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Nem 700 andorinhas salvam Igreja de São Paulo da demolição


Foto: Pedro Cidrães

No princípio era só o andorinhão-preto contra a ordem do Ministério da Defesa para demolir a Igreja de S. Paulo em Elvas – mais exatamente 700 aves e crias que escolheram o edifício, propriedade do Estado, para nidificar, o que faz do sítio uma das maiores colônias da espécie protegida no país. Agora, a decisão já tem várias frentes de combate.

Desde domingo, uma petição na internet contra a demolição já somou mais de 400 signatários, não só pela aves – como se tem vindo a bater a Quercus – mas porque a igreja foi edificada no século XVIII e foi o maior lugar de culto da única ordem masculina com origem em Portugal, os Paulistas da Serra de Ossa, lê-se online. Quem poderá resolver a polêmica, soube ontem o i, é a Direção Regional da Cultura do Alentejo (DRCALEN). O Ministério da Defesa pediu que o organismo, em articulação com o Igespar, “acompanhasse o processo de demolição”. O problema é que este devia ter sido consultado antes.

Aurora Carapinha, diretora regional de Cultura do Alentejo, explicou ao i que a primeira medida seguiu por ofício no dia 7 de Julho: a suspensão imediata da empreitada de demolição por dez dias úteis, para “avaliação”. Já ontem seguiu novo ofício a pedir informação sobre o uso dos edifícios adjacentes, propriedade também do Estado.

A demolição, ou não, ficará ainda sujeita a novo ofício com o parecer da DRCALEN, adianta a responsável. “O edifício não está classificado. Segundo o Plano Diretor Municipal é um imóvel em vias de qualificação mas estando dentro do recinto muralhado de Elvas é um imóvel protegido.” Depois de enviar técnicos para o terreno, acrescenta Carapinha, “não se encontrou nenhum motivo para ser demolido, mas o próprio projeto de demolição devia ser sujeito ao parecer do Igespar e da direção regional.”

Nuno Sequeira, vice-presidente da direção nacional da Quercus, fala de um processo com “contornos mais políticos do que técnicos”. Em maio, depois de uma denúncia sobre o risco das aves no muro sul do edifício, a ONG ambiental verificou que o Estado estava avançando com a demolição sem a licença necessária para remover os ninhos. Junto do Instituto de Conservação da Natureza, a decisão foi favorável ao Estado, adianta o responsável. Já na semana passada, quando estavam para começar os trabalhos de remoção dos ninhos, percebeu-se que a operação não era exequível e duas providências cautelares adiaram o processo. “A taxa de sobrevivência seria de uma em cada dez aves. Faltam 15 dias para as aves terminarem o ciclo de desenvolvimento, seria um massacre ambiental.”

Contatado pelo i, o Ministério da Defesa esclarece que, após uma derrocada de habitações em março, “a fachada ficou em risco acrescido de derrocada por falta de confinamento – tem 17 metros de altura e as habitações próximas encontram-se a cerca de quatro metros de distância”. A demolição foi ordenada “com carácter de urgência, para assegurar a criação de condições de segurança para pessoas e bens”, informou o gabinete do ministro Augusto Santos Silva. O i tentou ainda ouvir o presidente da câmara, que não se mostrou disponível.

Para Pedro Cidrães, autor da petição “Antes que te deitem abaixo”, o processo é “inadmissível”, sobretudo quando no ano passado Elvas apresentou candidatura a patrimônio mundial da UNESCO. “Derrubando a fachada, toda a zona alta ficará desfigurada”, diz. Entre os signatários da petição estão nomes como Fernando Sequeira Mendes, arquitecto e co-autor do primeiro Plano Geral de Urbanização da cidade, que entende que o edifício é “garantidamente recuperável.”

Aurora Carapinha considera as movimentações positivas. “É bom que haja movimentos de cidadania e vamos fazer tudo para que o patrimônio seja preservado. O edifício até poderá ser escorado e assumir a forma de ruína. O Convento do Carmo é uma ruína e está lá.”

Fonte: iOnline

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As engenhosas estratégias das aves para proteger a prole contra predadores

Foto: Reprodução/ EPTV.com
Foto: Reprodução/ EPTV.com

Habilidade, criatividade e beleza. As estratégias de construção e camuflagem dos ninhos determinam a continuidade das espécies, num dos aspectos mais fascinantes do ciclo reprodutivo das aves. Os répteis, grupo do qual as aves descendem, põem ovos em buracos na terra, na areia ou entre e sob as pedras, e os seus embriões se desenvolvem graças ao calor do ambiente. Já as aves precisam incubar os ovos com o próprio corpo, e por isso escolhem ou constróem cuidadosa e amorosamente os locais onde vão desovar. A definição técnica de ninho, aliás, é qualquer lugar onde os ovos são depositados, seja ele construído ou não. Alguns são dezenas de vezes maiores do que a ave que os construiu e, em outros, cabe apenas a barriga da mãe.

O grau de exposição depende das particularidades de cada ave. As espécies cujos filhotes são nidífugos – ou seja, saem do ninho logo após eclodir do ovo, como o quero-quero (Vanellus chilensis) – costumam colocar ovos em simples depressões do chão. Os pequenos já nascem emplumados, de olhos abertos, prontos para enfrentar o mundo. Já aquelas cuja prole é mais frágil – chamada nidícola –, constróem estruturas sofisticadas. Neste caso, os recém-nascidos têm a pele nua, olhos fechados e dependem totalmente dos pais.

Mas de onde vem o hábito de nidificar? Segundo o ornitólogo Eduardo Simon, “a construção ou não do ninho está relacionada com a história evolutiva das espécies e associada com a pressão de seleção que o ambiente exerce sobre elas. Cada ninho reflete um padrão ancestral e tem o formato adequado para proteger os filhotes de inimigos naturais – predadores e parasitas – ou de condições adversas do clima”. Simon é professor da Faculdade de Saúde e Meio Ambiente de Vitória (ES) e sua tese de mestrado abordou a nidificação do mosqueteiro (Leptopogon amaurocephalus), uma espécie florestal da família do bem-te-vi.

Segundo acrescenta o ornitólogo Marcos Raposo, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é provável que os ancestrais das pombas não precisassem fazer ninhos elaborados “e daí, hoje, quase todas as espécies de pombas têm ninhos mais ou menos toscos. Já o ancestral do joão-de-barro (Furnarius rufus) foi obrigado a construir estruturas complexas”. Segundo Raposo, além de proteger ovos e filhotes, os ninhos podem ter também outras funções: alguns machos conquistam as fêmeas ao construir estruturas elaboradas. Um exemplo é o tecelão africano (família Ploceidae) que faz cestos pendentes nos ramos: cada fibra acrescentada à estrutura é objeto de cuidadosas arrumações e o pássaro dá nós tão perfeitos quanto os dos marinheiros. Segundo Augusto Carlos de Vasconcelos, no seu livro Estruturas da Natureza, “a obra deve ser bem feita para receber a aprovação da fêmea, condição para o acasalamento. Algumas vezes o macho se vê constrangido a desmanchar tudo e refazer o trabalho (…), pois outros machos já executaram os seus. Somente os melhores trabalhos são aceitos, garantindo a procriação”.

Foto: Reprodução/ EPTV.com
Foto: Reprodução/ EPTV.com

Vasconcelos lembra ainda que o momento de fazer ninhos obedece a um ‘relógio’ interno, associado à produção de hormônios que se acumulam no corpo das aves na época propícia para a reprodução. “A produção destes hormônios depende de condições físicas que garantam a sobrevivência da cria. Desempenham papel importante a temperatura, a umidade, a estação do ano, a existência de alimento e a segurança contra o assalto de predadores”. No Sul e Sudeste brasileiro, por exemplo, a maior atividade reprodutiva ocorre entre setembro e janeiro, época de temperaturas mais altas, dias mais longos, muita chuva, grande disponibilidade de insetos e sementes.

Material de construção para estas hábeis artesãs emplumadas parece não ser problema. Alguns deles: fibras de plantas, gravetos, capim, barro, pequenas pedras, cabelos, teia de aranha, penas, peles de cobra (mudas) abandonadas por suas ‘donas’ e até detritos industriais achados no lixo. No arquipélago de Alcatrazes, no litoral paulista, as fragatas (Fregata magnificens) costumam enfeitar os ninhais com pedacinhos de plástico e papel alumínio, canudos de refrigerantes e outros pequenos restos coloridos que encontram boiando no mar.

Foto: Reprodução/ EPTV.com
Foto: Reprodução/ EPTV.com

Um estudo realizado por Eduardo Simon e Sergio Pacheco, da Universidade Federal de Viçosa (MG), classificou quatro tipos básicos de ninhos entre as aves neotropicais, que vivem entre o México e a Argentina: simples, cestos, fechados e em cavidades.

Os simples são aqueles em que a desova é feita sobre uma superfície nua ou quase sem preparo, como a do inambu-chororó (Crypturellus parvirostris), do bacurau-de-telha (Caprimulgus longirostris) e do quero-quero. Os que têm forma de cesto são apoiados pelas laterais ou em forquilha, caso do sanhaço-cinzento (Thraupis sayaca) e do coleirinho (Sporophila caerulescens). No ninho fechado, a desova ocorre numa câmara com uma pequena abertura por onde a ave entra, como nos casos do bem-te-vi (Pitangus sulfuratus) e do joão-de-barro. Podem ser alongados, esféricos, irregulares, ovais e em forma de retortas. O quarto tipo é o preferido por espécies que aproveitam ambientes com cavidades naturais. Em alguns casos, as aves se adaptam à convivência com o homem e também procriam em cavidades artificiais, como a conhecida corruíra ou cambaxirra (Troglodytes aedon).

Segundo os dois pesquisadores, estes quatro tipos básicos também se combinam e se misturam, garantindo uma grande diversidade e, portanto, podemos chegar a cerca de 30 tipos de ninhos para as aves neotropicais. A sofisticação das construções muitas vezes está relacionada à necessidade de esconder os ovos e filhotes. Para Simon, “há alguns ninhos que dificilmente podem ser descobertos por predadores visualmente orientados, como os da choquinha-lisa (Dysithamnus mentalis) e da tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides), muito bem camuflados no sub-bosque da mata”. Ele também observa que a divisão do trabalho entre macho e fêmea costuma ser muito específica. “Alguns exigem grande esforço de construção, obrigando a participação de ambos os sexos, como acontece com o joão-de-barro. Mas há espécies em que os machos estão envolvidos com seleção e defesa de territórios, cabendo à fêmea construir ninhos, incubar os ovos e cuidar da prole, como é o caso dos beija-flores”, diz.

Existem cerca de 1.800 espécies de aves no Brasil e a grande maioria ainda não tem seus ninhos estudados. Mas há algumas exceções: os dos beija-flores foram carinhosamente pesquisados pelo engenheiro agrônomo e ambientalista Augusto Ruschi. Numa publicação editada em 1953 pelo Museu de Biologia Mello Leitão, do Espírito Santo, Ruschi classifica os ninhos destas aves segundo o formato geral e o material.

Os beija-flores têm o vôo extremamente manobrável e se alimentam do néctar das flores sem precisar pousar. A mesma capacidade é empregada na construção dos ninhos, conforme observa o engenheiro Augusto Carlos de Vasconcelos. Eles preferem locais protegidos, pois, como os ninhos são abertos na parte de cima, uma folhagem providencial desvia as gotas de chuva. Isso, caso o construtor não encontre um teto numa encosta, na rocha ou em alguma casa. A construção começa pela base, usando fios de teias de aranha como amarras pegajosas. Em seguida, a ave procura materiais macios e fibras – quase sempre do mesmo comprimento – moldadas com o bico e aglutinadas com teia de aranha. Em cerca de uma semana de trabalho duro, o fundo arredondado fica pronto e o beija-flor começa a erguer as paredes. No final, a fêmea faz uma borda fina de arremate, dobrada para dentro e adaptada ao seu corpo.

Igualmente caprichoso, o joão-de-barro vive apenas na América Central e do Sul. Pertence à família dos Furnarídeos, assim chamada porque faz ninhos em forma de forno. No Brasil assenta suas casinhas arredondadas sobre postes, forquilhas de árvores, moirões de cerca. Sempre com a abertura construída de modo a evitar o vento forte.

Segundo o observador amador Nicky Vigar, o trabalho começa com a procura de um lugar onde exista barro úmido, de preferência vermelho ou marrom. A ave, então, apanha no bico bocados de argila e os rola na boca várias vezes, usando a saliva para chegar à consistência desejada. Quando a mistura está pronta, voa para o local escolhido, deposita a argila num ramo e volta para buscar mais. A construção começa pela base e continua com as paredes e o joão-de-barro usa o bico para alisar a parte externa. Algumas vezes uma fibra vegetal é misturada ao barro para impedir que ele trinque. Depois do acabamento das paredes é feita a cobertura e, por último, a parede interna, que vai só até o meio do forno. Assim, o predador que conseguir penetrar pela abertura vai ter dificuldade de chegar aos ovos.

Na câmara de procriação, esse construtor faz um colchão macio com fibras, onde a fêmea deposita os ovos. Esta obra prima, no entanto, é usada apenas para uma ninhada. Depois de cinco ou seis semanas, quando os filhotes estão prontos para voar, o ninho é abandonado. Algumas vezes, o joão-de-barro aproveita construções já existentes como fundação e faz outra casa em cima. No bairro de Santana, em São Paulo, um velho abacateiro chegou a abrigar sete casas de joão-de-barro, um verdadeiro condomínio!

Observar e fotografar ninhos pode ser mais difícil do que pesquisar aves. Afinal, a maioria das espécies faz de tudo para esconder os ovos e a prole. Mas, às vezes, a recompensa é grande e chega a emocionar os pesquisadores. Eduardo Simon, por exemplo, nunca vai esquecer como encontrou o ninho do estalador (Corythopis delalandi), uma pequena ave normalmente só detectada através do canto, cuja forma onomatopeica pode ser traduzida por “eu sou terríbili”, com o som de estalos, daí o seu nome popular.

“Vasculhei cada palmo de mata, marquei os pontos onde escutava o canto e levei um ano pesquisando numa reserva florestal do campus da Universidade Federal de Viçosa”, conta o ornitólogo. “Em 5 de outubro de 1991, a discreta ave passou ao meu lado, carregando uma folhinha seca no bico. Eu estava desanimado, sentado numa árvore caída, quando tudo aconteceu. Caminhei alguns passos atrás dela e lá estava o ninho: um pequeno forno com cerca de 10 cm de altura no chão da mata, feito de raízes e folhas secas, imensamente camuflado. Meus olhos, ainda que treinados, não o teriam localizado sem a ajuda do próprio estalador. Foi como se ele tivesse decidido me revelar seu ninho!”

Já a fotógrafa Lena Trindade desenvolveu um senso de oportunidade apurado como o dos pássaros, cujos ninhos fotografa há mais de 20 anos. Um dia, ao caminhar no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, percebeu que uma minúscula cambaxirra fizera seu ninho dentro do bico de uma escultura de uma ave pernalta de autoria de Mestre Valentim. Correu em casa, pegou a máquina e fez a foto do ninho de uma ave real abrigado no bico de uma ave de bronze! E a obra venceu um concurso internacional de fotografia.

Lena lembra também de uma ocasião em que teve de ficar cinco horas quase imóvel dentro de uma barraca camuflada, com apenas alguns segundos para fazer uma foto da araçari-poca (Selenidera aracari) entrando no ninho, no oco de uma árvore. Mas valeu a pena!

Do ponto de vista científico, os ninhos podem ensinar muito sobre as respostas dos animais às diferentes condições ambientais, acredita Marcos Raposo, que também costuma passar horas atrás deles. “E, do ponto de vista filosófico”, conclui, “podem nos ajudar a fazer uma série de pequenas descobertas sobre a vida e a importância da reprodução”.

Covardia

Um dos materiais mais curiosos empregados nos ninhos é a saliva. Algumas espécies de andorinhões – aves Apodiformes das quais existem cerca de 80 espécies –agarram no ar pedaços de papel, sementes, grama seca, plumas, pétalas de flores. Depois grudam tudo com saliva para construir o ninho. Outras espécies, como as salanganas da Ásia, os fazem exclusivamente com secreção semelhante a saliva, um líquido escuro e viscoso colocado sobre a rocha das cavernas, que endurece rapidamente ao entrar em contato com o ar. Trabalhando no escuro, a salangana deixa escorrer fios finos de saliva para moldar uma pequena taça em balanço, onde irá chocar os filhotes. Estes ninhos contêm uma proteína considerada, pelos chineses, um poderoso tônico para tratar doenças pulmonares e rejuvenescer a pele.

A procura dessa proteína para consumo humano deu origem, em Bornéu, Java, Sumatra, Malásia e sul da Tailândia, a uma profissão arriscadíssima: a dos catadores de ninhos, que chegam aos lugares mais remotos subindo em frágeis estruturas de bambu.

Os ninhos comercializados são apenas os das espécies Aerodramus fuciphagus, que são brancos, e Aerodramus maximus, de cor preta. Os ninhos pretos têm esta cor porque, neles, as andorinhas-do-mar misturam pequeninas penas escuras. Cada ninho branco custa pelo menos 50 dólares nos restaurantes chineses, e a pressão de captura já ameaça tais espécies com a extinção.

Lei do mínimo esforço

“Nidocleptoparasitismo”. Este nome complicado é usado para designar o comportamento de aves que, em vez de construir, preferem depositar seus ovos nos ninhos de outras espécies. Segundo Eduardo Simon, isto é resultado de “processos evolutivos que geraram relações tipo predador-presa ou parasita-hospedeiro”.

Mas neste caso, como em outros aspectos do mundo animal, há muitas variações sutis. O tuim (Forpus xanthopterygius) a rigor não depende do ninho alheio: ele é perfeitamente capaz de fazer o seu próprio. Mas, quando surge oportunidade, põe ovos num ninho abandonado de joão-de-barro.

Outras espécies, como o chopim (Molothrus bonariensis) ou o saci (Tapera naevia), são parasitas obrigatórios. O chopim põe ovos principalmente no ninho do tico-tico (Zonotrichia capensis) e o saci no do curitié (Certhiaxis cinnamomeus). Neste caso, a incubação e a criação dos filhotes ficam por conta das espécies hospedeiras, cujos ovos foram destruídos inicialmente pelas aves parasitas. Devido a tais hábitos, em lugares onde há muitos chopins encontram-se poucos tico-ticos.

Fonte: EPTV.com

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