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Eco-economia e a cultura de consumo

É culturalmente aceito o papel central da mídia como mediadora dos vários campos do conhecimento na contemporaneidade. Com o fenômeno da midiatização, basta que os fatos sejam noticiados – passando pelos diversos filtros de linhas editorias; conhecimento maior ou menor dos temas por pauteiros, repórteres e editores; além de suas opiniões pessoais forjadas pela pressa e falta de aprofundamento cultural em várias áreas – para que se consolide determinado ponto de vista. Nesse sentido, não raro percebemos um tipo de postura “jornalística” que legitima as barbáries ocorridas em laboratórios contra os direitos dos animais. Não é de espantar que a bioética seja hoje um tema cada vez mais requisitado no debate temático sobre os direitos animais, tendo à frente as vozes de importantes autores como Tom Regan, Peter Singer e com reconhecida contribuição de estudiosos brasileiros, como é o caso a pesquisadora Sônia Felipe.

Na última semana, determinado programa de televisão exibia os resultados de uma pesquisa feita em laboratório que pretende demonstrar o poder da mente. Para isso, o repórter optou pelo próprio laboratório como cenário, entrevistou o pesquisador, mas, em vez de mostrar a macaca utilizada no estudo, citava que o animal estava numa cadeira. A presença do repórter deveria nos garantir que a situação era verdade, pois como só foi mostrado o espaldar alto de uma cadeira, ali deveria estar o animal. A imagem mostrada sobre a experiência não era uma filmagem do animal “trabalhando”, ou seja, exercendo sua “função” forçada em nome da ciência, que no caso é andar numa esteira. Para ilustrar a voz em off da reportagem, foram usadas imagens em animação, recriadas por computador. Pois é exatamente sobre essas “pequenas” omissões jornalísticas, que intencionalmente visam promover a ciência – e o ego do “divulgador” científico que se coloca num lugar de fala mediador entre a poesia e a filosofia – que deposito minha indignação.

Primeira pergunta: por que não foi mostrado o animal sem amarras andando normalmente e feliz pelo laboratório, já que aquele é o único “lar” que conheceu durante toda a sua vida? Em segundo lugar, porque o repórter tomou a decisão de não mostrar o animal sob nenhum ângulo? Será que houve algum tipo de censura moralista em sua postura que previu a possível – e bem provável – antipatia imediata que causaria no telespectador a imagem de um animal com o topo do crânio decepado, talvez cheio de bandagens e um microchip instalado em seu cérebro aberto ligado a uma quantidade enorme de cabos e eletrodos? Será que o repórter pensou numa possível associação pública da experiência científica com o filme Hannibal, the cannibal? Será que a imagem da realidade do (ab)uso de animais nos laboratórios causaria comoção e provocaria a fúria de telespectadores que entupiriam a emissora com mensagens de protesto pelo incentivo a essas práticas?

Mas esse não foi o único exemplo do que chamo de “ego-economia” da mídia, difundindo uma pretensa unanimidade inquestionável sobre o uso de animais em laboratórios. Na mesma semana, outra reportagem exibia como verdades absolutas as desventuras científicas dos animais, citando cobaias para uma experiência que pretende encontrar a cura para doenças degenerativas musculares. Dois ratos eram mostrados tentando agarrar-se a um fio, ambos afirmadamente portadores de tal condição física. Apenas um deles havia sido submetido a determinado tratamento e, de acordo com a reportagem, só ele conseguia segurar-se no fio por essa razão. A imagem mostrava um rato tentando segurar-se e caindo enquanto o outro era bem-sucedido em seu intento. O comentário do apresentador do programa não poderia ser mais parcial e entusiasta dos maus-tratos aos animais em favor da ciência: “Vem coisa boa por aí!”, concluiu, ao vivo, o jornalista.

Novamente, mais perguntas: como se obtêm ratos com doenças degenerativas? Compram-se animais a granel com qualquer anomalia – encomenda-se por e-mail ou telefone? –, ou os cientistas têm realmente a permissão inata, que estaria acima do direito dos animais, de promover mutações genéticas em cobaias? Nesse caso, qual a possível quantidade de animais reproduzidos para uma única experiência? Pois, evidentemente ninguém vai acreditar que foram apenas dois os rebentos defeituosos “gerados”. E mais: quantas milhares de vezes uma cobaia precisa espatifar-se para se conseguir uma boa imagem para uma reportagem televisiva ou um resultado de uma pesquisa científica?

Ego-economia midiática

Exemplos de abordagens como estas dadas pela mídia dizem respeito à vida e aos direitos dos animais e reforçam a idéia do especismo. Também apontam para mais um grande erro de uma sociedade voltada para o consumo e que esquece o debate sobre a ética. Apesar de tais exemplos serem ainda muito discretos sobre o que ocorre por trás das portas dos laboratórios, percebe-se que o discurso do crescimento econômico vem acoplado às idéias de uma ciência metodologicamente antiética. Esses dois casos dão uma idéia da clara posição ideológica da grande mídia de que o uso de animais não deve ser questionado, que a sua exploração para qualquer fim é inata e justificada pela superioridade e autonomia intelectual humana e que a engrenagem da “indústria econômica” vinculada à saúde e à criação de novas drogas precisa ser movida pela dor e sofrimento animais.

O que a mídia parece descartar sob as intenções comerciais de seu ego científico são as palavras simples de uma grande obra de Peter Singer, no livro Libertação Animal. Talvez com mais informações sobre bioética a imprensa aprenderia a se demover do pensamento puramente econômico e predatório. “Os animais, eles mesmos, são incapazes de exigir sua própria libertação ou de protestar contra as condições com votos, demonstrações ou boicotes. Os seres humanos têm o poder de continuar a oprimir outras espécies para sempre, ou até tornar este planeta inadequado para seres vivos. Continuará a nossa tirania a provar que a moralidade de nada vale quando se choca com o interesse pessoal, como sempre afirmaram os mais cínicos poetas e filósofos?”

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A ego-economia do discurso midiático e a banalização da vida animal

É culturalmente aceito o papel central da mídia como mediadora dos vários campos do conhecimento na contemporaneidade. Com o fenômeno da midiatização, basta que os fatos sejam noticiados – passando pelos diversos filtros de linhas editorias; conhecimento maior ou menor dos temas por pauteiros, repórteres e editores; além de suas opiniões pessoais forjadas pela pressa e falta de aprofundamento cultural em várias áreas – para que se consolide determinado ponto de vista. Nesse sentido, não raro percebemos um tipo de postura “jornalística” que legitima as barbáries ocorridas em laboratórios contra os direitos dos animais. Não é de espantar que a bioética seja hoje um tema cada vez mais requisitado no debate temático sobre os direitos animais, tendo à frente as vozes de importantes autores como Tom Regan, Peter Singer e com reconhecida contribuição de estudiosos brasileiros, como é o caso a pesquisadora Sônia Felipe.
Na última semana, determinado programa de televisão exibia os resultados de uma pesquisa feita em laboratório que pretende demonstrar o poder da mente. Para isso, o repórter optou pelo próprio laboratório como cenário, entrevistou o pesquisador, mas, em vez de mostrar a macaca utilizada no estudo, citava que o animal estava numa cadeira. A presença do repórter deveria nos garantir que a situação era verdade, pois como só foi mostrado o espaldar alto de uma cadeira, ali deveria estar o animal. A imagem mostrada sobre a experiência não era uma filmagem do animal “trabalhando”, ou seja, exercendo sua “função” forçada em nome da ciência, que no caso é andar numa esteira. Para ilustrar a voz em off da reportagem, foram usadas imagens em animação, recriadas por computador. Pois é exatamente sobre essas “pequenas” omissões jornalísticas, que intencionalmente visam promover a ciência – e o ego do “divulgador” científico que se coloca num lugar de fala mediador entre a poesia e a filosofia – que deposito minha indignação.

Primeira pergunta: por que não foi mostrado o animal sem amarras andando normalmente e feliz pelo laboratório, já que aquele é o único “lar” que conheceu durante toda a sua vida? Em segundo lugar, porque o repórter tomou a decisão de não mostrar o animal sob nenhum ângulo? Será que houve algum tipo de censura moralista em sua postura que previu a possível – e bem provável – antipatia imediata que causaria no telespectador a imagem de um animal com o topo do crânio decepado, talvez cheio de bandagens e um microchip instalado em seu cérebro aberto ligado a uma quantidade enorme de cabos e eletrodos? Será que o repórter pensou numa possível associação pública da experiência científica com o filme Hannibal, the cannibal? Será que a imagem da realidade do (ab)uso de animais nos laboratórios causaria comoção e provocaria a fúria de telespectadores que entupiriam a emissora com mensagens de protesto pelo incentivo a essas práticas?

Mas esse não foi o único exemplo do que chamo de “ego-economia” da mídia, difundindo uma pretensa unanimidade inquestionável sobre o uso de animais em laboratórios. Na mesma semana, outra reportagem exibia como verdades absolutas as desventuras científicas dos animais, citando cobaias para uma experiência que pretende encontrar a cura para doenças degenerativas musculares. Dois ratos eram mostrados tentando agarrar-se a um fio, ambos afirmadamente portadores de tal condição física. Apenas um deles havia sido submetido a determinado tratamento e, de acordo com a reportagem, só ele conseguia segurar-se no fio por essa razão. A imagem mostrava um rato tentando segurar-se e caindo enquanto o outro era bem-sucedido em seu intento. O comentário do apresentador do programa não poderia ser mais parcial e entusiasta dos maus-tratos aos animais em favor da ciência: “Vem coisa boa por aí!”, concluiu, ao vivo, o jornalista.

Novamente, mais perguntas: como se obtêm ratos com doenças degenerativas? Compram-se animais a granel com qualquer anomalia – encomenda-se por e-mail ou telefone? –, ou os cientistas têm realmente a permissão inata, que estaria acima do direito dos animais, de promover mutações genéticas em cobaias? Nesse caso, qual a possível quantidade de animais reproduzidos para uma única experiência? Pois, evidentemente ninguém vai acreditar que foram apenas dois os rebentos defeituosos “gerados”. E mais: quantas milhares de vezes uma cobaia precisa espatifar-se para se conseguir uma boa imagem para uma reportagem televisiva ou um resultado de uma pesquisa científica?

Ego-economia midiática

Exemplos de abordagens como estas dadas pela mídia dizem respeito à vida e aos direitos dos animais e reforçam a idéia do especismo. Também apontam para mais um grande erro de uma sociedade voltada para o consumo e que esquece o debate sobre a ética. Apesar de tais exemplos serem ainda muito discretos sobre o que ocorre por trás das portas dos laboratórios, percebe-se que o discurso do crescimento econômico vem acoplado às idéias de uma ciência metodologicamente antiética. Esses dois casos dão uma idéia da clara posição ideológica da grande mídia de que o uso de animais não deve ser questionado, que a sua exploração para qualquer fim é inata e justificada pela superioridade e autonomia intelectual humana e que a engrenagem da “indústria econômica” vinculada à saúde e à criação de novas drogas precisa ser movida pela dor e sofrimento animais.

O que a mídia parece descartar sob as intenções comerciais de seu ego científico são as palavras simples de uma grande obra de Peter Singer, no livro Libertação Animal. Talvez com mais informações sobre bioética a imprensa aprenderia a se demover do pensamento puramente econômico e predatório. “Os animais, eles mesmos, são incapazes de exigir sua própria libertação ou de protestar contra as condições com votos, demonstrações ou boicotes. Os seres humanos têm o poder de continuar a oprimir outras espécies para sempre, ou até tornar este planeta inadequado para seres vivos. Continuará a nossa tirania a provar que a moralidade de nada vale quando se choca com o interesse pessoal, como sempre afirmaram os mais cínicos poetas e filósofos?”

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