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A ameaça do plástico: lixo coloca a vida de animais em risco

O plástico é uma ameaça para os animais, que adoecem e até morrem por conta da poluição gerada pelo produto, que leva cerca de 400 anos para se decompor.

Dados de 2009 do Ministério do Meio Ambiente indicam que cada família brasileira descarta aproximadamente 40 kg de plástico por ano e que mais de 80% dos plásticos são usados uma única vez.

JOHN CANCALOSI/Reprodução/National Geographic Brasil

Leves, as sacolas plásticas são levadas pelo vento e acabam em locais distantes, poluindo biomas, florestas, rios, lagos e oceanos – onde os animais vivem. No Oceano Pacífico, 87 mil toneladas de plástico flutuam, em uma espécie de “ilha de lixo”.

Nos oceanos, as sacolas se desfazem, dando origem a pedaços menores de plástico que são consumidos por animais. Essa ingestão, inclusive, é uma das principais causas da morte de tartarugas.

Estimativas indicam que cerca de 100 mil mamíferos e pássaros morram sufocados por plástico anualmente, após ingerirem o produto. Na Índia, aproximadamente 100 vacas morrem diariamente após comerem sacolas plásticas misturadas com sobras de comida.

Nas cidades, sacolas entopem bueiros, colaborando com enchentes em dias de chuva – o que coloca não só as pessoas em risco, mas também os animais domésticos. O plástico também já é considerado o segundo material mais comum no lixo municipal.

Além dessas questões, a decomposição em nutrientes e minerais de material orgânico presente em sacos plásticos é mais lenta, o que gera uma maior produção de metano e CO2, gases que contribuem com as mudanças climáticas.


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Atropelamentos de animais silvestres podem antecipar a extinção de espécies

Um levantamento concluiu que 1 milhão de espécies da fauna e da flora estão ameaçadas de extinção e muitas devem sumir por completo nas próximas décadas


Rodovias como a BR-262, que liga Vitória (ES) a Corumbá (MS), são o cenário onde diversos atropelamentos de animais silvestres, parte deles ameaçada de extinção, acontece. A situação é alarmante e pode antecipar o desaparecimento completo dessas espécies.

No caso da BR-262, o Pantanal, um dos biomas mais importantes do Brasil, é cortado pela rodovia, o que a torna ainda mais ameaçadora para os animais. Mas não só ela. Outras estradas, como a BR-163, a BR-267 e a MS-040, também registram atropelamentos frequentes, a maioria à noite, devido aos hábitos noturnos de algumas espécies e à falta de visibilidade dos motoristas.

FOTO DE LEONARDO MERÇON

A gravidade da situação fica nítida no relatório publicado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, da ONU. Divulgado em maio de 2019, o documento estima que 1 milhão de espécies da fauna e da flora estão ameaçadas de extinção e muitas devem sumir por completo nas próximas décadas.

“Com certeza podemos dizer que o atropelamento de animais silvestres é a principal causa de perda crônica de fauna no Brasil, junto com a caça e o tráfico de animais”, disse a bióloga Fernanda Abra, em entrevista a National Geographic Brasil. A profissional ganhou o prêmio Future for Nature Awards 2019, considerado um dos mais importantes do mundo para ações voltadas à preservação de animais silvestres. As informações são da National Geographic Brasil.

A morte em grande quantidade de animais devido ao atropelamento prejudica ainda mais espécies ameaçadas de extinção, também aquelas que possuem reprodução lenta e não aguentam fortes pressões do meio externo, além das que são consideradas topo de cadeia, das quais outras são dependentes no quesito sobrevivência.

Em 1998, ecologista norte-americano Richard T. T. Forman cunhou o termo “ecologia de estradas/rodovias”. Anos antes, em 1970, os biólogos tinham começado a se preocupar com o impacto da malha viária sobre os animais silvestres.

No Brasil, um levantamento publicado em janeiro deste ano na revista científica Ecology concluiu que 21.512 animais foram atropelados nas rodovias. Os dados devem ser usados para construir políticas de proteção à vida selvagem. No entanto, a pesquisadora da Universidade de Lisboa e colaboradora da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Clara Grilo, que é uma das líderes do levantamento, lembra que não é possível estabelecer uma relação direta entre o número de atropelamentos e o volume de tráfego dos veículos por falta de dados sobre toda a malha viária do país.

“A nível internacional, ainda não está clara a relação exata entre tráfego rodoviário e o número de atropelamentos de uma forma geral. Pensa-se que, à medida que o tráfego aumenta, o risco de mortalidade aumenta, mas até um certo nível. Há situações em que o tráfego é tão elevado que os indivíduos nem tentam atravessar e as taxas de mortalidade começam a decrescer”, explicou Grilo. De acordo com a pesquisadora, o comportamento diante do tráfego é particular de cada espécie.  “Cada uma responde de forma diferente ao perigo: umas ignoram o tráfego e morrem mais à medida que este aumenta, outras evitam infraestruturas humanas, portanto, têm baixas taxas de mortalidade”, completou.

FOTO DE LEONARDO MERÇON

Outro estudo, feito pelo pesquisador Alex Bager, do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, da UFLA, documentou atropelamentos em estradas, rodovias e ferrovias em 20 estados do Brasil. Para isso, o pesquisador percorreu quase 30 mil km e passou por 93 parques nacionais e outras unidades de conservação. A pesquisa, feita entre agosto de 2018 e junho de 2019, encontrou 529 animais atropelados de médio e grande porte. O cachorro-do-mato foi o animal mais atropelado, seguido do tamanduá-mirim, o tatu, o tamanduá-bandeira e as capivaras. O pesquisador registrou ainda anta, lobo-guará e cachorro-vinagre como vítimas.

Segundo Bager, há muitos atropelamentos fora das unidades de conservação, em alguns casos em maior número. “Monitorei a região [Estação Ecológica do Taim, no Rio Grande do Sul] por dois anos e encontrei dois exemplares de Leopardus geoffroy [nome científico do gato-do-mato-grande] atropelados dentro da área da unidade”, disse Bager. “E 19 nos 100 km no entorno. A conclusão é que os animais iam se alimentar da palha do arroz plantado nas proximidades, onde tinha muito rato. E, ao cruzar a rodovia, eram mortos”, completou.

Mamíferos ameaçados

Em um período de dois anos e meio, foram registrados 8.894 atropelamentos de animais silvestres em um trecho de 1.337 km de estradas no Mato Grosso do Sul. O resultado foi exposto por um levantamento feito por Arnaud Desbiez, coordenador do projeto Bandeiras e Rodovias e estudioso dos atropelamentos de mamíferos de médio e grande porte, especialmente tamanduás, em rodovias do estado.

Desbiez também monitorou mais de 40 tamanduás-bandeira, o que permitiu descobrir a extensão do habitat e das relações com as paisagens que circundam as rodovias, levando a estimativas de taxas de mortes, análises dos padrões temporais e espaciais do acidentes, além de ajudar no cálculo do risco de atropelamento para várias espécies e os prováveis impactos em populações. De acordo com o estudo, entre os animais mais atingidos estão o tatu-peba, o cachorro-do-mato, o tatu-galinha e o próprio tamanduá-bandeira.

Segundo o pesquisador, as rodovias cortam pela metade a taxa de crescimento dos tamanduás-bandeira. “Isso significa que eles têm mais dificuldade de se recuperar de outras ameaças, como perda de habitat, conflito com cachorros, fogo, entre outras”, explicou.

FOTO DE LEONARDO MERÇON

Desbiez lembrou ainda que “a MS-040 é a estrada em que temos a maior taxa de mortalidade de antas, o maior mamífero brasileiro terrestre. Isso é terrível porque o acidente com um carro pequeno e uma anta leva à morte dos passageiros. É muito perigoso”.

De acordo com a lei, o administrador rodoviário é o responsável por acidentes com animais. Entre 2003 e 2013, 28.724 casos foram registrados pela Polícia Militar Rodoviária do Estado de São Paulo – o que representa 3,3% do total das colisões.

Desde agosto de 2018, uma regra da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) determinou que corpos de animais devem ser retirados das estradas a cada 24 horas para serem incinerados, enterrados nas proximidades do acidente ou encaminhados a centros de pesquisa, obedecendo uma série de normas ambientais.

“É um avanço, já que se perdia muito material genético”, afirmou a bióloga Fernanda Abra.

Os animais que sobrevivem são levados para institutos de reabilitação. A Cetesb exige ainda que seja feito um registro de mortes por espécie para produção de políticas de conservação – o que fica difícil diante da necessidade de conhecimentos específicos para tal atividade e do estado de decomposição de muitos animais, o que dificulta a identificação.

O órgão exige também a construção de passagens de fauna associadas a cercas direcionadoras, adequação de pontes, túneis e galerias de drenagens para travessia, placas sinalizadoras e instalação de redutores e radares de velocidade – medidas que, na maior parte das vezes, não são aplicadas em sua totalidade.

FOTO DE LEONARDO MERÇON

Os resultados do primeiro semestre de análise dos atropelamentos estão nas mãos de profissionais como Renata Ramos Mendonça, assessora da Diretoria de Avaliação de Impacto Ambiental da Cetesb. “A gente ainda está no meio da análise, mas já começamos a perceber onde ocorre mais acidente. E aí vamos conseguir saber, por exemplo, se tem mais atropelamentos em época de colheita de cana ou em época de seca com fogo. A gente vai conseguir ter essa gestão, além de saber a ocorrência de animais, onde se achava que não tinha.”

“Os resultados ainda são muito preliminares, mas, por exemplo, a gente viu que atropelamento de onça-parda não se restringe as unidades de conservação (UC). A gente já pensa ‘tem essa UC aqui, tem que proteger’. Mas [o ponto com mais atropelamentos] está na área de cana”, disse o gerente da diretoria, Camilo Fragoso Giorgi.

Para Giovanni Pengue Filho, diretor geral da Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), a preocupação com a biodiversidade e a segurança nas rodovias está crescendo. “A gente percebe que nos novos contratos há um aparelhamento melhor com relação ao manejo de fauna. Nos contratos mais antigos, as condições e a legislação eram completamente diferentes”, explicou.

Isso também aconteceu em estradas federais, segundo o diretor de Planejamento e Pesquisa do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Guilherme Rodrigues de Mello. Houve, ainda de acordo com o diretor, um investimento de R$ 60 milhões desde 2007 em ações de monitoramento e mitigação de atropelamento de animais silvestres, sendo R$ 55 milhões de 2014 em diante.

Proteção à biodiversidade

Fernanda Abra, pesquisadora reconhecida pelo Future for Nature Awards, trabalha com a redução do impacto das estradas na biodiversidade, coordenando mais de 30 projetos de ecologia de estrada. Ao ser reconhecida pelos jurados, ela recebeu 50 mil euros como premiação e promete usar o dinheiro para testar um sistema que detecta a entrada do animal na rodovia e avisa os motoristas.

“O que reduz atropelamento de fauna é cerca. É a cerca que barra a entrada do animal na rodovia”, afirmou Abra. Combinar cercas com passagens de fauna diminui, segundo Abra, em até 86% o número de atropelamentos.

É preciso, segundo ela, proteger os animais em todos os pontos das rodovias, e não só nos trechos conhecidos por terem mais acidentes. “O deslocamento da fauna acompanha a dinâmica da paisagem. Assim, uma passagem feita entre dois fragmentos de mata, que após algum tempo se transformam em um condomínio ou uma fazenda, não servirá mais como alternativa”, disse Abra. “A fauna migrará em busca de novos locais e novos ‘hot spots’ surgirão”, completou.

Além disso, há passagens específicas para cada espécie. “Temos a mania de acreditar que uma passagem pode ser boa para todas as espécies e isso está longe de ser verdade. Normalmente, um determinado ponto, um ‘hotspot’, abrange uma, no máximo duas espécies. Então, colocar uma medida de mitigação em um ponto pode proteger algumas espécies e deixar outras importantes, de fora”, explicou Bager.

O atropelamento, porém, não é o único problema. Isso porque o isolamento causado pelas rodovias – o chamado “efeito barreira” – também é preocupante. Macacos, por exemplo, não costumam arriscar a travessia e, com isso, não se conectam com outras populações, prejudicando a manutenção da biodiversidade.

Porém, representantes do Dnit e da Artesp afirmam que cercar totalmente as estradas é inviável, inclusive no aspecto financeiro. “Falar em colocar direcionamento em toda rodovia eu acho complexo, porque existem outros aspectos: segurança, travessia de pedestre, passarelas”, disse Filho, o diretor da Artesp. O coordenador de meio ambiente do Dnit, João Felipe Cunha, afirmou também “o orçamento público é comprimido e, às vezes, a gente se vê entre fazer a roçada na lateral pra dar segurança numa curva ou colocar a cerca”.

Répteis e anfíbios são maiores vítimas

Do total de animais atropelados, cerca de 90% são répteis e anfíbios. Além de difíceis de serem visualizados devido ao pequeno tamanho que possuem, a morte deles também não é contabilizada da maneira correta. Isso porque é difícil contabilizá-los, já que seus corpos são retirados do local, em média, em até 11 horas por animais carniceiros, chuva ou pelo fluxo de veículos.

Os anfíbios não percebem que estão em perigo diante dos veículos e precisam migrar, atravessando rodovias, para reproduzir ou interagir com outros animais, conforme explica a bióloga Júlia Beduschi, do Núcleo de Ecologia de Rodovias e Ferrovias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os répteis, por sua vez, são atraídos pelo calor das estradas para autorregular sua temperatura interna, como acontece com as tartarugas, que buscam locais quentes para desovar.

FOTO DE LEONARDO MERÇON

“Muitas das tartarugas atropeladas que encontramos estavam cheias de ovos. É muito triste”, contou Beduschi.“Há muitos problemas em reduzir populações de anfíbios e répteis. Você pode, por exemplo, aumentar a quantidade de insetos que transmitem doenças ao homem por falta de predadores”, completou.

Ações que visam proteger esses animais estão sendo testadas. Dentre elas, pequenos túneis climatizados seguindo os padrões de cada espécie, cercas inteiriças e passagens aéreas ligando copas de árvores para os arborícolas.

Normas não são aplicadas

As normas que regem o licenciamento de novas obras rodoviárias, no que se refere à proteção da fauna, têm aplicação insatisfatória, segundo pesquisadores. Nos mais de 60 mil quilômetros geridos pelo Dnit no Brasil, há apenas cerca de 500 passagens de fauna. Nas rodovias de responsabilidade da Artesp, são 327 passagens feitas desde 1998.

A única passagem do tipo viaduto criada para proteger os animais está no quilômetro 25,8 da Tamoios (SP-99), na cidade de Paraibuna (SP). No Rio de Janeiro, está sendo construído um viaduto vegetado em cima da BR-101, para proteger o mico-leão-dourado.

O cenário de horror das estradas brasileiras não impediu, porém, a tramitação no Congresso de dois projetos de lei – o PL 984/2019, de autoria do deputado federal Vermelho (PSD) e o PL 61/2013, do senador Álvaro Dias (Podemos) – que pretendem abrir a Estrada do Colono, no Paraná. Fechada em 2001, a estrada corta o Parque Nacional do Iguaçu e já sumiu completamente, tendo sido ocupada pela mata, que cresceu e ocupou o local. Reabri-la significa desmatar 20 hectares em uma unidade de proteção integral e, conforme alertam pesquisadores, colocar os animais que ali vivem em constante perigo, inclusive as onças-pintadas, que estão criticamente ameaçadas de extinção.

A reabertura da estrada seria um retrocesso diante dos esforços de conservação da onça-pintada, que tem dado frutos. Entre 2009 e 2016, o número de animais da espécie que vivem no parque quase dobrou, de acordo com o Projeto Onças do Iguaçu.

Com informações da National Geographic Brasil


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