Jonathan Balcombe
Entrevistas, Notícias

“A sociedade está começando a reconhecer que os peixes são indivíduos conscientes que merecem nosso respeito e preocupação moral”

Jonathan Balcombe
Arquivo Pessoal

Ele publicou mais de 50 artigos científicos sobre comportamento e proteção animal e escreveu diversos livros, incluindo “What A Fish Knows: The Inner Lives of Our Underwater Cousins” (O que um peixe sabe: as vidas íntimas de nossos primos subaquáticos). Nesta entrevista exclusiva a ANDA, Jonathan fala sobre o estudo da senciência animal e comenta a complexidade surpreendente dos peixes, que ainda são subestimados pelos seres humanos.

ANDA: Quando você decidiu dedicar-se ao estudo da senciência animal e quais são os principais desafios nesse campo de estudo?

Jonathan Balcombe – Sempre me importei com os animais, por isso a biologia era minha vocação. Desde a infância, eu olhava para os animais e me perguntava: “Como é ser você?” Eu não sabia o que era senciência até estudar biologia e etologia (comportamento animal) na universidade, mas eu estava pensando nisso durante todo esse período. O principal desafio em estudar a senciência animal é que as experiências são privadas – elas só podem ser experimentadas diretamente pelo indivíduo que as sente. Porém, conhecemos nossas próprias experiências e podemos utilizá-las como uma base para as experiências de outros animais, observando atentamente seu comportamento em diferentes situações ou medindo mudanças em seus corpos. Por exemplo, a frequência cardíaca, a respiração, a temperatura etc.

ANDA: Por que escolheu estudar especificamente peixes, que são animais tão mal compreendidos?

Jonathan Balcombe – O estudo dos peixes ocorreu posteriormente para mim. Estudei morcegos na pós-graduação e depois construí uma carreira de proteção animal. Sempre gostei de peixes, mas não comecei a focar minha atenção neles até 2012, quando tive a ideia de escrever um livro dedicado a eles.

ANDA: Ainda existem pessoas que não acreditam que os peixes sejam capazes de sentir emoções ou dor. Você vê uma evolução no reconhecimento da sensibilidade desses animais hoje?

Jonathan Balcombe – A sociedade está começando a reconhecer que os peixes são indivíduos conscientes que merecem nosso respeito e preocupação moral. A ciência tem desempenhado um papel importante aqui. Estudos cuidadosos não deixam nenhuma dúvida razoável de que os peixes não só sentem dor física e sofrimento emocional, mas também agem para aliviar a dor, como quando lhes oferecemos drogas para controlá-la. Cada peixe é um indivíduo único.

ANDA: Quais são os principais mitos disseminados a respeito dos peixes?

Jonathan Balcombe – Que eles são primitivos, incapazes de sentir dor, irracionais e movidos pelo instinto. Os peixes evoluíram muito mais do que os mamíferos, então eles tiveram mais tempo para desenvolver maneiras fantásticas de sobreviver e prosperar. Os peixes fazem coisas incríveis com suas mentes, incluindo ferramentas úteis, planejamento, reconhecimento individual (incluindo nossos rostos), comunicação por meio de gestos, aprendizado por observação, criação de soluções. Diferentes indivíduos têm suas próprias maneiras de se darem bem. Algumas sociedades de peixes são até maquiavélicas, com comportamento virtuoso e enganoso entre indivíduos e espécies.

ANDA: Você poderia nos dar alguns exemplos que mostram que os peixes são muito mais complexos do que as pessoas acreditam?

Jonathan Balcombe – Há tantos, veja quatro deles. Os  Toxotidae podem ser ensinado a esguichar água em alvos colocados acima da linha de água. Eles podem demonstrar preferências, como por um rosto humano familiar. As garoupas e as moreias procuram alimento de forma cooperativa em recifes. As garoupas recrutam enguias com um gesto da cabeça. Como uma equipe, elas capturam mais presas do que conseguiriam se caçassem sozinhas. Os pequenos baiacus do sexo masculino da costa japonesa passam dias construindo seus ninhos circulares de seis pés de largura na areia. Cada criação é única e bela. Se um mandala conseguir atrair uma companheira, ela colocará seus ovos no centro do ninho e o casal colocará areia e cascas quebradas sobre os ovos para protegê-los.

ANDA: Os tubarões ainda são vistos com terror pelos humanos. Gostaria que você comentasse essa relação, especialmente quando consideramos que inúmeros deles são mortos para o comércio de barbatanas.

Jonathan Balcombe – Os tubarões são terrivelmente incompreendidos. Essas belas criaturas passam a maior parte do tempo silenciosamente deslizando pelos seus habitats. É irônico que os humanos vejam largamente os tubarões como assassinos sedentos de sangue quando, para cada humano que morre depois de um tubarão confundi-lo com presas (aproximadamente 15 vítimas por ano), cerca de cinco milhões de tubarões são brutalmente mortos por humanos por suas barbatanas e / ou carne. Os tubarões estão se tornando procurados pelos amantes da natureza. Um tubarão morto e vendido por sua carne vale em torno de US$ 108, em comparação com um valor monetário estimado de US$ 1,9 milhão do ecoturismo se puder nadar livremente.

ANDA: Existem estudos que apontam que até 2050 teremos mais plásticos do que peixes nos oceanos.  Você acha que isso é reversível? Como conscientizar as pessoas sobre isso?

Jonathan Balcombe – Isso é um pensamento triste, mas podemos evitar um futuro sombrio mudando nossos hábitos agora. Todos nós podemos fazer muitas pequenas coisas que se somam quando outras pessoas as fazem também, como comprar menos plástico, reciclagem, pegar lixo plástico (encho um saco toda vez que visito as praias onde moro no Sul da Flórida) e falar “sem canudo, por favor” no restaurante.  O melhor que podemos fazer pelos peixes, de fato para todos os animais, é parar de comê-los. Nós matamos mais de um trilhão de peixes por ano, quase todos para serem consumidos diretamente por nós ou indiretamente (como alimento para outros animais que comemos). A ONU declara que as dietas à base de vegetais são vitais para um futuro sustentável.

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