Artigos

Café no polo norte

A intenção era criar um monstro de muita carne (defumada) e osso. Ele nasceu e passeou livre, altivo, por todos os cantos, trazendo seu calorzinho leve enquanto estava de bom humor. Só que um dia, cansado da hegemonia estilo zen que vinha desempenhando, ele baixou a sobrancelha, deu um espirro e saiu rebolando.

O tal espirro respingou em uma turma dos Estados Unidos. Mas quando a CNN divulgou, disseram que a culpa era isolada, duma Dona Katrina meio revoltada. Abalado, o monstro foi conhecer o sul da Ásia. Quando notaram a quimera rebolando forte nas praias da Indonésia, trataram de disfarçar dizendo que, não, a culpa era novamente isolada… dum japa meio louco, procurado internacionalmente, que atende pelo nome de Tsunami.

Pois é. Acabou que ninguém mais conseguiu esconder as confusões do pimpolho e tiveram de chamar os pais da criança-monstro para uma reunião em Copenhague. Alguns dos intimados a comparecer foram para lá contrariados. Diziam que o filho não era deles! No máximo, seriam parentes distantes.

Felizmente para alguns, o tio Obama levou até um teste de DNA para comprovar a descendência remota do assombroso. Cruzaram as informações para provar que o pai do pai do pai do pai dele era esquimó, ou seja, um camarada que vive no meio do nada e sem tecnologia nenhuma. Com isso, queriam dizer que, pobre coitado, ele era natural mesmo. Estava aí há muito tempo, só que atualmente em má fase, sendo a ideia mais acertada apenas dar um tapinha nas costas do calorento e mandá-lo relaxar nas montanhas.

Na entrada da sede do ajuntamento da parentada, na fria Copenhague, um incendiário que chegou lá remando, direto de Tuvalu*, estava pronto para lançar na turma de gravata o seu ardente molotov. Mas os caras do Greenpeace seguraram-no, dizendo que fumaça da sua garrafa flamejante poderia fazer sua ilha de origem afundar. No meio do agarra-agarra, parecia que alguma coisa estava queimando… e não era o coquetel do Tuvaluano.

Ninguém acreditou quando se viu entrar na sala de reuniões, ele, o próprio Chamuscado, o Labareda, Calorento, Inflamado, enfim… o cara tem muitos nomes para os íntimos. O Pirado acenou para a multidão enfurecida e foi se sentar ao lado do tio Obama. Chamaram o monstro para falar em Copenhague! Devia ser para garantir o contraditório, a ampla defesa do acusado, ou coisa do tipo. Decepção.

Ao redor da mesa, após muita explanação, ficou decidido que ele era mesmo filho do esquimó, e que, portanto, era natural. Apenas acertaram que um dos presentes ia aparecer em público, com transmissão ao vivo pela CNN, para explicar que ninguém tinha culpa de nada… Todos aplaudiram a resolução. Até o Combustado se emocionou, dizendo que era uma alegria saber que tinha parentes naturais.

Enquanto os reunidos confraternizavam, titio Obama suava frio num canto, confidenciando ao estadista alemão que, na verdade, falsificara os exames de DNA. O garotão não era filho de esquimó coisa nenhuma, mas sim fruto de um projeto desenvolvido há muito tempo pela humanidade. Projeto que ele, Obama, assumira o compromisso de levar adiante quando carimbou a carteirinha de candidato às eleições presidenciais estadunidenses.

De mansinho, aproveitando que tinham ligado o ar-condicionado para abrandar a temperatura da sala, o Labareda, que estava a cada instante sendo menos “sentido” pelos engravatados, resolveu abandonar a assembleia pela porta dos fundos. Visivelmente emocionado, pôs-se a correr para encontrar algum parente esquimó para dar um abraço quente. Que dia feliz! Na porta da frente, o Tuvaluano passou a mão na canoa e decidiu voltar para casa, certo de que não seria desta vez que seria ouvido. Remou, remou, remou…

Tuvalu havia afundado de vez. Sinal de que o Fogaréu já tinha tomado café com os parentes lá no polo norte.

*Tuvalu, um dos menores estados independentes do planeta, tem uma população de cerca de 12 mil pessoas. Com o território completamente ao nível do mar, deverá desaparecer em breve, entrando para a história como o primeiro país cuja população será inteiramente vitimada pelo aquecimento global, havendo de se refugiar sabe-se lá onde…

​Read More