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Cães e gatos dos judeus também foram vítimas do Holocausto

No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto vale lembrar que os animais também sofreram durante o nazismo apenas por pertencerem aos judeus

Garota judia com gato. Foto site “Of things Forgotten”

Em 27 de janeiro de 1945 chegava ao fim o maior complexo de extermínio de judeus pelos nazistas, o Auschwitz, onde morreram 1,1 milhão de pessoas em câmaras de gás, de fome, por doenças e fuzilamento. Há exatos 75 anos o exército soviético invadiu Auschwitz libertando todos os prisioneiros. Por isso a ONU declarou 27 de janeiro como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Essa parte triste da história todos conhecem, mas um outro lado sombrio, que se refere ao extermínio dos animais dos judeus, pouco foi explorado. Cães e gatos foram executados na frente dos tutores, abandonados dentro das casas, escondidos em porões, levados para morte induzida e, com alguma sorte, clandestinamente acolhidos por famílias não judias. É provável ainda que cães e gatos tenham servido para testar as câmaras de gás antes do genocídio ter início e que tenham servido a experimentos médico-científicos pelos nazistas.

Mas alguns judeus reencontraram seus amigos animais em circunstâncias que parecem verdadeiros milagres. É o caso de  Kathy Rubin e seu cão Bogar que constam do livro “Amigos fiéis: histórias de sobreviventes do holocausto sobre seus animais de estimação”. “A obra reúne relatos de homens e mulheres que eram crianças durante a Segunda Guerra Mundial. Eles contam como perderam pais, irmãos e amigos nos campos de concentração e como os animais lhes deram conforto e coragem criando uma conexão, ainda que em pensamento, com tempos mais felizes, ajudando-os a não perderem a esperança”, diz a autora Susan Bulanga que fez a gentileza de enviar a ANDA um trecho comovente do relato de Kathy.

Relato de judia que reencontrou seu cão

“Os soldados entraram nas casas e disseram a todos para se prepararem para sair. Só era permitido levar uma mala cada. Corremos para pegar algumas roupas e outras coisas enquanto os soldados agitavam seus rifles nos ameaçando. Ouvimos tiros à distância”

“Assim que estávamos alinhados na rua, fomos levados para o gueto. Não tivemos aviso nem tempo para fazer provisões para nós mesmos ou para Bogar. Só tivemos tempo de deixar Bogar livre do lado de fora. Orei a Deus para que ele estivesse seguro. Mas, para meu horror, quando olhei em volta, vi que Bogar estava nos seguindo até o gueto!”

“Vá para casa!” – gritei – “Vá para casa, Bogar… mas ele não o fez”

“Os cães não eram permitidos no gueto, então, quando passamos pelos portões, os soldados perseguiram Bogar, tentando atingi-lo. Tentei correr de volta para ir até ele, mas meu pai me segurou pelo braço. Eu nunca me senti tão desamparada”

Kathy narra que ela e a família ainda foram transferidos para outros locais, até que numa ocasião tiveram que se dirigir para a estação de trem.

“Meu querido e doce Bogar esperou do lado de fora do gueto por nós. Inicialmente, fiquei emocionada ao ver que ele estava vivo, mas quando ele nos seguiu até a estação de trem, meu coração afundou. Não pude evitar as lágrimas que caíram no meu rosto. Angustiei-me com o que Bogar faria. Ele seguiria o trem? Ele seria morto sob as rodas do trem? Alguém atiraria nele? O pobre Bogar não sabia que teríamos que deixá-lo novamente. O que aconteceria com o nosso precioso Bogar? Tudo o que eu conseguia pensar era em Bogar, e não em mim mesma. Talvez pensando em Bogar eu tenha sido capaz de lidar com meus medos profundos”

“Em maio de 1945 estávamos livres!”

Menina com cão. Foto site “Of things Forgotten”

“Tínhamos ouvido histórias de cães sendo pegos e comidos, ou espancados ou baleados por soldados. Os cães maiores atacavam os cães menores enquanto morriam de fome. Eu sabia que, para sobreviver, algumas pessoas haviam capturado e comido todos os animais que conseguiam. Eu me perguntava: o que restará para Bogar?”

“Um mês depois, eu estava andando pela estrada a cerca de 1,6 km de casa, ainda esperando encontrar Bogar quando vi um cachorro que parecia ele. Meu coração pulou! Hesitei em chamar o nome dele, por medo de que não fosse ele e a decepção doesse muito. Hesitante, eu chamei… Bogar! Bogar! O cachorro parou e olhou, congelado no lugar. Então, como uma estrela cadente, ele correu para mim, pulando e lambendo minhas mãos e rosto”

“Ajoelhei-me e o abracei por um longo tempo. Que alegria e alívio. Agradeci a Deus por cuidar dele. Pela primeira vez desde que fomos levados, senti paz e esperança. Ele estava magro e tinha um olhar assombrado. No ano seguinte ainda tivemos nosso maravilhoso Bogar conosco, mas depois ele ficou doente e morreu.  Todos lamentamos profundamente”

Susan Bulanda é membro da Associação Internacional de Consultores de Comportamento Animal (IAABC) e autora também do livro “Criaturas de Deus: uma visão bíblica dos animais”. Para saber mais sobre o livro dos animais no Holocausto acesse AQUI

Judeu com cão. Foto site “Of things Forgotten”

Relatos exclusivos à Anda

Em 2015, a ANDA entrevistou duas sobreviventes do Holocausto residentes no Brasil que vale rever na data de hoje.

“Meu pai teve que matar nosso cachorro”, conta Klara Kielmanowicz que estava com 10 anos de idade quando teve início a perseguição aos judeus. Ela estava atrás de uma trincheira com a família tentando se esconder dos soldados nazistas, mas seu cachorro, de nome Tufi, não parava de latir. “Foi então que meu pai matou meu cachorrinho com um tiro para não sermos descobertos. Eu não vi ele ser morto, mas vi meu pai e irmão o levarem para outro canto. Soube depois que o mataram. Lembro que chorei muito”, conta a sobrevivente.

Ela diz que na época ouviu falar que um vizinho, ao ter a casa abordada pelos nazistas, teve seu cachorro executado porque ele também começou a latir sem parar. “Meu pai vendeu a casa na cidade e fomos para um sítio onde havia cavalos, vacas e galinhas, mas ficou tudo lá. Inclusive, na cidade, quando os judeus tinham que deixar suas casas, largavam também os animais e todos os seus pertences. Os alemães entravam nas casas e pegavam o que queriam, inclusive os bichos de estimação. Não eram só os soldados que invadiam as casas, mas qualquer pessoa não judia”, relata.

Anne Frank. Foto site “Of things Forgotten”

Michele Schott, de 81 anos, é francesa, mas diz que seu pai também sofreu perseguição por parte dos nazistas por ser católico. Ela tinha apenas seis anos em 1940 e conta que várias crianças judias foram acolhidas por famílias francesas, belgas e holandesas enquanto seus pais eram levados para os campos de concentração.

“Essas crianças não eram adotadas, mas ficavam sob a guarda dessas famílias para o caso de seus pais retornarem. Junto com as crianças certamente os animais de estimação também eram acolhidos. Sei disso porque nunca vi, quando criança, animais andando abandonados nas ruas. Tenho certeza que quem acolhia as crianças também acolhia os bichos”, diz.

Como tudo começou

Os judeus já vinham sofrendo muitas restrições desde a década de 30 como ouvir rádio, ir ao cabeleireiro, cinema, concertos, museus, andar de ônibus, passear nos parques, ter máquinas de escrever, frequentar bibliotecas e restaurantes. Em 1942 veio mais um golpe. Eles foram proibidos de manter animais domésticos. Tiveram que entregá-los aos alemães para serem mortos ou podiam apresentar um atestado que o animal tinha sido induzido à morte em uma clínica veterinária.

Uma rara reportagem sobre os animais do Holocausto no blog “Of things Forgotten” diz que em janeiro de 1942, todos os judeus de uma cidade da Lituânia foram obrigados a levar seus animais de estimação para uma pequena sinagoga. Lá os animais foram mortos pelos soldados alemães. Há relatos sobre cães e gatos atirados pelas janelas de prédios por soldados nazistas como forma de aterrorizar os judeus.

O gato de Anne Frank

A adolescente Anne Frank, que ficou escondida dos nazistas num sótão do prédio onde seu pai tinha empresa em Amsterdã (Holanda), cuidava de um gato. O prédio tinha dois gatos, Moortje, uma gata preta que era da família de Anne (vide foto) e foi abandonada no momento em que a família teve de se esconder, e Mouschi que era mantido no edifício para afastar os ratos e circulava por toda parte.

Mouschi chegou ao sotão pelas mãos de outro foragido e lá ficou por dois anos até o dia em que os nazistas descobriram o esconderijo. O gato aparece no filme “O Diário de Anne Frank”, de 1959, baseado nas páginas escritas pela garota. A história é também contada pelo próprio felino no livro “Mouschi – O Gato de Anne Frank “, de José Jorge Letria. A obra, que é conduzida por meio de ilustrações, narra como um gato assistiu ao nazismo tendo como companheira uma garota que sonhava ser jornalista.

Fátima Chuecco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

 

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Notícias

Vândalos pintam suástica no corpo de burros

Foto: Polícia de Israel
Foto: Polícia de Israel

Uma suástica foi encontrada recentemente pintada a spray em um burro na cidade de Be’er Sheva, no sul do país.

A polícia abriu uma investigação sobre o caso, que ganhou notoriedade nas mídias sociais. Um residente de 40 anos da cidade vizinha de Tel Sheva, foi detido e levado para prestar esclarecimentos. Foram encontrados vários burros na propriedade do suspeito marcados com a suástica.

A associação “Let the Animals Live” respondeu duramente aos relatórios, conclamando as autoridades a processar os responsáveis em toda a extensão da lei.

“Esperamos que a polícia lide com a gravidade aqueles que zombaram do Holocausto e torturaram um animal”, disse o fundador da Let the Animals Live, Eti Altman.

“Como filha de um sobrevivente do Holocausto, fiquei chocado. A justiça deve ser feita e esses criminosos devem ser punidos severamente.”

Burros em Israel

De acordo com informações do Ali Findlay, gerente de programas do Oriente Médio da ONG internacional, World Society for the Protection of Animals (WSPA), para o Telegraph, os burros que vivem em Israel precisam de muita ajuda: os animais continuam desempenhando seu papel tradicional de transporte para aqueles que não podem pagar carros, caminhões ou motocicletas. Burros carregam carroças lotadas de suprimentos e pesadíssimas, outros mal conseguem caminhar, cheios de caixas e sacolas nas costase a amarradas às laterais de seus corpos.

“Eu até vi um pobre burro lutando para carregar um homem adulto a pleno galope ao longo do acostamento de uma rua movimentada ao sol do meio da tarde”, conta Findlay.

Lucy's Sanctuary for Holy Land Donkeys
Foto: Lucy’s Sanctuary for Holy Land Donkeys

Com o aumento do custo do combustível, os jumentos são mais procurados do que nunca, não apenas em Israel, mas em todo o mundo em desenvolvimento explica o ativista. “Eles são frequentemente negligenciados: quando as pessoas acham difícil sustentar suas famílias, o bem-estar animal diminui a lista de prioridades”.

Fatos pouco conhecidos sobre os burros

De acordo com informações do santuário Lucy’s Sanctuary for Holy Land Donkeys que resgata e abriga burros abusados vítimas de maus-tratos em Israel e também na Palestina com unidades móveis de tratamento “in loco”, esses animais são muito mais inteligentes e amorosos do que a maioria das pessoas imagina.

Os burros são provavelmente os animais mais subestimados do mundo. Com seu comportamento silencioso e estoico, muitas pessoas não percebem que pequenas criaturas inteligentes, sensíveis, sábias e leais elas realmente são.

Conheça 16 características dos burros:

1. Esses animais têm excelentes memórias, eles são capazes de se lembrar de um lugar onde estiveram ou de outros burros que encontraram há 25 anos.

2. Um burro nunca se envolverá em uma atividade se considerá-la insegura.

3. Com o devido cuidado e amor, um burro pode viver por mais de 40 anos.

4. Os burros não são teimosos em tudo. No caso de sentirem algo de errado durante a viagem, eles simplesmente não seguirão em frente e começarão a estacar. Este é um comportamento que demonstra de sua inteligência. Esse comportamento fez as pessoas pensarem que os burros são teimosos.

5. Os burros são originários das áreas desérticas do Oriente Médio e da África e estão anatomicamente bem equipados para sobreviver nessas condições.

6. Um burro é capaz de ouvir outro burro a uma distância de 97 km em condições adequadas no deserto. Isso é possível por causa de suas orelhas grandes e audição poderosa.

7. Suas orelhas grandes também ajudam a mantê-los frescos no clima quente e árido do deserto.

8. Comparados aos cavalos, os burros são muito mais capazes de pensar e tomar decisões independentes, garantindo sua segurança.

9. Burros odeiam chuva. Sua pelagem não é à prova d’água e permanecer na chuva por um longo período na verdade prejudica a sua saúde.

10. Assim como com chimpanzés e macacos, os jumentos em um rebanho se cuidam e se mantêm limpos.

11. Os burros são capazes de utilizar 95% de toda a refeição que comem. Isso é porque eles são basicamente animais do deserto. Em áreas de deserto, a comida é escassa e desperdiçar comida não é um luxo possível nessas áreas.

12. Burros ficam deprimidos com muita facilidade quando deixados sozinhos. Essa é a razão pela qual eles vivem em grupos.

13. Burros e cavalos têm a mesma marcha, mas os burros raramente são vistos correndo. Sendo os desertos o seu clima nativo, os burros provavelmente entenderam que correr como uma atividade desnecessária em altas temperaturas. Este instinto de não correr ficou com eles desde a sua evolução.

14. Ao contrário dos cavalos, um burro dificilmente mostra dor até que seja tarde demais. É por isso que eles são frequentemente tão maltratados. Como tutor de um burro, você deve sempre observar mudanças de comportamento para não perder sinais de doença ou desconforto.

15. Um burro não deve carregar mais do que aproximadamente 20 a 25% do seu próprio peso corporal para se manter saudável.

16. Os burros podem construir um relacionamento muito forte com outro amigo burro. Se um parceiro morre, o outro pode sofrer por muito tempo.

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Jornalismo cultural

Historiador conta que os campos nazistas foram inspirados em matadouros

Em 2002, o historiador estadunidense Charles Patterson publicou o livro “Eternal Treblinka”, em que narra que o empreendedor Henry Ford ficou impressionado com a eficiência dos matadouros de suínos de Chicago, e a partir dessa experiência sugeriu que os campos de extermínio da Alemanha nazista fossem desenvolvidos com base “nesses modelos”. E foi o que Hitler fez, seguindo a recomendação de Ford, por quem tinha recíproca admiração.

(Foto: Reprodução / Vegazeta)

Mas a sua influência foi um pouco além, segundo Patterson: “Não só desenvolvendo o método de linha fabril que os alemães usaram para matar judeus, mas também lançando uma campanha antissemita que favorecia o Holocausto. O propósito da matança alemã centrava-se no extermínio de seres humanos. Operavam no largo contexto de sociedade de exploração e matança de animais, que eles imitaram. Os alemães não deixaram de matar animais quando começaram a exterminar pessoas.”

De acordo com o autor de “Eternal Treblinka”, Auschwitz, sob o comando de Rudolf Hess e inspirada nas sugestões de Henry Ford, se tornou um colossal matadouro, humano e não humano, já que os animais eram executados aos montes, e à pouca distância de onde muitos seres humanos também eram mortos friamente:

“Os campos de morte mantinham o seu pessoal [nazistas] bem alimentado com carne. […]Sobibor tinha currais de vacas, porcos, etc, que eram ao lado da entrada que levava os judeus à câmara de gás. Em Treblinka, tinham estábulo, e a pocilga junta ao campo das barracas dos auxiliares ucranianos.”

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Jornalismo cultural

A contribuição de Henry Ford

Livro foi publicado em 2002 pela Lantern Books

Não só desenvolvendo o método de linha fabril que os alemães usaram para matar judeus, mas também lançando uma campanha antissemita que favorecia o holocausto.

O propósito da matança alemã centrava-se no extermínio de seres humanos. Operavam no largo contexto de sociedade de exploração e matança de animais, que eles imitaram. Os alemães não deixaram de matar animais quando começaram a exterminar pessoas.

Auschwitz, sob o comando de Rudolf Hess, era conhecido como o maior matadouro de pessoas que a história já viu; tinha o seu próprio matadouro. Os campos de morte mantinham o seu pessoal [nazistas] bem alimentado com carne.

Sobibor tinha currais de vacas, porcos, etc, que eram ao lado da entrada que levava os judeus à câmara de gás. Em Treblinka, tinham estábulo, e a pocilga junta ao campo das barracas dos auxiliares ucranianos.

Excertos de “Eternal Treblinka”, de Charles Patterson, publicado em 2002 pela Lantern Books.

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Notícias

Em maio de 1942, judeus foram proibidos de ter animais domésticos

 Judeu idoso é interpelado nas ruas de Berlim em 1933. (Foto: Divulgação)

Judeu idoso é interpelado nas ruas de Berlim em 1933. (Foto: Divulgação)

Em maio de 1942, a máquina mortífera de Hitler já havia fixado suas bases e a chamada solução final para os judeus estava, há muito, decidida. Depois que a Conferência de Wannsee, em janeiro de 1942, havia dado o sinal de largada para a matança coletiva, as pessoas começaram a ser estigmatizadas, perseguidas e aterrorizadas.

Victor Klemperer foi um deles. O professor de Literatura foi obrigado a deixar sua cátedra na Universidade de Dresden, mas negou-se a emigrar. Protegido pela mulher não judia, Eva, ele passou dois anos num abrigo para judeus em Dresden.

A casa da família Klemperer havia sido confiscada. Victor conseguiu resgatar apenas algumas peças do mobiliário e o gato Muschel. Entre os anos de 1933 e 1945, ele registrou fielmente, todos os dias, o avanço do terror nazista. Mais de 50 anos depois, seu diário virou best-seller, em forma de cronologia do terror.

Um pouco de normalidade

Em março de 1942, ele havia escrito: “Uma coisa tem que acontecer nos próximos meses. Ou Hitler se afunda, ou nós vamos a pique”. O pouco de normalidade que restou na vida dos Klemperer havia sido o gato. Um animal de estimação, um ser fiel e carinhoso que os ajudava a esquecer as dificuldades do cotidiano, enquanto o cerco nazista aos judeus fechava-se cada vez mais.

Victor chegou a enumerar 31 proibições: rádio, cinema, concertos, museus, andar de ônibus, comprar flores, ir ao cabeleireiro, à estação ferroviária, passear nos jardins dos parques, ter máquinas de escrever, frequentar bibliotecas públicas e restaurantes…

Para fazer suas compras, os judeus dispunham de apenas uma hora, sendo que, por exemplo, não podiam adquirir peixe, café, chocolates e frutas. “Mas estas proibições não são nada diante do constante perigo das batidas em nossas casas, dos maus tratos, da prisão, do campo de concentração e da morte por violência”, registrou Klemperer em seu diário.

Sentença de morte para o gato

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

No dia 15 de maio de 1942, ele anotou: “Está anoitecendo. Encontrei a senhora Ida Kreidl durante as compras e ela me contou do mais recente decreto dos nazistas: a partir de agora, os judeus e quem mora com eles estão proibidos de manter animais domésticos (cães, gatos, pássaros). Os animais também não podem ser dados a terceiros. É a sentença de morte para nosso Muschel, com quem convivemos há 11 anos e que Eva gosta tanto. Amanhã ele será levado ao veterinário, para poupar-lhe a morte coletiva”.

O gato simbolizava a vida para o casal Klemperer, ou melhor, sua sobrevivência. Ambos tiravam do seu prato para darem de comer a Muschel. Seu rabo erguido significava para Klemperer a bandeira da sua causa, pelo fim do martírio dos judeus.

O fim próximo do animal foi um grande choque para o casal. A pior tortura, entre tantas proibições e restrições. “Outra pessoa não entenderia nosso martírio, poderia achar ridículo ou até imoral, se há tanta gente sofrendo…”, anotou Klemperer.

O professor e escritor sobreviveu ao nazismo, falecendo em 1960 em Dresden.

Fonte: DW

Nota da Redação: Infelizmente, a proibição de tutelar animais domésticos não está apenas no passado. Até hoje alguns países possuem hábitos que impedem a relação mais próxima entre homem e animais. É o caso do Irã, por exemplo. Vistos como impuros, segundo a interpretação islâmica local, cachorros e seus tutores têm sofrido com um governo que tenta impedir que pessoas tenham cães em casa. O animal pode ser apreendido e o tutor pode receber uma multa.

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Entrevistas

Especismo: o nazismo invisível do cotidiano

Fernando Schell PereiraO vegano Fernando Schell Pereira, 31 anos, é um dos cérebros por trás do ativismo pró-animais no Rio Grande do Sul, com reconhecida atuação em diversas frentes. Ex-mMembro da Vanguarda Abolicionista, da qual é um dos fundadores, criador do Princípio Animal e praticante do boxe olímpico, aventurou-se pelas faculdades de Biologia e Engenharia Ambiental, e no final de 2011 graduou-se em Filosofia. Ao longo do curso, sua militância já era assunto entre colegas e professores, e até mesmo o tradicional ‘churrasco da Filosofia’ virou um jantar vegano com direito a palestra e distribuição de materiais. Por fim, seu projeto de conclusão, polêmico, comparou o especismo ao nazismo – publicado em http://biblioteca.unilasalle.edu.br/docs_online/tcc/graduacao/filosofia_licenciatura/2011/fspereira.pdf. Fez filmagens em abatedouros, pesquisou em farta bibliografia para tratar de tão espinhoso tema e, por ocasião da banca examinadora, acusou professores e platéia de serem nazistas. A idéia foi provocar reflexão, e os resultados foram surpreendentes. Leia abaixo a entrevista concedida com exclusividade para a ANDA.


ANDA – Nazismo é um tema que já deixa as pessoas ressabiadas. Como foi a recepção por parte da banca examinadora sobre o assunto de su TCC?

Nando – Chamei os presentes de nazistas.Nas argumentações finais, fechei a analogia com a provocação diretamente aos professores e demais presentes, enfatizando nosso tratamento em relação aos não-humanos com tamanha pretensão de ainda sermos animais racionais de moralidade pura,ou seja, os fazendo lembrar que não estamos moralmente longe daqueles homens que submetiam suas vitimas como meios, da maneira que julgamos os não-humanos também como meios para nossos eternos fins. Permeando sempre que, da mesma forma que Eichmann não se sentia culpado por suas atribuições como encarregado do transporte de judeus e da ‘solução final’, o especista também não se enxerga como o mal, ainda mais um pai de família, um bom avô, um ótimo marido… da mesma forma que os agentes da SS foram em seu íntimo familiar, uma espécie de ‘moral de leões’. É a mesma sensação que temos com nossos familiares onívoros – não são pessoas insanas, mas consomem animais e, pior… mesmo já conhecendo boa parte da realidade a que são submetidos esses seres na produção. O mal tende a ser projetado, colocando o fardo da culpa sempre nos outros. Enquanto não doutrinarmos o olhar para os não-humanos, a violência continuará velada, crescendo com as crianças e formando adultos especistas.

ANDA – Geralmente quem vai para a banca de monografia está temeroso, preocupado em se formar. Mas você chamou o pessoal de nazista, e qual foi a reação?

Nando – Percebi certo olhar atento de um professor que não estava na minha banca. E lembro que ao ver seu olhar ‘curioso’ logo pensei – “ele deve ter achado um absurdo”.
Mas, para surpresa geral, após a defesa ele veio me parabenizar. “Estou há um mês sem comer carne depois da minha viagem à Argentina”, comentou. Confesso que fiquei atônito, pois esse professor contava com boas doses antropocêntricas em suas aulas, e perguntei se havia algum motivo especial. “Tive algumas experiências desagradáveis, e por uma questão de evolução decidi parar de comer carne”. Essas foram as palavras. E me disse que gostou muito da minha provocação, porque ele próprio sentia-se um nazista dentro dessas proporções em relação ao tratamento moral para com os animais.

ANDA – Não houve receio em abordar essa analogia? Aqui no Brasil o Holocausto Animal teve que se explicar para o Ministério Público, e o PETA sofreu processo por uma campanha similar.

Nando – Não ao ponto de desistir. Procurei orientação de uma advogada somente depois da apresentação e entrega do trabalho final. E também por ser um ambiente acadêmico, não há melhor lugar para discutir problemas respaldados por bibliografias – não fui o primeiro nem serei o último a traçar essa equivalência moral. Derrida dedica algumas linhas de seu ‘O animal que logo sou’ a essa analogia. Mas não segue com descrições mais atentas, que foi o que priorizei na primeira parte do trabalho, tentando trazer uma coleta de informações sobre o tratamento das vitimas do holocausto humano para dar ênfase ao pano de fundo do tratamento especista aos não-humanos.

ANDA – Ao dizer que o mal se configura no caso Eichmann, que exemplo prático poderia descrever em relação aos não-humanos?

Nando – O tenente-coronel da SS tinha convicção de que não fez nada de mal, de que apenas seguiu protocolos de seus trabalhos, e com muito orgulho. Jamais se colocou na posição de um perverso, pois era aquilo o que deveria ser feito. Assim como tantos outros racistas do regime, Eichmann exercia seu trabalho sem a menor linha de raciocínio culposo, o fazia de puro mérito espiritual – se formos analisar o comportamento de um zootecnista, por exemplo, não seria difícil identificar em ambos o mesmo grau de indiferença moral e atribuição trabalhista similar no manejo das vitimas. Portanto, a comparação que faço não pretende dizer que todos especistas são como Eichmann, mas que todos tem algum grau, sim, de fragmentação daquilo – ou daqueles – que consideram dignos de moralidade. Tal como o especismo, a predileção do nazismo por alguns humanos, a exclusão moral dos ciganos, negros, judeus, homossexuais e todos que o nazismo não julgasse ‘útil’ ou ‘puro’, se dava de maneira similar. Porque sua exclusão do circulo moral era de proporções extremas, desconsiderando a vitima ou o outro como ‘humano que sente’, os colocando na categoria de coisas, propriedade, meios. Colocando-os na categoria dos animais não-humanos… Podemos ver isso perfeitamente no comportamento de um ente querido, pessoa de nosso convívio, de boa índole, mas que não se abstém de uma dieta carnista, mesmo sabendo de boa parte das atrocidades que a indústria faz aos animais de produção. Infelizmente o discurso ético não é suficiente – e nem tão óbvio como pensamos – e as pessoas são fragmentadas. A chamada esquizofrenia moral já não me surpreende mais. Estas fragmentações morais estão em vários níveis da sociedade humana, não apenas na discussão da ética animal, mas em relação ao tratamento entre o racismo e suas variáveis. E acredito que, ao pretender que seja explicita e convincente, estajamos partindo de um principio de que reagimos a verdades no seu desvendar, mas isso não funciona assim. As pessoas são peritas em deixar pra lá aquilo que não lhes toca. Traçando o sentido de Verdade como aquilo que é íntimo de seu entendimento, de seu limite de compreensão.

ANDA – Você relatou uma visita a um abatedouro em seu trabalho. Qual tua percepção sobre o lugar e o trabalho executado pelos funcionários?

Nando – Desde o primeiro momento, já estava claro para mim que precisaria vivenciar o relato. Consegui por muita sorte, a autorização para entrar em um abatedouro e filmar tudo. Não foi fácil, isso já se supõe, é claro. Mas o que mais me deixou pensativo não foram os assassinatos, mas o comportamento especista. A naturalidade daquelas pessoas – sobretudo do veterinário que me acompanhou – traçando caráter de ‘pessoas normais’ em gente que perfeitamente vai para casa, tem família e cumpre com suas obrigações de bons cidadãos, pais de família. Eram como nazistas, em nome da técnica da morte. Não de assassinato, já que tal termo se destina à dignidade humana, mas do abate, da matança destinada ao mercado e cultivada pela tradição inquestionável de comer não-humanos. Fui bem recebido e tive todas as apresentações técnicas possíveis sobre como funcionam os procedimentos de abates. A impressão é de que tinha em minha frente um verdadeiro encarregado de câmaras de gás, ou um tenente como Eichmann. Alguém absolutamente normal e de bom convívio, de comportamento amistoso e cordial, assim como Eichmann fora descrito por psiquiatras quando avaliado. E,sobretudo, um homem orgulhoso de seus atos, de sua técnica empregada em nome do desenvolvimento industrial, do controle de qualidade.

ANDA – Ao longo do curso de Filosofia, como foi sua experiência com a temática animalista?

Nando – No ínicio, foi conflitante. Tive uma ingênua percepção de que as predileções da libertação animal seriam bem recebidas no ambiente acadêmico – ingenuamente eu acreditava que aquele livro, ‘Libertação Animal’ de Peter Singer, fosse conhecido, ao menos pelos professores. Ao me deparar com boas doses de desdém em relação ao assunto, confesso que fiquei decepcionado. Mas fui domesticando esta decepção em produção. Hoje vejo o resultado positivo de sempre ter trazido à tona a temática e nunca me abster de uma longa conversa debatendo o assunto com algum interessado ou pretensioso provocador.
Coloco como resultado positivo o fator social no embate em defesa dos não humanos. Você não precisa ser um herói – como muitos insistem por ai, mas que não saem de seus computadores – e a libertação animal não é uma ideia, mas um fetiche para algumas pessoas que se dizem ativistas e acabam por simplesmente discutir teorias do que é certo ou errado, mas incapazes de lutarem, de fazer aquilo que um não-humano pediria para que fizessem, os livrassem de qualquer maneira da cruel realidade à qual estão inseridos a cada minuto de suas vidas. Sendo esta atitude ‘abolicionista’ ou ‘ bem-estarista’. Precisa ser laboral, precisa estar aplicada intrinsicamente em nossas atitudes. Não se deve ser um chato, um idealista bibliotecário – é preciso exercer seu papel de cidadania e, por consequência, agir como cidadão, cobrando seu papel em sociedade. Tomar frente das politicas públicas, buscando sempre maximizar a abolição, mesmo que esta venha a passos de formiga, minimizando o sofrimento aterrador a que os não humanos são submetidos. Para este mínimo e único caminho prático, é preciso ação, é preciso jogo de cintura para com um mundo especista. Deixar de lado nossos egos e enxergar que a libertação animal não é um idealismo qualquer – se levarmos realmente a sério – e perceber que em grande parte este problema deve ser tratado no âmbito politico e educacional. Parar de comer animais e seus derivados é o primeiro passo nesta caminhada, estendendo então, através de nossas ações econômicas, uma abertura moral para a compreensão lógica do que esta acontecendo, de que a atitude de não comer animais também é viável economicamente e ‘sustentável eticamente’, tornando-se fluente dentro das perspectivas lógicas do capitalismo. De que não se trata apenas de um caminho ético no tratamento, mas, sobretudo econômico e que faz sentido.

ANDA – Percebe-se no teu trabalho que as descrições acerca do nazismo humano são mais longas e minuciosas. A que poderia atribuir o ‘peso’ diferenciado em relação ao holocausto animal, nas descrições?

Nando – A intenção realmente foi deixar mais extensa as descrições do holocausto humano – pode ser até um pouco incoerente – mas para salientar os fatos. Tudo o que acontecia com aquelas pessoas foi de grande valor para a pretensão de fechar a analogia com o especismo, com o tratamento que infligimos aos não-humanos. No começo do trabalho trouxe a importância dos direitos como visceral arma na defesa à integridade física, relatando a maneira de como o regime nazista se apossou de suas vitimas, retirando direitos e identidades sociais, seus trabalhos. Vulnerabilizou seu caráter moral enquanto cidadãos, também como sujeitos-de-uma-vida. Já que os direitos do homem passaram longe, abria-se espaço para as atrocidades nazistas.

ANDA – Seu trabalho optou por mostrar o holocausto animal no cotidiano, aquilo que as pessoas têm contato mais direto/perceptivo. Fale um pouco sobre isso.

Nando – Procurei relatar apenas a experiência tátil que as pessoas geralmente têm ao seu alcance no cotidiano, mostrando animais de rodeio, circo, domesticados ou zoológicos, por exemplo. No capítulo das vestimentas falei apenas do couro, e assim por diante. Quis com isso tentar ilustrar com maior facilidade a discussão moral destes animais presentes. Se eu fosse falar em casacos de pele de coelhos angorás, ou raposas, isso já não atingiria o mesmo tom, pois as pessoas – como eu insisto em dizer – são fragmentadas em seu julgamento moral. Simplesmente não lhes toca aqueles animais que não têm contato visual ou já teve na construção de seu caráter. Por isso a relação que temos com cães e gatos é mais explorada no senso comum daqueles que dizem amar os animais, mas continuam comendo carne de outros, pois não enxergam ou convivem diretamente com esses ‘outros’ de confinamento, estão longe do olhar, longe do coração.

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Filosofia e Libertação Animal

Os filósofos e os animais

“Da verdade mesmo ninguém nunca quis saber”: foi com esta frase de Nietzsche que terminamos nosso texto anterior sobre a crueldade. De fato, Nietzsche não chegou a pensar na questão da libertação dos animais, mas, certamente, contribuiu, e muito, para despertar a consciência do homem sobre sua própria tirania e covardia, desferindo golpes certeiros na soberba de nossa espécie. Talvez ele ainda estivesse ocupado demais em tirar a venda dos nossos olhos e, mais ainda, com a própria ideia da verdade, porque, como ele próprio dizia, “o que até hoje se chamou de verdade não passa de uma mentira”.

É claro que, como em tudo na história humana, as ideias de Nietzsche foram distorcidas, sobretudo por sua própria irmã, que, alterando vários trechos de sua obra, fez dele o porta-voz do nazismo e de estúpidas ideias, tais como a de superioridade racial, superioridade de povos, etc. Felizmente, quem já leu atentamente a obra de Nietzsche sabe que ele é bem democrático quando se trata da humanidade: a sua crítica se estende a todos os homens e se existe alguma superioridade, ela diz respeito ao caráter, à nobreza do espírito.

Pois bem, também é de Nietzsche (como já sabemos) a ideia de que o homem é o animal que perdeu sua saudável razão natural, voltando-se, por conta disso, contra a própria natureza que o gerou, ou seja, contra a vida – o que, no final das contas, significa voltar-se contra si mesmo. Sim, por qualquer ângulo que se olhe este verdadeiro circo de horrores que tem sido a vida humana e, mais ainda, a vida dos animais, não é possível acreditar que somos realmente seres superiores, ou mais sensíveis, ou mais justos… Ao contrário, o que fica claro olhando a humanidade é que temos sido completamente indiferentes à dor e ao sofrimento do “outro”, seja este “outro” o próprio homem, um animal ou a natureza como um todo.

É inegável que algumas ideias religiosas e místicas têm dado, há séculos, o melhor argumento para o homem se servir de todas as coisas indiscriminadamente (afinal, para algumas religiões, sobretudo as ocidentais, o homem tem uma natureza diferente da dos demais seres deste mundo). Mas, para lá destes devaneios que o homem inventou para si, a única coisa certa é que ele não pode escapar de uma lógica que impera sobre todos os sistemas vivos do planeta. É assim que, ao dispor impiedosamente de todas as espécies, para que apenas a sua própria sobreviva, o homem está promovendo o seu próprio suicídio.

Não existe, de fato, um único argumento racional capaz de legitimar a tirania humana. E o problema, além da própria questão ética que se impõe de modo inescapável (pelo menos para os que pensam ou que ainda são capazes de sentir), é que esta posição tirânica é também, como dissemos, uma posição suicida, já que o homem não se sustenta e nem sobrevive fora da natureza que o gerou. Ao provocar tantos distúrbios e desequilíbrios, o homem não está colocando em jogo apenas as outras vidas, mas também a sua própria. Em poucas palavras, é a si mesmo que o homem está ferindo quando fere a natureza. E, mais ainda: é porque ele tem sido um suicida que ele mata os seus iguais. Eis porque Thomas Hobbes está certo ao afirmar que “o homem é o lobo do homem”, embora não faça nenhum sentido uma espécie viver em guerra consigo mesma.

Claramente, há algo de muito errado conosco, embora a continuidade deste comportamento tenha levado os próprios homens a se acostumarem com a tirania e a entenderem como natural esta imensa insensatez que é voltar-se contra a natureza e contra a sua própria espécie. Mas é claro que no que tange aos animais, a tirania do homem atinge o seu limite máximo. Para começar, os animais são tratados como coisas, como meras mercadorias, objetos descartáveis de uso para a nossa comodidade ou prazer. Mas, embora ninguém pareça se dar conta disso, estamos falando de seres vivos, sencientes (ou seja, de seres dotados de sensibilidade, que sentem dor, prazer, medo, etc.). É realmente de se estranhar que poucos intelectuais, pensadores e filósofos toquem nesta questão, como se subjugar todas as espécies do planeta fosse mesmo um direito natural da nossa espécie.

De fato, há, inclusive, quem defenda certas manifestações culturais atávicas e cruéis com o argumento de que são “tradições” (como touradas, vaquejadas, rodeios, etc.), mas isto só aumenta a nossa certeza de que algo está (ou sempre esteve) muito errado com nossa querida e aclamada “razão”. Afinal, tradição por tradição, a escravidão humana também era uma tradição milenar em muitas culturas, tanto quanto o canibalismo e os sacrifícios humanos… E, sem falar que, em alguns lugares, a própria pedofilia não é uma prática condenável.

Sim, sabemos o quanto é difícil propor uma ética ou uma moral universal; sabemos das dificuldades e dos perigos que se alojam na defesa de certas práticas culturais em detrimento de outras; termos como “raça superior”, “cultura superior”, estão desgastados e trazem o peso de séculos de exploração dos ditos “colonizadores”. Porém, descambar para o oposto e considerar que todas as práticas são válidas e devem ser respeitadas apenas porque são “culturais” ou “tradicionais” é perder completamente o senso e, sobretudo, mergulhar a razão num irracionalismo profundo. Não existem raças superiores ou culturas superiores em si, mas existem valores humanos superiores, existe superioridade ética e moral, e negar isto é também negar a própria noção de humanidade.

Sem dúvida, José Saramago estava certo ao afirmar que “o instinto parece ter servido melhor aos animais do que a razão ao homem”. Afinal, os animais não escravizam e nem matam por razões torpes… Isto, aliás, foi objeto de reflexão em nosso texto anterior: um animal pode ser selvagem, mas nunca será um tirano, e se alguém ousa dizer que ele faria a mesma coisa se tivesse a nossa inteligência, então, mais ainda é preciso pôr em xeque a própria razão, porque ela é, ao que tudo indica, o que nos distingue para o melhor, mas também para o pior.

É claro que esta questão é muito mais complexa do que parece. Até porque o homem tem sido movido muito mais por ideias ilusórias e irracionais do que por uma racionalidade mais sadia. E é exatamente pelo efeito destas ideias mirabolantes (a maioria de fundo místico e religioso, embora algumas delas sejam “embasadas” pela ciência e pela filosofia) que o homem se julga não apenas superior em inteligência aos outros animais, mas até mesmo feito de outra natureza, como dissemos acima. Não é à toa que ele desconsidera tanto os outros seres, já que neste seu “mundo próprio”, neste seu sonho megalômano de grandeza, ele é uma espécie de deus que habita entre as feras do mundo. Infelizmente, também na filosofia encontramos exemplos de insensatez, que acabam corroborando certas ideias estapafúrdias.

Que muitas ideias místicas e religiosas costumam estar na base de vários preconceitos com relação aos animais é um fato incontestável; mas pode-se dizer que foi a filosofia que produziu uma das mais tirânicas ideias até hoje concebidas. A filosofia ou, mais especificamente, um filósofo – se é que podemos chamar alguém que produz tal heresia, contra a vida e contra a verdade, de filósofo. Estamos falando da ideia das “máquinas sem alma” e das “máquinas com alma” de Descartes. Sem dúvida, neste mecanicismo pueril, Descartes sugere que a diferença entre homens e animais é que os primeiros têm alma, sentem, pensam, sofrem, etc., enquanto que os segundos seriam apenas meras engrenagens materiais que obedecem cegamente às leis deterministas da natureza.

Bem, tirando o fato de que é mais provável que os animais tenham alma e que Descartes é que não tenha, já que alguém que praticava a vivissecção como ele (uma das práticas mais ultrajantes e covardes que o homem já inventou) não pode realmente ter sentimentos, nada nos parece mais ridículo (ou estúpido, para usarmos a expressão de Voltaire a respeito desta tese cartesiana). O que ocorre, no entanto, é que, ridícula ou não, esta concepção serviu de base (ou de pretexto), desde o século XVII, para as ciências usarem os animais como cobaias, sem qualquer compaixão. É fácil perceber a força que uma quimera pode ter quando reforçada pela ciência e pela filosofia – que deveriam servir sempre ao conhecimento e à verdade, por mais que esta palavra também esteja desgastada em nosso mundo (pela má leitura que foi feita da crítica nietzschiana à verdade absoluta). No fundo, todo mundo hoje acha que a verdade é tão relativa que cada um pode possuir uma só sua.

De fato, temos aqui um caso em que a filosofia produziu mais mal do que bem aos homens, dando à ciência um “bom” argumento para ela agir tiranicamente e sem qualquer culpa no que tange à exploração dos animais. Mas, cá entre nós, quem age tiranicamente, e sem culpa, ou não pensa ou não sente. Se é difícil provar que os cientistas que agem assim não pensam, já que são homens inteligentes, então, devemos concluir que eles não “sentem” – e, portanto, eles, sim, são máquinas sem alma. Seja como for, é a própria ideia de máquinas sem alma e com alma que é desprovida de lógica e racionalidade. O problema é que, segundo pensamos, mais perigosa que a ignorância é a inteligência sem a sensibilidade, ou seja, um homem inteligente e sem sentimentos pode fazer coisas que transcendem todos os males da ignorância.

Bem, felizmente, para um Descartes, existem muitos outros filósofos que, pensando ou não diretamente na questão dos animais, estendiam a todos a necessidade de compaixão e respeito. E aqui citamos um deles, que lidou diretamente com esta tirania: Porfírio de Tiro, filósofo neoplatônico que viveu no terceiro século de nossa era (e que foi o maior dos discípulos do célebre Plotino). Para Porfírio, os homens têm pensado mais com o estômago do que com a cabeça, pois só isto explica, para ele, este gosto mórbido por comer cadáveres (sim, cadáveres, é o que ele diz). Também só isto explica, para ele, esta total apatia e falta de humanidade diante do sofrimento alheio. Se somos mesmo seres racionais ou, mais especificamente, se realmente somos seres espiritualmente elevados, como pensava o próprio Porfírio, como podemos aceitar esta tirania da nossa espécie? Como podemos simplesmente viver alheios a tudo isto? A resposta poderia ser: “somos movidos por hábitos ancestrais” ou “é um mal necessário” ou, simplesmente, “nossa agressividade é uma herança do nosso passado selvagem”… Bem, talvez estes argumentos convençam algumas pessoas (afinal, nada melhor do que culpar a própria natureza pelas nossas terríveis disposições).

Pois bem, para este autor do “Tratado da abstinência da carne dos animais”, além da crueldade, a carne ultraja o corpo e o espírito, levando a um adoecimento geral do homem. Sim, é fato que aqui também nos deparamos com um universo um tanto místico e ascético (dada a influência que o pitagorismo exerceu tanto sobre o platonismo quanto sobre o neoplatonismo de Plotino). E, como sabemos, uma das teses fundamentais do pitagorismo, com a qual Platão e Plotino nunca romperam, foi a da transmigração das almas (ou metempsicose, que é a concepção de origem hindu de que as almas sobrevivem ao corpo e podem animar outros seres, humanos e não humanos).

É claro, então, que se poderia alegar que também há algo de religioso e místico nas suas ideias, mas o principal aspecto deste escrito de Porfírio não é a sua crença em um espírito dissociado do corpo (crença, aliás, bastante comum entre os homens) ou na transmigração das almas, mas, sim, o fato de que ele é o primeiro texto filosófico a tratar dos efeitos nocivos do consumo da carne do ponto de vista da saúde do corpo, e não apenas de um ponto de vista puramente espiritual. Sim, para Porfírio, a ingestão da carne provoca muitos males ao corpo, tornando-o pesado e dificultando o próprio pensamento (fato que hoje seria fácil de provar pela ciência e pelo conhecimento mais profundo de nossa fisiologia, já que a carne demora demasiadamente para ser digerida por um organismo que não foi feito para ela).

Seja como for, é verdade que, para Porfírio, o maior mal que o homem provoca a si mesmo matando outros seres é, sem dúvida nenhuma, o mal moral, que é esta espécie de torpor ou sonolência ética em que a humanidade mergulha toda vez que fecha os olhos para a escravidão ou para o assassinato de qualquer ser vivo. Sem dúvida, é assim que o homem aprende a fechar os olhos também para o que se faz com o próprio homem, como vimos no texto anterior. Afinal, o aprendizado para a guerra ou para a exploração do outro depende de uma insensibilização que deve começar ainda na mais tenra infância. Em poucas palavras, nós diríamos que o desprezo e a apatia diante da dor alheia, a começar pela dor do animal, é o começo de um longo processo que tem como meta levar ao entorpecimento da sensibilidade e dos sentimentos em geral. Afinal, é preciso, antes de tudo, endurecer o homem para que ele possa, enfim, matar o próprio semelhante e, ainda por cima, sentir que está cumprindo um dever.

Sem dúvida, a literatura, a filosofia, o teatro, as artes em geral, estão repletos de considerações a respeito deste paradoxo que parece inscrito no cerne da natureza humana: o fato de que a grandeza e a nobreza do homem convivem, em igual medida, com sua barbárie e crueldade. Mas, independente de haver aí alguma verdade, defendemos a tese de que aqueles que buscam verdadeiramente a nobreza e a beleza das ações e dos sentimentos (e não apenas a aparência deles) não são dados à crueldade e nem à exploração dos outros. Em outras palavras, este paradoxo humano também não pode servir de pretexto para legitimar a tirania.

Em suma, como se tudo isto ainda não fosse suficiente para nos fazer pensar, Porfírio diz algo ainda mais devastador sobre a nossa relação com os animais – sobretudo, os animais domésticos. Porfírio diz: “O homem mata o próprio amigo”. Ele mata aquele que confia nele. Em poucas palavras, a mesma mão que alimenta é a que fere mortalmente, como disse, muitos séculos depois, o pai da etologia moderna, Konrad Lorenz.

O que há, afinal, com o homem? Como nos tornamos seres tão insensíveis a ponto de não sentirmos qualquer compaixão por criaturas que sofrem como nós (independente de serem ou não criaturas que “pensam” como nós)? A pergunta que não quer calar é: como seres considerados mais evoluídos podem simplesmente desconsiderar o mal que fazem aos outros seres vivos (humanos ou não)? O que há com o homem, perguntamos outra vez? Por onde anda o ser racional, sublime e justo dos religiosos e dos filósofos? Não sabemos… mas, como o bom e sábio filósofo cínico Diógenes, não deixaremos de procurá-lo com a nossa lanterna.

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Você é o Repórter

Prefeitura de Jales (SP) despeja animais de abrigo e ordena expulsão de gatos do cemitério

Alzira Mara
alzira.mara@bol.com.br

Estamos em apuros aqui em Jales, interior de São Paulo . A prefeitura está passando dos limites em todos os sentidos – uma das piores administrações que tivemos enquanto sonhávamos outros sonhos.

Há uns três anos, tivemos a ingrata surpresa de casos de leshmaniose em alguns cães. Iniciaram-se, a partir daí, as eutanásias desnecessárias e cruéis promovidas pelo poder público. Exames totalmente suspeitos e equivocados. ‘A esta época , após inúmeras súplicas em favor da vida e dadas as devidas explicações na mídia falada e escrita , decidi partir para o ” ataque” em defesa dos animais.

Creio que há um longo e árduo caminho a percorrermos até que o ” mundo ” acorde em defesa do bem estar e libertação animal . Não desistiremos jamais!

Esta semana houve um incidente grave que me revoltou e quero torná-lo público. Medidas judiciais estão sendo tomadas . O fato terá repecussão na mídia também. Muitas máscaras cairão!

Há algum tempo eu cuidava de alguns cães e gatos no recinto de exposições . Em anexo, funciona um mini-CCZ (nenhum animal nunca foi recolhido ou cuidado pela equipe) e o almoxarifado da prefeitura. Tratava de vários em outros lugares da cidade, além dos meus, é claro. Uma das protetoras que me substitui, a Elizângela, contou-me, em prantos, que no dia 4 ela não encontrou nenhum dos cães moradores do local. Eles aguardavam ansiosos pelo “jantar” – refeição que era servida apenas uma vez ao dia .Na última quinta-feira, eles sumiram, desapareceram misteriosamente!.

Ontem pela manhã, as protetoras Luciane Torres Marques e Elizângela Salles aguardavam a abertura do almoxarifado para obterem informações sobre o desaparecimento dos animais. Encontraram-se, de forma inesperada com Humberto Parini, o prefeito de Jales. Entre várias indagações e confronto verbal ,ele, bastante alterado confessou a determinação expressa para a retirada dos animais e que os mesmos foram levados para um local distante . O lugar exato não é sabido, mas, pela descrição, eles foram abandonados à beira da rodovia . Ele disse em alto som :”não devo satisfações para ninguém e quem manda aqui sou eu”.

O portão do recinto foi fechado na “cara delas”,  bem como tiveram a entrada proibida para alimentar alguns gatinhos ” invasores” do local. Correm ao nosso encontro na hora do ” rango”. Nos fazem  chorar!

Por outro lado, sempre houve o abandono de gatos no cemitério. Resumindo: uma professora habituada a ir limpar o túmulo da mãe todos os dias (perfeccionista obsessiva), pisou distraidamente em fezes de gatos, fato que desencadeou uma denúncia junto à prefeitura, resultando na determinação da retirada sumária dos gatos e a proibição expressa de alimentá-los. Ninguém pode alimentá-los. Entendo que cemitério é terra de ninguém e um lugar onde não queremos ir morar. Prefiro as “moradas do céu”.  Assim, o poder público, que proíbe e recusa-se a cuidar dos animais, é o maior algoz. Em Jales não temos abrigo, ONG ou similar. Urge uma força tarefa descomunal em defesa e socorro dos animais.

Os gatos sofreram ação de despejo e têm dia marcado para saírem. A acusação alega que são sujos e o cemitério é limpo!

Após a discussão com o prefeito, as protetoras saíram com ânsias, atônitas! Não houve prantos, mas choraram o silêncio… Houve sussurros que encalharam. O leão voltou a rugir! Mas a justiça virá!

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Notícias

Regime nazista perseguia cão que "imitava" Hitler, na Finlândia

Tor Borg junto ao seu cão, cujo nome 'oficial' era 'Jackie' (Foto: Reprodução)

Segundo documentos oficiais recentemente encontrados em Berlim, na Alemanha, o regime nazista tentou arruinar o tutor de um cão, um empresário do setor farmacêutico na Finlândia, país escandinavo que mantinha a neutralidade em 1942 apesar de ter fortes ligações à Alemanha.

Dono do grupo Tamro, que ainda hoje existe, Tor Borg era casado com uma alemã insuspeita de simpatias pelos nacionais-socialistas, que deu o nome ao cão após verificar que este levantava a pata da mesma forma que a maioria dos seus compatriotas erguiam o braço enquanto diziam ‘Heil Hitler’.

Nos arquivos do regime nazi foi encontrada uma carta do vice-cônsul em Helsínquia em que este denunciava que “uma testemunha, que não quis ser identificada”, testemunhou a polêmica habilidade do cão de Tor Borg.

O empresário foi chamado à embaixada da Alemanha em Helsínquia e negou que o cão se chamasse ‘Hitler’, embora tenha reconhecido que a sua mulher o tratava assim.

No entanto, Tor Borg salientou que a imitação da saudação nazi só tinha ocorrido algumas vezes em 1933, pouco depois de Hitler tomar o poder na Alemanha.

Acrescentou ainda que nunca havia feito “nada que pudesse ser considerado um insulto contra o Reich”, mas não conseguiu convencer o embaixador.

Um documento do Ministério da Economia germânico revela que o grupo químico IG Farben, que era um dos principais fornecedores da farmacêutica finlandesa, se ofereceu para deixar de fazer negócios com Tor Borg.

Por seu lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros tentou por o empresário em tribunal pelos insultos a Hitler mas nunca conseguiu convencer nenhuma testemunha ocular das façanhas do seu rafeiro.

O historiador responsável pela pesquisa não encontrou provas irrefutáveis de que o caso tenha chegado aos ouvidos do próprio Adolf Hitler. De qualquer forma, o cão (cujo verdadeiro nome era ‘Jackie’) morreu de causas naturais e Tor Borg faleceu em 1959, 12 anos antes da sua mulher.

Fonte: Correio da Manhã

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Artigos

As ‘ilogicidades’ do Zoológico de Varsóvia – parte final

Tal como mencionado, além da absurda ideologia de dominação e supremacia racial, o nazismo entre outros objetivos, aspirava recriar o mundo natural da Alemanha, por meio de sua pretensa limpeza, refinamento e aperfeiçoamento. O que impressiona é que esse é justamente o objetivo de todos os zoológicos mundo afora: recriar o mundo natural de forma contida, pretensamente limpa, refinada, aperfeiçoada e, sobretudo, enjaulada. Ontologicamente, a ideologia da dominação nazista obedece à mesma lógica, ao mesmo odioso padrão quando nos deparamos com a realidade de outros seres vivos aprisionados e explorados para o entretenimento humano.

Para tentar disfarçar o jardim zoológico como algo que os soldados nazistas desejassem manter intacto, além da manutenção e doação de animais valorados por Heck, Jan e sua mulher resolveram iniciar uma grande suinocultura nos prédios do decrépito zoo. No final do inverno, começaram a receber as “remessas” de porcas, e em março de 1940 teve início a criação, “alimentada, sobretudo, com sobras doadas por restaurantes e hospitais, e também com o lixo que Jan recolhia no Gueto” (op. cit., p. 87). Sem dúvida era uma grande ironia criar animais cujo consumo era um tabu por parte dos judeus. Mais irônico ainda era o codinome “Francisco”, utilizado por Jan, em evidente homenagem a São Francisco de Assis, padroeiro dos animais. Num dia de primavera, provavelmente imbuído desse ideal missionário, “levou para a casa um porquinho recém-nascido, cuja mãe acabara de ser abatida, achando que Rys poderia gostar dele como animal de estimação” (op. cit. p. 87). Certo dia, alguns soldados alemães viram o porco brincando e o arrastaram, aos guinchos, para ser morto. Não bastasse a criação de suínos, posteriormente implantou-se no zoológico uma fazenda de criação de animais para aproveitamento de peles.

É bastante usual que pessoas que lidam com zoológicos, circos, rodeios, entre outras instâncias de exploração animal, se vejam como numa espécie de missão redentora e realmente acreditem que estejam tratando bem “seus” animais e que se não fosse por eles o seu destino seria incerto. Talvez essa seja uma das expressões mais bizarras e flagrantes do fenômeno do autoengano. A preocupação com a esfera de interesses mais fundamentais dos animais nunca é colocada em questão. Na obra em comento isso fica bastante claro.

Alguns relatos são também bastante paradoxais. Ackerman afirma que era fato comum “aparecerem soldados alemães para atirar nos bandos de gralhas que enchiam o céu feito cinza, antes de pousarem nas árvores. Quando eles iam embora, Antonina saía furtivamente e recolhia os corpos, os quais limpava e cozinhava, preparando um patê que seus convivas presumiam ser de faisão, uma iguaria polonesa. Certa vez, quando as senhoras elogiaram essa conserva excelente, Antonina riu consigo mesma: ‘Por que estragar o apetite delas com meros detalhes da denominação zoológica’?” (op. cit., p. 107).
Os animais não foram feitos para serem instrumentos de nossas vontades e desígnios. A história do Zoológico de Varsóvia, nesse sentido, é bastante ilustrativa para demonstrar a realidade de pessoas que, se de um lado praticaram o bem, ao acolherem judeus perseguidos pelo regime nazista, mantinham, de outro, a mesma estrutura de dominação para com outros seres vivos. O paralelo é evidente e marcante. Animais de zoológicos são prisioneiros, são escravos tal qual, infelizmente, o foram os judeus, ciganos, negros, e membros de outras etnias e minorias. Como se falou, a dominação obedece à mesma lógica e ao mesmo padrão em ambos os casos.

Em zoológicos, animais se comportam de maneira absolutamente artificial e diversa do ambiente natural. Só o fato do confinamento impõe restrições inimagináveis. Quando presenciamos os animais nessas condições estamos vendo a sombra do que um dia foi aquele animal no ambiente natural, um verdadeiro fantasma, uma capa amorfa de uma vida outrora pulsante. Tal como afirma Nina Rosa, “nos zoológicos, vemos um arremedo triste de animais deprimidos e solitários, expostos à curiosidade humana, sem entender o que estão fazendo ali”. Se lutamos por direitos subjetivos para animais, devemos nos posicionar contrariamente a essa realidade e à perpetuação desse tipo de instituição. Nela, humanos e não humanos estão permanentemente comprometidos com a escravidão.

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Colunistas, Direitos Animais

Os paradoxos da liberdade e da democracia

Em que medida a democracia e a liberdade favorecem ou limitam uma à outra e, consequentemente, também favorecem ou limitam o respeito aos direitos fundamentais? Trata-se de assunto muito complexo, e não tenho pretensão de abordá-lo com a profundidade que ele merece, o que seria impossível neste espaço e sem o apoio de uma ampla bibliografia. Gostaria, entretanto, de incitar o leitor à reflexão, a partir de alguns casos que demonstram a relação por vezes ambígua entre os dois princípios, que fatalmente afetam os direitos fundamentais – dentre os quais estão os direitos humanos e os direitos animais.

Suíça: democracia modelo?

A independência da Suíça foi reconhecida em 1648 pelo Tratado de Westphalia, que deu fim à Guerra dos Trinta Anos. Cercada pelas grandes potências continentais – primeiro, a França e o Sacro Império Romano-Germânico, depois a França, a Prússia e a Áustria – a neutralidade do país foi desde o início um elemento decisivo para sua sobrevivência, pois garantia o equilíbrio geopolítico na Europa central. Pender para qualquer um dos lados iria expor o país à conquista militar. Inicialmente uma necessidade pragmática, a neutralidade foi tão decisiva em diversos aspectos da sua história que acabou por se transformar quase num auto de fé da nacionalidade suíça, a ponto de manter o país por muitos anos afastado da ONU – tornou-se membro pleno apenas em 2002 – e, até hoje, fora da União Europeia, embora uma série de tratados bilaterais façam dele praticamente um membro extraoficial.

Desde a época da sua independência, a Suíça constituía-se, na verdade, numa Confederação, ou seja, uma aliança entre pequenos Estados independentes entre si, com algumas políticas em comum que facilitassem a paz e comércio mútuos. Esses pequenos Estados estão na origem dos atuais 26 cantões que constituem a Confederação Helvética (nome oficial do país), que preservam ainda grande autonomia. Boa parte do modelo político da democracia suíça, que é um caso único no mundo, deriva da disposição de preservar essa autonomia regional interna.

O regime político suíço determina que o governo federal é constituído por um Colegiado de sete membros, eleitos indiretamente para um mandato de quatro anos, em que têm assento os principais partidos políticos, numa distribuição que reflita o percentual de votos obtido por cada partido nas eleições gerais diretas. A presidência do Colegiado é exercida de modo rotativo. Mudanças constitucionais precisam ser aprovadas em referendo por maioria qualificada tanto dos eleitores quanto dos cantões (isto é, ter dois terços de aprovação entre a população e ser aprovada em pelo menos dois terços dos cantões). A constituição suíça ainda prevê que referendos possam ser propostos por iniciativa popular ou que leis aprovadas pelo Parlamento sejam desafiadas e derrubadas por referendo, contanto que essas iniciativas populares obtenham um número mínimo de assinaturas.

Como consequência desse modelo, a Suíça é conhecida como um exemplo bastante avançado de democracia. Lá, mais que em qualquer outro país, o referendo é uma ferramenta constante para decidir sobre assuntos de interesse coletivo, o que dá ao país a aura de ser um dos mais democráticos do mundo, no qual a população participa diretamente das decisões mais importantes.

O caso da Suíça, porém, é igualmente didático como indicador não só das vantagens, mas também das limitações da democracia. A Suíça é tradicionalmente um país conservador, e as mudanças sociais e políticas se dão muito lentamente. Apenas em 1971 o direito de voto foi universalmente estendido às mulheres, quando foi aprovado por referendo. Recentemente, o problema da imigração e do racismo tem demonstrado de modo ainda mais cabal as limitações do modelo político suíço e da própria democracia como instrumento de promoção da liberdade e do bem-estar geral.

Em 2003, o Partido Popular da Suíça (SVP), partido nacionalista de perfil racista e anti-imigrantes, obteve larga votação, que resultou na obtenção de duas das sete cadeiras do Colegiado executivo. Mais recentemente, em novembro deste ano, em caso que tem obtido relativa repercussão na imprensa internacional, foi aprovado, em referendo popular, o banimento de minaretes, torres erguidas ao lado das mesquitas para convocar os fiéis à oração. A proposta teve apoio de 57,5% dos eleitores e foi aprovada em 22 dos 26 cantões. O governo, após a aprovação da proposta, emitiu comunicado oficial afirmando que ele não significava restrições à prática da religião islâmica, enquanto especialistas em direito ainda discutem a legalidade da medida em face dos direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição suíça e, portanto, a possibilidade de revogação do resultado do referendo [1].

A democracia como instrumento da tirania

A principal lição que podemos tirar desse evento é que a democracia (direta, participativa ou representativa) não é um bálsamo para o alcance da justiça, da liberdade ou do respeito aos direitos fundamentais. Frequentemente urdida como uma solução mágica para os problemas sociais e políticos contemporâneos, a democracia pode igualmente favorecer políticas autoritárias e discriminatórias.

Desde 1848, quando Luís Bonaparte (sobrinho do general e depois imperador francês Napoleão Bonaparte) foi proclamado imperador por referendo popular, eleito por sufrágio universal masculino recém-instaurado, levanta-se um importante paradoxo: a constância com que procedimentos democráticos, e frequentemente eleições, referendos e plebiscitos, são usados como armas para minar a democracia e as liberdades públicas. É comum que regimes autoritários de corte populista lancem mão desses mecanismos para legitimar-se tanto interna quanto externamente.

No século XX, os nazistas chegaram ao poder obtendo índices crescentes de votação em eleições democráticas e livres, atingindo seu ápice, acima dos 30%, em 1932. Apenas num segundo momento foi dado um golpe de Estado que eliminou a democracia e instaurou a ditadura. Por sinal, o sociólogo britânico Michael Mann, desafiando o senso comum, defende, em seu livro Fascistas [2], que a ascensão do fascismo e, de um modo mais amplo, do autoritarismo de direita na Europa dos anos 1920 e 1930, resultou não de países com uma sociedade civil fraca, mas da tentativa de liberalização e democratização de países com uma sociedade civil ativa, em que tendências autoritárias e nacionalistas obtinham apoio de significativa parcela da população.

O caso da Suíça, uma democracia estável desde, pelo menos, 1848, quando aprovou-se a Constituição que estabeleceu os parâmetros modernos da sua organização política, é ainda mais intrigante porque desafia o consenso de que são as democracias frágeis e recentes, em países de cultura política autoritária, aqueles em que os procedimentos democráticos podem minar a própria democracia, o respeito às liberdades e direitos fundamentais e a proteção das minorias. Sem tornar essa tese falsa, o caso suíço mostra que esta teoria é insuficiente para demonstrar as razões pelas quais a democracia pode ser um instrumento para avançar políticas autoritárias e discriminatórias.

O problema recente da imigração e do islamismo tem levado a forte reação racista e nacionalista, que propiciou o avanço da extrema-direita em toda a Europa. Em 2002, o representante da extrema-direita racista francesa, Jean-Marie Le Pen, teve desempenho surpreendente na eleição presidencial francesa, chegando em segundo lugar no primeiro turno, com 16% dos votos, e classificando-se, portanto, para o segundo turno. Na Itália, o governo do magnata Silvio Berlusconi se sustenta numa coalizão que inclui partidos políticos neofascistas, que têm uma leitura revisionista do fascismo italiano e seu líder, Benito Mussolini.

O caso mais emblemático, porém, foi provavelmente o da Áustria. Em 1999, a extrema-direita austríaca, cujo partido, ironicamente, autointitula-se Partido da Liberdade, obteve 27% dos votos e constituiu, com o Partido Popular, da direita tradicional, um governo de coalizão. Seja por conta da forte reação externa, que levou a boicotes e um congelamento das relações da Áustria com a União Europeia, seja porque o partido falhou em corresponder às aspirações do eleitorado, essa votação recuou para apenas 10% na eleição seguinte. Porém, o partido continuou como integrante minoritário da coalizão governista, e seu exemplo demonstrou que a possibilidade de a extrema-direita deixar um patamar minoritário para alcançar parcelas cada vez maiores do eleitorado, a ponto de tornar-se uma alternativa de poder viável, não pode ser descartada, e que as políticas autoritárias, discriminatórias e racistas não estão mortas nem são exclusividade de democracias novas e instáveis.

De modo geral, a extrema-direita racista tem se limitado a algo em torno de 15% a 25% dos votos, insuficiente para formar maiorias, mas o bastante para ter um impacto relevante nas políticas nacionais, inclusive forçando uma radicalização tanto da direita quanto da esquerda em temas como a imigração, como modo de apaziguar e disputar a preferência desta parcela nada insignificante do eleitorado. Ademais, embora ainda minoritários nos níveis nacionais, os partidos de extrema-direita têm conseguido vitórias eleitorais no nível local e até mesmo regional.

Direitos fundamentais e democracia: limites e possibilidades

Em termos puramente conceituais, não é difícil entender que é um completo absurdo supor que os direitos fundamentais do indivíduo dependam da democracia, pois isso significa supor que o seu direito à vida, à liberdade, à integridade, e outros direitos humanos daí derivados (direito à participação política, à educação, à saúde, à alimentação, à moradia; liberdade de expressão, de pensamento, de associação, de culto etc.) só poderão ser reconhecidos e respeitados se a maioria assim assentir, o que nada mais é do que uma forma de tirania. Nos dias de hoje, por exemplo, condicionar o direito de um casal homossexual de ter reconhecida sua união matrimonial, com os devidos direitos legais daí decorrentes (partilha de bens, direito de herança, plano de saúde, pensão etc.) ao consentimento da maioria apenas evidencia o estofo tirânico que subjaz na democracia contemporânea.

Os direitos fundamentais jamais deveriam depender de escrutínio público. Entretanto, como, ao contrário do que diz o senso comum, a maioria nem sempre tem razão, e muitas pessoas estão, de fato, propensas a todo tipo de preconceito, frequentemente nos vemos submetidos a essa forma de tirania que é a ditadura da maioria. Oscar Wilde, célebre escritor irlandês do fim do século XIX – aliás, homossexual – famoso por suas observações mordazes, disse certa vez:

Há três tipos de déspotas. Há o déspota que tiraniza o corpo. Há o déspota que tiraniza a alma. Há o déspota que tiraniza tanto a alma quanto o corpo. O primeiro chama-se Príncipe. O segundo chama-se Papa. O terceiro chama-se Povo. [3]

Não se trata, aqui, de defender que o povo seja guiado por um tipo de “déspota esclarecido”, como preconizavam os iluministas, um líder que fosse guiado apenas pela razão, governando acima das paixões e da ignorância que regem a maioria dos seres humanos. Trata-se antes de ressaltar três questões. Primeiro, que devemos ter, então, cuidado com as soluções fáceis e respostas mágicas representadas pela participação popular e a democracia direta. Segundo, que o despotismo e a tirania, em última instância, só subsistem se têm respaldo e legitimidade social. Mesmo os regimes autoritários dependem do consentimento, mesmo que passivo, da maioria. Quando a maioria se subleva ou, o que é mais provável, quando o consentimento passivo se transforma em resistência passiva, os regimes tirânicos não sobrevivem. Segundo, não podemos subestimar a força disciplinadora daquilo que que Michel Foucault chamou de “microfísica do poder” [4]: o poder que não é exercido pela mão forte do Estado, mas entronizado no indivíduo pelo condicionamento, pela pressão social, pela vigilância coletiva. Quem desafia as regras não escritas da sociedade está sujeito a punições que, mesmo extraoficiais, podem ser extremamente duras e, portanto, dissuasivas: a exclusão social, a execração pública, a violência não institucionalizada.

A relação paradoxal entre democracia e a promoção dos direitos fundamentais é que, embora a segunda jamais devesse depender da primeira, e apesar da fratura que pode haver entre uma e outra, o fato é que a democracia ainda é o regime político mais propenso a reconhecer, instaurar e promover esses direitos. Como toda proposta de mudança nasce, por definição, minoritária, os regimes democráticos são mais favoráveis às minorias, que podem disputar, com relativa igualdade de condições, a preferência do eleitorado, além de poderem contar com garantias constitucionais que os regimes autoritários eliminam justamente para silenciar essas minorias – liberdade de expressão, liberdade de associação, liberdade de imprensa etc. Da mesma forma que uma maioria de tendência conservadora pode favorecer políticas autoritárias e discriminatórias mesmo em regimes democráticos, também as mudanças sociais e políticas progressistas, que expandem as liberdades e os direitos, e respeitam as minorias, têm maior possibilidade de ressonância, expansão e definitiva vitória no contexto de um regime democrático.

Democracia, direitos animais e movimentos sociais

E aqui entra, então, a relação deste tema com os direitos animais. Os direitos animais estão entre aqueles direitos fundamentais que não deveriam estar sujeitos ao escrutínio público. Entretanto, as limitações próprias do ser humano, o preconceito que se manifesta diante daquilo que é diferente, a sua tendência a abusar do poder, se são perceptíveis entre os seus semelhantes diretos, que se diga dos animais não humanos, que embora semelhantes em aspectos fundamentais, não fazem parte da nossa comunidade “natural” (no sentido de que o ser humano, como animal social, tende naturalmente a associar-se com outros seres humanos, mas apenas de modo muito restrito com animais de outras espécies).

Assim como todo projeto de mudança social, os direitos animais somente são reconhecidos por uma minoria, da mesma forma que os ideais dos direitos humanos, da igualdade entre homens e mulheres, da rejeição da escravidão humana e da própria democracia foram – e ainda são, em certos contextos – minoritários. É previsível e compreensível (mas não justificável – compreender é diferente de aceitar) que haja forte resistência, por vezes violenta, à ideia de reconhecer os animais não humanos como sujeitos portadores de direitos que não podem ser violados, especialmente se esses direitos, para serem respeitados, exigem a revisão de costumes tão difundidos e ancestrais.

É claro que o contexto de um regime democrático é mais favorável à difusão e defesa dos direitos animais, mas também neste caso a história recente nos apresenta uma exceção curiosa. Nos Estados Unidos, a histeria pós-11 de Setembro facilitou a aprovação no Congresso norte-americano de uma série de restrições às liberdades públicas, a Patriot Act. Na mesma época, o governo incluiu na lista de grupos terroristas a Animal Liberation Front, grupo de ação direta que jamais fez uma vítima fatal. O problema não atingiu apenas a ALF, porém. Grupos de defesa dos direitos animais que operam dentro da legalidade, da mesma forma que grupos pacifistas ou outras atividades “suspeitas” e “antiamericanas” estiveram sujeitos a vigilância, monitoramento, controle e perseguição pelo governo norte-americano (vejam, por exemplo, os documentários Fahrenheit 11 de Setembro e Behind the Mask).

O que o caso dos Estados Unidos e o da Europa têm em comum são os efeitos deletérios que o medo, o preconceito e as crises sociais têm tanto sobre a liberdade, quanto sobre a democracia. Em situações de crise, os indivíduos estão mais propensos a sacrificar sua liberdade em troca de segurança. Ao contrário do que se diz, entretanto, não são o terrorismo ou o fundamentalismo islâmico que ameaçam a democracia e a liberdade nos Estados Unidos e na Europa, e sim suas próprias crises internas associadas a crises externas que, em maior ou menor medida, foram fomentadas pelos próprios norte-americanos e europeus. Na Europa, a imigração e o islamismo não seriam um problema se não fossem, primeiro, as crises sociais e políticas que levam cidadãos de ex-colônias e países subdesenvolvidos a migrar para a Europa; segundo, a crise social da própria Europa, com o desmantelamento do Estado do Bem-estar Social, o desemprego, a crise previdenciária, que fazem dos imigrantes um alvo fácil e conveniente na hora de apontar “culpados” para o problema. Quanto aos Estados Unidos, desde os anos 1950 seus governos sistematicamente minaram todas as tentativas de construir regimes democráticos ou promover reformas sociais no Oriente Médio. O extremismo islâmico foi fomentado pelos próprios Estados Unidos como forma de combater a influência soviética naquela região, durante a Guerra Fria. Com o fim da União Soviética, a criatura voltou-se contra o criador.

Os regimes democráticos favorecem os movimentos por transformações sociais também por retroalimentação, na medida em que a garantia das liberdades públicas favorece o debate e a difusão de ideias. As democracias, entretanto, sem uma pressão popular externa, tendem a se tornar viciadas e, em grande medida, engessadas pelo poder econômico, a corrupção e a apatia popular diante de governos que não mais se mostram sensíveis às suas demandas. Por isso, torna-se cada vez mais importante a associação dos cidadãos além do poder do Estado em pelo menos três níveis: primeiro, a mobilização interna a partir da percepção de interesses comuns a proteger ou promover; segundo, a coalizão com movimentos diferentes a partir da percepção da ligação conceitual e estratégica com outras causas; terceiro, a coalizão com movimentos afins além das fronteiras nacionais, construindo movimentos internacionais capazes de interferir nas políticas internas dos Estados e na política internacional por meio da criação de movimentos de opinião pública.

A conclusão é que, sem esses movimentos sociais, a democracia transforma-se numa quimera. O Estado, como instituição controlada, em última instância, pelos setores da sociedades que detêm o poder político e econômico para impor seus interesses, apenas promove reformas sociais na medida em que é pressionado, de fora, por movimentos vindos das camadas mais baixas. Foi assim desde o início. Sem a mobilização dos trabalhadores, dos estudantes, das mulheres, não haveria hoje regimes de sufrágio universal, nem tampouco garantias mínimas de direitos fundamentais e sociais. Por isso, a participação popular, em última instância, tende a favorecer, mais que limitar, o avanço das liberdades públicas e garantias de direitos. Trata-se de um relação direta: se a maioria dos regimes tende a promover apenas os interesses de uma minoria abastada e poderosa, a entrada de novos atores no jogo político tende a estender essas liberdades e direitos a um conjunto cada vez maior da sociedade.

Voltando ao caso específico dos direitos animais, isso implica que o progresso da nossa causa depende do reconhecimento mútuo e do estabelecimento de alianças com grupos de outras causas e outros países. Essa estratégia é cada vez mais importante, no mundo contemporâneo. Embora, como eu sempre ressalto, o oprimido por uns pode ser o opressor de outros, o reconhecimento mútuo e a empatia podem ser construídos entre diferentes lutas sociais a partir da percepção de uma condição de injustiça partilhada e um interesse comum de justiça, liberdade, direitos.

A questão animal tem relevância tanto na política interna dos Estados quanto na política internacional. Os problemas sociais e ambientais causados pela pecuária, por exemplo, embora não devam ser, como sempre saliento, o foco do discurso dos movimentos de defesa animal, podem e devem ser entendidos como pontes para o estabelecimento de diálogo com os grupos humanos que sofrem com esses problemas sociais e ambientais: a devastação das florestas, o desperdício de água que compromete toda a segurança de um povo, a dependência do mercado exterior de alimentos que poderiam ser produzidos localmente se a terra não fosse destinada à criação de gado, e assim por diante. Da mesma forma, a experimentação animal está associada a políticas de saúde pública ineficazes, interesses corporativos da indústria farmacêutica, um contexto amplo de insensibilidade das políticas científicas e de Estado à questão ética, e por aí vai. Existe um terreno fértil para o movimento pelos direitos animais construir diálogo e cooperação com outros movimentos sociais, e instaurar um reconhecimento mútuo que fortaleça todas essas causas, na medida em que elas tomam consciência da existência uma das outras e, consequentemente, causas distintas passam a ser partilhadas.

Democracia e liberdade

Em última instância, o que define o progresso social na política e nos costumes é a construção, em longo prazo, de uma cultura democrática e libertária, para a qual, como dito, a pressão social dos setores excluídos e minorias políticas é fundamental e decisiva. “Democrática” não aparece, aqui, dentro da estreita definição do regime político, mas sim dentro da idéia da participação ativa de todos, em igualdade de condições, nas decisões relevantes para toda a sociedade. Em sentido estrito, esse tipo de democracia jamais poderia existir numa sociedade marcada pelas desigualdades sociais, a divisão em classes e força opressiva do Estado.

À medida que a consciência humana expande-se em direção ao reconhecimento do outro, o respeito pelo diferente, a compreensão da igualdade essencial que comanda que todos os indivíduos partilhem dos mesmos direitos e deveres, as sociedades avançam para formas de organização menos tirânicas, mais livres e solidárias. A democracia contemporânea representa, sem dúvida, um progresso significativo nessa direção, mas de modo algum o estado final, nem tampouco irreversível. A história está sempre sujeita a mudanças, e essas mudanças nem sempre representam um estado de coisas melhor do que o momento anterior.

Certa vez disse Rousseau:

Políticos (…) atribuem ao homem uma natural propensão à servidão, porque os escravos sob suas vistas parecem carregar seu fardo com paciência. Eles falham em refletir que se dá com a liberdade o mesmo que com a inocência e a virtude; que seu valor é conhecido apenas por aqueles que a possuem (…) por isso homens selvagens não irão curvar seu pescoço a fardo ao qual o homem civilizado os submete sem um murmúrio, mas preferem o mais turbulento estado de liberdade à mais pacífica escravidão. Nós não podemos, portanto, da servidão de nações já escravizadas, julgar a disposição natural da humanidade favorável ou contrária à escravidão; nós devemos avaliá-la pelos prodigiosos esforços de todo povo livre para salvar-se da opressão. Eu sei que os primeiros estão sempre a louvar a tranquilidade de que gozam sob suas correntes, e que chamam a um estado de torpe servidão um estado de paz (…). Mas quando vejo os últimos sacrificarem prazeres, paz, riqueza, poder e a própria vida à preservação deste único tesouro que é tão desdenhado por aqueles que o perderam; quando vejo animais nascidos livres esmagarem seus cérebros contra as barras de suas jaulas, em função de uma impaciência inata com o cativeiro; quando contemplo um sem-número de selvagens nus que desprezam os prazeres europeus, enfrentando fome, fogo, a espada e a morte, para preservar nada além de sua independência, eu sinto que não compete a escravos debater sobre liberdade. [5]

O próprio Rousseau e seus contemporâneos iluministas são testemunhas involuntárias dessas palavras: para além de toda sua retórica sobre liberdade, igualdade e razão, eram incapazes de conceber que todos os humanos pudessem ter os mesmos direitos e deveres, independente de nacionalidade, sexo, etnia. Eram incapazes de conceber um regime político que não dependesse da violência da guerra, da pena de morte, da ditadura. De fato, não compete a escravos falar em liberdade.

Não devemos interpretar essas palavras, entretanto, com a suposição de que os indivíduos sujeitos à tirania não consigam ou não devam sonhar e lutar pela liberdade. Seu verdadeiro sentido é que apenas pelo exercício da liberdade compreendemos seu verdadeiro sentido, as responsabilidades que ela traz consigo, e o valor que ela tem para nossa vida. Um processo no final do qual o ser humano não dependerá mais da tutela de um Estado, mas não mais que da sua consciência para exercer a própria liberdade e respeitar a do outro – incluídos, nesse conjunto, os animais não-humanos.

A democracia e a liberdade são um processo de aprendizado, eu diria mesmo de tentativa e erro. Embora a democracia eventualmente restrinja, em vez de alimentar, a liberdade, e a liberdade possa minar a democracia, é através desses avanços e recuos que se pode construir um estado duradouro de genuínas democracia e liberdade. Trata-se de um processo que, como tudo na vida, está sujeito aos erros de julgamento e conduta típicos da condição humana, mas erros que são, eles mesmos, necessários para esse aprendizado. Por isso, eu permaneço, apesar de tudo, otimista de que esse processo acumulativo de aprendizado e conhecimento, ao longo de gerações e séculos, conduz, no longo prazo, a graus cada vez maiores de democracia e liberdade, que por sua vez conduzem a maior reconhecimento e respeito pelos direitos fundamentais dos indivíduos. Esse progresso, estou certo, em algum momento levará à inclusão dos animais não humanos na comunidade de direitos.

[1] Conferir: O Globo. Sarkozy diz que islâmicos devem ser discretos. 9 de dezembro de 2009, p. 32.

[2] MANN, Michael. Fascistas. São Paulo: Record, 2008.

[3] WILDE, Oscar. A Alma do Homem sob o Socialismo. 1895. Disponível em: http://flag.blackened.net/revolt/hist_texts/wilde_soul.html. Tradução livre.

[4] FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

[5] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discourse on the Origin and Basis of Inequality Among Men. Part II. 1754. Disponível em: http://en.wikisource.org/wiki/Discourse_on_the_Origin_of_Inequality_Among_Men/Part_II. Tradução livre.

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Questionando o Óbvio

É a ética subjetiva?

Muitas pessoas mantêm uma posição que se assemelha e ao mesmo tempo difere do relativismo moral (que refutamos na coluna anterior): o subjetivismo ético. Para essas pessoas, as questões éticas são meras disputas de opinião: “cada um tem a sua, e ninguém está certo ou errado – isso tudo é subjetivo”. Em comum com o relativismo, essa perspectiva sustenta que não há uma verdade universal em ética. Diferentemente do relativismo, o subjetivismo não diz que o certo/errado dependem da sociedade em questão, mas do que o indivíduo que mantém a opinião acha (sente). Isso evita o problema do relativismo, de não admitir reformas sociais (no subjetivismo, os indivíduos não precisam agir conforme as normas de sua sociedade ou grupo). Segundo o subjetivismo, quando alguém diz: “comer carne é errado!” está apenas relatando um fato sobre si mesmo (que tem um sentimento ruim quanto a comer carne), e não afirmando uma verdade sobre o ato de comer carne. Se alguém diz o oposto, “comer carne é certo!”, está também apenas relatando o sentimento que tem quanto a comer carne. Segundo essa perspectiva, não há como estabelecer a verdade em ética, ou, aliás, se a pessoa está dizendo a verdade sobre o sentimento que possui quanto a algo, então isso é toda a verdade que há.

Vale lembrar que, para o subjetivismo, todas as questões éticas se resumem à mera opinião. Não poderíamos dizer, por exemplo, que alguém que defende o nazismo ou a escravidão está errado. Se dissermos que alguém está errado em defender o nazismo, tudo o que estamos fazendo, de acordo com o subjetivismo ético, é relatando um fato sobre nossa mente (que nos sentimentos mal diante da ideia do nazismo). Assim, ao contrário de ser a perspectiva de que a ética é objetiva que pode tolerar imposições sanguinolentas por parte de pontos de vista privados, é o subjetivismo que possui enorme possibilidade disso. No subjetivismo, tudo se resume a questões de mera preferência pessoal.

Mas serão as questões éticas exatamente iguais a questões de preferência pessoal? Quando falamos de preferência pessoal, é verdade que estamos relatando algo sobre nós mesmos. Se digo que eu gosto de calor e estou sendo sincero no que digo, então é verdade que gosto de calor. Se você diz que não gosta de calor e está falando com sinceridade, então o que fala é verdade também. Há a possibilidade de as duas afirmações serem verdadeiras ao mesmo tempo, sem problema algum. Quando falamos isso, não estamos discordando: não caio em contradição se eu aceitar que tanto é verdade que eu gosto de calor quanto é verdade que você não gosta. Agora, vejamos uma questão ética: se digo que comer carne é errado, não posso dizer ao mesmo tempo que comer carne é certo. Mas, se o subjetivismo ético fosse verdadeiro, é o que teríamos de assumir. Se quando digo “comer carne é errado” estou dizendo que “eu, Luciano, tenho um sentimento negativo quanto a comer carne” (estou relatando algo sobre mim) e quando você diz o contrário está apenas relatando algo sobre você, então não estamos discordando. Como na questão de preferência pessoal, deveria ser verdade, ao mesmo tempo, que é certo comer carne, e que também é errado comer carne. Mas se é verdade que estamos discordando, então não é verdade que os juízos éticos são meros relatos sobre nós mesmos. Se fossem, não gerariam discordância, assim como não gera discordância saber que uma pessoa gosta de calor e outra não. Parece que quando alguém faz um juízo sobre comer carne (ou qualquer outro juízo ético), está falando sobre o ato de comer carne (independentemente de quem o faça), e não sobre si mesmo apenas.

Outro problema com o subjetivismo é que, se ele fosse verdadeiro, ninguém cometeria erro algum, nunca. Se os juízos éticos são meros relatos de fatos sobre como nos sentimos, então desde que estejamos realmente relatando como nos sentimos, estamos certos. Se mudarmos nossos sentimentos e mudarmos nosso julgamento, o subjetivismo ético diria que estávamos certos tanto antes quanto agora – e certos na mesma medida. Outro problema maior para o subjetivismo é o seguinte: supondo que você diga “a ética é subjetiva”, enquanto que eu digo “a ética não é subjetiva”; se estamos sendo sinceros ao relatar o que realmente achamos sobre a ética então o subjetivista não tem uma base para a dizer que a ética é realmente subjetiva, já que o outro discorda e, segundo o subjetivismo, ambas as posições são verdadeiras. Se o subjetivismo for verdadeiro, então os subjetivistas ficam sem uma base para defender que a ética é mesmo subjetiva e não objetiva.

Diante de todos esses problemas, alguns filósofos reformularam o subjetivismo e chegaram na teoria do emotivismo. O emotivismo diz que os juízos éticos não são verdadeiros nem falsos porque não exprimem fato nenhum (nem sobre verdades morais objetivas nem sobre o sentimento de quem está falando). Para o emotivismo, os juízos éticos são como tentativas de influenciar a conduta da outra pessoa para que esta faça ou deixe de fazer alguma coisa. Alguém que diz que comer carne é errado estaria, em outras palavras, dizendo “viva o veganismo!” – uma frase que não pode ser classificada nem de verdadeira nem de falsa. Assim, o emotivismo tenta consertar o problema da discordância (agora é possível dizer que discordamos porque discordamos quanto ao que desejamos que o outro faça) e o problema da infalibilidade (já que não se pode mais classificar os juízos éticos de acordo com sua veracidade/falsidade, não faz mais sentido falar em erro/acerto).

Contudo, o emotivismo não está livre de problemas graves. Um grande problema é que essa teoria assume que somos pura emoção, que não somos também dotados de razão. Quando alguém faz um julgamento ético, é sempre legítimo perguntar pelas razões que dão sustentação a tal julgamento. O emotivismo vê as razões apenas como tentativas de influenciar a conduta do outro. Portanto, desde que se consiga o efeito almejado, o emotivismo considera uma razão válida. Assim, como o filósofo James Rachels exemplifica, ao analisar a teoria: “Suponha que eu esteja tentando convencê-lo de que o Sr. Silva é uma pessoa má (…) mas você está resistindo. Sabendo que você é racista, eu digo ‘O Sr. Silva é negro’ ” (RACHELS. Elementos da Filosofia da Moral, p. 41). Se isso convencesse o interlocutor, o emotivista teria de considerar uma razão válida. Mas, obviamente, a raça de alguém não é relevante para estabelecer sua maldade, independentemente do que todas as outras pessoas do mundo pensam sobre isso. Então, por não conseguir distinguir quais razões são, de um ponto de vista ético, válidas (quais têm a ver com o assunto que está em discussão), o emotivismo também sucumbe, assim como subjetivismo e o relativismo.

A grande conclusão a partir desse ponto é então sobre a importância da razão na ética. Os que pensam não haver uma verdade objetiva em ética geralmente defendem sua perspectiva apontando que não existem fatos morais no universo físico, assim como existem fatos sobre outras coisas. Relativistas, subjetivistas e emotivistas criam então uma falsa dicotomia: “ou existem fatos éticos objetivos nas mesmas bases que existem fatos sobre o universo físico, ou então um juízo ético é sempre tão bom quanto qualquer outro”. A inexistência desses fatos não implica que a ética não seja objetiva, já que “as verdades morais são verdades da razão, ou seja, um julgamento moral é verdadeiro se respaldado por razões melhores que as alternativas” (RACHELS, Ibid, p. 42). Ainda que esses fatos não existam no universo, somos dotados de razão, e, por isso, sujeitos às mesmas regras lógicas. Isso significa que os argumentos podem ser avaliados em termos de plausibilidade. Na próxima coluna, tentarei falar um pouco sobre os métodos de raciocínio ético que visam guiar a investigação sobre como saber se um juízo é eticamente válido ou não.

Se as perspectivas relativistas/subjetivistas/emotivistas não conseguem se sustentar nem mesmo frente a alguns parágrafos de análise crítica, como é que atraem tantas pessoas? Talvez seja porque os seus defensores se veem seduzidos pela ideia óbvia de que sociedades/pessoas possuem visões morais diferentes e, precipitadamente, dão o salto para uma conclusão metaética de que não há objetividade em ética. As aparências enganam. E, como vimos, não podemos concluir que a ética é relativa/subjetiva simplesmente a partir do fato de que há discordância nos juízos morais. Algumas posições podem simplesmente estar erradas – dependendo das razões oferecidas em seu respaldo.

Finalizando, gostaria de apontar que apelar à emoção é uma tática muito usada dentro do movimento de defesa animal. Por mais que eu reconheça que os sentimentos desempenham um papel muito importante nas questões éticas (principalmente no que diz respeito à motivação para agir), penso que essa ênfase pode causar mais mal do que bem, principalmente se argumentos éticos sólidos não são apresentados conjuntamente. O interlocutor mais atento, mas que não conhece os argumentos a favor dos direitos animais,  pensará que estamos apenas querendo influenciar sua atitude, e que não estamos nem um pouco preocupados em saber se estamos realmente certos ou não. E, com relação a muitas pessoas, isso parece ser verdade: elas primeiro sentem que algo é errado, e depois buscam argumentos para sustentar a posição a todo custo. Mas, como vimos, nossos sentimentos podem ser apenas produto de nossos preconceitos (ou podem ser realmente sentimentos éticos, mas só podemos descobrir isso se fizermos uma análise racional visando eliminar possíveis preconceitos). O que quero dizer é que devemos dar mais atenção ao que a razão tem a dizer sobre as questões éticas que estamos discutindo se estamos interessados realmente em fazer o que é certo, descobrir a verdade. Um pouco sobre o papel da razão na ética é o que veremos na próxima coluna.

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