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Veganismo: é a hora!

Quando estava preparando uma palestra para o 12º Festival Vegano Internacional, no ano passado, chamada “Veganismo: um estilo de vida revolucionário”, pensei muito na questão e me indaguei: “é uma pessoa vegana um herói?” Gostaria de considerar que fosse.

Em uma aula com meu professor favorito no mundo, Dr. Lauro Mendes, estudei Macunaíma  e usei o trabalho de Joseph Campbell, o mitologista e escritor americano. Segundo Campbell, a mitologia universal sempre tem um elemento em comum, que ele chamou de “monomyth”: o padrão circular de um protagonista (o herói) que sai do seu mundo conhecido para um mundo desconhecido. Neste modelo, o protagonista  confronta o antagonista (o vilão), tem as batalhas, o vence, e volta ao mundo conhecido para compartilhar com os outros algum conhecimento que melhora aquela sociedade. O protagonista inspira os outros em função de ter sobrevivido a essas aventuras e experiências perigosas e, por isso, é transformado: “o herói”.

Fiz um trabalho em que comparei a ideia de Campbell com o livro de Mario de Andrade para ver se Macunaíma, o “herói nacional do Brasil”, também seguia o padrão do mito universal. Então, para me preparar antes da palestra, decidi fazer outra leitura de Macunaíma, pois queria mostrar que, usando esta comparação, o vegano é, sim, um herói.

Qualquer um pode perceber o paralelo entre o arquétipo do herói universal e um vegano. Seguimos o padrão porque, como o herói, saímos do mundo conhecido (onde consumíamos animais) e ingressamos no mundo desconhecido (de vegetarianismo/veganismo/ativismo).  Temos que batalhar contra os vilões  (como os da indústria de carne), os vencemos com as nossas novas armas (uma nova definição de comida, receitas, ONGs, livros sobre vegetarianismo etc.). E voltamos  ao mundo conhecido: nossa família ou  nossos amigos (ou qualquer outra pessoa) para compartilhar as experiências positivas e as vantagens que esta nova vida vegana nos dá. Na minha opinião, fazemos a jornada do herói e somos heróis!

Sempre gostei desse padrão do “monomyth” apresentado por Campbell, provavelmente porque é um círculo e fiz o meu mestrado com o título  “A imagem do círculo como um símbolo da perfeição na poesia bilaquiana”. O problema é quando seguimos este padrão circular na jornada e voltamos  ao lugar onde começamos.

O padrão universal do mito pode ser o nosso problema. Segundo o modelo que apresentou Campbell, o herói volta e o padrão faz uma “revolução”, mas não avança a um outro nível. Qual será, então, o problema  com a ideia de “revolução”?

Os Beatles chamaram o seu 7º álbum “Revolver”. A palavra “revolver” pode significar “voltar outra vez” (re-volver, como em espanhol “voltar”) ou pode ser o nome de uma arma. Mas tenho outra pergunta: estamos nós, veganos e ativistas, nesse círculo vicioso de “revolucão”? A palavra “revolucionário” tem uma conotação de violência. Se o veganismo é revolucionário, segundo a definição histôrica, tem um elemento violento de fundo. Pode ser, portanto,  que  isto esteja impedindo o nosso progresso com um movimento, em vez de realmente produzir mudanças positivas para a nossa espécie?

Estamos repetindo as mesmas jornadas antigas em que temos batalhas, em que lutamos contra um vilão? Estamos achando que lutamos contra o inimigo mas estamos sendo percebidos como o inimigo? Gastamos energia lutando de uma maneira em que só quem é o mais forte ganha? Gastamos energia nos debates com “os outros” que veem os animais como comida, roupa, entretenimento, produtos, coisas, tentando convencê-los a ver a nossa perspetiva?

As ações de ativismo podem ser interpretadas como se fossem atos violentos. Na verdade, lutar é lutar e isto é um ato de violência. Será que temos o resultado que desejamos depois de gastar tanta energia? Se repetimos a mesma coisa e temos sempre o mesmo resultado, estamos seguindo este padrão circular (o círculo vicioso) e isto é a definição de loucura.

Outra razão do meu interesse em fazer um estudo do livro com a história de Macunaíma era para uma palestra de veganismo, em que eu queria elaborar a ideia de “antropofagia” (o consumo de carne humana), que se repete várias vezes no livro.

Segundo Campbell, é outro elemento comum que sempre vemos na mitologia. Há personagens que demonstravam este outro elemento comum na mitologia universal de antropofagia no livro Macunaíma, como nos seguintes exemplos: “Piaimã, o comedor de gente,” Mianiquê-Tiebe, “que vinha pra engolir o herói”, Ceiuci, que diz a Macunaíma “Te come, hein!,” e Pondê, “o bicho… que virava dente de noite e engolia os estradeiros”.  Essa ideia de comer um ao outro para ingerir e assimilar todas as suas forças e qualidades é comum através das culturas que são consideradas “primitivas” (e aparece na literatura e nas histórias folclóricas) .

Acho, também, que é a antropofagia a base do hábito que ainda existe hoje em dia de consumir os animais. A ideia que mobilizou as tribos primitivas a comerem seus inimigos é a mesma ideia que está de fundo na premissa que assumimos de que  “é preciso consumir carne de um animal para nos fortalecermos”.  É a mesma ideia antiga, só que desatualizada.

É hora de mudar essa ideologia que está nos mantendo como uma sociedade do passado. Precisamos, como uma sociedade, mudar qualquer pensamento arcaico e primitivo: que é preciso consumir animais ou que os animais estão aqui para nos servir. Se continuarmos tentando convencer as pessoas com argumentos (de ser vegano porque é bom para o meio ambiente, para a saúde, para os animais) usando aquela maneira antiga (de batalhas, com força, antagonista contra protagonista), continuamos a seguir esse mesmo círculo vicioso que aparece em toda a literatura das épocas antigas. Estamos avançando ou estamos voltando aos velhos hábitos?

Em vez de revolução, devemos vivenciar uma evolução — uma evolução de consciência. Tudo tem que evoluir, incluindo o nosso ativismo.  Quando sentimos que não estamos fazendo nenhuma diferença (especialmente considerando quantos animais estão morrendo e quão rapidamente), ou se não confiamos que o que fazemos vai ter um impacto bastante grande, é porque estamos usando métodos primitivos  e violentos: o conflito entre bom/mau, herói/vilão, nós/os outros.

Hoje (hoje mesmo, agora, neste momento) é o momento certo para termos uma nova ideia e um novo movimento. Como todos as outras ideias tiveram que mudar para que as pessoas aceitassem uma nova realidade (como nos anos antigos: escravidão, racismo, desigualdades etc.), agora mesmo é o momento em que temos que mudar a nossa ideologia para que possamos realmente nos modificar. A perspectiva  tem que mudar primeiro e temos que ter uma evolução da consciência antes de ter uma mudança de hábito ou estilo de vida. E a perspectiva só pode mudar quando percebemos que o que sente o nosso inimigo é o que também sentimos.  Entendemos que somos UM só e temos compaixão suficiente para entender a verdade universal de que o que eu faço ao meu inimigo vai voltar para mim. É o momento de sairmos desse padrão primitivo do “monomyth”.

Precisamos, como ativistas, apresentar uma ideia bem mais simples: precisamos ser veganos porque é a hora de viver uma evolução de consciência. Não precisamos de outra ideia, e não tem que ser um argumento  nem debate. Todas a informações que os ativistas transmitem, tal como as razões de serem veganos, para convencer  aos outros são realmente consequências e benefícios da escolha pelo veganismo. A nossa nova mensagem deve ser: É fundamental termos um mundo vegano para a nossa sobrevivência como sociedade e também para o futuro do nosso planeta. Precisamos ser veganos e precisamos ter um mundo vegano porque a hora de produzir um impacto positivo já chegou.

Em 1929, Edwin Hubble descobriu que o universo está expandindo. No mesmo ano, Einstein viu que errou porque tinha considerado estático o universo (que ele chamou de “o constante cosmológico”) e admitiu que foi um dos maiores erros  na sua famosa teoria geral de relatividade. Estamos em 2010 e temos evoluído muito em algumas áreas desde então. Assim como o nosso universo, a nossa consciência está expandindo. Um dia, em breve, um mundo vegano vai ser uma realidade. Confio nisso porque, como tudo no universo, os pensamantos primitivos das pessoas não são estáticos. Vejo evidências por todo o globo de que os pensamentos estão expandindo e evoluindo. E continuo acreditando com todo o meu coração que os pensamentos criam a realidade, sabendo que os pensamentos das pessoas que ainda não são veganas vão continuar a expandir até chegarmos ao ponto na nossa história em que um animal existe porque existe, e não por causa de nenhuma outra razão.

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