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“Estamos trilhando um caminho sem volta porque se trata de uma evolução da humanidade: tratar os animais como seres de direito”

Arquivo Pessoal

Após se unir a uma série de médicos para se posicionar contra o embarque de 25 mil bois do Porto de Santos, no litoral de São Paulo, até a Turquia, a mastologista Karla Santone decidiu criar o grupo Médicos Vegetarianos. A profissional paulistana tornou-se vegana por compaixão aos animais não humanos e percebeu que a conscientização realizada por médicos pode ser um passo fundamental para educar as pessoas. Composto por quase 60 profissionais e com mais de 15,6 mil seguidores no Instagram e de 2700 seguidores no Facebook, o Médicos Vegetarianos pretende mostrar os benefícios do veganismo para os animais, para a saúde humana e para o planeta. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, Karla explica mais sobre o grupo e os problemas gerados pelo consumo de produtos de origem animal.

ANDA: Como você se interessou pela causa animal?

Karla Santone –  Eu comecei a me interessar pelo vegetarianismo pela minha própria saúde. Isso foi em novembro de 2014. Parei de comer carne vermelha e de aves de um dia para o outro, mas, foi apenas um ano depois, assistindo ao vídeo “A verdade sobre o leite” no Facebook que eu decidi não mais fazer parte de nenhum tipo de exploração animal e me tornei vegana.  Muita coisa ocorreu a partir desse momento e passei a estudar o assunto, eu me interessei em fazer uma pós-graduação em nutrologia e acumulei muitos conhecimentos nessa área que eu jamais faria ideia. Com certeza, o que me atraiu para a causa animal foi a compaixão.

ANDA: Como o grupo surgiu e quais são seus objetivos?

Karla Santone – O grupo surgiu de uma conversa minha com a Graciane Pessini, (radiologista).  Nós estávamos em um grupo no WhatsApp conversando com outros médicos na época em que os bois estavam sendo embarcados no Navio Nada no Porto de Santos. Eu e a Graciane resolvemos que iríamos participar mais ativamente das manifestações contra essa crueldade então fizemos um grupo de WhatsApp e convidamos outros médicos vegetarianos, por meio do nosso Instagram e Facebook, a participarem desse grupo com o objetivo de unirmos forças na causa animal.

O que aconteceu depois é que muitos médicos entraram em contato e nós acabamos crescendo muito enquanto grupo. O projeto inicial tomou outras formas e fizemos o perfil do Instagram e também a página do Facebook e começamos a nos apresentar e a preparar conteúdo pra informar a população sobre os benefícios da alimentação vegetariana. Hoje somos quase 60 médicos de todo o Brasil e das mais variadas áreas da medicina. O objetivo do grupo é lutar pela causa animal e pelos direitos animais informando sobre a não necessidade do consumo de carne e derivados, sobre os riscos que o consumo de animais representa para nossa saúde e também sobre os benefícios da alimentação vegetariana estrita e, principalmente, ajudar as pessoas a colocarem isso em prática facilitando a transição. Nós temos que reaprender a comer, queremos ensinar a população a se alimentar de forma correta, nutritiva, saudável e ética porque a ciência já comprovou que nós não precisamos consumir nada que venha dos animais.

ANDA: De que maneira os alimentos de origem animal podem ser prejudiciais para a saúde humana?

Karla Santone  – De muitas maneiras. Para começar, nós não fomos feitos para comer carne, toda a nossa fisiologia e nosso sistema digestivo se assemelham muito mais aos animais herbívoros do que aos animais carnívoros.  Quando o ser humano se alimenta de carne, ele está ingerindo os ácidos graxos saturados em excesso que irão aumentar o risco de desenvolver as doenças cardiovasculares e também diabetes e alguns tipos de câncer, entre outras doenças crônicas não transmissíveis. Durante o cozimento da carne, inclusive da carne branca, formam-se as aminas heterocíclicas que são compostos carcinogênicos que se formam quando a creatina muscular é aquecida em altas temperaturas. Esses compostos entram na patogênese de vários tipos de câncer incluindo câncer de intestino, de mama, de próstata.

Em relação aos outros produtos além das carnes, é importante as pessoas saberem que tudo aquilo que o animal recebe, seja por meio da alimentação, seja em forma de medicação, fica acumulado nos seus tecidos devido ao fenômeno de bioacumulação. Isso significa que todos os agrotóxicos da ração com que o animal foi alimentado, todos os medicamentos como os antibióticos usados na engorda dos animais, as vacinas e muitos outros, os chamados metabólitos exógenos, são transmitidos para as pessoas que consomem esses produtos. O consumo de agrotóxicos, por exemplo, é muito maior para as pessoas que se alimentam de animais do que entre os vegetarianos estritos. Isso sem citar a contaminação bacteriana e as doenças infecciosas, como o escândalo da salmonela no frango  e a questão da microbiota intestinal que vem ganhando espaço nos últimos anos.

ANDA: Considerando que ainda existem pessoas que acreditam que o consumo de produtos animais é necessário para a nossa saúde, como você avalia a importância de um grupo de médicos que desmistificam esse mito?

Karla Santone  – Eu acredito que o grupo de médicos possa passar credibilidade e confiança para a população a respeito do assunto vegetarianismo.  É importante que as pessoas saibam que existem médicos veganos, que existem médicos que não se alimentam de produtos derivados de animais e que são pessoas saudáveis, que praticam exercícios físicos, que trabalham, que tem produção intelectual, que tem filhos veganos e que elas podem ter como exemplo. A nossa iniciativa também visa à formação dos futuros médicos, pois o tema tem crescido muito entre os acadêmicos de medicina e eles agora terão em quem se espelhar para seguir firmes nesse propósito. É claro que nós esperamos veganizar os nossos colegas e também outros médicos mais experientes que, ainda hoje, são contrários ao vegetarianismo mas sabemos que essa é a parte mais difícil.

ANDA: Embora surjam cada vez mais evidências científicas sobre os problemas gerados por alimentos de origem anima, ainda existem profissionais contrários ao veganismo. Em sua opinião, por que isso acontece?

Karla Santone  – Por total falta de informação e resistência à mudança. Muitos desses profissionais, nutricionistas como nutrólogos, estudaram, ou tiveram professores que estudaram, em uma época em que a demanda por conhecimento e informação sobre dietas vegetarianas era bem menor, então muito pouco se sabia e se falava a respeito. Quase 60% dos médicos em inquérito internacional recente disseram que tiveram pouca ou nenhuma educação em nutrição durante a graduação médica. Nos últimos anos, com o surgimento da internet e das redes sociais, a divulgação da crueldade das condições em que os animais são tratados aumentou o interesse pela alimentação livre de produtos animais. Assim criou-se uma demanda muito maior por novos profissionais atualizados em vegetarianismo. Porém, ainda hoje, é preciso buscar essa atualização por conta própria, pois os cursos ainda estão longe de serem suficientes no assunto.

ANDA: Quais são as perspectivas do grupo? Como pretendem conscientizar as pessoas sobre os direitos animais?

Karla Santone  – Nós estamos em constante aperfeiçoamento na área de nutrição humana para podermos defender, com embasamento técnico e científico, que a alimentação livre de carnes e produtos derivados de animais não só é possível como também benéfica.  Por meio da ciência e da divulgação de uma proposta alimentar segura, saudável, sustentável e ética estamos trilhando um caminho sem volta porque se trata de uma evolução da humanidade: tratar os animais como seres de direito, que dividem o planeta conosco e estão aqui para os seus próprios propósitos e não para nos servir.  Ética, compaixão e consciência animal serão sempre temas recorrentes nas nossas redes sociais. Temos muitos planos ainda para por em prática, mas sempre lembrando daquilo que nos uniu: os animais.

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