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Morrer é uma escolha

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Sofri uma decepção daquelas nos últimos dias. Daquelas que tiram o ar, porque fazem seu coração parar de bater por alguns minutos. Estava na aula de piano do meu filho quando aconteceu. A professora parou de tocar para me dar água com açúcar – porque, né, não basta sofrer, tem que pagar mico.

Fiquei uma semana praticamente muda. Distante das redes sociais, dos encontros sociais, das conversas sociais. Foi como se, todos os dias, eu vivesse aquele mesmo dia. Ou morresse.

Quando escolhi voltar à vida, me deparei com as inúmeras manchetes sobre a morte do toureiro espanhol Iván Fandiño, que levou uma chifrada no pulmão depois de tropeçar em sua própria capa vermelha.

Uma pena, ele tinha apenas 36 anos. Uma pena ele ter morrido? Também. Mas lamento mesmo ele ter escolhido morrer. Fandiño escolheu estar ali. O touro, não.

A mesma lógica se aplica ao caçador sul-africano Theunis Botha, que morreu em maio deste ano, durante uma expedição de caça em Gwai, no Zimbábue, quando um integrante de seu grupo – grupos que ele mesmo organizava – atirou em uma fêmea de elefante, que acabou caindo sobre ele, matando o caçador esmagado. Botha escolheu estar ali. O elefante, não.

Guardadas as devidas proporções, já que, nos dois primeiros casos, ambos não tinham nenhuma ligação emocional com os animais, voltemos para março deste ano, quando a morte da orca Tilikum reacendeu a discussão sobre a tragédia com sua treinadora, Dawn Brancheau. Ora, não sejamos hipócritas. Se você se dispõe a nadar com um animal de 5 toneladas, confinado há mais de 30 anos em uma piscina, o risco é claro e assumido. Dawn escolheu estar ali. A orca, não.

Fatalidades? Não. É a vida. Ou a morte. A gente que escolhe.

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Hoje tem marmelada? Não tem, não, senhor

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A gente quase nunca vence.

Geralmente, vence o dinheiro. Vence a politicagem. Vence o tempo – porque, na maioria das vezes, eles morrem antes que a gente possa sequer tentar.

Dê pão e circo ao povo, pregava o Império Romano. Mas e se o povo não quiser mais o circo?

Foi o que, mesmo no auge de seus 146 anos, o maior circo do mundo não teve maturidade para compreender.

O maior. O mais rico. O mais famoso. O mais poderoso. O mais tradicional. E o menos disposto a se reinventar.

Sob a alegação de que foi “obrigado” a retirar os elefantes de seus shows em 2015, somada ao aumento dos custos de produção, o Ringling Bros. Circus, que sobreviveu à Depressão e a duas Guerras Mundiais, sucumbiu à própria incapacidade de repensar seu modelo de negócio: fez sua derradeira apresentação no último domingo, 21 de maio, com direito a streaming e cobertura de mídias de todo o mundo, como The New York Times, BBC e The Guardian, que prepararam encartes especiais, em clima de despedida do “maior espetáculo da Terra” – conceito pelo qual o circo ficou mundialmente conhecido.

Entretanto, convenhamos: antes mesmo de o ativismo pelos animais explorados pela indústria do entretenimento ganhar força, o maior espetáculo da Terra nunca foi lá o espetáculo mais ético da Terra. Principalmente no início. O primeiro circo a usar energia elétrica em seus shows fez seu nome exibindo pessoas e animais como produtos exóticos: gigantes da Islândia, mulheres da Patagônia, anões e até uma “sereia de Fiji” – que, na verdade, era um torso de macaco com uma cauda de peixe costurada.

Com o tempo, a exploração humana cessou, mas a animal, não. Os maus tratos às estrelas do Ringling Bros. começaram a ser investigados nos anos 2000, quando um vídeo da PETA (People Ethical Treatment of Animals) denunciou o abuso físico e psicológico sofrido pelos elefantes durante os treinamentos nos bastidores obscuros do maior circo do mundo.

Surras, chicotadas e choques elétricos faziam parte da rotina de “disciplina” dos animais, além da ameaça constante do bullhook – instrumento desenhado especialmente para o controle de elefantes, que consiste em um cabo de madeira, fibra de vibro, plástico ou metal com um gancho de aço na ponta, usado pelos treinadores para machucar e intimidar os animais, como um lembrete de que deveriam “se comportar bem”.

Depois de inúmeras manobras políticas e até uma absolvição nos tribunais americanos, o Ringling Bros. não resistiu à pressão e aposentou seus 13 elefantes no final de 2014. Decisão que, obviamente, levantava a recorrente dúvida: era o fim ou eram os meios?

Os meios, claro. Aposentando os elefantes, a marca ganhava um respiro moral – assim como quando o Sea World anunciou que colocaria fim ao seu sistema de reprodução de orcas em cativeiro. Já que a resolução era restrita aos equinodermos, nos planos da Feld Entertainment, administradora e detentora dos direitos do circo, e até nos nossos, como ativistas, o fim da exploração e dos maus tratos aos demais animais ainda estava distante. Certo? Nem tanto. A consciência veio a cavalo. A tigre. A leão. E a camelo. E, com a queda no número de visitantes, o mais poderoso circo do mundo se viu obrigado a deixar o picadeiro.

Em 2016, Nicholas Kristof, jornalista do The New York Times, escreveu: “é espantoso o quanto o mundo dos negócios está ficando sensível à opinião do público sobre os animais”.

Sim, está. E não é todo dia – na verdade, é quase nunca – que a gente vê o progresso moral adestrando o capitalismo com a mesma falta de piedade que os mais de 200 animais dos irmãos Ringling eram treinados.
Respeitável público, finalmente, o show acabou.

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Exploração e respeito: um tanque pequeno demais para nós dois

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Depois do avanço na aprovação da lei que bane o cativeiro e os programas de reprodução de orcas para entretenimento na Califórnia, o retrocesso da indústria que explora animais para shows parece permanecer intacto em outros estados americanos.

O Sea World Parks & Entertainment Inc. anunciou ontem, 27, que a unidade de San Antonio, no Texas, passará por uma reforma – que inclui a instalação de uma montanha-russa e um projeto arquitetônico menos “antinatural” para os tanques onde vivem orcas e golfinhos -, a fim de realizar shows mais “respeitosos” e educativos com os animais.

O porta-voz da novidade foi Carl Lum, presidente do parque, que reafirmou o conceito criado pelo marketing do grupo, dizendo “que a percepção do público mudou, então, o Sea World está mudando também”, e que os shows, na verdade, não serão shows: o público pagará para ver o comportamento natural das orcas.

Não, ninguém vai ver o comportamento natural das orcas, Sr. Lum. Porque, convenhamos: basta o mínimo de senso comum para perceber que não há como uma orca confinada em uma piscina há tanto tempo, nadando em círculos inúmeras vezes por dia e treinada para realizar truques durante anos apresentar qualquer comportamento natural.

Não, ninguém vai cair nessa, Sr. Lum. Assim como ninguém vai acreditar que colocar meia dúzia de pedras ou plantar duas árvores em volta dos tanques fará qualquer diferença no cativeiro cruel do seu parque.

E sabe por quê? Porque o problema, Sr. Lum, não está na sua piscina, no formato dos seus shows, na montanha-russa que ainda não foi instalada. Está no seu modelo de negócio. Um modelo de negócio que se tornou inadmissível diante de uma sociedade mais consciente e evoluída.

Não, ninguém vai aceitar mudanças que não mudam nada, Sr. Lum. Simplesmente porque exploração com respeito não existe.

Carol Zerbato é ativista pró-animais da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals)

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Ativista Carol Zerbato é nomeada madrinha do primeiro Santuário dos Elefantes da América Latina

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A publicitária e ativista Carol Zerbato, juntamente com grandes personalidades como Fiorella Mattheis, Yasmin Brunet e Thaila Ayala, foi convidada, recentemente, para ser uma das madrinhas do primeiro santuário de elefantes da América Latina, o Santuário de Elefantes Brasil. O objetivo da ação é abrigar elefantes que vivem em pequenos recintos de cativeiro em nosso continente em uma antiga fazenda de gado de 1.100 hectares em Mato Grosso, na Chapada dos Guimarães.

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O Santuário sem fins lucrativos vem trabalhando próximo aos legisladores desde o início de 2010 para que seja proibido o uso do animal em espetáculos no Brasil. Na América do Sul a lei que proíbe o uso de Elefantes em Circos já é aplicada em pelo menos cinco países. O país espera que, com esta lei, os elefantes tenham um lugar seguro, saudável e harmonioso para ter uma vida e um futuro dignos.

Este projeto foi criado pela Associação Santuários de Elefantes Brasil (SEB), e já tem autorização do órgão estadual do meio ambiente para construir um espaço no estilo do The Elephant Sanctuary in Tennessee (TES), nos EUA. Os primeiros hóspedes do Santuário serão três elefantes fêmeas, que poderão usufruir de nascentes d’agua, pastos, aclives, uma parte de mata nativa e da companhia de outros de sua espécie As duas primeiras, Maia e Guida, que trabalharam por quatro décadas em circo, chegam daqui a poucas semanas. A seguir, o Santuário trará Ramba, que aguarda num zoo chileno, depois de também ter trabalhado em picadeiros de circo.

Apoiadora de importantes instituições protetoras dos animais como a PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) e também parceira da Arca Brasil (Associação Humanitária de Proteção e Bem-Estar Animal), Carol luta, principalmente, contra o fim da exploração de animais para entretenimento:

“A indústria do entretenimento é absolutamente cruel e ilógica. Os animais são retirados de suas famílias e habitats, e submetidos a treinamentos cruéis e até mortais. E, quando não pagam pela egoísmo humano com a própria vida, ficam com sequelas irreversíveis, como, Tilikum, a maior orca em cativeiro, que, aos 35 anos, vive em estado já letárgico num parque aquático em Orlando”.

Carol Zerbato é comunicóloga de formação e sempre quis dar voz aos animais – mas pela visão deles.

Sobre Carol Zerbato
Carol Zerbato é publicitária, fundadora da Ô de Patas (agência especializada em comunicação animal) e criadora da Cachorra Carol – histórias em quadrinhos que retratam a relação entre humanos e animais pela visão de uma cãozinho sem raça definida.

Formada em Rádio TV pela Universidade Anhembi Morumbi e em Comunicação Jornalística pela Cásper Líbero, Carol também estudou Redação Publicitária na Miami Ad School e fez extensão pela Universidade de Hong Kong.

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