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Ecossistema das Ilhas Galápagos ameaçado pela presença de aviões americanos

Foto: Mirror UK
Foto: Mirror UK

Ambientalistas condenaram de forma veemente a decisão do governo equatoriano de dar permissão aos militares dos EUA para pouso e decolagem de aviões no aeroporto das Ilhas Galápagos.

As aeronaves do exército americano poderão usar o Aeroporto San Cristobal, localizado no arquipélago, de acordo com o anuncio do governo equatoriano, como parte de um plano para “combater o narcotráfico”.

Segundo ele, dois aviões da força aérea norte-americana patrulham o Oceano Pacífico procurando e identificando atividades ilícitas de acordo com informações do The Independent.

Mas especialistas em biodiversidade e conservacionistas alertam que o aumento na atividade de aviação pode afetar seriamente o ecossistema das ilhas.

O professor Laleh Khalili, da Universidade de Londres, postou no Twitter: “Eles pavimentaram o paraíso e ergueram uma pista de pouso nele”.

Ativistas pediram ao governo mais informações sobre o escopo da cooperação. com os EUA, e sobre propostas adicionais para estender a pista em San Cristobal, em meio a temores de que tal construção poderia causar mais danos aos meio ambiente.

O arquipélago está situado a 800 km a oeste do Equador e foi considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, famoso por sua variedade única de vida vegetal e animal.

As Ilhas Galápagos inspiraram o famoso livro de Charles Darwin sobre a evolução, A Origem das Espécies, depois de sua visita ao arquipélago na década de 1830. Eles limitam o número de turistas autorizados a visitar o local para tentar proteger seus habitats naturais e a biodiversidade .

Os animais nativos das ilhas incluem tartarugas gigantes, iguanas-de-crista-preta, pinguins e grandes arraias-manta oceânicas.

O ex-presidente do Equador, Rafael Correa, estava entre os que ficaram incomodados com a decisão, alertando no Twitter que as ilhas “não são um porta-aviões” para os EUA.

O deputado Carlos Viteri, da oposição, classificou o novo acordo como “inaceitável” e advertiu que ele deveria ser bloqueado “se quiser ceder uma polegada de território equatoriano”.

A constituição do Equador descreve o país como “território da paz” e proíbe a construção de bases militares estrangeiras para fins militares em qualquer lugar em seu território.

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Iguanas das ilhas Galápagos sofrem com escassez de alimento


Cientistas revelam que a mudança climática e os eventos nocivos causados pelo El Nino estão destruindo o rico e celebrado ecossistema das ilhas Galápagos. Segundo um fotógrafo local, que afirma ter descoberto o impacto que o aquecimento global tem tido sobre as iguanas marinhas, a espécie pode não resistir se o período de aquecimento das águas perdurar mais que 4 meses.

As imagens feitas por ele, mostrando cadáver apodrecidas de iguanas ilustram o panorama real do sacrifício doloroso, de que não só esses animais, mas diversos outros, tem sido vítimas na luta pela sobrevivência nas ilhas.

As ilhas ficaram famosas quando Charles Darwin visitou o arquipélago em sua viagem icônica a bordo do HMS Beagle, mas as mudanças climáticas estão afetando seriamente o ecossistema único das ilhas, afirmam os cientistas.

Foto: Tui De Roy
Foto: Tui De Roy

A água mais quente que o original está matando a fonte de alimento de muitos animais, as algas e vegetação marinha que crescem nas águas da costa da ilha, o que causa em consequência disso, a morte por falta de alimento de inúmeros répteis.

O fotógrafo Tui De Roy, que cresceu nas ilhas, capturou as imagens impressionantes para comprovar a situação do arquipélago.

Uma imagem poderosa e fortíssima mostra o cadáver de uma iguana marinha deitada em uma pedra depois de morrer de fome, um efeito do aquecimento das águas, que destrói os recursos dos quais elas dependem para sobreviver.

Foto: Tui De Roy
Foto: Tui De Roy

Há alegações de que a mudança climática esteja intensificando o efeito El Niño – um período de curto prazo de aquecimento da temperatura da superfície das aguas do oceano pacífico, que se estende da América do Sul até a Austrália, conforme informações do Daily Mail.

A mudança na temperatura da água pode afetar a vida marinha diretamente por causa da ressurgência, quando a água fria sobe à superfície, que fica reduzida durante o evento.

Estudos anteriores mostraram que espécies marinhas, incluindo pinguins, focas e iguanas, lutam para sobreviver por causa da falta de comida nas águas próximas à superfície.

Muitos animais marinhos de Galápagos morrem ou não conseguem se reproduzir com sucesso devido à falta de alimentos, escreveram os pesquisadores.

Outras imagens capturadas no arquipélago mostram uma iguana colorida descansando nas rochas e o espetáculo raro de um lagarto-nadador.

Foto: Tui De Roy
Foto: Tui De Roy

O importante naturalista Charles Darwin viajou para a região no HMS Beagle em 1835, e observou membros da espécie correndo ao redor das encostas rochosas.

Apesar de fazer extensas observações sobre as criaturas, ele notoriamente detestava sua aparência, referindo-se a elas como “duendes da escuridão”.

Esse momento é propício para que a teoria da seleção natural de Darwin seja posta à prova, à medida que a comida se torna cada vez mais escassa.

As fotografias foram capturadas pelo renomado fotógrafo e autor Tui De Roy, que cresceu nas ilhas ao largo da costa continental do Equador.

Depois de observar os animais por muitos anos, o naturalista testemunhou milhares deles morrendo devido à falta de comida toda vez que há um período prolongado de clima quente.

As iguanas, que possuem o status de vulneráveis (segundo a IUCN), usam um truque que lhes permite sobreviver, disse ele, sua habilidade de ajustar seu tamanho corporal encolhendo ou crescendo à vontade.

Isso permite que elas regulem melhor sua perda de calor. Durante um período de meses, elas “quebram” seu tecido ósseo antes de reconstruí-lo depois que a época de fome termina.

“As iguanas marinhas vivem vidas difíceis: tudo o que elas precisam é de sol tropical para se aquecer, lava negra para se sujar e mares frios cheios de algas marinhas para se alimentar; é isso, sem frescuras ”, explicou ele.

Essas características as tornam o exemplo perfeito para ilustrar as qualidades sobrenaturais das vulcânicas Ilhas Galápagos.

Mas a espécie é bastante vulnerável: quando as correntes oceânicas frias são substituídas por águas quentes, se as algas morrerem as iguanas também morrem.

“Elas têm a capacidade de encolher seus corpos – até mesmo seu esqueleto – em até 20% do comprimento total, a fim de resistir à fome até que as águas frias voltem”, diz o naturalista.

“Mas se o período quente (El Niño) durar mais que 3 a 4 meses, milhares de iguanas estão fadadas a morrer”, lamenta ele.

Esses processos naturais são geralmente mais visíveis nas Ilha Galápagos devido à sua biosfera única.

Foi no impressionante arquipélago vulcânico que Charles Darwin se inspirou para escrever sua teoria da evolução.

Estudos sobre o lagarto descobriram que as iguanas terrestres da América do Sul devem ter chegado ao mar milhões de anos atrás, em troncos ou outros destroços, eventualmente pousando nas Ilhas Galápagos.

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De olho no planeta

Diante do aquecimento dos mares, animais de Darwin correm riscos

Não há época do acasalamento definida para os leões-marinhos, obrigando os machos a manter uma constante vigilância contra concorrentes Foto: Josh Haner para The New York Times

Quando as nuvens cedem, o sol do equador brilha na cratera deste vulcão fumegante, revelando uma paisagem de águas onde a teoria da evolução começou a ser concebida. Do outro lado de uma estreita faixa de oceano fica a Ilha de Santiago, onde Charles Darwin viu iguanas marinhas, o único lagarto que vai ao mar em busca de alimento.

Fringilídeos, produto de lentos fluxos geracionais, cortam os céus. Agora, na era da mudança climática, os caprichos da seleção natural podem ser demais para eles. Na luta contra a extinção nessas ilhas, Darwin viu um molde da origem de todas as espécies, incluindo os humanos. Mas nem mesmo ele poderia imaginar o destino que esperava as Galápagos, onde todos os fatores apontam para o início do maior teste evolucionário já visto.

Com o aquecimento dos oceanos provocado pela mudança climática, essas ilhas enfrentam uma ameaça existencial. E os cientistas estão preocupados. Além de as Galápagos estarem situadas na intersecção de três correntes oceânicas, elas estão na mira de um dos padrões climáticos mais destrutivos do mundo, El Niño, que provoca um aquecimento rápido e extremo dos trópicos no Pacífico Leste.

Pesquisas publicadas em 2014 por mais de uma dúzia de cientistas climáticos alertaram que a alta na temperatura dos oceanos estava tornando o El Niño mais frequente e intenso. A Unesco, agência das Nações Unidas dedicada à cultura e à educação, alerta agora que as Ilhas Galápagos são um dos lugares mais vulneráveis aos impactos da mudança climática.

Para conhecer o futuro das Galápagos, basta olhar para o seu passado recente, quando um evento do tipo se aproximou das ilhas. As águas quentes do El Niño impediram a ascensão de nutrientes à superfície do oceano, levando a uma desnutrição generalizada.

As grandes iguanas marinhas morreram, enquanto outras encolheram seus esqueletos para sobreviver. Aves marinhas deixaram de botar ovos. Florestas de escalésias (uma margarida gigante) foram arrasadas por tempestades e espinheiros invasivos passaram a dominar seu território. Oito de cada dez pinguins morreram e quase todos os filhos de leão-marinho, também. Um peixe do comprimento de um lápis, a donzela-das-Galápagos, nunca mais foi vista.

Isso foi em 1982. Desde então, os oceanos esquentaram pelo menos 0,5°C. O biólogo David J. Anderson, da Universidade Wake Forest, Carolina do Norte, que estuda o patola-de-pés-azuis, uma ave marinha, disse que os estragos causados pelo El Niño foram uma surpresa quando ele começou a trabalhar nas ilhas, nos anos 1980.

“Agora estamos nos perguntando, qual pode ser a frequência desses fenômenos? O El Niño tem o efeito de uma escavadeira”, disse ele. “E está acontecendo com frequência cada vez maior.” Embora as Galápagos fiquem no coração dos trópicos, geograficamente, é difícil imaginar isso a partir das próprias ilhas, por causa de uma grande corrente que segue para o norte vinda do sul do Chile.

Essa corrente, chamada de Corrente de Humboldt, mantém o clima nas ilhas frio e seco, algo incomum se considerarmos que o Equador atravessa o arquipélago. Isso significa que as ilhas têm clima subtropical, um lugar raro onde pinguins e corais coexistem lado a lado. Mas, às vezes, a fria Corrente de Humbolt desacelera subitamente.

As águas do oceano começam a esquentar rapidamente, ganhando até 2°C em questão de meses. As ilhas começam a ser atingidas por tempestades. E, de um dia para o outro, as Ilhas Galápagos se tornam mais quentes: é o começo do El Niño. “O sistema marinho das Galápagos é análogo a uma montanha russa”, disse Jon D. Witman, professor da Universidade Brown, em Rhode Island, que estuda os ecossistemas de coral nas Galápagos, destacando que os picos de temperatura alta eram seguidos por quedas de temperatura, um fenômeno conhecido como La Niña.

De acordo com o Dr. Witman, o problema do aquecimento global é que o patamar a partir do qual essas alterações ocorrem está se elevando com a temperatura dos oceanos. Isso acontece num momento em que a intensidade e a frequência do El Niño estão aumentando.

Antes de publicar “Moby Dick”, Herman Melville navegou pelas Galápagos e viu as iguanas marinhas pretas sobre as rochas. Foi a elas que descreveu como “estranha anomalia, criatura fantástica” nos anos 1850. Uma anomalia particular das iguanas marinhas pode indicar o que esperar de águas mais quentes nos mares das Galápagos.

O biólogo Martin Wikelski, do Instituto de Ornitologia Max Planck, na Alemanha, passava suas temporadas de pesquisa perto do litoral da Ilha Genovesa quando notou algo estranho nos seus cálculos. Quando os mares esquentaram, as iguanas diminuíram de tamanho.

“Obviamente, um animal não pode encolher, é impossível”, ele disse ter pensado inicialmente. “Mas elas tinham uma aparência estranha, como sapos cujas pernas são demasiadamente compridas para o corpo.” As iguanas estavam de fato se tornando muito menores.

A alta na temperatura dos oceanos significa menos algas, principal fonte de alimento das iguanas marinhas. Os cientistas dizem acreditar que os répteis seriam capazes de reabsorver partes do seu esqueleto para reduzir seu tamanho e aumentar suas chances de sobrevivência diante de uma alimentação mais restrita.

Hormônios do estresse podem desencadear o processo, mas pouco se sabe a respeito do seu funcionamento. Independentemente disso, as mudanças podem ser centrais para a sobrevivência desses animais conforme os ciclos do El Niño se tornam mais frequentes. A evolução conduziu outros animais por rumos diferentes, algo que pode se mostrar fatal com a alta da temperatura dos oceanos.

Certo dia, em Isabela, a maior ilha das Galápagos, um leão-marinho macho rosnava para um bando de filhotes numa piscina natural. Leões-marinhos e focas não têm época de acasalamento definida nesta região, o que obriga os machos a se manterem constantemente vigilantes contra concorrentes – uma tarefa que lhes deixa pouco tempo para caçar peixes.

Quando a temperatura das águas aumenta, a população local de sardinhas diminui. No El Niño de 1982, quase todas as focas adultas maiores morreram de fome. A maioria dos filhotes de leão-marinho também morreu naquele ano, pois os pais não conseguiram alimentar suas crias, de acordo com estudo do ecologista Fritz Trillmich. “É como se nossa geração não tivesse filhos”, disse Robert Lamb, estudante de doutorado da Universidade Brown.

As criaturas têm também desenvolvido novas maneiras de caçar. Em novembro, as rochas cobertas de conchas numa enseada perto da praia da Ilha Isabela estavam repletas de ossos de um grande peixe – um atum, algo que os cientistas dizem não ter visto os leões-marinhos comendo antes. Mas, pouco após o amanhecer numa manhã recente, leões-marinhos daqui perseguiram um grande atum até a enseada, abatendo o animal na água rasa.

Ainda não foi estudado se este é simplesmente um novo comportamento que emergiu com a escassez das populações de peixes menores, mas a nova dieta pode ser uma vantagem para os leões-marinhos conforme o El Niño se torna mais frequente. Outros animais têm menos alternativas de alimentação.

O patola-de-pés-azuis, ave conhecida pela cor chamativa das patas e pelo andar engraçado, é visto nas praias daqui. Mas, no mar, esse passarinho especializado em comer peixes paira sobre as ondas antes de mergulhar no oceano como outros mergulhões concorrentes, espalhando os cardumes para que os peixes possam ser pescados individualmente.

Os patolas-de-pés-azuis já viveram das sardinhas, mas a população deste peixe diminuiu muito em 1997, e a sardinha segue escassa, obrigando os pássaros a comer outros peixes. Quando a temperatura do mar aumenta durante o El Niño, esses outros peixes também começam a desaparecer. “Eles basicamente param de tentar se reproduzir”, disse o Dr. Anderson a respeito das patolas. Ele disse que o padrão se tornou mais frequente, acompanhando o El Niño.

“Daqui a cem anos, não ficarei surpreso em saber que a patola-de-pés-azuis deixou de existir” se as tendências atuais prosseguirem, disse o Dr. Anderson. Comportamentos semelhantes são observados em outras aves aquáticas daqui. Os pinguins das Galápagos, que só são encontrados nessas ilhas, param de se reproduzir quando a água chega à temperatura de 25°C.

O biguá, uma ave que não voa, morre de fome no ninho porque não consegue viajar para encontrar comida em outros lugares quando a população de peixes cai perto das ilhas. Embora temperaturas mais altas frequentemente sinalizem o fim de espécies nativas que evoluíram no frio clima subtropical das Galápagos, as espécies invasivas prosperam.

Florestas de escalésia, uma margarida gigante que é encontrada apenas nas Galápagos, já estavam encolhendo por causa do desmatamento para possibilitar a agricultura nas terras mais altas. As árvores estão acostumadas a um clima ameno e, por isso, as tempestades que acompanham os El Niños extremos podem derrubar essas florestas.

Embora destrutivas, faz tempo que as tempestades fazem parte do ciclo natural das escalésias, permitindo que uma nova geração se enraíze após a anterior. Mas, com a mudança climática, o processo entrou em curto-circuito. Sob as florestas de escalésias, as sementes de uma amoreira invasiva aguardam a queda das margaridas gigantes. As amoreiras se espalham rapidamente, bloqueando a nova geração de margaridas.

Outra espécie invasiva que preocupa os cientistas é a formiga-lava-pés, que prospera no clima mais úmido e se alimenta dos ovos das tartarugas gigantes. Funcionários do Parque Nacional das Ilhas Galápagos estão agora pensando em esforços para aliviar este impacto e proteger espécies ameaçadas dos ciclos mais frequentes do El Niño que acompanham a mudança climática.

O parque já tem um programa para auxiliar a reprodução de tartarugas gigantes em cativeiro. Mas nem todas as tartarugas gigantes podem se reproduzir dessa forma. E o mesmo vale para muitas das outras criaturas encontradas nessas ilhas.

Fonte: Estadão

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Galápagos perde primeira espécie de pássaro desde a visita de Darwin

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As Ilhas Galápagos, no Equador, estão entre os mais conhecidos santuários ecológicos do mundo, por ter servido de palco para a formulação da teoria da evolução pelo naturalista britânico Charles Darwin. Mas apesar de toda proteção, uma espécie de pássaro, que vivia apenas no arquipélago, foi considerada extinta. Cientistas não sabem explicar as causas disso, mas suspeitam de que espécies invasoras, como ratos e moscas, podem ter uma parcela de culpa.

“Uma espécie de pássaro ser extinta em Galápagos é uma grande questão”, disse Jack Dumbacher, pesquisador da Academia de Ciências da Califórnia e coautor do estudo publicado no periódico “Molecular Phylogenetics and Evolution”. “É um marco para a conservação de Galápagos, e chama a atenção para o entendimento do porquê desses pássaros terem declinado”.

O estudo determinou que duas subespécies de Vermilion Flycatchers, conhecidos popularmente no Brasil como príncipes, são na verdade espécies únicas, encontradas apenas em Galápagos. O problema é que uma delas não é vista na natureza desde 1987, e pode ser considerada extinta. De acordo com os pesquisadores, trata-se da primeira extinção moderna de uma espécie de pássaros no arquipélago.

As pesquisas foram conduzidas com amostras da Academia, que abriga a maior coleção de pássaros do arquipélago, coletados há mais de cem anos. Por meio de sequenciamento genético, os pesquisadores construíram a história evolutiva das espécies, ambas descritas por Darwin, durante expedição em 1835.

Os Vermilion Flycatchers possuem uma história evolutiva complexa, com ramos de uma população ancestral que se dividiu em 12 subespécies reconhecidas, que povoam as Américas, do Brasil aos EUA. O estudo comparou a história evolutiva com a forma como a ciência classifica espécies e subespécies e encontrou inconsistências.

Duas dessas subespécies, encontradas apenas em Galápagos, são tão distintas geneticamente que foram elevadas ao status de espécie: o Pyrocephalus nanus, encontrado em praticamente todo o arquipélago, e Pyrocephalus dubius, que era encontrado apenas na ilha de San Cristóbal. Este último, menor e com diferenças sutis na coloração em relação às outras espécies, é conhecido como San Cristóbal Vermilion Flycatcher e não é visto há quase três décadas.

As causas da extinção são desconhecidas, mas duas ameaças invasoras podem ter tido algum papel: ratos e moscas parasitas. Os ratos escalam árvores para alcançarem ninhos de pássaros e comer os ovos, já as moscas podem matar os filhotes. Essas duas espécies invasoras estão provocando impacto na população restante de Vermilion Flycatchers.

“Infelizmente, parece que nós perdemos o San Cristóbal Vermilion Flycatcher”, disse Dumbacher. “Mas esperamos que um desdobramento positivo dessa pesquisa seja redobrar os esforços para compreender o declínio e alertar sobre as ameaças para as espécies sobreviventes antes que elas tenham o mesmo destino”.

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Fonte: O Globo

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Animais desafiam teoria de Darwin e dão lição de generosidade

Por Marcela Couto (da Redação)

Foto: Reprodução/Nature World News
Foto: Reprodução/Nature World News

Compartilhar é um ato que exige consciência e empatia, mas não são apenas os seres humanos que possuem essa habilidade. Há muito mais cooperação entre animais do que se imagina, e não faltam evidências científicas para essa afirmação.

Em um estudo conduzido por Phillip Jackson Darlington para National Academy of Sciences, observou-se a que ponto chega a generosidade de morcegos. Uma fêmea de morcego vampiro comum retorna de uma noite bem sucedida de alimentação, depois de consumir o suficiente de sangue para aumentar o seu peso corporal em 50%. Ao chegar à árvore que compartilha com sua família, ela acha que uma das suas companheiras não teve a mesma sorte. Pela segunda noite consecutiva, a outra fêmea não conseguiu se alimentar, e ela está perto de morrer de fome. Eis que a fêmea já alimentada se aproxima dela e oferece um bocado de sangue regurgitado, sacrificando parte de sua própria refeição em nome da sobrevivência da companheira.

Do ponto de vista evolutivo, é difícil entender como os animais são capazes de sacrificar a si próprios para beneficiar outros indivíduos do grupo. Pela lei da selva, um animal que aumenta sua força sozinho deve estar mais apto a transmitir seus genes do que um animal que decide dividir seu alimento. Por essa lógica, a seleção natural deveria eliminar os benfeitores e deixar apenas egoístas.

Foto: Reprodução/Phys
Foto: Reprodução/Phys

No entanto, o comportamento altruísta não se limita aos seres humanos, aparecendo em várias espécies sociais. Assim como a fêmea de morcego decidiu compartilhar sua refeição, marmotas também foram observadas atrasando sua própria reprodução para ajudar a criar outros filhotes no grupo, em outro estudo publicado por Daniel T. Blumstein.

Darwin considerou o altruísmo entre animais um obstáculo em sua teoria evolutiva. Ele estava especialmente preocupado com as abelhas: um exemplo da forma mais extrema de cooperação social, em que alguns indivíduos renunciam completamente à reprodução para cuidar da prole dos outros.

Demorou quase um século para outro biólogo, W.H. Hamilton, chegar a uma explicação plausível.O cientista concluiu que a partilha não era apenas sobre o partilhante, mas também sobre o destinatário. De acordo com a sua equação, agora conhecida como a Regra de Hamilton, os indivíduos são mais propensos a se comportar de forma altruísta quanto mais estreitos forem os laços genéticos.

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Em última análise, a evolução fornece uma espécie de retorno positivo para o comportamento altruísta, aumentando a satisfação de pertencimento ao grupo e gerando relações de troca reais entre animais.

O altruísmo nos animais oferece uma perspectiva interessante para estudar a generosidade nas sociedade humanas. Se um morcego é capaz de reconhecer quando seus vizinhos estão com problemas e agem para ajudá-los a sobreviver, então a humanidade também deveria ser capaz de aprender um pouco sobre compaixão com os animais – e respeitar seus direitos, para começar.

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Tribunal decide que macaco Darwin não será devolvido à tutora

(da Redação)

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

O macaco Darwin, que foi visto vagando sozinho no estacionamento de uma loja  em Toronto (Canadá) no final do ano passado não será devolvido à sua tutora, de acordo com recente decisão de um tribunal canadense. As informações são da Care2.

Para quem não soube ou não se lembra da história, em dezembro de 2012 Darwin escapou de uma gaiola fechada que estava dentro de um carro. Ele usava um casaco e fraldas, e foi encontrado no estacionamento da loja Ikea. Pessoas que o avistaram tentaram capturá-lo e chamaram a polícia. O caso fez sucesso nas redes sociais e Darwin, na ocasião, foi encaminhado a um abrigo de animais.

A Juíza Mary Vallee do Tribunal de Ontario decidiu que, uma vez que o macaco empreendeu a sua fuga, a sua tutora Yasmin Nakhuda não teria mais nenhum direito a reivindicar a tutela do animal. Darwin é um “animal selvagem”, e isso motivou a decisão da Juíza:

“A Lei estabelece que a natureza de um animal, mais do que o modo como ele é tratado, determina se ele é selvagem”, escreveu Vallee em sua decisão.

“O macaco vivia na casa da Sra Yasmin. Ele usava roupas e sabe-se que dormia na cama da tutora. Essas tentativas de domesticação foram impostas a ele”.

Tentativas podem ter sido feitas, mas realmente não funcionaram. Darwin mordia as pessoas e tinha que usar uma fralda pois não pode ser treinado para usar o banheiro sozinho. Mesmo que ele usasse roupas, é definitivamente um animal selvagem. De acordo com a lei, um animal selvagem só é considerado sob tutela de alguém enquanto estiver em junto a essa pessoa.

Pode parecer uma decisão severa, uma vez que Darwin viveu com a tutora Yasmin por muitos meses. O problema, no entanto, é que Darwin não é um cão, um gato ou outro animal de espécie que já foi amplamente domesticada. É muito importante que o tutor de um animal como ele esteja no controle, segundo Vallee.

Na decisão emitida pela Juíza, ela dizia que “abrigar animais selvagens em uma casa exige alto custo de segurança por parte dos tutores”, e que animais selvagens, principalmente os exóticos, podem ser perigosos para o público.

O macaco, escreveu a Juíza, “é uma peça de alienação”. O caso se volta a quem era responsável por Darwin no momento em que ele escapou. É um jeito rude de pensar o fato, se pensarmos que “é difícil olhar nos olhos de um primata e ver algo que eu possa possuir”, diz a Care2. Mas a Juíza tem uma posição clara quanto a isso: Darwin não é uma criança humana, e “nós tratamos animais diferentemente de humanos”.

Darwin ficará por um tempo no Santuário de Primatas Story Book Farm, o mesmo lugar em que viveu quando foi apreendido pelas autoridades. Enquanto ter sido levado de sua tutora possa ser algo difícil, provavelmente será o melhor para ele.

 

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Pesquisas revelam 99% de semelhança entre humanos e chimpanzés

A evolução da ciência nos últimos 150 anos, desde a publicação de A Origem das Espécies, permitiu comprovar e detalhar muitas das teorias propostas por Charles Darwin, mas ainda não conseguiu elucidar uma das questões mais inquietantes que derivam de sua obra: o que nos faz humanos? Se homens e chimpanzés pertencem a uma mesma família, como podem ser tão diferentes?

Parte da resposta é que não somos tão diferentes assim. Pesquisas genéticas realizadas nos últimos dez anos revelam que humanos e chimpanzés são ainda mais próximos do que Darwin poderia imaginar. Quando os genomas das duas espécies são colocados lado a lado, a sequencia das letras de seu DNA é praticamente idêntica: quase 99% de semelhança.

Se o genoma é uma receita de bolo e os genes, seus ingredientes, a diferença entre homem e macaco pode não ser mais do que uma cereja evolutiva. Nem ratos e camundongos são tão parecidos (91% de similaridade). É a prova de que Darwin, mesmo sem saber nada de genética – porque não existia genética na sua época -, estava certo em pendurar o homem na árvore genealógica dos primatas.

Ao mesmo tempo que ajudam a responder, porém, as informações genômicas acrescentam um novo grau de complexidade à questão. Se homens e chimpanzés são quase idênticos “por dentro”, geneticamente, como podem ser tão diferentes “por fora”, em sua anatomia, comportamento e capacidade cognitiva? O que há de tão especial no 1% que diferencia as duas espécies? Quais foram as mutações essenciais que permitiram ao Homo sapiens desenvolver a destreza e a inteligência necessárias para construir cidades, escrever livros e questionar sua própria evolução?

A resposta parece estar pulverizada por todo o genoma. A maioria dos cientistas já desistiu de encontrar um ou dois genes “mágicos” da evolução humana – algo como um “gene da inteligência” ou um “gene do bipedalismo”. Todos os indícios são de que as características fundamentais da espécie humana – assim como as de outras espécies – decorrem não de um pequeno conjunto de grandes mutações, mas de um grande conjunto de pequenas mutações acumuladas ao longo dos últimos seis milhões de anos, desde que as linhagens de seres humanos e chimpanzés divergiram de seu ancestral comum.

“São pequenas diferença no genótipo que se somam para fazer uma grande diferença no fenótipo”, resume o pesquisador Tarjei Mikkelsen, do Instituto Broad, em Massachusetts (EUA), primeiro autor do trabalho que sequenciou o genoma do chimpanzé, em 2005.

“Essa relação de um para um, em que um gene equivale a uma característica, é muito rara”, diz o cientista Sandro de Souza, chefe do Grupo de Biologia Computacional do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, em São Paulo. A maioria das características, diz ele, tem caráter poligênico – ou seja, resulta da atividade de vários genes.

“A evolução é um processo contínuo, gradual e cumulativo”, completa o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Não viramos seres humanos da noite para o dia; estamos fazendo isso há vários milhões de anos.”

CAÇA-PALAVRAS FUNCIONAL

Tanto o genoma do ser humano quanto o do chimpanzé tem aproximadamente 3 bilhões de pares de bases, ou letras químicas (A, T, C e G), dentro das quais estão inscritos cerca de 20 mil genes – as sequências codificadoras, responsáveis pela síntese de proteínas. Mesmo 1% de diferença, portanto, já significa 30 milhões de mutações. “É matéria prima mais do que suficiente para produzir alterações morfológicas”, aponta Meyer.

Fica, agora, o desafio de descobrir quais dessas variações foram realmente importantes e quais foram totalmente irrelevantes no processo de diferenciação das duas espécies.

A segunda categoria, infelizmente, é a mais populosa. “A maioria das diferenças corresponde a mutações pontuais, aleatórias, com pouco ou nenhum efeito sobre a biologia do organismo”, afirma Mikkelsen. É o que os pesquisadores chamam de “deriva genética” – mutações que são passadas de pai para filho não porque conferem alguma vantagem evolutiva, mas por serem tão insignificantes que a seleção natural não se dá ao trabalho de eliminá-las.

Um gene que tem atraído muita atenção dos cientistas é o FOXP2, que alguns anos atrás descobriu-se estar ligado ao desenvolvimento da linguagem – uma característica exclusiva dos seres humanos. Ele é um tipo de gene chamado “fator de transcrição”, que controla a atividade de vários outros genes, tal qual um maestro controla os músicos de uma orquestra.

Um estudo publicado em 2001 revelou que pessoas que nascem com uma mutação neste gene sofrem distúrbios de fala, compreensão e processamento de linguagem. Agora, em um estudo publicado no início deste mês, cientistas compararam a atividade das proteínas codificadas pelo FOXP2 humano e pelo FOXP2 de chimpanzé e verificaram que elas acionam cascatas diferentes de genes, apesar de suas sequências diferirem em apenas dois aminoácidos. Maestros quase idênticos, mas que produzem músicas bastante diferentes.

“Qual a importância disso no contexto evolutivo da linguagem? Não temos certeza”, disse ao Estado o autor da pesquisa, Daniel Geschwind, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. “Sabemos muito pouco ainda sobre a genética da linguagem. O FOXP2 é um dos genes envolvidos nesse processo, mas certamente há outros que ainda precisamos descobrir.”

Para complicar ainda mais a busca, a maioria das mutações não ocorre nos genes, mas fora deles, em regiões do genoma que não codificam proteínas. Isso sugere que muito da biologia que nos faz humanos pode fluir também dos 99% do genoma que são idênticos entre homem e chimpanzé, e não apenas do 1% que é diferente. Por exemplo, pelo efeito de genes que são iguais nas duas espécies, mas que estão mais ativos ou menos ativos em uma delas.

“Temos alguns genes que são só nossos, mas são muito poucos”, afirma Souza, do Instituto Ludwig. “Suas funções ainda não são totalmente conhecidas, mas posso dizer com certa segurança que não são eles que fazem a diferença.”

CÉREBRO

Do ponto de vista morfológico, o que mais distingue o Homo sapiens dos outros primatas é a postura ereta e o cérebro grande Só o tamanho avantajado do encéfalo, porém, não basta para explicar a superioridade das habilidades cognitivas humanas. Se fosse, as baleias e os elefantes seriam os animais mais inteligentes da Terra. “Esse é talvez o grande desafio do século 21, desvendar a circuitaria neuronal responsável pela cognição humana”, diz o cientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O número de neurônios no cérebro humano, segundo ele, está dentro do esperado para o seu tamanho. “A diferença deve estar na maneira como eles funcionam.” Fora o volume maior, diz Lent, não há nada de “especial” no cérebro humano. “Temos a sorte de ser um primata com cérebro grande, só isso.”

“A única característica óbvia, bem estudada e consensual, que nos faz humanos é o bipedalismo. A inteligência é uma mera diferença quantitativa, não qualitativa”, opina o biólogo Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, especialista em genética evolutiva. E completa: “A genômica veio mais uma vez colocar o homem no seu devido lugar na biodiversidade, como uma espécie qualquer, sem nada muito especial – ou melhor, tão especial quanto qualquer outra espécie “.

Fonte: Bem Paraná

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Colunistas, Desobediência Vegana

Lei Arouca: as bases genéticas da falta de percepção

No primeiro semestre deste ano, a senadora Marina Silva defendeu o ensino do criacionismo nas escolas, após participar de um simpósio sobre o assunto, ainda como ministra do Meio Ambiente. Pois o criacionismo, que é uma das inúmeras crenças religiosas a respeito do surgimento da vida, passaria a ser comparado à Evolução, ciência que explica por meio de claras evidências ao longo da história, e na própria composição dos organismos atuais, a trajetória da formação de novas espécies ao longo dos milhares de anos. O criacionismo é apenas um dos mitos sobre a criação do mundo e do ser humano e deve ser respeitado como qualquer outro de qualquer religião, mas nunca comparado a uma teoria que é base da Biologia e de tantas outras ciências, até hoje nunca refutada. Muito ao contrário, com as descobertas mais recentes sobre o código genético, a teoria de Charles Darwin fica a cada dia mais consistente e fascinante.

As descobertas do naturalista Darwin seguem até hoje como uma espada que corta, provoca e derruba nosso orgulho mais básico. Concordo com os pesquisadores Richard Wrangham e Dale Peterson, que escreveram o livro O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana, que talvez o orgulho seja a principal característica dos grandes primatas – e, neste grupo, estamos incluídos. Uma característica que turva a percepção.

Aí entra a aprovação da Lei Arouca. Pois como explicar que ainda hoje, em face de tantas tecnologias e formas de obter novos conhecimentos, ainda se pratique a barbárie do uso de animais sencientes em pesquisas científicas – de caráter nem sempre claro, nem para os próprios pesquisadores? E como explicar que, embora existam muitas alternativas ao uso de animais de laboratório, e que na Europa estas já venham sendo usadas em diversos hospitais, centros de pesquisas e centros veterinários, aqui no nosso Terceiro Mundo preferimos pagar mais caro por ‘modelos vivos’ que dão lucro à imensa indústria de animais?

Uma explicação para que a humanidade siga sobrepujando os animais, negando-lhes o estado de direito, humilhando suas necessidades mais básicas, pode ser a vergonha de admitir que os animais pertencem à mesma natureza humana ou que o ser humano é, enfim, um animal. O ser humano nega estender os direitos morais por diversas razões, desde o preconceito chamado especismo, até porque reconhecer que os animais têm direitos fere mais uma vez o orgulho humano, como muitas vezes na história já aconteceu. Desde o século de Darwin, é deveras difícil assimilar e admitir que não somos o centro do Universo e, se requeremos direitos de sermos respeitados e valorizados nos nossos instintos mais básicos, nada mais natural que estender esses direitos a animais que, como nós, ou como muitos de nós, sentem medo, dor, afeto e possuem até capacidade de abstração.

Nada mais lógico que, se nos regalamos seres dotados de capacidade intelectual, devemos por essa mesma razão aguçar nossa percepção para as necessidades dos outros animais, e não continuar seguindo no egoísmo puramente preconceituoso de colocar a humanidade em primeiro lugar. De fato, colocar o ser humano em primeiro plano não contribuiu para que ele ficasse ileso das consequências de seus atos diante da Natureza. A cada dia, percebemos que nossas ações, ao contrário do que gostaríamos, nos colocam como seres frágeis diante de um cataclisma ambiental.

Imaginar que o criacionismo deva ser ensinado nas escolas junto com as ideias evolucionistas, desprezando as demais crenças religiosas e misturando-as com fatos comprováveis e básicos da ciência, é querer preservar o pseudopoder que nos arrogamos há muitos séculos, quando tais disparates até eram admissíveis ante a ignorância da época. Mas, hoje, não.

Ora, quem hoje considera plausível a teoria de Charles Darwin – e ela é, pois constitui a base da Biologia e de muitos estudos a ela relacionados – certamente precisa considerar as implicações morais dessa brilhante descoberta. Tom Regan defende que não é apenaes o sofrimento que infligimos aos animais que está errado. “O que está fundamentalmente errado, em vez, é o sistema inteiro, e não seus detalhes. Pela mesma razão que mulheres não existem para servir aos homens, os pobres para os ricos, e os fracos para os fortes, os animais também não existem para nos servir”, aponta. Que já nos serviram, e muito, durante o desenvolvimento humano, não é justificativa para que sigamos explorando, mesmo com tecnologia e inteligência suficientes para utilizar alternativas – que já existem – e criar novas. Não há justificativa moral para a traição que lhes causamos.

Nossa responsabilidade moral por sermos sujeitos que modificam o mundo não nos confere o direito da tirania sobre os animais. Muito ao contrário, nos coloca a obrigação moral de libertar e reparar, se é que é possível, nossos erros. Mas, para tanto, é preciso percebê-los.
Bibliografia
RACHELS, J. Created from animals: the moral implication of Darwinism. Oxford: Oxford University Press, 1990.
WRANGHAM, R.;, PETERSON, D. O Macho Demoníaco: As Origens da Agressividade Humana. Comportamento, 1998.
REGAN, T. The Philosophy of Animal Rights by Dr. Tom Regan. Em: www.cultureandanimals.org/animalrights.
“DIREITO DOS ANIMAIS – PERGUNTAS E RESPOSTAS”, em www.vegetarianismo.com.br
NACONECY, C. M. Ética e Animais: um guia de argumentação filosófica. EDIPUCRS, 2006.

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Notícias

Águas-vivas podem influenciar movimento dos oceanos

Um estudo do Instituto de Tecnologia da Califórnia (CALTECH) apresentou um novo modelo de movimentação das águas dos oceanos, no qual até as menores criaturas marinhas estão inseridas no mecanismo de “mistura das águas”. Segundo seus autores, uma água-viva, em conjunto com outras, pode influenciar a circulação das águas da mesma forma que o vento e as ondas.

Se a pesquisa conseguir avançar, os modelos de movimentação das marés e sua influência no clima, pode mudar. Os cientistas partiram do modelo antes apresentado por Darwin no qual ele afirmava que todo ser que se movimenta através de algum fluido, puxa algo junto com ele. Quanto mais viscoso é o animal, mais fluido ele leva consigo por onde passa.

Desse modo, os novos modelos climáticos teriam que levar em conta a movimentação das populações marinhas, por exemplo.

Fonte: EPTV.com

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Artigos

Senciência!

Um neologismo necessário?

Nos textos que seguem, não introduzimos o neologismo «senciência». Creio que no futuro dele faremos uso e tentaremos popularizá-lo, da mesma forma que o
adjetivo associado («senciente»). É que em português nos falta uma palavra para
designar a coisa mais importante do mundo, talvez a única que importa: o fato de
que certos seres têm percepções, emoções e que, por conseguinte, a maioria
dentre eles (todos?) têm desejos, objetivos, uma vontade que lhes são próprios.

Como qualificar esta faculdade de sentir, de pensar, de ter uma vida mental
subjetiva? Os anglo-saxões têm o substantivo sentience (e o adjetivo sentient
para designar isso, os italianos o termo senzienza (adj. senziente). Em
português, não temos o equivalente exato. Temos diversas palavras que remetem à senciência, mas cada um deles tem o inconveniente de ser ou polissêmico, ou de ser um pouco redutor, evocando de maneira privilegiada uma dimensão da vida
mental. Nós temos:

– a palavra sensibilidade, mas se diz também de um indivíduo que ele é sensível,
para designar o fato de que ele é mais emotivo do que a média de seus ongêneres sencientes;
– a palavra consciência, mas o termo também tem o sentido mais restrito de
consciência moral, de faculdade de fazer julgamentos sobre o bem e o mal;
– a palavra espírito, mas ela evoca a dimensão cognitiva de maneira privilegiada
à emotiva da vida mental: o pensamento, a razão (outrora, também se fazia uso do
termo entendimento); ainda por cima, a palavra espírito inclui, às vezes, a
idéia de que se trataria de uma realidade sobrenatural ou alheia ao mundo
físico.

É pena que as palavras veiculem uma divisão da experiência subjetiva, ratificando dissociações que mereceriam ser questionadas. Existe fundamento em sustentar que o pensamento, o raciocínio, pertencem ao registro da sensibilidade: quando, ante uma demonstração matemática, pensamos «Isto está errado», errado é um sentimento ao qual não pode ter acesso um artefato não-senciente, mesmo se ele opera no campo das matemáticas. Também existe razão em sustentar que a sensação implica o julgamento (bom, mau), que é o fundamento  da consciência moral.

Também é pena que não tenhamos o equivalente do inglês feeling, que em seu lugar sejam obrigados a escolher entre as palavras sensação (quente, fome…) e
sentimento (amor, tristeza…), a primeira com uma fragrância de «físico», «corporal», e a segunda com uma fragrância de «psíquico», «espiritual». Ou talvez o problema não esteja tanto nas palavras (a raiz é efetivamente «sentir» em ambos os casos), mas antes na vontade tenaz de fazer jogos de palavras, para atribuir aos animais uma senciência que não é uma única. Uma vez, ouvi alguém dizer numa conversa: «os animais sofrem», acrescentando depois, como para se emendar: «no final das contas, pelo menos eles conhecem um sofrimento puramente físico». O sofrimento «puramente físico» (por oposição a «psíquico» ou «psicológico»), isso não existe, não é o sofrimento. As sensações são sentimentos.

Parece-me que valeria a pena investir numa reflexão crítica sobre este recorte do mental, que veiculam não somente o vocabulário, mas setores inteiros da nossa cultura: recusar a validade das divisões estanques entre as faculdades da alma tem implicações importantes para a causa animal. A alma (do latim anima), eis ainda uma outra palavra de que dispomos, a mais bela de todas: a própria etimologia indica que os animais são os seres que têm uma alma! Infelizmente, é quase impossível empregá-la sem se munir de uma carrada de aspas e de prudência, de receio de que o auditório venha a acreditar que se lhe esteja fazendo um discurso religioso, tanto o uso se estabeleceu no sentido de reservá-la para
esse registro.

Senciência, portanto!

Por que colocar a senciência em primeiro plano?

Após o número 23, especialmente dedicado à sensibilidade, após diversos artigos
consagrados ao mesmo assunto em números anteriores1, os Cahiers consagram um novo dossiê à consciência animal, e provavelmente retornarão a este tema em
números posteriores.Por que fazer da senciência um tema prioritário? Porque quando os humanos perceberem plenamente que os animais são sencientes, quando eles tiverem sido despojados de todas as astúcias mentais que lhes permitem esquecê-lo, ou mentir a si mesmos sobre a realidade da consciência animal, eles não poderão mais perseverar friamente na barbárie em relação a eles. A proposição «Os animais são sencientes» não é senão descritiva; ela não é a injunção de nada. No entanto, o simples fato de sentir, compreender, ter presente no espírito, que esta proposição é verdadeira, cria uma incitação no sentido de mudar de comportamento para com os bichos: é difícil fazer mal a alguém com conhecimento de causa quando não se tem mais os meios de se tornar surdo e cego a seu sofrimento.

A força da mensagem «Os animais são sencientes» também se prende ao fato de que ela pode ser veiculada por toda a parte no movimento animalista. Ela pode ser um tema federativo, que torna o conjunto mais audível, mais visível na sociedade, aquele que faz com que além do campo de ação e das orientações de cada um, se
perceba o sopro de uma exigência forte, insistente, de prestar atenção aos animais.

No dia 25 de abril de 2005, Joyce D’Silva, diretora do CIWF, dirigia aos colaboradores dessa organização uma recomendação2 que poderíamos fazer nossa:

Façam referência à senciência animal cada vez que puderem, ao se comunicarem,   seja nos seus correios postais ou eletrônicos, seja nos documentos oficiais,   dirigidos aos governos, aos políticos e aos intelectuais. Por favor, conservem   isso no espírito. Já percorremos um longo caminho desde que lançamos esta   campanha em 1988 – todo o mundo pensava então que estávamos loucos ao falarmos   de senciência animal! Mas ainda nos resta um longo caminho a trilhar, e é   verdade que quanto mais utilizarmos este termo, tanto mais ele penetrará na   consciência geral da humanidade.

Reconhecer a sensibilidade animal certamente não é tudo. Ter consciência da existência das necessidades e aspirações de todos os seres sencientes não nos diz o que fazer. Parece-me improvável que se possa contentar em transpor os preceitos morais elaborados quando a preocupação era unicamente com os humanos; não sabemos ainda o que é uma ética não-especista. Mas reconhecer a
sensibilidade animal é a condição para querer construir e aplicar esta ética, a condição para que procuremos saber o que é bom de se fazer de um ponto de vista verdadeiramente universal, aquele que engloba todos os habitantes sencientes deste mundo.Não é uma questão «de antes» e «de após». Não vamos começar por generalizar a consciência, nos humanos, do fato de que os animais são sencientes, para em seguida elaborar uma ética completa, adaptada a este conhecimento, e enfim somente traduzi-la em reivindicação política de mudanças concretas – isto seria transferir o melhoramento da condição animal para o final dos tempos. Trata-se de dizer que é preciso atribuir a maior importância, em tudo o que fazemos hoje, à afirmação factual da senciência animal. Ainda que, enquanto tal, esta afirmação nada preconize, é ela que dá força, audiência, às exigências éticas e políticas em favor dos animais, formuladas com base no conhecimento – certamente imperfeito – que temos hoje das mudanças possíveis e desejáveis.

Conteúdo do dossiê «Consciência animal»O dossiê «consciência animal», incluído neste número dos Cahiers, é mais especificamente consagrado à senciência nas ciências ou na filosofia, porque é lá que se encontra um dos obstáculos à atitude de levar a sério a sensibilidade animal. A ambição do dossiê é dupla:

– fazer saber que a compreensão da consciência permanece um problema
ão-resolvido, e que isso não é anódino para a causa animal;
– incitar a procurar os meios para que as lacunas dos nossos conhecimentos na
atéria não possam ser utilizadas para negar a senciência animal, e fornecer desde já algumas ferramentas para esta finalidade.

Estes dois temas estão no cerne do artigo «A ciência e a negação da consciência animal» (David Olivier, Estiva Reus). Mais geralmente, todos os textos reunidos
este dossiê fazem uma contribuição para aquilo que é o seu objetivo.

Tomamos emprestado ao blog de Jane Hendy um testemunho intitulado «No campo do inimigo», porque ele ilustra a maneira pela qual certos cientistas fazem uso de sua autoridade para negar o sofrimento animal. É uma atitude que não é excepcional entre os «peritos em bem-estar», isto é, em pessoas que detêm um poder para favorecer ou frear reformas destinadas a reduzir o mal-estar nos locais de criação.

O livro Through Our Eyes Only (Apenas Através dos Nossos Olhos), de Marian Stamp Dawkins, cujo resumo abre este dossiê, é uma obra de referência no domínio da consciência animal. Pode-se lê-lo pelos numerosos exemplos que ele fornece de comportamentos complexos em indivíduos de diversas espécies. Mas não se trata de uma coletânea de estórias sobre a vida dos animais. As informações que ele fornece são postas a serviço de uma problemática que se poderia resumir da seguinte maneira: como se pode, ao mesmo tempo que se reconhece que a consciência permanece um enigma, e sem trair o rigor científico, sustentar que existem boas razões para crer que os animais são conscientes?

Enfim, Agnese Pignataro, em «O elo entre sensibilidade e pensamento na crítica
do automatismo animal de Descartes: Bayle, La Mettrie, Maupertuis», nos faz descobrir o que filósofos diziam da senciência animal nos séculos XVII e XVIII. Constituiria um erro deter-se em algumas hipóteses biológicas antiquadas destes autores, para concluir que o conjunto está obsoleto. A hipótese cartesiana de uma sensibilidade mecânica, de uma «sensibilidade» sem sensações, não está morta, ela assumiu novos aspectos. E aquilo que objetavam os contraditores de Descartes em seu tempo não está tão longe, tanto em sua riqueza, quanto em suas insuficiências, do que se poderia dizer hoje em dia.

Notas :
1. A sensibilidade dos peixes (CA n° 1 e 2 (Tom Regan, CA n°8), a vida mental
dos animais por ou de acordo com DeGrazia (CA n°18 e 19…
2. Esta mensagem de Joyce D’Silva sucede ao colóquio From Darwin to Dawkins: the science and implications of animal sentience (De Darwin a Dawkins: a ciência e  implicações da senciência animal), organizado em Londres pelo CIWF nos dias 17 e  18 de março de 2005.En français (texte original)

Fonte :Les Cahiers Antispecistes

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