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Veganismo no Ensino Médio é doutrinação?

“Será que nós, os imoralistas, fazemos mal a virtude?
Tão pouco como os anarquistas aos príncipes.
Quanto mais os sacodem, melhor eles se agarram aos tronos.
Moral: devemos sacudir a moral.”
F. Nietzsche
 
“A Humanidade anseia por uma nova ética,
um novo compromisso, no qual a crueldade e a
instrumentalização da vida devem ser combatidos.”
Daniel B. Lourenço
 
Professores, pais e alguns alunos me acusam de doutrinar, manipular, de fazer uma lavagem cerebral nos alunos.Estaria eu doutrinando por apresentar o veganismo como uma solução ética a todos os crimes cometidos pelo homem aos não-humanos, aos ecossistemas e a si mesmo em nome de Deus, da ciência, da tradição, da ordem e do progresso? Quando me acusam de doutrinar penso na idéia de doutrinação apresentada pela professora Maria Lucia de Arruda Aranha, como “uma pseudo-educação que não respeita a liberdade do educando, impondo-lhe conhecimentos e valores”, e que nesse método autoritário, “todos são submetidos a uma só maneira de pensar e agir, destruindo-se o pensamento divergente e mantendo-se a tutela e a hierarquia.” ¹
 
Segundo os alunos que teriam sido doutrinados por mim, eles, dolorosamente perceberam que os questionamentos e críticas que faço aos dogmas, às crenças e aos costumes, fizeram-lhes pensar o quanto tais costumes não se sustentam a uma análise mais apurada dos fatos. Eles mesmos dizem que eu não os manipulei, eu apenas mostrei que há um mundo fora da caverna ideológica cristã-burguesa tradicional. Acredito que a liberdade que prego e vivo com meus alunos, vá na contramão do que acima se definiu como doutrinação.
 
Esses alunos, “doutrinados”, que conseguiram despertar para a nova visão do mundo, não só dizem, mas demonstram praticamente em seu novo cotidiano, que minhas aulas representam minha responsabilidade moral nos termos assim apresentados pela professora Sonia T. Felipe: “Se há argumentos racionais convincentes que podem ajudar as pessoas a optarem pelo consumo exclusivo de alimentos de origem vegetal, os veganos não podem furtar-se à responsabilidade moral de apresentarem publicamente esses argumentos (…). Discutir publicamente os fundamentos da escolha vegana possibilita que os onívoros e os ovo-lacto-vegetarianos possam pensar um pouco a respeito de seus hábitos de consumo alimentar.”²
 
Mostrar, baseando na própria história da filosofia, das ciências, do Direito e das religiões que tradicionalmente legitimam o especismo, que nossa alimentação não tem nada de inocente é meu dever moral. Parece-me difícil interpretar como doutrinamento, a não ser que eu seja um especista, o trabalho de fazer a juventude refletir o fato de que: “o ato de comer perde a aura de inocência no momento em que os humanos têm à sua disposição as mais diversificadas fontes naturais de nutrientes vegetais, mas insistem em encher seu prato de pedaços de carcaças que constituíram organismos de indivíduos animais que viveram uma experiência particular de vida. Não há inocência alguma no ato de comer, quando o buffet do qual nos servimos oferece aos comedores uma variedade de preparados nos quais os produtos derivados do abate intensivo de animais e os subprodutos dos restos desse abate são apresentados lado a lado com produtos não derivados de animais. A inocência acaba quando, mesmo tendo diante de si alimentos nutrientes de origem vegetal, o comedor ‘escolhe’ pôr em seu prato porções derivadas de animais (…) Essa pretendida inocência no ato de escolher o que se coloca no prato não é típica apenas dos onívoros (…) encontramos igual resistência moral naqueles que se dizem vegetarianos, mas incluem em sua dieta produtos de origem animal, tais quais, leite, ovos, mel, gelatina etc.”³.
 
A mesma crítica descrita acima aos hábitos alimentares pode ser estendida ao nosso entretenimento, vestuário e higiene, pois, são responsáveis pela manutenção de uma indústria global de seqüestro, confinamento, tortura e extermínio em massa de animais não-humanos. Mostrar e discutir os bastidores dessa indústria é manipulação?É doutrinação? Para os legitimadores do status quo: sim.
 
As acusações de doutrinador me fizeram lembrar que no período de graduação e pós em Filosofia, era comum alguns alunos se identificarem com um professor marxista, outros com o platônico, outros com o tomista, com o existencialista e assim iam caminhando. No meio acadêmico, cada professor adota para suas aulas autores e teorias que mais lhe agradam para serem discutidos em sala de aula. Lembro-me de ter passado dois anos lendo e refletindo o pensamento marxiano, um e meio com Platão e sua herança pré-socrática e um ano na companhia de Nietzsche.
 
Os professores acadêmicos são doutrinadores por passarem tanto tempo martelando o mesmo autor na cabeça de seus alunos? Não. De forma alguma. Quem ousaria pensar uma coisa dessas? São especialistas, é “natural” que depois de um mestrado e doutorado, passem tudo o que pesquisaram para frente. Nada de dogmatismos e doutrinamentos, são só especialistas formando novos especialistas.
 
No entanto, por qual razão o professor de filosofia do ensino médioao adotar uma teoria como referência para ser desenvolvida em sala de aula é doutrinador? Por que eu posso, como docente acadêmico, ficar um, dois ou três anos discutindo e pesquisando o mesmo tema com meus alunos e, no ensino médio tenho que passear por toda história da Filosofia?4  Se eu adotar Gary Francione e seu abolicionismo para discutir durante o ano letivo estou doutrinando, manipulando meus alunos, mas, se eu optar pelo o que os documentos oficiais trazem, ou seja, prepará-los para cidadania via falácias não formais, metafísica aristotélica, ceticismo, o belo e o sublime na filosofia alemã, epistemologia, argumentos ontológicos, contratualismo, filosofia analítica, éticas contemporâneas5, existencialismo… Não estoudoutrinando.
Com certeza, pirotecnia em sala de aula não doutrina, entretém. Na atual situação planetária só há dois caminhos: ou apresenta e discuti seriamente a proposta revolucionária vegana ou continua-se no picadeiro do entretenimento pseudo-filosófico. Como bem disse Colin Welch: “ser conservador não exige qualquer cérebro. Basta aceitar o que existe.”6
 
Quantas e quantas vezes ouvi reacionários travestidos de educadores acusarem professores marxistas, anarquistas, existencialistas, nietzschianos, de manipuladores, de incentivadores de rebeldias e contestações da ordem nos jovens alunos. Agora chegou a vez dos professores veganos do nivel médio, até que enfim chegou a minha vez de fazer parte desse rol ilustre de contestadores da ordem estabelecida, de demolidores do status quo, de negadores da submissão, passividade e quietismo.
 
Por outro lado, é compreensível o medo que o veganismo provoca na grande maioria dos docentes e pais especistas. Tanto como exploradores econômicos de algum animal via comércio, indústria e lazer, quanto reles consumidores passivos e comodistas de produtos de origem animal; ficam chocados e na maioria das vezes enfurecidos com essa idéia de abolição. O medo da mudança não os deixa ver a coerência7 do movimento pela abolição proposta pelo veganismo.
 
Não se muda uma pessoa que passou toda sua vida acreditando cegamente no mito da proteína bovina, na indispensabilidade do cálcio oriundo da secreção mamária não-humana, na pseudo-ciência da experimentação animal, no sadismo lúdico de rodeios, touradas, pesqueiros etc. com a imposição de uma filosofia radical como o veganismo. Se tantos alunos chegaram em casa e questionaram os tradicionais hábitos especistas dos pais, foi porque, depois de tanta discussão, debates, ‘caras e bocas’, chegaram a conclusão – segundo eles – de que não têm como, racionalmente, negar a coerência dos argumentos veganos em prol de um mundo melhor.
 
Esses alunos não questionaram seus pais e professores porque foram manipulados, porque estão passando por um processo de doutrinamento, e sim porque perceberam que nenhum argumento especista resiste à lógica e à ética vegana.
 
É muita inocência acreditar que em quatro bimestres, seja possível doutrinar uma multidão de jovens a aderir uma idéia que nega tudo que eles sempre acreditaram ser correto e natural (praticamente, dá para trabalhar neste espaço de tempo ‘os poucos’ pensadores contemporâneos do veganismo de maneira resumida ou mais detalhadamente um ou dois autores). Como expus em outro momento8, esses jovens quando encostados contra a parede, mostram-se extremamente apegados a tradição moral cristã-burguesa especista.
O espaço conquistado a cada dia pelo veganismo no ensino filosófico de nível médio, não é pela via da doutrinação como querem fazer crer os reacionários da Educação e sim, pela mais filosófica das atitudes: a discussão, o debate, o confronto de idéias.
 
Do mesmo modo que no século XIX um fantasma rondava a Europa, um espectro que vinha da exploração fabril para mudar a ordem econômica-política mundial. Hoje um novo fantasma ronda a Europa, Estados Unidos e Brasil, “o espectro do veganismo”. De uma coisa tenho certeza, não pouparei esforços para materializar esse espectro dentro da agora quadrada que é a sala de aula. O meu lugar de ação e libertação.
 

NOTAS
1 Aranha, Maria L. A – Filosofia da Educação. São Paulo, Moderna, 1996. p.51.
2 Felipe, Sônia T. – Ética na Alimentação: O fim da inocência. 3 id Felipe.
4 “E afinal de contas, o que importa a nossos jovens a História da Filosofia?” (Nietzsche,f : Escritos sobre Educação. Rio de Janeiro, Puc-Rio. São Paulo, Loyola. 2003. p.212.
5 Nesses – “éticas contemporâneas” – estão excluídas as éticas animal, ambiental e da alimentação. Os principais manuais de filosofia usados no nível médio brasileiro ainda vêem os animais e a natureza com os olhos de Aristóteles e de Descartes.
6 Balestreri, Ricardo B: Cidadania e direitos humanos: um sentido para a educação. Passo Fundo. Capec, sd p. 34.
7 No nível acadêmico, até os mais inflamados defensores da exploração animal, quando defronte a posição vegana, reconhecem sua coerência. Ao discutir o conservadorismo de Carl Cohen no trato aos animais, a professora Sonia T. Felipe nos dá o seguinte exemplo: “apenas o vegetarianismo radical, veganismo,isto é, a abstenção total do consumo de produtos de origem animal, por sua coerência, é reconhecido por Cohen como atitude de proteção dos interesses animais digna de respeito”. Felipe, Sonia T. : Ética & Experimentação Animal. Fundamentos Abolicionistas. Florianópolis. ed. ufsc, 2007. p.160.
8 Denis, Leon: Sobre a falsa perda de valores

 
Leon Denis – Professor de Filosofia da rede estadual de ensino do Estado de São Paulo, co-autor do projeto Mens sana in corpore sano, articulista da ANDA e pioneiro no ensino de Direito Animal e Veganismo em escolas públicas no Brasil.

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