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Filhote de peixe-boi encalha em praia do Rio Grande do Norte

(Foto: Aquasis/divulgação)
(Foto: Aquasis/divulgação)

Dócil, ela bate as nadadeiras, impulsionando um movimento circular ao redor do tanque de água salgada. Vozes humanas nem de longe a espanta, pelo contrário. Assim é Alva, nome dado ao filhote de peixe-boi fêmea, que encalhou na praia do Gado Bravo, em Tibaú/RN, há exatamente um mês completados nesta sexta-feira (13). O mamífero, que agora tem sua residência temporária no Centro de Reabilitação de Animais Marinhos da Organização Não Governamental Aquasis, mostra estar se adaptando.

“Em um mês já teve aumento de tamanho e de peso, isso levando em conta que sempre que o animal fica em reabilitação, acaba tendo perda dos dois”, afirma Carol Meirelles, coordenadora do projeto Manatí, que tem como objetivo a conservação do peixe-boi marinho, espécie criticamente ameaçada de extinção.

Nesse tempo em que reside no Centro, Alva já aumentou um centímetro (1,34m) e ganhou 3kg (ela pesa pouco mais de 30kg). Alimenta-se a cada três horas, com um leite sem lactose. São 300ml de alimento dados em uma mamadeira especial. E Alva não nega alimento não, mama tudo em menos de cinco minutos.

(Foto: Aquasis/divulgação)
(Foto: Aquasis/divulgação)

Sua estadia será, em média, de um ano e seis meses nos tanques do Centro. Depois desse período, ela deve seguir para uma estrutura que será montada no mar, similar a um cercado, onde deverá passar pelo processo de readaptação ao ambiente marítimo. A previsão de permanência dela nesta nova estrutura é de mais seis meses antes de ganhar novamente o oceano. Esse período de dois anos de reabilitação é o mesmo tempo ao qual o filhote de peixe-boi passa ao lado da mãe no habitat natural antes de se separarem.

Encalhe

De acordo com a coordenadora do projeto, o encalhe de Alva aconteceu após ela ter sido pega em uma rede de arrasto na costa do Rio Grande do Norte. Apesar de ter sido solta pelos pescadores, Alva terminou por encalhar na praia.

Ela foi resgatada pela equipe do Projeto Cetáceos da Costa Branca, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), após uma ligação de moradores locais. Enquanto era cuidada por veterinários, a equipe da UERN fez buscas por uma fêmea peixe-boi nos mares da região, processo comum nesses casos, onde a primeira tentativa é realizar o reencontro entre os pais e filhos. Como, depois de 72h, nenhum animal adulto da espécie foi encontrado, a decisão foi encaminhar Alva para um Centro de Reabilitação.

Panorama

Alva é mais um dos filhotes de peixe-boi que sofrem com o alto índice de encalhe no litoral brasileiro. De acordo com Carol Meirelles, todo o litoral do Ceará, somado ao litoral noroeste do Rio Grande do Norte e de parte da faixa litorânea do Piauí são responsáveis por, nada menos, que 80% dos registros de encalhe deste tipo de mamífero no Brasil.

A explicação para tal fato estão nas dificuldades que os peixes-bois fêmeas adulto enfrentam para encontrar um lugar ideal para dar a luz a seus filhotes. “O melhor lugar para elas são os estuários (encontro dos rios com o mar). O problema é que vivemos em uma região conhecida por termos rios onde o nível da água baixa durante a seca. Sem ter águas mais profundas, as fêmeas não conseguem entrar nos rios e acabam dando a luz em alto mar ou próximo a costa”, afirma a coordenadora. “Devido as correntes marítimas, as ondas, os filhotes acabam sendo levados para a praia, onde encalham”, completa.

(Foto: Aquasis/divulgação)
(Foto: Aquasis/divulgação)

Como se não bastasse a própria natureza já dificultar o ambiente ideal para o nascimento nessa faixa litorânea, os humanos também são fatores prejudiciais nessa equação. “Os rios tem sofrido muito recentemente com salinas e fazendas de camarões”, conta ela, que são prejudiciais ao ambiente natural dos rios. Isso sem contar com a poluição, onde dejetos e esgoto são lançados nos mananciais

Nesse cenário caótico, o Nordeste ainda sofre com outra problemática: são poucos os projetos que trabalham a recuperação de mamíferos ou animais marinhos. Existência de centros capacitados para a reabilitação destes animais então, a história complica ainda mais. No Nordeste, três dos nove estados possuem trabalhos voltados para esse tipo de reabilitação: Bahia, Pernambuco e recentemente o Ceará.

O Centro de Reabilitação da Aquasis é um deles. Em 2014, a Aquasis completa 20 anos de criação, mas por se tratar de uma Organização Não governamental, depende de convênios e financiamento de empresas. O apoio da Petrobrás, foi um dos responsáveis pela ampliação e construção do Centro, que custou cerca de R$ 2,5 milhões.

Antes, o espaço utilizado pela ONG, cedido pelo Sesc Iparana, em Caucaia, Região Metropolitana de Fortaleza, era uma casa, com uma estrutra administrativa, laboratório, um centro de visitantes, porém contava apenas com uma piscina que servia, de improviso, para receber os animais encalhados, enquanto era arranjado um traslado de avião, para levar o animal para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, em Itamaracá, no Pernambuco.

Desde dezembro de 2012, o espaço ampliou. A casa permanece recebendo os visitantes, mas, em outra área, foi construído o Centro de Reabilitação, com cinco tanques para adaptação e mais dois tanques maiores, interligados, para receber animais marinhos de grande porte.

O novo espaço tem capacidade para receber até nove animais marinhos ao mesmo tempo e conta ainda com um prédio com cozinha, laboratório, ambulatório para os animais e a área administrativa. Toda a construção teve a preocupação com o impacto ambiental, por isso há um sistema de reaproveitamento da água das chuvas, além de telhas feitas com tubos de pastas de dente e aproveitamento ao máximo da luz solar dentro dos ambientes, evitando consumo de energia.

Ainda neste mês, a ONG deve renovar o contrato, e o novo aporte de verbas, previsto para chegar em outubro, serão tocado novos projetos como a construção do cercado de adaptação no mar, para poder finalizar o processo de readaptação dos mamíferos no habitat, além de melhorias e ampliação da estrutura com novos laboratórios.

Fonte: NE10

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