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Morte de cão envenenado por cianeto desperta indignação nos EUA

Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

Foto: Theresa Mansfield

Um menino e seu cachorro, Casey, estavam passeando perto de sua residência em Pocatello, Idaho (EUA), quando aconteceu algo inimaginável.

Canyon Mansfield , de 14 anos, notou algo a cerca de meio pé do chão. Quando ele o tocou, houve um estalo e um pó laranja disparou. Canyon pulou aterrorizado. Ao procurar seu cão leal, percebeu que ele estava caído no chão.

“Ele simplesmente ficou no chão balbuciando. Pensei que estava brincando com seu brinquedo, mas vi o brinquedo a alguns metros dele. Chamei-o novamente e fiquei muito assustado”, disse Canyon ao Iowa State Journal.

Canyon correu e segurou-o, notando que algo estava terrivelmente errado. “[Eu] vi essa espuma vermelha saindo de sua boca e seus olhos ficando vítreos”, contou.

Ele correu colina abaixo para pedir ajuda e, quando ele e seus pais retornaram alguns minutos mais tarde, Casey estava morto.

Foto: Theresa Mansfield

Posteriormente, a família descobriria que o cão de três anos tinha sido envenenado por um M44, uma armadilha de cianeto que foi produzida pelo governo dos EUA para matar coiotes, atraindo-os por meio de iscas perfumadas.

“M44s são incrivelmente perigosas por natureza”, declarou Brooks Fahy, diretora executiva da Predator Defense, uma organização sem fins lucrativos com sede em Eugene, Oregon, ao The Dodo.

“Eles colocaram uma fragrância de um coiote no cio ou outro cheiro que faz o animal querer agarrar a M44 – e todos os coiotes, lobos, são atraídos por ele, eles puxam e é quando ocorre o disparo. Crianças e [outras] pessoas são curiosas. É como colocar uma arma carregada sobre uma mesa”, alertou.

Foto: Theresa Mansfield

Casey está entre as últimas vítimas dos milhares de animais mortos involuntariamente pelo Serviço de Vida Selvagem dos EUA, um braço do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) que mata milhões de animais selvagens a cada ano para dar mais espaço para indústrias como a agropecuária.

Mais de 3.400 animais foram mortos acidentalmente por M44s entre 2006 e 2012, incluindo ursos negros, linces, guaxinins, gambás, corvos e raposas, assim como cães e essa taxa é apenas o que a agência reportou. Fahy suspeita que o número verdadeiro é ainda maior.

O envenenamento por cianeto estrangula as células, impossível a absorção de oxigênio e sufoca essencialmente qualquer animal, provocando sua morte.

Houve pouco tempo para lamentar a morte de Casey porque Canyon teve que salvar sua própria vida. Seu pai, um médico, e sua mãe o mandaram tirar suas roupas, cobertas de pó laranja e ele foi levado para o hospital. Felizmente, a família acredita que Canyon estava na direção contrária do vento que soprou o pó venenoso. Ele sobreviveu, mas está traumatizado.

“Meu filho Canyon, que testemunhou tudo, está realmente lutando com o que aconteceu. Não me sinto segura, sinto como se existisse um terrorismo em meu próprio quintal, do próprio governo”, disse Theresa Mansfield.

A família Mansfield não fazia ideia da localização dos dispositivos, a apenas 350 jardas de sua residência e eles não foram os únicos. Nem mesmo o xerife do condado tinha conhecimento sobre os dispositivos e como eles são perigosos.

Foto: Theresa Mansfield

Os Mansfields dizem que também não houve nem sinais de alerta e eles nunca foram notificados sobre a presença dos M44s. Foi relatado mais tarde que dois M44s, incluindo aquele que matou Casey, foram colocados na área próxima à casa dos Mansfield no dia 25 de fevereiro.

“Os Serviços de Vida Selvagem do APHIS confirmam a morte não intencional de um cão em Idaho”, disse um porta-voz do USDA em uma declaração. A agência afirmou ter removido os outros M44 “naquela área imediata” enquanto conduzia uma investigação sobre o incidente.

Quando a reportagem perguntou se o USDA emitiria um pedido de desculpas à família, um porta-voz respondeu: “Estamos preocupados com o indivíduo que pode ter sido exposto ao cianeto de sódio quando seu cão ativou o dispositivo M44. Os relatórios iniciais indicaram que ele foi examinado em um hospital local e liberado sem sintomas e estamos esperançosos que eles sejam verdadeiros. Consideraremos esta possível exposição com muita seriedade conforme realizarmos uma revisão completa deste incidente”.

“É algo tão perto da minha casa e levou a vida do meu cão e poderia ter levado meu filho”, desabafou Theresa.

Foto: Theresa Mansfield

Agora ela espera que sua história ajude a tornar os M44 ilegais. “É uma maneira brutal de matar”, ressaltou.

Embora a família Mansfield tenha aprendido da maneira mais difícil sobre esses dispositivos, algumas pessoas têm lutado para proibir M44s há anos e elas alertam que uma mera investigação sobre este último incidente simplesmente não é suficiente.

“Esta é mais uma demonstração do que temos dito há décadas – os perigos dos M44 que são essencialmente minas terrestres esperando para atingir um cão, espécies ameaçadas de extinção ou uma criança”, disse Fahy. Ele estima que centenas e até milhares de cães foram mortos por esses dispositivos. “Isso acontece o tempo todo”, destacou.

O deputado americano Peter DeFazio (D-OR) apresentou um projeto de lei no passado buscando tornar esses dispositivos ilegais e espera-se que ele continue seu trabalho após esse incidente trágico.

Foto: Predator Defense

“Tenho tentado proibir o uso indiscriminado de dispositivos como o M44 há décadas. O uso deste dispositivo pelos Serviços de Vida Selvagem já matou cães domésticos e, mais cedo ou mais tarde, matará uma criança”, disse DeFazio em uma declaração recentemente.

Enquanto o USDA alega que a morte de um cão devido ao M44 é uma ocorrência relativamente rara – a última vez que um animal em Idaho morreu acidentalmente dessa forma ocorreu em 2014.

“M44s são um terrível dispositivo para matar coiotes com o envenenamento por cianeto, que é uma maneira dolorosa e doentia de morrer”, afirmou Noah Greenwald, diretor de espécies ameaçadas no Centro de Diversidade Biológica, após um raro lobo ser morto pelo dispositivo em Oregon.

Somente em 2016, os Serviços de Vida Selvagem mataram intencionalmente 76.859 coiotes; 12.511 foram mortos por M44s. Isso é uma média de 34 explosões propositais diárias de M44s. Pelo menos sete animais domésticos ou vacas foram mortos por M44s no ano passado, embora o USDA não especifique de que espécie eles eram. Vinte e dois cães que a agência afirma serem “selvagens, livres e híbridos” também foram assassinados.

Foto: Theresa Mansfield

Poucos dias antes de Casey ser morto, dois outros cães domésticos também foram assassinados por um M44 em Wyoming, no dia 11 de março, ainda que o USDA diga que este não era um de seus dispositivos. Em ambos os casos, Fahey afirma que as armadilhas devem ser banidas.

Até que isso aconteça, outros animais e pessoas continuam em risco e a família Mansfield tenta lidar com sua perda. A roupa que Canyon vestia quando o M44 explodiu ainda está em um saco do lado de fora da residência e é um lembrete constante da tragédia.

“Nós não estamos lidando muito bem, estamos muito tristes”, confessou Theresa, acrescentando que culpa o USDA por não assumir a total responsabilidade pelos perigos dos M44.

“Sinto que eles não se importam pelo fato de isso ser uma bomba e provavelmente estão preocupados por estarem com problemas, mas não estão dispostos a mudar essas bombas. Eles podem machucar crianças e cachorros. Essa é a coisa mais difícil”, apontou.

“Nosso Casey era tão importante. Ele era o cachorro de todos, o melhor amigo do meu filho, o companheiro de corridas de minha filha. Acho que, de certa forma, você se sente violada. Nem sabíamos que existia algo assim”, concluiu.

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