Entrevista, Notícias

Anemia, fraqueza e alto custo: nutricionista desmente mitos sobre veganismo

Pixabay

O veganismo é cercado de mitos fundamentados na desinformação da sociedade. Em plena ascensão, essa filosofia pautada no reconhecimento dos animais como sujeitos de direito ainda enfrenta muito preconceito.

Para combater as ideias equivocadas acerca do veganismo e incentivar os leitores a conhecer mais sobre o tema e estimulá-los a se tornarem veganos, a Agência de Notícias de Direitos Animais convidou a nutricionista Maitê Ranheiri para desmentir mitos sobre o veganismo.

Ser vegano é caro? Quem consome apenas alimentos de origem vegetal pode se sentir fraco e desenvolver anemia? Vegetais causam saciedade? Atletas podem adotar o veganismo? Confira abaixo a lista de mitos desmentidos pela especialista.

(Foto: Impossible Foods)

“Veganismo é para ricos porque é muito caro ser vegano”

Maitê Ranheiri: Mito! Se formos pensar em custos, contando que os alimentos de origem animal – 1kg de carne custa de R$ 20,00 a R$ 40,00 – quanto compraríamos de vegetais com esse mesmo valor?

Uma alimentação vegana planejada pode ser e é mais barata. Sugiro preferir comprar vegetais em feiras abertas localizadas perto de sua casa, os valores normalmente são mais baratos e também damos preferência ao pequeno produtor.

“Atletas não podem ser veganos”

Maitê Ranheiri: Mito! O Journal of the International Society of Sports Nutrition mostrou em um artigo que com uma alimentação equilibrada e bem planejada, dando atenção as recomendações de energia, macro e micronutrientes, juntamente com a suplementação adequada, a alimentação vegana pode atender às necessidades dos atletas de forma satisfatória.

“É impossível um vegano ganhar massa magra durante a musculação”

Maitê Ranheiri: Mito. Conseguimos sim atingir as recomendações de carboidratos necessários para dar energia para o treino, e de proteínas para construção muscular, desde que a alimentação seja equilibrada e ajustada para o esporte e os objetivos do treinamento.

“A dieta à base de vegetais não promove a sensação de saciedade”

Maitê Ranheiri: Mito. A dieta a base de vegetais é a que maior promove a sensação de saciedade, por ter alimentos ricos em fibras solúveis que se transformam em gel após ingeridas, permanecem mais tempo no estômago promovendo sensação de saciedade. Este tipo de fibras é encontrado em leguminosas, sementes, farelos, frutas e hortaliças.

“Veganos ficam fracos e anêmicos”

Maitê Ranheiri: Mito. Qualquer pessoa, mesmo que seja onívora, pode ficar com deficiência de algumas vitaminas e minerais. Em relação aos veganos, a recomendação de ferro é maior justamente para evitar a deficiência. Porém, verificar os exames sempre é importante para analisar o perfil nutricional e a saúde. A vitamina B12 é encontrada somente em alimentos de origem animal, mas mesmo quem come carne pode ter deficiência dessa vitamina por depender de vários fatores para a absorção e manter os níveis destes nutrientes.

“Pessoas que trabalham com serviços pesados, como pedreiros, não teriam força física e energia para exercer a profissão se fossem veganos”

Maitê Ranheiri: Mito. Pelo contrário, a ingestão de carboidratos normalmente é maior em veganos, este nutriente é essencial para dar força e energia.

“Veganos só comem salada”

Maitê Ranheiri: Mito. Os veganos têm uma alimentação bem variada, incluindo cereais, raízes e tubérculos, frutas, verduras e legumes, oleaginosas e leguminosas.

“Só existe proteína de origem animal”

Maitê Ranheiri: Mito. A proteína de origem vegetal é encontrada nas leguminosas, cereais e oleaginosas. Esses três grupos alimentares são fontes de aminoácidos e se complementam formando as proteínas.

“A alimentação vegana não dispõe das vitaminas e minerais necessários à saúde humana”

Maitê Ranheiri: A alimentação vegana pode atingir a recomendação de todos os nutrientes, exceto a vitamina B12.

“Veganos precisam ingerir dezenas de suplementos”

Maitê Ranheiri: Mito. Pensando que ser vegano com uma alimentação rica em frutas, legumes e verduras, carboidratos e proteínas e precisando de uma quantidade maior para os nutrientes serem adequados, nem sempre essa população precisa tomar suplementos.

“Apenas veganos precisam de suplementação. Onívoros nunca precisarão suplementar a vitamina B12 ou realizar qualquer outra suplementação”

Maitê Ranheiri: Qualquer pessoa com deficiência de vitamina b12 deve suplementar. Alguns estudos mostram que a prevalência de deficiência desta vitamina é igual para onívoros e veganos.

“Veganos têm mais risco de desenvolver doenças, inclusive demência”

Maitê Ranheiri: Mito. Vários estudos comprovam que a alimentação baseada em plantas pode diminuir o risco de desenvolver doenças por ser uma alimentação rica em fatores protetores como vitaminas, minerais, fibras, antioxidantes e compostos anti-inflamatórios e reduzem o consumo de alimentos fontes de fatores causadores (como gordura trans, excesso de gordura saturada, carboidratos refinados, sódio em excesso e contaminantes químicos).

“A soja é rica em hormônios femininos e não deve ser consumida por homens”

Maitê Ranheiri: Mito. Soja não contém hormônio, ela tem uma estrutura molecular semelhante ao estrógeno – é chamada de fitoestrogêno – mas não desempenha a função do hormônio. Porém, em relação ao consumo de soja, prefira a orgânica.

“Bebês, crianças e grávidas não devem ser veganos”

Maitê Ranheiri: Mito. Segundo a posição da American Dietetic Association, as dietas vegetarianas bem planejadas são apropriadas para indivíduos durante todos os estágios do ciclo de vida, incluindo gravidez, lactação, infância e adolescência, e para atletas.

“É difícil ser vegano”

Maitê Ranheiri: Mito. Atualmente o mercado vegano está crescendo e temos muitas opções em vários lugares no país. A demanda do comércio vegano tem aumentado muito e a indústria está procurando se adaptar a isso.


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Destaques, Entrevistas, Notícias

Em meio à queda no consumo de carne, nutricionista dá dicas sobre transição para alimentação vegana

Em meio à pandemia, procura por alimentos de origem vegetal aumentou (pixabay/gavilla)

Há anos, especialistas alertam sobre a relação entre a exploração animal e o surgimento de vírus, que podem levar a pandemias. Esses alertas, porém, se tornaram mais frequentes no momento atual por conta do coronavírus, que já matou mais de 328 mil pessoas no mundo e 18.894 no Brasil.

Além do impacto ambiental sobre os ecossistemas, gerado pela ação humana, a exploração de animais para consumo também abre espaço para os vírus. Ao aglomerar e confinar animais, estressados e muitas vezes doentes, e submeter funcionários de matadouros à aproximação com esses animais, a indústria facilita o contato de pessoas com organismos que podem levar ao adoecimento humano. Como aconteceu em Wuhan, na China, no mercado que comercializa animais vivos e mortos – onde, segundo especialistas, o coronavírus surgiu.

Diante desse cenário, o veganismo se destaca como uma forma de viver que não colabora com o surgimento de vírus letais aos humanos. Fica exposto, então, mais um dos benefícios da dieta vegetariana estrita – aquela que é praticada pelos veganos e exclui todos alimentos de origem animal. Além de não compactuar com o sofrimento animal e a devastação do planeta, o veganismo beneficia a saúde humana não apenas de maneira individual, através do vegano que se torna mais saudável, mas também de maneira global, ao não propiciar o surgimento de pandemias.

Sabendo disso, há quem tenha se interessado mais pelo veganismo. Na Ásia, por exemplo, o consumo de proteínas vegetais aumentou desde o início da pandemia. O mesmo aconteceu nos Estados Unidos. Por conta desse interesse maior do público em geral por produtos veganos, a Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA) entrevistou com exclusividade a nutricionista Maitê Ranheiri, que deu dicas para aqueles que pretendem transitar da dieta onívora para a vegetariana estrita. Confira abaixo.

ANDA: A crise do coronavírus levou à redução dos serviços em vários setores e com os matadouros não é diferente. Muitos deles estão com atividades suspensas. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) registrou redução de 16% na intenção de confinamento de bois explorados para consumo no estado e afirmou que os principais fatores responsáveis por isso são o aumento no preço dos insumos e a redução do consumo de carne no mercado doméstico. Essa redução no consumo de produtos de origem animal pode levar as pessoas a se abrirem para uma alimentação baseada em vegetais. Como elaborar essa alimentação de maneira saudável?

Maitê Ranheiri: A alimentação baseada em vegetais ou chamada de plant based tem como objetivo conduzir uma alimentação mais natural e sustentável, excluindo alimentos de origem animal. Acredito que esse tipo de alimentação vêm ao encontro de algumas orientações do Ministério da Saúde, como o Guia Alimentar para População Brasileira, que fala sobre utilizar alimentos in natura ou minimamente processados como a base da nossa alimentação, combinar durante o dia alimentos como: cereais, feijões, raízes, tubérculos, legumes, verduras, frutas, castanhas e água. As recomendações gerais para os vegetarianos é basear a alimentação em alimentos in natura ou minimamente processados e a evitar alimentos ultraprocessados.

Sanduíche saudável e vegano (pixabay/mikefish70)

ANDA: Outro cenário surge na pandemia: além da queda do consumo motivada pela crise, há quem esteja descobrindo a relação entre o surgimento de vírus, como o coronavírus, e a exploração animal – assunto que tem sido exposto por especialistas. Essa descoberta pode levar a um interesse maior pelo veganismo, como forma de combater essa situação, deixando de colaborar com ela. No entanto, muitas pessoas ainda enxergam dificuldades para promover essa mudança de hábitos. Acostumadas a consumir produtos de origem animal, não sabem por onde começar. Que dicas você poderia dar para essas pessoas sobre formas de fazer a transição para uma dieta vegetariana estrita?

Maitê Ranheiri: Acredito que cada um tem seu tempo, mas sugiro reduzir aos poucos a carne vermelha, depois as carnes brancas, leite e derivados e ovos, substituindo as proteínas animais pelas proteínas vegetais. É importante que procurem um nutricionista capacitado em alimentação vegetariana pra avaliar o que é possível e sustentável para as pessoas.

ANDA: As proteínas ainda são um tabu para muitas pessoas, por conta da falta de informação. Quais são as principais fontes de proteína vegetal que podem ser consumidas por quem gostaria de se tornar vegano?

Maitê Ranheiri: As fontes de proteínas vegetais são todos os tipos de feijões, lentilha, ervilha, grão de bico e alguns tipos de oleaginosas. Importante dizer que temos que ter uma combinação de fontes de proteína vegetal durante o dia para conseguirmos atingir a recomendação de proteína vegetal.

ANDA: Há quem ainda acredite que não é possível se saciar ao fazer uma refeição baseada em vegetais, tampouco dar conta de atividades físicas que exijam mais do corpo humano – embora fisiculturistas veganos provem o contrário. Quais nutrientes presentes na alimentação vegetariana estrita desmentem esse senso comum errôneo?

Maitê Ranheiri: Alguns estudos mostram que não há diferença entre a alimentação vegetariana estrita e onívora quando se compara resistência e força muscular. Um estudo de abril de 2020 sugere que isso aconteça pela maior ingestão de carboidratos da dieta vegetariana, pois promovem um melhor desempenho de resistência pelo maior armazenamento de glicogênio muscular. Tanto para onívoros quanto para veganos, precisamos de energia para realizar as atividades físicas, isso é, consumir alimentos que são fontes de carboidratos, como cereais, tubérculos e raízes. Caso contrário, não teremos energia para realizar essas atividades físicas. E claro, é importante o consumo de proteínas vegetais também para construção do músculo.

Feijões são fontes de proteína vegetal (arielnunezg/pixabay)

ANDA: Uma dieta livre de produtos de origem animal é adequada para todas as idades. É necessário, porém, realizá-la de maneira diferente para cada faixa etária? Um bebê ou criança, por exemplo, deve ter uma alimentação vegana diferente de um adulto?

Maitê Ranheiri: Como toda alimentação, devemos ter um cuidado maior com as crianças pois estas necessitam de nutrientes por estarem em fase de crescimento. Na alimentação vegetariana não é diferente. O ideal sempre é adequar as necessidades de cada pessoa, independentemente da idade, gênero. Precisamos avaliar questões genéticas e estilo de vida também em todas as idades.

ANDA: Estudos comprovam a relação entre doenças, como o câncer, e o consumo de produtos de origem animal. Ao adotar uma dieta vegetariana estrita, a pessoa pode reduzir as chances de desenvolver determinadas doenças e conquistar um estilo de vida mais saudável?

Maitê Ranheiri: Sim, têm muitos estudos comprovando que os vegetarianos estritos que utilizam os padrões da plant-based têm melhor estilo de vida e menor risco de desenvolver doenças por terem maior consumo de vitaminas, minerais, fibras e compostos bioativos com capacidade antioxidante e anti-inflamatória, sendo essa a principal justificativa para os seus efeitos benéficos sobre essas doenças crônicas não transmissíveis.

ANDA: Como nutricionista que presta serviço voltado ao público vegetariano e vegano, você tem observado um aumento na busca pela dieta baseada em vegetais?

Maitê Ranheiri: Tenho observado sim, a procura está cada vez maior. Acredito que o aumento da informação sobre o impacto do consumo de carnes tanto para os animais, para o meio ambiente e pela nossa saúde ajudam as pessoas a se conscientizar sobre isso e acabam pesquisando mais e se interessando pelo assunto, o que é maravilhoso.

ANDA: O Conselho Federal de Nutricionistas (CFN) autorizou consultas nutricionais online. De que maneira, neste momento de pandemia, essas consultas à distância podem ajudar uma pessoa a mudar sua alimentação, adequando-a ao vegetarianismo estrito?

Maitê Ranheiri: Isso ajuda quem quer mudar a alimentação pois podem não ter acesso presencial a profissionais de saúde que estão capacitados para atender vegetarianos e veganos, o que não é fácil, já que é preciso muito estudo para atender esse público.


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Notícias

Festival vegano será realizado neste domingo em Belo Horizonte (MG)

A primeira edição do festival Paraíso Veg será realizada neste domingo (9), das 11 às 18h, no bairro Paraíso, em Belo Horizonte (MG). O evento deve reunir expositores das áreas de gastronomia, artesanato, moda, cosméticos e plantas.

(foto: Galpão Paraíso/Facebook/Divulgação)

A entrada é gratuita e a presença de animais domésticos é bem-vinda. “O mercado para o público vegano tem conquistado franca ascensão nos últimos anos. Por isso, as feiras de economia criativa precisam, também, estar atentas a esta demanda”, pontua a microempresária Regina Hamagutti, sócia da Litta Massas Veganas, que participará do festival. As informações são do portal Uai.

Como o veganismo é uma filosofia de vida que vai além da alimentação, as barracas do festival irão comercializar, além de alimentos, peças de vestuário, itens de higiene e limpeza, entre outros.

O evento contará ainda com show do músico Dom Preto, além de uma roda de conversa com a nutricionista Graziela Paiva. ONGs de proteção animal também participarão do festival, inclusive a entidade O Lobo Alfa, que resgata animais e os disponibiliza para adoção.

Os organizadores do evento esperam que mais de mil pessoas passe pelo festival ao longo do dia.

Serviço

Paraíso Veg
Data: 9 de junho, domingo
Horário: de 11h às 18h
Local: Galpão Paraíso (Rua Cachoeira Dourada, 44, bairro Paraíso)
Entrada gratuita

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Notícias

Nutricionista de Beyoncé lança projeto para promover o estilo de vida vegano

O nutricionista vegano Marco Borges lançou um novo projeto chamado The Greenprint, com a missão de conscientizar sobre os benefícios de um estilo de vida vegano através de uma série de iniciativas.

A primeira delas, realizada em 2015, foi o programa 22 Days Nutrition para o fornecimento de refeições baseadas em vegetais. Borges teve a participação da musicista Beyoncé e seu marido Jay-Z.

O programa conta com a ferramenta digital baseada na web chamada “The Greenprint Project”, que ilustra o impacto ambiental positivo da escolha de refeições à base de vegetais. Os usuários dela têm a oportunidade de ganhar ingressos grátis para os concertos de Beyoncé e Jay-Z.

O novo livro de Borges “The Greenprint: Dieta Vegetal, Melhor Corpo, Melhor Mundo” será publicado no dia 31 de dezembro, contando com planos de refeição, histórias bem sucedidas de adesão ao veganismo, conselhos e 60 receitas que incentivam os leitores a evitar produtos de origem animal.

Nutricionista vegano Marco Borges lança novo projeto pró-veganismo (Foto: Reprodução)

Borges fez também uma parceria com o estúdio de produção 51 Mind Entertainment e com Jay-Z para produzir o documentário The Greenprint, com previsão para ser lançado no próximo outono.

O projeto inclui clínicos, celebridades, músicos e atletas para abordar problemas de acessibilidade a alimentos vegetais em comunidades carentes.

Como parte do movimento The Greenprint, o nutricionista recrutou o Holy Name Medical Center, em Nova Jersey, para realizar testes clínicos em 200 participantes, divididos em dois grupos: vegano e vegetariano.

Os grupos foram monitorados ao longo de um período de 22 dias e os pesquisadores descobriram que os benefícios de saúde experimentados pelo grupo vegano superaram em muito os do grupo vegetariano, incluindo uma redução de 400% nos níveis de colesterol.

“Cada um de nós tem a capacidade de mudar nossas vidas, as vidas de nossas famílias, a saúde de nossas comunidades e as condições de nosso mundo, fazendo uma escolha poderosa e básica – decidindo o que está na ponta de nossos garfos”, Borges disse.

“Vamos definir nosso próprio destino. Vamos criar nosso próprio Greenprint”.

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Entrevistas

“Bebês e crianças podem ser veganos sem prejuízo de crescimento”

A nutricionista especialista em nutrição vegetariana e materno-infantil, Ana Ceregatti, concedeu uma entrevista exclusiva à ANDA por meio da qual explicou que uma pessoa pode ser vegana, e se manter saudável, em qualquer período da vida, inclusive durante a infância e a gestação.

Ana Ceregatti (Foto: Reprodução)

ANDA: a alimentação vegetariana estrita, presente na dieta dos veganos, é saudável para uma mulher grávida?

Ana Ceregatti: a alimentação vegetariana, essa escolha alimentar, é segura e adequada para todas as fases da vida, todas as condições de saúde, todos os tipos de pessoa. Então, sim, uma grávida vegana pode ter uma gestação super tranquila, como qualquer outra mulher. O que acontece é que a nossa alimentação básica, onívora, é em geral muito deficiente e as grávidas onívoras nem sempre fazem acompanhamento com nutricionista. Mas quando tira a carne, fica todo mundo preocupado, que vai faltar ferro, proteína, enfim.. isso ou aquilo, e a grávida vegana acaba vindo ao consultório. Mas os cuidados que eu tenho com uma grávida vegana e com uma grávida onívora são exatamente os mesmos, não tem nenhuma diferença.

ANDA: uma vegana precisa fazer alguma suplementação na gravidez além da que já é indicada para qualquer mulher grávida?

Ana Ceregatti: a suplementação é idêntica. A recomendação de ferro, de vitamina B12, de ômega 3, de cálcio, isso não muda. A grávida onívora precisa suplementar essas coisas e na grávida vegana nós vamos fazer exatamente a mesma suplementação. A gente tem assim um parâmetro que são as recomendações nutricionais. Mas eu, pessoalmente, não trabalho só com as recomendações nutricionais, porque, por exemplo, a recomendação de cálcio para uma mulher adulta em idade fértil, que são mil miligramas por dia, pode atender uma pessoa, pode ser excessiva em outra e ser carente em outra. Então junto com a recomendação básica, que é universal para mulheres, sejam onívoras ou vegetarianas ou veganas, eu olho os exames laboratoriais e aí cada organismo vai responder de uma forma diferente. Então farei isso com a onívora e com a vegana e vou suplementar de acordo com a necessidade dela, com o perfil dela. Não vou dar nada diferente para uma grávida vegana. Por exemplo, a vitamina B12, só as vegetarianas e veganas que se preocupam, está cheio de grávidas onívoras com carência de vitamina B12 e esses suplementos que os ginecologistas prescrevem, por exemplo, não têm uma quantidade de B12 adequada, não servem para onívoras e não servem para veganas. E quem é que descobre a carência? Só a vegana, porque geralmente só ela que faz acompanhamento da B12.

ANDA: um bebê ou uma criança podem ser veganos?

Ana Ceregatti: bebês e crianças podem ser veganos tranquilamente, sem nenhum prejuízo de crescimento. Eu atendo muito bebê vegano no consultório. A mãe vegana pariu, amamentou, seis meses de idade na fase de introdução alimentar, ela vem no consultório para fazer a introdução alimentar vegana e as curvas de crescimento dessas crianças são equiparadas. Então não tem prejuízo qualquer. Óbvio, se qualquer profissional vacilar na alimentação de um bebê onívoro ou vegano, ele terá prejuízos. Não é o fato de ele não consumir carne, ovos e laticínios que fará com que ele tenha prejuízos, qualquer bebê terá prejuízos se houver negligência ou dificuldades na alimentação dessa criança.

ANDA: como deve ser elaborada a alimentação de um bebê ou de uma criança vegana para que haja garantia de que a dieta será saudável?

Ana Ceregatti: da mesma forma que seria a de um onívoro. Só que no onívoro vai ter o grupo das carnes, dos ovos e dos laticínios – que, a proposito, a gente não introduz nada de lácteo para criança até um ano de vida, então mesmo se for onívora, teoricamente, não é para introduzir laticínios, devido às recomendações em termo de alergia e tudo mais. Agora, quando é um bebê vegano, vou garantir o aporte de proteína, a necessidade de proteína dele, oferecendo alimentos do grupo das leguminosas. Então tem que estar ali o grupo das leguminosas e tem que estar equilibrado em termos de energia. Se a criança receber a quantidade de energia vinda de boas fontes – cereais, tuberculosos, leguminosas, frutas, verduras e legumes -, essa criança não vai ter carência de proteína.

ANDA: sabendo dos prejuízos à saúde provocados pelos produtos de origem animal, comprovados por estudos, um bebê que cresce sendo alimentado apenas com alimentos de origem vegetal será mais saudável?

Ana Ceregatti: essa é uma pergunta bem complexa de responder. Porque se eu pegar um prato, vamos pensar em uma mulher adulta saudável, que para gente imaginar o prato fica mais fácil, um prato com arroz, feijão, metade do prato de uma salada extremamente colorida, com vegetais verdes escuros, legumes coloridos, legumes refogados e um pedaço de carne e pega o mesmo prato e tira o pedaço de carne. Essa pessoa que recebeu esse prato sem a carne, os estudos mostram que ela tem menos riscos de desenvolver determinadas doenças, como as cardiovasculares, diabetes e câncer, do que essa pessoa que recebeu o prato contendo a carne. Então, eu tenho que comparar as alimentações desde que as duas sejam saudáveis, porque eu posso ter um vegano extremamente “junk”, comendo arroz branco, pão francês, tomando refrigerante, comendo batata frita, tomando cerveja, essa pessoa jamais vai ter saúde.

Em relação à saúde das crianças.. Nesta fase da vida, crianças alimentadas de forma saudável dificilmente terão doenças crônicas, como câncer, diabetes e obesidade, por exemplo. Acho que não tem estudo ainda sobre isso, mas crianças que foram alimentadas com alimentos estritamente de origem vegetal, comparadas com crianças onívoras com alimentação saudável, quando elas tiverem 20, 30, 40 anos.. como vai ser essa saúde? Provavelmente melhor, mas ainda faltam dados científicos nessa linha.

ANDA: a alimentação vegetariana estrita possibilita que bebês veganos que mantêm a dieta vegetariana estrita durante toda a vida tenham menos riscos de desenvolver determinadas doenças quando adultos? 

Ana Ceregatti: Seria necessário acompanhar uma população desde quando ela nasceu até uma determinada idade na vida adulta. Mas arrisco dizer que pode ser que, sim, pessoas que têm, desde a infância, uma alimentação saudável de origem vegetal, podem ter menos chances de desenvolver determinadas doenças na vida adulta. Por outro lado, o fato da pessoa ter uma dieta extremamente saudável vegana, e sem nada de industrializado, não exime que ela tenha, por exemplo, um câncer. A chance da pessoa que é vegana desde sempre e mantém uma alimentação saudável não desenvolver determinados tipos de doença é maior, mas a gente tem outros fatores, como poluição, estresse, falta de exercício, genética, que também podem ser gatilhos para desenvolver doenças.

ANDA: você acredita que ainda existe preconceito e desinformação em relação ao veganismo? Ainda há pessoas que acreditam, por exemplo, que bebês e crianças não podem ser veganos?

Ana Ceregatti: se existe! Isso eu vejo no consultório todo dia. Já atendi criança vegana que a família queria de todo jeito fazê-la comer carne. É muito complicado. Tem muito preconceito e muita falta de informação a respeito do quanto a criança pode ser saudável e ter um desenvolvimento normal dentro de uma escolha alimentar que não coloca alimentos de origem animal na dieta.

ANDA: você já recebeu no consultório crianças que tiveram a iniciativa de se tornarem vegetarianas ou veganas mesmo pertencendo a famílias onívoras?

Ana Ceregatti:  já recebi sim e isso não é incomum. Me lembro de uma menina, com seis anos, que tinha escolhido não comer nada de origem animal. E a mãe se tornou vegana por causa da criança, mas era uma família onívora. Já atendi outras crianças que eram vegetarianas e os pais eram onívoros. Mas quando a família leva ao consultório é sinal de que ela já está mais aberta a aceitar a alimentação vegetariana ou vegana da criança.

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Notícias

Nutricionista pede desculpa a vegetarianos por comercial da Friboi

A nutricionista Roberta Ferreira pediu desculpa à Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) após participar de um comercial da Friboi, que foi ao ar entre outubro e novembro de 2013. A propaganda também contou com a participação do ator Tony Ramos.

O Conselho de Autorregulação Publicitária (CONAR) foi acionado pela entidade por causa propaganda que seria enganosa, na opinião da SVB. O trecho do comercial que causou mais revolta dos vegetarianos foi a expressão “carne é essencial”, utilizada pela nutricionista.

Foito: Reprodução /YouTube
Foito: Reprodução /YouTube

Após a polêmica, Roberta enviou e-mail para a SVB. “De maneira nenhuma quis ofender os vegetarianos, o que acontece é que eu não escolho a fala da propaganda”. Na mensagem, ela disse ainda que estava “muito nervosa em fazer a cena”, que não se atentou ao que estava escrito e que sabe que proteínas estão presentes em fontes vegetais também.

A SVB ainda aguarda a posição do Conselho Regional de Nutrição 4ª Região sobre a participação da profissional no comercial.

Fonte: Bonde 

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Notícias

Seis dicas para preparar um piquenique vegetariano

Que tal aproveitar o final de semana para fazer um piquenique light, saudável e vegetariano? É uma maneira divertida de manter a dieta com sua família e amigos e ainda iniciar uma alimentação ética e harmoniosa com os direitos animais. Quer algumas dicas? Olha só as sugestões de Aline von Gal, nutricionista do SPA Med Sorocaba Campus, no interior paulista.

Frutas não podem faltar no piquenique. (Foto: Getty Images)
Frutas não podem faltar no piquenique. (Foto: Getty Images)

1. Saladas são sempre bem-vindas! Você pode montar um prato com alface, rúcula, tomate e cenoura ralada. Higienize as hortaliças e leve-as em recipiente com tampa. Outra sugestão é usar essa misturinha para rechear sanduíches.

2. Quais são as melhores opções de carboidratos? Prefira pães, bolos e biscoitos integrais, que são ricos em fibras, tipo de nutriente que ajuda a manter a saciedade por mais tempo, diminuindo a fome. “Aposte também na torta de legumes. Você pode incrementá-la com proteínas vegetais, soja ou shitake”, aconselha a especialista.

3. O que levar de proteína? A proposta do piquenique é ser vegetariano, por isso, invista em soja. Uma pasta feita com esse vegetal combina bem com os pãezinhos integrais.

4. E para a sobremesa? “Leve frutas fáceis de carregar, como banana, pera, maçã, goiaba, uvas e pêssego”, sugere Aline. Elas são pobres em calorias e ricas em vitaminas e minerais. Se optar por levar cortadas em cubinhos (ou como salada de frutas), tome cuidado para armazená-las em potinhos fechados dentro de uma caixa de isopor ou em uma bolsa térmica, para manter a temperatura fresca. Senão elas poderão se deteriorar com facilidade. Invista também nas frutas secas, como castanhas, nozes, pistache e amêndoas.

5. Não se esqueça da hidratação, muito importante nessa época seca do ano. Leve garrafas de água mineral, água de coco, chás gelados ou quentes. Aposte também nos sucos naturais. Algumas dicas: abacaxi com kiwi, erva-doce com beterraba e maçã e manga com laranja.

6. Só mais alguns detalhes importantes: leve toalha limpa, copos, pratinhos descartáveis, talheres, guardanapos e uma sacolinha para recolher o lixo.

Fonte: M de Mulher

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Notícias

Seminário sobre alimentação natural, vegetarianismo e direito animal acontece em Natal

(Foto: Divulgação)

As entidades PAV – Proteção Animal Vegetarianismo e Nossos Bichos, com apoio da Casa do Bem, vão promover nos próximos dias 8 e 9 de dezembro, no miniauditório da IFRN (em frente ao Midway), o Seminário sobre Alimentação Natural e Vegetariana e Direito Animal – Direito de Não Ser Escravo da Humanidade. Com palestras a partir das 19h, o evento vai apresentar as nutricionistas Gabrielle Mahara M. Azevedo e Karen Camila F. de Oliveira, abordando o tema: “O segredo para viver bem”.

O acesso é gratuito e vão ser exibidos documentários e entregue material impresso. A PAV – Proteção Animal Vegetarianismo – Amigos Solidários dos Animais – é uma associação sem fins lucrativos de educação humanitária, proteção animal e divulgação do vegetarianismo.

Fonte: Na Boca do Mundo

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Frutas: quando comer?

Diversas informações deixam o leitor confuso quando o assunto é “frutas”.

Algumas linhas de alimentação preconizam que elas sejam consumidas isoladamente. Outras sugerem que sejam utilizadas sempre com as refeições principais, mas para uns antes e para outros depois.

Vamos conversar sobre esse tema.

O funcionamento do estômago

O estômago tem a capacidade de acomodar cerca de 1500 mL numa única refeição.

Quando o alimento ingerido chega ao estômago, diversos estímulos são desencadeados para que ele possa misturar esse alimento, digerir os nutrientes e encaminhar o seu conteúdo para frente (para o intestino).

No momento que ingerimos o alimento ocorre o processo de acomodação e relaxamento na sua região mais alta (próxima do esôfago) para receber o que foi ingerido. Nesse processo há diversos mecanismos relacionados ao sistema nervoso central. Quando estamos descontraídos, essa acomodação é mais eficiente e os estímulos para produção das enzimas digestivas (do estômago e dos demais órgãos relacionados à digestão) se torna mais pronunciado. Por isso, faça as suas refeições em local calmo e com a mente tranqüila.

A parte mais baixa do estômago (próxima do intestino) tritura o alimento. Os seus movimentos começam cerca de 5 a 10 minutos após a ingestão da refeição e persiste enquanto há alimentos nele. Essa parte do estômago procura reduzir o tamanho dos alimentos para menos de 2 milímetros, pois só assim eles são “autorizados” a passar para o intestino.

Portanto, alimentos mal mastigados exigem mais atividade do estômago e demoram mais para serem liberados para o intestino e digeridos. Portanto, mastigue!!

O esvaziamento do estômago

De forma geral, após uma refeição, o alimento permanece 1 a 5 horas no estômago.

Para que o alimento saia do estômago existem algumas regras:

1-    Quando a refeição ingerida é líquida, o esvaziamento ocorre a partir do momento que chega ao estômago;

2-    Quando a refeição é quase líquida (contém alguns pedaços), o início do esvaziamento se dá após cerca de 5 minutos;

3-    Quando a refeição é sólida, o esvaziamento começa após 20 minutos;

4-    Associado a isso, há outros fatores que influenciam o esvaziamento gástrico. Retardam o esvaziamento os alimentos que contêm as seguintes características: ácidos, alta osmolaridade (muito doce ou salgado), ricos em calorias, elevado teor de fibras, elevado teor de gordura. Alimentos mal mastigados também demoram mais para sair do estômago.

5-    De forma geral, o estômago libera para o intestino cerca de 200 calorias por hora.

Isso tudo quer dizer que o tempo e a velocidade de esvaziamento do estômago é dependente de diversos fatores. A ingestão de um líquido ácido e que tenha maior osmolaridade (suco de limão com açúcar, por exemplo), tem um tempo de permanência maior no estômago, sendo diferente da ingestão de um copo de água (que também é líquida).

Combinações

O que conversamos anteriormente nos dá a base mínima necessária para conversarmos sobre as frutas com as refeições, ou longe delas.

De forma geral, um benefício muito importante para a saúde é a união, na mesma refeição, de alimentos ricos em ferro com vitamina C, pois isso favorece a absorção de ferro. A combinação clássica são as frutas com os demais alimentos, especialmente os feijões, cereais integrais e verduras. Afastar as frutas das refeições principais envolve alguns cuidados.

1-    Consumindo as frutas sozinhas

A escolha por não misturar frutas com os demais alimentos (arroz, feijão…) é regra para algumas linhas “alternativas” de alimentação objetivando “facilitar” a digestão, pois quando em contato com os demais grupos alimentares a fermentação e a má digestão seria quase que inevitável, segundo eles.

Não temos estudos científicos que suportem essa observação e nem essas explicações (algumas delas pseudo-científicas). No entanto, é fato que muitas pessoas realmente se sentem melhores quando não fazem essa mistura.

Portanto, apesar de não haver respaldo científico para apoiar e incentivar essa separação, a sensação da pessoa que faz a combinação da refeição dessa forma pode justificar as suas escolhas e hábitos.

O maior cuidado nesse caso seria o de escolher sempre alimentos ricos em vitamina C (verduras e legumes) para compor as refeições principais, pois isso é importante para otimizar a absorção do ferro.

2- Consumindo as frutas com as refeições principais

Utilizar as frutas junto com as refeições significa consumi-las antes, durante ou depois, com arroz, feijão, salada…

Essa prática traz o benefício da união do ferro com a vitamina C (mais abundante nas frutas).

Antes, durante ou depois? Depende do objetivo!

a)    Frutas antes – há pessoas que recomendam o seu uso antes da refeição com o objetivo de preparar o estômago para a digestão e para reduzir a vontade de comer doces após a refeição.

Essa “preparação do estômago” não é suportado por estudos científicos, pois nada muda com relação à chegada da fruta no estômago um pouco antes dos demais alimentos. Tudo será misturado por horas.

A redução da vontade de comer doces após a refeição é uma sensação individual e você pode fazer a experiência.

No estômago, o suco da fruta permanece menos tempo do que a fruta que foi comida (mastigada). As ácidas permanecem mais tempo do que as demais. Assim, se o objetivo de utilizá-la antes é de não misturar com a refeição ingerida na seqüência, isso só será possível se o tempo esperado após a ingestão do suco for de pelo menos 30 min, pois é esse o tempo necessário para que um copo de líquido (consumido isoladamente) seja esvaziado pelo estômago.

Se o líquido é ácido (laranja, limão, tangerina, tamarindo…) esse tempo pode ser maior. Frutas mastigadas permanecem mais tempo ainda.

b)    Frutas durante ou depois – o uso de frutas (inteiras ou como suco) logo após a refeição traz o mesmo efeito que utilizá-las durante. Como o esvaziamento do estômago pode demorar 5 horas após uma refeição “caprichada”, consumir a fruta logo depois do almoço, inevitavelmente vai fazer com que ela encontre com os demais alimentos ingeridos. Para a absorção do ferro isso é excelente.

Para os que querem optar por separar as frutas das refeições, pelo menos 3 horas seria um tempo razoável para evitar que ela encontre os demais alimentos ingeridos anteriormente, mas lembre-se de ingerir verduras cruas em abundância na refeição para otimizar a ingestão de vitamina C.

Resumidamente

Por mais que existam explicações que justifiquem as vantagens fisiológicas de não misturar frutas com os outros alimentos, essas explicações, apesar de às vezes utilizarem termos científicos, não são científicas.

O que pode justificar retirá-las das refeições principais, ou da mesma alimentação que contenha outros grupos alimentares, é a sua sensação corporal e digestiva com essa combinação.

O ponto de maior atenção é: as frutas são excelentes fontes de vitamina C, que é o nutriente mais potente para favorecer a absorção do ferro contido nos alimentos. Não adianta comer alimentos ricos em ferro numa refeição e ricos em vitamina C em outra. O ferro e a vitamina C devem se encontrar no estômago na mesma refeição. Assim, se você não utiliza frutas nas refeições principais, utilize verduras e legumes (de preferência crus) em abundância nessas refeições.

Cerca de 1/3 da população mundial sofre de carência de ferro e essa porcentagem é a mesma para onívoros e vegetarianos. Não bobeie!

Dr. Eric Slywitch, é médico, coordenador do departamento científico da Sociedade Vegetariana Brasileira. Especialista em nutrologia (ABRAN) e nutrição enteral e parenteral (SBNPE). Pós graduado em nutrição clínica (GANEP). Especialista em nutrição vegetariana.

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Artigos

Protovegetarianos

Faz algum tempo, comecei a perceber-me incomodado quando alguém declara orgulhar-se por ser “vegetariano”. Depois de avaliar se eu estaria com isso expressando um sintoma de intolerância, constatei que não se tratava de uma intolerância dirigida ao indivíduo, mas de um incômodo diante da incoerência implícita nesse suposto orgulho em declarar-se “vegetariano”, em especial no uso comum do termo, que atualmente abrange também aqueles que consomem ovos e laticínios.

No meu entender, ser vegano (excluir não somente os ovos e laticínios da alimentação, mas também todos os outros derivados de origem animal de todo o cotidiano) não é mais do que a obrigação moral de todos. Sendo apenas o mínimo a ser feito, o que há nisso para se orgulhar? O fato de uma pessoa não ser tão ignorante ou acomodada quanto a maioria que a rodeia não é motivo algum para orgulho. Dependendo do meio onde a pessoa está inserida, isso pode ser motivo para admirá-la por sua coragem, determinação e força de vontade, mas não algo de que ela própria possa se orgulhar. Afinal, ela está fazendo nada mais que sua obrigação, que é a de não explorar outros seres sencientes, livrando-os assim da miséria, escravidão e morte que lhes seriam impostas em troca de algum prazer ou conforto momentâneo e individual.

Mas se a pessoa eleva o seu veganismo um passo adiante, decidindo dedicar-se a levar a mensagem dos direitos animais a outras pessoas (tornando-se um ativista), a partir daí ela poderia considerar que está fazendo algo além da sua obrigação moral, apesar que uma outra ótica poderia chegar à conclusão de que o ativismo também seja nada mais do que a nossa obrigação moral.

O dilema diante da constatação da incoerência implícita no tal “orgulho vegetariano” não se aplica apenas aos veganos, mas também (e com maior gravidade) àqueles que exaltam a sua benevolência enquanto regozijam-se com produtos que derivam do mesmo montante (senão mais) de exploração animal quanto a carne. Refiro-me, naturalmente, a produtos como ovos e laticínios. Com uma pausa para reavaliar a minha tolerância (ou a possível ausência dela), compreendo que a passagem pela fase do consumo de alguns alimentos derivados de animais, ainda que não seja essencial, seja comumente necessária haja vista o grau de alienação que prevalece em nossa sociedade. Desse modo, uma fase de “descompressão” (o consumo de derivados animais) pode ser útil até que o indivíduo possa atingir a normalidade (veganismo). No entanto, não devemos deixar de considerar que a transição direta do carnismo para o veganismo também seja perfeitamente viável do ponto de vista fisiológico. O impedimento não está na fisiologia, mas sim no hábito.

Posso admirar o fato de o indivíduo ter despertado e dado início à revisão e desprendimento dos vícios, matrizes e comodismos que ainda mantêm a grande massa presa à ignorância e ao descaso, inconscientes, mas não isentos, da responsabilidade que cada um tem sobre a perpetuação ou a abolição da escravidão animal. Apesar de eu poder compreender que esse processo possa demandar um tempo até que a pessoa abandone todos os derivados animais, ainda assim não posso dizer que vejo isso como algo do que se orgulhar. Há os que passem rapidamente por essa fase de transição ou os que, ainda que não o façam rapidamente, galgam de maneira constante os degraus necessários e isso é admirável.

No entanto, seja por acharem que assim está bom ou seja por acharem que não são capazes, há aqueles que chegam ao “status” de terem abandonado o consumo de carnes de animais e a isso consideram a conquista final, como se a possibilidade do veganismo fosse reservada a alguns poucos escolhidos ou extraordinariamente desenvolvidos em sua compreensão sobre a moralidade. O fato é que por trás da “satisfação” com a sua classificação alimentar está um único motivo: o comodismo. Sim, o comodismo, uma vez que do ponto de vista fisiológico é possível abstermo-nos do consumo de produtos animais em sua totalidade. Se há algum apego a eles, seja esse apego trajado com a desculpa de que a sua condição social ou a sua rotina diária não permitem fazer a transição, o fato é que o apego existe. Mesmo que não haja um apego ao alimento em si, há um apego à tal rotina diária que supostamente impede a mudança. Ora, se a pessoa não muda a sua rotina, é  porque isso traria consequências que gerariam algum desconforto, certo? Logo, a pessoa opta por manter o desconforto do animal que será explorado para que ela possa manter a rotina que considera ser a mais confortável para si mesma. Isso é comodismo.

Sendo o comodismo considerado pela maioria como um comportamento negativo, pergunto-me de onde vem a imensa incoerência de orgulhar-se de uma prática pautada pelo comodismo. Talvez o critério seja o de comparação, afinal, apesar de acomodadas, as pessoas que continuam a consumir convictamente alguns produtos derivados de animais são menos acomodadas do que a maioria da população que continua a consumir convictamente todos os produtos de origem animal. Ou, talvez, essa aceitação seja porque se instituiu que abandonar o consumo de carnes já seja algo suficientemente digno de admiração e orgulho, e por isso não seria preciso ir além. Conforme já expus, até mesmo o referido “além” (o abandono de todos os alimentos de origem animal da dieta) está bastante aquém do mínimo que todos deveriam praticar (o veganismo, aplicado a todo o cotidiano) e demasiadamente aquém do ideal a ser objetivado (o veganismo somado ao ativismo pelos direitos animais).

Portanto, se pretendemos auxiliar as pessoas em seu processo de desapego daquilo que as mantêm ligadas ao consumo dos produtos derivados de animais, devemos, antes de qualquer coisa, apontar a elas onde está a sua incoerência, pois isso as motivará a continuar seguindo adiante. Desapropriá-las dos louros indevidos não é dirigir a elas uma atitude de intolerância, mas sim estimulá-las para que sigam caminhando com convicção e coerência até que possam apropriar-se do orgulho ou, mais apropriadamente, da satisfação que almejam com a sua classificação dietética.

Nesse sentido, e vindo de encontro a solucionar o meu incômodo particular já relatado, novos termos estão sendo propostos para classificar aqueles que optam por deixar o consumo de alimentos de origem animal. Os termos que serão apresentados a seguir foram discutidos pelos membros da recém-fundada Sociedade Vegana, uma organização que teve parte da motivação para a sua criação na aparente confusão e mal-uso que vem sendo feito dos conceitos do vegetarianismo e do veganismo. Assim como em 1944 a Sociedade Vegana do Reino Unido surgiu para destacar os vegetarianos (para usar a definição da época) que haviam abandonado o consumo de ovos e laticínios, criando o termo “vegan”, de modo semelhante a Sociedade Vegana, fundada no Brasil em 2010, propõe reclassificar o conceito até então conhecido como vegetarianismo à sua verdadeira condição, que é a de protovegetarianismo.

O prefixo proto (do grego) designa aquilo que dá indício de ser, ou que inclina-se a ser, mas que ainda não é. São exemplos desse uso os termos protótipo e protozoário. São exemplos de um protovegetariano os ovolactovegetarianos, lactovegetarianos, ovovegetarianos, apivegetarianos ou qualquer combinação entre os prefixos que designam o alimento de origem animal que continua agregado ao que seria a sua dieta vegetariana (mas que não é, justamente por trazer esses alimentos animais agregados). Protovegetarianos são, portanto, aqueles que desejam ser vegetarianos (alimentar-se exclusivamente de alimentos vegetais), mas ainda não chegaram lá, pois ainda se mantêm presos ao consumo de alguns produtos de origem animal.

Já o termo vegetariano aplica-se àquele indivíduo que baseia a sua alimentação exclusivamente em alimentos de origem vegetal e mineral. O termo vegano aplica-se ao indivíduo que, além de adotar uma dieta vegetariana (eliminando todos os produtos de origem animal da sua alimentação), também deixa de consumir os produtos da exploração animal em outros aspectos do seu modo de vida, como por exemplo nos cuidados com a saúde e nos esportes e entretenimento dos quais escolhe participar.

Naturalmente, os termos não se aplicam somente ao indivíduo, mas também ao alimento, ao produto, ao estabelecimento, etc. Para citar alguns exemplos seguindo a nova terminologia, para designar-se vegetariano, um restaurante deve servir apenas alimentos de origem vegetal, mas não precisa ter um cuidado especial com a origem dos produtos de limpeza que utiliza. Já um restaurante vegano está coerente com o termo quando vai além dos alimentos que serve para cuidar também de outros aspectos relacionados à sua operação e que possam envolver a utilização de produtos derivados da exploração animal. Do mesmo modo, uma entidade que se intitula vegetariana não pode ser permissiva com o consumo de alimentos de origem animal. A designação correta para uma entidade que eventualmente seja condescendente com o consumo de produtos de origem animal é protovegetariana. Para citar outro exemplo, um livro de receitas vegetarianas não faz jus ao nome se nele houver receitas com ovos e laticínios. Se for um livro com receitas que mantêm esses produtos animais, a classificação correta é de um livro de receitas protovegetarianas (para usar um termo genérico) ou um livro de receitas ovolactoapivegetarianas ou composição semelhante para o caso de desejar ser mais específico sobre os ingredientes que utiliza ou não utiliza. No entanto, passa a ser incorreto usar o título “receitas vegetarianas” para designar uma publicação que inclua ingredientes animais em suas receitas.

Nesse momento de transição, um pequeno glossário relacionando os termos novos aos termos anteriores pode ser útil:

Protovegetariano – indivíduo que mantém algum derivado animal agregado à sua dieta. Podem ser uma combinação dos prefixos ovo-, lacto- e api- (exemplo: ovolactovegetariano). Anteriormente conhecido como vegetariano.

Vegetariano – indivíduo que consome somente alimentos de origem vegetal e mineral. Anteriormente conhecido como vegetariano estrito, o que hoje vemos ser uma redundância nos termos.

Vegano – indivíduo que adota uma dieta vegetariana (isenta de qualquer alimento de origem animal) e também abole os produtos de origem animal de outros aspectos do seu modo de vida.

É natural que haja alguma confusão no uso desses termos durante os primeiros anos de transição. Será necessário trabalhar o seu uso não apenas na comunicação entre vegetarianos e protovegetarianos, mas também junto à imprensa e à população. Ainda que essa mudança possa trazer alguma confusão no início, estaremos pavimentando o caminho para uma comunicação mais clara e isenta das falhas que hoje mantêm o comodismo oculto sob os olhos do próprio indivíduo que se mantém apegado a ele, afagando com isso o providencial incômodo que, se não fosse escondido, poderia motivá-lo a seguir em sua caminhada rumo à abolição de todas as formas de exploração animal do seu modo de vida.


George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas, membro fundador da Sociedade Vegana


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Entrevistas

O veganismo e o contato com a natureza

foto de claudia lulkinClaudia Lulkin, eco-nutricionista vegana, ativista pelos direitos animais, multicultural, mediadora social, adora o cheiro de mata, tomar banho de rio mas está em Porto Alegre no momento. Tem 54 anos, mora num sítio urbano, participou da Cooperativa Coolméia nos anos 80, teve um filho em parto de cócoras, como as índias, fez parte de movimento estudantil, foi hippie, trabalhou com dança, assessorou governos em projetos em nutrição, adora fotografia, e ainda pensa em voltar para o mato… Assim que for o momento.

ANDA – Claudia, em meio a tantas frentes em que milita, por que o veganismo?

Claudia Lulkin –
O veganismo é um jeito de viver que promove a vida dos animais, cuida deles, os ouve, os entende, não os “usa”. No último ato da Vanguarda Abolicionista se dizia: “animais não são produto”… São vidas pertencentes ao mesmo Planeta onde vivo. E, claro, não se alimenta deles. Pratico uma vida eco-veg, o melhor que posso dentro de uma cidade.

ANDA – Costuma dizer que seu único dogma é a libertação animal. Como transitar entre esses diferentes públicos, muitos dos quais não abrem mão da exploração dos animais?

Claudia Lulkin –
É um jogo diário. Todo dia há um momento de “explicações”. Ou de um lanchinho “óbvio”: passas, castanhas… frutas… ou de alguma brincadeira quando alguém fala de comer algum bichinho eu falo… coitadinho… A energia passa a rolar por si só…as pessoas começam a trazer frutas nas reuniões, inventam coisas, barras de cereais… a coisa vai pegando….  

ANDA – Em pleno Fórum Social Mundial, neste ano, você coordenou a cozinha ECOmunitária da Aldeia da Paz, servindo refeições veganas para cerca de 350 pessoas. Como isso se deu?

Claudia Lulkin – Foi muito na sincronia… Fui a uma reunião do Acampamento da Juventude, apresentada como nutricionista vegana, havia uma pessoa da Aldeia, me falou que ainda não havia quem focalizasse a cozinha e que esta seria vegana. Topei na hora. Nem tinha muita idéia de nada. Mudou minha vida! A prática da ALDEIA DA PAZ, que acontece quando pessoas se encontram para criá-la, possivelmente poucas são as que já se encontraram algum dia, é uma prática sustentável, auto-construída. Fomos construindo tudo: a Cozinha, a estrutura de limpeza da água de lavagem dos alimentos e de louça, fizemos banheiros secos, chuveiros lindos, tenda de suor, tenda da cura, geodésica onde se conheceu o calendário maia, criamos o espaço da Fogueira e abrigamos o Fogo Sagrado que fica aceso ao longo de todo o Fórum Social Mundial, cortamos lenha, buscamos…e com mínimo impacto ambiental. No final ainda plantamos nas beiradas do lago à volta da área onde estávamos com mudas nativas. Conheci muitas medicinas, gentes biodiversas, culturas de Paz. E pudemos viver por 15 dias juntos nos alimentando do  mundo vegetal. Uma sensação de total liberdade e PAZ. As fotos de alguns dos belos momentos saíram em matéria na ANDA.

ANDA – Porto Alegre é a Capital de um Estado com tradição de carne e exploração dos animais, mas paradoxalmente possui inúmeros locais vegetarianos e veganos, duas telepizzas, bares e afins, além da forte presença dos grupos ativistas. Como vê isso?

Claudia Lulkin – Porto Alegre é um lugar onde as novas idéias tomam corpo e se expandem. O naturalismo, o vegetarianismo, o movimento forte por uma agricultura orgânica tem base em POA há uns bons 35 anos ou mais. A politização e a busca de consciência sempre permearam a cultura local. Por vias “políticas” tradicionais, por vias “espirituais”, por vias das “medicinas alternativas”, das terapias não convencionais, os movimentos sociais, a expansão e experimentação de novas formas de produção de alimentos- a permacultura, a agrofloresta…. Aqui nasceu a feira ecológica, há 21 anos, base da agricultura orgânica, onde nunca foi liberado vender-se alimentos cárneos. Mesmo quando ainda não se tinha toda a clareza da situação animal.  Isso cria as condições para que vá se compreendendo as questões do momento e vá se gerando soluções.

ANDA – Segurança e soberania alimentar, de que se trata?

Claudia Lulkin –
Segurança alimentar é o direito que todo ser humano (é uma visão especista) tem de se alimentar com qualidade todos os dias e ter condições dignas de vida. A Soberania Alimentar se amplia para o território, para um País. Que este possa ter sempre garantido o alimento de qualidade para seu povo. Recém neste ano o Direito Humano à Alimentação Adequada entrou na Constituição brasileira!!!! E o Brasil, apesar de sua riqueza natural não é um país SOBERANO EM SUA ALIMENTAÇÃO, é dependente das regras de mercado impostas pelas organizações internacionais como a OMC, o FMI, a FAO, é subserviente das empresas multinacionais que comandam a cena e, alguns, se dão bem financeiramente, com essa visão dilapidadora da natureza brasileira, das suas terras ricas, das suas águas, da sua quantidade de SOL que o Brasil tem (uma riqueza inigualável). É nesse jogo que a Amazônia é queimada impunemente, que os animais são chamados de “PECUÁRIA”, que as terras são ocupadas com soja e grãos para alimentação “do gado para abate”… e que a fome continua a grassar em pleno BERÇO ESPLENDIdo. Além da cotidiana falta de nutrientes pois a alimentação está envenenada de agroquímicos, as águas poluídas, os solos sem vida…  As palavras escondem seus verdadeiros sentidos fazendo perder o sentido da comunhão com a natureza.

ANDA – Paisagismo alimentar é uma de suas propostas. Como funciona, na prática?

Claudia Lulkin – Bom, ainda é uma idéia mas ela vai tomando corpo. É simples… é plantar em TODOS os lugares, em todos os pátios, em vazios urbanos, em pátios de hospitais, de prédios, de clubes, de escolas, colocar plantas em todos os muros, em todas as paredes, em todos os becos. Colocar árvores frutíferas, trepadeiras de flores, plantas medicinais, aromáticas, condimentares. Poderá alimentar pessoas,  pássaros, minhocas, borboletas. Vai colorir, oxigenar, hidratar e curar, e dar uma sentido do único verdadeiro tempo que é o ciclo da Vida na Natureza. E isso CURA. A PETA está falando em resgatar “the wildlife” fazendo jardins em todos os lugares. E mostra uma foto de um esquilo…Lindo! No meu pátio vem beija-flores, bem na porta de casa por conta das inúmeras flores  “lanterninha japonesa” que está bem crescida e florida nesta época (outono).

ANDA – Há décadas você lida com o lixo de forma pensada, inclusiva na arte-reciclagem. Como isso começou?

Claudia Lulkin – Tive um namorado muito vanguardeiro que me falou do LIXO pela primeira vez. Aquilo mexeu comigo. Passei a pensar sobre o consumismo… descobrir a riqueza do que se chama lixo e ficar incomodada de não poder separar os resíduos e utilizar o orgânico. Nos anos 80 a Cooperativa Coolméia alugou uma casa no bairro Bom Fim, na João Teles, pertinho do Bar Ocidente. Lá começamos a levar nosso “orgânico” e criamos um bordão “LIXO É LUXO”, que depois se popularizou. Esse movimento impulsionou ações governamentais de separação de lixo. E fui encontrando a arte-reciclagem na moda- a customização, os antigos brechós (que eram poucos), os recortes, as colagens, a pegar embalagens lindas pelas ruas e, em 2003, montar a exposição “Espelhos de Camarim”, em Brasília, um trabalho todo em arte-reciclagem de móveis, madeiras encontradas em lixo, posters, latas…, do artista plástico Rasiko, que está vivendo em Lisboa, atualmente. Para fechar o ciclo, fui assessora da Cozinha Comunitária da UTC – Unidade de Triagem e Compostagem na Lomba do Pinheiro em POA, onde hoje há uma bela horta. Minha “pós-graduação”!!!!

ANDA – Você se sente marginalizada por suas posturas?

Claudia Lulkin – Sim, ainda sou marginalizada, apesar de já receber mais avais….  

ANDA – A desobediência civil parece ser o ponto de partida para muitas mudanças necessárias no sistema. Concorda?

Claudia Lulkin –
Acho que a sociedade é a cara e a cabeça das pessoas. A sociedade impõe modelos, cultua o apego ao passado, tem uma dinâmica que não me faz bem, usa de uma medicina em que não acredito, não acolhe as pessoas nem os animais, trata as crianças como imbecis, pratica “tradições” cruéis, estabelece o medo, dá prioridade à economia e não a outros valores que a mim interessam… Na medida em que discordo dessas práticas e quero fazer as coisas do jeito que me fazem bem sem prejudicar ninguém e ser solidária com uma nova possibilidade de encantamento coletivo baseado na natureza, desobedeço o estabelecido como padrão.  A desobediência civil é um libelo, um posicionamento por direitos.

ANDA – Socialmente, como fazer a população mais simples compreender e usufruir do vegetarianismo/veganismo?

Claudia Lulkin – Mostrando, estando junto, fazendo… sou muito Paulo Freire nessa hora. O povo é muito prático. Se come bem, gosta, se sente bem, vê que o intestino funciona, entende os argumentos pelos animais, pode aderir. Ou, pelo menos, integrar ao cardápio cotidiano. Não é com a prescrição da nutricionista do posto ou com flyers governamentais que ele assume uma mudança. É só com olho no olho e mão na panela, na terra… Depois que assume o que conhece…. incrível, só dá ótimos “feed backs”.E isso é ativismo, também.

ANDA – Quem a conhece pessoalmente sabe que você é uma jovem de 53 anos, com pique invejável. Qual o segredo?

Claudia Lulkin –
Quase 54… Segredo? Prazer de viver sendo desobediente, sendo ativista…. sendo ambientalista, vendo as flores nascerem, os verdes crescerem, brincando com o Pedro, meu neto, ouvindo seus papos, suas músicas, teatrando a vida com ele. Tendo uma família veg, uma alimentação saudável e MUITOS AMIGOS-IRMÃOS, de todas as idades, de todos os credos, de todas as cores.

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