Vanguarda Abolicionista

Domínio, medo e milagres ou 'peixe-elétrico nadando em 8'

poraque

Então eu tinha tipo uns onze ou doze anos, e próximo à lancheria dos meus avós apareceu um ônibus-zoológico-museu, bem decadente e até assustador, diria. Pedi ao meu avô o dinheiro da entrada – pagava-se para entrar no tal ônibus e ficar circulando o tempo que quisesse – e comprei meu ingresso. Havia potes ou aquários com cobras, aranhas, insetos, uma onça empalhada e, minha maior recordação, um poraquê.

O tal peixe-elétrico ficava em tanque imundo – como tudo mais lá dentro, incluindo as pessoas que atendiam – que tinha exatamente seu comprimento, e um pouco mais que sua própria largura. Então, em uma água que parecia nunca ter sido trocada, cinzenta e com limo, ele ficava ‘nadando’. Aliás, nadando não seria o termo correto, pois ele seguia em uma rota eterna, fazendo um ‘8’ dentro do tanque, em loop infinito. Com um par de olhos assustadoramente arregalados, preso em um sádico Aquaplay.

Eu fiquei chocado e seduzido por tudo aquilo que estava em exposição dentro do ônibus, um túmulo de animais vivos ou mortos, com roleta na entrada. Pensava no poraquê nadando sem parar, seguindo em frente até ter uma parede em sua frente, fazendo a mesma manobra em 8 que seu corpo escorregadio permitia, e no segundo seguinte já ter a parede do outro lado para ser desviada, ad infinitum.

Nas duas horas que fiquei lá dentro, ele não saiu de seu trilho, no fiapo de ‘rio Amazonas’ contido em algo maior que um balde retangular. O insight de estar indo e voltando em uma cuba de água, pressionado por um horizonte de paredes em frente ao nariz, jamais saiu da minha cabeça. A cage madness, ou a tentativa de se manter são no confinamento, sempre me espancou a consciência com tacos de baseball.

Uma década depois, via diariamente no Centro de Porto Alegre um vendedor ambulante, daqueles com microfone, piadas de circo e uma plateia de desocupados ao seu redor, vendendo a ‘milagrosa pomada feita da gordura do peixe-elétrico-da-Amazônia’. Curava diabetes, reumatismo, dores musculares e qualquer doença em evidência no momento ou desconforto físico popular.

Preso em sua condição de freak show, o poraquê estava eleito como peixe-milagre, peixe-salvação, peixe-mito, desde o caboclo temeroso de seu poder de ataque, até aquele que aprendeu a dominar o fogo, digo, o peixe, e colocou-o como mais um ingrediente na máquina que produz objetos de consumo a partir de animais. Poderia haver gordura comprada em açougue naqueles potinhos, mas a visão de algo tão poderoso que precisava ser domesticado, controlado, dominado e embalado para os trouxas, persistia.

Como o tigre que está no zoológico, preso antes pelo próprio poder que se tornou cobiça humana, desafio em estar no controle, do que pelas grades e muros. Tanto é, que há países onde o tigre é traficado como especiaria culinária, cujo pênis devidamente preparado teria poderes afrodisíacos. Imagino alguém pensando, ‘só algo mágico vai fazer meu pau subir… manda vir um tigre, eu pago’, ‘só uma receita dos índios da Amazônia para me curar da ________, quanto é o vidrinho?’. O desconhecido segue sendo mistificado, ‘eu temo o que não conheço, mas nele deposito minha vida’.

E o animal não humano, diferente do diferente, vai ser confinado e passar a vida nadando em 8, para todas as crianças de onze anos poderem olhar por alguns minutos. Eu entrei naquele ônibus porque amava os animais, mas inadvertidamente paguei por mais uma diária para aquele peixe preso. O poraquê segue seu fluxo desesperado, fazendo loops em 8 na minha memória, desde então.

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Você é o Repórter

O erro do Planeta Bizarro do G1

Robson Fernando
robfbms@hotmail.com

O maior erro do Planeta Bizarro do G1 (portal de notícias da Globo.com) é postar notícias envolvendo crueldade contra animais e sofrimento animal. O portal deixa transparecer que trata a maldade humana contra bichos como um mote a atrair gente ávida por fatos inusitados, bizarros e curiosos da mesma forma que notícias inocentes como um recorde inusitado ou um sanduíche ultracalórico.

Animais que sobrevivem após serem feridos a bala, que se entalam em potes, copos, rodas etc., que são feridos ou mortos violentamente por humanos, que vivem em casas superlotadas, que são apreendidos em tráfico ilegal, que engolem objetos cortantes, que brigam em rinhas exóticas etc. são tratados como tema do Planeta Bizarro, numa demonstração por parte do G1 de que o infortúnio animal não é um tema sério, mas apenas atração de curiosos, quase à maneira de um freak show.

Às vezes, a notícia não tem nada a ver com o foco/tema do PB – bizarrice, inusitação e curiosidade – mas, só por envolver animais, mesmo sendo notícias policiais sérias, é postada, como o caso do rapaz preso por enrolar uma gata com fita adesiva.

É fato óbvio e inegável que essas notícias não merecem estar no Planeta Bizarro e que o G1 só faz queimar seu filme perante a ética e leitores conscientizados quando as publica nessa seção.

O que cabe à redação do PB/G1 fazer, para não correr o risco de ser considerado um site imoral por sua visão que debocha da dor animal, é criar uma seção exclusiva para animais. Nomeiem como “Bichos”, “Animais”, “Mundo Animal”, algo do tipo, e ponham só ali notícias envolvendo animais, fatos curiosos do mundo animal, animais em apuros e crueldade humana contra bichos.

O G1 deveria criar uma seção de notícias do mundo animal enquanto é tempo antes que seus leitores se deem conta de que o portal, por tratar o sofrimento animal e a maldade humana como algo curioso e inusitado tanto quanto um recorde esquisito ou um casamento superpoligâmico, está sendo insensível e, em última análise, sádico e comecem a rechaçar e até boicotar o site.

Texto original: http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/09/o-erro-do-planeta-bizarro-do-portal-g1.html 

*Esse texto vem sendo postado na comunidade do Planeta Bizarro/G1 no Orkut e convido você a ajudar a fazer pressão para o G1 criar uma seção exclusiva para animais entrando em contato com a redação do site ou opinando nos tópicos da comunidade do PB no Orkut.

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Notícias

Especismo transforma animais em ‘freaks’

Por Lobo Pasolini  (da Redação)

Um macaco-prego “faz sucesso” como cowboy no rodeio de Big Spring, no Texas. Whiplash, como ele é chamado, pastoreia ovelhas em cima de cães da raça Border Collie. Obviamente a ideia de se apresentar em público não partiu do macaco mas sim de um certo Tommy Lucia, que já criou perfil no Facebook e colocou vídeos no YouTube para popularizar sua atração.

O fato de que o macaco é forçado a participar de rodeios não surpreende já que esses são espetáculos de exploração animal. Rodeios são remanescentes do tempo dos gladiadores romanos, uma válvula de escape do barbarismo latente que sublinha a tensa cultura americana que infelizmente foi exportada para o mundo a fora.

O acréscimo de um macaco a essa equação de violência contra animais confere a esse teatro macabro um elemento de “freak show”. Como o macaco ‘parece’ com o humano, ele entra como o substituto contemporâneo do freak, um simulacro, o ser humano com uma característica radicalmente diferente, servido para um público ávido por diversão escapista e cruel, um objeto de chacota, uma oferenda sacrificial para um público primitivo e infantilizado.

Mas a verdade é que se nós conseguimos transformar a humilhação pública e involuntária do ser humano em algo moralmente repugnante, nós também podemos fazê-lo pelos não-humanos.

Com informações da Uai.com.br

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