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Cães de Chernobyl recebem uma nova oportunidade nos EUA

| Foto: Tomas Halasz

Há trinta anos Chernobyl (Ucrânia) foi palco do pior acidente radioativo da história. Totalmente evacuada na época em função do vazamento de radioatividade, causado pela explosão da usina nuclear, a cidade hoje em dia ainda abriga animais e entre eles muitos cães.

Cerca de 1.000 cães abandonados vivem na área onde as pessoas não têm permissão para residir, segundo o Clean Futures Fund (CFF, na sigla em inglês), uma organização americana que supervisiona os animais da região. Em torno de 150 deles vivem na área da usina, outros 300 na cidade de Chernobyl, e o restante em postos de controle, quartéis de bombeiros e aldeias para onde algumas centenas de pessoas se mudaram de forma não oficial.

São cães que têm que enfrentar invernos rigorosos, neve e chuva, sem mencionar as doenças e a radiação persistente no ar.

Nessa zona restrita ao redor de Chernobyl normalmente silenciosa, é que hoje em dia pode-se ouvir diversos latidos e ganidos.

Uma estrutura abandonada que um dia serviu como um centro médico improvisado para os trabalhadores da ajuda humanitária, funciona atualmente como hospital para cães abandonados que permanecem na zona de exclusão – de 30 km – muito tempo depois que seus residentes humanos foram evacuados.

Filhotes recebem tratamento, medicamentos e vacinas no hospital veterinário | Foto: Sean Gallup
Filhotes recebem tratamento, medicamentos e vacinas no hospital veterinário | Foto: Sean Gallup

Há atualmente 15 filhotes no hospital e, depois dos exames médicos, eles se juntarão a outros cães jovens em Slavutych, uma cidade a cerca de 50 km de Chernobyl, que foi construída principalmente para os trabalhadores da usina após a explosão. Mas desde o ano passado a história desses animais ganhou um rumo diferente e inesperado.

Lucas Hixson, fundador do projeto “Cães de Chernobyl”, foi pela primeira vez ao local do desastre ucraniano, em 2013, para trabalhar como especialista em radiação, mas ao chegar lá se surpreendeu com o número de cães na região. “Uma das primeiras coisas que você nota quando vai à região são os cachorros”, disse ele.

“Os cães não conseguem ler as placas de radiação, eles correm, vão para onde querem”, acrescentou.

Incomodado com as situação, ele acabou ficando e criando o projeto. A iniciativa vacina, esteriliza e coloca para adoção os animais abandonados da região.

O programa “Cães de Chernobyl”, passou a oferecer também, desde o ano passado, a oportunidade de adoção nos EUA para os cães com menos de um ano de idade.

Hixson também adotou um animal da zona de exclusão em 2017, que ele chamou de “Dva” – a palavra ucraniana para “dois”, pois este foi o segundo cão a ser adotado de Chernobyl. Ambos os animais agora vivem nos EUA.

Os filhotes tratados no hospital veterinário ficarão em Slavutych por cerca de seis semanas. E depois vão viajar para os novos lares no EUA.

A CFF tem parceiros nos EUA que ajudam a encontrar novas famílias para os animais e fornecem todos os serviços necessários e burocráticos para a transferência até as novas famílias.

Filhotes brincam na região abandonada | Foto: Sean Gallup
Filhotes brincam na região abandonada | Foto: Sean Gallup

Os voluntários nos EUA passam um tempo com os filhotes quando eles chegam da Ucrânia, e mais tarde os ajudam a se acostumar com seus novos tutores.

As pessoas que querem adotar os cães preenchem um formulário de inscrição on-line antes de uma série de entrevistas e até mesmo inspeções domiciliares pelo fundo e seus representantes nos EUA.

E a resposta tem sido boa, com 300 ofertas para os 200 filhotes iniciais em um curto período de tempo, disse Hixson.

Hixson afirma que vai encontrar famílias para 200 filhotes nos próximos dois anos e tratar o maior número de cães possível.

No abrigo, esses filhotes têm um cronograma rigoroso, entre caminhadas e refeições, eles têm exercícios extras, massagens e até mesmo o passam pelo salão de beleza.

“Estes são provavelmente os cães mais bem tratados na Ucrânia”, disse Hixson.

Os voluntários admitem que alguns dos cães mais velhos são muito selvagens para serem adotados, a eles só pode ser dado tratamento médico e depois devolvê-los à natureza.

Nenhum dos filhotes reirados da área restrita estava radioativo, mas alguns cães adultos sim.

“Nós escaneamos todos os cachorros antes que eles cheguem ao nosso hospital”, explica Hixson.

Se os voluntários encontram alguma contaminação, eles lavam os cães, descontaminam-os com um pó especial e, se necessário, raspam seu pelo.

“Quando o cachorro sai, ele esta tão limpo quanto qualquer outro cão”, disse o americano.

Nadiya Apolonova, representante do Clean Futures Fund na Ucrânia, disse que a expectativa de vida de um cão na zona do desastre radioativo é de apenas cinco anos, e não apenas por causa das condições climáticas e doenças na natureza.

Conforme a vida selvagem se recupera neste local quase livre de seres humanos, os cães enfrentam outra séria ameaça além da radiação: os lobos.

Nos últimos anos, os lobos foram responsáveis por cerca de 30% das mortes de cães.

Os cães de Chernobyl são como qualquer outro cão, as deformidades não passam de mitos | Foto: Sean Gallup
Os cães de Chernobyl são como qualquer outro cão, as deformidades não passam de mitos | Foto: Sean Gallup

Os voluntários acreditam que o programa além de tudo ajuda a informar as pessoas sobre a realidade de Chernobyl.

“Há muitas percepções sobre Chernobyl que não são realidades”, sublinha Hixson.

Enquanto as pessoas podem imaginar criaturas deformadas que vivem na zona de exclusão, os filhotes nascidos lá são como qualquer outro filhote.

“Pessoas que nunca estiveram aqui e esperam ver algo que não existe”, ele diz.

Então ele pára por um momento e sorri orgulhoso: “Esses são os cães mais saudáveis e espertos que já vi”.

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