Cotidiano Vegano

Veganos e a exclusão pela comida

Natal, aniversários de amigos e familiares, Páscoa, etc, podem se tornar um grande constrangimento para os convidados veganos. São várias as ocasiões em que um vegano pode se sentir excluído, mas as mais comuns são os encontros sociais, que, como tais, sempre envolvem comida.

Se você não é vegano e um dia decidir receber um convidado vegano em sua casa, lembre-se de preparar opções veganas. E oferecer opções veganas não é cozinhar uma batata para o vegano enquanto todos os outros convidados se deliciam com pratos saborosos e variados. É muito desagradável, mas muito desagradável mesmo, sentir-se excluído. O legal dos encontros é a sensação de pertencimento – e a comida costuma ser sempre o centro vivo, um verdadeiro retrato dessa energia.

Em compensação, quando um vegano recebe amigos não veganos em sua casa, a exclusão torna-se impossível, já que serão oferecidas as mesmas opções (todas veganas) de comida para todos os convidados.

Nós veganos não comemos apenas macarrão. Gostamos de risotos, cogumelos, lasanha, arroz, feijão sem bacon, peixes vegetais, kibes veganos, couve refogada, yakissoba, bifun, legumes no vapor, feijoada, estrogonofe, tortas, hambúrguer vegetal, salsicha vegetal, presunto defumado vegetal, temaki, torradas, bolachas, pães integrais, patês, tofu, salada de maionese, panqueca, queijos vegetais, pizzas deliciosas, salgados, pão de queijo vegano, shakes, leites vegetais batidos com chocolate, sucos, bolo trufado, bombom, torta alemã, holandesa, cheesecake, sorvete vegano, capuccino, café – e por aí vai.

Proporcionar ao convidado vegano a sensação de fazer parte do encontro não é uma tarefa difícil e não exige grandes esforços – veganos não precisam de nada muito elaborado. Eu, por exemplo, aprecio pratos simples, e gosto muito de praticidade – mas jamais abrindo mão de um prato saboroso e sem crueldade.

O que me levou a escrever este texto? Um certo cansaço. Não acho que os veganos devam se resignar em ficar, quase sempre, com o cantinho da mesa.

Opções tem de sobra. Basta um pouquinho de sensibilidade. Todos gostam de se sentir lembrados, queridos e acolhidos. Os veganos não são exceção.

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Desafio aos não vegetarianos – com todo o respeito

Quem, entre os meus leitores ainda não vegetarianos, aceitaria este desafio: assistir de perto e ao vivo ao “abate” de um animal em um matadouro? Ver e ouvir os seus suspiros finais, de perto, olhos nos olhos? E depois comer a carne desse animal morto com um garfo e uma faca, em uma mesa posta?

Quem aceitar esse desafio, faço questão de ir junto e registrar em vídeo. Mas quem não aceitar deve parar de consumir carne imediatamente (de qualquer origem e espécie animal) – ou estará condenando a si mesmo ao autoengano dos que não querem ver para não precisar mobilizar forças para mudar e crescer, no caminho da compaixão e da justiça.

Nem precisaríamos ir tão longe. Um desses vídeos terríveis, investigativos, feitos por ativistas que adentram os matadouros para registrar a tortura e o sofrimento a que são submetidos esses animais criados para o consumo humano bastaria. Será? Para alguns, sim. Para muitos, ainda é preciso compartilhar o horror de perto. E quem não se solidariza diante da dor de um animal sendo torturado, quem não dói junto, só pode padecer de psicopatia – um mal comum aos humanos dos tempos de hoje.

Que os psicopatas não se importem, após um desafio como esse, de continuar a consumir alimento oriundo do sofrimento de animais, eu lamento, abomino, mas até entendo, pois são seres incapazes de sentir empatia. Mas aos não psicopatas, é inaceitável que não passem por essa etapa obrigatória antes de fazerem suas escolhas de continuar consumindo ou não a carne que compram no açougue! Hello, escolas. O que nossos jovens estão estudando nas salas de aula, se não compreendem o sentimento mais fundamental que é a compaixão? Pelo contrário, aprendem por uma osmose sórdida e silenciosa a dissociar a angústia desses animais escravizados do pedaço de carne servido em seu prato ou em uma bandeja de isopor, no refrigerador do supermercado. Em última instância, desaprendem a vida!

Apenas podemos fazer escolhas próprias diante de verdades. Nisto se baseia esse desafio: quero que você pare de olhar para a vaquinha sorridente da embalagem e volte o seu olhar para o que existe realmente: um animal confinado em um matadouro imundo, sofrendo muito, após ter sua vida escravizada e o seu corpo violentado, para então ser morto e caber numa dessas embalagens fictícias que convencem você enquanto você estiver desacordado.

Desafio lançado. Com todo o respeito.

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Como não se brutalizar diante do 'ódio'

Sentir repulsa ao ler barbaridades praticadas contra animais não é uma questão de escolha, infelizmente. Pois se fosse, seria um alívio, seria um peso a menos na alma.

A grande questão, ao meu ver, é o que fazer com essa repulsa, com esse desgosto absoluto que alguns chamam de ódio. Aí sim, temos alguns caminhos. Mas antes de canalizar essa ‘vontade de destruir’, digamos assim, o agressor, para algo construtivo, devemos nos tornar conscientes do sentimento de dor e repulsa que nos acomete a partir do momento que tomamos conhecimento de um ato de barbárie. E eu, como vegana, refiro-me às vítimas de todas as espécies animais – desde cães e gatos, que sofrem atrocidades de todos os tipos, até os porcos, galinhas, cavalos, vacas e outros animais escravizados, torturados e subjugados pela força humana.

Defender o “não ódio” é negar o que é instintivo. Eu diria que deveríamos aprender a lidar e canalizar esse ódio, reconhecendo-o, olhando de frente pra ele, para que ele não nos destrua, reduzindo o que somos a um estado de espírito fragilizado pela sensação de incapacidade de mudar o que se vê. Diferentemente de negar, de fazer de conta que não estamos intimamente indignados e feridos, eu recomendo pegar o ódio nas mãos e fazer com que ele vire uma faísca de luz. Isso pode vir num choro. Pode vir num texto que sangra. Pode vir num gesto amoroso. Mas algo há de se fazer com esse ódio que instintivamente nos toma, para que ele não estrague o que somos. Negá-lo é fazer de conta, e portanto deixar que ele permaneça em sua forma bruta dentro nós. Ao negar o ódio, estaremos cheios de veneno – ainda que pareçamos serenos e resignados.

Reconhecer o ódio, sem tomar qualquer tipo de ação precipitada ou violenta, nos permite em última instância entrar em contato com a dor de onde nasceu a repulsa. Esse simples gesto, sim, é capaz de devolver à porção podre do mundo alguma luz, alguma paz, quem sabe. E também a nós mesmos, algum alívio, pois o ódio é uma dor elevada à enésima potência querendo curar a si mesma.

Agora, por exemplo, escrevo no calor da dor que eu escolhi não negar. Mas algo se salva nisso tudo: a possibilidade de nos humanizarmos diante da dor que toca a todos da mesma forma, fazendo dela matéria prima do bem, e não do mal.

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Brasil: o país da mentira

Brasil. Um país de vulgares abençoados. De terras encapadas de concreto e sem ciclovias. Um país de altos impostos para alimentar políticos safados. Terra de Lulas cínicos. De bundas em telenovelas. De gente gananciosa andando com ar de vitória. Onde a pobreza miserável contrasta com as mansões nos condomínios fechados. País feito para quem se encaixa numa sociedade doente. Feito para os que gastam o tempo sem deixar uma nesga de luz neste mundo. Feito para os que pairam na superfície. Terra da exclusão. Das regras podres. Da sonolência e da mentira. Terra contaminada a despeito de suas belezas raras.

Terra do cinismo, de Malufs risonhos, de um povo esquecido de si mesmo.

E ainda me espanto. Me espanto ao saber que uma assassina responderá em liberdade. Mesmo com todas as provas. Com gente de vários países pedindo justiça. Ainda assim, o Brasil mostra a quem serve. Devemos achar normal que uma mulher que mata o próprio cachorro pague uma cesta básica. E eu ainda me espanto…

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Pontos cegos

Para todas as pessoas (sejam veganas, espíritas, ativistas pelos direitos humanos, ambientalistas etc) que acham que já subiram todos os degraus da vida e que já ocupam um patamar de excelência moral, vale lembrar que a cada degrau que se sobe segue outro, e depois desse outro, mais um, e assim deveria caminhar a humanidade.

Se já atingimos uma compreensão sobre algo, isto significa apenas que estamos prontos para darmos o próximo passo em direção ao próximo aprendizado.

A arrogância é quando, ao assimilarmos algo, enchemos o peito de um orgulho ridículo, e nos consideramos tão acima dos outros que paramos pelo caminho – fazendo e pensando mais do mesmo.

Bem, mas o arrogante se esquece de que no que ele ainda não sabe, ele permanece pequeno diante de muitos seres que já compreendem o que ele ainda é incapaz de ver.

A compreensão se dirige ao infinito, portanto jamais poderemos achar que sabemos muito da vida, pois o todo é inquantificável. E diante de algo que não sabemos o tamanho, é impossível situar-se em termos de muito ou de pouco. Uma reta contém infinitos pontos e, por conceito, não tem início nem fim – se tiver, é um segmento, um pedaço de reta, e não uma reta por definição. Da mesma forma, é o infinito de aprendizados que temos pela frente: há sempre o impulso que nos move para um ponto desconhecido, não temos que achar que somos mais ou menos que os outros, pois jamais saberemos em que ponto da reta estamos, e ainda que soubéssemos, não haveria referencial algum para situar nosso grau de “evolução”.

A mesma pessoa que salva um cão abandonado do frio e da fome nas ruas pode ainda não ser capaz de ver que o pedaço de carne no prato dela vem também do sofrimento de um animal inocente que, como o cão que ela salvou, apenas gostaria de viver e ser amado.

Isso não a torna inferior. Isso apenas mostra que ela, de alguma forma, parou pelo caminho, mesmo estando pronta para o próximo passo. O caminho natural desse processo seria estender a compreensão compassiva para todas as outras espécies vivas, além do cão que ajudou a salvar.

A mesma analogia vale para um vegano que não consome nenhum tipo de derivados animais, mas que, ao tragar o seu cigarro, compartilha da podridão escravizante que move a indústria do tabaco.

Podemos fazer inúmeras combinações, infinitas talvez: o espírita que veste couro ou que nutre fofocas; o ambientalista que trata mal outros seres humanos ou que consome carne; o ativista pelos direitos humanos que utiliza carro para fazer todo tipo de deslocamento, inclusive para ir à padaria que fica a duas quadras de sua casa, alimentando desta forma a indústria sórdida do transporte – responsável por detonar o planeta com emissão de gases tóxicos, aumentar a desigualdade social, e contribuir para que a natureza se converta em espaços mortos e esfumaçados, que privilegiam apenas as máquinas motorizadas.

Essas pessoas, por um lado, não aceitam fazer parte da sórdida indústria da carne, ovos, leite, cigarro, transportes etc, mas cada uma delas alimenta alguma sordidez situada em seu ponto cego.

Cada uma dessas pessoas vê, de um ângulo diferente, um pedaço de tudo que constitui o universo, e, cada uma delas, em contrapartida, tem seu respectivo ponto cego. Para cada pedaço que enxerga, existe um outro que fica na sombra. E o que uma pessoa vê, a outra ignora.

Cada um de nós inegavelmente tem inúmeros pontos cegos. Lugares ainda inacessíveis à nossa compreensão. Mas a boa notícia é que esse estado não é permanente, já que muito do que compreendemos hoje, um dia pertenceu ao nosso conjunto de pontos cegos.

A natureza humana é dotada dessa fantástica capacidade: transformar a si mesma. Não é uma questão de escolha caminhar para frente, mas de orientação natural. Uma árvore não sobe pra baixo, assim como o vento não chove, assim como a cigarra grita e canta enquanto a formiga trabalha. E assim flui a vida.

Podemos escolher nos desnaturalizar até a última instância da existência, e talvez nem estejamos tão distantes disso, mas uma coisa é certa: fluir com a vida é sempre o melhor caminho para que a paz floresça nas nossas raízes. E quanto menos pontos cegos tivermos, mais livres seremos para agir em consonância com a música da vida.

Para colocar em prática

As seguintes obras nos inspiram e convidam a ver o mundo sob outros ângulos. Talvez em algum(ns) desses ângulos esteja um de seus pontos cegos:

A Carne é Fraca (Documentário/Vegetarianismo/Indústria da carne)
O Fim da Inocência (Artigo abolicionista/Veganismo)
Fumando Espero (Documentário/Indústria do tabaco)
Apocalipse Motorizado (E-book/Indústria do transporte)
O Veneno Está na Mesa (Documentário/Indústria dos agrotóxicos)

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Realengo: um furo no peito do mundo

A tragédia em Realengo, envolvendo seres inocentes no RJ, mexeu com todos nós.

E como tudo que a gente não elabora tende a crescer, peço licença para elaborar isso junto com quem me lê.

Proponho que, em vez de concentrarmos nossas forças em julgar esse sujeito do qual sentimos repúdio, vejamos além do que ele fez e além dos traumas irreversíveis que ele causou. Ele fez uma escolha e agora está profundamente endividado, suspenso em algum lugar muito escuro. Mas e nós, que ficamos, o que fazemos? Nós que sentimos de longe o furo no peito dessas crianças?

Nós que ainda estamos vivos precisamos fazer algo com essa tinta escura que foi vomitada não apenas nas crianças atingidas, mas em cada um de nós. O que fazemos de nossa raiva, de nossa tristeza? Pois é muito doloroso esse lugar de onde apenas olhamos para uma tragédia. Sim, estamos manchados e precisamos fazer com que isso vire uma coisa boa.

Precisamos ser inteiramente essa indignação, e ao menos deixar que nasça disso alguma coisa.

Ninguém é produto de uma só influência. O que somos vem de várias direções e nasce e cresce de acordo com nossas escolhas (conscientes ou não).

Para lidar com a vida, contamos com os recursos que temos internamente (adquiridos por meio de escola, convivências, leituras, inspirações e todo tipo de contato com obras e pessoas); com o ambiente em que vivemos; com o que recebemos constantemente; com nossa autoimagem; com o que em silêncio nos é sugerido; com influências outras que desconhecemos ainda; etc. A partir dessas elaborações, fazemos nossas escolhas e colhemos o que deriva delas.

A carta escrita pelo assassino Wellington é assustadoramente reveladora. Depois que ela foi aberta ao público, muitas pessoas pareceram se solidarizar ao assassino, convencidas de sua suposta parcela de bondade ao se referir aos animais em tom de generosidade.

Eu não vejo consistência numa suposta compaixão arbitrária, que não se estende a todos os seres vivos. No caso do assassino do Realengo, com certeza ele era dotado de distúrbios mentais e problemas psicológicos seríssimos, o que, no entanto, não lhe dava o direito de tirar vidas – sejam humanas ou não humanas.

Não consigo ver verdade no afeto ou no suposto respeito dele pelos animais. O que eu vejo nele é uma compensação e uma exacerbada identificação com a condição de vulnerabilidade em que os animais se encontram em relação a nós humanos. Ele se identificou com os animais, como poderia ter se identificado com as plantas ou com objetos de pelúcia. Animais, neste caso, ao meu ver, continuam sendo objetos usados por ele como instrumentos de compensação, cumprindo a exclusiva função de espelhar o seu sentimento de abandono, rejeição e inferioridade que a sociedade lhe impôs. Ele talvez olhasse para os animais como gostaria que olhassem para ele.

Tudo isso foi muito triste e a dor ainda está derramada por todos os cantos. É uma tragédia que trata da violência, da covardia, da impotência que sentimos diante da maluquice alheia. Mas é também uma oportunidade de olharmos para o seríssimo assunto que é o bullying sofrido pelos humanos e sofrido em um grau muito maior pelos animais. O bullying é toda agressão social dirigida repetidamente a um indivíduo.

Ele talvez tenha atirado contra o que estaria diretamente associado a tudo que lhe causou sofrimento. Na mente perturbada dele, e seguindo o fluxo do ódio calado que ele carregava, ele quis finalmente expressar sua raiva. Escolheu as meninas, pois talvez tivessem zombado de sua aparência. Mas eram outras meninas, não eram as mesmas. O que pensava, então, ele ao atirar em pessoas que nada tinham a ver com a rejeição que ele havia (supostamente) sofrido?

As ligações na mente dele são tortas, são outras. Elas agem no sentido de justificar e fortalecer atos que contraditoriamente reforcem o quanto ele é um coitado e essa condição de coitado valida então o direito que ele se dá de sair e matar. Sim, eu imagino que até na cabeça de um assassino seja necessário estabelecer uma condição de igualdade. Ele fez o que fez para dar o troco. Na cabeça dele, matar o que quer que se mexesse ainda naquelas salas de aula onde ele estudara era o outro lado da equação que faltava para ele se aniquilar por completo.

Ainda com relação aos animais, não podemos considerar que ele os olhasse com compaixão, assim como não podemos considerar que uma pessoa só porque é vegetariana/vegana olhe para os animais com respeito e um afeto incondicional. Na verdade, uma pessoa com orientação pacífica naturalmente se inclinará ao veganismo – em algum momento isso se dará com muita naturalidade. O ponto de partida é interno, transbordando então ao que se faz, ao que se come, ao que se diz. O título de “ativista”, “vegetariano”, “espírita”, entre outros, não confere valor, por si só, ao indivíduo. O que garante sua boa índole é o que vai dentro dele, e que se mostra na forma como interage com o mundo, é o que se estampa em seu olhar.

Defender os animais e maltratar os humanos é uma patologia tão nociva quanto defender os humanos e maltratar os animais (atingindo-os direta ou indiretamente).

Devemos ao mundo nossa parcela de paz. Achemos, então, o caminho.

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Cotidiano Vegano

Saber cair, saber levantar

Quem fala demais pouco realiza. Basta observar para constatar que os mais propensos a emitir críticas são os que nada fazem. Para ser alvo de críticas e dedos apontados na sua cara, basta fazer algo. Tente fazer o bem, e veja quem realmente permanece ao seu lado.

Nesses dois anos e alguns meses de dedicação à causa animal, aprendi muita coisa sobre o comportamento humano.

Nos bastidores dessa importante e árdua tarefa de um contato contínuo com a sofrida realidade vivida pelos animais, caímos e levantamos diariamente. E é entre a dor e a ação que está esse lugar difícil: de onde nos brota uma força. De onde somos obrigados a renascer mais fortes para fazer o que precisa ser feito.

Gostaria que a união (união de verdade, aquela baseada na cooperação e na reciprocidade) fosse um valor mais cultivado entre os humanos.

A decepção que as pessoas vão deixando pelo caminho é algo com que devemos aprender a conviver. Indolência e falta de disciplina interior são as duas palavras que melhor definem a falsa “vontade de ajudar” das pessoas.

Se a minha fome é grande, não adianta me oferecer um livro de poesia. Se eu preciso de ajuda para não me afogar, palavras serão inúteis. Se for preciso erguer as mangas para ajudar alguém a carregar menos peso, não adianta olhar para o outro lado e fazer de conta que não está vendo.

Aprendi a derrubar minhas próprias convicções e a enxergar as pessoas além do que elas dizem ser. Veganas ou não veganas, o que importa acima de tudo é o caráter, a boa índole. É com isso que chegamos a outros patamares e nos tornamos seres ainda melhores. Ser um vegano sem escrúpulos também não tem valor algum – nem para os animais, nem para ninguém. Devemos respeito a tudo e a todos: aos animais, às pessoas dignas, à formidável natureza.

As pessoas, em geral, vivem para o que querem ver. No fundo, são movidas por seus próprios interesses e ajudam e fazem o que bem entendem de acordo com a vantagem e o ganho embutidos nas respectivas tarefas com que se comprometem.

Se eu me disponibilizo a ajudar, oferecendo meus talentos, meu tempo, minha dedicação, estou dizendo ao mundo que me chame. Então eu sou chamado e, na primeira oportunidade, abandono a tarefa para que fui chamado, descambando meu tempo para coisas mais importantes como ver televisão, ir para baladas e beber no boteco da esquina. É desta profundidade que é feita a “vontade de ajudar” da maioria dos humanos.

As pessoas querem ajudar até que surja o convite para a próxima festa ou a dor no joelho ou o famoso chulé do vizinho. Quando queremos um motivo, qualquer desculpa serve mesmo.

Ao se comprometer com uma tarefa – seja essa tarefa varrer o chão, escrever um texto ou lavar uma louça – devemos isso a nós mesmos. Ao se comprometer você distribui os tijolos de uma construção, você assume uma parte.

Pessoas pouco maduras têm problemas com a regularidade, com a auto-motivação – porque no fundo não têm a menor ideia do que estão fazendo, e ao final das contas acabam por prejudicar em vez de ajudar.

E a consequência disso são poucos carregando muitas toneladas. Fazer o bem é algo que precisa ser espalhado. Mas para colher o bem, é preciso plantá-lo. E para plantá-lo são necessários braços. Ideias, teorias e achismos poéticos todos têm de sobra, o que falta é atitude e mão na massa.

A cultura do trabalho voluntário no Brasil é ainda muito retrógrada. Fazer o bem com a naturalidade de quem ajuda alguém que precisa de socorro ou de quem doa o que já lhe transborda ainda é algo muito pouco cultivado neste país. Será que estamos criando uma juventude idiota, acostumada a pensar que a vida é estudar cartilhas e entrar na faculdade para depois fazer um estágio e arrumar um emprego e nada mais? Em que escola se ensina sobre a importância da união de forças? Onde é que nos ensinam a não sermos tão dispersos?

Mas eis que o contraponto vem com sua grandeza suave e nos salva novamente do abismo. Mesmo que às vezes não digamos nada, mesmo cansados, nós nos sentimos muito gratos por dentro. Por alguma ação que nos tenham feito, por algum solidário gesto, por uma palavra sincera na hora certa ou por uma força que nos levanta. Pelo que parece um milagre. Disso também são feitos nossos dias: de pequenas vitórias e de alguns sorrisos. De mãos que nos são dadas quando mais precisamos.

Felizmente para tudo existem as exceções – às quais agora eu devo toda minha gratidão. Às pessoas que corajosamente agem e que sabem da importância de sua presença. Não me refiro às que carregam os tijolos quando querem, mas às que sabem o quanto dói carregar tanto peso todos os dias, sem folga, sem pausa para descanso do corpo e da mente. A essas pessoas eu devo minha profunda admiração e respeito.

Nosso tempo é curto, muito curto para carregarmos tantos tijolos sozinhos. É tempo de unir esforços, talentos e sermos sinceros – assumindo para nossas vidas apenas o que realmente podemos realizar e dando cada passo de uma vez – com dignidade e consistência.

Se quer ajudar, então prepare toda sua alma, e esteja alerta, porque o chamado virá. Do contrário, peço encarecidamente que não atrapalhe quem se dispõe a fazer o bem. De falsas promessas o mundo já está cheio e de reclamações e palavras desprovidas de ações, também.

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Cotidiano Vegano

Último suspiro

O mundo está escuro, estamos dando nossos últimos suspiros.

A verdade mesmo é que ninguém está em paz. Caso contrário, o mundo estaria em paz, não em guerra, não estaríamos vivendo nessa lama de sangue onde pisam nossos hábitos, por onde se arrasta a nossa cultura.

Dói querer ver a mudança no mundo, dói enquanto nos sentamos à mesa e mais um animal é morto antes de ir parar na mesa do vizinho. Porque, mesmo sem saber, nós sabemos. Mesmo sem ouvir o grito, sem ler a notícia, nós fazemos parte do último suspiro de cada animal maltratado e morto.

Conversando com uma amiga lactovegetariana a respeito do direito dos animais à vida, no contexto da utilização de animais em rituais religiosos, ouvi a seguinte frase: “Fernanda, de onde você tirou essa história de direito à vida?”.

Pausa longa porque esse episódio me deixou em choque por alguns longos minutos. Passou minha fome e os meus olhos começaram a arder.

Confesso que me percorreu um lamento profundo, ao mesmo tempo em que minhas forças se moviam para emitir uma resposta brutal, que eu obviamente não vou reproduzir aqui. Eu quis dar um grito, queria fazer tudo parar, queria que estivesse ela no lugar do animal cujo assassinato ela tentava justificar a todo custo, porque me parecia ao menos mais justo.

Mas respondi apenas: “então fique em paz com as suas escolhas”. E o assunto morreu ali. Porque, na verdade, eu não tinha mais o que dizer. Ela queria um motivo para dormir tranquila e, quando a gente quer um motivo, qualquer coisa serve. Então nada do que eu dissesse adentraria.

Já virou tradição negar os direitos dos animais sob a máscara das mais elevadas e elaboradas justificativas (paladar, religião, cultura etc.) – dessa forma, tornamo-nos ainda mais sórdidos, porque nos escondemos debaixo de um pano falso, de algo que não existe. A pior coisa que há na vida é fazer parecer o que não é. E diante de um faro aguçado para incongruências, algumas falas se tornam ridículas. Então pronto, aproveito a deixa para pedir a todos o mínimo: sejamos honestos em nossas palavras, em nossa expressão. Matar é violência, tomar a vida de outro ser é violência. Liberdade é o que podemos fazer sem interferir no direito do outro. Simples e direto: não é preciso pintar as coisas de intenções que não são inerentes às atitudes em que estão contidas.

Aí vem uma questão polêmica: se as pessoas estão predispostas à violência, de que adianta serem vegetarianas? Se não nascem nelas primeiro a energia pacífica e o respeito?

Acho mais digno um ser não vegetariano a caminho do veganismo e da prática do bem, que se reconhece em seus equívocos e limitações, do que um vegetariano, ou quase isso, que não tem a menor ideia do que é respeitar o direito à vida de um outro ser.

Osho, que foi um espiritualista vegetariano, em um trecho de sua obra Um pássaro em voo, diz justamente isso: seria uma grande falsidade que as pessoas violentas deixassem de comer e consumir o que deriva da dor e da exploração dos animais. Um gesto pacífico é consequência do que somos interiormente e não o contrário.

O mundo não pode se tornar vegano agora. Porque ninguém está em paz. Estão todos alheios a si mesmos, e não há revolução que faça nascer em cada um a compaixão, senão o exercício individual que só percorremos com os próprios pés.

Sinto pelos que esperam do mundo essa mudança. Eu espero do mundo um despertar. Sigo acreditando no poder da arte inspirada na vida. Eu espero que as pessoas derretam seus muros e se reencontrem – e que, portanto, sejam menos impermeáveis. O vegetarianismo, que é a prática da compaixão pelos animais, virá depois, eu lhes garanto.

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Cotidiano Vegano

Olhar nos olhos da vida

Assim como podemos estar tristes no meio de muitas pessoas alegres, podemos estar em silêncio mesmo dizendo muitas palavras. Barulho e volume não são sinônimos de que algo está sendo comunicado.

O que é importante sabermos? Do tiroteio na favela, do esquema corrupto do governo, da criança que é viciada em cigarro, do buraco na calçada, da economia mundial?

O que eu preciso saber para mobilizar forças para agir? O que é importante saber para que a minha percepção se aguce e eu então tenha mais forças e recursos para fazer o que é necessário?

Saber todas essas coisas que nos bombardeiam a mente é, em última instância, não saber nada a não ser algumas coisas para citar numa conversa rasa. Saber o que a mídia escolhe me apresentar como importante não é o que eu realmente preciso saber. A mídia não pode pautar o que é importante eu saber para a minha vida. Eu é que tenho de ter esse discernimento. E isso se dá conhecendo a vida olhos nos olhos, tateando com meus próprios braços a realidade.

Portanto, se para mim for mais profícuo uma TV desligada, se para mim for mais proveitoso ler um texto de um amigo, ou ouvir uma música enquanto escrevo, se com isso aprendo mais sobre a vida e sobre mim mesma, então eu posso escolher não fazer o que todo mundo faz, e não assumir o que todos assumem como “necessário”.

E eis que a sombra da realidade não é a realidade. O que me mostra a novela, o telejornal, o programa de auditório, é tudo uma distração do que eu preciso saber.

Um noticiário ideal seria aquele que nos dissesse como podemos facilitar nossas vidas para que nos tornemos mais simples. Como fazer dessas cidades cheias de carros fumacentos, lugares mais próximos do natural, por onde pudessem passar bicicletas e animais. Pois como os animais nos zoos, vivemos nós humanos também um certo grau de confinamento, alheios à pele crua das montanhas, à pureza verde das árvores vivas. Penamos muito até encontrar um lugar onde haja uma sombra para descansar.

Preciso saber como é olhar nos olhos de um coala. Como é essa liberdade dos pássaros e por que eles nos temem. Quero o cheiro do mar, a textura da areia. Quero eu mesma tocar o mundo e encher um jardim de animais livres me ensinando sobre a vida.

Mas pressinto que esse mundo onde todos os seres possam viver mais dignamente e realizar-se no que nasceram para ser só se pode construir, a uma altura dessas, em um mundo paralelo a esse mundo, onde tudo já está estabelecido. Só teremos uma vida outra se criarmos um mundo dentro do mundo. Se fizermos nós mesmos. E assim, de dentro pra fora, quem sabe com o tempo, esse mundo maior, esse engessamento do que somos, vá sendo implodido, restando a nós apenas nós mesmos. E o que pertencerá a nós, de fato, é o que poderemos doar aos outros.

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Cotidiano Vegano

O que fazer com a vontade de ajudar

Quando eu era ainda muito jovem tinha uma vontade imensa de colaborar com o mundo, de fazer boas ações.

E assim permaneci por alguns anos: cheia de energia e boas intenções, mas sem saber como dar forma a toda essa vontade de fazer alguma coisa pelo mundo.

Fui vivendo e convivendo com essa vontade, ouvindo de outras pessoas sobre a alegria que é se dedicar voluntariamente a uma causa, ajudando alguém mais vulnerável e necessitado. Mas nada disso foi suficiente para que eu descobrisse de que forma eu poderia abraçar uma causa do bem e efetivamente dar minha contribuição.

No começo, quando ainda estamos “ensaiando” para entrar na roda viva dos que colocam a mão na massa por uma boa causa, somos presenteados por pequenas oportunidades de ajudar o próximo, seja ele humano ou não humano.

Em parte porque a nossa cultura não estimula desde cedo o desenvolvimento de uma consciência solidária, e em parte porque eu ainda não me conhecia o suficiente para saber o que me cabia fazer pelo mundo, foi depois dos vinte e poucos anos de idade que amadureci e despertei para a necessidade de agir.

Por isso considero o voluntariado (ou o ato de ajudar espontânea e desinteressadamente) algo que não se pode impor jamais a alguém: porque antes a própria vida prepara a pessoa por dentro, preenchendo-a de uma compreensão muito própria, de valores e ideais bem digeridos, e nascidos nela, que possam dar consistência à ação que ainda está por vir. Eu não acredito no valor de ações vazias, automáticas, e também não acredito que alguém possa contribuir com o mundo sem antes ter mergulhado em seus próprios labirintos e aprendido com os próprios tropeços e triunfos.

Ao ajudar, fazemos porque nos sentimos chamados a fazer e não porque alguém tenha nos pressionado a fazer.

A vontade enquanto só gira em torno de si existe pela metade, pois a vontade é o importante sinal de que somos capazes de realizar algo. Vontade sem ação é como um corpo sem mobilidade, como um olho aberto que não enxerga, como algo que não cumpre a sua função mais fundamental.

Sou, portanto, solidária aos que sentem uma vontade genuína de ajudar porém não conseguem perceber ainda o caminho por onde agir. Aprendi que passamos por preparações necessárias, e que a vida nos chamará no momento exato, se assim tiver que ser. Basta que a mente não esteja estagnada, basta que o coração deseje ardentemente o bem e que as mãos estejam prontas para chegar ao outro: basta olhar um pouco ao redor e sentir as feridas do mundo.

Braços estendidos para o bem

Nosso mundo está doente, caótico e carente de mãos, braços e corações generosos.

Precisam de nós os animais: esses seres sencientes que cumprem muitas vezes o papel de grandes mestres, e que ao mesmo tempo são tão sofridos, torturados e esquecidos por nossa sociedade consumista e gananciosa.

Neste caso, o vegetarianismo é quando despertamos verdadeiramente para a existência desses seres diferentes de nós e amadurecemos a consciência para o respeito aos animais não humanos. Ser vegetariano, no entanto, não é nenhuma boa ação, mas sim o mínimo de respeito que devemos demonstrar e praticar pelos animais. A boa ação é uma contribuição que fazemos continuamente para além do que somos.

A terra , as plantas e os habitats, devastados pela fome do homem em busca de dinheiro, precisam do nosso cuidado, do nosso gesto amoroso. A árvore não quer ser dilacerada, ela não quer ficar aleijada para dar caminho ao fio elétrico.

As mulheres, as crianças, os homossexuais, os doentes, os deficientes, os idosos e todas as criaturas no mundo que são vítimas da ignorância,  do preconceito e da truculência injustificável dos seres humanos aguardam alguma forma de apoio.

Esta vida não é um amontoado de coisas sem sentido. Se nós somos dotados de recursos e capacidades, não é à toa. Tudo tem valor, quando utilizado para o bem. De que adianta a inteligência se servir à vaidade? De que adianta a habilidade pacífica se servir à indolência? De que adianta a tecnologia se não servir à paz?

A nossa responsabilidade (ou a medida pela qual devemos responder por nossos atos) é diretamente proporcional aos nossos conhecimentos. Se sabemos que alguém precisa de ajuda e não estendemos o braço; se sabemos da condição deplorável do mundo, e não ajudamos a plantar uma semente sequer de paz no coração das pessoas, então perguntemo-nos o que fazemos aqui.

A hora para agir é a cada oportunidade que a vida nos dá. O nosso tempo é fruto de um processo de amadurecimento que só a própria vida nos dirá. Fique atento aos chamados que ela emite a você.

Podemos fazer qualquer coisa. Basta querermos, e a força vem. Passamos, então, quase magicamente, a saber o “como”.

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Cotidiano Vegano

Humanização dos animais ou convivência pacífica?

Respeitar todos os seres, não tendendo para nenhuma beirada ou exagero: é o que parece fácil e óbvio, e que comumente encontramos nos discursos das bocas que defendem os direitos animais, mas o que eu tenho observado é quase sempre um dos extremos: ou a pessoa cuida demais ou cuida de menos.

Sujeito de afeto
 
Primeiro de tudo, o animal não pode ser considerado um objeto de afeto, porque ele é um ser vivo, portanto deve ser tratado como um sujeito que dá e recebe afeto. Do seu jeito, na sua linguagem, eles devem ser sempre sujeitos, jamais objetos.
 
O animal não pode ser um lugar onde depositamos ou ensaiamos cuidados. É um ser vivo, é de verdade, ele responde e isso deve ser levado em conta para que seus instintos sejam educados, para que ele, como nós, caminhe também para uma natureza cada vez mais inteligente e pacífica. Eles não são bichinhos de pelúcia que exibimos para as pessoas.
 
Educar
 
Educar é dar ao animal as condições mais naturais possíveis para o seu desenvolvimento, como é dar para a planta o sol, a rega e tudo de que ela precisa para crescer saudável. É também ensinar-lhe uma certa autonomia, fazer com que ele entenda que sempre terá o nosso afeto e que as eventuais repreensões são para o bem dele e da família toda que o acolheu.
 
Se, por exemplo, não sabemos dizer “não” quando o animal nos pede comida a toda hora, um sim nunca será suficiente: ele não saberá apreciar uma coisa, porque já estará pensando na outra. E terá razão em nos cobrar, porque prometemos e assim o acostumamos. A culpa de um animal ser mimado e exigir que sejam atendidas as suas vontades é todinha de quem o educou.
 
O mais próximo de uma vida natural
 
É claro que, vivendo num ambiente urbano, longe dos largos espaços verdes, morando em prédios sobre calçadas, não podemos afirmar que os animais domésticos levam uma vida natural, pois não estão soltos nem colhem o seu próprio alimento. A liberdade deles fica limitada aos espaços da casa ou do apartamento, às janelas e aos eventuais passeios pelos parques da cidade. Do contrário, se ficassem totalmente soltos, facilmente seriam engolidos pela caótica cidade.
 
Mas dentro dessa “condição urbana” podemos proporcionar uma boa vida para os animais com que convivemos, dando-lHes um lar com boas condições de higiene, uma alimentação equilibrada, carinho, atenção e eventuais cuidados veterinários. Mas tudo na medida do saudável.
 
Equilíbrio na convivência
 
Existem, entre outras, duas dinâmicas possivelmente presentes na convivência homem-animal.
 
O primeiro aspecto é a oportunidade de troca: estabelece-se uma reciprocidade que alimenta ambos os lados e que faz com que aprendam mutuamente e evoluam juntos, homens e animais.
 
Podemos protegê-los, quem sabe até ensinar-lhes alguns valores que a nossa inteligência e sensibilidade alcançam, e ainda compartilhar com eles algumas verdades espirituais – e, em troca, eles nos ensinam sobre o afeto incondicional, a lealdade, entre outros valores com que os animais, com sua simplicidade, já nascem prontos.
 
O outro aspecto da convivência é a perigosa negação da natureza do animal, ou seja, tratar o animal como algo que ele não é (talvez não ainda): uma pessoa.
 
Sermos diferentes é justamente o que torna muito construtiva a nossa convivência, mas existem distâncias que não devem ser forçadas a desaparecer.
 
Para educar um animal e aprender com ele, não precisamos fazer com que ele se esqueça de que é um animal. Ele é tão divino como nós, nem mais nem menos, embora a humanidade esteja tão carecida de bons exemplos humanos… E certamente nossos pontos de encontro não se situam em um lugar artificial, onde não possamos viver nossa natureza, ou seja, o que viemos para ser.
 
Respeitar um animal é não negar sua natureza, é não tomar dele seus direitos fundamentais e é também ajudá-lo em seu caminho de evolução, de crescimento, de tornar-se mais compassivo e desenvolver inteligências.
 
Evolução
 
Humanizar significa comunicar aos animais que o valor deles existe na medida em que se tornam parecidos conosco, seres humanos.
 
No entanto, se a evolução consiste em sermos melhores, e o mais importante princípio disso é aprender a respeitar todos os seres, então os animais também evoluem na medida em que são educados nessa direção, ou seja: na medida em que aprendem a respeitar e na medida em que são respeitados.
 
Assim como não podemos admitir qualquer forma de exploração animal, o comportamento de um animal que discrimina um outro animal também não pode ser estimulado. A agressividade em direção a outros animais não pode ser estimulada. As vontades impositivas não podem ser encorajadas e alimentadas. Os instintos existem nos animais, assim como ainda existem em nós, mas o que prevalece, e com o tempo se fortalece, é o que encorajamos neles – e isso talvez seja o grande presente que podemos dar para eles com nossa convivência.
 
Na mesma incoerência em que caem os protetores de animais carnívoros caem também os defensores de animais ou quaisquer pessoas que criam seus animais e os tratam melhor do que a qualquer membro da família.
 
Os animais querem respeito, querem que sejamos bons com eles, mas sem grandes estragos. Dedicar a um animal “cuidados” exagerados é causar um desequilíbrio – o que não é bom nem para eles, nem para ninguém.

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