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Como ficam os animais que vivem em estabelecimentos comerciais fechados?

Com grande parte de lojas e outros estabelecimentos não essenciais de portas fechadas, a vida dos animais que vivem nesses locais também se altera

Maurinho Jr ficou famoso por frequentar as dependências das Casas Bahia do Guarujá (SP). Ele continuará sendo cuidado dentro da loja com portas fechadas. Foto Facebook Maurinho Jr

Para o combate à pandemia da covid-19 novas regras precisam ser seguidas por grande parte dos estabelecimentos comerciais.  Ficam de portas abertas apenas serviços essenciais. Lojas que vendem móveis e eletrodomésticos não podem funcionar, como a Casas Bahia do Guarujá (litoral de SP), onde o gatinho Maurinho Jr ficou famoso por viver entre os sofás e outros artigos à venda.

Maurinho está na loja desde que nasceu já que sua mãe deu à luz no estacionamento. A convivência desde cedo com funcionários e clientes fez de Maurinho um gatinho muito sociável e ele, literalmente, tomou conta do espaço. Há quem vá até a loja só para visitá-lo e fazer uma selfie.

Ele podia ser visto na recepção, balcão, crediário, caixa, seção infantil e entre brinquedos. O sucesso foi tanto que ele ganhou uma página no facebook onde desfila todo seu charme e senso de humor, e também o Instagram https://www.instagram.com/maurinhojuniorcb/

Maurinho Jr na seção de brinquedos, uma de suas preferidas. Foto facebook Maurinho Jr

Agora Maurinho será mantido no mesmo estacionamento onde nasceu e onde, inclusive, também ficam seus irmãos. Para tranquilizar os fãs, ele escreveu em sua rede social:

“Titios e tias… A loja ficará fechada, mas continuaremos sendo cuidados diariamente pelo nosso papai humano, o Mauro Silva. Nossa mamãe humana já abasteceu nossos potes de ração e sachês com a ajuda do papai Mauro e de alguns dos meus titios e tias aqui da loja. Então, não faltará papá nos nossos pratinhos. Que nosso Papai do Céu nos proteja a todos. Amo vocês!”.

O estacionamento da loja tem casinhas para os gatos numa área de serviço protegida do sol e da chuva. Diariamente um dos funcionários irá ver Maurinho e os irmãos. Uma das principais cuidadoras de Maurinho já tem 13 gatos em casa e dois cachorros, e então, em comum acordo com os demais funcionários e com a ajuda deles, manterá a assistência no estacionamento da loja.

Maurinho Jr é só um dos animais que vivem dentro de lojas e que terão suas rotinas alteradas. Foto Facebook Maurinho Jr

Assim como Maurinho, muitos cães e gatos vivem em estabelecimentos comerciais que permanecerão fechados enquanto se tenta conter a covid-19. Espera-se que os proprietários e funcionários desses estabelecimentos sigam esse exemplo que mostra amor e respeito pelos animais apesar da situação que assusta a todos.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

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Aposentado salva uma colônia de gatos selvagens nos EUA

Ao saber que os gatos poderiam ter um triste destino sendo capturados pela prefeitura, o homem se empenhou em levar todos os animais para um abrigo

Joe Fonseca com os gatos que resgatou. Foto Tom Stockwell/OneGreenPlanet

Essa é uma história que muitos protetores no Brasil também vivem: cuidar de colônias de gatos com os próprios recursos e ainda sob constante ameaça daqueles que não suportam os felinos. Durante 20 anos Joe Fonseca alimentou uma colônia, que tinha em torno de 20 gatos, no estacionamento da empresa onde trabalhava, na Califórnia (EUA).

Quando se aposentou ficou aflito com a possibilidade dos gatos serem capturados pela prefeitura e induzidos à morte. Uma potencial ameaça veio, inclusive, do proprietário de um complexo de prédios perto da colônia.

Então Joe investiu todo seu tempo na busca de um abrigo que não matasse animais em situação de rua – o que é comum acontecer em vários abrigos particulares dos EUA quando a lotação esgota. Nesses locais, os animais mais antigos são mortos para dar lugar aos que vão chegando. Depois de incansável busca Joe descobriu o abrigo “We Care” que além de não matar os animais, também mantinha um santuário onde gatos selvagens podiam viver em semiliberdade, numa área maior e sem confinamento.

Ele contou ao site One Green Planet que, em função do tempo que já conhecia os gatos, vários deles permitiam sua aproximação e então, lentamente, foi conseguindo capturar um por um.

Além de salvar todos os 20 felinos de um triste destino, Joe fez muito mais por eles e por outros animais do “We Care”. Ele arregaçou as mangas e se pôs a fazer várias melhorias na sede da entidade e até reconstruiu uma área dentro da instalação para gatos doentes, permitindo que pudessem ter acesso ao complexo externo e aproveitar o ar fresco.

Cheio de ideias e entusiasmo, Joe ainda passou a fabricar móveis para gatos utilizando gavetas antigas, caixas de vinho e malas. Junto com a esposa também criou pedras de jardim em cerâmica com imagens humorísticas de gatos. Os itens serviram para a captação de recursos da “We Care”.

Joe continua convivendo com os gatos resgatados dentro do abrigo e conta que ajudar a ONG foi uma forma de retribuir todo o apoio que recebeu para salvar seus amados e velhos amigos “de quatro patas”.

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Juiz aceita 23 gatos como autores de ação de indenização por maus-tratos

Os animais tiveram sua capacidade de estar em juízo pleiteando direitos próprios reconhecida, desde que representados pela guardiã deles

Gatos de colônia em terreno na Bahia. Foto Camila Dantas

Num caso raro, talvez inédito no Brasil, os gatos saíram do banco dos réus. Deixaram de ser os supostos “culpados” por transmitir toxoplasmose ou por acabarem com faunas silvestres para serem reconhecidos com autores de uma ação judicial que visa indenização por maus-tratos e que tramita na 5ª Vara Cível e Comercial de Salvador (BA): 23 gatos foram aceitos como autores do pedido.

Os advogados responsáveis pelo caso, Yuri Fernandes Lima e Ximene Peres, afirmam que “é uma inovação no mundo jurídico, abrindo caminho para uma verdadeira mudança de paradigma facilitando o acesso à justiça pelos animais não humanos”.

Segundo Fernandes, “o juiz Érico Rodrigues Vieira afirmou que os animais podem ser autores da ação se representados por seus guardiães. Ele reconheceu que os animais têm capacidade de estar em juízo, pleiteando direito próprio, desde que representados por seus tutores, como é o caso de seres humanos menores de idade ou mentalmente incapazes”.

Ação pede indenização para gatos que ficaram impedidos de receber alimento. Foto Camila Dantas

A ação se deve a um episódio ocorrido no final de 2019, mas que só recentemente começou a dar resultados. A protetora Camila Dantas, que cuidava de uma colônia com mais de 20 gatos, alojados em um terreno vazio há anos e pertencente a duas construtoras, foi surpreendida com a notícia de que seria levantado um empreendimento no local.

O início das obras estava previsto para janeiro deste ano e então Camila se reuniu com os diretores das empresas a fim de conseguir um destino adequado para os animais. A protetora tentou um acordo para que as empresas custeassem o encaminhamento e a manutenção dos gatos num sítio perto da colônia, no entanto, não houve concordância e Camila ainda foi impedida de alimentar os animais.

Dois filhotes de apenas dois meses e debilitados morreram na castração. Foto Camila Dantas

As obras começaram com a entrada de máquinas, caminhões e operários, o que resultou na morte de um filhote. “Então ajuizamos a ação pedindo algumas providências e também uma indenização por maus-tratos, mas os 23 gatos que restaram no terreno é que entraram como os requerentes da indenização que, se for acordada, será administrada pela Camila, que é a guardiã deles”, explica o advogado.

“Parte da ação já foi cumprida, pois, as construtoras retiraram os gatos do terreno e os colocaram num abrigo, conforme desejava a protetora, mas antes levaram numa clínica para serem castrados e então mais dois filhotes morreram porque tinham apenas dois meses, estavam debilitados e não podiam de forma alguma terem sido castrados”, comenta o advogado.

Agora deverá ser julgada a indenização: “É um valor devido ao fato das empresas não terem fornecido os cuidados básicos como comida e ainda terem impedido a Camila de alimentar os animais, e pelo óbito do filhote devido ao início das obras antes da remoção dos animais do terreno e dos demais animais por negligência”. O processo ainda está em andamento.

Mais de 20 gatos figuram como autores de ação que pede indenização por maus-tratos. Foto Camila Dantas

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Os gatos do Parque do Ibirapuera (SP) são referência em controle ético

O método de CED (Captura, Esterilização e Devolução ao local de origem) é uma tendência mundial para controle populacional de felinos em parques públicos ou privados

Lollo é um dos gatos monitorados pela ONG Bicho no Parque. Foto divulgação

O Parque do Ibirapuera em SP tem algumas colônias de gatos monitoradas pela ONG Bicho no Parque. Os belos gatos desfilam pelo gramado dando um charme extra a um dos mais importantes cartões postais da cidade.

“O projeto tem total apoio e participação da prefeitura em captura, esterilização, vacinação e devolução (CED) dos gatos. Para gatos ferais e ariscos, é a solução mundialmente utilizada. Pouquíssimas vezes são utilizados recursos próprios para as esterilizações em clínica parceira. A população do parque já está controlada há alguns anos, mas é necessário prestar muita atenção nos abandonos, que são muitos. Senão, a coisa foge do controle e começa tudo de novo”,

De fato, a recomendação da OMS é o método conhecido como CED – Captura, Esterilização/Vacinação e Devolução ao local de origem como praças, parques e outras áreas públicas ou privadas. Isso porque a remoção de uma colônia de gatos só tem um resultado, negativo tanto para os animais quanto para a população humana: a formação, muito rapidamente, de uma nova colônia não-castrada e nem vacinada – é o chamado “efeito vácuo” (a retirada dos felinos abre imediatamente espaço para que outros animais se apoderem do local tornando esse procedimento, além de antiético, também inútil para o controle populacional).

A charmosa Penélope, atendida pela ONG Bicho no Parque, arranca suspiros de admiradores. Foto divulgação.

Por isso, monitorar (e não remover) uma colônia de gatos é a melhor opção, principalmente, sob o ponto de vista de saúde pública, pois, gatos castrados, vacinados e saudáveis têm muito menos chance de ficarem doentes e, consequentemente, transmitirem doenças.

Além disso, os gatos são ótimos para evitar colônias de ratos, que oferecem um risco muito maior à saúde dos frequentadores dessas áreas públicas. Outros exemplos de CED bem-sucedidos são no Parque da Aclimação e no Parque da Independência, também em SP.

LEI em SP protege “Animais Comunitários”

Vale lembrar ainda que a Lei 12.916/2008 (a mesma que acabou com a “carrocinha” em SP) diz: “O animal reconhecido como comunitário será recolhido para fins de esterilização, registro e devolução à comunidade de origem, após identificação e assinatura de termo de compromisso de seu cuidador principal. Para efeitos desta lei considera-se cão comunitário aquele que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, embora não possua responsável único e definido”. Embora a lei use o termo “cão comunitário”, fala também em “animal comunitário” no qual os gatos de parque, por analogia, podem se encaixar se tiverem essa relação de dependência com humanos.

Xerife só quer um dengo. Foto divulgação.

Outra Lei (federal), a 9.605 de crimes ambientais, pune quem maltrata, fere ou mutila animais. Condutas como de envenenamento de gatos, além de ser crime previsto por essa lei, coloca em risco também toda a fauna local (inclusive pássaros que podem bicar o veneno), cães e crianças que tenham acidentalmente contato com vestígios de venenos como o chumbinho cuja venda e uso que são também proibidos por lei.

Palavra de especialista sobre fauna nativa

Uma preocupação de vários frequentadores de parques é a preservação dos pássaros. Ocorre que os gatos que vivem em parques não são selvagens. Alguns são arredios devido ao trauma do abandono ou de maus-tratos, mas a maior parte deles já teve um lar. São animais completamente dependentes do alimento ofertado pelas protetoras.

Quando se observa a diminuição de pássaros em um determinado parque, geralmente é por causa de outros fatores como explica a bióloga Francielli Vergino que, durante oito anos, participou do grupo que acompanha a colônia felina do Parque da Independência em SP.

“O maior problema não está nos gatos, mas na irresponsabilidade das pessoas que os abandonam e que retiram dos parques os alimentos dos pássaros. Além disso, gato alimentado não sai caçando. Os gatos do Parque Independência são bem alimentados com ração. Eles comem e dormem. É isso que eles fazem”.

Pirata vive tranquilo no Ibirapuera. Foto divulgação.

Ela aponta que os pássaros estão enfrentando escassez de comida e água: “Quando as poucas árvores frutíferas dão jacas e abacates no Parque Independência, por exemplo, os munícipes levam tudo embora. Os pássaros tendem a migrar para áreas onde o alimento é mais abundante. E não tem fonte de água no Parque Independência, por isso, é comum vermos os passarinhos se banhando nos potes de água dos gatos”.

A bióloga ressalta: “Nas florestas esses mesmos pássaros contam com um número muito maior de predadores como répteis e aves maiores como gaviões, falcões e corujas, mas nem por isso desaparecem. No Parque tem ainda os macaquinhos na lista de predadores. Devido a isso tudo, caso a população de pássaros esteja menor (o que nunca ficou provado), certamente não é culpa dos gatos!”.

Em outras palavras, o maior inimigo da fauna é o ser “desumano” que desmata, acaba com as árvores também nas cidades e polui. Portanto, cabe ao poder público combater o abandono de gatos e investir na castração em massa, ajudando assim os voluntários em sua árdua tarefa de controle da população felina urbana.

Como ficam os gatos com a privatização dos parques de SP?

Marina e Cacca são monitoradas pela ONG Bicho no Parque. Foto divulgação

A Construcap venceu a licitação para concessão de cinco parques que inclui o do Ibirapuera por um período de 35 anos. Em coletivas à imprensa a empresa se comprometeu com a conservação do parque em seus diversos aspectos. Além do Ibirapuera também estão contemplados os parques Jacintho Alberto, no bairro de Pirituba (zona norte), Eucaliptos, na Vila Sônia (zona oeste), Tenente Brigadeiro Faria Lima, na Vila Maria (zona norte), Lajeado, em Guaianazes (zona leste) e Jardim Felicidade, no bairro de mesmo nome (zona oeste).

Para várias voluntárias que se dedicam aos gatos de parques, a criação de gatil, representado por uma área construída, cercada ou reservada para os gatos (dependendo de cada projeto) pode ser uma maneira de conseguir mais respeito para os felinos por parte da população e funcionários dessas áreas públicas.

“Hoje os gatos estão nos parques de maneira clandestina. Se conseguirmos a construção de gatis dentro dos parques é uma maneira de estabelecer a permissão deles estarem ali, ou seja, se tem gatil tem autorização e passa a ser um direito adquirido de permanência naquele local. Além disso o gatil protege os gatos da chuva e do frio. As protetoras dos gatos do Pq da Mooca, por exemplo, são bastante favoráveis ao gatil”, comenta a voluntária Eliana Miranda.

Franjinha completa a bela paisagem no Pq do Ibirapuera. Foto divulgação

Já o pessoal do Bicho no Parque é contra a criação de gatis: “Gatos de colônias se forem confinados, serão totalmente infelizes. O Bicho no Parque é totalmente contra gatis em parques. Como acham que os 100 gatos do parque, que vivem em 30 colônias diferentes, vão se adaptar a ficar todos juntos num gatil? Falam também de adoção – completamente inviável porque muitos gatos não têm esse perfil.  E aconteceriam cada vez mais abandonos, uma vez que a população seria avisada sobre a existência do gatil”.

A ONG diz que já executa muito bem no Ibirapuera dois aspectos principais: esterilização e imunização. “Nossa proposta é monitorar gatos de vida livre, que assim nasceram e o são desde sempre. Não é possível confinar ou colocar para adoção gatos desse perfil. Eles vão morrer… entram em depressão, param de comer e se vão. Teria que ser um gatil imenso para abrigar com qualidade os 100 gatos que vivem no Ibirapuera, em mais de 30 colônias. Além disso, colocá-los todos juntos, geraria tamanho stress cujas consequências nem podemos imaginar”.

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

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Gatos do Parque da Aclimação (SP): castrar e cuidar é o melhor caminho

O controle da colônia felina do Parque segue as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, mas mesmo assim os gatos viraram foco de um conflito entre protetoras de animais e alguns frequentadores do local

Chaplin é um dos gatos castrados e bem-cuidados do Pq Aclimação. Foto: Arquivo Pessoal

Eles são bem alimentados em pontos específicos do Parque da Aclimação, estão castrados, vermifugados e têm até carteirinha de vacinação emitida pela DVZ – Divisão de Vigilância de Zoonoses de SP. O controle dos cerca de 70 gatos do Parque da Aclimação (SP), instalados no local há mais de 15 anos, está de acordo com as medidas recomendadas pela OMS – Organização Mundial de Saúde e aplicadas com sucesso em vários parques e pontos turísticos do mundo como Roma, Nova York e Lisboa. Em São Paulo, outros parques que servem de referência são o do Ibirapuera e o da Independência – cartões postais da cidade!

A recomendação da OMS é o método conhecido como CED – Captura, Esterilização/Vacinação e Devolução ao local de origem como praças, parques e outras áreas públicas ou privadas. Isso porque a remoção de uma colônia de gatos só tem um resultado, negativo tanto para os animais quanto para a população humana: a formação, muito rapidamente, de uma nova colônia não-castrada e nem vacinada – é o chamado “efeito vácuo” (a retirada dos felinos abre imediatamente espaço para que outros animais se apoderem do local tornando esse procedimento, além de antiético, também inútil para o controle populacional).

July provavelmente já teve um lar, mas hoje depende da solidariedade dos humanos. Foto: Arquivo pessoal

Por isso, monitorar (e não remover) uma colônia de gatos é a melhor opção, principalmente, sob o ponto de vista de saúde pública, pois, gatos castrados, vacinados e saudáveis têm muito menos chance de ficarem doentes e, consequentemente, transmitirem doenças. Além disso, os gatos são ótimos para evitar colônias de ratos, que oferecem um risco muito maior à saúde dos frequentadores dessas áreas públicas.

Onde falta informação, pode sobrar atitudes prejudiciais a todos

Apesar do esforço conjunto entre protetoras de animais, Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e administração do Parque da Aclimação para manter o bem-estar dos gatos, seu controle populacional e também preservar a saúde humana seguindo as orientações da OMS, um grupo de frequentadores do local insiste que os gatos sejam retirados.

Parte da queixa contra os gatos, segundo as protetoras, é de um grupo de mães e pais de crianças que frequentam os três parquinhos – um em funcionamento e dois fechados para reforma. Os pais alegam que é comum encontrar fezes de gato nesses parquinhos cujo chão é revestido de areia.

A Organização Mundial de Saúde recomenda castração e monitoramento de gatos de vida livre como uma forma de evitar doenças tanto para os animais quanto para os humanos. Foto: Arquivo pessoal

A preocupação desses pais para com os filhos é totalmente compreensível, mas é preciso levar em conta que alguns procedimentos drásticos, além de serem cruéis para com os animais, colocam em risco a saúde das próprias crianças (como dito acima), em função de novos gatos (sem vacina ou cuidados veterinários) que chegarão ao local (especialmente vítimas de abandono).

Contar com um grupo de voluntários que cuida desses animais com recursos próprios não é o problema, mas a solução para evitar a superpopulação de gatos não-monitorados.

Além disso, não há local mantido pela prefeitura com espaço para abrigar todos esses animais e as ONGs (todos sabem) estão lotadas, endividadas e fazendo milagres para manter cães e gatos resgatados das ruas.

A gatinha chamada Loira está entre os gatos do Pq Aclimação que têm até carteirinha de vacinação emitida pela DVZ de SP. Foto: Arquivo Pessoal

Parquinhos

Quanto aos parquinhos, em muitos lugares, são aplicadas uma dessas soluções: piso emborrachado ou de algum material próprio para a segurança das crianças, ou cerca no local onde estão os brinquedos e areia – nesse caso a cerca teria revestimento que permita a visibilidade, mas impeça a entrada de gatos ou outros animais, inclusive, com portinhola – essa medida é interessante também para evitar que as crianças saiam do parquinho numa distração dos pais e sejam vítimas, por exemplo, de sequestro.

LEI em SP protege “Animais Comunitários”

Vale lembrar ainda que a Lei 12.916/2008 (a mesma que acabou com a “carrocinha” em SP) diz: “O animal reconhecido como comunitário será recolhido para fins de esterilização, registro e devolução à comunidade de origem, após identificação e assinatura de termo de compromisso de seu cuidador principal. Para efeitos desta lei considera-se cão comunitário aquele que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, embora não possua responsável único e definido”. Embora a lei use o termo “cão comunitário”, fala também em “animal comunitário” no qual os gatos de parque, por analogia, podem se encaixar se tiverem essa relação de dependência com humanos.

Outra Lei (federal), a 9.605 de crimes ambientais, pune quem maltrata, fere ou mutila animais. Condutas como de envenenamento de gatos, além de ser crime previsto por essa lei, coloca em risco também toda a fauna local (inclusive pássaros que podem bicar o veneno), cães e crianças que tenham acidentalmente contato com vestígios de venenos como o chumbinho cuja venda e uso que são também proibidos por lei.

Palavra de especialista sobre fauna nativa

O Parque da Aclimação, inaugurado em 1939, abriga 85 espécies de animais, sendo 65 de aves. Por conta disso, uma preocupação de vários frequentadores é também a preservação dos pássaros. Ocorre que os gatos que vivem em parques não são selvagens. Alguns são arredios devido ao trauma do abandono ou de maus-tratos, mas a maior parte deles já teve um lar. São animais completamente dependentes do alimento ofertado pelas protetoras.

Quando se observa a diminuição de pássaros em um determinado parque, geralmente é por causa de outros fatores como explica a bióloga Francielli Vergino que, durante oito anos, participou do grupo que acompanha a colônia felina do Parque da Independência em SP.

Nessa foto é fácil notar o corte na orelha que indica que o gato foi castrado. Foto: Arquivo pessoal

“O maior problema não está nos gatos, mas na irresponsabilidade das pessoas que os abandonam e que retiram dos parques os alimentos dos pássaros. Além disso, gato alimentado não sai caçando. Os gatos do Parque Independência são bem alimentados com ração. Eles comem e dormem. É isso que eles fazem”.

Ela aponta que os pássaros estão enfrentando escassez de comida e água: “Quando as poucas árvores frutíferas dão jacas e abacates no Parque Independência, por exemplo, os munícipes levam tudo embora. Os pássaros tendem a migrar para áreas onde o alimento é mais abundante. E não tem fonte de água no Parque Independência, por isso, é comum vermos os passarinhos se banhando nos potes de água dos gatos”.

A bióloga ressalta: “Nas florestas esses mesmos pássaros contam com um número muito maior de predadores como répteis e aves maiores como gaviões, falcões e corujas, mas nem por isso desaparecem. No Parque tem ainda os macaquinhos na lista de predadores. Devido a isso tudo, caso a população de pássaros esteja menor (o que nunca ficou provado), certamente não é culpa dos gatos!”.

Gatos, inclusive de raça, são fruto de abandono no Pq Aclimação, por isso é preciso também um trabalho de vigilância e conscientização. Foto: Arquivo pessoal

Em outras palavras, o maior inimigo da fauna é o ser “desumano” que desmata, acaba com as árvores também nas cidades e polui. Portanto, cabe ao poder público combater o abandono de gatos e investir na castração em massa, ajudando assim os voluntários em sua árdua tarefa de controle da população felina urbana.

O exemplo da Itália

Num estudo realizado com 103 colônias de gatos em Roma (Itália), onde houve a castração e devolução ao local de origem de 8 mil felinos em 10 anos, constatou-se que em paralelo a esse trabalho, a população cresceu em torno de 21% por conta de novos abandonos. A fim de tornar as colônias mais estáveis, desde o ano 2.000, foram instaladas câmeras e criados programas de consciencialização nos principais pontos turísticos que os gatos escolheram para viver.

Gato que vive em ponto turístico da Itália exibe corte na orelha – mesma marcação usada no Brasil para identificar gatos castrados. Foto: divulgação

O governo italiano assimilou que, mesmo com esse residual de 21% de crescimento de gatos registrado ao longo dos anos, ainda é mais seguro, tanto para os animais quanto para a população humana, que os gatos sejam castrados pelos órgãos públicos e tratados pelos voluntários. Afinal, se o governo tivesse optado pela remoção contínua dos felinos, novas colônias iriam se formando, uma atrás da outra, sem tratamento veterinário e controle de natalidade.

A American Society for the Prevention of Cruelty to Animals/ASPCA (Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais), importante instituição internacional de proteção animal, considera esse procedimento como o mais ético, eficaz e economicamente viável para controle de gatos em áreas públicas.

Os gatos bem alimentados aprendem a conviver com a fauna nativa. Foto: Arquivo pessoal

Petição pede a permanência dos gatos no Parque da Aclimação

Uma petição na Change.org com mais de 7 mil assinaturas diz:

“Os gatos nunca incomodaram as pessoas nesses anos todos. Ao contrário, frequentadores assíduos, idosos e crianças, passam momentos de lazer, eliminando seu estresse ao acariciar os bichanos. Há uma troca de energia, confiança e sociabilização entre humanos e animais altamente benéfica à saúde física e mental. Além disso, as protetoras contam com apoio da DVZ para atuar no Parque e o fazem com dedicação e zelo. Os gatos não transmitem zoonoses por conta desse zelo. Já está provado que gatos bem cuidados e alimentados perdem seu instinto de caça, não representando risco à vida das aves, muito pelo contrário, prestam um enorme serviço de utilidade pública aos usuários, frequentadores e às crianças ao afastar a presença dos ratos”.

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Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, independentemente do valor, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

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