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Estátua! quando é necessário mover!

Pixabay

A palavra recorde está associada a um desempenho excepcional que supera os anteriores. O ano de 2020, que ainda mal começou, neste sentido, é extraordinário! Já se superou em muitas provas, entretanto tais feitos não são para comemorar. A Antártica registrou, no dia 13 de fevereiro, a temperatura de 18,3° Celsius, a mais alta da história. No Ártico, também o recorde de 20° Celsius, o que tem levado o Mar de Bering a descongelar em pleno inverno. Por detrás de tais proezas, a ação humana, segundo dados do IPCC.

A emissão de gases de efeito estufa que aquece o planeta, até 2030, precisa diminuir mais de 7% ao ano para que o aumento na temperatura média global seja de apenas 1,5° em relação aos níveis pré-industriais. Se mantivermos o ritmo nas emissões, a previsão dos climatologistas é de chegarmos a um aumento de 3,2°, o que seria não mais uma crise, mas uma catástrofe climática irreversível. Para termos uma noção do que isso significa, a temperatura média global em 2019 foi de 1,1° C acima dos níveis pré-industriais, o suficiente para provocar todos os eventos climáticos extremos que estamos presenciando.

Aqui cabem ações urgentes para alterar os modos de produção e consumo, como a revisão dos modelos de economia, desenvolvimento e progresso. Além disso, ações orientando as tomadas de decisão, a revisão da ética com que lidamos com os mais pobres e seus territórios, os imigrantes ambientais e as outras espécies, animais não humanos com quem dividimos nossa Casa, que lutamos para que nos seja comum.

A discussão polariza e pouco avança quando se trata de saber de quem é a responsabilidade. É dos grandes e poderosos ou dos indivíduos? Ingênuo considerar que uma crise de tamanha monta possa suprimir qualquer setor, pessoas ou nação. Há mudanças estruturais e de alta complexidade que dependem do esforço político e coordenado daqueles que detêm o poder. Oportuno destacar a lentidão nas respostas das grandes conferências internacionais que só contribui para agravar a situação.

Do outro lado, os indivíduos, pessoas simples e anônimas. Já entendemos que algo está fora de ordem e dessa constatação vem um outro recorde, que é da nossa apatia. Como é difícil mexer com estruturas de pensamento, hábitos, tradições e estilo de vida! E sobretudo parar a máquina econômica ou redirecioná-la. Ao nível individual, parece que recebemos o comando da brincadeira: estátua! Congelamos e não mais saímos. Aquele que burla a regra e resolve se mover logo é desencorajado, afinal “não adianta”, é o “sistema”. Ora, o tal “sistema” só muda por pressão do “mercado”, pois depende de consumidores que o irão regular. Ele não é o vilão da história. Almeja apenas o lucro e irá nos entregar exatamente aquilo que o nosso desejo de consumo demandar. Pode ser o abacaxi, carro voador, o aço ou carne de cabrito. O sistema, nesse sentido, não tem moral.

Constatamos que, de forma despretensiosa, milhares de indivíduos estão impactando suas famílias, os amigos, sua escola, seu trabalho, as políticas públicas, o mercado, a mídia e a indústria. Não é algo planejado e nem se tem clareza onde tudo isso vai dar; ainda assim, se movem, porque faz sentido se mover.

Há aspectos da vida social que só teremos clareza na longa duração e vendo do alto; entretanto, o fluxo histórico é feito aqui e agora, conforme elucida o sociólogo alemão Norbert Elias, no seu livro “A Sociedade dos Indivíduos”. Ele afirma que a história vai se construindo a partir das pressões exercidas “pelas” e “entre” as pessoas. Visto de perto, é pequeno o poder de uma pessoa, mas são essas microtensões que preparam o terreno para mudanças estruturais da sociedade ou efetivamente as acarretam. Nunca foi tão importante considerar essa perspectiva.

Precisamos nos perguntar: o que repensar, recusar e não autorizar para que a exploração desmedida da Natureza desacelere? Com quem devemos nos conectar e em quais coletivos devemos nos inserir? Podemos provocar e ajudar a escrever novas manchetes e recordes que sinalizem para nossa mudança de estilo de vida, consumo e valores. Essa escrita começa com o indivíduo, no seu caderno chamado “sua vida”, e irá se entrelaçar com muitas outras histórias até, quem sabe, mudar a história.

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Um incômodo chamado Greta

Por Aleluia Heringer

AFP/Arquivos

“Os cães ladram, Sancho! É sinal de que estamos avançando”. Cervantes.
Acompanho a ativista climática Greta Thunberg (16 anos) desde o ano passado, quando ela iniciou a “Greve de Escola” todas as sextas-feiras, isso em agosto de 2018. Na chuva, na neve, ao sol, lá estava ela, sozinha, sentada no chão da porta do parlamento em Estocolmo, segurando sua placa Skolstrejk För Climate, ou Greve Escolar pelo Clima. Ninguém se incomodava. Nenhuma linha ou matéria nos jornais. O que ninguém esperava é que ela não desistiria do seu propósito. Sua persistência começou a chamar a atenção. Uma foto aqui, uma postagem acolá e aquilo que estava latente eclodiu.

Seu jeito firme de falar, sem rodeios e consistente; o olhar de quem não está brincando, associados ao seu exemplo de vida (modo de consumir, deslocar e de alimentar) lhe deram autoridade moral e a liderança do maior movimento da história no que se refere à crise climática e, de quebra, a indicação ao Prêmio Nobel da Paz.

Ela avançou e incomodou!

Que bonitinha! Isso é coisa de criança, diziam alguns. Nada! Coisa de gente grande! No dia 12 de abril, a respeitada Revista Science (vol. 364 pp.139-140) publicou uma carta assinada por centenas de cientistas de todo o mundo (a listagem daqueles que assinam é anexada ao artigo e chega a 52 páginas) em que afirmam: “as preocupações dos jovens são justificadas e apoiadas pela melhor ciência disponível”. Ou seja, Greta não inventa. Ao contrário, está muito bem inteirada e domina, como poucos, os fatos, dados e evidências das pesquisas científicas.

Por qual motivo então é alvo de tanta hostilidade? Por que incomoda tanto? Talvez seja a sua coerência. Que bom, devíamos pensar, o movimento que ela iniciou está acordando jovens, crianças e adultos ao redor do mundo. Tantos, outrora “rebeldes sem causa”, agora passam a levantar uma bandeira e uma causa. Ater-se a detalhes secundários, tais como suas tranças, estatura, cor de pele, nacionalidade ou temperamento, que tem espectro de autismo é, no mínimo, desonesto.

Repassar, sem averiguar, hostilidades e inverdades é escolher estar de um lado da história. Talvez esse movimento global por ela iniciado seja a grande oportunidade de pensarmos na perspectiva de uma civilização planetária e a chance de minimizarmos os efeitos daquilo que está por vir. O excesso da Greta, se houver, irá nos beneficiar. A sua inexistência é que seria um problema. Devemos nos alegrar com este fenômeno que rompeu com a lentidão das Conferências Internacionais, acordou a mídia e os jovens.

Greta indica uma tendência. Será mais bem compreendida se observarmos o conceito que traz. Iremos atravessar o Atlântico em um veleiro? Não, mas essa atitude provoca as companhias aéreas, a pesquisa científica e os usuários, a buscarem alternativas menos poluentes. A humanidade irá abolir o consumo de produtos de origem animal? Provavelmente não, mas a indústria já recebeu o alerta dos consumidores de que é necessário criar alternativas.

Que todos possam se mexer e rever seus estilos de vida, consumo e valores. Que as nações se comprometam com rigor a fazer as mudanças estruturais na forma como estão organizadas as sociedades. Que os tempos da natureza e sua capacidade inerente de manter a vida possam ser observados e a vida das outras espécies, cuidadas. Quem sabe não é esse o caminho “de volta para casa” que está nos faltando?

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Aquilo que a escola também deve ensinar

Por Aleluia Heringer

Recebi, de uma conhecida, fotos e vídeos de sua filha em uma festa junina. São imagens daquilo que estava sendo oferecido como entretenimento para as crianças: rifa de calopsita, pescaria de saquinhos com peixes vivos, uma gaiola com os pintinhos e a galinha, ao sol, cercada de gente. Por fim, para quem quisesse registrar em fotos o dia feliz, um cavalo preso a uma carroça, com todas as amarras possíveis.

A pescaria de saquinhos com peixes vivos é uma prática cruel (Foto: Getty Images)

A esta hora a festa já acabou. Cada família tomou o seu rumo. Casa bichinho que ali estava, compondo, contra sua vontade, “a festa”, deve estar em algum canto improvisado de alguma casa. Fecha-se a cena, que não precisa de nomes ou de endereço.

O que chamou minha atenção nessa história é onde ela acontece: em uma escola! Lugar onde se ensinam coisas, que esperamos que sejam boas, exemplares e condizentes com aquilo que se espera hoje e amanhã das pessoas e da coletividade, na relação consigo, com os outros, com a natureza e com os animais. Quando crianças, mediadas pelos adultos e pela instituição escolar, são submetidas a uma proposta em que o animal é exposto, vendido, preso e rifado, apenas para distrair e divertir o “animal humano”, aí é bem problemático. Há um currículo oculto presente nessa situação. Reforçamos para a próxima geração que o animal está a nosso serviço, que não tem necessidades, não almeja a liberdade, não sente desconforto e que suporta tudo, afinal, nasceu para isso! Esse é o subtexto.

Alberto Schweitzer, prêmio Nobel da Paz de 1958, escreveu que “quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes”. Schweitzer era de uma família rica na Alemanha, mas, como médico, foi viver entre os africanos das colônias francesas que necessitavam de cuidados e assistência médica. Ou seja, a compaixão estendida a todos os seres é um novo padrão de pensamento que precisa ser incutido em todos nós, adultos e crianças. Ao contrário, o padrão antropocêntrico e predatório que a humanidade traz consigo é o responsável pela extinção em curso de um milhão de espécies de animais e plantas, segundo o relatório publicado em maio deste ano pela Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistema. A plataforma contou com 145 cientistas de 50 países e o relatório é considerado o mais extenso sobre perdas do meio ambiente.

O que isso tem a ver com essa tal Festa Junina? Muito! É o mesmo modo de operar e o mesmo modo de pensar. A única diferença é que a escola fez uma microdemonstração daquilo que a humanidade vem fazendo com os animais silvestres, com os rios, florestas e oceanos. A lógica da gaiola, da jaula, da não liberdade, da submissão aos interesses do outro, maior e mais forte. Definitivamente, precisamos passar para outra cena, fazer outras perguntas e inventar outras formas de entretenimento que não sejam à custa do outro.


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Eu Rejeito

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.
Bertolt Brecht

Foto: Douglas Magno

A cena do rio de lama de rejeito de mineração e toxicidade a avaliar, arrastando tudo que estava no seu caminho, causou profunda tristeza e lamento de todos nós. A terra literalmente vomitou aquilo que não lhe pertencia e escancarou nossa incompetência para o mundo. Enquanto assistia ao noticiário, me perguntava quanto daquela lama me pertencia e o que esse desastre humano, ambiental e animal nos diz de nosso modo de viver.

Um dos princípios-chave da ecologia são os processos cíclicos. Na natureza há produção de resíduos, entretanto o que é resíduo para um organismo é alimento para o outro. Logo não há “lixão” no mundo natural, muito menos barragem para conter rejeitos. Entre nós, ao contrário, os processos são lineares. Extraímos um bem natural, aproveitamos parte, descartamos em algum lugar o que não nos interessa. Por onde passamos, seja na praia ou em uma festa, deixamos um rastro de lixos que serão recolhidos, varridos e amontoados em algum lugar. Quanto mais consumimos mais acelerado é o processo de retirada de recursos naturais. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

O complexo do Paraopeba, onde estava a barragem da Mina do córrego do Feijão, era responsável por 7% da produção de minério de ferro, principal produto da Vale, que também produz minério de manganês, carvão, níquel, cobre, cobalto e ouro. Os minerais, em geral, são utilizados nas estruturas de indústrias, edifícios, aviões, cabo elétrico, celular, carro, geladeira etc. Ou seja, o conforto que demandamos e do qual não abrimos mão exige a existência de mineradoras, e, consequentemente, a produção de rejeitos. Queremos computadores e equipamentos eletrônicos de “última geração”, mesmo sabendo que ao sair da loja já estará ultrapassado? Sim! Então, onde fica a “barragem” para tanto resíduo eletrônico?
Segundo dados da United Nations Evnironmente Programme (Unep), das Nações Unidas, até 90% desse lixo são despejados de qualquer jeito no continente africano sem nenhum critério ou respeito pelas pessoas ou pela natureza, pois custa mais barato que reciclar devidamente no mundo industrializado de onde se originam. Nesse sentido, temos parte nesse rejeito.

Em nossas casas entram, junto com as compras as sacolas plásticas, embalagens inúteis, objetos mil, latas, vidros etc. Grande parte não tem relação alguma com aquilo que, de fato, iremos consumir ou mesmo precisar. O que é possível fazer? Recusar, reaproveitar, reduzir o consumo, buscar produtos a granel, fazer compostagem, participar da coleta seletiva dando, no mínimo, a destinação correta para todo o resíduo gerado. Pode-se também não fazer nada e deixar que tudo vá para o aterro “sanitário” (onde houver) e lá deixar que despejem os rejeitos. Contudo, o aterro não é eterno nem tão sanitário. Tem vida útil curta, em torno de dez anos ou mais anos, conforme a tecnologia, o volume e a localização, e soluciona apenas em parte os problemas causados pelos excessos que produzimos. Nesse sentido temos parte nesse rejeito.

Precisamos nos alimentar, entretanto um terço da produção mundial de alimentos vai para o lixo em algum momento do processo de colheita até chegar à mesa. Isso equivale a 1,3 bilhão de toneladas por ano, o suficiente para alimentar todo o continente africano, segundo relatório das Nações Unidas (2011). Comprar aquilo que não irá consumir e que irá estragar antes de ir para o lixo me faz lembrar que temos parte nesse rejeito. Se a carne faz parte da minha alimentação, é preciso considerar que a produção de um quilo consome em torno de 16 mil litros de água, segundo a Water Footprint. Esse bife foi, um dia, um boi, mamífero de proximamente 520 quilos que comeu todos os dias. Ocupou espaço e, para isso, foi preciso desmatar para abrir pasto ou plantar soja para produzir ração. Quando vivo, arrotou gás metano, produziu, segundo o Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, 30 quilos de fezes e urina por dia (21 kg de fezes e 9kg de urina) e viveu por volta de 18 meses. Se o rebanho bovino brasileiro está, segundo o Censo Agropecuário 2017 – IBGE, na casa de 214,9 milhões de cabeças, isso significa que são lançadas, diariamente, 6.447 bilhões de fezes em algum lugar do Brasil, no pasto ou na área de confinamento. Se ajuntássemos todo esse volume em um só lugar, precisaríamos de 537,25 represas/dia, como aquela que se rompeu em Brumadinho, somente para conter esse rejeito. Nesse sentido, é da nossa alçada, naquilo que servimos o nosso prato todos os dias, não fazer parte desse rejeito.

A tragédia de Brumadinho chega em um momento crítico para o meio ambiente quando, lamentavelmente, ouvimos ameaças de ampliar o desmatamento para monoculturas até na Amazônia; do Brasil sair do Acordo de Paris; de aprofundar a submissão da política ambiental às políticas da Agricultura; da indicação de nomes da bancada do Agronegócio para setores estratégicos em relação à preservação do meio ambiente; da abertura das reservas naturais e indígenas em favor da agricultura e da mineração; críticas às normas ambientais consideradas rigorosas demais e o fim das multas ao setor agrícola. A morte dos rios já denúncia este caminho suicida. A sensação beira ao desespero como ao ver um carro desgovernado na contramão da avenida. Em nome de todos e de tudo aquilo que deixou de existir em Brumadinho, pessoas, animais, árvores, rio e histórias, possamos despertar para ouvir os gemidos da natureza e nos colocarmos com urgência em sua defesa.

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O primeiro e o mais importante

Quem é o mais necessitado? Qual é a causa primeira a que devemos dispensar todo o nosso esforço? O que vem à frente? O idoso ou a criança? O morador de rua ou o cachorro atropelado? A todo momento criamos categorias e hierarquias para que possamos identificar o “mais importante”. O ato de enquadrar e esquadrinhar tem o seu valor no método científico. É preciso fazer recortes, delimitar para entender de forma verticalizada algum objeto, mas a vida, em sua complexidade, não funciona assim.

As hierarquias começam a cumprir um desserviço quando aquilo que é importante, próximo ou do “meu” gosto se destaca sobrepujando os demais.

No modelo de organização presente na natureza, o que há são relações, contextos e interdependências. Aqui é importante a existência das minhocas, dos fitoplânctons, do caboclo ou de uma floresta. Apesar de não ser próximo de nós, nem foco do nosso amor, um fitoplâncton retira grande quantidade de CO2 da atmosfera. Que bom que biólogos ou ambientalistas lutem pela preservação do meio aquático ou pela preservação das florestas! Pensar as relações não exclui para destacar, pois cada ser tem a sua singularidade, necessidades, contribuições e direito de existir. Não seremos nós a responder quem é o mais necessitado. A necessidade é de quem sente ou padece. Não cabe ao outro dar nota, colocar, por exemplo, em uma escala de dor.

Os animais não falam e não conseguem organizar uma frase e muito menos uma petição. Eles latem, berram, esperneiam, arregalam os olhos ou ficam acuados. Os humanos, por instinto de preservação da própria espécie, tendem a considerar seu similar como o mais importante. Isto é compreensível, entretanto, somos 7 bilhões e 600 milhões de pessoas. Podemos abraçar e nos desdobrar em dezenas de milhares de causas, bandeiras ou lutas. Podemos contribuir para o aperfeiçoamento de leis que asseguram o direito à vida, à integridade física e à liberdade de todos os seres. Devemos, independentemente de existirem ou não essas leis, fazer valer pela convicção moral e ética que todo ser que vive, respira, tem sistema nervoso central, que sente dor, não deseja e não deve ser molestado, agredido ou humilhado. Que a natureza como patrimônio não pode ser agredida impunemente.

O pensamento hierárquico, próprio do antropocentrismo, nos faz pensar que estamos acima de todos. Esquecemos que somos nós que criamos a regra e não perguntamos para ninguém que está fora deste raio de compaixão.

Bendito os pés daqueles que estão dedicando parte de suas vidas para o melhoramento de algo, nem que seja da própria rua! As bandeiras estão disponíveis para que cada um pegue a sua. Ninguém dará conta de resolver todos os problemas, mas devemos olhar com bons olhos e com espírito de cooperação todos aqueles que renunciam a algo de sua vida em prol da vida dos outros, e aqui não cabe hierarquizar se é o idoso, a criança abandonada, os animais, ou quem quer que seja. Todas as causas que visam à melhoria de algo, ao retorno da dignidade de uma pessoa, à preservação de um rio ou dos direitos dos animais deveriam ser encorajadas, pois elas não são excludentes, mas se fortalecem, pois o processo civilizatório, com seus avanços e retrocessos, não pode libertar apenas alguns. É preciso ir com todos e tudo, junto e misturado, sem hierarquias, mas identificando as relações.

Dignos de louvor os médicos, enfermeiros e voluntários que estão, neste exato momento, tratando de refugiados ou de vítimas de guerra. Que bom que existem pessoas que se ocupam com a ética em relação aos animais e que denunciam e impedem as barbáries e exploração. Digno de louvor quem abriga ou dirige uma palavra para quem está caído no chão, sofrendo injustiça, doente, abandonado. Que essas pessoas do bem e da paz sejam honrados e não impedidos de realizarem sua missão.

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PORCO é PORCO

“Porco é agro, porco é tech, porco é tudo”…Todos já viram esta propaganda algum dia. O que muda é o tema: café, algodão, leite, soja etc. Quando o comercial termina o cidadão brasileiro se enche de orgulho da grandeza de nossa economia e se convence de que este caminho nos levará ao progresso e riqueza do país.

Todas as imagens seguem o padrão global, em alguns momentos chegam a ser românticas. Tanta eficiência nos distrai e oculta uma bizarrice. Por mera conveniência, mudamos a forma de nomear o porco, o cavalo, o boi, ovelha, cabra ou o frango, que passam a ser agro, tech, tudo. De fato, eles são tudo, menos porco, cavalo, boi, ovelha, cabra e frango.

Este comercial é a versão mais bem-acabada da coisificação do animal. Anularam seus instintos. Já não sabem (e nem precisam saber) quando o sol nasce ou se põe, não precisam ciscar, não conseguem deitar na grama. Aboliram as hierarquias que eles estabelecem, os ninhos comunitários, anularam a ordem social estável que, se livres, estabeleceriam. Não podem percorrer longas distâncias; em muitos casos, nunca verão a luz do sol. Alguns animais convivem, no seu curto tempo de vida, com o cheiro das próprias fezes e urinas e outros permanecem em pé ad infinitum.

O animal foi esvaziado completamente da sua natureza, denúncia já feita por Peter Singer, em 1975, no seu clássico Libertação Animal. De lá para cá, o negócio melhorou e a situação do animal piorou. As “fazendas industriais” são mecanizadas, “modernas”. Os tempos dos processos foram encurtados, inclusive o tempo de vida. Chega-se ao “ponto de abate” cada vez mais rápido. A engorda é acelerada com rações e os animais ruminantes, por vezes, nem sabem mais o que é uma grama. O que importa é o aumento de produção, o preço da arroba, da carcaça e do quilo e para isto vale o confinamento e o uso, em grande escala, de antibióticos ou outros remédios utilizados como forma de aplacar as bactérias, vírus e as mais diferentes doenças causadas por este meio que é tudo, menos lugar de vida.

O tech, agro, tudo que antes era um porco, agora nada fazem senão comer, dormir, levantar-se e deitar. Não podem, conforme Singer, fazer escolhas ou alterar seu ambiente. A figura de fundo dessa história toda é que rompemos completamente o vínculo com a natureza. Como homo deus, criamos outra Criação. É o máximo que conseguimos fazer. Criamos falsas necessidades. Hoje, no Brasil, há mais bois que habitantes, mais animais domésticos que crianças. Com nossas bizarrices estamos desfigurando e dizimando os animais, adoecendo o planeta e matando a nós mesmos.

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Isso é humano!

A greve dos caminhoneiros e o estrangulamento no sistema de abastecimento, para além das possíveis análises da política e economia, revelou algumas situações curiosas. Pelo menos três me chamaram a atenção.

A primeira foi de uma reportagem sobre os estoques dos supermercados. Uma mulher aguardava o momento de passar sua compra no caixa. Seu carrinho estava transbordando de itens, inclusive 40 quilos de arroz, como ela mesma disse ao repórter. Esse questionou: mas você levando tantas coisas de uma vez não irá faltar para os outros?

A falta de graça foi visível e, depois de algumas tentativas de justificar o “saque” às prateleiras, pensativa respondeu: mas isso é humano!

Foto: Maria Tereza Correia

Esta cena de “deixa eu defender o meu” aconteceu também nos postos de combustível, sacolões e farmácias, sempre em nome do “humano” que somos. Ficou em evidência o quanto essa expressão está relacionada a uma conduta negativa que não aprovamos. No reino animal luta-se pela própria sobrevivência até as últimas consequências, contudo, leões, coelhos e girafas, não estocam suas caças ou frutas em freezer ou prateleiras. Cada dia buscam e, quase sempre, lutam pelo seu alimento. Quando saciados, não se preocupam com a próxima fome.

Essa foi a pedagogia utilizada com os Israelitas em sua caminhada de 40 anos pelo deserto. A história bíblica narrada no livro de Êxodo conta que o povo foi alimentado pelo maná, uma coisa miúda e redonda que cobria a terra assim que o orvalho se levantava. Era a porção exata para um dia. Os mais espertinhos que tentaram estocar eram surpreendidos, no dia seguinte, com o maná apodrecido. Sabemos que não é mais assim. Nós, animais humanos, desenvolvemos habilidades cognitivas e inventamos técnicas que nos permitem projetar o futuro, otimizar, economizar e precaver. Entretanto, nos períodos de ameaça, como o que vivemos neste mês de maio, entra em ação nossa irracionalidade e nossos instintos mais primários.

Uma segunda cena chamou atenção. Anunciaram que seria permitido passar pelo bloqueio somente ambulâncias, os caminhões com medicamentos e “carga viva”. Pensei… carga viva só se for provisória, já que está a caminho do abatedouro mais próximo.

Permitir passar para os mais desavisados acalma a alma. Entretanto, a “carga” precisa passar porque está viva, ou seja, é algo que respira, tem sede e fome, defeca, cansa, tem sono e pode morrer. Ops! Essas ações ou sentimentos não são típicas de “carga”, mas me parecem ser de seres vivos que sentem algo. Como humanos, conseguimos compreender isso. Essa “carga”, nome que demos para um boi, porco ou galinha, é tão essencial quanto os medicamentos dos hospitais. Essencial não por ela ser o que é, mas por aquilo que afeta aos nossos interesses. Importância, portanto, secundária.

Também chamou atenção o precioso líquido branco sendo derramado no asfalto. O sistema tão eficiente que programa milhares de vacas para produzirem leite para extração (sic), entrou em pane; os produtores, em pânico e os consumidores, em profundo lamento. Estava ali, sendo desperdiçado um alimento que a natureza compôs com perfeição e, na medida, para a vaca e seu filhote, o bezerro. Não é essa realidade que nos indignou, mas a falta que aquele líquido poderia nos fazer no café da manhã, nos lanches, nos queijos, em tudo aquilo que consumimos da hora que acordamos até dormir, enfim, em nossas vidas! Inventamos mais essa necessidade para o nosso prazer às custas do outro. Se a expressão ser humano indica um modo de pensar e agir superior aos animais, desconfio que alguma coisa não está batendo bem.

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Nosso NADA e nosso TUDO

“Outros seres também têm direito de dizer “eu” – Leibniz

Foto: Aline Lira

Qual nosso limite quando se trata de acessar o corpo do outro? Entre os humanos, de modo geral, torturar, violentar, machucar, interditar, entre outras ações similares, são reprovadas e consideradas crimes. Esta é uma conclusão refinada que precisou muitos séculos para ser elaborada. No Brasil, levamos 400 anos para entender que nossos irmãos da mesma espécie não podiam ser escravizados. Era, naquele contexto histórico, moralmente aceito separar núcleos familiares, dissolver referências religiosas e culturais, e dar àquele que um dia teve nome a designação de “carga viva”. Não sendo mais um “eu”, era aceitável despachá-los para outro continente, em um navio sem o mínimo de dignidade e, caso sobrevivessem, teriam como destino servir a algum senhor, pelo resto de sua vida. No livro Brasil uma Biografia, de Schwarcz e Starling, é dito que foi o maior fluxo migratório forçado da história até o século XIX. Romper com esse sistema demandou um paciente e silencioso trabalho de resistência dos negros, conjuntamente, com a organização dos abolicionistas.

Quando se trata do corpo do outro, agora um animal, a linha limítrofe não é tão clara. Como somos legisladores da própria causa, criamos entendimentos e sentidos que nos favorecem. Temos o poder de nomear, com isso inventamos nomes e as coisas se transformam naquilo que as designamos. Podemos dizer que não há limites, pois o animal é um ser autômato, uma máquina que existe para nos servir. Fazemos com eles, sem nenhum constrangimento, o que bem entendemos, afinal não fazem parte de nossa consideração moral.

Assistimos, neste mês de fevereiro, à grande operação envolvendo a tentativa de exportação de 27 mil bois vivos para a Turquia. Esta “carga viva”, que não queria estar ali amontoada, estava prestes a viajar quase 6 mil milhas náuticas, 11 mil Km, o que demandaria, aproximadamente, 15 dias até o destino. O navio, com o sugestivo nome “NADA”, o maior que existe para transporte de “carga viva”, só não zarpou graças à ação civil pública movida pela ONG Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, com apoio de muitos abolicionistas da escravidão animal, tendo como réu o Governo Federal.

Nessas situações, há sempre aqueles que defendem o negócio e os que defendem os animais. Li os dois argumentos. O veterinário representante do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) diz que a “modalidade” é considerada um segmento importante do agronegócio e que gera alternativa de mercado para os produtores rurais brasileiros. “Não constataram nenhuma irregularidade”. Também o Ministro dos Transporte, Portos e Aviação Civil disse torcer para resolver a situação rapidamente “para evitar mais prejuízos, tanto aos animais como ao mercado”. Para o governo federal, a judicialização da questão “prejudica os bois e abala a imagem do país”.

Do lado dos animais, o laudo da médica veterinária Magda Regina conclui que “a prática de transporte marítimo de animais por longas distâncias está intrínseca e inerentemente relacionada à causação de crueldade, sofrimento, dor, indignidade e corrupção do bem-estar animal sob diversas formas”. As imagens de seu relatório falam por si só. Não precisaria de nenhuma linha escrita. Poupo o leitor dos detalhes.

Retomo a reflexão do professor de filosofia em Harvard, Michael Sandel. Ela não se refere ou abrange os animais, entretanto podemos fazer essa aplicação. Para ele, nos últimos trinta anos vivemos um fenômeno. Passamos da economia de mercado para a sociedade de mercado. A primeira é eficaz para organizar atividades produtivas. A segunda é um estilo de vida em que os valores e o pensamento de mercado tendem a dominar todos os aspectos de nossa vida, não só bens materiais, mas vida familiar e relações pessoais, saúde e educação, mídia, política etc. “Tudo está à venda”. Os valores e pensamento de mercado podem desencorajar e corromper os valores. O referido professor propõe um debate público sobre a lógica do mercado que serve ao bem comum e onde ela simplesmente não se encaixa. Ele lança uma pergunta: “em uma análise custo-benefício, o prazer da maioria dos romanos da plateia compensaria a dor e a morte da minoria de cristãos devorados pelos leões nos circos da Roma Antiga?”.

A dor e morte de tantos animais em uma escala como nunca vista, cercada de tanta crueldade, justifica? Continuamos escrevendo nossa história e pautando nossa economia às custas do corpo do outro ou da degradação do meio ambiente. Quanto um navio com 27 mil bois vivos nos diz do nosso NADA humano e da ausência de humanidade! Bom seria se o navio NADA fosse repleto de TODA a nossa sensibilidade, generosidade, compaixão e respeito aos outros seres, que, conforme o filósofo Leibniz, têm o direito de dizer “eu”.

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O normal, o avesso e o avesso do avesso

Este é um depoimento pessoal. Por ser assim, narra uma história que só tem como intuito inspirar e levar a pensar, nunca de convencer.

Aqueles que convivem comigo sabem que há onze anos iniciei um processo de redução de alimentos de origem animal. Todo esse período durou, aproximadamente, três anos. Primeiro foi a carne vermelha, depois frango, peixe e, por fim, leite, ovos e derivados. O início foi parecido com o ato de riscar fósforo. O primeiro apaga diante do menor sinal de vento; no segundo, você faz uma proteção, mas dura pouco e, no terceiro, a chama permanece. A primeira chama que iluminou um fragmento de uma cena, outrora oculta aos meus olhos, era de uma fazenda industrial e com todo o processo envolvendo, desde a inseminação artificial, nascimento, “vida” até a morte dos animais nomeados por nós como “de abate”. Enxerguei os olhos de espanto e a tentativa inútil do animal de lutar por sua vida. Seus berros não são ouvidos como berros. Seus movimentos de fugir da ameaça, do desconforto ou da dor não são vistos como o desejo de lutar por sua vida. Não precisei ver muito mais. Tive ainda a coragem de ler vários livros e textos sobre o assunto. Ao conhecer os métodos utilizados em cada ramo dessa indústria, fui profundamente confrontada com tudo aquilo que experimentei em mais de 40 anos de cultura, costume e tradição, familiar e da sociedade.

Oscilei algumas vezes e recomeçava na refeição seguinte. Com o passar do tempo sentia que a motivação interna era muito maior que qualquer prato tentador à minha frente. A relação com o alimento foi se alterando, lentamente. A forma de ver o mundo também. Passei a enxergar os animais numa perspectiva a que jamais havia me atentado. Aquilo que antes era comida, normal, portanto, passou a ser alguém que um dia foi uma vida, que só viveu para que eu pudesse, naquele instante, comê-la. Na maioria das vezes, sem nenhuma necessidade. Saltava aos meus olhos os excessos. Em uma só refeição, três a quatro opções “de carne”. Comecei a enxergar o avesso.

Lá, nesses idos de 2006, não havia opções nas prateleiras dos mercados. Como desde criança aprendi a cozinhar, iniciei um processo de testar receitas e de fazer trocas de ingredientes. Reeduquei meu paladar. Alarguei meu cardápio ao provar uma lista enorme de alimentos de origem vegetal que não fazia parte do meu cardápio. Na rua, nos restaurantes, no ambiente de trabalho, raramente havia alguma opção. Sempre comia antes de sair de casa ou tinha um kit de sobrevivência na bolsa.

Uma coisa aconteceu. O avesso começou a incomodar o normal. O fato de não ter carne no meu prato suscitava perguntas: Você não come carne? Por quê? Como você faz com a proteína? Nossa! Isso é muito radical. Você come o que então? Respondi a essas perguntas centenas de vezes e também escutei as piadinhas. Incrível, mas sem dizer uma só palavra, passei a me sentir uma subversiva, contrariando a ordem natural das coisas. Minha conduta “avessa” não era bem-vinda socialmente, era, sim, uma ameaça à conduta “normal”.

Até então a motivação primeira, aquela que me nutria de coragem e alimentava minha disposição era saber que, se dependesse só de mim, nenhum animal iria morrer ou ser escravizado. Entendi, pelas leituras, que não precisava e que eles não mereciam.

Duas outras questões secundárias, porém complementares, surgiram. Primeira, fui obrigada a estudar e entender sobre os nutrientes necessários para minha saúde. Passei a sentir disposição e minha resistência física melhorou consideravelmente. A segunda questão foi a ambiental. Como sempre me preocupei com o consumismo, com a produção e descarte do meu resíduo, ou com a economia de água, papel, luz etc., foi fácil chegar e acessar o volume absurdo de pesquisas e relatórios que relacionam as emissões de gases de efeito estufa, desmatamento, contaminação dos lençóis freáticos, desertificação dos solos, desvio de grãos para consumo de animais, emissão de gás metano, consumo absurdo de água e uma lista infindável de impactos ambientais provocados pela indústria da carne.

Como alguém que anuncia o “discurso” ambiental/ecológico/sustentável, estava convencida de que seria bem mais coerente de minha parte o “curso”, doravante, adotado. Nenhuma ação ou atitude pessoal tem mais impacto como forma de mitigar os efeitos da crise ambiental do que a redução do rebanho mundial, e isto só irá acontecer se consumidores enviarem um recado para o Mercado, de que estamos com disposição para diminuir.

Por inúmeras vezes participei de jantares, coquetéis e cafés com dezenas de opções. Diante de tanta fartura, ficava sem nenhuma opção. Inventaram até queijo ralado na alface ou batata frita! Essas ocasiões reforçavam a minha percepção da imposição a que as pessoas estavam submetidas sem se darem conta.
Certa vez, em um encontro de trabalho, todas as opções servidas eram sem ingredientes de origem animal. Detalhe, não fui eu que solicitei. O retorno nada positivo foi imediato. Consideraram a imposição de uma “ideologia”. Ouvi aquilo surpresa. Que tragédia participar, uma única vez, de um simples lanche, sem a presença do frango, queijo, ovo ou da carne. Logo me veio à mente Caetano Veloso, “porque és o avesso do avesso do avesso”!

Como disse em um texto anterior, as ideias que mais nos desafiam e interpelam, são aquelas com potencial de nos fazer crescer. Eliminá-las, pelo simples desprezo, empobrece a vida, ao mesmo tempo que sinaliza para a nossa própria fraqueza. Sendo assim, agradeço àqueles que manifestaram o seu estranhamento e solicitaram a volta do “normal”. O meu espanto me levou a escrever. A eles, dedico este texto.

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Colunistas, Plataforma Terráqueos

Coisa ou alguém?

─ Aleluia, você poderia nos ajudar? disse a professora do 3º ano do Ensino Fundamental. – É que no livro de geografia consta que o animal é recurso natural renovável. As crianças estão aceitando esta afirmação, porém com desconfiança e muitas perguntas. Você poderia bater um papo com elas?

Peguei o livro para ver como era essa história. De fato, é este o ensino dado às crianças pelo Brasil afora. Simples, direto e sem nenhum constrangimento. Qual o problema se, de fato, o animal é um “bem” disponível para nós? Posto na mesma categoria do minério, petróleo, água ou plantas, o que muda entre eles é ser ou não renovável. Está correta a afirmação pois, de fato, no nosso cotidiano e em quase todas as nossas ações está implícito que devemos usar, aproveitar partes, consumir, usufruir para entretenimento, cortar e abater animais e depois, por inseminação artificial, é possível gerar, aos montes, outros iguais. O ciclo recomeça e o recurso se renova.

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Este dado pode passar, para alguns, totalmente desapercebido ou, em outros, causar grande estranheza. Isto é o mais intrigante. Como enxergamos uma mesma realidade e vemos coisas tão diferentes? Esta aula de geografia é somente um fragmento de um longo processo que levará as crianças, futuros adultos, a um estado de naturalização da condição do animal como coisa/produto.

Outros fragmentos virão da grande mídia, da economia, dos adultos, da escola, da igreja, da família, da filosofia, dos médicos, da cultura, da tradição etc. Assim, de forma imperceptível, cada um fazendo um pouquinho, um modo de entender e de pensar estará solidamente estruturado em nossa mente.

Não temos nem mais clareza do que seja animal. Nós os subdividimos em muitas categorias: extinção, doméstico, abate/alimentação, pesquisa, entretenimento, vestuário/moda e tantas outras do alcance de nossa imaginação. O livro de geografia, portanto, não fala para as crianças de todos os animais, está implícito que não é o panda, o cachorro, o boto-cor-de-rosa ou a arara-azul, mas de um tipo de animal, entre os quais, o boi, a vaca, o porco e as galinhas que decidimos e categorizamos como sendo para o abate ou para a indústria animal. Esses nascem e morrem na casa dos bilhões por ano, portanto renovam-se na velocidade de nosso consumo e demanda. Ainda assim, quando olhamos para um desses animais, o que enxergarmos? O que aconteceu conosco que enxergamos uma coisa e não alguém? Quem e quando desligamos esta chave de entendimento?

Donald Barnes é um pesquisador da Escola de Medicina Aeroespacial da Força Área Norte-Americana e esteve à frente dos experimentos na Plataforma de Equilíbrio de Primatas da Base Aérea de Brooks. Reginaldo José Horta menciona, em seu livro Por uma ética não especista (2017, p.141), que Barnes estima ter submetido à radiação cerca de mil macacos durantes os anos que ocupou o cargo, “com total indiferença para o sofrimento e os interesses dos animais”. Esta indiferença é denominada por Barnes como “cegueira ética condicionada”, para se referir aos argumentos que eram utilizados como viseiras com intuito de “evitar enxergar a realidade que estava escancarada diante de seus olhos”.

Algo parecido acontece no 5º episódio da 3ª temporada – Engenharia Reversa – da série Black Mirror. O episódio inicia com os soldados sendo preparados para “caçar baratas”, e nos leva a entender que se trata de algo perigoso ou mesmo pragas ou insetos que estejam trazendo doenças para toda a população. Quando as primeiras baratas aparecem, são de fato figuras asquerosas, deformadas, mas com alguma semelhança com humanos. Como a história se dá na perspectiva de um dos soldados, ele tem um problema em uma de “suas próteses” e, com isso, há uma mudança, também, naquilo que vemos. As baratas passam a ser vistas por nós, como humanos “normais”. O que mudou? Um chip era implantado no cérebro dos soldados com o intuito de mascarar a realidade e fazer com que vissem não pessoas, mas “baratas” que precisavam ser eliminadas, pois não eram, dentro daquela estrutura, dignas de direitos e garantias. As “baratas”, ou aquela categoria de humanos, não gozavam mais da proteção de nada que lhes pertencia, inclusive da vida.

Se a indústria envolvendo o uso de animais como commodities ou produto é o que move grande parte da economia mundial, é de se esperar que, para este sistema, é estrategicamente crucial que continuemos olhando para os animais e enxergando coisas e não alguém. Enxergar alguém exigirá de nós outra postura, outras perguntas e uma outra ética. Não é normal aceitar que animal é recurso natural renovável. Vale, sim, o estranhamento das crianças, nossa única esperança.

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Colunistas, Plataforma Terráqueos

Animal: a dívida da escola

Talvez haja outros conhecimentos a adquirir, outras interrogações a fazer hoje, partindo não do que outros souberam, mas do que eles ignoraram.
S. Moscovici

A educação escolar é devedora para com os animais. Uma dívida silenciosa, acumulada ao longo do tempo e nem sempre consciente. Com a naturalização da condição da escravidão animal, ensinamos a indiferença. Mas quando acontece? Em quais tempos e lugares? Em nosso silêncio, em nossa indiferença, no nada fazer, no nada dizer, nada perguntar e no nada estranhar. Repartimos o animal para não vê-lo em sua singularidade. Reproduzimo-los aos milhões e, nos números, tiramos deles um nome. Passam a ser peças, arrobas, toneladas, carcaças ou cifras da economia.

Levamos 388 anos no Brasil para entender que os negros escravizados eram irmãos e não propriedade, ainda assim, até hoje não conseguimos retirar a nódoa do tecido social que insiste no preconceito e em sua exclusão. Se é assim na relação de Sapiens com Sapiens, o que dizer então de nossa lentidão em perceber que os animais não existem devido a nós e para nos servir?

Podemos continuar nossos afazeres e contentando-nos com a definição jurídica de que os animais são bens semoventes, infelizmente, a mesma definição que compartilhavam com os negros escravizados. Animais são propriedade, entretanto, o que os difere de um lote ou de uma casa é que ele “se move”. Podemos, quem sabe, concordar com a definição presente nos livros de geografia do Ensino Fundamental que ensinam para as crianças, normalmente do 4º ano, sem nenhum tipo de constrangimento, que os animais são recurso natural renovável. Flora e fauna “se reproduzem e voltam a ficar disponíveis”. Em outro lugar podemos ler que “são utilizados pelo homem com a finalidade de desenvolver as mais variadas atividades”. Será que se referem também aos cães e gatos? Não, criamos outra categoria: animais para abate.

Vamos ler de novo. Animais que nascem para serem abatidos. Se for assim, fica subentendido, que, tendo apenas valor econômico, podemos encurtar o tempo de sua vida, acelerar o número de abates por minuto, propor confinamentos, separar filhotes no período de amamentação de suas mães, fazer inseminações artificiais até o ponto da exaustão, entre outras ações que irão favorecer a engrenagem industrial.

Na perspectiva da economia ou do agronegócio isto se chama eficiência, produtividade, exportação, commodities. De fato, a afirmação contida no livro didático está correta! O coletivo humano decidiu que assim será e realizamos um grande pacto de não duvidar. Quais as implicações de aceitar esta afirmativa? É isso mesmo? Reafirmamos que o animal não tem valor por si mesmo? Estamos concordando que é moralmente aceito usos e violações flagrantes da dignidade animal?

Podemos, por fim, ensinar que animais são seres sencientes, sentem dor, medo, frio. Basta conviver, minimamente com qualquer um deles, para confirmar. Entretanto, para os relutantes podemos utilizar como embasamento científico o Manifesto de Cambridge. Assinado por 25 neurocientistas de todo o mundo, liderados pelo canadense Philip Low, pesquisador da Universidade Stanford e do MIT, que afirmam que as áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência¹ . Ou seja, ele mesmo disse, quando a pesquisa foi divulgada, que se trata de uma “verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência (…) Não é mais possível dizer que não sabíamos”.

Em nossas escolas precisamos estranhar a utilização de animais para entretenimento (quantas ainda possuem “viveiros” ou cativeiros), sua utilização em testes ou pesquisas. O próprio Philip Low afirma que:

“o mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles”²

Os educadores precisam se empenhar em conhecer o debate sobre a existência de zoológicos na perspectiva da ética e do direito animal. Também precisamos avançar e ensinar em nossas escolas que podemos encontrar nas fontes vegetais todos os nutrientes necessários para nossa saúde, sem que para isto tenhamos que depender da morte dos animais.

Infelizmente, ainda não entregamos esta opção em nossos programas ou nas abordagens pedagógicas, muito menos em nossas cantinas. O leitor pode pensar: este mundo não existe. Digo que aquilo que conhecemos “como mundo”, nós construímos. Este mundo não só é possível e necessário, como é realidade para muitos. Está implícito, quando falamos de Casa Comum, que nela há muitos e diferentes moradores. Somos apenas um deles.

¹ http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511936-declaracao-de-cambridge-sobre-a-consciencia-em-animais-humanos-e-nao-humanos o assunto foi amplamente divulgado na mídia em julho de 2012.

² http://veja.abril.com.br/ciencia/nao-e-mais-possivel-dizer-que-nao-sabiamos-diz-philip-low/

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Humanos e Ciborgues: qual o lugar do animal?

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Como será a relação entre humanos de carne e osso e os ciborgues superinteligentes? Em uma época em que “buscamos nos tornar deuses”, o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do livro Homo deus: uma breve história do amanhã, surpreende ao responder a essa pergunta. Ele dedica a 1ª parte do seu livro ao exame da relação entre o Homo sapiens e outros animais. Mesmo discutindo grandes questões da humanidade e do mundo moderno, Yuval insiste que não se pode realizar um debate sério sobre a natureza e o futuro da humanidade sem começar com nossos colegas animais.

Não tenho a pretensão de comentar tudo que ele descreve. Precisaria de muitas páginas. Selecionei apenas alguns fragmentos para essa partilha.  Para não cansar o leitor com inúmeras citações, adianto que o livro é a fonte. Vamos lá!

Somos destrutivos e predadores desde quando nos espalhamos pelos quatro cantos do mundo. Onde nós nos estabelecemos, modificamos a flora e a fauna. Segundo Yuval, não estávamos cientes das consequências de nossas ações. As pessoas falavam com animais, árvores e pedras, e também com fadas, demônios e fantasmas. Dessa rede de comunicações emergiam os valores e as normas que comprometiam humanos, elefantes, carvalhos e assombrações. As religiões animistas descreviam o Universo como uma grande ópera chinesa com um elenco ilimitado de atores de todos os matizes. Elefantes e carvalhos, crocodilos e rios, montanhas e rãs, fantasmas e fadas, anjos e demônios – cada um desempenhava um papel na ópera cósmica. Consideravam os humanos somente outro tipo de animal, não tinham a ideia dos humanos como uma criação única.

O advento da agricultura deu início a uma nova fase das relações entre humanos e animais e produziu novas ondas de extinção em massa, mas, o que é mais importante, criou uma forma completamente inédita de vida na Terra: a domesticação de animais. Os caçadores coletores conviveram por longo tempo com os agricultores, até que, com o passar dos séculos, essa nova forma de vida tornou-se predominante. Hoje, mais de 90% de todos os animais de grande porte estão domesticados. Lamentavelmente, as espécies domesticadas pagaram seu incomparável sucesso coletivo com um sofrimento individual sem precedentes. Embora o reino animal tenha conhecido muitos tipos de dor e sofrimento durante milhões de anos, a Revolução Agrícola gerou formas de sofrimento completamente novas, que só pioraram com o tempo.

Yuval elabora uma questão. Não estariam os animais domesticados em uma condição muito melhor do que a de seus primos e ancestrais selvagens? Porcos selvagens passam os dias à procura de comida, água e proteção e são constantemente ameaçados por leões, parasitas e inundações. Porcos domesticados, em oposição, usufruem de comida, água e proteção providas pelos humanos, que tratam suas doenças e os protegem contra predadores e calamidades naturais. O fato de cedo ou tarde irem para o matadouro torna sua sina pior, seja no que for, do que a dos porcos selvagens? O que é melhor, ser devorado por um leão ou ser abatido por um homem? Ele responde: O que torna a sina dos animais domesticados em fazendas industriais particularmente difícil não é exatamente o modo como eles morrem, mas, acima de tudo, o modo como eles vivem.

Pode-se causar grande sofrimento aos animais, mesmo assegurando sua sobrevivência e reprodução. Os animais domesticados herdaram de seus antepassados selvagens muitas necessidades físicas, emocionais e sociais que são supérfluas nas fazendas. Falamos de todos instintos, impulsos e emoções que evoluíram a fim de eles se adaptarem às pressões evolutivas para a sobrevivência e a reprodução. Mesmo desaparecendo subitamente, os instintos, impulsos e emoções configurados não desaparecem. Esta é a lição básica da psicologia evolutiva: uma necessidade moldada há milhares de gerações continua a ser sentida subjetivamente, mesmo se não forem mais necessárias na atualidade para a sobrevivência e a reprodução. Assim como os javalis, os porcos domesticados se comunicam usando uma rica variedade de sinais vocais e olfativos: porcas mães reconhecem o grunhido singular de seus leitões, e leitões com dois dias de idade já diferenciam os chamados de sua mãe do de outras porcas.

Porcas em fazendas industriais: durante a gestação, ficam trancadas por seus senhores humanos em minúsculos cercados/engradados de dois metros por sessenta centímetros, piso concreto e barras de metal, que mal permitem que as porcas prenhes se virem ou durmam deitadas de lado, muito menos que caminhem. Depois de três meses e meio nessas condições, elas são levadas para cercados um pouco mais largos, onde os filhotes nascem e são alimentados. Embora devessem mamar durante dez a vinte semanas, nas fazendas industriais os leitões são desmamados à força depois de quatro semanas, separados de suas mães e enviados para a engorda e o abate. A mãe é imediatamente inseminada e devolvida ao cercado de gestação para dar início a mais um ciclo. Uma porca típica passaria por cinco a dez ciclos antes de ser ela mesma abatida.

Os fazendeiros, rotineiramente, ignoram essas necessidades sem sofrer por isso nenhuma punição no âmbito econômico. Eles prendem os animais em gaiolas minúsculas, mutilam seus chifres e suas caudas, separam mães de crias e seletivamente criam monstruosidades. Os animais sofrem imensamente, embora continuem a viver a se multiplicar. De uma perspectiva objetiva, a porca não precisa mais explorar o entorno, socializar com outros porcos, apegar-se a seus filhotes, nem mesmo caminhar. Entretanto, de uma perspectiva subjetiva, a porca ainda sente fortes impulsos para realizar todas essas ações e, se eles não forem satisfeitos, o animal sofre imensamente. Porcas trancadas em cercados de gestação costumam demonstrar frustração aguda, alternada com extremo desespero.

Na verdade, atribuir emoções a porcos não os humaniza. Isso os “mamiferiza”. Emoções não são uma qualidade exclusivamente humana – elas são comuns a todos os mamíferos (assim como a todas as as aves e provavelmente a alguns répteis e peixes). Todos os mamíferos desenvolveram aptidões e necessidades emocionais. É provável que humanos amedrontados, babuínos amedrontados e porcos amedrontados passem por experiências semelhantes. Há diferenças, é claro. Porcos não parecem experimentar os extremos de compaixão e crueldade que caracterizam o Homo sapiens, nem o sentimento de admiração. Uma emoção essencial é aparentemente compartilhada por todos os mamíferos: a ligação entre a mãe e sua cria. Na verdade, é o que dá aos mamíferos seu nome. A palavra “mamífero” vem do latim mamma, que significa “seio”. As mães mamíferas amam tanto suas crias que lhes permitem sugar de seu próprio corpo. Os filhotes mamíferos, por sua vez, sentem um desejo irresistível de se juntar a suas mães e ficar perto delas. Na natureza, leitões, bezerros e cãezinhos que não conseguem ficar junto a suas mães raramente sobrevivem por muito tempo. Os mamíferos não vivem só de alimento. Eles precisam igualmente de ligações emocionais. Assim, as indústrias de carne e de laticínios estão assentadas no rompimento da mais fundamental ligação emocional no reino dos mamíferos.

Da grande orquestra com inúmeros atores, hoje temos apenas dois personagens:  o homem e Deus. O Sapiens tornou-se o herói principal em torno do qual gira todo o Universo. O restante do elenco – todos os animais e plantas e demais fenômenos naturais – foi transformado em um cenário silencioso. Encontramos motivos para justificar a superioridade humana e a exploração dos animais. Agora, no decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou em um one man show.

O gênero humano está sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser.

O antigo caçador coletor ia para a savana – ele pedia ajuda ao touro selvagem e o touro pedia algo ao caçador. Antigo fazendeiro queria que suas vacas produzissem muito leite, pedia ajuda a um deus. Consideravam-se o ápice da criação. Quando uma equipe de avental branco do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Nestlé quer aumentar a produção de laticínios, ela estuda genética – e os genes nada pedem em troca. Os cientistas vão nos elevar à categoria dos deuses. A ciência permite que companhias modernas sujeitem vacas, porcos e galinhas a condições mais extremas. Atualmente é possível compactar dezenas de milhares de porcos, vacas ou galinhas em fileiras bem-arrumadas de gaiolas abarrotadas e produzir carne, leite e ovos com uma eficácia sem precedentes.

Será que a vida humana é mais preciosa que a vida dos suínos simplesmente porque o coletivo humano é mais poderoso do que o coletivo suíno? Os Estados Unidos são muito mais poderosos do que o Afeganistão; isso implica que a vida dos americanos tem valor intrínseco maior do que a vida dos afegãos?

Algumas conclusões dessa introdução são dadas por Yuval. Como historiador, ele diz que a história visa acima de tudo nos tornar cientes de possibilidades. Historiadores estudam o passado não para poder repeti-lo, e sim para poder se libertar dele. O estudo da história tem o objetivo de nos livrar dessa submissão ao passado. Movimentos que buscam mudar o mundo frequentemente começam com a reescrita da história, permitindo reimaginar o futuro. Se você quer isso e aquilo… o primeiro passo é recontar sua história. A nova história vai explicar que “nossa situação atual não é nem natural e nem eterna”.

 

 

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