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“Os primeiros passos para o fim do uso de animais na pesquisa já foram dados, mas ainda temos uma longa jornada pela frente”

Divulgação/ Lush Prize

Carolina se destacou entre mais de 66 finalistas e utilizou a impressão 3D para desenvolver modelos de pele in vitro. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, a doutoranda do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, e bolsista do programa brasileira Ciência Sem Fronteiras, explica seu trabalho e comenta a eficácia e o progresso dos métodos de pesquisa que prezam pela ética ao invés da exploração de seres inocentes.

ANDA: Quando e de que forma você se interessou pela pesquisa de métodos alternativos aos testes em animais?

Carolina Catarino –  Meu primeiro trabalho nesta área de modelos de pele in vitro foi durante um estágio na L’Óreal em Paris. O meu trabalho na L’Óreal era usar os modelos de pele humana reconstruída para testar uma série de compostos. Essa foi a primeira vez que tive contato com o conceito de métodos alternativos aos testes em animais. Durante o tempo que passei na L’Óreal, eu comecei a me identificar muito com o conceito de “animal-free research” (pesquisa livre de animais) e, mais do que tudo, eu me encantei tanto com os modelos de pele humana in vitro que tenho dedicado minha carreira a essa área de pesquisa.

ANDA: Você desenvolveu modelos de pele in vitro a partir da impressão 3D. Poderia explicar mais sobre esse processo e como seus resultados ser comparados ao uso de cobaias? De que maneira a técnica de impressão 3D pode ser uma aliada no combate ao uso de animais em experimentos?

Carolina Catarino – Meu projeto de doutorado é no desenvolvimento de modelos de pele in vitro usando plataformas de impressão 3D (3D bioprinting). Essas impressoras, de maneira semelhante às impressoras 3D, são capazes de posicionar precisamente materiais e células (“bio-inks”) em padrões pré-definidos. Mais especificamente, eu tenho trabalhado no desenvolvimento de bioinks mais complexas que possam melhor recapitular o ambiente da pele humana in vivo. Para isso, tenho investigado a adição de múltiplos componentes e substituição de componentes de origem animal por alternativas. A próxima etapa do meu projeto é aumentar a complexidade destes modelos por meio da inserção de células que possam originar a estrutura do folículo capilar. Modelos de pele humana in vitro produzidos por técnicas tradicionais já são usados como alternativa ao uso de animais para avaliação, por exemplo, do potencial corrosivo e irritante de substâncias pela indústria em alguns países e como plataforma de estudos por diversos grupos de pesquisa.

O desenvolvimento destes modelos de pele usando impressão 3D é mais recente. Os modelos de pele disponíveis comercialmente e empregados para avaliação de risco de substancias atualmente são modelos simplificados da pele, e que, apesar de serem suficientes para determinados testes, não representam a complexidade da pele. O uso da impressão 3D pode contribuir para atingir níveis mais altos de complexidade nestes modelos com a inclusão, por exemplo, de vasculatura e de apêndices (folículos e glândulas sebáceas e sudoríparas). A inclusão destes e outros componentes, tornaria os modelos de pele mais semelhantes à pele humana, permitindo assim a ampliação dos tipos de testes que poderiam ser feitos usando apenas métodos in vitro.

ANDA: Apesar do crescente desenvolvimento de métodos de pesquisa que prezam pela ética, ainda existem questionamentos sobre a eficácia dos métodos sem crueldade. Qual a sua análise sobre isso?

Carolina Catarino  – Nos últimos anos diversos grupos de pesquisa do mundo têm se dedicado ao desenvolvimento de métodos alternativos e à avaliação da eficácia dos mesmos. Os modelos de pele humana reconstruída, por exemplo, já têm sido empregados pela indústria em alguns países como métodos alternativos para avaliação do potencial corrosivo e de irritação de compostos. Esses modelos passaram previamente por extensivos processos de validação no qual os dados obtidos com métodos alternativos foram comparados com dados in vivo encontrados na literatura.  Esse processo de validação permite então definir os parâmetros que devem ser adotados quando métodos alternativos forem empregados de forma que os resultados obtidos in vitro possam ser correlacionados com a resposta in vivo. A substituição do uso de animais por métodos alternativos tem sido feita de forma muito séria e responsável por grupos que prezam acima de tudo pela segurança e qualidade da ciência desenvolvida. Os primeiros passos para o fim do uso de animais como modelos na pesquisa já foram dados, mas ainda temos uma longa jornada pela frente não apenas no aspecto cientifico, mas principalmente na conscientização da sociedade sobre este assunto.

ANDA: Como uma pesquisadora brasileira, como avalia o país em comparação a outras nações no que se refere aos testes em animais?

Carolina Catarino – Em alguns países do mundo, os testes de cosméticos em animais e a comercialização de produtos testados em animais já foram banidos há alguns anos. O Brasil tem dados os primeiros passos neste sentido e eu acredito que políticas semelhantes devam ser implementadas em breve não apenas para satisfazer aos conceitos humanitários internacionais, mas também para atender à crescente demanda da sociedade brasileira pelo respeito aos animais. No âmbito cientifico, temos grupos de pesquisa que já se dedicam há anos ao desenvolvimento de métodos alternativos como, por exemplo, o Laboratório de Biologia da Pele da Universidade de São Paulo, coordenado pela Dr. Silvya Stuchi, que há mais de 10 anos trabalha com o desenvolvimento de modelos de pele humana in vitro.

Após ter trabalhado com pesquisa no Brasil e fora durante alguns anos, hoje tenho certeza de que a qualidade do trabalho desenvolvido no nosso país é excepcional e que formamos cientistas extremamente capazes e criativos. Se tivéssemos mais investimento em ciência, tenho certeza de que, em pouco tempo, o Brasil despontaria como referência mundial na pesquisa e no desenvolvimento tecnológico.

ANDA: No dia 28 de Novembro, ocorreu a CPI dos Maus-Tratos Contra Animais da Assembleia Legislativa do Estado de SP que debateu a vivissecção nas universidades brasileiras. O que você acredita que falta para termos um ensino ético?

Carolina Catarino – Acredito que diversos aspectos poderiam contribuir para um ensino mais ético no que diz respeitos ao uso de animais. Um primeiro ponto muito importante é a questão do investimento. Diversas tecnologias disponíveis no mercado podem ser empregadas como alternativas ao uso de animais em alguns campos de pesquisa. No entanto, a substituição por esses métodos alternativos demanda investimento e treinamento adequado de professores, pesquisadores e alunos. Segundo, acredito que precisamos enfatizar boas práticas e respeito aos animais. É muito importante conscientizarmos a sociedade sobre a disponibilidade e a eficácia dos métodos alternativos.

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