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Quando a abolição da escravatura parecia quimérica

O texto a seguir constitui-se de trechos do livro “Bury the Chains – Prophets and Rebels in the Fight to Free an Empire’s Slaves”, de Adam Hochschild, publicado em 2005 pela Houghton Mifflin. Este livro conta a história da campanha pela abolição da escravatura na Grã-Bretanha nos séculos XVIII e XIX. Aconselho-o vivamente a todos os que lêem inglês e queiram entender como uma minoria de abolicionistas obteve o apoio da maioria da opinião pública _ a princípio indiferente, às vezes até hostil _ a este objetivo que, na época, parecia inteiramente quimérico aos seus contemporâneos.
Antoine Comiti

Em Londres, naquele início de 1787, se você dissesse numa esquina que a escravidão era moralmente condenável e que devia tornar-se ilegal, nove em cada dez pessoas morreriam de rir, achando que você estava maluco. A décima talvez concordasse em princípio, mas lhe garantiria que acabar com a escravidão seria totalmente impossível.

Aquele era um país onde a grande maioria do povo, dos camponeses aos bispos, aceitava a escravidão como totalmente normal. Também era um país onde o lucro das grandes fazendas do Caribe estimulava a economia, onde os impostos alfandegários sobre o açúcar cultivado pelos escravos eram uma fonte importante de renda do governo e onde o meio de vida de dezenas de milhares de marinheiros, mercadores e construtores de navios dependia do comércio de escravos. Este mesmo comércio atingira uma amplidão quase sem precedentes, levando prosperidade às cidades portuárias, entre as quais a própria Londres. Além disso, em cada vinte ingleses dezenove não tinham sequer o direito de votar. Privados deste direito mais básico, como poderiam ser levados a preocupar-se com o direito de outros povos, de cor de pele diferente, do outro lado do oceano?

Este mundo de servidão parecia ainda mais normal porque quem quer que olhasse para o passado não veria nada além de outros sistemas escravistas. Os gregos e romanos tinham escravos; os incas e astecas tinham escravos; os textos sagrados da maior parte das grandes religiões apresentavam a escravidão como coisa natural. A escravidão já existia antes do surgimento do dinheiro e da lei escrita. Era assim que o mundo – o nosso mundo – era há apenas dois séculos e, para a maioria do povo daquela época, era impensável que pudesse ser de outro modo.

Se insistíssemos, talvez alguns britânicos admitissem que esta instituição com certeza era desagradável – mas de onde viria o açúcar para o chá? Como os marinheiros da Marinha Real obteriam o seu rum? O comércio de escravos “não é um comércio agradável”, como diria um membro do Parlamento, “mas o comércio de um açougueiro também não é um comércio agradável, só que, apesar disso, uma costeleta de carneiro é uma coisa ótima.”

Claro que havia pessoas que preconizavam o fim da escravatura, mas eram raras e dispersas.

Com certeza havia no ar um sentimento de mal-estar latente. Mas sentir um problema vago, quase inconsciente, é uma coisa; coisa bem diferente é acreditar que algum dia possamos mudar esta situação de fato. O parlamentar Edmund Burke, por exemplo, opunha-se à escravidão mas achava que a simples idéia de dar fim ao comércio transatlântico de escravos (sem falar da escravidão propriamente dita) era “quimérica”. Apesar do mal-estar que os ingleses do final do século XVIII pudessem sentir com o tema da escravidão, a idéia de acabar com ela parecia um sonho ridículo.

Quando os doze homens do comitê abolicionista se reuniram pela primeira vez em maio de 1787, os poucos que exigiam abertamente o fim da escravidão ou do comércio de escravos eram considerados meio doidos ou, no máximo, como idealistas incuráveis. A missão que empreenderam era tão monumental que parecia impossível a todo mundo.

Esses homens acreditavam não só que a escravidão era uma atrocidade como também que era uma coisa passível de solução. Achavam que, como os seres humanos têm capacidade de se preocupar com o sofrimento dos outros, o fato de expor a verdade à luz do dia incitaria o povo a agir.

Dali a alguns anos, a questão da escravatura chegara ao centro da vida política britânica. Havia um comitê pela abolição em todas as cidades e vilas importantes. Mais de 300.000 britânicos recusaram-se a comer açúcar produzido por escravos. As petições pela abolição inundaram o Parlamento com mais assinaturas do que nenhum outro tema jamais recebera.

Há alguma coisa misteriosa na questão da empatia humana e do que faz com que seja sentida em alguns casos e não em outros. O seu aparecimento súbito, naquele momento específico, pegou todo mundo de surpresa. Os escravos e os servos se rebelaram constantemente no decorrer da História, mas a campanha da Inglaterra foi uma coisa nunca vista: foi a primeira vez que um grande número de pessoas se mobilizou e manteve-se mobilizado durante vários anos em prol dos direitos de outros povos. Ainda mais espantoso: foi pelo direito de pessoas com outra cor de pele, num outro continente. Ninguém ficou mais surpreso com isso do que Stephen Fuller, representante em Londres dos fazendeiros da Jamaica, ele mesmo fazendeiro e personagem central do lobby pela escravidão. Enquanto dezenas de milhares de pessoas protestavam contra a escravidão assinando petições, Fuller espantou-se porque “não mencionavam nenhuma injustiça nem nenhum tipo de preconceito que afetava a elas mesmas”.

Os abolicionistas tiveram sucesso porque levantaram um desafio enfrentado por quem quer que se preocupe com a justiça social: tornar visível os laços entre o próximo e o distante. É comum não sabermos de onde vêm as coisas que utilizamos; ignoramos as condições de vida daqueles que as fabricam. A primeira tarefa dos abolicionistas foi levar aos britânicos a consciência do que estava por trás do açúcar que comiam, do tabaco que fumavam, do café que bebiam.

(Traduzido por Beatriz Medina)



Site: SVG Poa

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Vanguarda Abolicionista

Metamorfose ambulante é outra coisa, pessoal

Pois vejo como é comum se achar atualmente colunistas da Imprensa se dedicarem a criticar o vegetarianismo e as iniciativas pró-libertação animal. Aqueles autointitulados ‘formadores de opinião’ e especialistas em qualquer coisa utilizam o próprio espaço que lhes é reservado no jornal para minimizar, quando não debochar, de iniciativas e posturas que consideram erradas, exageradas, imaturas – aquela coisa do ‘eu sei como as coisas devem ser, crianças, não esperneiem’.

Aqui no RS, aproveitando a exposição de grandes veículos – enquanto podem, pois muitas então ‘estrelas’ perderam o brilho do Ibope ao mudarem de estação – há casos que começam a virar folclóricos. Um cronista dos mais indigestos, que sua empresa insiste em vender como um ‘conhecedor da alma feminina, um Chico Buarque mais novo’, habitualmente ataca as vegetarianas. Na cabeça dele, está o vegetarianismo crescendo como uma solução vital para mulheres de meia-idade, mal-resolvidas, sexualmente insatisfeitas e com bastante tempo livre a preencher.

Obviamente existe o contraponto feminino a esse jornalista, uma colunista-escritora reconhecida pela ‘sensibilidade de mulher e de mãe’, exemplo para todas as quarentonas prafrentex, ativas, chiques, compradoras de livros, profissionais liberais e tal. E esta também levantou críticas ao vegetarianismo – puxa, como é uma ameaça crescente… – e, no passado, já defendeu as touradas. Tudo com o glacê de quem toma ‘um café’ em bairros fru-fru, passa as férias na Europa e demais obrigações da nobreza.

Da velha guarda, tem um articulista que defende a caça, ataca a proibição das carroças e faz a elegia da pecuária, sempre arrotando seu extenso saber e formação acadêmica superior à dos demais mortais – especialmente dos que pensam diferente de si. E ainda tem um cronista que, conforme a fase da Lua, vai defender apaixonadamente algum animal específico, cobrar providências para o caso de violência contra outro animal, para depois martelar seu verbo, coluna após coluna, contra o fim das carroças na Capital.

É verdade, a liberdade de expressão é para as ideias com as quais não concordamos, já disse alguém. Mas o ponto que eu levanto se refere a um posicionamento fácil e ausente, para então decretar sua opinião nem um pouco precisa, embasada ou isenta. Ao contrário, tais pessoas apenas sentam em lugares pré-numerados e dizem o que acreditam ser o razoável para o cidadão médio.

Enquanto o vegetarianismo e a libertação animal forem palavras feias, estarão estes autores apenas tomando parte no coro de um suposto bom senso. Mudando-se os tempos e as mentalidades, tenho plena certeza de que revisariam suas opiniões. Fosse na época da escravatura, comeriam alpiste na mão dos escravagistas e mostrariam indignação contra qualquer tentativa de reforma. No momento em que a abolição já estevesse estabelecida, ou em vias de, não seriam incautos a ponto de perder o trem das novas ideias – contanto que as velhas estivessem em nocaute técnico, incapazes de se levantar durante a contagem do juiz.

Pois os argumentos que ora apresentam geralmente oscilam entre a desqualificação e a realidade romanceada, desconectada da própria vida assim que terminar o expediente. Similar a quem enche a boca para se mostrar horrorizado com os transgênicos, mas come frango tranquilo. Ou quem se choca com o mercado de carne de cachorro em países orientais, mas aqui segue comendo outros exemplares da fauna, com orgulho quase patriótico. Enfim. Como muitos, esses formadores de opinião sopram suas flautas na direção em que o vento torna fácil qualquer melodia.

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