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Direitos animais e argumentos religiosos

Frequentemente, quando questionadas a respeito dos direitos animais, as pessoas utilizam argumentos religiosos. Quando contra, normalmente citarão a má tradução da Bíblia onde diz que Deus criou o homem para dominar sobre outras criaturas. Quando a favor podem usar argumentos diversos de acordo com a religião.

O fato é: independente da religião, tanto cristãos como ateus podem e devem conceder direitos aos animais. E para defender direitos animais nada melhor do que argumentos diretos e objetivos que visam diretamente o benefício dos animais. Argumentos transversais, como já citou Bruno Muller em artigo para ANDA, podem ser muito prejudiciais a causa. Entretanto, é importante conhecê-los e saber argumentar a respeito.

Se a pessoa for cristã, há diversos argumentos possíveis, sem sair da religião, para defender os direitos animais. Como fundamento teórico, é preciso conhecer a diversidade de interpretações a respeito da Bíblia. Para isso, o texto de Sérgio Greif “A Bíblia preconiza o vegetarianismo” é de grande importância.

Greif mostra que há erros de tradução. O original em Hebraico mostra que a famosa passagem do Gênesis 1:26 que cita que os homens tem domínio sobre outras criaturas sofre de erro de tradução. A polêmica palavra que foi traduzida como domínio no original está escrita da forma yrdu, e tem uma tradução mais adequada como descerão.

Segundo Greif:

“…foi empregada a palavra ” yirdu”, que permite uma outra tradução do versículo: “Disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e descerão para os peixes do mar, e para as aves dos céus, para os rebanhos e para toda a terra e para todo réptil que rasteja sobre a terra”. Se seguirmos essa tradução, que é mais fiel ao original, podemos interpretar que a intenção da Bíblia pode ter sido mostrar que Deus criou o homem de uma maneira especial, mas que o homem desceria (ou seja, seria igualado) para a condição de um animal.”

Nesse mesmo texto, o autor mostra outros possíveis erros de tradução.
Entretanto, independentemente de tradução, há um excelente teólogo, Andrew Linzey, que defende os direitos dos animais seguindo como espelho a vida de Jesus.

Andrew Linzey escreveu em 1998 Animal Gospel (Evangelho Animal), livro que traça uma profunda conexão entre a pessoa e pregação de Jesus com a luta pela defesa dos animais. Encontramos uma tradução resumida no site da pensata. Ele desenvolve 5 artigos de fé nos quais defende o porquê escolhe estar junto a Jesus na defesa dos animais.

Ainda se pensarmos na questão do exercer domínio sobre outras criaturas, o principal argumento desse filósofo é de que jamais Deus iria pedir que o homem exercesse um domínio abusivo e arbitrário baseado em poder. Ele diz que é só olharmos a vida de Jesus para termos um exemplo disso. Se a forma de exercer poder de Jesus é a humildade, o que nós devemos fazer é nada mais do que nos espelharmos nessa forma. Humildade no sentido de servidão, de cuidado com os demais, de não poder. Olhar para o exemplo de Jesus é muito diferente da forma com que costumeiramente utilizamos a palavra domínio. Portanto, é muito fácil refutar esse argumento contrário aos direitos animais.

Andrew Linzey é tão radical em seus argumentos que ele chega até a criticar o argumento de Peter Singer quando este diz que homens e animais deveriam ter o mesmo valor moral. Linzey argumenta com base na ética Cristã, a ética da compaixão, os mais fracos (no caso os animais) merecem mais compaixão, mais cuidado do que nós, portanto, devemos ter uma maior preocupação moral com eles.

O fato é que os direitos animais podem ser defendidos e recusados de acordo com as diversas religiões. Portanto, é necessário muita reflexão sobre os argumentos apontados. Em que mesmo estamos baseando nossa crença? No Bem, no Amor, na Paz e Compaixão? Se sim, não seguiremos doutrinas que preconizam sacrifícios nem abusos de poder sobre criaturas indefesas.

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Educação Vegana

Analfabetismo funcional animalista

Uma questão que há muito tempo vem me incomodando no movimento de defesa animal no Brasil é a falta de fundamentação teórica dos ativistas dos direitos animais. É impressionante o analfabetismo funcional animalista que os ativistas estão mergulhados. Para essas pessoas o que importa é agir, é tirar os animais não-humanos daquela situação de sofrimento imediatamente. Não conseguem entender que o que colocou os animais ali foi nada menos que 2.500 anos de Filosofia, Teologia e Ciência especistas.

Ação sem fundamento teórico, sem reflexão crítica, não passa de emotivismo. Os animais não-humanos precisam de muito mais que nossa compaixão, amor e atitudes no calor da emoção, eles precisam do nosso respeito.  É mais do que sabido os limites das visões do respeito por amor e compaixão na defesa dos direitos animais1.

O que falta para nossos ativistas é o que tinha de sobra nesses dois ativistas que pegarei como exemplo, mesmo sendo antagônicos.

Primeiro, Ernesto Che Guevara, que arisco afirmar ter sido o maior apologista da revolução armada, não só a defendia em palavras como foi para as vias de fato, ou seja, era um homem de ação no sentido mais amplo do termo, talvez o único homem que levou a sério o conceito de práxis marxiano. No entanto, era um leitor voraz dos principais teóricos do socialismo e do comunismo e, não menos das teorias sacralizadoras do deus capital. “Como líder da guerrilha em Sierra Maestra, Che dava aulas de alfabetização a seus recrutas camponeses, e ocasionalmente lia para eles, de fontes como Cervantes, Robert Louis Stevenson e a poesia de Pablo Neruda. Conta-se que ao retornar à sua barraca, lia Proust, Faulkner, Sartre e Milton. No Congo, dava aulas de francês e de swahili às tropas congolesas, além de aulas de “cultura geral”. Em Cuba, durante a revolução, Che ensinava seus “descamisados” a ler e escrever. E para aqueles que já possuíam a base da lecto-escrita (…) criou círculos de estudos”2 sobre a historia de Cuba, doutrina militar e marxismo. Conta-se que nos momentos de descanso da expedição no começo da campanha boliviana, Che trazia consigo “a Historia da Estória da Liberdade, de Benedeto Croce, a Revolução Permanente e A Historia da Revolução Russa, de Trotsky, e As Origens do Homem Americano, de Paul Rivet”3, e é possível que “tenha lido as memórias de guerras de Charles de Gaulle, ou as de Winston Churchill, bem como A Fenomenologia do Espírito de Hegel e alguma coisa de Diderot”4.

O segundo, Martin Luther King Jr., na esteira de Gandhi, um grande líder do ativismo pacifico, da ação não-violenta. No entanto, não só tinha uma bela formação acadêmica como também era um leitor voraz, recorria a autores de varias áreas para fortalecer sua pregação. Ao falar do período que conheceu King, Coretta Scott – futura esposa – diz que “sentiu-se atraída por aquele rapaz que debatia a doutrina de Gandhi e as filosofias de Thoreau e Hegel com a mesma facilidade com que ridicularizava as pretensões dos pregadores do rádio. Além disso, ele adorava ópera e jazz. E, embora já fizesse parte da elite acadêmica, queria cuidar dos problemas cotidianos de uma igreja negra do Sul”5. Perto de terminar sua tese de doutoramento sobre “Uma Comparação do conceito de Deus no Pensamento de Paul Tillich e Henry Nelson Wieman”, King, com apenas 25 anos, assume como pastor na igreja Batista da avenida Dexter em Montgomery, com o objetivo de fazer um bom trabalho, dedicava dois dias para a preparação dos sermões dominicais. “No inicio, seus sermões eram muito intelectualizados e um tanto áridos, mas, a medida que King foi conhecendo melhor os fieis, começou a dar maior atenção às teorias de seu pai quanto a pregação”6. King dinamizou suas pregações e seus “sermões fluíam sem nenhum esforço, sem nunca reduzir a platéia ao silêncio. O reverendo citava os maiores pensadores ocidentais e orientais, mas de um modo claro e ritmado, que pedia respostas, as quais vinham naturalmente seguindo o ritmo do próprio sermão”7.

Ambos os ativistas e militantes deixaram registrados através de seus escritos e discursos às multidões, a importância de uma boa fundamentação teórica. Foram homens da práxis, seja pela via pacifica cristã, seja pela luta armada ateia. Para Hosea Williams, “Martin Luther King Jr. é o maior batalhador do século XX”, para Sartre, Che era “o mais completo ser humano de nossa época”.

Essa questão do analfabetismo funcional Animalista me incomoda em demasia pelo simples fato de que vejo o educador vegano como um ativista. Não há lugar melhor para se fazer um ativismo pelos direitos animais que uma sala de aula. É aqui que a situação complica. O educador vegano não deve fundamentar sua pratica político-pedagógica apenas tendo a “Libertação Animal” do Singer e o “Jaulas Vazias” do Regan como base. São obras importantes, mas não bastam.

Uma reclamação comum que ouço é a de que não temos traduzidos para o português nem 3% da grande produção animalista de língua inglesa. E quem disse que eu preciso de 30%, 50% ou 100% da produção teórica animalista britânica e estadunidense? Meu caro educador vegano, quem tem Sônia T. Felipe, Bruno Muller, Luciano C. Cunha, Paula Brugger, Daniel B. Lourenço, entre outros, não precisa ficar refém dos companheiros do hemisfério norte. Se souber ler em inglês, ótimo, leia-os. Se não sabe, sem problemas, temos uma substancial literatura brasileira à disposição, pode ser pouca, mas com um forte conteúdo reflexivo. Volto a afirmar, a obra “Direitos dos Animais: Fundamentação e Novas Perspectivas” do professor Daniel B. Lourenço deve ser leitura de cabeceira do educador vegano.

Outra questão que não posso deixar de ressaltar é, com toda a produção filosófica, científica e jurídica nos países de língua inglesa sobre os direitos animais, eles não têm o que nos temos: educadores veganos que introduzem os direitos animais e sua fundamentação moral, o modo de vida vegano, nas escolas de nível fundamental e médio. O Brasil é pioneiro em educação vegana formal. Nosso país é o único lugar que alguns educadores veganos tiveram a coragem (característica essencial de um ativista) de romper com o currículo oficial (e oculto) especista e introduzir de modo sistemático um ensino antiespecista. Somos poucos? Sim. Mas, somos fortes. De onde vem essa força? Da teoria ética animalista. Leitura, leitura e mais leitura. Diálogo e mais diálogo com os pensadores desse movimento. Só seremos capazes de combater os argumentos, clichês e frases feitas especistas oriundos do capital cultural antropocêntrico, com a força de um raciocínio ético apurado, crítico e autocrítico.

O educador vegano, esse ativista da Ágora quadrada que é a sala de aula, tem o dever moral de se fundamentar teoricamente. O educador vegano precisa constantemente buscar seu aprimoramento espiritual através do desfazer as pregas, rugas, dobras e vincos morais tradicionais. As virtudes que devem nortear o educador vegano são: “discernimento, coerência, justiça, propósito existencial sincero de não-violência contra qualquer ser capaz de sofrer, coragem, serenidade, persistência, humildade, e… vontade sincera de aprender muito sobre a vida dos outros animais”8.

Isso significa que todo educador vegano precisa estudar Etologia? Sim, não só precisa, deve. E nutrição vegetariana, também. Ética animal e ambiental são simplesmente indispensáveis, conhecer a historia do especismo, dos direitos animais e do veganismo é uma obrigação. Todo educador vegano precisa ter consciência que sua ação político-pedagógica não é qualquer ativismo. É uma luta constante contra a epistemofobia e a livrofobia que está no DNA da maioria da população brasileira. Num país onde sua população tem como alimento espiritual futebol e novela, pouco ou nenhum valor tem os tratados de ética e sua aplicabilidade. Por isso a necessidade do projeto político-pedagógico vegano ser coerente, justo e corajoso; o que exige um propósito de vida do educador vegano consciente de que somente com muita persistência ele se efetivará. Dissertando sobre o comprometimento que o ato de ensinar exige o teórico da educação brasileira, Paulo Freire, diz:

“Minha presença de professor, que não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de romper. Minha capacidade de fazer justiça, de não falhar à verdade. Ético, por isso mesmo, tem que ser o meu testemunho”9.

O educador vegano não pode se deixar acomodar, acreditando que só por ser vegano “já está bom demais”. O aprimoramento deve ser constante, ininterrupto. A aversão da maioria esmagadora dos ativistas ao maçante trabalho de debruçar sobre teorias éticas desenvolvidas durante séculos, não pode fazer parte da vida do educador vegano. É a preguiça intelectual que leva ao analfabetismo funcional animalista.

Notas:

1. CUNHA, Luciano C. Está tão na cara que é difícil de enxergar (parte VII). In: WWW.pensataanimal.net/
2. MCLAREN, Peter. A pedagogia de Che Guevara – Pedagogia crítica e globalização trinta anos depois de Che. In: Utopias Provisórias. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 99-100.
3. Id. p. 100.
4. id. p. 100.
5. SHUKER, Nancy. Martin Luther King. São Paulo: Nova Cultural, 1985. p. 31-32.
6. Id. p.35.
7. Id. p.36.
8. FELIPE, Sônia T. Direitos Animais: desdobramentos das pregas morais. In: ANDRADE, Silvana (org.). Visão Abolicionista: ética e direitos animais. São Paulo: Libra três, 2010. p. 17.
9. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p.98.

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Direitos Animais e a Incoerência Moral

O erro da ética, até o momento, tem sido a crença de que só se deva aplicá-la em relação aos homens.”- Albert Schweitzer

Já faz tempo que considero o critério „senciência‟ (capacidade de sentir dor e prazer) como sendo o mais coerente, de acordo com o conhecimento atual, para se estabelecer direitos básicos para um indivíduo. Neste caso, podemos considerar a maior parte das espécies animais como dotadas de tal capacidade.

Alguns argumentam que direitos só existem com deveres, e como animais não podem cumprir deveres, logo, não são sujeitos de direito. Porém, esse pensamento me parece muito limitador, sendo fruto de uma regra arbitrária e dogmática, que, para ser modificada, depende apenas da nossa boa vontade, em nome de uma moral mais coerente com a realidade.

Já argumentei com os defensores dessa ideia que, seres humanos com demência grave ou em estado de coma prolongado, ou mesmo bebês, não possuem a capacidade de cumprir deveres e, ainda assim, são sujeitos de direito. A resposta à minha argumentação é, normalmente, que tais seres dependem de pessoas que cumprem deveres por eles; seja o responsável, procurador, MP, etc. Então, logo surge a pergunta: E por que não criar leis que estabeleçam direitos básicos para não-humanos incapazes de cumprir deveres?

Uma criança órfã na tenra idade é incapaz de cumprir deveres e certamente tem direito de ser protegida pelo Estado. Neste caso é consenso que deveríamos protegê-la pelo simples fato de ser um sujeito capaz de sentir dor, prazer, alegria, angústia, etc. Sabemos quais são as sensações, desejáveis e indesejáveis, que a criança é capaz de experimentar, e assim agimos, para protegê-la, por certa empatia. Na prática, ninguém apelaria para o potencial dessa criança em cumprir deveres no futuro, entretanto, ao considerar animais não-humanos a problemática se torna convenientemente uma questão de direitos através do cumprimento de deveres.

Não protegemos seres humanos pelas suas capacidades intelectuais ou racionais, mas sim pelas capacidades sensitivas ligadas à dor, prazer e interação com o ambiente. Se sabemos que animais não-humanos possuem tais capacidades, porque não defender suas vontades básicas, sua integridade física, mental e nervosa? Por que não defender animais contra uma exploração e sofrimento que jamais imporíamos a um ser humano com capacidades cognitivas e nervosas semelhantes?

Aparentemente a questão se resume a uma inércia cultural, e como „cultura‟ não é uma palavra intrinsecamente positiva (conceito que engloba escravidão, opressão da mulher e sacrifícios humanos), neste caso ela está associada a uma incoerência moral; o especismo. Especismo é a atribuição de direitos diferentes para espécies diferentes através de um critério arbitrário. Podemos definir „racismo‟ mudando apenas duas palavras nesta última frase, e em minha opinião a semelhança das duas ideias vai além da simples definição.

Obviamente há uma diferença fisiológica muito mais visível entre espécies do que entre raças da mesma espécie (Não vejo problema algum em usar o termo „raça‟ para diferentes populações de Homo sapiens, assim como não vejo problema em usar o mesmo termo para diferentes populações de Canis lupus), porém, as diferenças fenotípicas entre indivíduos humanos, de forma alguma mudam o fato de as semelhanças serem suficientes para se estabelecer direitos iguais para todos. Não defendo direitos iguais para animais humanos e não-humanos, mas sim direitos proporcionais às capacidades fisiológicas de cada espécie, e esse é mais um motivo pelo qual direitos não devem existir necessariamente vinculados a deveres.

Os deveres humanos servem para organizar as sociedades e assim garantir direitos aos seus indivíduos (pelo menos, em tese). Animais não-humanos não necessitam de direitos que podemos considerar exclusivamente humanos como, educação; liberdade religiosa, política, econômica, etc. Da mesma forma, deveres sociais são inaplicáveis a eles, e isso de forma alguma torna uma sociedade insustentável. O direito básico de não ser explorado, torturado e morto, deve ser concedido ao animal pelo mesmo motivo que defendemos incapazes, e o apelo moral é óbvio. O direito é um conceito humano, que deve ser aplicado nas sociedades, porém, não exclusivamente aos humanos, já que não existe base moral lógica em traçar uma linha imaginária entre espécies. Este é um conceito taxonômico arbitrário que possui, apenas, a função de organizar relações filogenéticas; não éticas.

Não temos um conhecimento completo dos diferentes níveis de senciência em todos os animais, mas sabemos que essa capacidade sensitiva é compartilhada pela maior parte deles. Um ser humano sem possibilidade de sair de um estado de afasia ou demência grave pode estar numa posição de consciência inferior a de um chimpanzé, ou mesmo de um labrador; entretanto sua integridade física é naturalmente preservada com muito mais entusiasmo. Vale salientar que não estou questionando a atitude de proteção aos incapazes humanos, mas sim a “esquizofrenia moral” de toda a situação1. Não há justificativa racional para se defender tal ponto de vista, que a meu ver, se baseia apenas em afinidade com a própria espécie. Especismo, racismo ou sexismo, são idéias baseadas em diferentes níveis de afinidade pessoal, usadas para sobrepor aspectos irrelevantes aos que são realmente importantes em determinada situação. Ideologias exploratórias normalmente apresentam estas características.

Os sintomas do especismo são notados de forma generalizada em quase toda sociedade, seja na forma de venda de animais domésticos, de gaiolas, de matadouros, ou em qualquer situação onde animais não-humanos desempenham a função de propriedade, sendo que estes têm suas capacidades nervosas ignoradas em nome de uma filosofia opressora. Durante a história da humanidade apenas a escravidão de um animal foi abolida no papel e, enquanto a humanidade se vangloria de uma obrigação, milhões de indivíduos são explorados, torturados e mortos a cada minuto.

Se „direito‟ é um conceito criado pelo ser humano, isso não implica em favorecer apenas o ser humano a qualquer custo; o argumento antropocêntrico do direito não resiste a um apelo moral lógico. De forma alguma sugiro uma imposição de morais humanas para a natureza, já que essa evoluiu de forma predominantemente amoral (comportamentos „morais‟ são bem documentados em alguns primatas) e independe da nossa interferência para manter o seu equilíbrio. As morais humanas devem servir para organizar sociedades e beneficiar indivíduos da forma mais ampla possível. Se, de acordo com o critério „senciência‟, animais não-humanos podem ser considerados indivíduos dotados de vontades e capacidades nervosas, e se estes, por algum motivo, se encontram no círculo social humano (a meu ver isto é algo indesejável, já que nosso sistema social é mal adaptado para tais indivíduos), não vejo razão alguma para negar direitos básicos para os mesmos.

Creio que, no momento, uma educação não-especista seria mais eficiente do que leis, uma vez que a exploração e morte de animais em massa só existem por consequência de uma demanda diária vinda de cada cidadão. Estes acabam fechando o ciclo do sofrimento ao ensinar para uma criança que animais existem para nos servir. Ensinam, então, a esses seres humanos sem discernimento, a não se sensibilizar com o sofrimento alheio, ou até mesmo os privam de conhecer a verdade acerca do que consomem, de forma que, quando se tornam adultos, não se incomodam por estar imersos numa cultura especista. Serão adultos que não enxergam incoerência alguma em tratar cães de estimação como membros da família, e vacas e porcos como máquinas ou escravos.

Uma vida com um mínimo de apoio à exploração animal é o caminho individual mais direto para uma mudança visível, já que a perpetuação da crueldade é, em sua maior parte, baseada na demanda do consumidor. Várias pessoas se abstêm de produtos que se originam, necessariamente, da crueldade e exploração de seres sencientes, e vivem muito bem com essa opção. Porém, um estilo de vida completamente livre de apóio ao sofrimento animal é algo mais difícil em curto prazo, tendo em vista nossa ignorância quanto a todos os processos de produção dos alimentos que consumimos diariamente.

De qualquer forma, práticas que se sustentam através da indústria e exploração animal, são facilmente descartáveis. Vivemos uma era em que, cada vez mais, as responsabilidades éticas globais recaem sobre decisões individuais, e uma dessas responsabilidades é a urgência em alargar o alcance dos nossos conceitos morais.

Notas:

1 O termo “esquizofrenia moral” tem sido popularizado pelo professor Gary L. Francione.

Pedro Heringer Lisboa Teixeira

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Educação Vegana

Didática da provocação

“Antes de Sócrates, os argumentos dialéticos não eram aceitos na boa sociedade: eram considerados de mau gosto, comprometedores. Ensinava-se a juventude que devia evitá-los. Desconfiava-se de todos quantos defendiam por esse método as suas ideias.”
(Nietzsche)

Talvez a característica mais fantástica da tal rebeldia juvenil seja a provocação. São provocativos. É nessa fase turbulenta da trajetória biográfica humana que temos um abuso do ato de provocar – às vezes até o limite –, os pais, os professores e as outras “autoridades”. Parece-me que sentem um prazer quase que orgástico com tal
prática.

Também sou um grande admirador das provocações. Porém, não sigo o estilo juvenil rebelde sem causa, do tipo vou cutucar a onça com vara curta só para ver no que vai dar.

Meu método provocativo tem outras bases, uma delas é a maiêutica socrática. Sócrates dizia que era sua missão fazer partos de almas. Isso é que é missão por excelência; provocar almas adormecidas a despertarem.

Assumi de corpo e alma a máxima socrática de que “uma vida irrefletida não vale apena ser vivida”, penso que isso é dialético. Procuro em sala de aula provocar meus alunos a acordarem desse profundo sono dogmático especista reprodutor e legitimador com tanta força todos os dias no ambiente escolar no que se refere às suas relações com os outros animais. Eles e elas dormem. O colchão, o sofá, a rede do especismo são por demais aconchegantes.

Nenhum jovem gosta de ser contrariado, mas é aí que eu trabalho, provocando-o a pensar, a repensar as suas bases especistas; ficam irritados, obviamente. Questiono também a obviedade dessa irritação. O que é? Por que é? Como é? Interrogações características da atitude filosófica. É um trabalho muitas vezes inglório, tentar fazer adolescentes dizerem não aos preconceitos e crenças do dia-a-dia, assumindo-se ignorantes, admitirem que realmente não sabem o que “achavam” saber, e depois da
admiração (segundo Platão) ou do espanto (segundo Aristóteles) causado por essa descoberta de que agora só se sabe que não sabe, buscar a mudança prática.

Pois teorizar, falar e gritar para alguns ouvirem o que é justificável do ponto de vista ético e não movimentar, agir para tal reflexão tornar-se uma práxis é a mais pura perda de tempo; “considero”, como Nietzsche, “inútil qualquer palavra que tenha sido escrita sem ter como respaldo [uma] incitação à ação”. Para os bilhões de animais não humanos que estão nesse momento sendo torturados, mutilados e assassinados de nada vale teorias, academicismos; o fundamental para eles é a prática. É a atitude de não consumi-los que os poupa de ter a vida abreviada depois de longo sofrimento psicofísico. Não tenho dúvidas de que, para quem vive no mundo das ideias, a minha apologia à prática é quase uma heresia. Tanto que foram necessários mais de mil anos de filosofia especulativa para que um barbudo alemão tivesse o seguinte insight: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é mudá-lo”.

Provocar uma alma adormecida para que ela coloque em movimento um corpo adormecido. E não existem provocações mais fortes do que as perpetradas pela filosofia crítica dialética. A irritação dos jovens alunos é devida a essa atitude crítica da filosofia (incorporada na educação vegana formal que por enquanto eu sigo) que submete seus valores, ideias e costumes especistas a um exame racional, detalhado, sem preconceitos, julgando e discernindo corretamente. Quem não ficaria irritado (incomodado) ao ser acordado com um susto, pois alguém ateou fogo em seu colchão, ou no seu sofá, ou na sua rede; tudo isso tendo ocorrido após esse incendiário ter entrado na sua caverna do comodismo onde dormia às marretadas (às vezes eu uso explosivos)?

Tenho que reconhecer que essa luta de provocadores, alunos de um lado e eu do outro, é desleal; pois quebro, inutilizo, imobilizo as provocações pueris deles com uma provocação demasiadamente profunda, séria e adulta. Às vezes me vejo usando um arsenal bélico extremamente letal contra paus e pedras. Obviamente eles relutam através da tal irritação como disse, mas não conseguem permanecer por muito tempo de pé diante do arsenal filosófico crítico dialético da educação vegana formal. Não só eles, mas o corpo burocrático escolar, os outros docentes e seus pais, todos esquizofrênicos morais.

Diariamente sou provocado no ambiente escolar com piadinhas, devolvo provocando sua cultura especista naturalizada, sua “interiorização da exterioridade”; incomodo (provoco) racionalizando uma aparente simples piadinha mostrando as implicações práticas dessa “brincadeira”. Não raro piadas sexistas redundam em misoginia e violência doméstica; piadas homofóbicas em espancamento em vias públicas, e piadas especistas em manutenção do status de coisas, propriedade, atribuído há milênios aos outros animais.

Pois bem, esse é um dos deveres da educação vegana formal; provocar a letargia, o sono dogmático especista dos adolescentes, a ignorância, o quietismo, a má-fé, o comodismo psicofísico, o espírito de seriedade herdado pelos alunos; provocar o pensamento a se repensar, a rebeldia sem causa a ter uma causa pela qual se rebelar. A didática da provocação se fundamenta na maiêutica socrática. Somente através do fundamento filosófico crítico dialético da educação vegana poderemos conduzir a atual juventude da menoridade à maioridade, da heteronomia à autonomia. Um filólogo alemão disse que “os homens necessitam constantemente de parteiras”. Educadores veganos, assumam sua missão de parteiros, precisamos fazer nascer uma nova geração genuinamente ética.

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Ativismo eficiente: aprendendo com meus erros

Como ser mais eficiente como um ativista pelos direitos dos animais? Isto é uma pergunta muito importante para salvar mais animais. Para mim, realmente, é a pergunta principal.

No prévio artigo, escrevi sobre a maneira de entender melhor a quem estamos falando. Neste artigo, quero elaborar mais esta pergunta e vou começar falando sobre o que (segundo a minha própria experiência ) não tem funcionado muito bem.

É muito importante no ativismo avaliar se o que estamos fazendo é ou não eficiente. Isto é uma estratégia para quando se tem recursos limitados: dinheiro, energia, pessoas, tempo etc. Acho que é importante lembrar que o resultado que eu quero, como diretora de uma ONG, pode ser diferente do resultado que outros querem. Cada um de nós tem uma perspectiva, personalidade, meta e método diferentes. Então, neste artigo vou falar da minha experiência, não para criticar os outros, mas para dizer que, ao final de tudo, a coisa mais importante quando estamos planejando ou desenvolvendo ideias para ajudar os animais é comparar o que funciona com o que não funciona. As boas empresas sempre avaliam os programas, gastos etc., como parte do plano de negócio e sugiro que façamos as mesmas coisas como ativistas!

Vou compartilhar o que não foi muito eficiente comigo: o protesto. Sei que, quando falamos de ativismo pelos direitos dos animais, a maioria das pessoas imagina um grupo fazendo coisas para chamar a atenção para alguns assuntos, mas o problema que eu experimentei com essa estratégia é que os que protestam são percebidos como se fossem doidos. Na minha experiência, as pessoas nem escutavam o que eu dizia, e riam de mim ou gritavam contra mim, sem prestar atenção no que eu estava dizendo — ou seja, sem me escutar. Quanto mais eu queria protestar e chamar a atenção sobre as atrocidades contra os animais, mais a minha mensagem estava perdida porque as pessoas me viam como alguém marginalizado. Por quê? Quem sabe… mas tenho uma teoria: acho que, ao final de tudo, todos nós queremos  ser amados e queremos nos sentir especiais e aceitos pelos outros. Então, quando eu estava fazendo ou dizendo coisas que pareciam fora do “normal”, as pessoas me tratavam como se eu estivesse “errada”, e eu me distraía da mensagem principal para discutir ou tentar convencê-los, porque aceitar alguma coisa fora do “normal” poderia ser um risco para eles, no sentido de não serem aceitos ou, pior, não serem amados. Isto é a minha opinião, mas não sou psicóloga…

Uma vez, por exemplo, fiz um protesto contra experimentos com macacos. Os jornalistas das notícias na televisão chegaram e nos entrevistaram. Fiquei muito feliz pensando que essa reportagem daria ao público a informação precisa para que eles também estivessem ao nosso lado nesta causa contra experimentação que usa animais. Sonhei que essa era a minha oportunidade de compartilhar esta informação com muitas pessoas que eram ignorantes sobre esse assunto tão importante! Ao final do protesto, voltando para casa, liguei para a minha família e amigos, contando-lhes que a entrevista apareceria na televisão naquela mesma noite. Quando cheguei em casa e vi as notícias, fiquei tão deprimida (e chateada!) de ver que a história apresentada na televisão nos retratou como se fôssemos completamente alheios ao mundo! Como se estivéssemos num circo! Embora os jornalistas tivessem falado com muitos de nós, quando saiu a entrevista, eles tinham apenas escolhido pessoas que pareciam fora do “normal” (com tatuagem e cabelo em estilo não conservador) . Eu não sabia, mas os jornalistas também  entrevistaram um cientista do laboratório. Eles retrataram o cientista como uma pessoa racional, inteligente, com razão e nos mostraram como pessoas irracionais, estranhas e totalmente sem razão!

Eles incluíram um vídeo em que aparecíamos gritando e com os nossos cartazes e faixas com escritos à mão. Parecíamos lunáticos! Eles sequer usaram o vídeo da parte da entrevista falando com a nossa mensagem inteligente e racional! Foi uma deturpação que não somente nos causou dano, mas também deixou uma ideia na mente dos espectadores do programa que comprometeria o progresso dos nossos esforços de realmente parar com os experimentos.

Na história apresentada na televisão, os cientistas eram bons e nós, ativistas, éramos fanáticos! Em dois minutos na televisão, eu vi uma “história” completamente diferente do que o protesto tinha a intenção de defender, que era a proteção daqueles animais.

Depois disso, decidi parar de fazer protestos como meu método principal de ativismo. A partir de então, queria apresentar a verdadeira história sem que alguém distorcesse a perspectiva. Como podia fazer isso? Pois bem… decidi que a única maneira de assegurar que as pessoas não deturpassem o que eu queria dizer foi dizendo alguma coisa em que eles também acreditam. Se falo de coisas para que as pessoas estejam de acordo, eles não vão gastar tempo tentando me contradizer. Então, decidi escolher tópicos com que podíamos concordar: saúde, compaixão, benefícios ao meio ambiente, direitos dos trabalhadores etc., e educar em vez de discutir ou fazer protestos.

Agora estou no momento de avaliar o que, como diretora de Vegetarian Solutions, estou fazendo. Sei o que não funciona bem, incluindo o meu site (estou no processo agora de mudar e renovar… desculpem a demora. Estou neste processo de mudar e melhorar o que faço, com novas metas e estratégias). Mas é importante de vez em quando parar complemente e avaliar o que estamos fazendo para saber se estamos sendo tão eficientes quanto podemos ser.

Com esta meta de salvar animais, não faz sentido gastar tempo, energia, recursos, pessoas apaixonadas, etc., com ativismo ineficiente! Os animais precisam que sejamos muito espertos, e que paremos de fazer o que está impedindo o progresso do movimento de defesa dos animais: educar as pessoas ajudará mais os animais e a nossa causa, afinal.

Se o que fazemos como ativistas ajuda o nosso “ego”, mas não está realmente ajudando os animais — e pior, está causando uma percepção pública que nos vê como doidos, marginalizados, estranhos e distrai completamente a atenção de nós, para fora da mensagem que vai ajudar aos animais — então é momento de olhar no espelho e parar.

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Você está lutando A FAVOR do quê?

“Eu não sou contra comer carne.” Você provavelmente não esperava escutar uma frase dessa, vinda de uma ativista vegana pelos direitos animais. Deixe-me explicar…

Às vezes, quando as pessoas descobrem que eu sou vegetariana, elas dizem: “Ah, você é vegetariana… Você é contra comer carne”. Então eu tive que pensar sobre essa frase, especialmente porque com a Vegetarian Solutions, meu objetivo é focar no que sou A FAVOR e não no que sou CONTRA.

Assim, eu realmente tive que refletir sobre isso e pensei comigo mesma: sou contrária ao consumo de carne? Eu realmente sou contra o quê? Qual o problema de um abutre comer a carne de um animal morto? Se um abutre está comendo um animal que já está morto, não me sinto afetada.

Então, comecei a pensar: não sou contra comer carne, o que não gosto é de pensar em um animal morrendo à mercê de outro. Assim, hipoteticamente, se um animal tiver de morrer por causas naturais, eu realmente não tenho nada com isso.

Eu não sou A FAVOR de comer animais (mesmo que ele tenha tido uma morte natural) por razões óbvias: o sofrimento do animal, o gasto de recursos naturais para criar animais, toda carne tem colesterol, nenhuma carne tem fibras, a carne pode ser facilmente contaminada por bactéria etc. Mas compreendi que não é o fato de o animal estar morto que me aborrece, desde que o animal não tenha sido sacrificado ou não tenha sofrido. Para mim, a ideia de criar, matar e comer animais parece absurda.

Os efeitos da definição de animal como “comida” são arcaicos e mais, especialmente, provocando consequências negativas dessa prática em termos éticos, de saúde e de preocupação ambiental. De qualquer maneira, após me questionar sobre os PRÓS e os CONTRAS, compreendi que não é contra a morte que eu estou. Eu sei que ela é inevitável para todos nós.

Aqui vai outro exemplo: no passado, nos encontros onde fui voluntária, sendo a “boa” ativista que eu era, eu acenava às pessoas que se aproximavam da mesa com literatura vegetariana, elas pegavam um panfleto, olhavam para ele, então algumas vezes diziam: “Ah, eu adoro o sabor da carne”. No momento, minha resposta imediata era contrapor ao dito e discutir com eles, mas a verdade é que quando criança me alimentei de carne e eu realmente também gostava do seu sabor! De fato, sendo vegana, eu fiquei muito feliz com a eliminação da carne e com as alternativas que começaram a ser mais saborosas, acessíveis e facilmente encontradas. Assim, era mesmo verdade que eu discordava do sabor da carne? minha resposta foi “Não”.

Então, pensei comigo mesma, como posso ser uma “boa ativista vegana” se não sou contra comer carne nem contrária ao sabor que ela tem?

Quando penso nos tempos em que discutia com os consumidores de carne (que devo dizer ter tido impacto negativo não somente na minha própria energia, mas sobretudo sem efeito no ativismo), eu me afasto para refletir sobre essas questões. Eu não gosto quando outras pessoas fazem suposições a meu respeito e sobre o que acredito. Sinto-me mais fortalecida se ao contrário de lutar contra as coisas as quais sou realmente CONTRA, focar-me no que sou A FAVOR. Em vez de dizer que sou CONTRA o consumo de carne, para mim é mais verdadeiro dizer que sou A FAVOR de um mundo sem sofrimento. Ao contrário de dizer que sou contra a morte, eu posso dizer que sou A FAVOR de um mundo sem violência ou que sou A FAVOR da paz. Estaria realmente praticando a não violência e sendo verdadeiramente pacifista e se não discuto CONTRA as pessoas que comem carne ou que AINDA não fizeram suas escolhas que eu atualmente já fiz? Eu sou a primeira a ficar na defensiva se alguém tenta me dizer que estou errada ou que sou má. Eu nem mesmo suporto quando outros fazem suposições sobre os meus pensamentos, motivações ou crenças. Então, se eu não gosto de pessoas que me tratam assim, por que eu deveria supor que conseguiria sempre um resultado positivo se tratasse os outros desta maneira?

Muitos anos atrás, eu não era somente uma ativista, eu era uma “hiperativista” – que era um apelido dado a mim pelos outros ativistas. Eu era cruel, feroz. Eu era intensa e as pessoas que me conheciam tinham pena dos que cruzavam meu caminho quando eu estava nos meus dias de fúria porque eles saíam derrotados, enquanto eu  comemorava vitória. Esta foi uma verdadeira batalha: o veganismo, o ativismo ambiental CONTRA os consumidores de carne, assassinos poluidores do mundo.

Mas eu não levei tanto tempo para compreender que cada pessoa estava fazendo uma mudança, em favor da redução do consumo de carne. Inicialmente, sentia-me bem quando discutia e vencia! No entanto, mais tarde, me sentia mal porque gastava bastante energia emocional para discutir e debater. Eu perdi muitos amigos e acabei perdendo muitas famílias que desistiram da ideia do vegetarianismo. Eles me viam como radical, marginal e violenta. Ninguém queria estar ao meu lado (especialmente durante as refeições) porque toda conversa se transformava em uma lição para eles aprenderem. Eu era explícita nas minhas descrições pois queria chocá-los para que mudassem seus comportamentos. Eu lhes contava sobre os horrores do abate dos animais, mas ao mesmo tempo lhes dizia que eu era boa e que tinha razão. Minhas ações eram violentas e assustadoras. Eu não convencia muitas pessoas e tinha que sair em busca de estabelecer novas amizades. Eu me isolei da minha família e dos meus ex-amigos e agia como se não me importasse.

Tempos depois, comecei a compreender que eu estava fazendo tudo aquilo que não queria fazer: eu compreendi que cada coisa era contrária: violência e sofrimento. Quantas pessoas se afastaram da minha mesa de informações sentindo-se uma vítima, na defensiva e com raiva? Muitas!

Um dia, no auge do meu ativismo, alguém me enviou um pacote pelo correio. Até hoje eu não faço ideia de quem o enviou. Estava endereçado a mim, mas foi enviado anonimamente. Dentro do pacote tinha uma camiseta com uma frase de Gandhi que dizia: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Seja quem for que me enviou esse pacote, quis que eu refletisse, mas pelo visto não tinha coragem de falar diretamente sobre o meu comportamento. Isso foi um alerta para eu acordar! Isso abriu os meus olhos. Eu tive que me olhar no espelho e, embora eu quisesse ser uma eficaz, pacífica e amante vegana, tive que encarar o inimigo. A compreensão me conduziu para o modelo atual da Vegetarian Solutions, focando no que somos A FAVOR e não no que éramos CONTRA.

Não gosto de pensar sobre quantas pessoas foram dissuadidas nos anos iniciais do meu ativismo. Nós nunca sabemos quantas pessoas influenciamos, mas eu tenho certeza, infelizmente, de que coloquei muitas em direção contrária com o meu honrado comportamento. Agora tento encontrar pontos em comum e focar nos objetivos e soluções compartilhadas em vez de concentrar-me nos problemas! Eu acredito que devemos aprender a parar de brigar. Se estamos lutando CONTRA algo, continuamos a brigar e isto não é muito atraente para as pessoas que procuram uma vida de compaixão, amor e harmonia. Sinto-me feliz por alguém ter me enviado aquela camiseta, mesmo que ela não tenha tido coragem de me falar diretamente. Aprendi muito. Eu ainda me esforço para viver uma vida que outros tentam rivalizar. Eu me esforço para ser a mudança que eu quero ver no mundo. Se nós dizemos que somos A FAVOR dos animais, A FAVOR da saúde, A FAVOR de um planeta saudável, A FAVOR da compaixão, A FAVOR da paz, A FAVOR da água limpa, A FAVOR de um planeta sustentável, A FAVOR de um uso melhor da terra e da água etc., então nós estaremos mostrando que nos importamos.

Cuidar é uma forma de amor e eu realmente acredito que quando viemos de um lugar de amor e quando vivemos nossas vidas felizes, saudáveis, atuando com amor para o tipo de ideal que advogamos, então nós realmente ajudaremos a mudar o mundo para melhor.

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