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Como suas escolhas alimentares afetam o planeta

Por Dr. Greg Feinsinger (Tradução: Dudu Zen/Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais)

Com um planeta cada vez mais lotado e superaquecido, é importante que todos os cidadãos saibam como suas escolhas alimentares afetam este quadro. Especialistas em saúde pública sentem que muitas das questões médicas mais desafiadoras do século XXI estarão relacionadas a mudanças climáticas com o resultado do deslocamento de pessoas pelo mundo, e a migração de doenças para novos locais (malária em Glenwood em 2050?) Então é apropriado discutir o relkacionamento de escolhas alimentares à saúde no planeta com uma série de dicas de saúde como esta abaixo.

Muitas pessoas que se aderem a uma dieta vegana o fazem por questões de saúde, outras por conta do direitos dos animais (assista ao documentário “Comida S/A”, disponível no Netflix) ou por razões ligadas ao meio-ambiente.

Aqui estão os fatos que levam em consideração problemas no meio ambiente associados a uma dieta que tem como base produtos de origem animal, facilmente conferida via internet:

1) Criar animais para consumo produz 130 vezes mais excrementos do que todos os humanos no mundo. É óbvio que quando você passa por um curral de engorda há uma problemática tremenda relacionada à poluição. Não se trata apenas do mau cheiro, mas os excrementos animais lixiviam o solo e cursos de água adjacentes. E o esterco e a urina se decompõem em óxido nitroso, que é 300 vezes mais potente para o efeito estuda que o CO2.

2) O metano é produzido pelo arroto de vacas e outros ruminantes como parte do processo digestivo, e é 23 vezes mais potente que o CO2 para o efeito estufa.

3) A água é outra questão. Para produzir cerca de 1 kg. de carne, é necessário 18285,30 litros de água, 5128,2 litros de para 1kg de frango, 336,60 litros para um quilo de batata ou brócolis e 257,4 para tomates

4) A emissão de carbono para produzir um quilo de carne é muitas vezes maior que para produzir um quilo de qualquer tipo de vegetal. Diz-se que se todos nos Estados Unidos se tornasse vegano, a redução de CO2 seria equivalente à remoção de 46 milhões de carros de nossas estradas.

5) Estamos perdendom no mundo todo dia florestas como as tropicais para a produção de carne e de ração para on gado.

6) É necessária uma quantidade de terra enorme para produzir um quilo de carne, ao contrário de um quilo de qualquer vegetal.

Sabe-se que a atitude mais poderosa que uma pessoa pode tomar para parar as mudanças climáticas, além de deixar um planeta saudável para nossos filhos e netos, é deixar de comer produtos de origem animal. E não importa o que você coma, tente fazer compras em comércios locais sempre que possível, para diminuir a emissão de carbono associada com a entrega de comida.

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Planeta Animal

Comunicação para um mundo melhor

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância.”- Sócrates

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertara”- João 8:32

Quando Jesus disse essas palavras, com sua imensa sabedoria, já devia imaginar que a verdade não é a libertadora só dos homens, ela é a libertadora de todos os seres vivos, inclusive os animais.

O conhecimento da verdade esclarece e resgata da ignorância a alma estagnada em preconceitos. Traz novas informações para que o homem compreenda de forma mais completa e imparcial o mundo que o cerca. A “Verdade” traz fatos e conhecimentos para que ideias sejam revistas, conceitos sejam reformulados e ações mais conscientes sejam tomadas.

A “Luz da Verdade” ilumina os mais recônditos e escuros becos expondo os atos mais cruéis e vis que nossa humanidade tenta esconder. Assim através de corajosos investigadores e atentos observadores são expostas as entranhas sanguinolentas de nossa sociedade. Disso se beneficia todo o planeta, inclusive as plantas, os animais e o próprio homem.

Quanto mais são divulgadas as punições aos crimes, mais medo vai causando aos criminosos. Quanto mais políticos aparecem na mídia sobre investigação por corrupção, maior vai se tornando o medo dos demais “extraviadores do dinheiro publico” de serem presos. Quanto mais denúncias de maus-tratos a animais aparecem nos jornais, mais pessoas começam a pensar antes de cometê-los.

Esse é o poder da “Verdade” configurado na mídia séria e responsável. O poder de chamar a atenção para os erros da sociedade e induzi-la a uma reflexão na busca da correção. Através da demonstração do “pecado” e da “penitência” induzir à “oração” e “bom comportamento”. Hoje ninguém teme mais o inferno, mas todos temem a “execração pública” a punição, mesmo quando ela não vem com os meios mais comuns como multas ou reclusão, ela vem na forma da desaprovação geral e perda de credibilidade.

Quantos animais não são salvos através de denúncias, diretamente, ou pelo medo gerado a possíveis agressores, que ao verem a punição daqueles que compartilham seus sentimentos, escondem suas tendências vis na covardia que lhe é característica.
Mas não é só como “Paladino corretivo” que age a “Verdade”. Ela atua de forma preventiva, informando e esclarecendo as ações corretas a serem tomadas para se evitar problemas.

Indicando como se deve proceder na criação de um animal, se consegue evitar inúmeros problemas decorrentes ao manejo. Ensinando os sinais de saúde a serem observados, se evita a doença. Muitos animais são beneficiados com algumas palavras ditas com conhecimento e responsabilidade nos meios de comunicação e escutadas por atentos tutores.

Não falamos ainda da principal função da “Verdade”, sua ação esclarecedora. Hoje é possível se informar a respeito de qualquer assunto através da mídia, principalmente da internet. Basta que haja interesse e a poucos clicks se encontra a informação desejada, só cabe ao interlocutor fazer as perguntas certas para alcançar a saciedade de suas dúvidas. Com isso a “Verdade” ganha uma grande aliada, e os animais também. Através desse “oráculo” maravilhoso qualquer um pode saber de onde vem sua comida, suas roupas, seus cosméticos, medicamentos, etc.

Basta a pessoa ter o mínimo de preocupação e dispor de poucos minutos e ela pode saber como são criados os bois que viram hambúrguer de sua lanchonete preferida, ou como vivem as galinhas que botam os ovos que são utilizados em seu omelete, e, ainda, como são tratados os animais de laboratórios que são usados para que sejam testados os cosméticos que estão no comércio.
Tudo isso é possível. Só basta alguns segundos de interesse para que seja mudada a estagnação da ignorância para se tornar uma ação consciente. Mas para isso é preciso coragem, pois muitas vezes a “Verdade” não é tão linda quanto imaginamos, e nisso reside a mudança de ação.

Esconder-se na ignorância é fácil, achar que os cães de companhia são criados com amor por canis responsáveis e preocupados, não visando o lucro, mas apenas o bem estar da raça, ou que os bois vivem livres em um lindo pasto verde, as galinhas soltas em um quintal grande e ensolarado, que os porcos brincam na lama e que todos vivem felizes e estão contentes em contribuir com nossa “alegria”, é muito conveniente. Imaginar que animais de laboratórios não sentem dor ou medo, e que oferecem bravamente suas vidas para que tenhamos “maquiagens” mais seguras e que não causem alergias, é pura hipocrisia especicista.

Por isso a “Verdade” se torna monstruosa quando traz à tona aquilo que existe de pior em nós mesmos, a capacidade de explorarmos sem nenhum tipo de piedade e limite os mais fracos. Em nome da “Verdade”, em nome dos pobres animais explorados e desrespeitados, humildemente faço um pedido a todos: Saiam do conformismo da ignorância, da comodidade preconceituosa de nos acharmos a “Espécie Superior” dona do planeta Terra. Chega de imaginar que um hambúrguer se materializa ali, no pão, que o leite já nasce na caixinha como a água já vem dentro do coco, ou que as galinhas nos presenteiam com seus ovos em retribuição ao amor que seus criadores lhes dão.

Acordem! Procurem documentários, livros, vídeos, reportagens e se informem! Quanto mais informados vocês estiverem, mais conscientes serão suas atitudes. Se mesmo vendo como são criados os bois vocês quiserem continuar comendo “hambúrguer”, não importa, o que importa é que vocês saberão o que suas ações estão gerando, e qual a importância de suas escolhas. Percebendo o interesse de seus consumidores com a não exploração dos animais, as indústrias terão que se readaptar, eliminando qualquer produção que se baseie na violência e carnificina.

Ainda faço mais um pedido: Incentivem a divulgação de notícias e reportagens que abordem assuntos em relação aos animais. Enviem e-mails, telefonem para emissoras de tevê, jornais, rádios, etc. Peçam mais espaço aos animais na mídia e divulguem e comentem esses assuntos para que a informação possa atingir o maior número de pessoas e mais animais possam se beneficiar. Faça sua parte, ou como diria Confúcio: “Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão”.

Assim o conhecimento da “Verdade” leva a modificação de princípios, e esses a ações que trarão a alteração de nossa realidade. Esse é o poder da “Verdade” a de transformar o mundo libertando-o da ignorância.

“A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez” – Frase de George Orwell.

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Questionando o Óbvio

Por que a motivação para a adoção do veganismo é importante

Muitas pessoas, dentre as quais me incluo, reconhecem que as consequências sobre os atingidos por nossas decisões (sejam ações, sejam omissões) desempenham um papel fundamental sobre o erro/acerto moral de nossas escolhas. Não significa que, uma vez que aceitamos esse ponto, temos de pensar que as conseqüências sejam a única coisa que importa em nossas deliberações morais. Como já argumentei em colunas anteriores, outras exigências que não dependem de conseqüências (imparcialidade, tratar casos semelhantes de maneira semelhante, oferecer um argumento que tenha premissas verdadeiras e seja logicamente válido, etc.), e que compõem a forma do raciocínio moral, também devem desempenhar um papel fundamental nas nossas deliberações morais. Além disso, não há nada no conseqüencialismo (seja lá de que tipo for: utilitarista, igualitarista, prioritarista, etc1. ) que nos impeça de fazer avaliações sobre a motivação e o caráter dos agentes morais, pois, embora tais características existam independentes das conseqüências, elas possuem uma forte influência nestas, como veremos a seguir.

Pretendo responder à seguinte afirmação, que frequentemente aparece nos debates: “se as consequências são o mais importante, então não há diferença entre ser vegano por motivos éticos ou por qualquer outro motivo (saúde, impacto ambiental, religião, etc.), afinal de contas, os animais serão beneficiados igualmente”. Esse argumento é geralmente endereçado em resposta a ativistas que fazem críticas ao vegetarianismo ou veganismo motivado pela saúde, impacto ambiental, religião, etc2. O argumento pode ser resumido assim:

(1)    Se as consequências são o mais importante numa decisão ética, então duas decisões que possuem exatamente as mesmas conseqüências, mas motivadas por causas diversas, são igualmente boas, de um ponto de vista ético;

(2)    O veganismo praticado por motivos éticos (a saber, respeito pelos animais) e o veganismo praticado por qualquer outro motivo possuem exatamente as mesmas conseqüências;

(3)    Logo, qualquer tipo de veganismo, independentemente de motivação, é igualmente bom, de um ponto de vista ético.

Minhas objeções ao argumento se dirigem à premissa número 2. Pretendo mostrar que adotar o veganismo motivado eticamente possui, se levarmos em conta os desdobramentos das conseqüências, uma probabilidade muito maior de ter resultados melhores do que o veganismo motivado por qualquer outra coisa. Com isso, pretendo mostrar que a premissa 1 também possui problemas. Se motivações diferentes possuem probabilidades diferentes de fomentar futuras decisões melhores, ainda que as decisões sejam igualmente boas quanto às conseqüências imediatas, então podemos dizer que duas decisões motivadas por causas diferentes possuem diferentes valores morais (tudo dependerá da tendência que tais motivações desempenham quanto a fomentar melhores desdobramentos de conseqüências). A conclusão se mantém mesmo que tais decisões possuam exatamente as mesmas conseqüências imediatas, e mesmo que avaliemos as motivações somente na medida em que elas têm influência nas conseqüências.

Tenho seis objeções à premissa número 2. Vejamos cada uma delas:

1) Eficácia: Há probabilidade maior de alguém abandonar o veganismo se este for aderido por outros motivos que não a ética. Note que não estou com isso afirmando que o veganismo é algo bom em si, independentemente das conseqüências. Pelo contrário, quero dizer que o veganismo só tem sentido porque pode beneficiar os animais. O perigo de se abandonar o veganismo é devido justamente às conseqüências negativas desse abandono para os atingidos (e os animais não-humanos são os mais diretamente atingidos e os que se encontram na pior situação, de todos os atingidos).

Se alguém adota o veganismo unicamente motivado por preocupações com o impacto ambiental, e depois descobre que certo tipo de produção que envolve explorar animais é, ao mesmo tempo, um exemplo de sustentabilidade, pode abandonar o veganismo e voltar a explorar animais. A mesma coisa pode acontecer facilmente com alguém motivado unicamente pela saúde. Assim que descobrirem que certas comidas de origem animal não fazem tão mal assim, e que é possível ser onívoro e ser saudável, dependendo de como seja feita a dieta, podem voltar a explorar animais. Caso adotem o veganismo por motivos religiosos, podem abandonar o veganismo caso mudem de religião, ou caso alguma revelação sagrada lhes mostre que o veganismo não está de acordo com a religião que seguem. Se, por sua vez, alguém adota o veganismo porque pensa que a dieta vegana é mais natural, abandonará o veganismo se descobrir o contrário (com veremos adiante, esse é a pior motivação para alguém fundar suas escolhas, pois muitas das coisas mais nefastas possíveis são naturais). Por último, se alguém adota o veganismo por simpatia por algum animal, pode concordar em matar outros animais pelos quais não tem simpatia. Esse último ponto mostra que, embora agir eticamente também envolva compaixão, não se limita a essa, pois a compaixão pode ser particular por algum indivíduo, enquanto que uma posição ética minimamente plausível exige universalidade (tratar todos os indivíduos atingidos por nossa decisão com igual consideração, independentemente do sentimento que se tenha por eles).

Do contrário, se alguém adota o veganismo porque reconhece como um dever não explorar e não causar dano injustificável, tem muito maiores chances de nunca voltar a ser explorador de animais, independentemente do que dizem as notícias sobre impacto ambiental, saúde, natureza, religião ou de suas inclinações pessoais. Onde houver dano aos animais, o vegano motivado eticamente fará sua objeção. É claro, tal motivação também não está livre de cometer erros. Mesmo as pessoas com as melhores das intenções podem errar em seus julgamentos, ou pode acontecer de alguém desistir de se importar com ética (ainda que isso seja algo raro). Ainda assim, o que importa é que tal motivação tem as maiores probabilidades de causar os melhores resultados, ainda que não seja perfeita.

2) Ensinando a pensar de maneira irracional: Quando defendemos uma idéia, outras idéias mais básicas, que dão sustentação à idéia defendida, também são reforçadas, ainda que estejam ocultas no discurso. Uma idéia básica que está por trás de todas as outras motivações para o veganismo, que não a motivação ética, é a de que os interesses dos animais são menos importantes, ou ainda, não são nem um pouco importantes. Vejamos por que faço essa afirmação:

O número de animais utilizados na produção de alimentos é gigante. Em termos da quantidade total de sofrimento envolvido, do número de mortes, do número de indivíduos sofrendo, e da quantidade de sofrimento por indivíduo, poucas coisas podem ser comparadas (se é que alguma) aos horrores das granjas industriais. Se levarmos em conta todos esses fatores, o massacre de animais supera, de longe, os horrores do holocausto. Quando dizemos que o motivo pelo qual deveríamos deixar de participar de tal massacre é qualquer outro que não o dano enorme que sofrem tais vítimas, estamos, ao mesmo tempo, incentivando que as pessoas continuem irracionais em termos éticos. Não é racional (muito menos, correto moralmente) afirmar que interesses menores (não-básicos) devam receber mais peso do que interesses maiores (básicos), assim como não é racional argumentar que tais interesses menores deveriam ter mais peso simplesmente porque se tratam de interesses de humanos (como sabemos, isso é especismo, o que é eticamente indefensável). Quando afirmo que tais posições são irracionais, é devido a não existir nenhum argumento plausível que demonstre que interesses mais básicos devam ser sacrificados em prol de interesses triviais, muito menos um que demonstre que seres humanos possuem valor maior.

Quando alguém diz que o motivo (ou, o motivo mais óbvio) pelo qual deveríamos nos tornar veganos é devido a preocupações ecológicas, saúde, agir de acordo com o que é natural, religião ou simpatia, está, ao mesmo tempo, passando a mensagem de que os interesses dos animais não são tão importantes quanto essas outras coisas. Analisemos cada uma das motivações:

Apelo à simpatia: Quando se afirma que a motivação deve ser a simpatia que alguém nutre por algum animal, está se dizendo, ainda que inconscientemente, que a coisa importante a ser levada em conta é o sentimento de quem decide, ou ainda, que o sentimento de quem decide é mais importante do que as conseqüências sobre o atingido pela decisão. Mas, será que não há problema em torturar e matar alguém, só porque não sentimos simpatia por esse alguém? Não pensamos assim quando humanos estão envolvidos. O incentivo da motivação pela simpatia inverte as coisas: foca nos estados mentais dos agentes, quando deveria estar preocupada com as conseqüências sobre os atingidos pela decisão. O erro em causar-lhes dano é independente do que possamos sentir por eles.

Apelo à religião: Quando se apela à religião, se está ao mesmo tempo passando a idéia (ainda que de maneira oculta) que devemos basear nossas decisões éticas de acordo com o que autoridades afirmam (um deus, ou um livro que é considerado sagrado). Vimos em outra coluna3 que isso é uma falácia; a conhecida falácia do apelo à autoridade. A falácia envolve a idéia de que as coisas se tornam certas ou erradas de acordo com o que alguma autoridade moral afirma. Mas, isso é uma inversão: se alguém é uma autoridade moral, é porque faz o que é certo, e não, que as coisas se tornam certas porque estão de acordo com a vontade dessa autoridade. Uma vez reconhecida essa falácia, entendemos que a melhor coisa a fazer, se queremos tomar a decisão correta, é usarmos nossa capacidade de raciocínio ético4. Assim, quando alguém afirma que o motivo pelo qual devemos nos tornar veganos se deve a estar de acordo com alguma religião, comete o erro de pensar que as crenças religiosas deveriam guiar nossas escolhas no mundo público. E o dano que os animais sofrem é real e independente de nossas crenças religiosas. Pior ainda, tal prescrição incentiva que as pessoas deixem sua capacidade de raciocínio ético de lado e escolham que uma autoridade tome as decisões por elas.

Apelo à ecologia: Quando, por sua vez, se afirma que o motivo principal pelo qual deveríamos nos tornar veganos se deve a preocupações ecológicas, afirma-se, conjuntamente, ou que os interesses dos animais não contam, ou contam apenas instrumentalmente (apenas na medida em que isso favorece ao “equilíbrio” dos ecossistemas). Muitas pessoas vêem uma conexão nos movimentos anti-especista e ecológico, e defendem que tais movimentos deveriam andar de mãos dadas. Esse é um dos erros mais graves que alguém pode cometer. Os fundamentos desses dois movimentos são exatamente opostos: o movimento anti-especista é centrado no valor dos indivíduos (a vida e bem-estar de cada ser senciente devem ser respeitados porque possuem valor para os seres sencientes); o movimento ecológico é centrado na idéia de que os indivíduos não possuem valor – seu valor se resume a meros instrumentos para a manutenção de algumas entidades que são entendidas como possuindo valor (ecossistemas, espécies, comunidades bióticas, leis naturais, o planeta, etc.). Isso não significa que anti-especistas tem de ser necessariamente contra preservar o meio ambiente. A diferença é que tal preservação se dará na medida em que isso for benéfico para os seres sencientes que ali vivem. Ecologistas, pelo contrário, defenderão preservar o meio-ambiente tal como ele é naturalmente, mesmo quando isso significar a pior das opções possíveis para os seres sencientes que ali vivem. Isso é assim porque ecologistas vêem os animais como parte do ambiente (aquilo que circunda os indivíduos). Mas, eles não são parte do ambiente, eles são os indivíduos cujo ambiente circunda5.

Para ilustrar a diferença, vejamos o seguinte exemplo: O anti-especista defenderá a preservação do meio ambiente porque tal preservação pode ser (e apenas na medida em que for) benéfica para os seres sencientes ali inseridos. Para o anti-especista, a preservação do meio-ambiente é instrumental aos interesses dos indivíduos. Supondo que fosse possível construir um meio ambiente artificial no qual os seres sencientes que ali vivem sofrerão menos e serão mais felizes do que em um natural. O anti-especista defenderá, todas as outras coisas sendo iguais, esse meio ambiente artificial em detrimento do natural, porque está preocupado com o bem dos animais. O ecologista, pelo contrário, defenderá que o meio-ambiente natural tem valor em si, e deve ser preservado mesmo quando isso pior coisa possível para os seres sencientes que ali vivem, ou, mesmo que, para isso, tenha que matar ou fazer sofrer incontáveis seres sencientes. Para o ecologista, a preservação dos indivíduos é instrumental à manutenção do meio ambiente. Espero que tenha ficado clara a oposição entre as duas correntes: no anti-especismo, o meio ambiente tem valor instrumental para os indivíduos; na ecologia (principalmente na ecologia profunda6), os indivíduos tem valor instrumental para o meio ambiente.

Isso explica por que os ecologistas normalmente não acham errado comer carne (aliás, a caça é vista como louvável por boa parte do movimento ecológico). “Mas, os ecologistas defendem alguns animais, não defendem?”. Alguns animais são defendidos pelo ecologista apenas porque são exemplares de uma configuração biológica (espécie) ameaçada de extinção. Para o movimento ecologista, o indivíduo (os animais mesmo) não tem valor.

Os pontos em oposições entre anti-especismo e ecologia são tantos, que merecem um artigo à parte. Estando as duas correntes em extrema oposição, qual deveríamos escolher? Penso que, se a necessidade de pensarmos bem antes de tomarmos uma decisão deve-se ao fato de que podermos prejudicar ou beneficiar seres que são afetados por tal decisão, e já que são os indivíduos sencientes justamente o tipo de seres que podem ser prejudicados ou beneficiados por nossas decisões (espécies, enquanto tais, não possuem nenhum tipo de experiência, sendo, inclusive, classificações um tanto imprecisas criadas por nós ), então devemos ser anti-especistas e dar igual consideração aos interesses de todos os seres sencientes.

Quando o ecologista afirma que não se sente obrigado a dar igual consideração aos interesses dos seres sencientes, ele não erra enquanto ecologista (porque não há nada na ecologia que prescreva o respeito pelo valor dos indivíduos enquanto tais); o erro é adotar o a perspectiva ecologista, em primeiro lugar. É por esse motivo que “ecologistas coerentes”, como Pentti Linkola8, defendem coisas hediondas como o genocídio e o holocausto. Isso mostra que é possível ser coerente e estar moralmente errado.

Apelo ao natural: Já quando afirma-se que o motivo pelo qual alguém deve se tornar vegano é porque tal prática é mais natural, a premissa que embasa tal raciocínio é a de que “devemos nos inspirar no que é natural”. Como John Stuart Mill9 apontou no clássico On Nature, não pode haver pior erro do que enxergar valor moral naquilo que é natural: todas aquelas coisas que consideramos hediondas quando praticadas por nós são a regra das leis naturais. Sofrimento, morte, injustiça, lei-do-mais-forte, estupro, roubo, miséria, doenças, inanição, parasitismo, enfim, todas as conseqüências nefastas  que reconhecemos como possuindo valor moral negativo são a regra das leis naturais. E, não poderia ser diferente, haja vista que as leis naturais são produto da seleção genética cega, e não de uma vontade bondosa, racional e imparcial. Na natureza, o sofrimento, a injustiça e o malefício aos indivíduos são maximizados, em favorecimento da adaptação dos genes. Existem coisas naturais que também são boas (como, por exemplo, o instinto de cooperação presente em algumas espécies), mas isso é mera coincidência: tal coisa é boa e coincidentemente também é natural, mas não se torna boa porque é natural.

Aqueles que afirmam que julgamentos só se aplicam a decisões de agentes morais, e de que é errado fazer juízos avaliatórios sobre as forças naturais, cometem uma confusão. Simplesmente não é verdade que julgamentos morais aplicam-se somente a decisões. Eles podem ser aplicados a avaliações de caráter, motivações, metas, estados de coisas, estados mentais, conseqüências, etc. Esses últimos aspectos (estados de coisas, estados mentais, conseqüências) são de extrema importância, porque só faz sentido julgar as decisões de agentes morais com base nesses estados de coisas. É porque o sofrimento (um estado mental) tem valor moral negativo que as ações que causam sofrimento estão erradas, e não o contrário. Além disso, mesmo que fosse verdade que as conseqüências dos processos naturais fossem neutras com relação ao valor moral que carregam, não poderia ser derivada daí a conclusão de que, então, não devemos intervir nesse processo. Esse erro é comum. Aparece em frases como “a idéia de valor moral não se aplica à natureza; logo, não devemos intervir nela”. Ora, se algo não possui valor, não pode ser errado modificá-lo. A prescrição de que não devemos intervir em processos naturais que possuem conseqüências ruins só pode vir da idéia de que tais conseqüências de processos naturais possuem valor moral positivo. Mas, como vimos, isso é falso. A natureza produz inúmeras conseqüências de valor moral negativo, ainda que não seja um agente consciente.

Além disso, o apelo ao que é natural sempre esteve por trás dos preconceitos mais hediondos de toda a história: a defesa da lei-do-mais-forte, da homofobia, do especismo, do machismo e até mesmo por trás de argumentos contra o uso de anestesia10, quando esta foi inventada, na base de que “sofrer é natural”. Tal apelo poderia ser perdoável numa época onde se pensava que os processos naturais fossem produto de uma vontade divina (bondosa e onisciente). Contudo, a existência de tamanha magnitude de sofrimento devido a causas naturais (independentes de ação humana) sempre foi um problema para os que acreditavam em tal vontade criadora. Como poderia uma vontade onisciente, onipotente e de pura bondade querer a existência de sofrimento inútil em extremos de quantidade, que supera, de longe o bem-estar mínimo11? A única saída possível para conseguir salvar a idéia de uma vontade divina bondosa é admitir que, então, ela não é onipotente e as leis naturais seriam coisas que saíram do controle de tal vontade. Assim sendo, se alguém acredita em tal vontade bondosa e deseja colaborar com ela, a regra não deveria ser copiar as leis naturais, mas sim, pelo contrário, corrigi-las e proteger as vítimas de tais processos.

Contudo, com o melhor conhecimento científico que possuímos hoje, desde Darwin, temos boas razões para supor que os processos genéticos são cegos. Se já é problemático buscar inspiração moral nos processos naturais mesmo pressupondo uma vontade divina por trás de tais processos (porque, ou temos de supor uma vontade onipotente maléfica, ou uma vontade benéfica e impotente que não deseja as leis naturais), é mais problemático ainda buscar tal inspiração reconhecendo que tais processos são cegos (principalmente moralmente cegos). Se mandar uma autoridade moral tomar nossas decisões éticas por nós já é abdicar do nosso papel enquanto agentes responsáveis, imagine mandar processos cegos assumir o mesmo papel.

Diante da percepção de que as forças naturais são amorais quanto ao processo de decisão (simplesmente porque não há ninguém ali decidindo) e geralmente imorais quanto ao valor das conseqüências (das forças naturais, geralmente se seguem conseqüências de valor moral negativo, ainda que não haja agência consciente), é de se espantar que as pessoas percam tempo discutindo se é o onivorismo que é natural para o ser humano ou o veganismo. O que é errado é achar que aquilo que é natural deva dar alguma orientação nas nossas decisões, em primeiro lugar.

Apelo à saúde: Por fim, se é afirmado que o motivo principal pelo qual deveríamos nos tornar veganos é nossa própria saúde, a idéia básica que está por trás de tal prescrição é a de que “eu em primeiro lugar!”. A idéia do “eu em primeiro lugar”, ou, mais precisamente “eu sou mais importante que os outros” é o principal obstáculo à ética. Tal idéia tem nome, chama-se egoísmo12. O egoísmo é a base de todos os outros preconceitos, como o especismo, o machismo, o racismo, a homofobia, a xenofobia, o geracionismo, entre outras coisas que fazem desse mundo um inferno. Por trás de todos esses preconceitos, está a idéia de que os indivíduos da minha espécie, do meu gênero, da minha raça, da minha opção sexual, do meu lugar, da minha geração, devem ser respeitados  (ou, devam ser respeitados em maior grau) e os outros não (ou, o devam ser em menor grau). Se o objetivo com a prática do veganismo é fazer com que alguém beneficie os animais, e sabemos que os animais estão nessa situação devido ao nosso especismo (que é produto do egoísmo), como é que esperamos atingir tal objetivo se reforçamos, com nossas campanhas, as tendências egoístas das pessoas? Como podemos esperar que alguém mude a visão que tem dos animais, e que passe a considerar com seriedade seus interesses se dizemos “diante de um massacre de tamanha magnitude, o motivo principal pelo qual você não deve colaborar com tal massacre é o benefício para você mesmo, e não para as vítimas”?

Nesse ponto, podem surgir algumas objeções. Vejamos:

(a) Alguém pode dizer que, se queremos estar ativos para lutar pelos outros, temos de nos preocupar com nossa saúde; afinal de contas, um ativista doente não ajuda muito. Isso é verdade. Contudo, não é essa preocupação que está por trás do discurso de “torne-se vegano porque é melhor para a sua saúde”. Os que adotam o veganismo por motivos de saúde geralmente não o fazem como motivo secundário visando o bem dos animais – fazem como motivo principal, e (infelizmente) na maioria das vezes, como único motivo. Já que minha crítica se direciona a motivação pela saúde como motivo principal, e não secundário, tal objeção perde o foco.

(b) Alguém pode dizer que um agente tem deveres para consigo próprio, e como a ética exige imparcialidade, não podemos dizer que o benefício aos outros é mais importante do que os benefícios para o próprio agente. Assim, a objeção conclui, a motivação pela saúde é tão importante quanto a motivação pelo bem dos animais. À primeira vista, essa objeção parece estar correta. Contudo, há um grave problema com ela. E, para reconhecer tal problema, não precisamos negar a existência de deveres para consigo. Reconheço que tenho deveres para comigo mesmo. Por mais estranho que isso pareça à primeira vista, eis minha razão para pensar assim: no futuro, serei um indivíduo com outros interesses (qualitativamente, serei outro indivíduo); quando tomo uma decisão, tenho de me colocar no lugar de todos os atingidos por ela, e dar igual consideração a todos (e isso inclui o meu “eu futuro”, que possuirá determinadas preferências). Assim, visto que meu “eu futuro” possuirá o interesse básico em não sofrer, e meu “eu presente” possui agora o interesse não-básico em ingerir algum tipo de substância (sem a qual posso passar muito bem) que implicará sofrimento no meu “eu futuro”, penso que é meu dever não ingerir tal substância, em consideração pelo meu “eu futuro”. E isso é assim não porque meu eu futuro tem mais valor do que meu eu presente, mas sim porque interesses básicos têm mais valor que interesses não-básicos, e porque a prioridade deve ser prevenir o sofrimento maior.

Se isso explica porque temos deveres para conosco, explica, ao mesmo tempo, por que, no caso do veganismo, a adoção motivada pelo bem dos animais deveria ser a razão primária, e não a preocupação com a própria saúde. Se entendemos que o alívio do maior sofrimento deve ter prioridade e que a alternativa que tem maiores chances de beneficiar um número maior de indivíduos que estão na pior situação também deve ser prioritária, então entendemos que a razão principal para adotar o veganismo deve ser a preocupação com os animais, mesmo que a imparcialidade exija que eu leve em conta também o impacto que minha decisão terá sobre minha própria saúde. E isso é assim porque, se digo que a preocupação principal deve ser minha saúde, estou dizendo que o dano menor provável (mas ainda não real) de um indivíduo deve ter mais peso do que o dano infinitamente maior real de bilhões de indivíduos – o que é um grave erro moral.

3) A questão do ativismo: Alguém que adota o veganismo por motivos éticos (a saber, a consideração igualitária pelos interesses dos animais) reconhecerá que tal consideração é um dever moral, e não uma mera preferência pessoal. Isso porque, do ponto de vista daquele que será escravizado, massacrado, torturado e morto, não faz diferença quem ou o que lhe causa dano; se sou eu ou você que mata o animal, para o animal é indiferente. Se a razão pela qual reconheço que devo ser vegano é o dano para os animais derivado de seu consumo, não posso dizer, então, que os outros agentes não tem o mesmo dever (pois a mesma razão se apresenta quando eles consomem animais). É por isso que dizemos que, para uma decisão ser correta, precisa ser mantida a mesma independentemente do agente que a causa. A mesma decisão, nas mesmas circunstâncias, não se torna correta quando sou eu que decido e errada quando é você que decide, uma vez que temos diferentes posições quanto à questão. Os agentes morais não possuem o poder mágico de tornar as coisas certas ou erradas de acordo com seus desejos. Se assim o fosse, a moralidade seria apenas uma brincadeira idiota. Assim, se o que faz com que seja errado matar um animal quando o assassino sou eu é o dano para o próprio animal, então a mesma coisa é errada quando praticada por qualquer outro agente, haja vista que aquilo que torna errado o ato (o dano para o animal) não muda de acordo com a opinião diferente de cada agente. Vimos em mais detalhes esse tópico em outros textos com críticas às posições relativistas, subjetivistas e emotivistas na ética13.

Sendo assim, é por isso que todo agente moral sério reconhece que deve tentar convencer os outros agentes a fazer a coisa correta. Isso não significa que aquilo que estamos tentando convencer os outros agentes a fazerem está necessariamente correto. Como agentes imperfeitos, podemos errar. Felizmente, existe o raciocínio ético. Num debate, podemos esclarecer nossas posições, analisar e avaliar os argumentos de ambos os lados. Por isso, o debate é tão importante. Isso mostra que é totalmente equivocada a idéia de que os debates em ética são meras divergências de opinião, e que não há posição moral melhor do que outra, nem como demonstrar isso com base em argumentos. Isso pode ser verdade quanto a escolher um time de futebol para torcer, mas questões de ética são muito diferentes disso. Uma diferença crucial é que a existência de um raciocínio ético pode revelar preconceitos, atitudes tendenciosas, parciais, falhas de lógica – o que torna possível existir argumentação em questões de ética.

Dessa maneira, um agente moral sério que reconhece o dever de praticar o veganismo terá de reconhecer imediatamente o dever de fazer ativismo (no sentido de trazer para o debate a consideração moral pelos animais, com vistas a mudar a situação que os animais se encontram atualmente). As outras motivações listadas não possuem essa implicação. E é exatamente isso que geralmente acontece: muitos dos que adotam o veganismo por algum motivo que não a ética acham que é errado tentar convencer os outros a pararem de explorar os animais. Essas pessoas, talvez por estarem acostumadas a tomar suas decisões com base em crenças religiosas, confundem ética com religião. Para essas pessoas, colocar um ponto de interrogação na posição moral de alguém é uma ofensa grave, enquanto que permitir que, baseado nessa posição moral (imoral, na verdade), a pessoa pratique o massacre de bilhões de indivíduos sencientes, não causa a mínima inquietação. Mas, isso não pode estar correto. E não está porque é especista, já que vê como tendo maior peso a preferência tirânica do humano em não ter suas convicções desafiadas em relação à preferência básica dos não-humanos em não sofrer e não morrer. Tal posição está errada também porque se baseia na distinção irrelevante entre ação e omissão (o dano de deixar alguém infeliz por ser contrariado num debate pesa na consciência, mas o dano de causar o sofrimento e morte a bilhões de criaturas por não querer debater com alguém não pesa, por se tratar de um dano por omissão).

Tal absurdo moral é evidente em comentários do tipo “veganos estão impondo suas preferências pessoais aos outros”. Tal afirmação é errada por dois motivos: a prática do veganismo não é defendida como uma preferência pessoal, mas como uma posição ética (espero que, com os comentários acima, tenha ficado clara a distinção entre as duas coisas); e, na realidade, quem está impondo suas preferências pessoais (que são eticamente indefensáveis) e causando morte e sofrimento de bilhões de seres, são os que consomem animais (e os que se opõem a desafiar suas crenças). Essa estratégia é muito comum: inverter a descrição dos fatos para mascarar a real imposição.

Assim, por implicar o debate ético e o ativismo, a motivação ética para o veganismo tem maiores probabilidades de trazer à tona melhores conseqüências. Se, nesse ponto, for objetado que debater sobre o assunto, por mais respeitosamente que seja feito, pode deixar as pessoas tão revoltadas a ponto de jamais quererem respeitar os animais, sugiro que tomemos como exemplo nossa própria história: por milhares de anos o especismo não foi desafiado, e o resultado disso é o massacre diário de bilhões de animais; a maioria das pessoas que deixou de praticar o especismo assim o fez porque alguma vez na vida se deparou com algo que colocava o especismo contra a parede. Isso mostra o quão urgente é combater o especismo.

4) Exploração em outras áreas: Os animais não-humanos são danados em inúmeras outras áreas, para além da alimentação: experiências médicas, testes de produtos, entretenimento, vestuário, fabricação e venda de animais para companhia, abandono de animais, etc. Alguém que adota uma alimentação vegana movido pela consideração pelos animais automaticamente se oporá também a essas práticas, pois o motivo que fundamenta sua oposição num caso aparece também no outro. A mesma coisa não acontece necessariamente nas outras motivações.

Quanto a esse ponto é importante mencionar que, em alguns momentos, o movimento de defesa animal acaba passando a idéia de que sua causa é idêntica (e se resume) ao veganismo (em termos de abstenção da alimentação de origem animal). A ênfase no veganismo é compreensível, pois o uso de animais para consumo envolve, de longe, o maior número de mortes e provavelmente os sofrimentos mais extremos. Se a ênfase se dá por esse motivo, segundo entendo, está correta. O problema surge quando se passa, ainda que inconscientemente, a idéia de que a luta contra o especismo se resume a isso. Talvez daí venha a idéia enganosa, de que, em termos de conseqüências para os animais, qualquer motivação para a prática do veganismo dá na mesma. Tal confusão acabou criando outra, muito ruim para os animais: a de se pensar que o movimento pelo vegetarianismo (ou veganismo) e o movimento pela igualdade animal são a mesma coisa. Assim, é criada uma falsa esperança: a de que as coisas melhorem para os animais a partir de ações de um movimento que, apesar de ter em comum com o movimento anti-especista o fato de não consumir animais, difere radicalmente deste por não ter como meta abolir a mentalidade e o modo de vida especista. O veganismo é uma parte (uma parte bem importante) do movimento pela igualdade animal – mas abolir o especismo não se resume a isso. Abolir o especismo, infelizmente, não é uma parte importante (sequer é uma parte) do movimento pelo vegetarianismo (ou veganismo) em geral.

5) Danos naturais: Como vimos anteriormente, a vida natural é resultado dos processos cegos evolutivos que favorecem a adaptação dos genes, e não o bem dos indivíduos portadores desses genes. Isso implica que a vida natural contém, independentemente da intervenção humana, sofrimentos inimagináveis a quantidades gigantes de indivíduos sencientes – de tal modo que, no geral, a quantidade de sofrimento supera, de longe, a quantidade de satisfação. Predação, inanição, doenças, parasitismo, afogamento, congelamento e morte por queimadura são a norma do dia-a-dia na vida natural (independentemente de intervenção humana). Pode ser que, se levarmos em conta o nível de sofrimento por indivíduo, a vida numa granja industrial seja um pouco pior. Contudo, a vida no mundo silvestre não fica longe. E, se levarmos em conta o número de indivíduos sofrendo em situações extremas, a vida silvestre é infinitamente pior14.

Aquela pessoa que adota o veganismo por uma consideração ética pelos animais não-humanos considerará esse sofrimento como digno de atenção moral. Se aquilo que torna errado causarmos dano aos animais é a malignidade do dano enquanto tal, como pode estar correta uma decisão que termina em danos semelhantes, com a única diferença de que são causados por nossa omissão? Novamente, para o animal que sofre o dano, lhe é indiferente se o dano é causado por mim, você, uma criança humana, um psicopata, outro animal, uma doença ou desastre natural. O tipo de agente causal final não muda a gravidade do dano. Se temos condições de pensar numa maneira de intervir com vistas a diminuir o dano e escolhemos nos omitir, somos agentes causais intermediários de tal dano15.

Essa questão é ainda, infelizmente, a questão mais negligenciada (e até mesmo ridicularizada) dentro do movimento anti-especista. Contudo, felizmente, o debate vem crescendo nos últimos anos16. O que quero apontar é que uma preocupação moral séria com os animais conduz inevitavelmente a essa questão, coisa que não acontece com as outras motivações – principalmente quando a motivação para o veganismo se baseia numa veneração pelos processos naturais ou por motivos ecológicos. Como vimos acima, tais posições são injustificáveis.

6) Outras questões éticas: Alguns defensores de outras motivações para adoção do veganismo costumam alegar que não devemos isolar uma questão de outras. O veganismo, argumentam, tem impacto sobre a vida dos animais, mas também têm impacto sobre outras questões (ambientais, sociais, de saúde, etc.) com as quais deveríamos estar igualmente preocupados. A premissa por trás de tal alegação é a de que devemos nos preocupar igualmente com os problemas éticos de igual gravidade. Penso que tal premissa está correta. Contudo, o que quero apontar é que uma preocupação ética para com os animais não-humanos implica necessariamente em levar em conta outros problemas éticos, coisa que não acontece com as outras motivações. Vejamos um exemplo:

Se alguém adota o veganismo por motivos éticos, têm de se embasar na rejeição do especismo. O especismo é um preconceito similar ao racismo, sexismo, egoísmo e outros de mesma ordem. A rejeição do especismo requer a rejeição desses preconceitos também. Alguém que adota o veganismo por consideração ética pelos animais tem de reconhecer que a vida e o bem-estar desses seres importam moralmente, e importam em igual medida ao dos outros indivíduos. Em termos mais básicos, isso implica em reconhecer que temos um dever de evitar causa malefício e de causar benefício aos indivíduos atingidos por nossas decisões; e que devemos dar igual consideração a esses indivíduos. Assim sendo, alguém que reconhece esse aspecto automaticamente precisa reconhecer o dever de se preocupar com e raciocinar sobre outras questões éticas importantes. Por exemplo, em quais casos um pedido de eutanásia deve ser atendido? Sob quais condições um aborto se justifica? Qual deve ser nossa prioridade de doações de recursos? O quanto deveríamos doar? Quanto de tempo do nosso dia a dia deveríamos passar preocupando-nos com nossa vida pessoal e o quanto deveríamos passar dedicando-nos a ajudar os que não conhecemos?

Essas e outras questões estão implicadas para alguém que reconhece o dever de levar os outros com consideração imparcial. O agente moral normalmente constrói um projeto de uma vida ética. Ou seja, não se resume a uma única questão. Desnecessário dizer que isso não está necessariamente implicado nas outras motivações. Pior, alguém quem adota algumas das outras motivações mencionadas já possui uma resposta pronta (e, geralmente, errada) aos problemas éticos importantes: “o correto a fazer é o que beneficia minha saúde” ou, “devemos deixar a natureza seguir o seu curso”, ou “na Bíblia está escrito que não pode!” ou “Que importância tem o sofrimento dos indivíduos?” ou “Mas, eu não tenho simpatia por esses indivíduos; por que deveria me importar com isso?”.

CONCLUSÃO

Afirmar que a preocupação ética pelos animais deveria ser o motivo principal para a adoção do veganismo não exclui outros motivos secundários – desde que fique claro o seu papel secundário. Como vimos, a preocupação consigo próprio pode também ser um dever, e, além disso, pode tornar alguém mais forte para lutar pelos outros. O fomento da simpatia por seres específicos, por sua vez, pode ser o primeiro passo de alguém rumo a uma consideração igualitária por todos os seres sencientes. Contudo, nem todos os motivos alegados possuem essas implicações benéficas. Vimos que o apelo à autoridade; a perspectiva adotada pelo movimento ecologista de que o indivíduo não possui valor em si; e a veneração por processos naturais são um completo obstáculo ao bom raciocínio ético.

A pluralidade de motivações é boa somente na medida em que proporciona melhores conseqüências para os atingidos pelas decisões advindas dessas motivações, ou quando tais motivações fomentam outras coisas que possuem valor (como o debate racional de idéias, a compaixão, etc.). Assim sendo, não podemos escapar à tarefa de “filtrar” quais dessas motivações têm um bom impacto nas conseqüências e quais não têm. Afirmar que deveríamos fomentar todo tipo de motivação é jogar fora tal responsabilidade.

É compreensível que muitos ativistas adotem a estratégia de não tocar no cerne do problema. Eles pensam: “será extremamente difícil conseguir com que as pessoas larguem o seu especismo, seu egoísmo, seus apelos a autoridades, seus preconceitos naturalistas, etc. – quem sabe não consigo fazer com que elas, apesar disso, beneficiem indiretamente os animais?”. A tentação de adotar tal estratégia é pela sua aparência de “solução provisória a curto prazo”. Apesar de compreensível, durante todo o artigo vimos muitas razões para se pensar que tal estratégia não é eficaz nem em curto nem em longo prazo, assim como não é eficaz nenhuma estratégia que “não corta o mal pela raiz”. A “raiz do mal”, no caso, é o especismo, o egoísmo, a busca por inspiração moral nos processos naturais, o apelo à autoridade, etc. Os problemas não serão resolvidos enquanto tais coisas permanecerem intactas, protegidas por tabus, ocultas por trás de afirmações que também tem como base os mesmo preconceitos.

Não é mera mesquinharia daqueles que partem de uma motivação ética para adotar o veganismo, afirmar que todos devam ter a mesma motivação. Como vimos acima, é descabida a acusação de que “os veganos por ética são narcisistas por quererem que todos tenham sua mesma motivação”. Quando digo que você também tem o dever de adotar o veganismo por motivos éticos não é porque isso o fará se tornar igual a mim nessa característica (isso é totalmente irrelevante; se eu não fosse vegano você ainda teria esse mesmo dever), mas sim porque, caso continue a consumir animais ou adote o veganismo por outros motivos, você causará dano a outros seres sencientes – danos estes que você não conseguirá justificar com argumento plausível algum. A reivindicação da motivação ética é vista como extremamente importante porque tem maiores chances de ter as melhores conseqüências para os atingidos, de uma maneira imparcial – e isso é o que todo agente responsável deveria ver como tendo importância principal. Assim, é descabida a acusação de narcisismo.

Quando se trata de acessar a imoralidade do estupro, da exploração infantil ou da escravidão, ninguém exige mais do que a presença de dano para as vítimas para considerar tais práticas como injustificáveis. Os defensores dos direitos humanos  soariam ridículos se dissessem que a imoralidade do estupro se encontra em algum risco para o torturador, e não para a vítima. Mas, com relação à defesa do veganismo, muitas vezes os defensores dos animais adotam uma postura assim. Com relação à imoralidade de se matar, torturar e escravizar animais não-humanos, os próprios auto-intutulados “defensores dos animais” alegam dezenas de outros motivos para se defender o veganismo, que não o reconhecimento de dano para as vítimas não-humanas. Por que será que, num caso, reconhece-se que o fato de haver dano para a vítima já basta para a prática ser injustificável e em outro coloca-se esse motivo (quando coloca-se) como último em uma lista com inúmeros outros? Isso fica evidente em casos onde aparenta existir uma certa vergonha de defender que é o dano sobre os animais que cria o dever de se adotar o veganismo – e não qualquer outra coisa. Por que isso acontece? Infelizmente, a resposta é: porque mesmo muitos daqueles que se dispõem a defender os animais ainda são muito especistas, ainda que inconscientemente.

Não vamos combater o especismo contornando-o e evitando de tocar o dedo na ferida.

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Notas:

1) Para uma introdução aos tipos de consequencialismo, e como eles se aplicam à ética animal, ver o artigo do filósofo Oscar Horta intitulado “O Igualitarismo e os animais não-humanos”, dividido em duas partes, disponíveis em: http://masalladelaespecie.wordpress.com/2010/04/20/el-igualitarismo-y-los-animales-no-humanos-i/http://masalladelaespecie.wordpress.com/2010/04/30/el-igualitarismo-y-los-animales-no-humanos-ii/

2) Vários artigos do historiador e ativista Bruno Müller defendem o veganismo motivado eticamente e apresentam argumentos contra a adoção do veganismo motivado por outros fatores: https://www.anda.jor.br/2010/09/22/abaixo-o-vegetarianismo-pela-saude/ ;https://www.anda.jor.br/2010/09/29/vegetarianismo-etico-um-vegetarianismo-integral/ ; https://www.anda.jor.br/2011/02/11/o-sentido-do-vegetarianismo/; https://www.anda.jor.br/2010/10/27/a-redefinicao-de-vegetarianismo-o-horizonte-dos-direitos-animais/

3) Cf. https://www.anda.jor.br/2011/04/04/o-apelo-a-autoridade-nas-campanhas-de-defesa-animal/

4) Mais sobre o assunto em: https://www.anda.jor.br/2010/02/05/sobre-o-raciocinio-etico-a-forma-parte-1/

5) A oposição entre anti-especismo e ecologia é discutida em OLIVIER, David. Por que não sou ecologista? Disponível em: http://www.olharanimal.net/capa/1136-david-olivier/1313-porque-eu-nao-sou-ecologista;  BONNARDEL, Yves. Coelhos sem documento. Disponível em http://www.olharanimal.net/capa/1119-yvesbonnardel/1310-coelhos-sem-documentos; Ibid., Quem vai à caça não perde o lugar. Disponível em http://www.olharanimal.net/capa/1119-yvesbonnardel/1232-quem-vai-a-caca; Ibid., Contra o Apartheid das espécies: sobre a oposição entre ecologia e libertação animal. Disponível em: http://www.olharanimal.net/capa/1119-yvesbonnardel/1121-contra-o-apartheid; Ibid., Para acabar com a idéia de natureza e reatarmos com a ética e a política. Disponível em: http://www.olharanimal.net/capa/1119-yvesbonnardel/1239-para-acabar-com-a-ideia ; Ibid., A predação, símbolo da natureza. Disponível em http://www.olharanimal.net/capa/1119-yvesbonnardel/1245-a-predacao-simbolo-da-natureza.

6) Ver, por exemplo CALLICOTT, B. Animal Liberation and Environmental Ethics: Back Together Again. In: HARGROVE, E (ed.). The Animal Rights/Environmental Ethics Debate. Albany: State University of New York Press,
1992.

7) Segundo Jeff McMahan: “the claim that suffering is bad for those who experience it and thus ought in general to be prevented when possible cannot be seriously doubted. Yet the idea that individual animal species have value in themselves is less obvious. What, after all, are species? According to Darwin, they “are merely artificial combinations made for convenience.” They are collections of individuals distinguished by biologists that shade into one another over time and sometimes blur together even among contemporaneous individuals, as in the case of ring species. There are no universally agreed criteria for their individuation. In practice, the most commonly invoked criterion is the capacity for interbreeding, yet this is well known to be imperfect and to entail intransitivities of classification when applied to ring species. Nor has it ever been satisfactorily explained why a special sort of value should inhere in a collection of individuals simply by virtue of their ability to produce fertile offspring. If it is good, as I think it is, that animal life should continue, then it is instrumentally good that some animals can breed with one another. But I can see no reason to suppose that donkeys, as a group, have a special impersonal value that mules lack. Even if animal species did have impersonal value, it would not follow that they were irreplaceable. Since animals first appeared on earth, an indefinite number of species have become extinct while an indefinite number of new species have arisen. If the appearance of new species cannot make up for the extinction of others, and if the earth could not simultaneously sustain all the species that have ever existed, it seems that it would have been better if the earliest species had never become extinct, with the consequence that the later ones would never have existed. But few of us, with our high regard for our own species, are likely to embrace that implication”. Cf. MCMAHAN, J. The Meat Eaters. In: New York Times. September 19, 2010. Disponível em http://opinionator.blogs.nytimes.com/2010/09/19/the-meat-eaters/

8 ) Cf. LINKOLA, P. Can life prevail?: A radical approach to the environmental crisis. London: Integral Tradition Publishing, 2009.

9) MILL, J. S. On Nature. In Nature, The Utility of Religion and Theism. Rationalist Press, 1904, pp. 07- 33. Disponível em http://www.lancs.ac.uk/users/philosophy/texts/mill_on.htm

10) Cf. PEARCE, David. Utopian Surgery: Early Arguments Against Anaesthesia in Surgery, Dentistry and Childbirth. Disponível em: http://www.general-anaesthesia.com/

11) Cf. DAWRST, A. The predominance of wild-animal suffering over happiness: An open problem. In: Essays on Reducing Suffering, 2009b. http://www.utilitarian-essays.com/wild-animals.pdf. Cf. NG, Yew-Kwang. Towards Welfare Biology: Evolutionary Economics of Animal Consciousness and Suffering. In: Biology and Philosophy, 10, 3, 1995, pp. 255−85.

12) Para uma crítica ao egoísmo, ver:  https://www.anda.jor.br/2011/01/03/explicando-por-que-o-egoismo-nao-e-etico/

13) Cf. https://www.anda.jor.br/2009/12/05/e-a-etica-relativa/ e https://www.anda.jor.br/2010/01/05/e-a-etica-subjetiva/

14) O economista Allan Dawrst nos lembra desse problema ao observar a quantidade de insetos. Segundo comentário do filósofo Oscar Horta “As Dawrst claims, this number is so high that it outweighs doubts regarding sentience of insects. Suppose that the odds that insects are sentient were 0.01 measured on a scale between 0 and 1 (this, in my view, is a radically conservative estimate, I would claim that the odds would be far more closer to 1, but let us just accept it for the sake of the argument). Now, there are an estimated 10^18 to 10^19 insects. This means that concern for insects in the world should count as much as concern for at least 10^16 animals that we knew could suffer. It could be claimed that even if insects were sentient, their interests would not count as much as those of mammals. This may be claimed by assuming that mammals’ capacity for wellbeing and suffering would be higher than that of insects. However, this would not change the matter significantly. Suppose that the wellbeing of mammals counted 10,000 times more than that of small animals such as insects. Than would mean that concern for the latter should count as concern for 10^12 mammals, which is still a very significant figure. Cf. HORTA, Oscar. Disvalue in Nature and Intervention. Disponível em http://www.olharanimal.net/pensata-painel/1138-devemos-intervir-na-predacao/1350-oscar-horta

15) Para mais sobre esse tema, ver o meu artigo Sobre Danos Naturais. Disponível em: http://masalladelaespecie.files.wordpress.com/2011/01/luciano-carlos-cunha-sobre-danos-naturais.pdf

16) Três ótimos artigos sobre o tema são: HORTA, O. Disvalue in Nature and Intervention. In: Pensata Animal, 2010a. http://www.pensataanimal.net/painel/138-devemos-intervir-na-predacao/350-oscar-horta e HORTA, O. The Ethics of the Ecology of Fear against the Nonspeciesist Paradigm: A Shift in the Aims of Intervention in Nature. In: Between the Species 10, 2010b, pp. 163-187. http://cla.calpoly.edu/bts/issue_10/10horta.pdf e BONNARDEL, Yves. Contra o Apartheid das Espécies: Sobre a Oposição entre Ecologia e Liberação Animal. Disponível  em http://www.pensataanimal.net/index.php?option=com_content&view=article&id=121&Itemid=1

Muitas pessoas, dentre as quais me incluo, reconhecem que as conseqüências sobre os atingidos por nossas decisões (sejam ações, sejam omissões) desempenham um papel fundamental sobre o erro/acerto moral de nossas escolhas. Não significa que, uma vez que aceitamos esse ponto, temos de pensar que as conseqüências sejam a única coisa que importa em nossas deliberações morais. Como já argumentei em colunas anteriores, outras exigências que não dependem de conseqüências (imparcialidade, tratar casos semelhantes de maneira semelhante, oferecer um argumento que tenha premissas verdadeiras e seja logicamente válido, etc.), e que compõem a forma do raciocínio moral, também devem desempenhar um papel fundamental nas nossas deliberações morais. Além disso, não há nada no conseqüencialismo (seja lá de que tipo for: utilitarista, igualitarista, prioritarista, etc.[1]) que nos impeça de fazer avaliações sobre a motivação e o caráter dos agentes morais, pois, embora tais características existam independentes das conseqüências, elas possuem uma forte influência nestas, como veremos a seguir.


[1] Para uma introdução aos tipos de consequencialismo, e como eles se aplicam à ética animal, ver o artigo do filósofo Oscar Horta intitulado “O Igualitarismo e os animais não-humanos”, dividido em duas partes, disponíveis em: http://masalladelaespecie.wordpress.com/2010/04/20/el-igualitarismo-y-los-animales-no-humanos-i/ e http://masalladelaespecie.wordpress.com/2010/04/30/el-igualitarismo-y-los-animales-no-humanos-ii/

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Cotidiano Vegano

Último suspiro

O mundo está escuro, estamos dando nossos últimos suspiros.

A verdade mesmo é que ninguém está em paz. Caso contrário, o mundo estaria em paz, não em guerra, não estaríamos vivendo nessa lama de sangue onde pisam nossos hábitos, por onde se arrasta a nossa cultura.

Dói querer ver a mudança no mundo, dói enquanto nos sentamos à mesa e mais um animal é morto antes de ir parar na mesa do vizinho. Porque, mesmo sem saber, nós sabemos. Mesmo sem ouvir o grito, sem ler a notícia, nós fazemos parte do último suspiro de cada animal maltratado e morto.

Conversando com uma amiga lactovegetariana a respeito do direito dos animais à vida, no contexto da utilização de animais em rituais religiosos, ouvi a seguinte frase: “Fernanda, de onde você tirou essa história de direito à vida?”.

Pausa longa porque esse episódio me deixou em choque por alguns longos minutos. Passou minha fome e os meus olhos começaram a arder.

Confesso que me percorreu um lamento profundo, ao mesmo tempo em que minhas forças se moviam para emitir uma resposta brutal, que eu obviamente não vou reproduzir aqui. Eu quis dar um grito, queria fazer tudo parar, queria que estivesse ela no lugar do animal cujo assassinato ela tentava justificar a todo custo, porque me parecia ao menos mais justo.

Mas respondi apenas: “então fique em paz com as suas escolhas”. E o assunto morreu ali. Porque, na verdade, eu não tinha mais o que dizer. Ela queria um motivo para dormir tranquila e, quando a gente quer um motivo, qualquer coisa serve. Então nada do que eu dissesse adentraria.

Já virou tradição negar os direitos dos animais sob a máscara das mais elevadas e elaboradas justificativas (paladar, religião, cultura etc.) – dessa forma, tornamo-nos ainda mais sórdidos, porque nos escondemos debaixo de um pano falso, de algo que não existe. A pior coisa que há na vida é fazer parecer o que não é. E diante de um faro aguçado para incongruências, algumas falas se tornam ridículas. Então pronto, aproveito a deixa para pedir a todos o mínimo: sejamos honestos em nossas palavras, em nossa expressão. Matar é violência, tomar a vida de outro ser é violência. Liberdade é o que podemos fazer sem interferir no direito do outro. Simples e direto: não é preciso pintar as coisas de intenções que não são inerentes às atitudes em que estão contidas.

Aí vem uma questão polêmica: se as pessoas estão predispostas à violência, de que adianta serem vegetarianas? Se não nascem nelas primeiro a energia pacífica e o respeito?

Acho mais digno um ser não vegetariano a caminho do veganismo e da prática do bem, que se reconhece em seus equívocos e limitações, do que um vegetariano, ou quase isso, que não tem a menor ideia do que é respeitar o direito à vida de um outro ser.

Osho, que foi um espiritualista vegetariano, em um trecho de sua obra Um pássaro em voo, diz justamente isso: seria uma grande falsidade que as pessoas violentas deixassem de comer e consumir o que deriva da dor e da exploração dos animais. Um gesto pacífico é consequência do que somos interiormente e não o contrário.

O mundo não pode se tornar vegano agora. Porque ninguém está em paz. Estão todos alheios a si mesmos, e não há revolução que faça nascer em cada um a compaixão, senão o exercício individual que só percorremos com os próprios pés.

Sinto pelos que esperam do mundo essa mudança. Eu espero do mundo um despertar. Sigo acreditando no poder da arte inspirada na vida. Eu espero que as pessoas derretam seus muros e se reencontrem – e que, portanto, sejam menos impermeáveis. O vegetarianismo, que é a prática da compaixão pelos animais, virá depois, eu lhes garanto.

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Direitos Animais

Abaixo o vegetarianismo pela saúde

Semana passada tivemos o terceiro Congresso Vegetariano Brasileiro, na muy aprazível cidade de Porto Alegre. Como já escrevi antes, Porto Alegre tem um dos melhores ativismos do Brasil, em matéria de qualificação dos ativistas, qualidade das ações e visibilidade para a causa. Isso se manifesta numa cidade que, em pleno coração da terra do churrasco, é surpreendentemente amigável com os vegetarianos.

Isso se aufere, por exemplo, nas opções disponíveis. Não se trata apenas da quantidade, ou da qualidade, de restaurantes vegetarianos. Se trata da sua variedade, digamos até versatilidade. Há estabelecimentos para todos os públicos: o popular, o sofisticado, o alternativo, o jovem. Muito diferente do vegetarianismo careta do Rio de Janeiro, que só abre para o almoço e só está disponível da classe média, para cima.

Me surpreendeu positivamente, em Porto Alegre, a quantidade de vegetarianos éticos, veganos, ativistas. Com tantas pessoas descobrindo o vegetarianismo pelos animais, resta a dúvida: por que o vegetarianismo ético ainda é tão desconhecido do grande público?

A ideia do vegetarianismo natureba está tão incutida no nosso inconsciente coletivo, que para muitos chega a ser difícil conceber que ela seja, na verdade, a última das razões que tem levado, por toda história, as pessoas a se tornarem vegetarianas. Da Índia antiga à Inglaterra vitoriana, as pessoas têm se tornado vegetarianas por razões éticas – mesmo que uma ética espiritual. Se as motivações do vegetariano mudaram, portanto, é porque mudou alguma coisa na forma como o vegetarianismo é pensado e debatido.

E o que mudou foi que, de repente, começaram a surgir Sociedades Vegetarianas. E as Sociedades Vegetarianas fizeram a opção deliberada de esvaziar o conteúdo ético do vegetarianismo, na triste expectativa de assim torná-lo mais palatável ao grande público. Mascarando, escondendo sua face mais contestadora, mais socialmente perigosa, esperavam assim conquistar novos membros. E a imagem do vegetariano pela saúde, naturalmente, viraria a vedete desse movimento.

Em nossos tempos de hedonismo, materialismo, culto da imagem e do corpo, apelar ao desejo egoísta do corpo saudável e bonito parece uma estratégia certeira. Olhando para o contingente do Congresso Vegetariano Brasileiro, eu me pergunto aonde essa estratégia nos levou. Pois se mesmo fingindo que a opção pelo vegetarianismo não tem nada a ver com respeito pelos animais, temos tanto vegetarianos éticos, imagine se tivéssemos um movimento dedicado a divulgar com todo afinco essa opção não pelo egoísmo, mas pelo altruísmo.

Tendo isso em mente, eu concluo que o vegetarianismo pela saúde é antes fator de atraso que de avanço. Trata-se de um maquiavelismo que saiu pela culatra. O filósofo italiano Nicolau Maquiavel defendia que a ética do estadista era diferente daquela do cidadão. Para o príncipe, a mentira, a desfaçatez, a enganação, é uma virtude, pois só com ela ele consegue proteger o Estado dos perigos externos. Da mesma forma, o movimento vegetariano acredita que escamotear a realidade é a chave do sucesso. Mas isso é um tiro no pé. Elenco alguns motivos que me levam a essa conclusão:

1 – Quem pensa que o vegetarianismo é mesmo um bom apelo para o egoísmo alheio, deveria pensar duas vezes. Ser vegetariano requer renúncia. Ninguém irá renunciar aos prazeres da carne, e às limitações cotidianas impostas por essa decisão, apenas para ter um corpinho bonito – especialmente se dieta balanceada e 30 minutos de academia por dia solucionam o problema. Não se trata de dizer que ser vegetariano é difícil. É muito fácil. Difícil é abdicar das comodidades do mundo onívoro se não há um motivo forte para isso. Afinal, para que eu vou limitar tanto as minhas opções alimentares, se eu tenho outras formas menos radicais de ser bonito e saudável?

2 – Os vegetarianos pela saúde não estão nem aí pros animais. Isso é boa propaganda pra causa? Mesmo que achássemos que o vegetarianismo inofensivo é mais ajustado às expectativas da nossa sociedade, até onde ele pode nos levar? No máximo, até a dieta mesmo. Como fazê-lo ultrapassar esses limites? Por que deixar de usar couro, produtos testados? Daí já começamos a precisar de outros discursos. E daí começam a se acumular argumentos ambientais, de saúde pública, fome no mundo, indústrias farmacêuticas malvadas… Em vez desse ecletismo filosófico, não fica mais fácil ir direto ao ponto?

3 – Consequência disso tudo, vegetarianos pela saúde não têm compromisso com uma causa. Portanto, não criam um movimento, seja no sentido institucional, de organizar-se para divulgá-la, seja no sentido mais abstrato, de gerar uma onda, que difunde uma ideia, de modo semiespontâneo, na medida em que cada vegetariano engajado, mesmo sozinho, difunde seus princípios para seu círculo social, e desse círculo saem outros vegetarianos, que o difundem para seus próprios círculos sociais, e assim por diante.

4 – Sem uma causa que lhe mova, o vegetariano pela saúde não tem realmente nenhum motivo para se manter vegetariano. Ele faz concessões quando a ocasião pede, para não ser “chato” ou mal-educado, ou simplesmente quando dá vontade. E, por fim, ele acaba deixando o vegetarianismo na primeira dificuldade com que se depara. Basta aquela clássica anemia, seguida da bronca do médico, e lá estará ele comendo o indigesto mas necessário bife de fígado. Depois, vêm as desculpas: “ah, mas é só de vez em quando”; “como um peixinho quando meu organismo pede”; “tentei, mas não consegui”; “passava muito tempo na rua, não tinha opções”, “como gelatina porque tem colágeno”, e blá-blá-blá. Ou será “buá-buá-buá”?. Sempre a mesma choradeira. A verdade é que, como já disse em outras ocasiões, em toda minha vida conheci muitos “vegetarianos” pela saúde. Não conheci um sequer que tenha persistido. Isso quando chegaram a ser realmente vegetarianos, mesmo segundo as definições clássicas, hoje obsoletas, que incluem os ovinhos e o leitinho.

5 – Enfim, pensando nisso tudo, o vegetariano pela saúde, na verdade, não quer ter nada a ver com os vegetarianos. Ele odeia ser associado a esse bando de fanáticos religiosos, protonazistas, histéricos, sentimentaloides. Quando aparece um vegano ético na vida dele, ele não perde tempo em se dissociar de qualquer relação com tamanha figura desagradável. É o “vegetariano fofinho”: agradável, gente boa, que não recusa convites para churrascos, supersociável. Eu já fui um vegetariano fofinho. Não por falta de convicções éticas, e sim por medo de assumi-las. Lembro de um ex-amigo falando de mim: “O Bruno não, o Bruno não é vegetariano por peninha dos animais”. Eu poderia ser medroso, mas não era mentiroso. Timidamente, contestei a afirmação, para passar as horas seguintes, como qualquer vegetariano, a ser sabatinado (e sacaneado) pelos “amigos” onívoros. É geralmente quando o vegetariano pela saúde intervém, dizendo que realmente isso tudo é uma bobagem, e que, se o médico mandar, ele come bicho mesmo – carne, ovo, leite, o que for necessário. De fato, uma bela forma de propagar o vegetarianismo.

É por esses e outros motivos que quero propor um novo movimento: o movimento “Abaixo o vegetarianismo pela saúde”. Abaixo os cuidados com a saúde e alimentação. Vamos comer muita batata frita, hamburguer de soja, açúcar e pão de farinha branca. Vamos engordar 20 kg, nem que seja só para deixar claro que somos vegetarianos éticos, e não pessoas obcecadas com a boa aparência. Chega de balela. Os animais não precisam de vegetarianos naturebas. Eles não contribuem em nada, a não ser em relativismo, idiotice e covardia. Três qualidades que já abundam o suficiente em nosso movimento (e que, infelizmente, não se restringem aos naturebas).

Mais importante, o vegetarianismo pela saúde é absolutamente incapaz de conduzir ao passo realmente decisivo: o veganismo, que não se limita à dieta. Antes um vegano ético que cem vegetarianos pela saúde, relativistas, fofinhos, coniventes e coparticipantes da exploração animal, com seus acessórios de couro, casacos de lã e dieta rica em ovos e leite. Nada mais são que onívoros disfarçados. Para ir além da dieta, é preciso ir além dos motivos dietéticos. Portanto, continuar a divulgar o vegetarianismo pela saúde é um desserviço à causa.

Os animais não precisam de associações dietéticas. E as associações dietéticas não precisam, sequer, ser. Muitas pessoas não gostam de cebola. Em quase todos os restaurantes, quase todos os pratos são temperados com cebola. É um grande incômodo para quem não aprecia o ingrediente. Ainda assim, alguém conhece alguma Sociedade dos Não Comedores de Cebola? Hoje em dia há cada vez mais celíacos, alérgicos a glúten, que também têm, por isso, muitas restrições alimentares. E, no entanto, onde está a Sociedade Celíaca? E a Sociedade Frutariana ou Sociedade Respiratoriana, por que não existem? É porque elas não têm razão de ser. A razão de ser do vegetarianismo é o respeito pelos animais. Sempre foi assim. Se hoje não é tanto, é por culpa de ninguém mais que não os próprios vegetarianos.

É chegada a hora de reverter esse quadro. Seja do ponto de vista ético, seja do estratégico, está claro que o vegetarianismo pela saúde é limitado, no seu alcance e seu conteúdo. Se precisamos de Congressos Vegetarianos, é porque ao menos numa coisa concordamos: na vontade de difundir o vegetarianismo. E, se vamos difundir o vegetarianismo, que seja pelos motivos verdadeiros. E que seja pelos motivos completos: aqueles que nos levam além do vegetarianismo, rumo ao veganismo.

OBS: esse texto traduz parte do que foi minha exposição no Congresso Vegetariano. As considerações mais extensas e, digamos, acadêmicas, levantadas por essa exposição, serão publicadas nas próximas semanas. No próximo texto, falarei de outro vegetarianismo muito comum: o holístico-esotérico.

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Artigos

Necrorexia

Criaram um termo, recentemente, para designar a preocupação obsessiva de certas pessoas com o conteúdo do seu prato: ortorexia. Esse termo faz par com anorexia, doença de ordem geralmente nervosa, que leva especialmente as mulheres a se recusarem a ingerir alimentos de qualquer natureza, por temor de ganharem peso, perderem a silhueta, ou de contraírem doenças.

Ortoréxica seria a pessoa que tem apetite somente pelas comidas “certas”. Na internet circulam textos falando da ortorexia como uma síndrome neurótica. E, para meu espanto, há quem cite os vegetarianos e veganos como exemplo de ortorexia. Mas o texto ao qual me refiro não para por aí. Desqualifica as pessoas que seguem as dietas acima, listando uma série de comportamentos doentios como características dessas pessoas, entre eles, a incapacidade para a convivência social, para estabelecer vínculos afetivos, e daí para pior.

Não fosse a internet uma rede que acolhe qualquer lixo, sem com isso desqualificar os trabalhos sérios que somente por existir a internet acabam sendo acessíveis a qualquer cidadã(o) brasileira(o), poderíamos nos sentir ameaçados com mais essa “descoberta” científica: a da síndrome da ortorexia. Vamos agora deixar de lado os casos de pessoas que têm na comida a única forma de expressão de seus males físicos e emocionais.  Essas precisam realmente de ajuda terapêutica. Mas esse não é o caso dos veganos.

Vamos seguir com a reflexão sobre a escolha dietética em si mesma. Todos pensamos que o que vimos comendo é algo “escolhido” por nós. Engano. O que estamos comendo com a maior naturalidade nos foi uma vez colocado no prato sem investigar nosso gosto e, menos ainda, nossa escolha moral. Comer, ao contrário do que se pensa, é um dos atos mais sérios da moralidade humana. Pois, também ao contrário do que parece ser pensado, comer pode implicar fazer mal a outros, além de fazer mal a si mesmo. E os outros aos quais podemos fazer mal ao comermos não são nossos familiares, mas os animais e ecossistemas naturais. É preciso perder a inocência ao comer. Bebês comem o leite materno. Essa inocência não precisa ser perdida. Os nutrientes do leite materno foram produzidos no corpo da mãe pelo estímulo da presença do bebê. Nada é tirado da mãe. Nada é devido pelo bebê. Quando ele termina de mamar, não há desequilíbrio, a menos que o organismo de sua mãe esteja desnutrido.

Mas, quando colocamos em nosso prato alimentos que só foram produzidos porque se causou dor, sofrimento e morte àqueles de quem tiramos a carne, o leite, os ovos, o mel, perdemos a inocência. Nosso ato de comer é o que dá origem à dor, sofrimento e morte de outros seres vivos, que, igualmente, só desejam uma coisa: continuar a viver e fazer isso em paz.

Quando se instalam na consciência os desdobramentos éticos da dieta que considera normal e desejável incutir nas pessoas a ideia de que não há maldade alguma no ato humano de comer, não há como voltar atrás e fingir que não sabemos o que estamos fazendo ao consumirmos alimentos de origem animal. O mesmo vale para alimentos de origem vegetal produzidos com agrotóxicos. O problema, em ambos os exemplos, não é apenas o da saúde dos comedores humanos. É o da destruição gratuita da vida animal e das condições ambientais do florescimento de todas as demais espécies vivas nesse planeta que nos foi dado habitar.

Se cuidar do que se põe no prato, tirando dele toda matéria de origem animal, é ortorexia (uma neurose), e se o resultado desse ato diário não priva o comedor humano de saúde, e, além disso, concede aos animais o direito de não serem mortos nem explorados para servir de alimento para humanos, então a ortorexia, ao contrário do que fazem pensar os textos que circulam na internet, deveria ser fomentada. Que todos, ao se alimentarem, busquem fazer isso de forma correta, ética, tanto em relação à natureza, quanto em relação aos animais, que todos se reeduquem para ter apetite apenas por alimentos limpos da dor e da morte animal.

Por outro lado, estranho que na internet não haja um artigo sequer tratando da necrorexia [do grego nekro, morto, cadáver; e orex, apetite], o apetite por alimentos mortos. Tal forma de expressão do apetite é que deveria estar sendo seriamente discutida na comunidade médica, entre os nutricionistas, e na mídia. Ninguém ergue a voz para falar da necrorexia. Comer comidas mortas, “múmias” ou comida mumificada, além de pedaços dos cortes feitos dos corpos dos animais mortos, e secreções das glândulas mamárias de fêmeas de outras espécies, não parece amedrontar ninguém, nem arrepiar os profissionais da saúde que se dizem tão preocupados com o destino do organismo humano afetado por doenças originadas da dieta morta.

Sugiro a todos os veganos que comecemos a questionar a necrorexia que assola o hábito alimentar e a dieta humana ao redor desse planeta. Assim, poderemos discutir a obsessão compulsiva dos comedores humanos por gordura saturada e transaturada, por carnes, açúcar e farinhas refinados, e assim por diante, alimentos sabidamente mortos. Em vez de desqualificar a escolha vegana das pessoas conscientes, seria mais produtivo tratarmos de analisar o apetite por comidas mortas, induzido pela propaganda massiva desses alimentos nos meios de comunicação em geral, e reforçado pelo cardápio necroréxico oferecido em praticamente todos os restaurantes, cafés e lanchonetes de nosso país.

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Questionando o Óbvio

Sobre o raciocínio ético: os conteúdos (Parte 6)

Na coluna anterior, após termos concluído que o benefício/malefício sobre os atingidos pelas nossas decisões deve ser o ponto central do raciocínio ético, preparamos terreno para investigar a possibilidade da existência de outros conteúdos válidos para a ética.

Abaixo, encontra-se uma lista de conteúdos que serão utilizados ao longo dessa análise. Estes, em meu entender, passam nos testes formais e são metas válidas para a moralidade (ainda que nenhum deles seja absoluto). E não são absolutos justamente porque um tipo de preocupação pode limitar os excessos de outra. Assim, nos comentários abaixo citarei algumas críticas quanto a essas metas, mas isso não significa que devamos descartá-las; significa apenas que essas críticas apontam os excessos que devem ser evitados na busca de tais metas.  

Vale lembrar que todos esses conteúdos precisam ser universalizados, ou seja, se alguém adota, por exemplo, o conteúdo do fomento da liberdade como meta da ética, só entra aquela liberdade que é conseguida sem impedir a liberdadede outros indivíduos, e, essa liberdade dos outros indivíduos deve seguir o mesmo critério. Se a meta é a autonomia, não pode violar outras escolhas autônomas universalizáveis; se a meta é a felicidade, não pode violar outras satisfações da felicidade que também são universalizáveis, etc. Seguem-se exemplos disso abaixo:

1) Satisfação/felicidade. A maioria dos filósofos não usa esses termos como sinônimos. Por falta de espaço, aqui, no entanto, serão utilizados assim. Tal preocupação pode ser dividida, de acordo com o que o agente terá de decidir, da seguinte maneira: (a) Não-maleficência: todos aqueles atos que visam não causar mal aos atingidos. Esse princípios diz respeito a algumas coisas que os agentes devem deixar de fazer (omissão), a fim de evitar causar danos. Os danos podem vir na forma de uma inflição de algo ruim, ou de uma privação de algo bom, sendo que na privação, não necessariamente há percepção do dano por parte do indivíduo prejudicado (como, por exemplo, quando alguém é assassinado enquanto está inconsciente). (b) Beneficência: envolve produzir um benefício, o que geralmente vêm com uma ação (mas também pode acontecer por parte de omissões). Pode ser dividida em: (b1) curar um dano já existente (b2) prevenir que novos danos aconteçam; (b3) restaurar um benefício que foi perdido; (b4) aumentar benefícios a partir do nível que estão.

Como vimos, a preocupação com a satisfação pode indicar limites em várias outras preocupações: (a) pode mostrar que seguir uma regra que cumpre os critérios formais causará mais danos do que benefício, em determinados casos, como vimos com o exemplo da regra “jamais tirar uma vida humana”; (b) pode mostrar que uma preocupação excessiva em fomentar a liberdade corporal pode trazer mais danos do que benefícios, caso outros interesses importantes não estejam sendo satisfeitos. Por exemplo, não é exatamente verdade que todos os casos de animais domesticados estariam melhor na rua, por estarem livres – a satisfação de outros interesses como viver livre de sofrimento, fome, frio, doenças, etc. poderiam estar em falta. (c) Pode mostrar que uma preocupação excessiva com satisfazer preferências pode danar estes mesmos indivíduos. Por exemplo, uma criança pode preferir brincar em um lugar onde poderá ser atropelada; (d) Uma preocupação excessiva com que “a justiça seja feita, sejá lá quais forem os custos” pode gerar conflitos futuros intermináveis, ainda piores; (e) Atos danosos podem vir de boas motivações (“de boas intenções, o inferno está cheio”) e alguns atos, mesmo com motivações ruins, podem causar benefícios. Contudo, um proponente do critério da satisfação reconheceria aqui que decisões movidas por motivações boas têm chances muito maiores de terminarem em boas conseqüências; (e) Uma preocupação excessiva com dizer a verdade pode ser a ruína do recebedor da verdade, como, por exemplo, quando contamos a alguém que está muito doente e isso afeta de tal modo seu estado psicológico que o impede de se recuperar.

2) Preferências: Pode ser extremamente difícil, em muitos casos, determinar o que vai fazer alguém feliz, ou o que vai aliviar seu sofrimento. Com base nisso, alguns filósofos sugerem que devemos perguntar a tal indivíduo o que ele prefere, independentemente de sabermos se isso será o melhor para ele a longo prazo ou não. Embora ajude em muitos casos, um problema com essa visão é que certamente certas preferências que dão satisfação a curto prazo causam sofrimento a longo prazo – como, por exemplo, fumar. Alguns autores, que vêem a satisfação de preferências como algo bom em si mesmo, dirão que é melhor permitir à pessoa satisfazer seu desejo por fumar, mesmo que isso venha lhe causar câncer. Outros, que vêem a satisfação de preferências como um caminho para garantir a felicidade, teriam de admitir que fomentar a preferência nesse caso não é caminho para fomentar a felicidade a longo prazo, ou, até mesmo, para fomentar outras preferências. Outro limite dessa visão é que existem indivíduos que sabemos que possuem preferências (crianças muito pequenas, animais não-humanos) mas não podem, em muitos casos, nos comunicá-las. Pode acontecer ainda, que eles nos comuniquem, mas certamente satisfazer tal preferência irá daná-los. Por exemplo, um cão que pede para ir brincar na rua, quando sabemos que certamente será atropelado.

3) Autonomia: Com base nos problemas da satisfação de preferências x satisfação da felicidade, alguns filósofos sugerem o seguinte: com relação a indivíduos que possuem capacidade para compreender e julgar as conseqüências de suas escolhas (possuem autonomia), devemos respeitar suas escolhas, mesmo que isso venha a lhes causar sofrimentos futuros; já indivíduos que estão destituídos de autonomia (temporariamente ou permanentemente), devemos adotar uma posição mais paternalista e buscar sua felicidade (o que, às vezes, irá nos colocar contra a sua satisfação de preferências quanto ao momento presente). Uma forte crítica a essa visão diz respeito à dificuldade de saber se alguém, mesmo sendo um humano adulto, compreende as conseqüências de suas escolhas e os possíveis danos envolvidos. Outra crítica diz respeito a algumas visões restringirem a moralidade ao respeito pela autonomia. Sabemos que alguém ter liberdade para fazer escolhas autônomas não é o bastante para alguém se sentir razoavelmente bem, pois todas as escolhas disponíveis podem ser muito ruins. Assim, muitos filósofos defendem que, além de respeitarmos a autonomia, teríamos deveres de, por exemplo, beneficência, ou seja, ajudar outros indivíduos. A autonomia, em alguns autores, aparece como sendo boa em si mesma (mesmo que não traga felicidade) ou como derivada da felicidade (“as pessoas se sentem melhor quando suas escolhas autônomas são respeitadas”).

4) Liberdade corporal. A liberdade corporal é vista, em alguns pensadores, como boa em si mesma; em outros, como condição para o fomento da felicidade. Os do primeiro tipo podem apontar que mesmo que, por exemplo, um animal não-humano seja extremamente feliz sendo cuidado por humanos, algo a que lhe é devido está faltando, que é viver solto, mesmo que isso for deixá-lo numa condição pior. Os do segundo tipo diriam que a liberdade corporal só é importante enquanto for condição necessária para a busca de satisfação e que, quando se torna um inferno (como pode ser o caso de um animal que viva livre mas não tenha o que comer, nem com quem se relacionar e esteja vulnerável a doenças ou predação), deixa de ser um bem. Como vimos, a do primeiro tipo entra em conflito direto com a exigência conseqüencial, por pretender ser independente de preferências, satisfação, felicidade, dos atingidos – portanto, deveria ser descartada.

5) Motivação correta. Como falamos, é possível causar um mal, mesmo tendo uma boa intenção. Contudo, não é verdade que o valor moral de uma decisão reside todo nas suas consequências. Se assim o fosse, uma ação que visa uma preocupação consigo próprio, e que por acaso evita a morte de alguém, seria tão recomendável quanto uma que tem realmente a intenção de evitar a morte desse alguém. Podemos citar como exemplo o veganismo motivado pela preocupação com a saúde do próprio agente e o veganismo motivado por evitar a morte dos animais. A preocupação com a motivação correta também pode estar sendo vista ou como boa em si mesma ou como fundada nas conseqüências. No primeiro caso, uma decisão que começa com uma intenção ruim já é errada. No segundo, aponta-se que é mais fácil resultarem boas conseqüências de boas intenções. Contudo, os defensores dessa última posição têm de admitir também que, se de uma intenção ruim estiverem saindo boas conseqüências, e a outra opção com boa intenção tiver conseqüências não tão boas, então a consequência boa da intenção ruim é melhor.

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Estudo revela que o vegetarianismo contribui para o bom humor

Por Rachel Siqueira  (da Redação)

A equipe de pesquisa da Universidade Estadual do Arizona (ASU) realizou um estudo para comparar o humor de vegetarianos com o humor de adultos saudáveis onívoros que consomem alimentos de origem animal. Um total de 143 adultos saudáveis, membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, residentes dos Estados de Arizona e Califórnia – 64 vegetarianos e 79 não vegetarianos – foram incluídos no estudo e completaram um questionário de histórico clínico, Questionário de Frequência Alimentar (QFA) e dois testes psicométricos: o “Depression Anxiety Stress Scale” (DASS) e o “Profile of Mood States” (POMS).

De acordo com esse estudo, publicado no site Natural Products Market Place, os vegetarianos apresentaram redução significativa do consumo médio de EPA, DHA e ácido ômega-6 araquidônico (AA) e maior consumo dos ácidos ômega-3 alfa-linolenico (ALA) e ômega-6 linoleico (LA). Além disso, vegetarianos relataram muito menos emoções negativas do que os onívoros, em ambos os testes psicométricos. A média de pontos totais psicométricos foi positivamente relacionada ao consumo médio de EPA, DHA e AA, e inversamente relacionada à ingestão de ALA e LA.

Pesquisadores obseravaram que estudos anteriores mostravam que o consumo elevado de LA e ALA pode inibir a formação de metabólitos de cadeia mais longa. Mais adiante, citaram um estudo recente que descobriu que o consumo elevado de ALA ajuda a reduzir a relação LA/ALA, que regulamenta a conversão de LA para o AA inflamatório.

A equipe de pesquisa observou uma grande limitação do estudo – a não medição de concentrações sanguíneas de ácidos graxos ou marcadores inflamatórios; porém, o uso do QFA é geralmente considerado eficaz ao avaliar a ingestão de ômega-3.

Pesquisadores acrescentaram que há também a possibilidade de que vegetarianos podem fazer melhores escolhas alimentares e geralmente ser mais saudáveis e felizes.

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Festival de filmes no Canadá debate meio ambiente e direitos animais

Por Karina Ramos (da Redação)

Como codiretora da edição deste ano do Animal Voices Film Festival, Michelle Hunsicker espera abrir os olhos dos estudantes.

“Nada do que fazemos está isolado. Seja em relação à decisão do que comer ou do que vestir, tudo afeta algo. Precisamos ser consumidores mais conscientes.”

Patrocinado pela “Speak Out For Species” (“Manifeste-se pelas Espécies”), o festival anual, que acontece no Canadá, é uma exibição de documentários sobre direitos animais.

Neste ano, a Speak Out For Species (SOS) apresentará vídeos sobre temas diversos, a exemplo de Chimpanzees, Lords of Nature, The Cove, Fowl Play e Dealing Dogs.

O filme Lords of Nature é sobre a extinção a curto prazo e o reaparecimento dos predadores naturais da América, como os lobos e os pumas.

The Cove é sobre a caça de golfinhos no Japão e a luta para acabar com essa prática.

Fowl Play investiga os bastidores de algumas das maiores indústrias de ovos, enquanto Dealing Dogs conta a história de C. C. Baird, um comerciante de cachorros.

“O festival exibe alguns dos mais importantes problemas ambientais enfrentados pela sociedade”, de acordo com Sheena Zhang, presidente da “Students for Environmental Action” (Estudantes pela Ação Ambiental”), que também patrocina o festival.

Para os interessados, a SOS fornecerá panfletos informativos em todas as exibições, além de ter um especialista que irá comentar os assuntos abordados com mais profundidade.

“Se você quiser saber a verdade, venha ver os filmes, pois eles não são fictícios”, disse Michelle. “São assuntos importantes, mesmo que sejam perturbadores”.

Reagan Bush, presidente de outro grupo patrocinador do festival, disse que assistiu a um dos vídeos e em seguida sentiu-se motivado a doar dinheiro para a organização envolvida no documentário e a falar mais alto pelos animais.

Fonte: Animal Concerns

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Ecologia Alimentar

“O alimento introduz-nos no complexo mundo regido pela economia das trocas simbólicas; adquire pois uma importância transcendente, como o perceberam uma variedade de pensadores; dos profetas bíblicos aos modernos filósofos (incluindo aqueles dois arautos da modernidade, Marx e Freud), todos se deram conta desta verdade elementar: o relacionamento homem-mundo é um relacionamento oral” – Moacyr Scliar (médico e escritor).

O apetite é, antes de tudo, um instinto. Animais humanos e não humanos precisam comer para sobreviver, assim como é necessário respirar, beber, dormir. Todos necessitam de comida, mas o ser humano é o único animal que alia preferências gustativas às suas necessidades nutricionais. Além disso, é o único animal que cozinha os alimentos – e, a culinária transformou-se num símbolo, algo que distingue (?) a espécie humana das demais espécies.

O apetite é um instinto tão poderoso que, uma pessoa faminta não consegue pensar em outra coisa senão em comida. Foi o apetite que espalhou a humanidade pelo mundo e que possibilitou a civilização, a cultura e a industrialização.
Mas, os animais humanos, ao longo de sua evolução, transformaram o ato de comer em algo muito mais significativo que a mera satisfação de uma necessidade básica: comer é prazer – é uma das mais ricas experiências sensoriais que podemos ter. Comer é também um ato emocional que, traz conforto, tranqüilidade. A alimentação tornou-se um ritual, variando de cultura para cultura, mas assumindo, quase sempre, uma atividade em grupo. Nossa sociedade se mobiliza em torno da comida.

O homem necessita de comida e, foi determinante na introdução e  desenvolvimento dos alimentos que integram sua dieta,  seja pela seleção de vegetais, frutas, etc. , seja pela domesticação de espécies animais.

Na pré-história não havia lavouras. Para comer, era necessário caçar ou coletar plantas, raízes e frutas. Além do esforço exigido para realizar essas atividades, o homem primitivo precisava migrar a cada estação, em busca do alimento.

Com o advento da agricultura e a domesticação de alguns animais há cerca de dez mil anos, o ser humano conseguiu estabelecer-se. A tarefa de alimentar-se se tornou menos exaustiva e, os períodos de escassez diminuíram consideravelmente. E, o homem aprendeu a estocar alimentos, salgando-os, secando-os, defumando-os.

Mas as mudanças mais expressivas ocorreram nos últimos mil anos. Evolução tecnológica e científica, urbanização, industrialização e automação foram tornando os alimentos cada vez mais variados e disponíveis.

Os avanços alimentares nos últimos duzentos anos foram essenciais para o desenvolvimento da civilização. É possível que a proliferação da espécie humana no Planeta, deva-se ao fato da dominação de técnicas de produção e distribuição de alimentos.

Mas, será tudo isso um “progresso real”?  Quais os efeitos colaterais? Quais os custos?  Estamos esgotando os recursos naturais, a água potável, dizimando outras espécies animais – tudo para nosso conforto, nossa “satisfação” gustativa.  Isso não é progresso, não é avanço. Para que a existência tenha sentido, é fundamental que os conceitos de progresso estejam atrelados a  percepções e compromissos em outras áreas e que respeitem a vida – são os princípios ecológicos na alimentação.

O princípio mais elementar, mais básico, diz respeito à sensibilidade para com as outras formas de vida – nossa relação com outros seres vivos e a sua utilização como alimento. O abate animal envolve dor e violência. O princípio holístico de compromisso com a vida envolve integração e compaixão. A postura contra a violência deve traduzir-se na incompatibilidade, na incongruência do consumo de carnes – qualquer carne. A abstenção da carne não é uma restrição alimentar, uma dieta – torna-se um ideal. Para o vegetariano, não comer carne é uma das leis da própria existência, lei fundamental para que esta se mantenha. Deve-se ser holístico, na compreensão de que as ações (também o ato de comer) refletem nossa posição em relação à vida e ao mundo como um todo. Temos liberdade que, nada mais é do que a consciência das alternativas e das possibilidades das escolhas. A liberdade é, na realidade, uma das contingências da consciência. Liberdade de escolha é estar vinculado ao fluxo da vida e à nossa própria integridade. Aquilo que ingerimos passa a fazer parte de nós – temos a liberdade, a capacidade de escolher não ingerir dor nem violência. É uma responsabilidade que, devemos ter conosco.  A alimentação é nosso maior comprometimento com nossos corpos e com nossas almas.

Outro princípio ecológico na alimentação é a noção de excesso. Todo e qualquer desperdício é contrário à idéia de manutenção da vida. Nenhum alimento deve ser desperdiçado.

Vivemos numa sociedade “acostumada” ao desperdício: jogamos fora bens de consumo, energia, comida. Quanto mais rica e consumista a sociedade, mais ela desperdiça. Porém, o desperdício está diretamente ligado à fome e ao desemprego no mundo.

No Brasil, de acordo com a ONG “Prato Cheio”, cerca de 30% dos alimentos que poderiam ser utilizados de outra forma, vão para o lixo. E, o processo de perda de produtos tem início logo após a colheita, na zona rural, pois os alimentos são acondicionados de qualquer forma, em embalagens não apropriadas. O Brasil joga fora a cada ano, R$12 bilhões. Essa quantia daria para alimentar trinta milhões de seres humanos durante um ano, segundo estimativas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. E, o mais chocante é que, desperdício, pode ser evitado: basta decisão e organização para isso.  Desperdício é falta de respeito para com o alimento, que é o mantenedor da vida .

O “progresso” a todo custo está nos cobrando um altíssimo preço: nosso planeta, nossas vidas e nossas consciências. E, o que fazer, diante de um quadro tão complexo?

A resposta simples, porém incômoda, é que a solução depende de cada um de nós. Precisamos entender e aceitar as limitações de nossos corpos e mentes e, saber abrir mão da sedução de “prazeres” que a “evolução” nos levou a desejar, como um canto de sereia.

Temos que parar de viver irresponsavelmente – o “churrasco” foi um animal, um irmão de jornada; nosso desperdício alimentar está matando milhares de pessoas de fome. Nossa forma de viver, de comer, há muito deixou de ser privada, para sentenciar toda a vida no Planeta. Nossas ações atuais vão decidir se teremos ou não um amanhã, como espécie. O que, talvez nos falte, sejam sabedoria, disciplina, compaixão e discernimento para compreendermos que o grande banquete é o da celebração da continuidade da vida.  

Dicas para combater o desperdício de alimentos: www.natureba.com.br

“Planeje as compras verificando o que já tem em casa. Opte pelo essencial.
Faça uma lista e siga-a. Procure fazer as compras após as refeições.
Compre verduras, legumes e frutas semanalmente.
Não se importe com pequenas imperfeições destes alimentos.
Adquira na quantidade de consumo da sua família.
Coma primeiro as frutas mais maduras.
Prepare salada de frutas, vitaminas, aproveitando os alimentos disponíveis com criatividade.
No preparo, procure aproveitar integralmente os alimentos, sempre que possível.
Cascas de abacaxi viram suco, talos de verduras enriquecem tortas, sopas, arroz, risotos, etc.
Procure colocar no prato somente o que pretende comer. Repita se necessário.
Prefira produtos da estação. São mais baratos e saborosos.
Procure comprar produtos da região. Isto ajuda a diminuir a poluição e as perdas causadas pelo transporte da mercadoria.
Não compre alface, cenoura e outros alimentos para ficarem esquecidos e velhos na gaveta da geladeira.

E mais:

Descarte os alimentos separadamente (lixo orgânico) de outros resíduos como papel, plástico, vidro, metal e outros.
Habitue-se a ler os rótulos dos produtos: prazo de validade, informações nutricionais, calorias, ingredientes, tipos de gorduras, etc.
A natureza oferece alimentos que podem ajudar na saúde, boa forma e longevidade.
Procure optar por alimentos e sucos naturais. São nutritivos e geram menos lixo
Frutas, verduras, nozes, sementes, cereais e farinhas integrais são ricos em fibras que ajudam no funcionamento do intestino.
Evite consumir produtos industrializados com excesso de açúcar, sal, gorduras saturadas ou produtos químicos (conservantes, corantes, aromatizantes, antioxidantes, estabilizantes, etc).
Em casa faça a “propaganda” das frutas, verduras e legumes para as crianças aprenderem a fazer escolhas alimentares saudáveis.
Orgânico ou convencional, todo alimento vindo da feira deve ser muito bem lavado antes do consumo”.

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Cotidiano Vegano

Para os que criticam os vegetarianos

Assim como para alguns ser vegetariano é estar na moda, para outros a moda é criticar vegetarianos.

O vegetarianismo é um comprometimento interno com relação ao direito dos animais à vida. Somos vegetarianos para e pelos animais. No entanto, ao se dar esse acordo íntimo, não nos tornamos perfeitos nem adquirimos uma excelência ética. Fazemos uma escolha porque somos impelidos a agir dessa forma.

Existem vegetarianos que exploram pessoas, que não cooperam com o outro, que puxam tapetes, que mentem descaradamente. Assim como existem espíritas ou religiosos munidos de discursos recheados de paz, mas que em casa fazem exatamente o oposto do que pregam dentro dos templos de oração.

Nenhuma doutrina ou orientação ética nos tirará de nossa natureza humana e falível, ainda mais quando formos hipócritas. Portanto ninguém deve se achar mais que ninguém por uma escolha ou por outra. O que devemos a nós mesmos é estar em pleno acordo com o que fazemos a nós e ao mundo. O que devemos ao mundo é agirmos com verdade.

Mas, ainda que levados por motivações pacíficas, somos frequentemente atacados por conta das escolhas que fazemos. Quem nunca ouviu uma crítica incomodadíssima vindo em forma de ironia de alguém da família tentando desafiar a validade e a coerência da sua escolha pelo vegetarianismo?

Comentário                                                                                                    Fala implícita
“Mas e o brócolis?”                                                                                         “Você é uma farsa”
“Fulano é vegetariano mas trata muito mal as pessoas”                  “O vegetarianismo é uma farsa”

Sabemos que a melhor forma de se proteger de mudar é atacando. E, ao que me parece, os que estão sempre prontos para criticar os vegetarianos o fazem com uma intenção oculta e perversa: a de desqualificar uma escolha legítima, fundamentada na paz.

Temos dedos apontados para nossas escolhas o tempo todo: por familiares, amigos, piadas vindas de todos os lados. Mas saibamos que, para mantermos nossa integridade, precisamos respeitar e sermos respeitados. A minha escolha pela não violência jamais pode ser distorcida para um gesto incongruente e desprovido de valor – como querem fazer parecer os críticos de plantão.

Cuidemos das nossas escolhas, sabendo que temos ainda muitos patamares para alcançar, mas cientes de que qualquer gesto pela paz não pode ser tratado como uma escolha fútil.

Os vegetarianos já devem saber que por serem vegetarianos não vão se redimir de seus defeitos. Mas sabem também que estão fazendo um pouquinho da sua parte no que diz respeito aos direitos de todos os animais – que tanto sofrem pelas mãos e mentes humanas.

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Estudante de gastronomia fala sobre os desafios de ser vegana e cursar culinária

Stella Aragão, nascida em Volta Redonda, no interior do RJ, é uma jovem vegana que está cursando o segundo semestre de gastronomia. Ela conta que é vegan há, aproximadamente, um ano e meio, e que, na verdade, nunca imaginou tornar-se vegana ou vegetariana, pois gostava muito de comer carne.

Ela fala com muita naturalidade sobre a transição que vivenciou até se tornar vegana e nos conta sobre os desafios enfrentados como estudante de gastronomia adepta da alimentação ética:

“Um dia eu percebi que ter vontade de comer carne é normal, e eu tenho até hoje, não sou do tipo de pessoa que fala que tem nojo, porque seria mentira, a diferença é que hoje eu sei que é errado, e não como por isso, essa ideia já está formada na minha cabeça, e eu sei que para me alimentar não preciso do sofrimento de nenhum animal.

(Imagem: Reprodução/MTV)
(Imagem: Reprodução/MTV)

Eu sempre gostei muito de culinária, principalmente a culinária natural, crudívora e vegana, sou muito fã de saladas. Já tinha pensado em cursar gastronomia antes, mas achava que não daria certo porque minha ideologia é muito diferente do que ensinam na faculdade. Um dia meu pai, que é médico, me disse que ele também teve que passar por muitas coisas na faculdade de medicina que provavelmente ele não usaria em sua carreira profissional, ou iam contra sua ideologia, como testes em animais, mas ele disse que se nós queremos que o mundo conheça e veja nossas idéias e formas de pensar, devemos batalhar por isso.

Hoje meu pai é coordenador do curso de medicina de Volta Redonda e a faculdade onde ele trabalha não realiza teste em animais. Isso ajudou em minha escolha, me mostrou que um dia, eu também posso estar contribuindo para a causa que eu acredito. Fiz o vestibular para gastronomia, e ganhei bolsa de 55%, outro fator que me ajudou muito também, me mudei para São Paulo em janeiro de 2009 e moro aqui desde então.

No primeiro semestre, nós não mexemos muito na cozinha, porque ainda não temos técnica e prática, temos mais aulas sobre empreendimentos, estocagem, segurança e higiene. Mas já tive que cozinhar frango várias vezes, ou preparar caldos e sopas que levam bacon, manteiga e paio. Me mantenho firme na hora do preparo, não experimento ou degusto, mesmo que a professora dê a entender que ela não gosta da minha posição, já até declarei na sala de aula que se eu tiver que escolher entre minha ideologia ou minha formação acadêmica, escolherei sem dúvidas a minha ideologia.

Já sofri várias discriminações por ser vegan, tanto de alunos quanto de professores, alguns colegas de sala fazem piadinhas ou tentam me provocar, como uma menina que fiscaliza tudo que eu posso degustar nas aulas práticas rindo, e disse que ela faz isso porque acha engraçado eu ser diferente. Uma professora já levou um texto para sala de aula e leu falando que era para mim, dizendo que os vegetarianos são frouxos e se acham superiores, que são pessoas pretensiosas, respondi a ela que somos superiores sim, pois somos mais evoluídos, não ficamos parados e deixamos tudo como está.

Nós lutamos pela melhora e pela mudança.

Outras professoras simplesmente falam que minha formação será precária, porque a degustação é muito importante para a formação, mas eu penso que aprendendo as técnicas e tendo prática, vou poder usar meus conhecimentos de forma a não prejudicar nenhum animal e trabalhar sem crueldade.

Infelizmente sou a única vegan da minha turma, as pessoas que estudam comigo ainda têm pensamentos conservadores e ultrapassados demais, uma vez uma menina disse que os animais são sujos. Pessoas assim são difíceis de conversar, prefiro não falar nada para alguém com um pensamento desses.

Eu pretendo sempre trabalhar com culinária vegan, e extraindo tudo que acho importante e útil das aulas para usar no meu trabalho. O veganismo é uma causa muito bonita, da qual eu tenho orgulho de pertencer.”

Com informações da MTV

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