Colunistas, Olhar Literário

Conto (quase triste) de natal

Eis que chego a São Paulo, mais uma vez, para me perder nas avenidas vertiginosas de seus descaminhos tantos. É um trafegar de um lado para outro, nesse labirinto vivo que se torna a própria pulsação da cidade-ciclope. Em dezembro parece que tudo se agrava, qual alarme do fim do mundo, o rumor das máquinas, a multidão de carros, os apelos natalinos, as nossas inquietações. Logo no início da marginal do Tietê, vindo da via Dutra, é impossível não ver aquele boneco vermelho gigantesco, inflado em seu monstruoso apetite de não sei o que, anunciando sua presença soberana a quilômetros e quilômetros de distância. Tento não desviar o olhar, concentrando-me na pista que acompanha o rio que um dia foi rio, mas é inútil. Se bem que quase posso ver à minha esquerda, pelo leito das águas paulistas, o jacaré Jorge Ginga e o papagaio Eurico navegando num bote, a caminho do sertão. Mas à direita o símbolo maior do Natal surrealista continua ali, onipotente em sua imagem plástica, porta-
voz da grande festa anunciada, convite ao comprar ao comer e ao beber até cair. Entre a imaginação e a realidade, contudo, há uma ausência física irreparável.

Por isso eu tenho que prosseguir em meu caminho e cruzar a metrópole, até a zona oeste. Sigo adiante. Meu destino é a Rua Jasper Negro, lá no bairro onde nasci e onde tudo se acabará um dia. O ser e o nada. Trago comigo um ramo de flores e uma lembrança que não cessa, certo de que o verbo recordar, em seu significado etimológico mais autêntico, significa lembrar com o coração. Lembro-me de tudo, de seus primeiros desenhos, das tiras e charges nos jornais, da série ecologia em quadrinhos e de uma das mais belas histórias infanto-juvenis que alguém já escreveu: “O segredo de Zirzilim” (o menino que via tudo de cabeça-para-baixo). Lembro-me de seus roteiros de cinema e da trilogia da indiazinha Tainá, que propiciou à criançada diversão pra chuchu e ainda por cima conscientização ambiental. Lembro-me sempre das aventuras de suas personagens pelo Amazonas e pelo Pantanal, quando o herói crocodilo – exatamente como você – tinha um modo todo sorridente de falar de coisas sérias. Lembro-me também dos natais de antigamente, daquela humilde arvorezinha de arame coberta com neve de algodão, tempo em que os animaizinhos do presépio confabulavam,
tempo em que éramos simples, puros e felizes.

Já passei a ponte da Casa Verde e minha casa parece cada vez mais longe. Pouco importa. Tenho uma missão a cumprir e não há tempo a perder. O pensamento voa e por vezes se recusa a acreditar que a morte é real, como que desafiando a sua face mais perversa. Por que interromper uma vida na plenitude, por que a injustiça de morrer jovem, por que matar o que é essencialmente vida? Sei que de nada adianta praguejar contra a fatalidade, noiva sinistra do homem da foice. A morte não combina com humor, não rima com alegria, não gosta que riam da sua careta sem graça. Melhor então é olhar de soslaio às luzes de dezembro que começam a alumiar esta cidade de cimento e pedra, luzes que também acendem uma presença em mim. Ao menos há o conforto de saber que na sua breve aventura existencial havia um bichano e três outros bichinhos a lhe trazer felicidade, ah esse amor incondicional dos animais capaz de aplacar nossas angústias mais secretas.

Lapa, enfim. Desligo o motor quase morto de cansaço mas aliviado em ver os portões de ferro ainda abertos. Aproximo-me da quadra derradeira em que você está, no sol extinto do fim de tarde, para então depositar estas flores sobre sua laje fria (flores que amanhã serão murchas). Silêncio. É hora de pensar em seu desapego diante da vida, em sua espontaneidade traduzida em palavras e ações, em sua extrema coragem perante a dor, em sua capacidade de enxergar beleza nas pessoas e no mundo. Você que tanto acreditou no papel transformador da arte, que tanto cultivou o respeito pela natureza e pelos animais, que tanto lutou pela cultura de um país, você que tanto amava a vida… Por isso esta pequena elegia, guerreira Kirimbau, porque – conforme suas próprias palavras – “Índio não morre… vira pássaro, vira bicho, vira floresta”. Aqui estou, minha irmã, a lhe dizer adeus. Ou seria apenas um “até breve”?

(Este texto é dedicado à memória de Cláudia Levay)

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Imagens

Ensaio fotográfico baseado na fábula "O Cão e a Raposa".

Lindo trabalho da fotógrafa Jinky Art que engrandece a amizade entre a raposa e o cão, representados pela garotinha Sacha fantasiada de raposa juntamente com o seu cãozinho da raça Basset Hound.

A fábula escrita por Daniel P. Mannix em 1967 ganhou uma versão suavizada em desenho produzido por Walt Disney. A animação foi lançada em 1981 e faz sucesso até hoje.

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Você é o Repórter

Animal tratado como animal

Giovana Damaceno
gidamaceno@gmail.com

Pagava o pacote de ração da minha gata no balcão da loja, quando a balconista pediu a outro funcionário que retornasse com o cão, que acabara de tomar banho, pois a guardiã dele chegaria atrasada. “Tranca lá dentro; ele é muito bagunceiro”. E nós, quando vimos o animal, claro, ficamos encantados com a beleza dele. Branquinho, peludo, orelhas grandes, todo escovado e com cara de sapeca. “Trancar? Tadinho!” E a vendedora me contou que o cãozinho com cara de Totó era, na verdade, um furacão.

“Mas, como assim, um furacão?”, quisemos entender. E ela nos explicou que o Bud – esse é o nome do cão – passara uma temporada na casa dela durante uma viagem da tutora e destruíra até o sofá. “O pobrezinho mora em apartamento e passa o dia inteiro trancado em um banheiro. Diz a guardiã dele que o leva a passear todos os dias, mas mesmo assim, acaba sendo pouco. Vai à rua, volta para o banheiro. Não vê nada, nem ninguém, nem pode brincar”, contou a balconista para a pequena plateia chocada em torno dela.

Minha pergunta é: por que quis ter um cachorro?

A resposta pode vir de diversas formas. A guardiã pode ter recebido o animal de presente, sem ter pedido ou se programado para isso; pode ter ficado com ele temporariamente, para colaborar com algum impedimento dentro da família e o bicho acabou ficando; morava numa casa e teve de se mudar para apartamento; ou comprou aquele filhotinho lindo, sem se dar conta de que filhote cresce, faz xixi, cocô, come sapatos, meias e, dependendo da raça e do tamanho, devora muita outras coisas dentro de casa. Quem tem a mínima noção destes detalhes se organiza para ter um animal. Chamamos a isso de tutela responsável.

Muita gente, mas muita mesmo, sequer tem noção do que é necessário saber para ter um animal em casa e praticar a tutela responsável. E isso tem um motivo básico: a maioria das pessoas ainda pensa que animal é objeto, brinquedo. E dá no que dá. Compram-se bichos, presenteia-se com bichos, leva-se bichos para casa como se fossem um pacote de biscoito. De repente, descobre-se que não era bem aquilo e a solução encontrada é descartá-lo, dando para alguém, ou jogando fora mesmo. Uma cultura antiga, primitiva, ignorante, de que animais em casa são peças decorativas e pronto.

Ao lado da minha casa há um cão neurótico, quase como o Bud. Ele vive numa exígua varanda, no segundo piso de uma residência de dois andares. A guardiã o leva a passear, segundo meu filho, que já viu a cena algumas vezes. Mas na maior parte do tempo ele está trancafiado naquela varanda, sem ver ninguém além das pessoas da casa. E quem sofre mais com isso além dele mesmo? Eu, claro. Quando ele consegue enfiar a cabeça pela grade a única coisa que vê é meu quintal e as janelas do meu quarto e da minha cozinha. E basta ouvir vozes que late, late muito, sem parar, praticamente nem respira. E o latido dele é fino, agudo, intermitente, irritante. Um latido tão solitário e neurótico que até meus cães parecem ficar com pena. Enquanto ele late desesperadamente com a cabeça na grade, os meus bichos ficam olhando, sentados, calados.

Animais precisam de espaço, contato com pessoas – tanto as da casa, quanto de fora –, espaço suficiente para ter comida e água longe do local onde fazem xixi e cocô. E, de preferência, soltos. Tenho dois cachorros que vivem em um quintal com tamanho de sobra para que corram à vontade. Alimentação de um lado, excrementos de outro. Possuem uma área protegida como também podem tomar sol quando querem. E não têm sequer coleira; vivem soltos, sempre. A coisa mais rara é ouvi-los latir.

Animais de estimação não devem ser tratados como gente mas, sim, como animais! Nisso já está embutido o respeito com que deveriam ser tratados todos os seres vivos. Simples.

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Notícias

Do Amor

Por Fernando Portela

Eu sei, eu sei que ele é muito velho e que existe o tal do tempo implacável, as regras da natureza, e a sobrevida pode ser uma questão de meses, mas, meu Deus, ele está aí, respirando, ainda se levanta, e anda um pouco, até engordou uma coisinha nas últimas semanas. Mas veja o quanto existe de vida, de alegria, até, nos olhos dele! Ele me olha assim, tão profundamente, que toda vez choro. E, quando choro, sou meio histérica mesmo, nunca me contive, o olhar dele muda para um outro sentimento, meu Deus, é uma coisa tão evidente… transforma-se em um olhar de piedade. Por mim! Ele está morrendo, mas tem pena de mim! Não quero nem imaginar as dores que sente. O linfoma tomou boa parte da genitália e foi preciso extrair quase tudo.  Está, naturalmente, com incontinência urinária, mas isso, pra mim, é o de menos. Imagina se vou ter nojo de xixi. Me preocupo mais com a quimioterapia – porque o linfoma volta – , ela pode acabar com sua resistência. Acho que já foi um milagre ter sobrevivido à anestesia, mas teria sido pior a inalatória; a peridural lhe deu chances. Olha, vou falar sério com vocês: não me provoquem com essas histórias de que o tempo dele acabou porque do tempo só sabe Deus. Já vi outros da raça viver mais de doze anos, assim como já vi também os que não passaram dos seis. Vocês vêm falar comigo como se o Meninão fosse um problema burocrático, ou, pior ainda, um estorvo, algo de que preciso me livrar. Pobres de espírito! Vocês projetam sua insensibilidade e eu percebo isso no olho de vocês, assim como todo o amor do mundo está no olho do meu querido. Nunca senti um amor assim. Juro! Meu marido Ribamar dizia que me amava, às vezes até parecia, mas esse amor não o impediu de me tascar um chifre daqueles, e com uma rampeira aqui do bairro. Aliás, Meninão nunca gostou dele. Respeitava-o pelo fato de ser meu marido, morar aqui, mas não atendia quando ele chamava, ficava quieto, na dele.  No entanto, quando eu estava a um quilômetro de casa, o garotinho começava a se agitar, e ao ouvir o motor da caminhonete, gemia, gemia de amor, de amor puro! E quando eu entrava em casa ele se mijava todo. Tem amor assim, tem? Então, não me amolem e se algum de vocês citar – vejam bem: citar – a palavra “eutanásia”, eu vou lá dentro, pego a espingarda que Ribamar esqueceu aqui, depois que o expulsei, e encho de chumbinho suas bundas gordas. Nunca engoli essa teoria de que “eutanásia” se faz por amor. Essa é a pior hipocrisia, a irônica!  Coisa nenhuma! Quem ama agoniza, cai junto, alivia, dá a mão, sente, chora, grita, e pode até matar, mas não a coisa amada, e sim os egoístas, empedernidos, que não passam de psicopatas disfarçados – o mundo, hoje, está cheio deles! Eu, se for o caso, morro junto com o Meninão, vou aguardar o tempo de Deus e lhes digo mais: esse atendimento especial ao doentinho não vai atrapalhar em nada minha dedicação aos outros 34 meninos e meninas que sobrevivem porque eu existo!

Fernando Portela é jornalista, escritor e autor do blog http://fernandoportela.wordpress.com

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Você é o Repórter

Conto de Simone Barcelos Gutkoski

 Deolinda
deolindaflorais@terra.com.br

Vida de Cão

Simone Barcelos Gutkoski*

14h32m
“Canil Municipal, bom dia.”
“É daí que recolhem os cães ? Tem um cão com a pata toda comida na
frente da minha casa, acho que é bicheira. Apareceu faz uns três dias
e não levanta mais… Manda a carrocinha logo, por favor !”
“… o seu pedido é uma emergência e vai ser passado pelo rádio para
que o recolhimento do animal seja feito ainda pela manhã.”
“Ai que bom, moça. A gente sofre vendo o bichinho sofrer, né ?! O que
é que vocês fazem com eles depois, hein ? Sabão ?”

15h17min
“Central chamando Apreensão!!” “Apreensão na escuta.”
“Tem um cão atropelado na Rua das Acácias. O animal está na calçada,
ao lado do mercado Santos. Parece que está com a pata quebrada.”
“Ok. Entendido.”

17h
“Apreensão chamando Central !!”
“Central na escuta!”
“Avisa a veterinária que tem dois cães para eutanásia.”
“Ok.

Na seringa, o sangue do animal misturava-se ao líquido letal incolor,
espalhando-se como um manto vermelho. Ora era de um vermelho vivo –
sangue de cão forte. Ora de uma cor pálida, alaranjanda – cão fraco,
doente. Já perdera a conta de quantas já havia feito – talvez umas
mil. A do dia era a 34ª – trigésima quarta. Sabia porque anotava cada
uma na planilha de eutanásias: canino ou felino; macho ou fêmea;
filhote, adulto ou idoso; apreensão, doação, maternidade ou cela
coletiva. Gostava de anotar no espaço em branco uma observação: cadela
prenhe, tumor de Sticker, cinomose, atropelado. Ajudava a dividir a
culpa. Afinal, papel aceita tudo mesmo. Os humanos têm direito a
atestado de óbito individualizado, padrão internacional. Os cães não.
Seu ritual funerário é o transporte até um aterro sanitário onde
decompõem-se junto às sobras da civilização urbana, enriquecendo o
denso chorúmen.

A estas alturas já não sabia mais qual a denominação certa para a
eliminação dos animais: eutanásia, sacrifício, execução, extermínio ou
destruição. A literatura internacional dos livros e papers a deixava
mais confusa ainda: elimination, killing, destruction, euthanasia,
putting to sleep, putting down. Gostava de dizer eutanásia porque era
uma palavra forte, chamava a atenção das pessoas, provocava. Palavra
dolorida que já estava incorporada na rotina de trabalho, no seu
dia-a-dia. Trabalho que ia muito além do sacrifício braçal.
Consumia-lhe horas de brainstorm – monólogos intermináveis para tentar
entender a aceitar aquela loucura banalizada – e horas de sono. Às
vezes sonhava com uma pilha de cães mortos ou acordava ouvindo
latidos. Na hora de fazer eutanásias, procurava ser a melhor possível
para que fosse rápido e indolor para o animal. A vestimenta branca que
utilizava, avental, gorro, máscara e luvas, além de ser um ritual
médico-sanitário, despersonificava-a fazendo-lhe parecer uma máquina
de injetar. Na hora de fazer, passava muita coisa pela cabeça. Teorias
sobre a morte e a dor surgiam. Sabia que cada animal comprado nos
anúncios dos classificados ou nas pets significava uma adoção a menos
e uma eutanásia a mais. Na hora de fazer, sentia raiva das pessoas.
Dos donos que entregavam os animais porque estavam velhos. Das pessoas
que abandonavam na rua animais que tiveram uma casa, vasilha com água
limpa e ração. O padrão racial não era impedimento para que os mesmos
fossem descartados pelos donos no Canil Municipal – posto de entrega
voluntária dos animais não mais desejados. Poodles branquinhos e
cinzas, cocker caramelo, fila tigrado, rotweiller, pastor, husky e até
akita ! Se não fossem adotados, em poucos dias adoeciam pelo ambiente
infecto e pela depressão que os acometia. Alguns donos diziam: “ele
apareceu lá em casa anteontem”. Ia ver, era um cão bem tratado, pêlo
brilhoso e abanava a cauda para o dono mentiroso. Os sinais caninos
não mentem. Outros donos confessavam: “comprei ele, mas não deu certo.
Ele late muito e morde o sofá.” Para conveniência e praticidade dos
humanos, as teorias comportamentais caninas e felinas eram ignoradas
ou ridicularizadas. No cárcere canino, cada cão era uma história de
vida a ser eliminada com uma injeção instantânea. Só nas celas
coletivas, mais de 200 detentos caninos aguardando – sem saber – o dia
em que partiriam para outra esfera. Sim, deveria existir no além do
além um mundo menos cruel.

Uma das que mais lhe marcara foi a de um cãozinho atropelado. Era
sexta-feira e como restavam pedidos de urgências não atendidos, fez-se
um plantão noturno. Anoiteceu e na espera do veículo chegar, pensava
nas tarefas domésticas. O tempo não passava e o estômago lhe doía pela
fome. Já havia preparado todo o material: seringas, anestésicos,
tranqüilizantes, mordaças. Quando a pick-up chegou, viu o animal no
fundo da gaiola. Encolhido em sua dor, manifestava sua agonia através
de um choro que parecia de gente. Teve vontade de gritar, sair
correndo e levá-lo para um hospital. Mas as circunstâncias pediam
outra atitude. Eu = boa; Tanathos – morte: morte boa. Já havia
aprendido que para muitos animais a morte é a cura para a dor. Naquela
tarde, ainda aguardava a pick-up trazer dois cães para eutanásia. Já
passava das cinco horas quando acompanhou o atropelado ser retirado da
gaiola. O que de pior ainda poderia acontecer ao animal depois de ter
sido alvo de um ser dito racional que fez de seu carro uma extensão do
seu corpo e fúria ? E ser transportado ferido no camburão com outros
caninos apreendidos, classificados como perigosos e ameaçadores à
saúde da coletividade ? Ao entrar na sala de execução, o animal viu os
cães mortos no chão, empilhados. Estava atento ao ambiente estranho,
percebido pelos sons e cheiros. O sangue e os excrementos na mesa ao
lado eram o registro da vítima anterior: cadela idosa, medo e dor.
Sinais da comunicação canina. “Será que ela foi atropelada como eu ?”,
deve ter pensado. Já com a boca devidamente amordaçada pelo
funcionário, observava com os olhos assustados uma moça que vinha em
sua direção. Sentiu uma picada no glúteo e começara a adormecer.

Circular entre os cadáveres e os seus excrementos, o cheiro fétido do
ambiente e os latidos ensurdecedores exigiam-lhe um esforço em dobro.
Não eram suficientes para tirar a sua concentração. Enquanto colocava
o álcool iodado que ia se espalhando nos pêlos da pata dianteira até
tocar a pele, a veterinária notou que o cão possuía no pescoço um
sinal de sua desconhecida história: uma coleira de couro encardida. Os
carrapatos minúsculos que circulavam entre os pêlos, eram os atores
secundários da saga canina. Apertou-lhe a pata como um pedido de
desculpa e um sinal de despedida. Os auxiliares aguardavam atentos o
momento esperado. Garrote feito, veia saltada – punção certeira.
Sentia perfeitamente a agulha perfurar o vaso. O sangue veio bem
volumoso. Injetou devagar o líquido, enquanto observava o animal
desfalecer. Em poucos instantes, que mais pareciam uma eternidade, o
ser canino transformava-se em cadáver… Constatou a ausência de
reflexo ocular e de batimentos cardíacos. Óbito confirmado. Dentro do
avental branco, uma criatura anestesiada e dessensibilizada. Sentia
que ao matar, também morria. Acondicionava a seringa utilizada no
descartex amarelo. Mas onde despejar aquele sentimento de culpa,
frustração e tristeza ? Descobrira que existe um tipo de lágrima que
escorre por dentro, acumulando-se nos interstícios do corpo.

Enquanto percebia sua cervical dura e os dentes cerrados, anotava na
planilha de eutanásias: cão macho, adulto, atropelado com fratura no
membro posterior esquerdo, posterior insensível. Queria escrever algo
mais para individualizar e humanizar o seu procedimento, mas
faltava-lhe a palavra. Não sabia que o cão sacrificado um dia tivera
um dono e um nome: era chamado por Valente.

Simone Barcelos Gutkoski trabalhou como veterinária do Centro de
Zoonoses de Porto Alegre de julho de 2000 até o final de 2001.
Em 2002, o conto “Vida de Cão” recebeu o Prêmio Revelação Literária Nova
Prova 20 Anos.

fonte: http://www.luzanimal.org/artigos/artigo24.htm

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