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A Condição-Animal em Kaspar Hauser – Crítica à Ética racionalista: o bom selvagem e a esterilidade da razão

Pretende este artigo analisar, sob o contexto da ética racionalista, um fato real que se deu na Alemanha, início do século XIX, quando um jovem – Kaspar Hauser (?-1833) – por circunstâncias não devidamente esclarecidas, fora mantido em cativeiro subterrâneo, da infância à adolescência, privado de contato social e sem qualquer possibilidade de alcançar real conhecimento do mundo, até que o momento em que seu algoz o liberta na praça central de Nüremberg.

A história emblemática de Kaspar Hauser tem inspirado, desde então, diversos livros e ensaios literários, psicológicos, lingüísticos, filosóficos, antropológicos, jurídicos etc, além da produção de películas cinematográficas sobre o tema. Para delimitar o campo de ação, a presente pesquisa restringiu-se a duas obras: o romance “Kaspar Hauser ou A indolência do Coração” (1908), do escritor austríaco Jacob Wassermann, e o filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (1975), do cineasta alemão Werner Herzog.

Não há como analisar a figura de Kaspar Hauser sem equipará-la ao bom selvagem que habita as teorias do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Segundo Rousseau, as ciências – apesar de seu contínuo desenvolvimento – constituem um fator de decadência humana, haja vista que o verdadeiro progresso é de ordem moral. Dizer que o homem nasceu bom e a sociedade o corrompeu não basta, até porque seria impossível retornar ao estado pré-social. Não se trata, portanto, de voltar à natureza primitiva, mas fazer a Essência triunfar sobre a existência.

Em meio a tal contexto há de se perguntar se o homem nasce ético. Se para Platão (427-347 a.C.) o conhecimento já faz parte, a priori, do indivíduo, para Aristóteles (384-322 a.C.) ele somente pode ser adquirido com a experiência concreta, a posteriori. Considerando que a ética, tida como ciência da moral, está envolta em relações psicossociais, a resposta mais plausível a essa indagação seria a de que o ser humano não nasce ético nem antiético, podendo obter – ou não – tal virtude ao longo de seu desenvolvimento sócio-cultural.

O comportamento natural de Kaspar Hauser, como se verá, representa uma crítica ao racionalismo positivista, capaz de atingir e desmontar pretensas verdades preexistentes. Ao desafiar a lógica e todo seu sistema de argumentação racional, assume uma posição contestadora que lhe discrimina perante os outros. Ele não é reconhecido como parte da sociedade, da mesma forma que não se reconhece como parte dela.

Kaspar Hauser foi um espírito livre e preservado, mas submetido a valores que lhe eram estranhos. Tal conflito, como fio condutor das obras homônimas (o filme e o romance), assemelha-se, sob certos aspectos, ao atual conflito bioético. Por isso é que o enigma de Kaspar Hauser, jovem que acabou sendo irremediavelmente marcado pelo estigma social, nunca terá uma resposta convencional.

1. APARIÇÃO NA SOCIEDADENa manhã de domingo de Pentecostes, em 1828, surge na praça central de Nüremberg uma figura estranha, de olhar espantado, que mal conseguia permanecer em pé. Era um rapaz pálido, vestido com trajes de camponês e que trazia na mão um carta. Até então esse jovem, recém-saído de um calabouço, ignorava as palavras, o mundo exterior e a existência dos homens. Chamava-se ele Kaspar Hauser e, naquele momento – pela primeira vez em sua vida – aparecia perante a sociedade, olhando com espanto para as ruas, para as casas e para as pessoas. A missiva apócrifa endereçada ao capitão da cavalaria, de conteúdo dissimulado, em vão tentava explicar o seu mistério:

 

“Envio-lhe juntamente um rapaz, senhor capitão, que desejaria servir fielmente ao seu rei e tornar-se soldado. O rapaz, em 1815, foi posto em frente da minha porta. Tendo filhos, e sendo pobre, dificilmente eu poderia encaminhá-lo na vida. É uma criança abandonada, e jamais conseguiu encontrar a sua mãe. Ele nunca saiu da minha casa, razão por que desconhece o nome e o lugar onde ela está situada, não existindo uma só pessoa que o conheça. Dou-lhe permissão para interrogá-lo mas, não estando muito avançado quanto a palavra, nada poderá dizer. Tivesse pais, e poderia haver se tornado alguém útil: ele, porém, não os tem. Mostrando-lhe algum objeto, imediatamente saberá distinguir o que é. Foi em plena noite que eu conduzi, e o conduzi sem dinheiro. Caso o senhor não o queira, restará apenas espancá-lo e suspendê-lo na chaminé.”1.

Decerto que essa carta ocultava a verdade sobre Kaspar Hauser. Basta dizer que o jovem foi mantido cativo durante anos a fio, sem contato algum com pessoas ou com a natureza, privado da luz do sol e recebendo como alimentação apenas pão e água. Seu algoz provavalmente o dopava à noite para poder limpá-lo e trocar sua roupa. No porão não havia janelas e nem adentravam ruídos externos, de modo que o rapaz desenvolveu maior acuidade visual para conseguir enxergar no escuro e, concomitantemente, acentuada capacidade auditiva, o que lhe permitia escutar o que as pessoas em condições normais não ouvem. A única atividade lúdica de Kaspar Hauser, segundo os relatos históricos, era um brinquedo, mais especificamente um cavalo de madeira que se movimentava sobre rodinhas. Proposital ou não, a frase decorada por ele em seu último período no cativeiro – época em que também aprendeu a rabiscar o próprio nome – correspondia a um pretenso desejo incompreendido, ligando a figura paterna ao citado animal: “Cavaleiro quero, como pai era”.

Foi esta frase, aliás, exaustivamente repetida por Kaspar Hauser aos guardas que passaram a custodiá-lo. Tido a princípio como insano, selvagem ou possível impostor, o fato é que ele ora nada dizia a seus inquisidores, ora não conseguia articular as palavras com lógica, apresentando comportamento insólito e por vezes infantil. O escrivão encarregado do processo fez os seguintes registros sobre o suspeito: “Ele se recusa a dizer seu nome (…), ele se recusa a responder (…), ele cuspiu a comida… (…) Devemos enquadrá-lo nas normas legais”. Diante disso Kaspar Hauser, misterioso pária social, acabou recolhido à prisão, na torre em que se encerravam ladrões, ébrios e mendigos.
Quanto ao temor diante do perigo, ele não reagia à ameaça de uma espada afiada em seu pescoço ou à aproximação de uma vela acesa sob seus dedos. Faltava-lhe o referencial da dor associado à ocorrência de uma agressão, por isso a sua indiferença. Segundo o escritor austríaco Jacob Wassermann, autor de “Kaspar Hauser ou a Indolência do Coração”, o jovem prisioneiro chorou durante oito dias e oito noites, sendo observado de modo furtivo por um carcereiro. Isso deixou evidenciado que o rapaz não agia como um farsante. Outro aspecto curioso de seu comportamento é que Kaspar Hauser demonstrava amor inato pelos animais, sobretudo pássaros, apesar de seu medo de galinhas.

Três hipóteses para seu mistério logo foram aventadas, conforme anota o professor Rafael Rafaelli no ensaio “Kaspar Hauser – A Inércia do Imaginário”: a) teoria da fraude (Kaspar Hauser seria um andarilho espertalhão em busca de fama); b) teoria do príncipe (que aponta Kaspar Hauser como neto de Napoleão, filho de Stéphanie Adrienne Napolleone de Beauharnais, que, por razões políticas, fora afastado da linhagem sucessória da dinastia Baden); c) teoria do acaso (sustenta que Kaspar Hauser pode ter sido fruto de uma gravidez indesejada ou de uma relação incestuosa, motivo pelo qual foi criado escondido). Vale dizer que um teste de DNA, realizado em 2002, encontrou similitude entre o código genético de Kaspar Hauser e o de uma descendente direta de Stephanie de Beauharnais, o que fortalece a versão de que ele seria mesmo o príncipe da casa de Baden. Esta conclusão, todavia, ainda não foi oficialmente aceita.

Independentemente de quem tenha sido Kaspar Hauser, o certo é que seu inusitado aparecimento em Nüremberg precipitou uma série de acontecimentos que culminaram em ameaças e atentados à vida de um jovem incapaz de compreender a inveja, a ganância e a maldade humanas. Sem vontade de assimilar todos os valores sociais que lhe impuseram, Kaspar Hauser sentia-se qual pássaro sem asas, perdido em meio à voracidade dos lobos. Por vezes ele, desgostoso com o mundo dos homens, confessava sua vontade em permanecer no buraco do qual saiu. Lá onde as coisas reais confundiam-se com as imaginárias, onde a ausência do espelho tirava-lhe a consciência de si e dos outros, onde o sonho ganhava asas.

2. A CONDIÇÃO-ANIMALO mistério de Kaspar Hauser, inicialmente equiparado aos intrigantes casos das crianças ferais ou dos meninos-lobos, repercutiu pela Europa. Somente o fato de alguém, quase em idade adulta, não conhecer nem as palavras nem os costumes humanos, já despertava a curiosidade pública. Também a possibilidade de esse rapaz ser um príncipe, cujo nascimento interferiria em determinada ordem sucessória da nobreza, aumentava ainda mais o interesse das pessoas. Por outro lado, a especulação de que o jovem montou uma farsa para tirar proveito da situação, era motivo mais do que suficiente para muita gente desejar conhecê-lo de perto.

 

Como bem ressalta Rafael Rafaelli, Kaspar Hauser foi também comparado à criança inocente de Rousseau, permitindo que se pudesse observar o papel da educação sobre a natureza primitiva:

“O debate centrava-se sobre a questão da influência da educação sobre a personalidade ou, em outras palavras, do meio ambiente sobre a hereditariedade.”2

Há que se lembrar que Kaspar Hauser não foi criado com outros animais, mas isolado de tudo e de todos, de modo que seu caso nada tem a ver com o das crianças encontradas na mata, que viviam como bichos. A condição-animal em Kaspar Hauser é diferente, apesar de ele ter sido criado em cativeiro e de ser tratado como um animal selvagem. Tal fato, por si só, motivava o povo a vê-lo de perto:

O romance de Jacob Wasermann, aliás, traz passagens reveladoras do interesse das autoridades de Nüremberg na exposição pública do órfão:

“O guarda da prisão não ousava se opor à vinda das pessoas e o burgomestre, afinal, havia dado ordem para que deixasse o prisioneiro ser visto pelo maior número de visitantes possível. Sentia, freqüentemente, piedade da pobre criança desarmada mas, por outro lado, orgulhava-se de vigiar um tal objeto de curiosidade e, graças a ele, a sua bolsa se enchia mais que se costume.”3

E prossegue o autor:

“Pela madrugada apareciam os primeiros visitantes; eram os que, devido à profissão, levantavam cedo: os varredores de rua, as criadas, os entregadores de pão, os operários que iam para o trabalho, as crianças que, no caminho da escola, se sentiam seduzidas por um pequeno descanso e subiam à prisão (…). A multidão se tornava mais selecionada à medida que o dia avançava. Famílias inteiram compareciam (…) para olhar o fenômeno (…).”4

As comparações de Kaspar Hauser a um animal aprisionado, ilustradas com ações sádicas dos visitantes, eram também freqüentes:

“Alguns o consideravam como um cão que ainda não aprendeu a se comportar. Colocavam comidas em frente do prisioneiro para exercitar seu apetite (…). A criança, porém, doce e silenciosa, nada fazia do que se esperava. As pessoas, então, se encolerizavam, julgavam-se logradas e gritavam mil brutalidades (…). Um dia dois jovens ourives trouxeram aguardente e o quiseram obrigar a beber à força. Enquanto um o segurasse, o outro lhe introduziria nos lábios o copo cheio – mas o plano não pode ser executado porque o simples odor de álcool bastou para que Kaspar desmaiasse nos braços dos carrascos”.5

Cabe aqui dizer que em meados do século XIX, em solo europeu e norte-americano, circos itinerantes exibiam seres humanos fisicamente anormais, usando-os como forma de atrair o público: homens com três pernas, com duas cabeças, mulheres barbadas, outras acometidas de elefantíase, anões, gigantes, são apenas alguns exemplos de pessoas estigmatizadas que se submeteram à curiosidade popular pela necessidade de obter, por menor que fosse, algum rendimento econômico. Nessa época estava em voga a teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1882), afirmando que as espécies surgiam e desapareciam seguindo o processo de seleção natural. No final do século, ainda sob a influência da polêmica darwinista, aumentava o curiosidade popular sobre fatos dessa natureza. Nos EUA tiveram bastante sucesso os chamados “Museus da Moeda”, que recorriam a anúncios sensacionalistas para atrair o público.

Conforme se depreende do livro “Freaks, aberrações humanas – A exploração de fenômenos físicos humanos em circos e espetáculos itinerantes”, elaborado a partir do acervo fotográfico de Akimitsu Naruyama, foram exibidos publicamente homens com obesidade mórbida, outros com raquitismo crônico, irmãs siamesas etc. No Barnum & Bailey-s Circus apresentava-se Myrtle Corbim, a mulher com quatro pernas que tinha dois corpos distintos a partir da cintura para baixo; Fanny Mills, mulher com pés gigantes; também Francisco Lentini, siciliano que nasceu com três pernas e dois conjuntos de genitais. Já o mexicano Pasquel Penon, que possuia duas cabeças, passou a atuar no Sells Circus a partir de1862.

Embora todas essas pessoas tenham consentido com as apresentações, certamente o fizeram porque, estigmatizadas pela sociedade e pelo próprio Estado, a elas não restava outra opção de sobrevivência que não à custa da própria humilhação. A questão ética subjacente, relacionada à dignidade da pessoa humana, não era sequer considerada pelos espectadores, os quais lotavam esses recintos sob a justificativa de atender a pretenso interesse científico ou cultural.

Não se pode deixar de dizer que, apesar de toda a tristeza que lhe impuseram, Kaspar Hauser sempre manteve uma postura pacífica, piedosa e, sobretudo, ingênua. Em uma das imagens mais belas do filme de Werner Werzog, na moldura poética de um barco singrando as águas e sob o aceno invisível que emerge na pungência melódica do Adágio, de Albinoni, Kaspar Hauser escreve:

“Há alguns dias semeei meu nome com pés de agrião. Eles pegaram bem. E isto me deu tamanha alegria que mal posso expressar. Mas ontem, ao voltar do passeio, notei que alguém entrou no jardim e espezinhou meu nome. Chorei por muito tempo e então resolvi semear de novo”6.

Esta cena simboliza, pela voz de um homem bom, o renascer da esperança.

3. APRENDIZADO DO MUNDOTambém não há como deixar de comparar a situação vivenciada por Kaspar Hauser, confinado desde cedo no calabouço que se tornou seu pequeno mundo, com o Mito da Caverna, de Platão. Nesta clássica alegoria, inserida no diálogo “A República”, o filósofo grego apresenta simbolicamente sua visão da condição humana e do próprio conhecimento das coisas. Os prisioneiros da caverna, que conhecem apenas vozes e espectros, vêem tais fenômenos como a fiel expressão de uma realidade. Se um deles saísse para a luz, ficaria momentaneamente cego, desnorteado e incrédulo, para aos poucos entender o que se passa à sua volta. E ao retornar para a escuridão, também sua experiência pessoal externa seria incompreensível a seus companheiros que vivem entre ecos e sombras. Tal imagem demonstra que a experiência humana direta não é a da realidade, mas do que está na nossa mente.

 

A filosofia de Platão, fundamentada em um dualismo, admite a existência do mundo das idéias imutáveis (eternas) e o mundo das aparências sensíveis (mutáveis). Para ele, o mundo das idéias é o único mundo verdadeiro, enquanto que a realidade do mundo sensível constitui mera ilusão. As sombras projetadas na parede da caverna representam nossa experiência sensorial, o mundo das aparências e do vir-a-ser. Os objetos verdadeiros, situados no exterior da caverna e iluminados pelo sol, simbolizam o mundo das verdades externas. Quanto ao prisioneiro, libertado da caverna e trazido para a luz, ele representa a dialética ascendente. Tanto que, ao retornar ao buraco escuro, seus companheiros o consideram cego.

Até que ponto, então, é possível conhecer a realidade exterior por meio do universo dos signos lingüísticos, ou seja, qual o alcance da linguagem em face do pensamento cognitivo? Faz-se tal pergunta porque, apesar das explicações lógicas dadas a Kaspar Hauser sobre fenômenos diversos, o rapaz permanecia refratário às fórmulas racionalistas que lhe impingiam a sociedade. O próprio processo educacional e de socialização do indivíduo está ungido à valoração dos signos, que nos dá uma ilusão da realidade. Segundo o escritor Izidoro Blikstein, autor de “Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade”, por não dispor de estereótipos perceptuais, Kaspar Hauser recebeu, da sociedade de Nüremberg, a linguagem como referencial cognifivo. Assim, sem passar pela práxis social, Kaspar Hauser inicia seu conhecimento do mundo pela língua. Daí a conclusão de Blikstein no sentido de que, agindo sobre a práxis, a linguagem modela o fabrica a realidade7.

Ao sair do calabouço Kaspar Hauser descobriu que havia uma realidade autônoma por trás das impressões sensoriais: paisagens, vozes, movimentos, dimensões, pespectivas, distâncias, cognições, linguagem. Conheceu a natureza, as árvores, o vento, as montanhas, os rios, os pássaros. Sua visão do mundo ganhou impulso durante a convivência na casa de seu primeiro tutor, o professor Georg Friedrich Daumer (1800-1875), que lhe acolheu após o período de custódia na torre. Em sua companhia Kaspar Hauser aprendeu a falar, a sentar-se à mesa, a comer, a banhar-se, depois a ler, a argumentar, a escrever etc. Escolhido em razão de seus méritos para educar o célebre enjeitado, o professor Daumer estudara com Shelling e Hegel, cujos filhos também assumira a tutela. A família Daumer passou o nutrir especial afeto pelo jovem, descrito no romance de Jacob Wassermann como possuidor de dons desconhecidos (obra citada, p. 61), um pequeno animal que nunca se aborrece (p. 78) e que representa a própria imagem da inocência (p. 140).

Kaspar Hauser tinha natural afeição pelos animais, conforme se depreende de outra imagem literária extraída do livro de Wassermann:

“Kaspar estava sentado no jardim, em um banco, com um livro na mão, as andorinhas voando em torno, os pombos bicando aos seus pés, uma borboleta pousada no seu ombro e o gato da casa ronronava nos seus braços”.8

E mais adiante:

“O seu caráter, sempre tão calmo, lembra o lago na paz da noite. É incapaz de ofender a quem quer que seja, ou de maltratar um animal, e sente piedade da minhoca que receia esmagar com os pés”.9

No filme de Herzog há cenas que o mostram alimentando pássaros, um deles pousado na janela do cárcere de Nüremberg. Como metáfora de sua própria dor, o prisioneiro atribui a si a condição de “pássaro sem asas”.

Em que pese seu rápido aprendizado a partir da assimilação dos signos lingüisticos e da observação dos costumes humanos, Kaspar Hauser demonstrava perplexidade diante do mundo ao redor, haja vista que sua perpepção carecia da prática social. Blikstein, em seu citado ensaio, conclui no sentido de que:

“A práxis opera em nosso sistema perceptual, ensinando-os a ‘ver’ o mundo com os ‘óculos sociais’ ou estereótipos”, de modo que “quanto mais avançamos no processo da socialização, mais os códigos verbais se apropriam de nosso sistema perceptual”. 10
Já para a professora Maria Clara Lopes Saboya, conhecer o mundo pela linguagem, por signos lingüísticos, parece não ser suficiente para Kaspar Hauser. De fato,
“Como ele poderia compreender o significado das palavras e que elas representam coisas, se não passou por um processo de aprendizado e socialização nevessários para que compreendesse a representatividade dos signos?”11.

É que Kaspar Hauser não vivenciara o processo educacional que estimula na criança o processo de abstração, de modo que sua visão não-convencional da realidade o tornava diferente dos outros:

“Ele próprio se via como um estranho, deslocado, frágil e impotente diante de uma realidade que não conseguia compreender, pelo menos não na forma como esperavam que ele compreendesse”. 12

O aprendizado do mundo por Kaspar Hauser tornou-se um processo difícil e doloroso a ele. Longe dos estereótipos culturais que moldam percepção e conhecimento, sobretudo a linguagem, em sua ótica a significação dos objetos assume um conceito diverso daquele previamente definido pela práxis. Sem essa prática social, o referencial cultural de interpretação da realidade por Kaspar Hauser conflita com o que a sociedade esperava dele. A passagem da natureza para a cultura é o que transforma o homem em um “animal de costumes”, revelando – pelo exemplo de Kaspar Hauser – o equívoco de uma organização social que se funda nos princípios do racionalismo positivista.

Conclui-se, portanto, que ao ser inserido na sociedade Kaspar Hauser – até então desprovido da práxis e dos estereótipos – encontra na linguagem a ele imposta o seu principal instrumento cognitivo, utilizando-a, todavia, para questionar verdades preconcebidas. Por isso é que, segundo a irretocável conclusão de Blikstein, passou Kaspar Hauser a representar um incômodo social:

“Ao usar a linguagem para desafiar a percepção/cognição que lhe inculca, ele acaba por patentear como a realidade tão bem ordenada e natural é apenas um produto da práxis da comunidade de Nüremberg (…). E é sobretudo por essa práxis libertadora (…) que ele deve morrer”.13

E assim se fez.

4. A ESTERILIDADE DA RAZÃO

O Racionalismo, conjunto de doutrinas filosóficas que vincula o conhecimento autêntico e verdadeiro à razão, acredita em idéias inatas no homem. Com Hegel (1770-1831), autor de “Filosofia do Espírito”, o racionalismo idealista alcançou seu apogeu, ao difundir a concepção de que “uma coisa é tanto mais real quanto menos individual e mais universal”. O indivíduo, em contrapartida, nada representa, funcionando o Estado como um elo entre Deus e o ser humano. Enquanto que para Kant (1724-1804) “O homem é sempre um fim em si mesmo”, para Hegel o mais importante é o Estado, tornando-se o homem apenas um meio. Sob o fundamento filosófico hegeliano, as guerras são naturais e necessárias, justificadas para fortalecer o Estado.

Para o filósofo empirista Thomas Hobbes (1588-1679), na base de todos os valores humanos está o instinto de conservação, isto é, o esforço dos seres em unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes ameaça. Daí o justificável uso da força, haja vista que o homem em estado natural representa um permanente risco à ordem social. “Homo homini lupus” (o homem é o lobo do homem) e “Bellum omnium contra omnes” (guerra de todos contra todos) são duas frases célebres de Hobbes, utilizadas para demonstrar que o estado natural significa insegurança e angústia.

Neste sentido, o medo faz com que os homens fundem o estado social e confiram sua representatividade à autoridade política. A paz somente será alcançada na medida em que cada um abdicar de seus direitos naturais em favor de um soberano que, em nome do direito coletivo, passa a exercer um poder absoluto. Eis aqui a origem do totalitarismo representado no “Leviatã”, texto em que Hobbes expõe suas concepções políticas e sociais a partir de posições idealistas, desenvolvendo a teoria do contrato social.
Já para o filósofo inglês John Locke (1632-1704) que a mente humana, antes de se formatar, equipara-se a uma tabula rasa, porque o conhecimento prescinde da experiência adquirida das coisas reais. A sensação, segundo ele, faz o homem conhecer os objetos exteriores, o que se realiza pela atividade mental. Em seu “Tratado do Governo Civil”, Locke afirma que as regras da justiça e da moral não são inatas, apesar de o homem possuir direitos naturais imprescritíveis (liberdade, propriedade e legítima defesa) não advindos da sociedade.

O estado de natureza, tema que ensejou as interessantes reflexões de Locke, foi aprofundado por Rousseau no “Discurso sobre as Ciências e as Artes”, cuja conclusão é intrigante: aquele que vive em tal condição, sem governo, sem tecnologia e sem laços sociais, pode ser considerado como um indivíduo liberto de vícios, preservado e puro. Sucede, porém, que a natureza humana é bem mais complexa do que se pode imaginar, o que dificulta a compreensão do problema.

A teoria rousseauniana da bondade natural ganha maior amplitude se contraposta ao pensamento de Hobbes, para o qual o homem, por não possuir qualquer idéia do bem, é naturalmente pernicioso. Opondo-se frontalmente às idéias hobbesianas, Rousseau propõe a fuga do brutal artificialismo da civilização para encontrar, na natureza, o sentido da existência.

Retornando, então, à temática do romance e do filme sobre Kaspar Hauser, pergunta-se: teria o jovem prisioneiro, enquanto privado de qualquer contato social, noção do bem e do mal?; poderia ele, sem autoconsciência, desenvolver sentimentos morais se desconhecia a própria moralidade?; sua mente, quando aprisionado o corpo, poderia fazer juízos de valor sem conhecer a realidade externa? O mais surpreendente nisso tudo é que Kaspar Hauser, conforme relatam seus biógrafos, não sentia raiva pelo fato de estar na escuridão, mesmo porque ignorava a luz. Sua neutralidade diante da vida, do tempo e da própria condição justificavam-se em face das circunstâncias impostas pelo cárcere.

Apesar de todas as conjecturas a seu respeito, é certo que Kaspar Hauser manteve-se, durante e depois do período de reclusão, um indivíduo pacífico. Homem de boa índole, ele admitiu por vezes preferir a solid

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