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Críticas ao conceito de natureza, ao ambientalismo e ao veganismo em tempos de capitalismo

 Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto?

Porque fazem parte da mesma comunidade a que pertenço,
da mesma forma que meus próprios semelhantes.
Émile Zola
 

Introdução

A proposta do presente artigo é discutir algumas questões referentes à prática vegana no mundo contemporâneo. O veganismo é um modo de viver que exclui o consumo de produtos advindos da exploração de animais. Isto é, advindos da posse e uso de animais para o interesse humano. Estende-se não só à alimentação, mas também às roupas, produtos de higiene ou limpeza, diversões, etc. Em suma, refere-se a todas as dimensões da vida. É uma maneira de conviver com ou outros animais respeitando seus interesses de não serem propriedade, de não sofrerem, não serem presos, torturados, manipulados, debicados, engaiolados, enjaulados, acorrentados, adestrados, isolados, paralisados, testados, pendurados e assassinados, entre outras formas de sofrimento infligidas a eles pelos humanos. É, também, uma forma de considerar a existência da senciência nesses seres, ou seja, respeitar a sensibilidade e consciência neles presente.

Porém, o interesse desse artigo não é debater o veganismo em si. Para isso há já muitos artigos e livros de diferentes fontes, ligados a diferentes pontos de vista, princípios, objetivos e correntes do pensamento ético. Fontes para lê-los estão colocadas no fim do texto. O interesse é pensar sobre a prática vegana como parte de possíveis renovações nos modos de relação da humanidade com o resto da natureza, bem como entre os membros da humanidade.

Para além de sermos veganos, esse artigo deseja perguntar: que tipo de vegano queremos ser? Inseridos em quais tipos de relações?

Para mim, ser vegano não é apenas um rótulo, algo que se adere, cumpre alguns mandamentos e pronto, se ganha um atestado de moralidade. Deixemos esse tipo de postura para as religiões. Esse tipo de postura leva à práticas nas quais se entende que não havendo algo animal no produto a ser consumido, tudo está ótimo. Ser vegano, além de possuir o rótulo, do qual muitos de nós nos orgulhamos, deveria ser entendido, a meu ver, como a posse de posturas conscientes de vida; em pautar a vida em práticas não exploratórias, em formas não exploratórias de conviver, de participar e se inserir no mundo.

Há, portanto, essa causa urgente para os animais, e virar vegano é um ponto de partida fundamental. O objetivo desse texto não é negar o ponto de partida do veganismo, que se refere basicamente a uma escolha de consumo. Mas, para além deste mínimo, o objetivo é propor possíveis aprofundamentos das suas práticas, tanto no que se refere às formas menos aparentes do sofrimento animal, quanto incluindo a questão da exploração dos animais humanos no debate, para, com isso, tentar entender relações mais profundas para poder gerar mudanças mais radicais e satisfatórias, principalmente no sentido de compreender o que é a natureza em que estamos inseridos, como nos relacionamos com “ela” e que novas relações podemos desejar.

I – O conceito de natureza como forma de compreender a realidade

Poucas vezes é discutida publicamente (fora dos muros de academias, universidades, centros de pesquisa e alguns pólos de discussão crítica, principalmente nos meios tidos como underground) a possibilidade de que muito do que não caminha do melhor modo possível para a maioria das pessoas pode advir de questões de cunho conceitual, de discussões teóricas que, em suas dimensões práticas, ajudam a moldar o mundo como é, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de que práticas consolidadas historicamente geram referenciais teóricos e idéias que viram senso-comum e são transmitidas quase que automaticamente de geração para geração, como se fossem verdades incontestáveis.

Um exemplo de grande importância é o que nossa sociedade reconhece como natureza. Estamos acostumados a ouvir coisas do tipo “a natureza corre perigo”, “salvem a natureza”, “estamos acabando com os recursos naturais”. Mas o que querem dizer quando dizem a palavra “natureza”? Será mesmo que é uma palavra de tão simples definição como aprendemos a pensar desde a escola? Natureza seria apenas as coisas que existem além do homem, como plantas, outros animais (que nem chamamos de “outros”, mas de “os animais”, não nos considerando também animais), rochas, relevos, atmosfera, ambientes, etc.?

Uma forma de começar a refletir sobre isso é pensar que cada pessoa, dependendo de como vive, possui com a terra, e, portanto, com a Terra, certo tipo de relação e identificação. “Por exemplo, se para um empresário de mineração natureza é fonte de matérias-primas de onde extrai a mercadoria com a qual obterá lucros, já para o camponês, natureza é meio de sobrevivência, ou, de outro lado, se para o especulador de terras natureza é investimento imobiliário, já para os índios é um espaço de vida que não se vende nem se compra.” (CARVALHO, 1999).

Portanto, é fácil concluir que “natureza” é um conceito socialmente, historicamente e geograficamente constituído. Porém, é também fácil detectar que existe uma visão do que é natureza que se tornou a padrão em nossa sociedade: a de que “natureza” é algo externo aos humanos.

Um grande primeiro passo na direção de uma mudança nas relações sociais (e, portanto, ambientais) existentes é a percepção de que o homem é também natureza, assim como o que ele produz. A natureza não pode ser entendida simplesmente como o lugar onde os homens podem tiram as coisas para seu sustento ou talvez possam morar.

Humanidade e natureza são, na verdade, uma coisa só. Podemos compreender então que quando um homem explora outro homem, está explorando uma parte da natureza. Provavelmente, estará também explorando o resto dela, pois vivemos em um mundo pautado na exploração de tudo e todos por parte de quem possui poder para tal. Hoje, em grande parte do mundo, essa exploração se dá em nome da acumulação capitalista, como veremos em breve.

A compartimentação da natureza se dá não só entre os humanos e o resto da natureza. Dá-se, também, no modo como vemos separadamente todos os elementos que a formam, vistos como matérias-primas cuja finalidade é servir à produção de bens. Este é o padrão de natureza que pauta nosso modelo de sociedade, lembrando que “toda sociedade, toda cultura cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja natureza.” (GONÇALVES, 2000, p.23) e que, provavelmente, “a natureza sequer teria sido reconhecida enquanto alteridade (…) distinta da dos homens, se as relações sociais não tivessem conduzido historicamente a esta separação entre o ´mundo natural` e o ´mundo social`” (CARVALHO, 1999). Pois se algo é natureza, é porque algo não é.

A visão de que o resto da natureza é inferior aos humanos e que é nosso direito (e mesmo nosso dever, em alguns casos) usá-la como quisermos pode ser facilmente encontrada em várias e antigas tradições, algumas muito presentes até os dias atuais, como em partes da tradição grega e na tradição judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento. Os ecos dessas duas tradições são ainda fortemente presentes nas sociedades ocidentais contemporâneas. Contudo, não se trata de uma visão de natureza existente apenas nas sociedades ocidentais filhas do pensamento grego e da ortodoxia judaico-cristã. A visão de mundo em que a natureza é algo a ser explorado e controlado para os objetivos humanos de conquista e poder é, de certo modo, a base de nossa civilização, presente em todas as ditas sociedades civilizadas, seja no ocidente ou no oriente.

A visão compartimentada de mundo acima apontada foi claramente posta como corrente sistematizada de pensamento no mundo ocidental moderno e científico a partir de Descartes e seus seguidores. Em seu livro Discurso Sobre o Método, Descartes chega a dizer que aprendendo sobre a natureza e sua força “poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza” (DESCARTES, 1999, p.86). E foi essa visão de natureza

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