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Entrevista com Juliana Gomes, do blog Comida Saudável pra Todos

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Fazendo jus à minha fome sem fim, a maioria dos perfis que sigo nas redes sociais tem comida vegana envolvida. Tem perfil de restaurante, de chefs, de cozinheiros dominicais e, claro, de muito blogueiro espalhado pelo mundo que promove as maravilhas possíveis da cozinha vegana. Entre esse mundaréu de hashtag e de fotos apetitosas, até hoje só vi uma única blogueira dar atenção a um detalhe importante da alimentação vegana: o preço total de um prato.

Autora do blog Comida Saudável pra Todos, a catarinense Juliana Gomes, 30 anos, mostra com posts bem divertidos e sensatos que comida saudável vegana não é necessariamente cara. Dá pra fazer muita coisa gostosa e nutritiva sem ter que deixar o salário todo no mercado.

“No blog só entram receitas que custam até R$ 10. E eu como basicamente as coisas que estão no blog. Quando como fora, ao menos uma vez por semana, aí gasto até uns R$ 25. Mais que isso já acho caríssimo”, me disse Juliana pelo Whatsapp, já que ela mora em Florianópolis e eu estou em Milão (viva a tecnologia!).

O preço da comida, porém, é só uma das preocupações da moça, que divide seu tempo entre o blog, a vida de repórter de gastronomia, o marido e dois gatos. Nessa entrevista, ela me disse coisas muito interessantes pra gente pensar a respeito. Vai lendo…

Samira: É caro ser vegano?

Juliana: Pensei por anos que era caríssimo. Via as musas veganas do Instagram comerem risoto de arroz negro com creme de castanha e achava que esse era o veganismo. Não é só isso. Não precisa de óleo de coco, ricota de macadâmia, levedura nutricional. Comida vegana saudável é baseada em cereais, sementes, grãos, legumes, verduras e frutas. Exatamente como já é a tradicional comida brasileira.

Dá pra fazer um creme de batata para rechear tortas apenas com o tubérculo, água e temperos, por exemplo. O feijão fradinho pode virar patê, salada, bolinho, hambúrguer, acarajé… E custa R$ 6/kg.

No blog, eu já fiz um menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa com R$ 10. Mas é claro que essa alimentação precisa ser o mais natural possível, com ingredientes locais. Se for depender dos industrializados veganos, vai sair muito caro.

S: E comer saudável no Brasil, é caro?

J: Não. O problema é que um pacote de miojo custa menos que um prato de feijão. Então muita gente simples, nas periferias e no interior do Brasil, está substituindo a base da nossa alimentação pelos industrializados. Isso é muito grave. E é uma luta que todos nós, vegetarianos, veganos e onívoros precisamos abraçar juntos.

A gente precisa defender a agricultura familiar, pois são esses pequenos produtores que cultivam alimentos saudáveis pro nosso corpo, pros trabalhadores, para o meu ambiente. Mas eles não ganham nenhum tipo de incentivo dos governos, muito pelo contrário, enquanto os grandes latifúndios elegem representantes no Congresso.

A nossa base alimentar, feijão, arroz, farinha de mandioca, frutas e verduras, é muito barata, mas poderia ser ainda mais. E poderia estar ao alcance de todos. É revoltante ver a quantidade de bairros e localidades que não têm nenhuma feira ou hortifrúti por perto. Mas os revendedores da Nestlé com saquinhos de leite em pó, misturado com um monte de coisa pra ficar mais barato, chega nesses lugares.

S: Comida saudável e comida vegana são sinônimos?

J: Não. Conheço muita gente que larga a carne, passa a se entupir de batata frita, fica doente e acaba voltando à vida de picanha. Veganismo não significa comida saudável. Mas o contrário sim. Depois de muita pesquisa, cheguei à conclusão de que uma alimentação precisa seguir 4 quesitos para ser considerada saudável.

O primeiro critério é ser o mais natural possível, sem excessos de óleos, gorduras e açúcar. O segundo, é que essa comida precisa ser saudável também pro meu ambiente. Não faz sentido se gerar muito lixo, precisar de muita água pra ser preparada, causar um grande desequilíbrio na natureza. Esse é o principal ponto que faz os ingredientes de origem animal serem excluídos. Comida sustentável, em grande escala, só é possível se for vegana. 

Outra questão é a saúde dos trabalhadores. Os abatedouros de frangos e porcos são denunciados, há anos, por submeter seus profissionais a condições de trabalho análogas à escravidão. Essas empresas estão cheias de haitianos, que foram trazidos do Acre para trabalhar na indústria da carne, justamente porque os brasileiros não aguentam mais.

E, por último, a comida precisa ser saudável pro nosso bolso. Não pode ser exclusividade de um pequeno grupo de pessoas. Ela tem que ser acessível, fácil de encontrar, barata. Ou não faz sentido. E a comida vegana é tudo isso.

S: Quais são as dicas fundamentais pra se alimentar bem sem gastar muito?

J: É preciso planejar as compras. Esse é o principal. Eleja uma feira para chamar de sua, uma loja de produtos naturais (tem várias na internet, inclusive) e compre óleos e azeite nos supermercados atacadistas.

Uma prateleira com temperos é fundamental pra comida não ter gosto de hospital. Açafrão, orégano, pimentas, cominho em pó, louro, páprica, são super baratos e combinam com quase todos os vegetais. Quem tiver uma janela que bate sol ou um jardim em casa, pode plantar vasos com ervas, como cebolinha, salsinha, manjericão, hortelã. Já é um gasto a menos e muito mais sabor na comida.

Aí é só adaptar os ingredientes preferidos de cada um e a forma de preparo que mais combina com o seu dia a dia. Na dúvida, vá no básico. Refogados com alho e cebola, arroz com legumes, feijões e lentilhas cozidos com louro, pães integrais caseiros, panqueca de aveia. De lanche, o amendoim torrado, sem conservantes, é uma ótima opção barata e saudável que pode ser levada na bolsa e suporta bem qualquer temperatura. No blog tem várias dicas mais específicas.

S: Conta alguma coisa (qualquer coisa) importante que você descobriu a respeito da alimentação saudável depois de ter começado o blog.

J: Nossa! Muita coisa. O que mais tenho descoberto é que a importância de se ter uma relação saudável com o ato de comer e que precisamos sair da mesa sem culpa.

Por muitos anos eu mesma só pensava em nutrientes. Sempre fui a louca das dietas e vivia demonizando os carboidratos, preocupada demais com a proteína, percentual de zinco. Não conseguia olhar para um prato e enxergar apenas comida.

Desde que comecei o blog, tenho pesquisado mais sobre o que está por trás de cada ingrediente, a lógica de cada receita tradicional. A mandioca, por exemplo, é muito mais do que uma ótima fonte de carboidrato e energia. Ela é o nosso ingrediente mais democrático, mais versátil. Ela é consumida o ano todo do Norte ao Sul do Brasil. Aqui em Floripa as pessoas misturavam café passado com farinha de mandioca e comiam isso de manhã quando não tinham dinheiro pra comprar pão. É importante voltarmos a enxergar a comida como cultura, como parte da nossa história.

S: Na sua opinião, por que as pessoas não comem de maneira saudável?

J: Comer bem e cozinhar são sinônimos. É impossível ser saudável se alimentando em buffets a quilo, delivery e com pacotes de coisas. Mas o nosso estilo de vida caótico tirou as pessoas da cozinha. E os industrializados, de alguma forma, libertaram muitas mulheres que eram escravas do fogão.

Imagine uma senhora que trabalhou 8h, depois passou 4h do dia dela no transporte público. Como vou dizer pra ela chegar em casa e preparar uma torta de legumes, coisa que demora uns 40 minutos, se ela pode jogar um miojo na água e comer em menos de 5 minutos? Muita coisa precisa mudar no nosso estilo de vida. Os homens precisam dividir as tarefas domésticas, repartir a responsabilidade das compras, do preparo das receitas e da limpeza da casa.

Outro ponto que justifica o quanto comemos mal é a falta de informação sobre a indústria da carne, laticínios e os industrializados no geral. Quanta gente compra um pacote de biscoito sem glúten achando que é a coisa mais saudável do mundo? O poder da indústria é muito grande. As grandes marcas de laticínios patrocinam congressos de Nutrição e Pediatria. Isso faz com que haja pouca informação científica sobre os malefícios do leite de vaca.

E tem as questões culturais, né? No interior, principalmente, o consumo de carne vermelha é associado à virilidade, força. Homem que viver a base de berinjela vai ser muito zoado. É difícil. E, é claro, também tem muita gente que precisa deixar a preguiça de lado e sair da sua zona de conforto. Mas eu sou super otimista e acho que estamos avançando muito.

S: Quando exatamente o blog teve início?

J: Quando minha renda era maior e eu trabalhava com carteira assinada, até torrava uma parte do meu dinheiro com óleo de coco e castanhas. Mas fiquei desempregada em 2016 e hoje trabalho como autônoma, freelance. Com isso, precisei cortar radicalmente meus gastos. Saíram as amêndoas e ficaram só o amendoim e a semente de girassol na minha lista de compras.

E, de qualquer forma, a questão social sempre foi muito importante pra mim. Eu questiono muito os meus privilégios como mulher branca de classe média. Soube de um evento que estavam organizando em Floripa para o Dia Internacional da Mulher em março de 2017. A ideia era oferecer serviços para mulheres de uma favela da cidade, como massagens, aula de dança, corte de cabelo. Eu queria oferecer alguma coisa, mas não sei fazer muita coisa. Resolvi me inscrever oferecendo uma oficina de comida vegetariana saudável só com receitas que custassem até R$ 5. E foi um enorme sucesso. Todo mundo cozinhou comigo, as senhoras ficaram empolgadíssimas ao provar tofu pela primeira vez, hambúrguer de berinjela, brigadeiro de aveia, guacamole. E elas pediram muito para que eu criasse um blog com mais receitas desse tipo, porque nunca tinha ouvido falar em algo parecido.

Mas eu sou completamente amadora. Preciso testar, ler bastante, tirar dúvidas com a minha mãe. Cozinhar não é algo super natural pra mim tô indo bem aos poucos.

S: Como é ser repórter de gastronomia sendo vegetariana quase vegana?

J: É estranho pras pessoas e pra mim. Escrevo sobre cortes de carnes nobres, peixes da estação, doces franceses cheios de manteiga. Faço muita matéria pelo telefone, mas algumas exigem que vá até um restaurante, bar ou confeitaria E, em geral, os entrevistados oferecem suas iguarias para eu provar.

No começo, eu já avisava logo de cara que era vegetariana, mas ouvi demais que não podia seguir nesse trabalho tendo essa restrição. Então eu alterno. Às vezes digo que é uma questão religiosa ou alergia (risos). E esses dois quesitos ninguém questiona. O problema é que quero largar os laticínios, mas é o que sobra pra comer nessas entrevistas.

Quando recuso a picanha ou o camarão, os chefs trazem pratos elaboradíssimos a base de queijo e creme de leite e eu acabo comendo por educação. A parte boa é que aprendo muito e vou tentando adaptar na minha cozinha. O que eles contam que fazem com carne seca, eu tento replicar em casa com abobrinha (risos).

S: E quais são os projetos para o futuro?

J: Quero tornar o Comida Saudável pra Todos um projeto, mas vou fazer cada coisa de uma vez, sem afobamento. Quero começar a dar workshops ainda em 2018 sobre como cozinhar sem receitas, da forma mais simples, barata, prática e saudável possível. A ideia é incentivar as pessoas a criar pratos próprios, que façam sentido no seu dia a dia. Pensar em como organizar a compra de itens básicos, entender a função de cada ingrediente numa receita.

Também penso em fazer parcerias com instituições, escolas e associações de moradores e desafiar chefs locais a prepararam pratos acessíveis, com o uso integral dos alimentos. Escrever um livro também está nos meus planos. Mas ainda não tem nada certo. A repercussão do blog está mais rápida do que eu imaginava. Teve um dia que contei 213 mensagens no Instagram pra responder. Fiquei super assustada. Então a ideia é ir com bastante calma pra fazer bem feito.

 

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20 coisas para saber sobre as vacas

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Adotar a alimentação vegana ou se manter firme nela, sem nenhuma “escorregada”, pode ser difícil, porque no meio do caminho tem uma pedra chamada laticínios. É o tal do leitinho, do queijo assim ou assado. Queijo é tão bom que a veganada pira naquelas marcas que conseguem imitar com mais ou menos perfeição o sabor e a textura dos queijos animais.

Mas, é aquela coisa, né? Esses produtos são caros e nem é tão bom assim ficar comendo isso todo dia, porque podem ter corantes e outros -antes dos quais o corpo vive muito bem sem, obrigado. O jeito então é renunciar aos laticínios e viver em paz com isso, enquanto encosta a barriga na pia da cozinha para preparar pastinhas caseiras de castanhas que substituem os queijos.

The Secret Life of CowsSe essa renúncia é um problema para você, sugiro o consumo de cultura: cinema, documentários e livros. Não necessariamente sobre veganismo, mas sobre a vida como ela é dos animais. Essa semana, por exemplo, terminei de ler o The Secret Life of Cows (A vida secreta das vacas, sem tradução para o português, infelizmente) e foi ótimo para reforçar minha convicção de que o veganismo é o o caminho mais acertado que uma pessoa pode fazer, mesmo com as muitas pedras pela frente.

Escrito por Rosamund Young, que, junto com o irmão Richard, administra a antiga fazenda da família, chamada Kite’s Nest e localizada em North Cotsworlds (Inglaterra), o livro foi publicado pela primeira vez em 2003 e é um relato simples e adorável do dia a dia na fazenda, sempre com foco no comportamento espontâneo dos animais.

Rosamund e o irmão aparentemente não são veganos, mas têm uma relação muito próxima com as vacas, os bezerros, as ovelhas, as galinhas e os porcos que vivem com eles. Tão próxima que o livro traz até uma árvore genealógica das vacas que nasceram e procriaram na Kite’s Nest, com direito a nome e sobrenome. Mais do que literalmente dar nome aos bois, Rosamund aprendeu, após anos de observação e “conversa”, a entender o mundo das vacas. Com essa experiência nas costas, a fazendeira escritora diz com convicção que:

As vacas são indivíduos, assim como são as ovelhas, os porcos e as galinhas, e, ousarei dizer, todas as criaturas do planeta, embora transcuradas, pouco estudadas ou ignoradas. Claro, poucos colocariam essa afirmação em dúvida quando se fala de gatos, cachorros e cavalos. Mas nós, toda vez que tivemos a ocasião de tratar os animais da nossa fazenda como se fossem animais domésticos – porque estavam doentes, sofreram um incidente ou estavam de luto – sempre encontramos na nossa frente grande inteligência, capacidade afetiva e a habilidade de se adaptar a uma mudança de hábitos, se bem momentânea.

Rosamund Young e uma das vacas que moram em sua fazenda Kite’s Nest, na Inglaterra

Graças a uma vida passada junto a esses animais incríveis, Rosamund revela 20 características das quais pouca gente tem ideia a respeito das vacas.

1. As vacas se querem bem… pelo menos algumas.
2. As vacas cuidam dos filhos uma das outras.
3. As vacas criam rancor.
4. As vacas inventam jogos.
5. As vacas se ofendem.
6. As vacas sabem se comunicar com as pessoas.
7. As vacas sabem resolver problemas.
8. As vacas têm amizades que duram uma vida.
9. As vacas têm preferências em relação à comida.
10. As vacas podem ser imprevisíveis.
11. As vacas podem ser uma boa companhia.
12. As vacas podem ser chatas.
13. As vacas podem ser inteligentes.
14. As vacas amam a música.
15. As vacas sabem ser gentis.
16. As vacas podem ser agressivas.
17. As vacas sabem como ser confiáveis.
18. As vacas podem ser obstinadas.
19. As vacas sabem ser sábias.
20. As vacas sabem perdoar.

Tomara.

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Família realiza ação em abrigo para homenagear cadela falecida

Foto: Reprodução

Uma atitude digna de cena de filme foi feita por uma família na Virgínia, Estados Unidos, em homenagem à sua falecida cadela Marley. A família resolveu ajudar um abrigo canino local distribuindo cestas com bolas de tênis (brinquedinho favorito de Marley) para os cãezinhos do abrigo brincarem.

Junto com o presente, estava uma foto de Marley e a descrição dos anos em que ela viveu (2004 a 2017). Além da foto e da descrição, também tinha uma mensagem: “Fique à vontade para pegar uma bola e brincar com seu cachorro. Você pode ficar com ela ou devolvê-la à cesta para que outro cão aproveite. Aprecie esse momento com seu cachorro e o tempo de brincadeira juntos em memória da nossa querida Marley”.

A equipe do abrigo está usando o presente de Marley para ajudar os cães que esperam por adoção.

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Os senhores da comida e suas fábricas de porcos

Foto: Robin Utrecht/AFP
Foto: Robin Utrecht/AFP

Frequentemente digo que não me importo em ver uma pessoa comendo carne na minha frente, mas só faço isso para evitar constrangimentos à mesa.

Como adoro o veganismo tanto quanto uma boa conversa e, na grande da maioria das vezes, estou circundada de onívoros, prefiro engolir tomates a ter que incorporar a Dona Chata do Contra ou o Seu Estraga Prazer da Silva. Por mais que minha opção alimentar seja louvável, ninguém quer ser criticado pelo bifão.

Uma boa tática é não olhar em direção à pessoa ou ao seu prato enquanto ela se lambuza com qualquer carne – do bife ao coração de galinha e a todos os pedaços no meio disso aí. Ainda que eu finja indiferença, é difícil não pensar no que aconteceu até aquela carne chegar à mesa.

É verdade que, com exceção de algumas crianças desorientadas, ninguém é totalmente ingênuo a ponto de achar que a “carninha” vem da geladeira do supermercado. Todo mundo sabe o que acontece com bois, vacas, galinhas e porcos, mas, como eu (ainda) tenho fé na humanidade, prefiro pensar que o que falta pra esse pessoal do Ocidente começar a reduzir o consumo de carne é informação independente.

Não é possível que somente um grupo pequeno de pessoas se sinta profundamente indignado com aindústria da carne a ponto de deixar de financiar esse mercado de horrores.

Uma boa fonte de informações cruas e de peso são os vídeos com imagens do funcionamento dos abatedouros, que, pessoalmente, me deixam nauseada. Ou então os livros.

Esse fim de semana comprei um, recém-lançado na Itália, chamado Os senhores da comida – Viagem na indústria alimentar que está destruindo o planeta (I signori del cibo, sem tradução para o português). Bastaram poucas páginas para que eu me indignasse (de novo) com os bastidores da produção de carne. 

Muito pragmático na sua narrativa, o jornalista investigativo Stefano Liberti detalha a fileira de produção de quatro produtos: a carne de porco, a soja, o atum de lata e o tomate concentrado. Em uma passagem, o escritor, que não é vegetariano, descreve a morte de porcos dentro de um abatedouro industrial:  

O animal é primeiro aturdido mediante gás ou uma descarga elétrica, depois, recebe um corte na altura da jugular e então é imerso em um tanque de água fervente, para limpar o sangue. O corpo sem vida é esfolado, ulteriormente lavado e colocado em uma máquina especial. A cabeça é definitivamente cortada e o grande corpo, pendurado em um gancho que o manda para a fase sucessiva (onde todas as partes do seu corpo serão separadas).

Essas passagens são padronizadas, realizadas por homens que repetem gestos sempre iguais: um atordoa o animal, o outro corta a jugular, outro aciona a correia transportadora que mergulha o animal na água fervente. Mas o momento da morte não consegue ser asséptico: frequentemente o animal se agita e se revolta contra seu destino – às vezes, ele não é suficientemente atordoado pelo gás ou não morre com o corte na jugular e grita de dor quando é cozido vivo no grande tanque. Não é permitido assistir a essas cenas. O futuro consumidor não deve ver, porque ele não deve associar aquilo que tem no prato com a dor de um animal senciente.

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Alimentação vegetariana é possível e saudável para crianças

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N​o começo deste mês, foi notícia nos jornais italianos a história de uma criança de 1 ano que pesava como um bebê de 3 meses porque, segundos as manchetes, “os pais impuseram ao filho uma dieta vegana rígida” – do que seria composta essa dieta rígida nenhum jornalista explicou. Depois de receber cuidados e passar por uma cirurgia, devido a um problema congênito no coração, a criança, que vive aqui em Milão, está bem e seguirá para adoção, pois os pais perderam sua guarda.

Tudo nesta notícia me deixa triste: a desnutrição da criança, a falta de bom senso dos pais e, principalmente, a manipulação dos jornalistas. Sim, é verdade que a criança estava desnutrida e que isso é gravíssimo. Porém, a culpada nessa história é a ignorância deste casal – não o veganismo, como as manchetes em má-fé deixaram subentendido.

Tão curioso quanto esse apego da grande mídia em condenar o veganismo sempre que os editores veem uma brecha, é o fato de poucos canais de notícias destacarem com títulão a obesidade infantil. Esse sim um problema real em forte crescimento – a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica diz que 1 a cada 3 crianças de 5 a 9 anos no Brasil está com excesso de peso. É muita coisa!

Leio essa decisão editorial da seguinte maneira: já é normal a criança ser obesa, ter diabetes e colesterol alto porque está sedentária na frente do videogame, comendo açúcar, carboidrato e proteína animal além da conta. Mas uma criança ser vegetariana, mesmo que seu crescimento e peso estejam normais… Ai ai ai. Aí não pode, não dá, é injusto, não é normal, com certeza a criança ficará doente, os pais são fanáticos etc etc.

É verdade que não tenho filho, mas sei que o vegetarianismo infantil é saudável porque tenho um exemplo em família. Meu sobrinho, João Pedro, que completa 6 anos esse mês, é vegetariano desde a gestação. Foram poucas as vezes que ouvi Bia, minha irmã, dizer que ele estava doente ou meio jururu. João é forte, seu crescimento está dentro do esperado, ele tem bastante energia e, principalmente, uma mãe que se preocupa bastante com sua alimentação e sua saúde.

Mas não tem jeito. Alimentação vegetariana para crianças é um tema que sempre vai gerar polêmica. Foi por isso que resolvi confirmar com a pediatra Dra. Laura Ohana, do Rio de Janeiro, se o que vejo em João Pedro é possível para outras crianças.

Samira Menezes: A alimentação vegetariana é saudável para crianças?

Dra. Laura Ohana: A alimentação vegetariana balanceada na infância não somente é possível, como também pode trazer alguns benefícios à saúde porque reduzem o risco de algumas doenças da vida adulta que costumam ter início na infância, como obesidade e diabetes.

Crianças veganas têm uma ingestão menor de gordura total, gordura saturada e colesterol do que crianças onívoras, além de um maior consumo de frutas, vegetais e grãos integrais.

Com escolhas alimentares corretas, crianças vegetarianas apresentam crescimento e desenvolvimento adequados. Aliás, o vegetarianismo é colocado como opção alimentar na infância por sociedades internacionais importantes, como Academia Americana de Pediatria, Sociedade Pediátrica Canadense e Academia de Nutrição e Dietética. 

Samira Menezes: A quais nutrientes os pais de crianças vegetarianas devem ficar atentos?

L.O.: Toda vez em que retiramos alguns alimentos habituais da dieta, devemos atentar para a ingestão adequada de alguns nutrientes.

Um ponto principal é observar se as calorias necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança estão sendo ofertados.

Frequentemente, crianças se sentem facilmente saciadas, o que faz com que nem todas as porções oferecidas sejam aceitas conforme o planejamento inicial. Assim, os pais devem atentar para a oferta de alimentos com boa densidade calórica é importante, de forma que na alimentação da criança vegetariana, todos os grupos alimentares estejam presentes.

Também é importante incluir fontes de ferro, zinco e gorduras essenciais, como ômega-3. Uma forma segura de garantir o ômega-3 é acrescentar linhaça ou chia ou mesmo os seus óleos prensados a frio à dieta da criança.

Samira Menezes: Onde os pais encontram ferro e zinco?

L.O.:O ferro e o zinco estão presente principalmente em feijões, vegetais verde escuros, cereais integrais e castanhas, porém, a sua baixa biodisponibilidade faz com que sejam necessários alguns cuidados para ajudar na melhor absorção desses nutrientes. Como, por exemplo:

  • Deixar os feijões de molho de um dia para o outro, e desprezar esta água antes do cozimento, ajuda na redução do ácido fítico que é um fator que atrapalha a absorção do ferro.
  • Incluir alimentos rico em vitamina C, como frutas, ajuda na melhora da absorção do ferro.
  • Evitar consumo de leites ou outros alimentos ricos em cálcio junto ao almoço ou jantar também viabiliza maior eficácia do ferro ingerido.

Além disso, é importante ressaltar que toda criança até os 2 anos de idade, sendo onívoros ou vegetarianos, deve suplementar ferro prescrito pelo pediatra, sendo essa uma recomendação oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Samira Menezes: E a proteína?

L.O.: A ingestão de proteínas e aminoácidos em níveis adequados é facilmente atingida na alimentação de crianças vegetarianas. As proteínas podem ser encontradas em boas quantidades em alimentos como os feijões, grão-de-bico, lentilha, ervilha, grão de soja e seus derivados como o tofu, o leite de soja, além das castanhas.

Samira Menezes: Qual deve ser a base da alimentação da criança vegetariana?

L.O.: A base da alimentação devem ser os feijões (ricos em proteínas) e os cereais (fontes de energia).

Samira Menezes: O veganismo para crianças não levará à deficiência de cálcio?

L.O.: Não, se os pais de crianças veganas ficarem atentos à ingestão de cálcio.

Esse mineral é encontrado no leite materno, em feijões, castanhas, vegetais verde-escuros (devendo-se priorizar o consumo daqueles que são pobres em oxalato, como brócolis e couve), algumas sementes, como gergelim e chia, e em leites vegetais fortificados.

Além disso, veganas ou não, as crianças devem tomar sol diariamente para garantir uma boa produção de vitamina D.

Entretanto, devido aos baixos níveis de vitamina D na população em geral, a Sociedade Brasileira de Pediatria preconiza o uso de suplemento de vitamina D para todas as crianças a partir da 1ª semana de vida, prescrita por um profissional de saúde.

Samira Menezes: E como fazer com a vitamina B12, que só pode ser encontrada no reino animal?

L.O.: Esse nutriente pode ser adquirido de alimentos fortificados na indústria ou, de forma ainda melhor, com suplementação prescrita por profissional de saúde. Essencial no desenvolvimento do sistema nervoso, a B12 é fortemente recomendada para crianças vegetarianas

 
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Quando as tradições devem ser quebradas

Uma das poucas notícias positivas desse maio de 2016 veio da Ilha de Paquetá, no Rio: os 31 cavalos usados para passeios de charrete na ilha foram substituídos por carros elétricos. Pelo o que li no G1, os animais, que sofriam maus-tratos e viviam em péssimas condições, serão levados para uma fazenda em Guaratiba.

Apesar da boa notícia, teve gente que reclamou. “É tradição na ilha”, disseram uns. “Gera empregos”, comentaram outros.

Nada disso justifica a exploração desses cavalos. Os carros elétricos permitirão que essas pessoas continuem trabalhando e tradição nenhuma tem justificativa se ela carrega sofrimento ou segregação.

Era tradição mulher não ter direito ao voto. Ainda é tradição, em mais de 20 países africanos, circuncidar meninas. Era tradição queimar hereges na fogueira. Era costume escravizar negros (e tachar abolicionistas de loucos). Ainda é tradição dar meninas para casamentos precoces e forçados.

Tradição? Ou crime contra os direitos humanos? Mas é aquela história, né? Se ainda hoje é difícil falar de direitos humanos, imagina de direitos animais.

Quando se trata de identificar e não financiar a exploração dos bichos, muitas pessoas optam pela indiferença e pelo comodismo. É mais fácil ir junto com a corrente, acreditando que tradições vêm na frente de qualquer animal de tração, do que ser aquela pessoa do contra. Mesmo sabendo que os motivos do “contra” têm como base o respeito à vida.

Mais broxante do que isso é saber que mesmo pessoas com acesso à informação escolhem a cegueira.

Durante um passeio, uma amiga questionou por que eu queria pegar um daquelas bicicletas-táxi, se duas horas antes eu havia comentado o quanto é ultrapassado passear de charrete, puxada por cavalo. “Cavalo não pode, mas ser humano sim?”, me perguntou ela. Sim, amiga, pode, porque o ciclista do bike táxi ESCOLHE fazer esse trabalho e recebe por isso. Ninguém amarra a bunda dele na bicicleta e o chicoteia pra pedalar mais rápido.

Isso é tão óbvio para mim quanto é automático para muitos pais assinarem a autorização para aquela excursão do filho ao zoológico, junto com a escola. Costumes como esses são tão “normais” que nem nos questionamos sobre onde e como esses animais deveriam estar.

A verdade é que nenhum animal, em nenhum lugar do mundo, deve estar dentro de grades, gaiolas, tanques com água, amarrado ou sendo espancado. Se seu filho não pode ver de perto um leão, uma girafa ou um rinoceronte no seu habitat natural, um motivo tem e a gente sabe qual é.

Quer muito que seu filho conheça de perto animais selvagens? Talvez seja mais educativo mostrar à criança um vídeo do canal National Geographic ou então propor à escola um passeio aos santuários, como o Rancho dos Gnomos, na Grande São Paulo, que acolhe animais selvagens (vindos de situações de maus-tratos, como circos) e promovem ações educativas para crianças e adultos.

Por isso, pense, questione antes de se entregar à primeira atração envolvendo animais, vendida como tradição ou algo divertido. Na dúvida, lembre-se:

Passeio turístico de charrete em Nova York, Viena ou Florença?
Exploração e sofrimento dos cavalos.

Passeio de bike táxi?
Diversão. 

Tourada espanhola?
Exploração e morte gratuita de touros.

Tradição espanhola dos Castells?
Garantia de diversão, muitos “uaus” e “owwws”.
 Castells é tradição na Catalunha e consiste em fazer construções humanas semelhantes a castelos. Clique aqui para ver um breve vídeo sobre essa competição que reúne as pessoas da comunidade e exige muito trabalho de equipe. Link do vídeo.

Parque aquático americano ou aquário municipal?
Exploração e prisão de animais marinhos.

Passeio de barco para observação de baleias?
Emocionante!

Mergulho na mar para observação de peixes?
Emoção em dose dupla! 

Prender passarinho na gaiola?
Coisa de gente sem cérebro.

Observação de pássaros na natureza?
Coisa de gente inteligente. 

Circo com animais no Brasil ou na Rússia?
Exploração, prisão e muito sofrimento de elefantes, tigres, leões, macacos e ursos.

Safári na África?
Legal e caro. 

Documentários sobre animais selvagens no National Geographic?
Interessante e barato.

Zoológico em qualquer lugar do mundo?
Exploração e prisão de animais selvagens.

Visita a um santuário de animais?
O primeiro passo em direção à mudança de paradigmas.

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Gatos e gestantes podem conviver em paz

Nunca vi um animal doméstico tão estigmatizado quanto o gato. Não só ele é classificado como interesseiro e azarento por muita gente mal informada, como é protagonista de uma musiquinha infantil bem infeliz, que instiga a violência nas crianças, e pior: é acusado de transmissor de doença. Estou falando da toxoplasmose, doença que o gato pode transmitir para gestantes.

Se você é amante dos gatos, está grávida e com dúvidas, a Dra. Tatiani Camargo, especialista em felinos, do Vet Quality Centro Veterinário 24h, em São Paulo, explica mais sobre isso.

Samira Menezes: Dra.Tatiani, o que é a toxoplasmose?

Tatiani Camargo: É uma doença sistêmica causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, parasita que o gato doméstico tem como seu hospedeiro definitivo.

SM: O que ela causa?

TC: A maior parte das infecções causadas por esse problema é assintomática ou passa por uma gripe branda. Contudo, quando há um comprometimento imunológico, a doença pode se agravar para quadros mais graves, com acometimento neuro e oftalmológico. Em gestantes que contraem a infecção primária, o parasita pode atravessar a placenta e infectar o feto, ocasionando neste último graves alterações neurológicas ou até o abortamento.

SM: E os gatos com isso?

TC: Os gatos são os únicos que excretam, nas fezes, a forma contaminante do parasita.

SM: Só eles transmitem essa doença?

TC: Não, a maior parte da infecção de humanos é devido ao consumo de carne de animais infectados quando consumida pouco cozida ou em alimento que tenha sofrido contaminação de carne crua, sendo a carne suína, ovina, caprina e de aves a principal fonte de infecção.

SM: Então, é seguro para uma gestante ter gato em casa?

TC: Sim. As fezes dos gatos necessitam de aproximadamente 24-72 horas em temperatura ambiente para se tornarem infecciosas. Ou seja, a remoção diária e o descarte apropriado das fezes da caixa sanitária do gato impedirão o desenvolvimento do estágio infeccioso e a ocorrência da doença mesmo se estiverem sendo eliminados oocistos, o que pode ocorrer apenas por 3 semanas após a infecção primária do felino.

Assim, desde que haja bom senso e cuidados com higiene, a chance de infecção da mãe gestante é praticamente nula. Ainda contribui para isso o fato de o gato se limpar constantemente, impedindo que o oocisto tenha tempo de se tornar infectante. Dessa forma, é possível afirmar que é perfeitamente seguro que uma gestante possua um gato de estimação, no que tange a contaminação pelo Toxoplasma.

SM: Quais outros cuidados a gestante deve tomar?

TC: A chance de infecção é sabidamente ínfima, sendo o consumo de alimentos contaminados um fator de risco muito mais significativo. Recomenda-se, por excesso de cautela, que a gestante evite o contato com as fezes dos gatos, deixando essa tarefa para outra pessoa. Contudo, se não houver essa possibilidade, basta que ela use luvas, troque a caixa mais de uma vez por dia e lave as mãos de maneira rigorosa após a manipulação do gato ou de qualquer coisa potencialmente contaminada pelas suas fezes.

Outras formas de a gestante prevenir a doença consistem em evitar contato com o solo, por conta da possibilidade de contaminação. Luvas devem ser utilizadas para lidar com horticultura e vegetais devem ser rigorosamente lavados. Se tiver de manipular carne crua, a gestante deve ser meticulosa quanto a limpeza de suas mãos e dos utensílios e superfícies da cozinha, durante e após o preparo.

SM: E em relação ao gato, dá pra evitar que ele se contamine com a toxoplasmose?

TC: Para evitar que seu gato seja infectado pela toxoplasmose é importante que eles sejam sempre alimentados com ração comercial ou com alimentos bem cozidos. Não deve ser fornecida carne crua (independente da espécie de origem), vísceras ou ossos. Ainda, é conveniente que os gatos sejam mantidos dentro de casa, visando impedir que pratiquem caça ou revirem lixos.

Agora que a Dra. Tatiani explicou tudo sobre o assunto, deixo a versão fofa e correta da famosa musiquinha infantil para mamães e papais criarem, desde cedo, crianças mais amorosas com os animais.

Veja abaixo o vídeo do Não atirei o pau no gato:

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Boa Notícia, Colunistas

Empatia: estilo que nunca sai de moda

Detesto rivalidades gastronômicas do tipo “eu não como carne, portanto sou melhor do que você, seu comedor de cadáveres” ou “eu como carne, portanto não sou esquisito como você, seu comedor de alface”. Do meu ponto de vista, não é correto comer produtos de origem animal, mas também acho feio sair por aí brigando com pessoas que não seguem a minha filosofia de vida. Por mais que eu demonstre minha aversão a esse tipo de coisa, vira e mexe aparece alguém disposto a engatar uma discussão sobre o assunto.

A última delas começou com uma pessoa que soltou o clichê “tanta gente sofrendo e você vai proteger animal?”. Fiz de conta que essa pergunta (provocação?) é nova e me dispus a dar uma explicação. Sim, pessoa, vou proteger animal porque 1-uma coisa não exclui a outra, ou seja, eu posso ajudar animais humanos e não-humanos ao mesmo tempo; e 2-se eu for esperar pela paz mundial entre as pessoas para só então começar a pensar no sofrimento dos animais, nunca vou fazer nada por eles.

A questão que essa pessoa e, talvez, muitos vegetarianos perdem não é quem recebe ou não ajuda, mas sim de que maneira o nosso consumo afeta a sociedade. E aqui sim eu peco, se era de um pecado que estávamos à procura.

Ok, sou vegetariana, o que significa que deixei de financiar as mais poluidoras das indústrias – as das carnes, ovos e laticínios, que, segundo o Departamento de Agricultura das Nações Unidas (FAO), poluem mais o meio ambiente do que todos os meios de transporte juntos. Por outro lado, comprei algumas das minhas roupas em redes de magazine como Zara, Pinkie e H&M, que não causam a destruição que a pecuária tem causado na Amazônia, mas exploram muita mão-de-obra ao redor do mundo.

Tenho uma ideia do que acontece com quem confecciona roupa para essas lojas, porque li a respeito. Mas, ainda assim, muitas vezes escolho comprar nessas lojas porque o preço é conveniente, como a calça jeans feita no Marrocos, pela qual paguei 19 Euros, e a camiseta confeccionada em Bangladesh vendida por 4 Euros, em Milão. Outras vezes compro em brechó, onde encontro peças bonitas e exclusivas, ou até mesmo na feira de rua, onde já comprei camisa de linho, pijama de flanela, echarpes, bolsa, colar e por aí vai. Olá, consumismo desenfreado.

O fato de eu ter roupa confeccionada a partir da exploração de algum trabalhador asiático, latino ou árabe, ficou martelando ainda mais na minha cabeça depois que vi, no Youtube, o volume 1 de Human, um emocionante documentário dirigido pelo francês Yann Arthus-Bertrand.

Com legenda em português, o filme traz diversos depoimentos de mulheres, homens, adolescentes, ladrões, assassinos, trabalhadores, artistas e personalidades de diferentes nacionalidades. Cada uma dessas pessoas fala um pouco sobre um tema diferente, como amor, família, trabalho, pobreza, guerra, perdão, homossexualidade, vida após a morte, entre outros.

Além das narrativas, o interessante desse documentário é que mesmo sem trilha sonora, que normalmente ajuda a dar aquela dramatizada básica numa cena, foi impossível segurar as lágrimas durante o filme. Em alguns casos, bastou eu prestar atenção no olhar de algumas dessas pessoas para me emocionar.

Como o depoimento de um trabalhador de Bangladesh que diz: “Sou um operário bengali da indústria têxtil. Me revolto quando um comprador vem visitar o proprietário da fábrica ou a equipe de marketing para negociar o preço de um pedido. Quando outros países baixam os preços, nosso comprador escolhe o mais barato. Ele deveria pensar: ‘Se Bangladesh me fornece roupas de qualidade, por que não pagar um preço justo?’. Mas sempre fomos desprezados. Por todo o mundo. Não por uma pessoa específica. É o consumidor final quem me rouba. E o que eu posso fazer? Como podemos ficar felizes? Como!?”

Ou como o relado da trabalhadora chinesa, que tem os olhos cheios de lágrimas enquanto conta que “muita coisa é proibida na fábrica: é proibido falar, é proibido atender o telefone. Para ir ao banheiro, temos de pedir autorização ao gerente. E é uma pessoa de cada vez. Em relação à produtividade, eles exigem muito. Temos uma cota horária que eles verificam. Se não atingimos a cota, reclamam e muitas vezes nos insultam. É insuportável. A pressão é constante. Estou exausta. Não aguento mais, mas não tenho outra escolha”.

Ao contrário dessa moça chinesa, que me comoveu pra caramba, eu tenho escolha. Posso escolher não financiar mais esse tipo de exploração e comprar roupas e acessórios de pequenas empresas ou de artesãos locais. Ontem, pesquisando no Instagram as hashtags #modasustentavel e #modasostenibile (em italiano), encontrei diversas marcas e propostas para resolver minha angústia em relação à maneira como esses trabalhadores são tratados.

Se agora você está se perguntando o que essas pessoas fariam sem esse trabalho, te digo que me perguntei a mesma coisa e não cheguei a conclusão nenhuma. Mas fiquei pensando: vale a pena trabalhar nessas condições? Se existe lei de demanda e oferta, por que a demanda não pode ser por produtos socialmente justos e responsáveis? Pegue o exemplo de grandes redes de fast food, como o McDonalds, que está revendo seu cardápio depois de perder um grande número de clientes para lanchonetes com opções de lanches mais saudáveis.

Como consumidor, a gente só precisa escolher pra que tipo de empresa vamos dar o nosso dinheiro porque a lei do mercado é simples: quando tem muita gente querendo uma coisa, os empresários vão dar um jeito de atender ao pedido.

Se você se interessou por Human e quer assisti-lo ou revê-lo com legenda em português, veja abaixo:

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Boa Notícia, Colunistas

A ursa Danizia e a nossa guerra contra a natureza

É verdade que minha coluna se chama Boa Notícia, mas está difícil encontrar uma história boa quando se trata de animais, viu? Ao contrário, notícias sobre injustiças contra eles não faltam nos meio de comunicação de cada dia. Mas algumas injustiças são tão cruéis, que inevitavelmente acabam causando mais comoção do que outras. Como aquela história da ursa Danizia.

Depois de um bate-boca à la italiana, que durou mais de um mês, em setembro de 2014, Danizia foi assassinada a mando dos governantes da região de Trento (Itália). Eles dizem que ela não resistiu ao sonífero que foi disparado em sua direção, quando veterinários insistiam em fazer exames no animal, mas ninguém da opinião pública acreditou e a coisa ficou por isso mesmo. O motivo de tamanha covardia: Danizia atacou, mas não matou, um coletor de cogumelos que se aproximou demais dos seus filhotes, hoje órfãos. O coletor se fez de vítima e disse que só queria ver os filhotes de perto. Os animalistas o mandaram para aquele lugar e trouxeram à tona um detalhe importante: a ursa de 19 anos foi levada para a cidade de Trentino, em 2000, por causa de um projeto de repovoamento do grande bosque da cidade.

Esse fato é análogo à situação dos bois no Brasil. As primeiras cabeças de gado chegaram em terras tupiniquins em 1534 e, os da raça Nelore, rebanho predominante nos pastos abertos diariamente na Amazônia, só no final do século 18 – esses dados você encontra na internet em sites feitos por especialistas em pecuária. Mas, como hoje a população de boi no Brasil é maior do que aquela de pessoas (de acordo com o IBGE, são 209 milhões de bovinos e 202,7 milhões de habitantes), muita gente adora cutucar os vegetarianos questionando o que nós faríamos com tanto boi se ninguém mais consumisse suas carnes – talvez os conceitos de reprodução induzida e demanda de mercado não estejam muito claros para estas pessoas que querem a qualquer custo justificar seus churrascos. Bom, não sei o que faríamos com todos esses bois se todo mundo decidisse parar de comer carne, mas uma coisa é certa: se não há demanda, não tem porque continuar multiplicando a “mercadoria”. Outra coisa também é certa: não somos capazes de controlar a natureza.

Colocou uma ursa em um habitat que não era o seu? Vai ter que lidar com as consequências disso, como ter um animal selvagem em um bosque frequentado por coletores de cogumelos enxeridos. Decidiu por conta própria entupir sua barriga de carne e seu coração de gordura para o bel prazer de poucos empresários, que enchem os bolsos às custas de desmatamento, trabalho escravo e venda de carne? Lide com as consequências desastrosas disso também. Ou você acha que comer bastante carne faz bem pra sua saúde e que a Amazônia está muito longe para afetar sua vida? Qualquer que seja a sua opinião, o fato é que Danizias, bois, tigres, leões, tubarões e qualquer outro animal que apareça nos tabloides como a causa da morte de alguém ou do desmate da floresta não são os a vilões dessa história, mas sim as vítimas de uma arrogância humana sem fim.

Está na hora de sermos mais humilde e darmos um basta nesses erros que, mais cedo ou mais tarde, se virarão contra nós mesmos. Parecemos mais sanguessugas enlouquecidas do que seres humanos pensantes. Aliás, às vezes as injustiças que cometemos (contra ecossistemas, povos e animais) são tão grandes que acaba sendo inevitável se questionar se a nossa raça humana pensa mesmo. E no que exatamente está pensando? É essa a pergunta que o jornalista George Monbiot faz em seu texto “A nossa absurda guerra contra a natureza”, publicado originalmente no jornal The Guardian. Por causa da comoção em torno à história de Danizia, o artigo saiu na revista italiana Internazionale, de onde peguei alguns longos trechos para traduzir em português. A leitura vale a pena.

“A nossa absurda guerra contra a natureza”, por George Monbiot, The Guardian

Chegamos a um ponto em que qualquer um que seja capaz de refletir deveria parar e se perguntar o que estamos fazendo. Se nem a notícia de que nos últimos 40 anos, o mundo perdeu mais da metade dos vertebrados (mamíferos, pássaros, repteis, anfíbios e peixes) pode nos fazer entender que o nosso estilo de vida é errado, é difícil imaginar o que poderia nos fazer conseguir. Quem pode acreditar que um sistema social e econômico com esses efeitos seja saudável? Quem, de frente a uma perda desse tipo, pode defini-lo progresso?

Por honestidade deve ser dito que a era moderna é só a perseguição de uma tendência que dura há dois milhões de anos. A perda de grande parte da megafauna africana parece ter coincidido com a passagem da alimentação carnívora concluída pelos descendentes dos seres humanos. Pouco a pouco que fomos conquistando outros continentes, a megafauna deles também desapareceu quase que imediatamente. Talvez a datação mais confiável da chegada dos seres humanos em um lugar, é justamente o desaparecimento improviso dos grandes animais. Desde então, entramos na cadeia alimentar eliminando os nossos predadores menores, os herbívoros de dimensão mediana e, agora, com a destruição do habitat e da caça, estamos cancelando a flora e a fauna de qualquer tipo.

Porém, a velocidade destrutiva de hoje é inédita. (…) Para muitos, a culpa é da população humana e não há dúvidas de que isso tenha contribuído *(para a extinção de numerosas espécies vertebradas)*. Mas existem outros dois fatores determinantes: o crescimento do consumo e a amplificação deste causada pela tecnologia. A cada ano, novas técnicas de pesca, de extração mineral e de processamento das árvores. Declaramos guerra à natureza, uma guerra sempre mais assimétrica. Por que estamos em guerra? Grande parte do consumo dos países ricos, que com as importações estão entre os primeiros responsáveis por esta destruição, não tem nenhuma relação com as necessidades humanas.

O que mais me impressiona é justamente a desproporção entre as perdas e os ganhos: o crescimento econômico de um país as quais necessidades primárias e secundárias já foram preenchidas equivale à criação de coisas sempre mais inúteis para satisfazer os desejos mais vagos. Uma das características do crescente crescimento no mundo rico é o número exíguo de pessoas que obtém uma vantagem. Quase todos os ganhos terminam nas mãos de poucos: de acordo com um estudo da universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, o 1% das pessoas mais ricas fica com 93% do aumento dos lucros produzidos pelo crescimento. Mesmo com taxa de crescimento de 2%, 3% ou mais, as condições de trabalho da grande maioria das pessoas continuam a piorar. As horas de trabalho aumentam, os salários ficam estagnados ou diminuem, as tarefas se tornam sempre mais monótonas, estressantes ou difíceis, os serviços pioram e sempre há menos dinheiro para os serviços públicos essenciais. A qual propósito serve e a quem serve este crescimento?

Serve para quem gerencia ou possui bancos, sociedades mineradoras, agências publicitárias, sociedade de lobbying, fábricas de armas, imóveis, terrenos, contas offshore. Nós somos induzidos a considerá-lo*(o crescimento) *necessário e auspício de um sistema de marketing tão intensivo e rampante que consegue fazer uma lavagem cerebral em nós.

Assim a grande erosão global avança consumindo a Terra, cancelando tudo aquilo que existe de mais singular e peculiar, seja na cultura humana seja na natureza, nos reduzindo a autômatos substituíveis em uma força de trabalho global homogênea, transformando inexoravelmente as riquezas do mundo natural em uma monocultura anônima. Não é o momento de dizer basta?

Não é hora de usar os extraordinários conhecimentos e competências acumuladas para mudar o modo de nos organizar, para contestar e destruir as tendências que determinaram a nossa relação com o planeta nos últimos dois milhões de anos e agora destroem aquilo que resta a uma velocidade surpreendente? Não é o momento de colocar em discussão a inevitabilidade do crescimento infinito no planeta finito? Se não agora, quando?

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Boa Notícia, Colunistas

A empatia é um colete salva-vidas diante de um mar de indiferença

Em entrevista publicada no jornal La Repubblica, no dia 17 de setembro de 2014, o oncologista e ex-ministro da Saúde italiano, Umberto Veronesi, afirmou que as pessoas devem parar de comer carne, porque tem muita coisa importante em jogo nessa maneira de se alimentar. Ele disse: “Devemos revolucionar nosso estilo de vida. É necessária uma nova ética de responsabilidade. Hoje um bilhão de pessoas passam fome enquanto outros dois bilhões sofrem de doenças causadas pelo excesso de comida. É necessária uma alimentação mais saudável e mais respeitosa do planeta. Por exemplo, nos convencendo de que devemos parar completamente de comer carne. Começamos comendo menos. Talvez uma vez por semana em vez de duas vezes ao dia. Não ganharemos só saúde. Foi calculado que para produzir um quilo de carne são necessários 20 mil litros de água. Não será mais possível isso no futuro. Devemos esquecer essa maneira de se alimentar”.

Ele próprio vegetariano, Dr. Veronesi não contou nenhuma novidade para mim nem para muitos adeptos da alimentação sem carnes. Mas declarações como essa não deixam de causar efeito, pois é um médico oncologista e ex-ministro da Saúde, o que rende muita credibilidade à informação e, consequentemente, acaba convencendo um monte de gente a se tornar vegetariana. Na Itália, onde moro, 6 milhões de pessoas se declaram vegetarianas e isso me enche de esperanças, porque acredito que o vegetarianismo seja o primeiro passo em direção a um mundo mais empático, mais justo. Uma pessoa capaz de mudar seus hábitos alimentares e permanecer nele por amor aos animais, por respeito ao planeta e por saber que o espaço ocupado por um rebanho poderia alimentar muito mais gente se fosse ocupado por vegetais é uma pessoa empática. É uma pessoa capaz de se colocar no lugar de outro ser vivo que tem capacidade de sentir e reagir ao que acontece ao seu redor. Não tenho dúvidas de que a empatia seja a ferramenta mais poderosa contra qualquer tipo de indiferença.

O problema é que aparentemente estamos vivendo em um oceano de indiferença. Até quando muitos de nós, animais humanos, vamos continuar indiferentes ao sofrimento alheio e ao desastre ambiental que essa gula por carnes está provocando? Quando ouço alguém falando que os animais não sofrem e que os vegetarianos são sentimentalistas baratos (“porque os animais estão aí para serem usados”), não me pergunto o que essa pessoa tem no coração, mas sim na cabeça. Afinal, ser vegetariano não tem a ver apenas com um conceito (racional) de justiça em relação à vida e à liberdade dos animais, mas é também uma maneira de encarar os fatos e colocar em prática uma atitude a favor de um mundo melhor.

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Boa Notícia

Em vez de fogos de artifício, que tal beijo na boca?

Para uma pessoa como eu, nascida e crescida em São Paulo, Milão, na Itália, onde moro hoje, tem se mostrado uma cidade bastante preocupada com a vida humana – dizem que ela é a capital italiana da solidariedade. Mas essa preocupação dos governantes com o bem-estar dos habitantes não se estende só aos animais humanos. Para a minha surpresa, a Prefeitura de Milão recomenda todos os anos que as pessoas não comemorem a entrada do Ano Novo com fogos de artifício, pois todo o estrondo provocado por esses explosivos perturba, assusta e pode até matar animais domésticos e selvagens, que de fato se sentem aterrorizados com toda a barulheira.

A sugestão da Prefeitura veio por carta, escrita por Valerio Pocar, defensor dos animais e professor de Sociologia do Direito na Università degli studi di Milano-Bicocca. “Não se pode exigir com o uso da força que os habitantes de uma cidade como Milão, caracterizada pela fidelidade ao princípio de respeito ao próximo, se abstenham dos fogos, mas existem outros meios de festejar e de se divertir sem causar problemas aos nossos sensíveis amigos animais – sejam aqueles que vivem em nossas casas ou aqueles que vivem nas áreas verdes da cidade”, escreveu o professor.

De que outra maneira você pode festejar? Eu, particularmente, sugiro um delicioso beijo na boca, um brinde bem gostoso, um abraço apertado, sete pulinhos na onda, não sei quantas garfadas de lentilha, uma colher de romã… Dizem que essas superstições trazem sorte, mas pragmaticamente também evitam que um monte de gente corra risco de se queimar com os tais fogos. Para terminar, ou melhor, para começar o ano com energias renovadas, desejo a valente equipe da ANDA, aos seus fieis leitores e aos nossos maravilhosos amigos não humanos um FELIZ 2014.

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Boa Notícia

Como um anfitrião educado reage na presença de um vegetariano

Demorou um tempinho. Mas aos poucos os amigos do marido, que nos convidam para jantar ou para o tal do aperitivo em suas casas, entenderam: a carne não é obrigatória numa refeição. No começo, quando eles ainda não me conheciam direito, aconteceu de eu só ter pão e uma salada improvisada para comer. Mas, como prefiro deixar meu anfitrião meio constrangido a ficar me sentindo um zero à esquerda por ter deixado minha filosofia de lado em nome da “boa educação”, o cardápio dos anfitriões foi melhorando. Não, eu não fiz nenhum discurso inflamado à mesa, não dei livros de receitas vegetarianas de presente e também não levei nenhuma receita minha para eles experimentarem. Simplesmente disse “não, obrigada”.

O fato é que depois do episódio do pão com salada, já fui recebida com arroz integral com pesto e tomate, o famoso húmus, torta de espinafre, croquete de verdura, vegetais grelhados, berinjela empanada (vegana!)… Talvez essa atenção especial tenha a ver com o nível de educação dessas pessoas, que em momento algum fizeram piadinhas ou me provocaram com frases do tipo “mas o alface também sofre” ou “os animais foram feitos pra comer. Está até na Bíblia”. Muito pelo contrário. Em vez de me verem como uma “inimiga”, eles sempre me perguntam muito educadamente se gostei da comida que prepararam e a saboreiam junto comigo – sim, como acontece normalmente, os pratos sem carne sempre terminam primeiro.

Se estão na dúvida sobre o que fazer, eles ligam. Semana passada, um dos amigos convidou pra jantar, mas telefonou um dia antes pra saber se eu comia atum. “Não, ela não come peixe”, respondeu o marido. “Ah ok. Então farei outra coisa, sem problemas”. Chego lá e encontro um cardápio vegetariano bem gostosinho que incluiu chips de abóbora: num refratário, coloque lascas de abóbora japonesa com casca, sal grosso, azeite abundante e forno a 180 ºC por uns 40 minutos ou até a abóbora ficar pretinha e crocante. Estava tão gostoso que pedi a receita (muito “complicada”, como você pôde ver) e preparei aqui em casa também.
Então, como não sou tão “mal educada” assim, aproveito esse post pra agradecer aos amigos italianos pela gentileza de se preocuparem com o que como e de se interessarem pela alimentação vegetariana. Grazie!

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