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Muçulmano desafia dogma religioso e se dedica à proteção de animais abandonados

Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

Foto:zaerepiadeh/Instagram
Foto:zaerepiadeh/Instagram

Infelizmente, o abandono de animais é um problema que ocorre em todo o mundo. Nos Estados Unidos, existem mais de 70 milhões de animais vagando pelas ruas, mas apenas entre seis e oito milhões têm a sorte de chegar aos abrigos. Entre aqueles que entram no sistema de abrigos, um número ainda menor encontra novas famílias.

Todo o esforço de dar aos animais uma chance não seria possível sem inúmeros veterinários, trabalhadores de abrigo e voluntários que dedicam seu tempo e energia a eles. Em alguns países, animais abandonados são ainda mais negligenciados.

Por exemplo, no Irã, os abrigos de animais são poucos e distantes entre si e há poucos recursos para lidar com esta grave questão no país. Felizmente, há indivíduos que lutam para promover melhorias nas vidas de animais desabrigados.

Komeil Nezafati, um mulá de 33 anos de idade do Irã, decidiu reservar uma parte de seu dia ocupado para ajudar os animais depois de encontrar um filhote de cachorro faminto e sem tutor há quase um ano.

Foto:zaerepiadeh/Instagram
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Embora ele tivesse medo de cães, o mulá descobriu que não podia deixar o filhote morrer de inanição ou ficar de braços cruzados enquanto outros animais lutavam para sobreviver.

Quando Nezafati começou a auxiliar animais nas ruas, ele tirava fotos e as publicava em seu Instagram. Logo, ele foi capaz de fundar uma organização chamada Mehr, a palavra persa para “bondade” para ajudar a alimentar  animais abandonados. Ele também abriu um centro de tratamento que pode abrigar 100 cães e 150 gatos.

Foto:zaerepiadeh/Instagram
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O empenho de Nezafati para proteger animais abandonados causou um pouco de controvérsia porque o Islã considera que os cães são “impuros”. “A prática islâmica realmente aconselha seus seguidores a serem gentis com os cães e outros animais. Em nenhum lugar o Islã recomenda que você deve abusar de animais ou matá-los”, disse o protetor sobre o assunto.

Animais abandonados tem sido um problema no Irã, mas, eventualmente, Nezafati espera abrir um abrigo para evitar que os animais sejam mortos pelo município.

Graças a sua bondade e coragem para superar o seu medo de cães, tantos animais famintos e doentes estão recebendo o tratamento de que precisam, informou o One Green Planet.

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Ética e Dogma

Por Sérgio Greif

Nas discussões acadêmicas e extra-acadêmicas referentes à bioética, vemos uma forte participação da Igreja nas tomadas de decisão, afinal, 74% dos brasileiros são católicos nominais, embora em grande parte não praticantes ou praticantes de outras religiões.

Mas os números não são importantes, o importante é que o Brasil é considerado um país católico e, embora haja separação entre o Estado e a Igreja, a Igreja ainda exerce forte influência.

Seja uma discussão sobre eutanásia, aborto, uso de células-tronco… lá estão representantes da Igreja emitindo opiniões dogmáticas, agora sob o nome de “ética”. Ora, a ética não tem nenhuma relação com dogmas e esse conceito deve ser rejeitado.

A ética é racional, fundamentada e frequentemente contrária aos dogmas da Igreja.

Vejam-se os casos de pedofilia que envolvem a Igreja. Por uma questão irracional e provavelmente dogmática, padres pedófilos não são submetidos a nenhuma pena seja dentro, seja fora da Igreja. Sua punição com frequência envolve a transferência para uma nova Paróquia, onde ninguém tem ciência de seus crimes do passado e onde o pedófilo tem liberdade para continuar praticando seu vício.

Esse último episódio que envolve o arcebispo de Olinda e Recife e a excomunhão das pessoas responsáveis pelo aborto em uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto fornece outra prova disso. Sob o nome de “ética” a Igreja, o próprio Vaticano, opôs-se ao aborto, alegando preservação da vida humana. Oras, exatamente para a preservação da vida humana, da menina violentada, que esse aborto foi recomendado e autorizado.

Se a excomunhão não ocorreu, se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil resolveu voltar atrás desse processo, revogando um édito do arcebispo e do próprio Vaticano, isso não foi feito por piedade, mas porque o assunto chamou a atenção pública, e a Igreja já está com a imagem abalada. Ironicamente, a CNBB emitiu nota condenando o estupro, mas jamais cogitou excomungar o padastro estuprador. Aparentemente o estupro fere a ética mas não os dogmas da fé.

Para o dogma, o estupro não é o pecado, o pecado está em salvar a vida da mãe e livrá-la de uma gravidez indesejada; o pecado não é proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a distribuição de preservativos que “estimularão” as pessoas a praticarem sexo; o problema não está em nascer com malformação de algum órgão vital, o pecado é utilizar células congeladas e insensíveis para tentar alcançar a cura; não está em vegetar em cima de uma cama por décadas sem qualquer processo mental e sem nenhuma dignidade, o pecado está em desligar os aparelhos que mantêm o paciente preso a esse mundo.

A Igreja se coloca sempre em favor da preservação da vida e evoca sempre o mandamento não matarás, mas é óbvio que isso é apenas um argumento de retórica. Essa mesma preocupação incondicional com a preservação da vida e com o mandamento do Senhor não encontra eco quando se trata de outras vidas que não a humana e com frequência demonstra não se aplicar, tampouco, à vida humana.

O problema se encontra onde dogma e fé se confundem com ética e racionalismo.

As opiniões de qualquer grupo religioso são pertinentes apenas às pessoas que partilham aquele mesmo sistema de crenças. Para todas as demais pessoas, essas opiniões podem ser escutadas, à título de conselho ou por mera curiosidade, mas elas não devem pesar nas decisões finais aplicadas a toda a coletividade.

Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é co-autor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino.

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