento, me dei conta de que uma década havia se passado!

Inicialmente a proposta do livro era servir como suporte para um projeto pedagógico de mesmo nome que começara no ano 2000, numa parceria entre o Deptº de Ecologia e Zoologia/UFSC e a extinta ONG “Sociedade Animal”.  Mas, durante a sua “escritura”, o escopo para o qual havia sido pensado cresceu sobremaneira. À medida em que mergulhava na temática escolhida percebia que, para cada parágrafo escrito, emergiam incontáveis veredas paralelas inextricavelmente ligadas entre si. Esse eterno desenovelar é próprio do pensamento holístico e interdisciplinar, proposto no livro, e único caminho para uma abordagem não-fragmentária da  problemática ambiental.

Como o título do livro sugere, seu objetivo geral foi discutir os fundamentos éticos que alicerçam a relação entre nós – animais humanos – e os “outros animais” numa perspectiva sistêmica e ecológica, identificando também alguns elementos históricos, econômicos, sociais e políticos subjacentes à temática, a fim de ultrapassar a perspectiva meramente naturalista dominante. A discussão se desenvolveu em torno de três eixos: animais de rua; uso de animais na alimentação; e uso de animais no ensino e na pesquisa. Esses temas geradores foram, assim, o fio condutor de um debate interdisciplinar acerca da nossa relação de supremacia absoluta sobre os animais não humanos – esses “outros nós” –, como relação sociedade-natureza.

O primeiro tema discutido é sem dúvida o principal foco de atuação da maior parte das ONGs que têm como objetivo a chamada “proteção animal” e se refere a um problema cuja solução é razoavelmente consensual. Embora esse tema seja mais visível – pois os animais maltratados, abandonados ou explorados em vias públicas sofrem diante de nossos olhos – ele é apenas a “ponta do iceberg”, quando se trata da relação entre nós e eles.

Já o segundo e o terceiro temas envolvem questões polêmicas e muito menos evidentes.  Sua abordagem é, entretanto, fundamental para uma visão mais ampla da nossa relação com os outros animais, sobretudo para os não-iniciados na causa animal. Ambos abrangem conteúdos que, embora pouco debatidos cotidianamente, encontram-se diretamente relacionados a muitas atividades e processos produtivos que envolvem o meio acadêmico e a sociedade em geral. Isso torna esse debate imprescindível para a construção de uma sociedade sustentável também no plano ético, uma dimensão alijada da própria ciência dominante.

Ao discorrer sobre os animais usados na alimentação humana procurei mostrar algo que, felizmente, se tornou fartamente documentado nesses últimos dez anos: a estreita relação entre essa dieta e diversos problemas como o sofrimento físico e psíquico dos animais, doenças humanas; injustiças sociais; e impactos negativos sobre os recursos naturais e a biodiversidade, entre outros.

Entretanto a contribuição mais significativa do livro foi aprofundar, no terceiro tema, as causas do fracasso da experimentação animal sob o ponto de vista ético e científico. Essa questão foi abordada fazendo dialogar as premissas básicas da visão sistêmica – presentes sobretudo em “A teia da vida”, de Fritjof Capra – e os processos tanto biológicos quanto sociais, culturais, históricos, etc, que envolvem pesquisas, orientações pedagógicas e políticas públicas em saúde (planetária e individual), mostrando o quanto a experimentação animal – ou vivissecção – é uma prática extremamente reducionista, no seio da qual se perpetuam visões de doença e saúde igualmente reducionistas.

O segundo e o terceiro temas envolvem, portanto, questões que estabelecem um diálogo tenso com diversos valores dominantes em nossa sociedade. E tais questões não podem ser tratadas à luz das perspectivas educativas tradicionais, baseadas numa visão de mundo mecanicista e essencialmente consensual, o que as torna epistemologicamente pobres. Não será possível mudar visões de mundo e educar de forma crítica – ou genuinamente “ambiental” – sem promover rupturas e sem incorporar a dimensão do conflito, seja de valores, seja de interesses, etc.

E o projeto “Amigo Animal” comentado antes?

O projeto, que teve início em 2000, começou sua trajetória em escolas de primeiro e segundo graus, sendo apresentado sob a forma de cartilha virtual (34 transparências) com um posterior debate. No caso de turmas com crianças de idade mais tenra, apenas o primeiro eixo era apresentado e, no lugar de debates, as crianças elaboravam desenhos de livre escolha sobre a temática em questão.

Apesar de haver sido oficialmente aprovado por duas secretarias de educação – a estadual de Santa Catarina e a municipal de Florianópolis – apenas o primeiro tema decolou.

Isso já era de certa forma esperado, dada a natureza das temáticas dois e três. Ainda assim – e contemplando apenas o primeiro eixo – o projeto teve que esperar pela criação da Coordenadoria do Bem Estar Animal, da Prefeitura Municipal de Florianópolis (PMF) [1], para que se consolidasse de forma interinstitucional. Antes disso eu havia conseguido recursos junto à Universidade Federal de Santa Catarina para viabilizar a publicação do livro e a elaboração de materiais instrucionais – como banners e livretos explicativos sobre o projeto – que foram distribuídos para a maior parte das escolas das redes municipal e estadual como parte integrante de um amplo projeto de formação. A partir da citada parceria com a PMF, mais adiante, foi elaborada também uma cartilha relativa ao conteúdo do primeiro eixo do projeto. Esse material instrucional, que visava ao reforço daquele conteúdo programático, seria distribuído para cada criança que participasse do projeto. Com isso teríamos mais um potencial aliado: o papel multiplicador de cada criança em seu círculo familiar, bairro, etc. Foram impressos 10.000 exemplares da cartilha, cujo lançamento oficial foi no dia 07 de junho de 2006, na escola Osmar Cunha, em Canasvieiras, Florianópolis [2]. A então coordenadoria, atual diretoria do Bem Estar Animal, disponibilizou também um funcionário e uma voluntária para o projeto.

A partir daquele momento o projeto Amigo Animal teve a honra de fazer parte de um programa maior que reunia os três pilares básicos para uma genuína solução para os chamados “animais de rua”: castração, educação e doação [3]. Durante alguns anos essa pareceria andou de vento em popa, fazendo com que o Bem Estar Animal em Florianópolis servisse, inclusive, como modelo e inspiração para a implementação de projetos semelhantes em outros estados.

Durante esses anos confesso que muito lamentei o fato de apenas o primeiro eixo ter despertado algum interesse por parte dos educadores das escolas por onde o projeto passou. De qualquer forma, nem tudo foram flores. Fui diversas vezes alvo de críticas de professor@s e coordenador@s que consideravam uma perda de tempo tratar da nossa relação com os animais num contexto no qual tinham que lidar com problemas como uso de drogas, violência e gravidez na adolescência.  De fato, diversas escolas jamais nos concederam espaço. Embora eu não tenha insistido em promover o projeto em tais casos, sempre tive a intuição (e ainda tenho) de que esses problemas, aparentemente tão distantes, compartilham causas semelhantes em suas raízes. Tanto no temário do projeto, quanto nos problemas que aconteciam nas escolas, era possível traçar elementos comuns tais como formas de discriminação, violência e falta de altruísmo, por exemplo. Continuo acreditando que a reflexão sobre um determinado problema pode ajudar a solucionar outro(s). Mas minha forma de pensar nunca foi muito persuasiva aos olhos de tais educador@s.

Enfim, considerando o background especista que marca a nossa cultura, preferi privilegiar o lado positivo do empreendimento, em vez de encafifar com a questão.

Mas, como “tudo o que é sólido desmancha no ar”, o projeto foi encerrado no segundo semestre de 2014. Devido a uma mudança de gestão na PMF (e na diretoria do “Bem Estar Animal”), fui informada, em meados de 2013, que o funcionário responsável pelo projeto “Amigo Animal” fora transferido daquele setor e que não haveria outro para assumir suas funções. O funcionário em questão tinha as incumbências de realizar contatos, agendar as visitas das escolas e recebê-las, tendo recebido para isso treinamento qualificado. Também cabia a ele zelar pelo material instrucional do projeto (cartilhas entregues às crianças). Depois de sua saída tive que assumir as funções do funcionário, fato que dificultou sobremaneira a continuidade do projeto [4]. Devido a esses e outros percalços, o projeto passou a receber uma quantidade muito menor de visitas e entrou em franco declínio, até parar neste segundo semestre.

Essa foi, de forma muito resumida, a trajetória do projeto.

Durante esse tempo de mais de uma década, muitas coisas aconteceram. Houve um expressivo florescimento de publicações acerca da senciência animal, dos inequívocos impactos negativos das dietas cárnicas na natureza, e sobre o caráter antiético e anti-científico da experimentação animal.

No mundo vivido, porém, as coisas andam a passos mais lentos. E, mesmo na chamada era do conhecimento, é comum que dados e informações imprescindíveis para a manutenção da odisséia da vida se percam como “lágrimas na chuva” [5].

Assim como não existe linearidade histórica, ou homogeneidade nos avanços em diversas áreas do conhecimento, talvez seja possível que esse hiato entre teoria e prática se desfaça. Que venham as mudanças.

Notas:

[1]: Atual “Diretoria do Bem Estar Animal” (DIBEA)

[2]: Houve posteriormente uma segunda edição da cartilha “Amigo Animal”. Sua elaboração foi feita a partir de uma ampla revisão da primeira edição, incorporando feedbacks de professores e alunos.

[3]: Outro projeto digno de nota junto ao canil da PMF/ DIBEA é  o “Cão Terapia”. Visite: http://www.obafloripa.org/projetos.php

[4]: Após a saída do referido funcionário, as cartilhas estocadas na DIBEA já não se encontravam bem acondicionadas (muitas estavam coladas umas às outras, possivelmente devido à estocagem em local úmido).

[5]: Essa foi uma das frases do trecho final do filme Blade Runner, dirigido por Ridley Scott, de 1982.

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Porque somos contra os modelos animais – O reducionismo como base da falibilidade dos modelos animais

Além de indefensável sob o ponto de vista ético, uma vez que submete seres sencientes1 ao sofrimento físico e psicológico (Singer, 1998; Regan, 2001), a vivissecção2 é uma prática que falha em pelo menos um critério fundamental para que seja considerada verdadeiramente científica: predictabilidade. Antes de tecer algumas considerações acerca das razões de ordem epistemológica subjacentes aos resultados pífios provenientes dos modelos animais, gostaria de remeter o leitor a alguns contextos e dados que ilustram a afirmação feita anteriormente.

No que diz respeito a medicamentos, por exemplo, apesar da enorme quantidade de cobaias mortos para supostamente assegurar a eficácia e testar os efeitos colaterais de novas drogas, Greek & Greek (2000, p.117) destacam que “segundo a organização Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, apenas 1% dos novos medicamentos testados em laboratórios vão para o estágio clínico (em que são testados em voluntários humanos). Dos que chegam ao mercado, muitos apresentam sérios efeitos colaterais e riscos não previstos. “Uma revisão realizada pelo governo americano nas drogas lançadas entre 1976 e 1985 revelou que 51,5% delas ofereciam riscos não previstos nos testes” (Barnard & Kaufman, 1997, p.81). Greek & Greek (2000, p.58) destacam que, “a cada ano, dezenas de milhares de pessoas adoecem devido ao uso de fármacos legalmente vendidos. Archibald (2005) , que argumenta no mesmo sentido, afirma ainda que os efeitos colaterais de medicamentos prescritos estão entre as primeiras causas de mortes no Ocidente3. Ela cita o caso recente do Vioxx – um fármaco para combater a artrite – que foi retirado do mercado global em setembro de 2004, após ter causado 140.000 casos de ataques cardíacos e derrames somente nos EUA. O fármaco, quando testado em animais não-humanos, se mostrou seguro e até benéfico para o coração deles. Outro exemplo que merece destaque é o das terapias de reposição hormonal. Prescritas para milhões de mulheres, porque diminuíam o risco de doenças cardíacas e derrame em macacos, tais terapias aumentaram significativamente o risco dessas doenças em mulheres e ainda provocaram 20.000 casos de câncer de mama. Archibald cita diversos outros fármacos que matam4 e Greek & Greek (2003, p.112-115) também apresentam uma lo nga lista de medicamentos retirados do mercado, na Grã-Bretanha e EUA, por conta dos seus gravíssimos efeitos colaterais (que incluem morte). Eles destacam que as drogas listadas representam uma pequena parte da calamidade total. A lista completa é quase inumerável, dizem eles, uma vez que muitos problemas sequer foram relatados.

E por que razão tais drogas são ineficazes e até perigosas? Porque os dados provenientes de testes com animais não-humanos são caóticos e não confiáveis. Eis um exemplo emblemático: “pesquisadores escolheram 6 drogas com efeitos colaterais conhecidos em humanos. Os testes com animais corretamente previram 22 efeitos colaterais, mas incorretamente apresentaram 48 efeitos que não ocorriam em humanos. E mais, os testes em animais não previram 20 efeitos colaterais que ocorrem nos humanos. Portanto, os modelos animais erraram 68 vezes em 90. Assim, em 76% das vezes, os resultados provenientes de experimentos com animais estavam errados” (Lumley and Walker apud Greek & Greek, 2003, p.111)

O modelo animal é falho porque existem diferenças, entre nós e eles, na anatomia, na fisiologia, nas interações ambientais, nos tipos de alimentos ingeridos, etc, que resultam na não-correspondência na absorção, distribuição e metabolismo de substâncias. Ademais, as condições de laboratório são mais controladas do que na vida humana e as doses administradas aos animais podem ser muito maiores do que as prescritas aos humanos, em termos de peso corporal. Portanto, fora o fato de que as vias de inoculação de diferentes substâncias – se oral, anal, peritonial, vaginal, etc – podem exercer uma grande influência sobre o resultado dos testes, a dosagem pode ser também um fator crucial.

Fano (2000), por exemplo, destaca que muitos testes com animais ocorrem em condições (dosagens, métodos, etc) que não têm similaridade com a vida real. Em um experimento envolvendo o adoçante ciclamato, os animais receberam o equivalente humano a 552 garrafas de refrigerantes por dia. Em dois experimentos com tricloroetileno (usado como agente descafeinizante em café) os ratos receberam uma dose equivalente a 50 milhões de xícaras de café por dia. Isso pode falsificar os resultados de duas maneiras: pode envenenar as células e tecidos, tão severamente, a ponto de prevenir uma resposta carcinogênica que em outras condições poderia ocorrer; ou pode sobrecarregar, ou mudar, os processos metabólicos e causar uma resposta carcinogênica que poderia não ocorrer, conclui ela.

Além disso, a velocidade do metabolismo dos animais é variável. Animais de laboratório são em geral menores do que os humanos e, com isso, têm um metabolismo muito mais intenso. Dessa forma, eliminam toxinas mais rapidamente do que os humanos, o que pode impedir que os efeitos tóxicos apareçam, como observa Fano.

Apesar de os vivisseccionistas afirmarem que ratos e camundongos se constituem em bons modelos para estudar doenças e outras condições ou males que acometem os humanos, há expressivas diferenças entre eles e nós. Segundo Greek & Greek (2003, p.121), “ratos respiram obrigatoriamente pelo nariz, o que pode alterar a forma de entrada de uma substância pela corrente sanguínea; a placenta é consideravelmente mais porosa nos ratos do que na espécie humana; devido a diferenças na distribuição da microflora intestinal, eles são muito mais propensos a metabolizar um composto administrado oralmente em um metabólito ativo, ou tóxico; a secreção de ácido no interior do estômago deles é contínua, enquanto no dos humanos ela ocorre apenas em resposta à presença de alimentos, ou outros estímulos. Os ratos são ainda animais de hábito noturno, susceptíveis a doenças diferen tes das nossas, têm requerimentos nutricionais também diferentes e são incapazes de vomitar. Todas essas peculiaridades (anatômicas, fisiológicas, etc) afetam a absorção, a farmacocinética e o metabolismo de compostos, ou causam reações inesperadas com relação a um composto”5.

Muitas outras questões que afetam os dados provenientes de testes com animais não-humanos poderiam ser adicionadas aqui como, por exemplo, a influência do enriquecimento ambiental (veja artigo da New Scientist, (173[2333], 09 de mar.2002:11, intitulado “Home comfort for lab animals create problems for researchers”). Mas, afinal, que questões estariam no cerne de tais resultados caóticos?

Os modelos animais são imprecisos porque se constituem numa prática imersa no paradigma mecanicista e, portanto, reducionista, que se tornou hegemônico em nossa cultura. Tal paradigma encontra-se também inextricavelmente associado a uma ética antropocêntrica e especista. A oposição sujeito-objeto, base da pretensa descrição objetiva da natureza, é outra dicotomia que está no cerne do corpus formal do conhecimento em nossa sociedade e também na experimentação animal. Nela, toma-se um animal como modelo de estudo, sendo este analisado segundo suas supostas capacidades de prever ou reproduzir um determinado fenômeno. Dentro do paradigma mecanicista isso faria sentido, pois tratar-se-ia de analisar, compreender, ou identificar, um determinado mecanismo para depois verificar de que forma aquele mecanismo (genético, fisiológico, metabólico, etc) poderia ser usado para predizer outro, o organismo a ser modelado. Ocorre que os fenômenos sociais e naturais são muito mais complexos do que postulam as premissas da visão mecanicista, o que torna esse paradigma inadequado ou, no mínimo, muito limitado para descrever tal gama de complexidade (veja Maturana, 2002; Capra, 1996; Brügger, 2004, p.63-120).

Capra (1996), por exemplo, argumenta que há três critérios fundamentais para uma descrição abrangente da natureza da vida: o padrão de organização (a configuração de relações que determinam as características essenciais do processo); a estrutura (a incorporação física do padrão de organização do sistema); e o processo (a atividade envolvida na incorporação contínua do padrão de organização do sistema). Nessa visão, todos os sistemas vivos são sistemas cognitivos e a cognição sempre implica a existência de uma rede autopoiética, ou seja, a característica básica de uma rede viva é que ela produz continuamente a si mesma, ela se autocria (veja também Maturana, 2002). Esse processo de autocriação também influi na capacidade de formar novas estruturas e novos padrões de comportamento.

Assim, embora haja muitas características comuns entre nós e os outros animais, diferenças microscópicas entre as nossas células e as deles podem levar a erros grosseiros. Todas as espécies – plantas e animais – seguem o mesmo design: são formados pelas mesmas unidades de DNA (A,T,C,G) que são juntadas no mesmo processo. Mas, enquanto o material genético é o mesmo, a composição, os arranjos são diferentes. Isso faz toda a diferença.

O seguinte contexto – que envolve a semelhança entre nós e os chimpanzés – demonstra de forma inequívoca a razão de rechaçarmos o argumento reducionista de que tais animais são excelentes modelos. Segundo Greek & Greek (2003, p.49-50), “se examinarmos os genes que codificam proteínas que atuam como enzimas, ou provêem a base para estrutura, ou movimento celular, a semelhança entre nós e os chimpanzés é maior do que 99%. A diferença está, portanto, não nos blocos de construção, mas na forma como eles são arranjados e comandados por genes reguladores que controlam o padrão e o crescimento. Assim, por exemplo, uma única diferença num aminoácido, entre primatas humanos e não-humanos, faz com que o HIV não se acople ao mesmo receptor celular em primatas não-humanos”.

Essa é a “dialética” da natureza. E é exatamente o que argumenta Capra, no parágrafo anterior (veja também Brügger, 2004, p.125-128).

Assim, o elevado grau de correspondência genética que há entre nós e tais modelos (como primatas e roedores) só faz sentido, em termos de confiabilidade, dentro de uma visão reducionista de ciência. Os animais não-humanos não podem ser considerados como bons “modelos analógicos causais” (CAMs). Segundo os filósofos Hugh La-Follete e Niall Shanks (1996) um modelo analógico causal funciona da seguinte forma: X (o modelo) é semelhante a Y (o objeto a ser modelado) com relação às propriedades {a….e}. X tem a propriedade adicional f. Embora não observada em Y, supõe-se que Y também tenha a propriedade f. Então, se a droga Z causa a morte do modelo animal (por exemplo, a penicilina mata porquinhos da Índia), por analogia, matará os humanos (veja Greek & Greek, 2003, p.45). La-Follete e Shanks (1996) afirmam que “os modelos analógicos causais teriam q ue apresentar também características comuns; conexões causais entre as características; e ausência de disanalogias relevantes. E afirmam que a possibilidade de haver disanalogias causais relevantes destrói o argumento de que as pesquisas com animais têm importância direta para o estudo de fenômenos biológicos humanos. Isso acontece porque, até que sejam feitos testes com humanos, não há como saber se existem ou não disanalogias relevantes entre nós e o modelo animal estudado. E há fortes razões teóricas para esperar que existam disanalogias causais relevantes. Animais humanos e não-humanos foram submetidos a pressões evolutivas muito distintas. O fato de duas espécies terem propriedades funcionais biológicas semelhantes não nos dá razão para pensar que elas tenham mecanismos causais subjacentes semelhantes. Embora os humanos não sejam ´essencialmente´ diferentes dos ratos, ou tampouco formas de vida ´mais elevadas´, somos diferentes em termos de complexidade. Diferenças entre as espécies, ainda que pequenas, freqüentemente resultam em respostas radicalmente divergentes com relação a estímulos qualitativamente idênticos. Diferenças evolutivas nos sistemas biológicos de humanos e roedores, por exemplo, desencadeiam um efeito cascata que resulta em marcadas diferenças em importantes propriedades biomédicas entre as duas espécies”.

Portanto, a presença de pequenas diferenças no nível celular, como prega a Teoria da Evolução, invalida as extrapolações entre as espécies.

Compreendemos de forma muito limitada a pujança autopoiética da natureza, mas queremos exercer domínio sobre ela. Penso que as questões aqui colocadas devam, portanto, fazer parte do debate sobre a eficácia dos modelos animais como ferramentas de ensino e pesquisa. Isso porque os profissionais que deles se utilizam são, em tese, cientistas e estão produzindo conhecimento, além de estarem formando uma legião de seguidores de seus preceitos cientificamente questionáveis.

Embora hoje não seja mais possível negar a influência dos fatores aqui apontados – os quais concertados entre si podem produzir uma realidade completamente nova e inesperada, com a qual o cientista tem que lidar – os fundamentos epistemológicos subjacentes a tais processos, ainda se constituem numa questão considerada excessivamente abstrata. Entretanto, a aceitação de que há uma interdependência entre variáveis que não podem ser isoladas e estudadas em separado, ou quantificadas em termos de influência, faz parte da essência do método científico – mesmo o mecanicista – ainda que em menor extensão. Essa é uma questão muito mais profunda e crucial do que pode parecer, pois implica compreender verdadeiramente que o conhecimento construído é sempre uma abstração no sentido rigoroso do termo. E que algumas abstrações, ou metáforas, são mais adequadas do que outras par a descrever determinadas realidades.

Dessa forma, salvo em casos nos quais os modelos animais tenham sido rigorosamente validados (mas isso implica a morte de milhões deles!), os dados corretos, aparentemente obtidos a partir de modelos animais, são, na verdade fruto da coincidência e do acaso, ou de pistas fornecidas por outros campos de pesquisa. Não refletem o resultado de uma empreitada verdadeiramente científica, uma vez que não implicam num conhecimento minucioso dos complexos mecanismos presentes nos processos estudados6. Tais acertos parecem refletir nada mais do que um pequeno percentual bem-sucedido de meras tentativas e, com isso, não diferem significativamente de outras situações como os índices de acerto em cestas de basquete, por exemplo, por parte de pessoas que não dominam tal esporte.

Urge, portanto, que façamos uma reflexão criteriosa acerca da manutenção desse paradigma ancorado em valores antropocêntricos e especistas. Não é razoável afirmar que é impossível prescindir dos modelos animais quando não há um investimento sistemático (nem em educação, nem em pesquisa) no uso de alternativas, sejam elas técnicas substitutivas ou alternativas no sentido lato (como bancos de dados clínicos, epidemiológicos e outras fontes de informação).

Finalmente, vale dizer que as críticas aos modelos animais fazem parte de uma crítica maior que diz respeito às visões de saúde e doença presentes na medicina que se tornou hegemônica, baseada na intervenção e não na prevenção. Tal visão faz parte de um paradigma que privilegia as soluções “farmaco” e “tecno”-lógicas, como de resto é a ótica dominante em nossa cultura (exemplo emblemático é o tratamento/cura proposto para as “mudanças climáticas” ora em curso). E, mais uma vez, a falta de visão sistêmica jaz na base de todas essas questões.

Notas

1 Seres sencientes são aqueles capazes de experimentar prazer, dor, alegria e outras sensações e emoções.

2 O termo vivissecção tem o significado de “cortar vivo”. É empregado para designar a realização de operações ou estudos em animais vivos para observação de determinados fenômenos.

3 As primeiras são: câncer, doenças do coração e derrame (acidentes vasculares cerebrais).

4 Alguns fármacos citados por Archibald são o Baycol, o Rezulin, Propulsid, Opren, Eraldin.

5 Há ainda diferenças importantes entre machos e fêmeas, e entre linhagens e resultados de diferentes instituições.

6 Como os chamados “laços de realimentação” e outros mecanismos que podem atuar de forma auto-referencial nos modelos propostos.

Bibliografia

ARCHIBALD, Kathy. Animal testing: science or fiction? The Ecologist, maio. 2005: 14-17.

BARNARD, Neal & KAUFMAN, Stephen. Animal research is wasteful and misleading. Scientific American, fev. 1997. 80-82.

BRÜGGER, Paula. Modelos animais. In: Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2004: 63-120; 125-128).

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. Trad. Newton Roberval Eichemberg. São Paulo, Cultrix, c1996.

FANO, Alix. Beastly practice. The Ecologist, vol 30 (3), maio, 2000: 24-28

GREEK, Ray C.& GREEK, Jean S. Sacred cows and golden geese – the human cost of experiments on animals. Foreword by Jane Goodall. New York/London: Continuum, 2000.

GREEK, Ray & GREEK, Jean. Specious Science: How Genetics and Evolution Reveal Why Medical Research on Animals Harms Humans. London, New York: Continuum, 2003.

LaFOLLETTE, Hugh & SHANKS, Niall. Brute Science: Dilemmas of Animal Experimentation. London: Routledge, 1996.

MATURANA, Humberto R.& VARELA, Francisco J.. A árvore do conhecimento – as bases biológicas da compreensão humana. 2ªed. Trad. Humberto Mariotti e Lia Diskin.São Paulo: Palas Athena, 2002.

REGAN, Tom. Defending animal rights. Chicago: University of Illinois Press, 2001.

SINGER, Peter. Ética Prática. 2ª ed. Trad. Jefferson L. Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 1998.

 

Publicado na Revista Pensata Animal 

Paula Brügger – brugger@ccb.ufsc.br

Professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina onde ministra as disciplinas “Biosfera, sustentabilidade e processos produtivos”, “Meio Ambiente e desenvolvimento? e “Gestão da sustentabilidade na sociedade do conhecimento”. É graduada em Ciências Biológicas com especialização em Hidroecologia, Mestra em Educação e Doutora em Ciências Humanas – “Sociedade e Meio Ambiente”. Atua na defesa dos animais e do meio ambiente e auxiliou diversas vezes o Ministério Público Federal na luta contra projetos de pseudodesenvolvimento que promovem exclusão social e a destruição da natureza. É autora dos livros Educação ou adestramento ambiental?, em 3ª edição, e Amigo Animal ? reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas. Coordena o projeto de educação ambiental “Amigo Animal”, oferecido para as escolas da rede municipal como tema transversal. É coordenadora do Departamento de Meio Ambiente da “Sociedade Vegetariana Brasileira” (SVB). Atua principalmente nos seguintes temas: educação ambiental; interdisciplinaridade e paradigmas de ciência; desenvolvimento sustentável; relação dos seres humanos com os outros animais como relação sociedade-natureza.


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Natal é carnificina! Assinado Babe, o porquinho

As festas de fim de ano se aproximam e, mais uma vez, me lembro de um diálogo entre os animais do filme Babe, o porquinho atrapalhado (de Chris Noonam, 1995), que culmina com a frase: “Natal é carnificina!” De fato, se observarmos bem, verificaremos que muitas vezes identifica-se uma “boa mesa” pela quantidade de proteína animal que ela oferece. Quanto mais especial é uma ocasião, tanto maior tende a ser a quantidade de proteína animal em nossas mesas, sobretudo carnes e pratos (tanto doces quanto salgados) atolados de creme de leite, uma opção que sequer condiz com a nossa condição climática pois, quando o Natal é celebrado, é verão aqui.

No caso específico do Natal é interessante pensar que essa festa de celebração de “paz e boa vontade” envolva tão pouca boa vontade para com os animais.

Diversas ONGs (como, por exemplo, a Compassion in World Farming  fazem campanhas a respeito do sofrimento dos animais que nos servem de alimento e nessa época, em especial, em favor dos perus que se tornaram um prato típico das festas de fim de ano. Esses pobres animais são criados em condições miseráveis e sofrem uma morte dolorosa para que possamos saborear sua carne, isto é, são obrigados a amargar uma existência de sofrimento unicamente para satisfazer um gosto dos seres humanos.

De resto, o Natal se tornou, em grande medida, uma festa do comércio, uma festa voltada para o consumo, quando deveria ser uma ocasião de compartilhamento e de compaixão. Com-paixão é o sentimento de quem sofre junto, de quem é capaz de se colocar no lugar do outro, de com-partilhar. A “pena” é um sentimento superficial que resulta de quem não tem capacidade de se colocar no lugar do outro, ou acha que não está sujeito ao mesmo tipo de experiência. Quando experimentamos o verdadeiro sentimento de compaixão não mais toleramos que os animais sejam vistos como meras fábricas de proteína. Seu sofrimento não se resume ao abate: muitos passam a vida toda confinados sem jamais tocar o solo ou sentir o calor do sol, são transportados para os matadouros sem água ou alimento, suportando temperaturas extremas. Há ainda “a separação entre mães e filhotes, a separação de rebanhos, as marcas com ferro em brasa, e outros sacrifícios que não levam em consideração os interesses dos animais”, como bem destaca o filósofo Peter Singer. Serão os animais nossos companheiros de jornada na Terra, ou meros recursos para nos servir e atender os nossos desejos hedonistas? Assim, no que tange aos animais, devemos ter em mente que não somos mais caçadores-coletores e temos à nossa disposição uma ampla variedade de fontes de proteína que nos garantem uma alimentação balanceada.
 
Finalizo sugerindo três sites onde o leitor poderá encontrar receitas vegetarianas saborosas e nutritivas. O leitor poderá segui-las passo a passo, ou apenas encontrar inspiração para fazer sua própria criação. Muitas são as opções que vão desde as mais saudáveis e simples, como frutas (incluindo nozes, castanhas, etc); simples mas meio junk food como o Not-dog (cachorro quente com salsicha vegetal); até pratos sofisticados como “bobó sem camarão”, “bacalhau sem bacalhau” (uma receita portuguesa com certeza! Visite  Animal Org  e delicie-se com este prato fantástico).
As opções são infinitas. Estes são apenas alguns exemplos de pratos saborosíssimos e que não implicam em sofrimento para os animais.

E há muitos outros…

Boas Festas e lembre-se: procure ser vegetariano (de preferência vegano) o ano todo!

Que 2010 seja um ano melhor para todos os animais, humanos e não- humanos!

Paula Brügger, Professora do Depto. de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ex-membro da Comissão de Ética no Uso de Animais – (CEUA), Mestra em Educação e Doutora em Ciências Humanas – Sociedade e Meio Ambiente.É autora dos livros “Educação ou adestramento ambiental?”, que está na 3ªedição, e “Amigo Animal” – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente. Atualmente coordena o projeto educacional “Amigo Animal”. É colunista da Anda.

Fonte: Guia Vegano

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Por que protetores de animais comem animais?

“Palestra proferida no 36 Congresso Vegetariano Mundial”
Paula Brügger

A história da nossa espécie – Homo sapiens -, sobre a Terra é marcada por uma progressiva ruptura entre nós e o entorno, como nos ensina Milton Santos. Essa afirmação, verdadeira sobretudo para as sociedades industriais, nos obriga a refletir, entre muitas outras questões, sobre o fato de estarmos nos distanciando cada vez mais dos processos produtivos que fabricam diversos itens e produtos que consumimos no nosso dia-a-dia.

Isso significa que pouco sabemos sobre o custo ambiental, social, etc, da maior parte desses produtos. Por exemplo, para ter acesso à eletricidade basta tocar o interruptor, e para saborear um pedaço de carne, basta escolher um bom corte no supermercado. Mas o processo de produção de diversos produtos que consumimos quotidianamente pode ser bastante predatório em muitos sentidos.

Nossa dieta alimentar, por exemplo, pode ser geradora de grandes impactos sociais e ambientais, dependendo se ela é basicamente vegetariana ou carnívora (rica em proteína animal, em geral). As dietas essencialmente carnívoras provocam hoje gigantescos impactos sociais e ambientais como destruição de habitats e perdas de biodiversidade; consumo exacerbado de recursos naturais renováveis e não renováveis (como água, solo, petróleo); poluição; destruição de pequenas propriedades rurais e exclusão social; além de estar associada com o aumento de incidência de diversas doenças como as cardiovasculares, obesidade, câncer, etc. Todas essas razões seriam suficientes para abdicarmos de uma dieta rica em proteína animal, pois tal dieta é insustentável. Entretanto, a questão central deste grupo de trabalho é o sofrimento infligido aos animais que são criados e abatidos para consumo humano. Enfim, Por que é tão comum protetores de animais comerem carne? 

A resposta, me parece, está pelo menos em parte ligada a essa ruptura entre nós e o entorno. Embora possamos prescindir de carne e outras formas de proteína animal para garantir uma boa saúde, muitos protetores de animais ainda comem carne unicamente porque, de um lado, não têm que matar o animal com suas próprias mãos, e de outro, desconhecem todos os sofrimentos por que passam tais animais antes de chegar às suas mesas. Em outras palavras, vale a velha máxima: “o que os olhos não vêem, o coração não sente”.

A relação seres humanos-animais pode ser tratada sob inúmeros aspectos: tráfico de animais; alimentação rica em proteína animal; uso de animais em ensino e pesquisa; uso de animais em circos, rodeios, etc, animais de rua, e muitas outras. A questão dos animais de rua é sem dúvida um dos principais focos de atuação da maior parte das ONGS que têm como objetivo o amparo e a proteção dos animais, e é um problema muito mais visível, pois os animais abandonados estão sofrendo diante de nossos olhos. Esse problema é, entretanto, apenas a “ponta do iceberg”, quando se trata da relação entre nós e os animais.

Além dos inúmeros problemas sociais e ambientais antes apontados, cada vez que nos sentamos à mesa estamos compactuando, ou não, com a exploração e sofrimento de milhares de animais. Embora esse sofrimento não esteja diante de nossos olhos, a verdade é que diversos outros seres sencientes, isto é – capazes de experimentar prazer, dor e outras sensações -, passam suas breves vidas confinados em condições deploráveis para depois serem abatidos e nos servir de alimento. Porcos, frangos, bezerros, perus e muitos outros animais são brutalmente mutilados antes de virar comida: seus rabos e bicos são cortados ou queimados para evitar o canibalismo e/ou para que não possam escolher parte de seu alimento; são castrados sem anestesia; são transportados para os matadouros sem água ou alimento suportando temperaturas extremas, etc. O sofrimento pode ser tanto que em muitos casos – como o dos bezerros criados para produzir vitela -, o abate, ou seja a morte, é quase que uma redenção, já que marca o fim de uma vida absolutamente miserável. Há ainda muitas outras formas de sofrimento impostas a animais que não são criados em cativeiro como a separação entre mães e filhotes, a separação de rebanhos, as marcas com ferro em brasa, e outros sacrifícios que não levam em consideração os interesses dos animais, como argumenta o filósofo Peter Singer.

Mas será correto submetermos seres sencientes a todo esse sofrimento para deles tomamos carne, ovos, leite ? Serão os animais nossos companheiros de jornada na Terra, ou meros recursos para nos servir e atender nossos desejos hedonistas ? A triste realidade é que em nossa sociedade os animais estabulados e de granja deixam de ser seres vivos e se tornam meros objetos, no caso, meros containers de proteína. É patético pensar, por exemplo, que a idade em que porquinhos são abatidos, é a mesma época em que, em outras condições, esses mamíferos inteligentes estariam brincando animadamente, tanto quanto nossos cães e outros animais de estimação. De fato, o mesmo tratamento considerado “normal” ou “aceitável” para muitos animais que nos servem de alimento, é considerado cruel e suficiente para dar voz de prisão, quando aplicado aos nossos animais de estimação. O Decreto Lei 24.645/34, por exemplo, que estabelece medidas de Proteção aos animais, prevê como crime uma série de situações de sofrimento que ocorrem corriqueiramente com animais submetidos a processos de produção industrial, mas isso jamais impediu que tais sofrimentos fossem impostos aos animais.

Se tratamos cães e gatos com carinho e amor, mas não nos sensibilizamos com o sofrimento de outros animais, estamos sendo injustos. Não somos mais caçadores-coletores e temos à nossa disposição uma ampla variedade de fontes de proteína que nos garantem uma alimentação balanceada. Portanto, pelo menos no que diz respeito à maior parte da população urbana do mundo, a carne e outras formas de proteína animal podem ser consideradas um luxo já que é possível prescindir de seu consumo. O tratamento diferente que damos a cães e porcos, por exemplo, fere o princípio ético da igualdade, entendida como igual consideração de interesses. Ser passível de sofrimento é a característica que diferencia os seres que têm interesses – os quais deveríamos considerar -, dos que não os têm. Enfim, a condição de “senciente” é suficiente para que um ser vivo seja considerado dentro da esfera da igual consideração de interesses.

Para finalizar, gostaria de citar uma passagem famosa de Peter Singer:

“Ao refletirmos sobre a ética do uso de carne animal para a alimentação humana nas sociedades industrializadas, estamos examinando uma situação na qual um interesse humano relativamente menor deve ser confrontado com as vidas e o bem-estar dos animais envolvidos. O arrazoado contra o uso de animais para a nossa alimentação fica mais contundente nos casos em que os animais são submetidos a vidas miseráveis para que sua carne se torne acessível aos seres humanos ao mais baixo custo possível. As formas modernas de criação intensiva aplicam a ciência e a tecnologia de acordo com o ponto de vista segundo o qual os animais são objetos a serem usados por nós. Para que a carne chegue às mesas das pessoas a um preço acessível, a nossa sociedade tolera métodos de produção de carne que confinam animais sensíveis em condições impróprias e espaços exíguos durante toda a duração de suas vidas. Os animais são tratados como máquinas que transformam forragem em carne, e toda inovação que resulte numa maior taxa de conversão será muito provavelmente adotada. Como afirmou uma autoridade no assunto, á crueldade só é admitida quando cessam os lucros. Para evitar o especismo, devemos por um fim a essas práticas” (Singer, 1998, p.73; grifos meus)”.


Paula Brügger
é professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina, em que ministra as disciplinas “Biosfera, sustentabilidade e processos produtivos”, “Meio Ambiente e desenvolvimento” e “Gestão da sustentabilidade na sociedade do conhecimento”. É graduada em Ciências Biológicas com especialização em Hidroecologia, Mestra em Educação e Doutora em Ciências Humanas – “Sociedade e Meio Ambiente”. Atua na defesa dos animais e do meio ambiente e auxiliou diversas vezes o Ministério Público Federal na luta contra projetos de pseudodesenvolvimento que promovem exclusão social e a destruição da natureza. É autora dos livros Educação ou adestramento ambiental?, em 3ª edição, e Amigo Animal – reflexões interdisciplinares sobre educação e meio ambiente: animais, ética, dieta, saúde, paradigmas. Coordena o projeto de educação ambiental “Amigo Animal”, oferecido para as escolas da rede municipal como tema transversal. Atua principalmente nos seguintes temas: educação ambiental; interdisciplinaridade e paradigmas de ciência; desenvolvimento sustentável; relação dos seres humanos com os outros animais como relação sociedade-natureza.É colunista da ANDA.


Fonte
: Eco Terra Brasil

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Você é o Repórter

Filme e debate: “Uma verdade mais que inconveniente”

Nesta terça, 13 de outubro, venha assistir ao polêmico documentário Uma Verdade mais que inconveniente, produzido pelo Partido dos Animais da Holanda e participe do debate:

Uma necessária réplica a Al Gore?
Documentário relevante?
Um arremedo de bem-estarismo?
Um filme indispensável?
Uma jogada de marketing?
Venha tirar suas próprias conclusões!

Atividade: Exibição do vídeo Uma verdade mais que inconveniente (sobre pecuária e aquecimento global) e debate coma presença da Profa. Paula Brugger, do Departamento de Ecologia e Zoologia e do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina. Graduou-se em Ciências Biológicas, fez especialização em Hidroecologia, mestrado em Educação (“Educação e Ciência”) e doutorado em Ciências Humanas (“Sociedade e Meio Ambiente”).
Horário: a partir das 18h30
Local: Sala Maurício Cardoso, Assembleia Legislativa – Praça Mal. Deodoro, 101 – 4º andar

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