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Governo exonera chefes da fiscalização do Ibama que coordenaram ação contra garimpo

Reprodução/Ibama

Duas semanas após coordenarem uma operação contra garimpos ilegais em terras indígenas no sul do Pará, dois chefes do setor do Ibama responsável por executar grandes operações de repressão a crimes ambientais no Brasil foram exonerados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e pelo presidente do Ibama, Eduardo Bim. As exonerações foram publicadas na madrugada desta quinta-feira (30) no Diário Oficial.

As ações executadas pelos servidores concursados Renê Luiz de Oliveira, coordenador-geral de fiscalização ambiental, e Hugo Ferreira Netto Loss, coordenador de operações de fiscalização, visavam garantir a proteção dos indígenas, impedindo que o coronavírus os atingisse através do contato com garimpeiros.

Para ocupar o cargo de Oliveira, foi nomeado o coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Walter Mendes Magalhães Júnior, que já pertencia ao Ibama desde o ano passado, trazido por Salles para ser superintendente no Pará. As informações foram obtidas pelo colunista Rubens Valente, do UOL.

O Ibama alega que as exonerações ocorreram por solicitação do novo chefe da Dipro (Diretoria de Proteção Ambiental), o major da PM paulista Olímpio Magalhães, que está no cargo há 15 dias, substituindo o então diretor da área, Olivaldi Azevedo, também exonerado por Salles um dia após o programa Fantástico, da TV Globo, mostrar uma reportagem sobre a operação de combate a garimpeiros no Pará.

Hugo Ferreira Netto Loss substituía Roberto Cabral, fiscal com perfil técnico e operacional que foi exonerado durante o governo Bolsonaro em abril de 2019. Fiscais afirmam que a exoneração foi uma retaliação velada ao seu trabalho de combate aos crimes ambientais. Ele esteve na chefia do Ibama durante os governos Dilma Rousseff e Michel Temer por deter conhecimento para exercer a profissão.

As exonerações são vistas com maus olhos por funcionários do Ibama. No último dia 21, um grupo de 16 servidores vinculados às coordenações enviou nota à presidência do órgão solicitando que o processo de exonerações fosse suspenso. Eles denunciaram retaliação e “possibilidade de dificultar e, talvez, obstruir as investigações e as operações em curso”. Não foram ouvidos.

Fiscais acreditam que as exonerações de Oliveira e Loss representam uma guinada definitiva rumo ao controle das atividades de campo do órgão ambiental por parte do governo. Desde o período da campanha eleitoral, Bolsonaro deixou claro seu desprezo pela agenda ambiental e sua intenção de devastar a natureza em prol do que ele chama de “desenvolvimento” – o que, na prática, não existe, porque não é possível sustentar uma agenda desenvolvimentista e garantir que o país evolua destruindo a natureza.

Dentre as diversas falas de Bolsonaro contra órgãos fiscalizadores, está a insinuação de que existiria uma indústria de multas que deveria ser finalizada. Não há, no entanto, essa indústria. O que é criticado pelo presidente, na verdade, é o processo legal de responsabilização dos infratores pelos crimes ambientais cometidos por eles.

Servidores dedicados e capacitados 

Renê Luiz de Oliveira e Hugo Ferreira Netto Loss são elogiados enquanto profissionais por aqueles que conheceram de perto o trabalho executado por eles. Oliveira está há 15 anos no Ibama, para o qual ingressou através de concurso público em outubro de 2005. Antes de assumir a coordenação, ele foi superintendente do Ibama em Rondônia e atuou também, durante alguns meses, na Superintendência do Amazonas. O convite para se tornar coordenador partiu do então diretor da Dipro, Luciano Evaristo, aposentado desde fevereiro passado.

Hugo Loss (Foto: Arquivo pessoal/Álbum de família/Reprodução/UOL)

“Conheci o René em Ji-Paraná, em Rondônia. Ele trabalhava com jacarés. Os profissionais de fauna são diferenciados por lutarem pela vida animal. Para eles não tem dia ou noite. Com diária ou sem diária ou sem suprimentos de fundos, trabalham com afinco até pagando do bolso”, disse Evaristo, em entrevista ao portal UOL.

“Este amor pela causa ambiental e a capacidade de planejamento e liderança chamaram a nossa atenção e lhe confiamos uma das tarefas mais árduas do Ibama, a Coordenação Geral de Fiscalização Ambiental, onde atuou com desenvoltura no cumprimento das missões. O Renê sai com o dever cumprido, admirado por todas as instituições que lutam contra o crime ambiental e nós servidores seremos eternamente gratos pelos seus serviços no comando da fiscalização ambiental federal do Brasil”, completou.

Ele foi elogiado também pela ex-presidente do Ibama Suely Araújo, da gestão Temer. Segundo ela, Oliveira foi levado para Brasília “exatamente pela experiência de campo”.

“Conhece muito fiscalização ambiental. Era um coordenador que já trabalhou em tudo na fiscalização, da ponta até planejamento e a parte da estratégia. Era ele realmente fazendo aquilo que ele conhece, a vida toda”, disse Suely.

Os elogios se estendem a Hugo Loss, que ingressou no Ibama em 2013 e atuou na área de licenciamento, depois no escritório do Ibama em Altamira (PA), na gestão de Suely, e por fim na fiscalização de campo, em Manaus (AM), para onde foi a convite de Evaristo.

Loss integrou, de maneira ativa, a Operação Arquimedes, que revelou um esquema de fraude no transporte de madeira retirada de maneira ilegal através do desmate de áreas protegidas da Amazônia. Durante a operação, dividida em duas fases, em 2017 e 2019, Loss foi ameaçado de morte. Na segunda fase, 29 pessoas foram presas, dentre elas o ex-superintendente do Ibama no Amazonas José Leland Juvêncio Barroso, por supostos crimes de peculato e porte ilegal de arma de fogo.

Barroso foi um dos signatários de uma carta enviada a Bolsonaro com críticas à política centralizada do Ibama. No documento, que serviu para reforçar a postura destrutiva de Bolsonaro frente à agenda ambiental, constava a afirmação de que o Ibama tinha uma gestão ideológica alinhada aos partidos PT e PSOL, que supostamente defenderiam interesses de ONGs. O posicionamento é similar ao do ministro Ricardo Salles e reforça a intenção do governo como um todo de devastar a natureza em prol de seus interesses.

Com a saída de Barroso do Ibama do Amazonas, o servidor do órgão Leslie Nelson Jardim Tavares foi colocado em seu lugar. Nesta quinta-feira (30), ele foi nomeado para o cargo de Hugo Loss no Ibama de Brasília.


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