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Cavalo atropelado espera socorro por mais de 12h em Itaquaquecetuba (SP)

Foto: Adriana Laurentina/ arquivo pessoal
Foto: Adriana Laurentina/ arquivo pessoal

Após uma batida com um carro, um cavalo foi arremessado nas margens da SP-66, em Itaquaquecetuba. O acidente aconteceu na noite desta sexta-feira (12), às 22h30, mas até a manhã deste sábado (13), o animal, que está vivo, ainda não foi socorrido.

Rogério Araújo bem em frente ao local do acidente, no Jardim Luciana, e diz que o motorista do carro parou para prestar socorro, mas teria se desentendido com o homem que conduzia o animal e acabou indo embora. “O homem que estava dirigindo estava discutindo, provavelmente com o homem que estava com o cavalo,depois disso ele foi embora”.

O morador diz que o tutor  do animal também foi embora. “O dono puxou o animal pela corda. Foi preciso desparafusar o gradil da pista e puxar o animal para a marginal, a pista que fica ao lado da principal, para que não ele não fosse atropelado. Depois disso, ele se irritou e começou a bater no animal com a corda”.

De acordo Adriana Laurentina, vizinha ao local do acidente, o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar estiveram no local. Adriana conta que já procurou também o Centro de Controle de Zoonoses de Itaquaquecetuba, mas até às 10h30, o socorro ainda não havia chego. “Ele está até agora caído debaixo do sol”.

Os vizinhos se comoveram com a situação e tentaram ajudar o animal. “A gente estava jogando água para ele não ficar com muito calor do asfalto e os vizinhos estão dando capim para ele”, conta Adriana.

“Ele parece que está com a coluna quebrada. Está mexendo as patas, mas não fica de pé e está se debatendo no asfalto quente”, conta Rogério.

A Prefeitura de Itaquaquecetuba, responsável pelo Zoonoses, informou, às 11h50, que o animal foi removido do local. Uma equipe de veterinários agora deve avaliar o estado do animal.

Fonte: G1

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Livro defende o respeito aos animais como um aprendizado de humanidade

Seja na metamorfose de um jovem em inseto ou no profundo mergulho interior de uma dona de casa ao encarar uma barata no armário, as artes e a literatura sempre tentaram esgarçar as grades com as quais a ciência e o comportamento antropocêntricos separam os homens das outras espécies. Meninos-pássaros, homem-jangada, esposas vegetais, mulher-pantera, pergaminho humano, matrix, avatares, indivíduos biônicos, água-viva: o homem sempre experimentou existências híbridas no plano do imaginário, fruto do contágio e da contaminação.

Essas experimentações do imaginário finalmente ecoaram para a ciência. Só no século 20 e, sobretudo, neste século, quando as fronteiras entre o animal, o humano e a máquina foram mais seriamente tensionadas, parte emergente dela decidiu colocar em xeque os parâmetros em torno do conceito de humano com base no que supunha saber sobre os animais e outras espécies.

Livro vai ser lançado pela EdUFSC, na segunda-feira

Fruto de uma parceria entre a EDUFSC e a Fapemig, a obra Pensar/Escrever o Animal – Ensaios de Zoopoética e Biopolítica vem a público com esse propósito. O lançamento em Florianópolis está marcado para a próxima segunda-feira, às 17h, no Centro de Cultura e Eventos da UFSC, como parte das comemorações dos 30 anos da editora.

Organizada pela professora da Universidade Federal de Minas Gerais Maria Esther Maciel, a obra é a primeira publicação no Brasil que expressa o pensamento contemporâneo multidisciplinar em torno de uma das questões mais emergentes da atualidade: a superação do antropocentrismo.

O movimento de animalização do ser humano na literatura e nas artes não é atribuído por esses filósofos à inferiorização metafórica dos animais, nem a uma mera apologia da natureza, mas antes a uma necessidade visceral e recalcada de libertar o próprio homem das amarras de ser homem oprimindo as outras espécies.

Como você situa, dentro do pensamento contemporâneo, o movimento inserido nessa obra que se propõe a refletir sobre as questões da animalidade?

Maria Esther Maciel – Ela parte de duas instâncias: de um lado, a reflexão sobre animais e a animalidade; de outro as relações entre humanos e outras formas de vidas. Esse tema tem estado em evidência em vários campos do conhecimento, sobretudo na Europa, América do Norte e Austrália, onde é uma questão muito viva. Envolve estudos na área de zoologia, filosofia, literatura, artes, antropologia, ecologia que compõem um novo campo multidisciplinar chamado Estudos Animais. Esse livro é uma primeira tentativa de colaborar para a construção desse campo de estudos no Brasil. É o primeiro livro que busca essa abordagem transdisciplinar da questão animal dentro do pensamento contemporâneo.

Quem são os precursores desse pensamento?

Maria Esther – Derridá, com seus antológicos escritos sobre o animal. As abordagens bioéticas de Agamben, com O Aberto, e Peter Singer, autor de A Libertação Animal. Deleuze, com a ideia de que o homem carrega um devir-animal. Foucault, ao propor a relação entre animal e loucura, o Georges Bataille e a exploração do erotismo, o conceito cyborg de Donna Haraway, enfim, autores de diversas áreas que realizaram estudos importantes sobre animalidade e as relações entre humano e animal e que ajudam a compor essa crítica na direção de um pensamento pós-humano.

O que estaria no âmago do antropocentrismo?

Maria Esther – Trata-se de um sentimento de soberania e superioridade humana, que leva à inferiorização das demais espécies, promovendo a associação dos “outros humanos” aos “outros animais”. O antropocentrismo hierarquiza e tiraniza por sua potência não só as espécies diferentes, mas os próprios humanos, subjugando os que são tidos como inferiores e por isso podem ser mortos. O poder soberano delibera sobre a vida e a morte desses grupos de pessoas relegadas ao lugar de prisioneiros de guerra, como fez o nazismo, como faz o imperialismo, ao anular esses seres humanos associando-os aos animais. Em síntese, a maneira como o homem soberano trata os animais, na qual tudo é permitido, é transposta para as relações humanas nesse exercício de poder em que se pode dispor da vida do outro e determiná-la.

O que há de novo nessa retomada da crítica ao antropocentrismo e à racionalidade humana?

Maria Esther – Pela primeira vez estamos nos deixando perturbar pela presença do animal. Nessa “reviravolta animal”, estamos deixando que surja esse outro do próprio homem que foi excluído, desprezado, em nome da máquina antropocêntrica.

Aliás, a questão da animalidade ganhou impacto quando o filósofo francês Jacques Derridá publicou O Animal que Logo Sou.

Maria Esther – Derridá começou este livro a partir da perturbação pessoal que lhe causava o olhar de seu gato, e chamando a atenção para o fato emblemático de que até então a filosofia ocidental nunca havia refletido sobre como pode o animal olhar o homem… Derridá faz uma crítica radical a uma linhagem da filosofia em que se inscrevem Aristóteles, Descartes, Heidegger, Levinás, que analisa o homem partindo de um ponto de vista antropocêntrico para falar da importância dessa questão para a filosofia contemporânea no sentido de desestabilizar um conceito clássico de humanismo que se tinha como justo e igualitário.

Afinal, por que a humanidade precisa pensar sua animalidade?

Maria Esther – Aproximar-se do animal é se tornar mais animal. Amar os animais é um aprendizado de humanidade. O homem pode se pluralizar com essa relação. É a forma mais radical de alteridade. Recuperar a animalidade é o sentido de recuperação do humano, porque o animal não se dissocia da humanidade. Há certa necessidade atávica de recuperar uma animalidade perdida.

E como você vê a emergência política dessa temática para a sociedade como um todo?

Maria Esther – De um lado, há uma questão contextual concreta, relacionada às grandes catástrofes ecológicas a despertarem a consciência em relação à natureza e ao equilíbrio entre todas as formas de vida. Por outro, a própria crise do conceito de razão como elemento dissociado, diferenciador próprio do humano, capaz de dar a ele o poder sobre as demais espécies. Estamos vivendo uma crise da filosofia da maneira de pensar nosso ser e estar no mundo em relação ao que nos cerca.

Em síntese, quando e como a ciência estabeleceu a cisão entre homens e animais?

Maria Esther – É difícil dizer porque animalidade não é algo que se possa definir com precisão. A cisão se deu muito em cima do triunfo da razão em cima de marcas humanas diferenciadas e que poderiam justificar o domínio de um sobre o outro. Essa cisão deixou o humano desprovido de algo que é inerente a nossa condição animal e pode nos melhorar na nossa relação com o outro. O ser humano não tem ainda a consciência de que faz parte de uma comunidade híbrida interespécies. Essa consciência passa pelas questões ecológicas, mas também pela crise da ideia de humano em função das novas tecnologias, da vida artificial, das próteses que funcionam como extensões do corpo e provocam uma crise no conceito de humano enquanto espécie separada das outras formas de vida.

Em grande medida, tudo o que a ciência definiu sobre o homem o fez em contraste ao que pressupõe como suas vantagens sobre o animal. Mas nós sabemos quem é o animal?

Maria Esther – Somos totalmente ignorantes em relação ao animal, que é um estranho por excelência, pois como imaginar o que o animal sente, pensa ou é? Não há linguagem em comum que permita esse conhecimento. Os estudos da animalidade estão atentos às descobertas recentes da etologia sobre as qualidades dos seres humanos em termos de inteligência, de sensibilidade, de atributos que eram tidos como humanos. Hoje esses estudos de comportamento do animal têm revelado propriedades impressionantes nos animais.

Inclusive no campo da linguagem, que é um limite demarcado como o que distingue o humano por excelência?

Maria Esther – Sim, há um campo exploratório pensando o animal também como um ser de linguagem. É o campo da zoossemiótica, que está em expansão no leste europeu, com imbricações na linguística e na semiótica. Ver o animal também como um ser de linguagem abre uma perspectiva de nos relacionarmos com o outro de uma maneira menos violenta e mais igualitária.

A ciência e o pensamento cartesiano ocidental se sustentam na distinção do humano, mas a literatura, as artes, as culturas pagãs e primitivas nunca se restringiram a essa prisão do homem como um ser absoluto que domina o mundo. São povoados por personagens e figuras míticas que experimentam formas híbridas entre humanos, animais, vegetais, máquinas…

Maria Esther – Sim, inclusive através da literatura é possível traçar a história do animal e de sua relação com o homem. Desde as fábulas de Esopo, desde os gregos antigos, os animais aparecem com muita força antropormofizados, alegorizados, metaforizados ou como personagens merecedores de respeito e de espaço como arquétipos positivos ou negativos. Em geral, a literatura ficou muito voltada para a metáfora pejorativa ou fantástica do animal. Mas o animal sempre usado como metáfora do humano, como ponto de partida para um projeto humano, o homem sempre no foco. Desde os gregos, passando pela idade média, o animal foi colocado a serviço do humano. A mudança de parâmetro se deu na idade moderna em função de Darwin, da teoria darwiniana que questiona o criacionismo e marca as origens animais do homem. Depois, os avanços da ciência do animal fizeram com que aparecesse como um ser pleno em si mesmo (e não apenas como primitivo do homem) e aí aparece na literatura uma tentativa de exercitar a animalidade.

Paralelamente, há um movimento de exclusão e demonização da animalidade nos séculos 18 e 19.

Maria Esther – De fato, isso tem a ver com uma mentalidade religiosa muito puritana de sacralização da espécie humana. O catolicismo oficial contribuiu muito para a renegação do animal e para a fixação desse estigma que o relega à inferioridade, violência, irracionalidade, loucura, sexualidade, perversão. Os animais são os que não têm alma. Esse especismo religioso teve repercussão simbólica na literatura, com o surgimento dos monstros, híbridos entre formas humanas e animais do século 19, revelando uma animalidade recalcada, que vem do imaginário como monstruosa e ameaçadora. O que na verdade é um retorno a um momento da Idade Média em que a repressão do catolicismo à animalidade e aos mitos pagãos provocou essa composição monstruosa e recalcada do animal. Hoje os vampiros e os lobisomens retornaram à cena na ficção literária e cinematográfica, mas esvaziadas de sua animalidade.

Você acredita que um dia olharemos para trás e pensaremos na relação predatória em grande escala que temos com os animais sentindo a vergonha e a perplexidade que hoje temos ao examinar crimes naturalizados no passado, como a escravidão dos negros pelo ocidente?

Maria Esther – Acho uma expectativa um pouco utópica. Infelizmente, minha expectativa é que em breve não haverá mais animal enquanto um outro que proporciona uma experiência radical de alteridade. Os que vão persistir são os do zoológico e para produção de alimentos, numa reprodução em série e cruel, dentro do pior do sistema capitalista. Acredito que de um lado haverá uma destruição avassaladora da vida animal selvagem e livre, em paralelo à humanização excessiva dos animais domésticos e, por outro, essa produção massiva de viventes em condições bárbaras, seres de vida curta e programada, nascidos para serem mortos deliberadamente.

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Você é o Repórter

Família busca poodle que desapareceu em Campo Grande (MS) na noite de natal

Flávio Cunha
ljbcunha@terra.com.br

Dara está desaparecida desde o natal. Foto: divulgação

Estamos a procura da nossa cachorrinha que sumiu na noite de natal por causa do barulho dos fogos e não retornou até hoje. Ela se chama DARA, é uma Poodle, cor caramelo, tem 3 anos e o focinho é marrom. Moramos na cidade de Campo Grande/MS, Bairro Monte Castelo na Rua Padre João Crippa. Acreditamos que ela esteja perdida ou em alguma casa próxima as Avenidas Rachid Neder e Mascarenhas de Moraes.

Ela faz parte de uma família com crianças e está causando muita tristeza em todos. Se você a encontrar ou souber onde ela possa estar, favor ligar para: Flávio Cunha (67) 8411-7284

Agradecemos sua ajuda e desejamos que nesse Ano Novo você sinta a alegria necessária para ser feliz a cada instante.

Contato:
Flávio Cunha (67) 8411-7284

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O véu da ignorância

A propósito da performance do Direito no âmbito da animalidade, afora todas as considerações específicas que se poderiam fazer sobre as normas vigentes no nosso ordenamento, há que se dizer, essencialmente, que convenientemente tem-se negado força à “venda” que “cega” a imagem da justiça. E, mais, há um uso entorpecido dos demais elementos: balança e espada.

Lembremos, inicialmente, que a espada remete à coexistência de interesses conflituosos – arbitrados pelo legitimado (magistrado) mediante o uso da força da lei. Aqui, o primeiro disparate: no que se refere às outras espécies animais, enquadradas na estirpe das “coisas”, sobra-lhes o gládio duvidoso do Direito Ambiental. É com sua normatização que o juiz irá “cortar”: como se os animais fossem meio (meio ambiente). Além disso, parte-se de um acordo trapaceiro amplamente enraizado no seio na sociedade, para a qual “todos são a favor de um meio ambiente equilibrado”. Assim, já que ninguém é contra esse equilíbrio, fica sempre presente um sentimento de que não precisamos de regras nesse contexto.

Quanto à balança, que subutilização! O indivíduo de outra espécie animal sempre subirá nesta balança na condição de coisa, e muitas vezes ser-lhe-á negada até mesmo a tutela de normas absolutamente cristalinas: por exemplo, o art. 225 da Constituição Federal, que, indo ao que interessa, veda o tratamento cruel contra animais. Surge a óbvia indagação: não seria o rodeio uma atividade intrinsecamente cruel? Pelo que expressamente traz a referida norma, haveria de se esperar que rodeios fossem proibidos. E, se não são, é porque quando da aplicação do Direito, quando do corte da espada, não se quis “pesar” o conflito na sua dimensão cruel. Com efeito, para não ser torpe, o jurista tem de colocar os interesses conflitivos em proporção sem que o antropocentrismo desalinhe o exercício de ponderação.

Acerca da venda, diz-se que representaria a imparcialidade que se espera por parte da justiça. Todavia, mais do que simplesmente isso, a venda indica a existência preponderante de um olhar interior: e não somente um véu de ignorância. Propicia-se um olhar para si mesmo que, necessariamente, não enxerga o protótipo de pensamento dominante.

Desavisadamente, poder-se-ia sugerir que essa leitura é improcedente, haja vista o peso institucional da jurisprudência nos tribunais. Porém, não é o caso, posto que nunca se deixou de reservar ao aplicador do Direito a liberdade que lhe é necessária para, antes de bater o martelo, fechar os seus próprios olhos para os slogans paradigmáticos de seu contexto de vida, e, com isso, refutar a falsa evidência de verdades tidas por incontroversas.

É com esse exercício que se pode superar, já neste ordenamento em que ora vivemos, muitas das calamidades cometidas a seres de espécies irmãs à nossa. O juiz não pode esquecer da existência de outros preceitos em face do Direito, muitos dos quais advêm de ciências biológicas, outras ciências sociais etc.

Além disso, a força maior que se tem negado à venda é justamente o da instituição. Como criação, instituto, alicerce, enfim, o Direito pode impor a realidade que queira criar – até mesmo algumas ficções. Por que é, então, que se diz academia afora que somente homens podem ser sujeitos de direitos? Recorde-se que, segundo certas correntes, nem mesmo o homem é um natural sujeito de direito, sendo-o por meio da ficção que é própria à ciência jurídica.

Portanto, um dos sentidos dessa normatização (não é uma leitura unânime, afirmo adiantadamente) é que mesmo antes de reprimir e administrar, o Direito pode se mostrar imperativo, performativo, enunciador de realidades nascentes.

Abandonemos a hipocrisia e assumamos: se porventura os outros animais são “coisa”, é porque assim o desejamos.

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Animalidade desonerada

Enxergar nos animais um “outro” é um passo necessário para o rompimento com a construção articulada em termos de sujeitos em relação a objetos, de homem versus animal. Conforme afirmamos anteriormente, a identificação da animalidade viabiliza esse exercício de percepção, o qual tanto é mais adequado ao homem quanto é mais justo com os outros animais. Essa compreensão sustenta um olhar mais autêntico, pois já sabemos o que de desmandos esse protótipo deformado da classificabilidade provocou. Somente superando esse modelo é que temos condições de avançar e chamar a ética para tomar o seu assento, reclamando uma postura mais exigente.

A mania do humano em objetificar, em transformar tudo que lhe é externo e diferente em objeto, comandou as suas relações com quaisquer outros que não fossem também donos de uma face – de um rosto humano. Tudo foi ou é “coisa” na natureza, mesmo o que é vivo. A maneira absolutamente irresponsável com que se dispôs da vida no planeta já dá mostras irrefutáveis de um destino que prepara conseqüências aterradoras para aqueles atos coisificantes de outrora e de hoje. Lembremos, ademais, que a própria humanidade já viu seu holocausto e entre nós ainda há sexistas e racistas.

Na base desses tantos fenômenos está sempre a negação da constituição de um “outro”. Também invariavelmente presente, está a refutação de generosidade que abraça a todos do mesmo gênero.

Portanto, o imperativo que advém desse contexto só pode ser lucidamente construído nos seguintes termos: deve-se reconhecer a animalidade do outro como a gênese de um estabelecimento ético, o qual não se funda nem na capacidade comunicativa, nem na reciprocidade, nem mesmo na titularidade de interesses tidos por iguais. A generosidade não requer essa dimensão de igualdade para se situar, e também prescinde de qualquer linguagem ou intercâmbio. Não precisamos saber exatamente quais são os interesses que cada animal no mundo ostenta, e qualquer tentativa de estudá-los pode incidir em antropomorfização. A animalidade já é antevista, e não atrai ônus nenhum para si. O ônus sempre será daquele que, maníaco pela ontologia, tentar subsumir os animais à sua representação sobre eles.

Esse ônus que acabamos de referir, com efeito, adquire duas conformações. A primeira, puramente individual, volta-se àquele indivíduo que se põe a questionar a animalidade de um ser, e sua administração consistiria em provar o alegado. Porém, já se adianta a verificação empírica de que cada outro animal reduz-se e amplia-se numa modalidade de existência distinta, nem sempre alcançável à teorização taxonômica produzida a partir do logocentrismo. A segunda, esta uma conformação coletiva, impõe a responsabilidade de admitir o insucesso total e definitivo que pode levar, quem sabe, à extinção da nossa própria espécie, e que seria fruto do delírio megalomaníaco de a tudo classificar e de tudo dispor.

A par disso, cremos, as necessidades de pensar a condição animal num viés de igualdade, como sugerido por Peter Singer, ou a partir da subjetividade proposta por Tom Regan, caem por terra. A animalidade é inescusável, em todo caso. Salta aos olhos, emergindo de cada ser, e chamando a todos nós para comunhão.

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