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‘Estamos sendo feitos de tolos’, diz especialista em danos ambientais sobre óleo no Nordeste

Mais de 200 praias foram atingidas pelo óleo no Nordeste, num total de 2 mil km


Uma das maiores especialistas em danos ambientais do país, a doutora e professora sênior da Universidade de São Paulo (USP), Yara Schaeffer Novelli, denuncia que os marcos legais sobre desastres ambientais não estão sendo usados no combate ao óleo que tem atingido o Nordeste. “Estamos sendo tratados feito tolos”, desabafa a cientista, que é sócia-fundadora da ONG Instituto Bioma Brasil.

Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem

“Nós [o Brasil] começamos com o pé errado. Mas, com todo esse tempo – as primeiras manchas de óleo apareceram em 30 de agosto -, para mim foi intencional não se envolver pessoas e grupos que poderiam definitivamente ter colaborado. Teríamos tudo para ter agido de forma organizada, legal e dentro das normas desde o primeiro momento em que se avistou óleo chegando às praias. Não precisa de muito, está tudo aí no Google”, afirmou Yara ao portal Marco Zero Conteúdo. Yara já escreveu mais de 100 artigos científicos e é autora ou organizadora de mais de 40 livros.

O Brasil não está cumprindo a Lei 9.966, de 2000, que define ações a serem tomadas em caso de lançamento de óleo em águas sob jurisdição nacional. Quase 40 dias depois do poluente atingir o Nordeste, Bolsonaro determinou que a Polícia Federal e a Marinha investigassem as responsabilidades do crime ambiental.

“O próprio Plano Nacional de Contingência diz que imprensa tem que ser comunicada e que é para haver reuniões diárias e divulgações de tudo que está acontecendo. Eu fico pasma, esse é o adjetivo que configura o que estou sentindo no momento”, lamentou.

Yara lembrou ainda que a Lei 9.966 também torna o Ministério do Meio Ambiente responsável por identificar, localizar e definir limites de áreas ecologicamente sensíveis à poluição causada por vazamento de óleo. Esse mapeamento, segundo resolução de 2008 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), deve ser representado pelas Cartas de Sensibilidade Ambiental a Derramamentos de Óleo (Cartas SAO). Isso, porém, também não foi feito.

“As Cartas SAO identificam a sensibilidade ambiental que deve ser protegida, os recursos biológicos sensíveis ao óleo. Está tudo lá, cheio de figurinhas, mapa, bichos, atividades socioeconômicas que podem vir a ser prejudicadas”, frisou Yara.

Segundo a especialista, o governo federal, de Jair Bolsonaro, deveria proteger o que está mapeado e usar imagens de satélite como método de prevenção. “O Porto de Suape, por exemplo, é obrigado a ter essas barreiras. O mesmo vale para a Petrobras no Recôncavo Baiano. E onde elas estão?”, questionou a professora. “Até palha de coqueiro poderia ter sido colocada na praia”, completou. No entanto, segundo a Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema) do Governo de Sergipe, que declarou situação de emergência e onde o óleo já atingiu a foz do Rio São Francisco, não há mais boias absorventes para conter o óleo no rio Vaza Barris, em Aracaju. Para a compra de mais equipamentos, o estado irá precisar investir R$ 100 mil.

Além da legislação e das Cartas SAO, o governo deveria ter acionado, desde o início, o Plano Nacional de Contingência, de 2012, que determina medidas a serem tomados em casos como esse. Quando foi anunciado, o plano tinha R$ 1 bilhão de orçamento para ser usado como seguro em caso de acidentes.

“Será possível que não fizeram nada disso? Eu, uma idosa de 76 anos, fico sabendo disso e o seu ministro do Meio Ambiente não sabe? Porque ele não perguntou aos técnicos do ministério, Ibama, ICMBio, que são competentes? E isso eu afirmo e assino embaixo”, disse Yara.

Foto: Reprodução/Jornal de Brasília

“Começo a desconfiar que existe uma ordem superior para que não se manifestem. Essa mudez total, esse silêncio, só podem ser orquestrados. O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) se calou, mas eles têm oceanógrafos físicos e pessoal especializado em estudo de imagens de satélite de primeira qualidade”, completou.

“Como alguém vê as manchas chegarem às praias e não aciona as imagens dos satélites? Elas dizem onde as manchas estavam ontem, onde estavam antes de ontem… Elas estão aí para isso. Acho impossível não terem feito. Se alguém foi impedido de divulgar, isso é muito sério”, questionou a professora.

Sobre a decisão da Marinha de notificar 30 navios de 10 países após triagem do óleo, Yara classificou o episódio como “uma tremenda confusão”. Segundo ela, o navio pode ser de um país e ter bandeira registrada em outro. Além disso, há países de conveniência, como a Libéria, que têm poucas exigências a respeito das embarcações.

“Não vimos a análise do óleo para dizer de onde ele é. Todo óleo tem uma assinatura. Ninguém mostrou nada”, disse. A postura de Bolsonaro, ao falar em “quase certezas”, é vista pela cientista como algo “tragicômico”. “Você já viu alguém estar quase grávido?”, ironizou Yara.

“Já vi áreas costeiras em São Paulo impactadas por óleo, é bem diferente dessa quantidade que está chegando ao Nordeste. E imaginar que esse óleo sofreu intemperismo e já mudou muito… Essa mancha quando foi exposta pela primeira vez na superfície do mar, era enorme. Ela vai secando, se dissolvendo na coluna d’água, perdendo componentes, grudando mais e diminuindo o tamanho da mancha”, explicou.

A maneira de combater avanço do óleo varia de acordo com o local onde ele se encontra. Se realmente tiver sido despejado em alto-mar, tensoativos poderiam ser usados para dissolvê-lo. No entanto, com a chegada do petróleo cru à costa, já não se pode mais tomar essa iniciativa devido aos riscos para as pessoas e para a fauna e a flora marinha.

Foto: Instituto Verdeluz

Mais de 60 animais já foram resgatados e 20 deles morreram. Mas este número é imensamente maior. Não estão sendo contabilizados peixes, moluscos e outros animais de grande porte que podem ter morrido distante da costa. Além das vidas desses animais, a limpeza das praias retira por conta do óleo uma grande camada de areia onde há muitas vidas. “Isso é uma perda muito grande. Há animais, crustáceos pequenos, larvas e outros organismos vivos importantes para o início da cadeia alimentar”, disse Yara. Esses organismos, inclusive, são alimento de aves que migram do hemisfério norte para a costa brasileira durante o inverno. “Muita coisa é irreversível, um efeito crônico de longo prazo”, lamentou.

Sobre o local onde ocorreu o vazamento, há divergências. Para o professor de Oceanografia da UFPE Marcus Silva, o óleo foi derramado por um navio a 50 quilômetros da costa, entre Pernambuco e Paraíba. Cientistas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) discordam. Na opinião deles, o óleo pode ter sido lançado em águas internacionais, a até mil quilômetros da costa brasileira.

Substâncias cancerígenas e tóxicas

Soraya Giovanetti El-Deir, pesquisadora líder do Grupo de Pesquisa Gestão Ambiental em Pernambuco (Gampe) e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, explicou que há componentes cancerígenos no petróleo derramado na costa brasileira, o que coloca em risco não só os animais, mas também os voluntários que atuaram na limpeza das praias.

“Há um percentual de elementos dentro do petróleo que são cancerígenos e há uma parte que gera infecção, pode gerar até problema respiratório. É preciso monitorar as pessoas que foram voluntárias e não usavam equipamento de proteção individual correto. Se houver insonia, dor de cabeça, mal-estar, tontura, se houver essa intoxicação, o recomendável é tomar bastante água e se os sintomas pernanecerem, procurar um hospital”, disse.

A professora explicou ainda que o óleo retirado das praias é só uma parte do material derramado na costa brasileira. “Há uma parte que é volátil e vai para a atmosfera e há uma outra parte que desce a coluna d’agua e vai se depositando no solo marinho. E há uma parte que a gente chama sobrenadante, que é a que vai chegando na costa”, explicou. “Esse material é um composto de hidrocarbonetos, de substancias tóxicas. Dentro desses hidrocarbonetos existem alguns compostos que são de uma toxicidade extremamente elevada. Dentre eles, o benzeno. E essa substância, por ser mais estável, vai ficar na coluna d’agua. Ele não fica como petróleo, não é visto, e se dispersa na coluna d’água. Existe uma resolução do Conama que determina a quantidade de benzeno na coluna d’água que a gente consegue suportar, que é de 0,051 a 0,7 miligramas por litro”, completou. Segundo Soraya, até que um monitoramento da água demonstre que é seguro entrar no mar as idas à praia devem ser suspensas.

Voluntários em risco

Como se não bastasse a exposição dos voluntários ao petróleo, sem qualquer proteção adequada, o sigilo das análises laboratoriais do óleo impedem que se saiba quais são as substâncias as quais as pessoas estão sendo expostas, o que as coloca sob um risco ainda maior.

“Não era para a população estar nas praias retirando esse óleo, era para ter equipes de profissionais do governo federal junto com empresas especializadas em retirada de resíduos. Mas as pessoas estão desesperadas, precisam daquele ambiente. Então estão indo para salvar o meio ambiente e a única fonte de recursos econômicos que elas têm, no caso de pescadores e da população mais carente que vive da costa”, lamentou Sidney Marcelino Silva, do movimento Salve Maracaípe, que tem sido o principal articulador da sociedade civil para os trabalhos de limpeza das praias de Pernambuco.

Expostos ao óleo, os voluntários tem sofrido com dores de cabeça, náuseas, tonturas, ardor nos olhos, dermatites, insônia, problemas respiratórios e queimaduras. Sidney e sua irmã são dois exemplos disso. O ativista teve alguns sintomas, assim como sua irmã, que apresentou náusea, coceira e dor de cabeça. “Os médicos recomendaram tomar muita água e evitar a exposição”, disse o ativista ao portal Marco Zero Conteúdo.

De acordo com a médica Maria Renda Cadorin, estudos comprovam que pessoas expostas a crimes ambientais envolvendo óleo em outros países sofreram, a médio e longo prazos, problemas como infertilidade, câncer, hepatite, problemas renais, além do nascimento de crianças com retardo.

“Tudo isso depende do tempo e do tipo de exposição, se foi contato, inalação ou ingestão. Estamos ainda pesquisando, mas o fato é que estamos no escuro”, disse. Segundo ela, os equipamentos de proteção individual distribuídos são simples diante da gravidade do caso.

A médica integra o grupo Monitora Saúde, fundado em Pernambuco para unir informações, realizar pesquisas, conscientizar a população e construir uma base de dados com os materiais coletados. “Estamos orientando todos a exigirem que seja feita a notificação compulsória para termos informações e dados para saber como a população está sendo afetada”, afirmou.

Ao observar um vídeo que mostra brasileiros limpando o óleo das praias, o consultor canadense especializado em derramamento de óleo, Gerald Graham, afirmou que “este vídeo de remoção de óleo das praias brasileiras mostra como NÃO limpar após um derramamento. A resposta a derramamentos marinhos é um trabalho perigoso, exigindo treinamento e equipamentos adequados”. Consultor do Banco Mundial, da OCDE, da Unesco, da FAO, da União Européia e da Agência de Desenvolvimento do Canadá e da alemã GTZ, Graham considera que o caso registrado no Brasil é um exemplo de quando “a cura é pior do que a doença”.

Óleo se aproxima de Abrolhos

Abrolhos, arquipélago que detém os bancos de corais de maior diversidade do Atlântico Sul, está sob ameaça com a aproximação das manchas de óleo.

Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

Os corais são protegidos pelo Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, a primeira unidade de conservação marinha do país.

Segundo o ICMBio, a região está sendo monitorada e serão tomadas ações de contenção caso as manchas apareçam.

Manifestação

Diante do grave dano ambiental causado pelo vazamento de óleo no Nordeste e da inércia do governo federal, ativistas que militam em prol do meio ambiente se mobilizaram e marcaram uma manifestação em Pernambuco para o sábado (26).

Os ativistas cobram soluções do poder público para preservar o meio ambiente e a saúde da população, que está se expondo a riscos limpando as praias com as próprias mãos.

Os organizadores do ato criticam a União, a Marinha, o Ibama e o Governo do Estado de Pernambuco que, segundo eles, não estão agindo de maneira adequada.

A manifestação será realizada no sábado (26) em frente à Assembleia Legislativa de Pernambuco, na R. da União, 397, Boa Vista, em Recife. A concentração será às 14h.

Nota da Redação: a ANDA repudia a inação do governo federal, que tem tratado com descaso um dos maiores crimes ambientais do país. Ao mesmo tempo alertamos para o impacto devastador que o vazamento de óleo em toda a costa do Nordeste está causando aos animais marinhos e a todo o ecossistema. A ANDA lamenta que a imprensa não tenha acesso a dados importantes e que o número de animais mortos e o impacto ambiental seja absolutamente subdimensionado.


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