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Em festa de cachorro outros bichos é que dançam

Desde há muitos anos, em que sempre me era oferecido convite para participar de janta promovida por ONGs de proteção aos animais (leia-se cães, gatos e cavalos), com o intuito de angariar recursos em prol da causa animal, imediatamente eu garantia minha participação e colaboração comprando o cartão beneficente, ou o “vale janta”. Quando chegava o dia do evento, não era tão surpresa que no cardápio da janta em prol de uns bichanos, principalmente cachorros, havia uma série de outros animais seccionados, embebidos em molhos, cremes, grelhados ou mergulhados em sopas ou caldos de leguminosas. Eis o paradoxo inconsciente de humanos de bom coração tentando melhorar a vida de uns em detrimento do sofrimento e da morte de outros.

Para os “protetores” de animais domésticos, o calvário de bois, porcos, galinhas e de peixes servidos à mesa não refletia em sabor amargo. Muito pelo contrário, era a manutenção habitual de um paladar viciado pela gordura e pelos músculos cadavéricos de seres azarados e “desprovidos” de graça, sepultados entranhas adentro de humanos bem intencionados. Afinal, a causa era nobre e vinha ao encontro de seres merecedores de afeto e proteção humana, abandonados irresponsavelmente e injustamente por ex tutores sem compaixão e consideração.

Mas é interessante que uma boa intenção venha precedida de uma imensurável má ação, fruto da falta de reflexão e da respectiva conexão para com a desgraça de seres sensíveis e indefesos, tal qual a condição dos nem tão “sortudos’ canídeos. Ainda assim, estes, por sua vez, podem experimentar a liberdade das ruas na companhia amigável de um semelhante vadio; experimentar o faro apurado que os leve aos resquícios comestíveis descartados nas lixeiras das ruas, dos condomínios e dos restaurantes ou mesmo ter a mão generosa de algum humano sensível que os provenha com um alimento qualquer. E ainda a possibilidade de um resgate que os leve a um lar seguro e afetivo. Eis a realidade e toda a generosidade que a matilha “humano canina” deseja para os familiares de quatro patas. Sem sombra de dúvida, são os seres que mais estão integrados à sociedade humana, cuja amizade e lealdade lhes propicia uma profunda troca sentimental e uma considerável proteção legal. É claro que essa situação é evidente no mundo ocidental, pois em alguns pontos do Oriente, os nossos belos peludinhos também são escaldados em panelas para compor caldinhos e ensopados. Mas, se você preferir, poderá degustá-los cozidos ao fogão ou grelhadinhos na brasa. A forma de preparar um saboroso cãozinho é irrelevante, pois o que importa é o tempero O cardápio é variado e as possibilidades são muitas, tal como fizemos aqui com bezerrinhos, vacas, cabritos, porcos, aves e os habitantes do mundo aquático. Ah, nessa situação poderíamos também aproveitar dos nossos gatinhos, cuja pele, tal como a dos coelhos e das chinchilas, daria um glamoroso casaco de pele.

Mas, ironias nem tão à parte, é notório que cada vez mais amantes e defensores de cães e gatos estejam percebendo a incoerência em dar carinho e reivindicar direitos prá uns enquanto negam esses mesmos direitos prá outros. É o paradoxo de um especismo eletivo, insustentável enquanto prática incoerente de quem deseja paz, respeito e justiça para alguns e não para TODOS os animais. Nesse sentido, só de imaginar um cão sentindo na pele o inferno vivido por uma galinha ou porco num criadouro e abatedouro, é que vários “cachorreiros” estão aderindo a uma dieta vegetariana, ou seja, isenta de morte ou de qualquer sofrimento animal. Trata-se de uma realidade cada vez maior não só entre protetores, mas também por indivíduos que compartilham a amizade e o afeto com um animal de estimação.

O cão, embora submetido a papéis distorcidos de sua condição natural, fruto de uma antropomorfização irresponsável e inconseqüente, tem servido de elo principal para que humanos deixem de causar prejuízo a outros animais. Nessa troca afável de carinho e fidelidade, é razoável que se faça a analogia da natureza em comum no que toca às necessidades, aos sentidos e aos sentimentos vividos por humanos, cães e porcos por exemplo. Basicamente, apenas o formato físico distingue a vida daquele que circula pela casa, dorme em caminha fofa, ganha colo e carinho, recebe tratamento estético e de saúde, é levado para passear, etc, daquele suíno cujo pedaço do corpo está sobre a mesa e servido ao prato, sem antes ter passado uma vida miserável desde o nascimento, separado da mãe aos doze dias, castrado sem analgésico e confinado até a morte prematura e cruel no abatedouro.

Embora já encontremos jantas beneficentes para alguns animais sem o prejuízo de outros, ainda há muito por fazer para que mais vidas sensíveis e indefesas sejam poupadas da angústia e do sofrimento. Na particularidade dos lares, e no comodismo da zona de conforto, muitos “amantes” dos animais ainda hesitam em fazer a conexão entre o holocausto vivido pelos animais com aquilo que colocam no prato. Preferem não ver e não saber. A consciência não deve ficar pesada diante dos vícios paladares.E nesse sentido, ainda tem muita festinha de cachorro em que outros animais só entram depois de mortos, embalados pela marcha fúnebre daqueles que promovem a desgraça alheia.

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Geram filhos sem ser mães

O amor de mãe, que será bastante enaltecido por uma data comercial, porém carregada de um simbolismo pertinente ao que ela representa para todos os humanos, é difícil de ser definido e explicado em palavras. Fala-se em amor incondicional, desmedido e o sentimento mais profundo que se pode ter. E isso é muito verdadeiro.

Trate-se de um sentimento tão universal e perceptível que pode ser estendido a quase todas as espécies do reino animal. E isso fica evidenciado pelos gestos de carinho, de proteção, zelo e provisão do alimento aos bebês. Mães humanas e não humanas passam fome para alimentar os seus filhotes; se expõem ao frio ou a outras intempéries para aquecer e preservar os mesmos; se preciso sacrificam e perdem a sua vida para proteger o filhote e jamais querem perder os mesmos para o mundo nefasto e para a morte.

A perda de um filho para uma mãe constitui-se numa eterna ferida a sangrar um peito ardente em dor. O escritor português José Saramago define que ser pai ou mãe constitui-se no maior ato de coragem, “porque é se expor a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado”. Nenhuma mãe quer perder seu filho e nós filhotes vulneráveis, tememos e não queremos ficar sem a proteção dela. Para os humanos ai de quem falar mal dela! Atacá-la fisicamente então? “Deus me livre!”.

Embora humanos vivenciem o amor recíproco e reconheçam o valor de suas mães, sequer respeitam minimamente o amor das mães não humanas. Pouco se importam com o sentimento igualmente nobre das demais fêmeas deste mundo. È evidente que já presenciaram gestos de proteção, de afeto e de carinho das mães de estimação feito gatas e cadelas, porque assim a formação cultural lhes permitiu! Mas e as outras mães feito vacas, porcas e galinhas (para ficar apenas nessas três espécies)? Respeitamos os seus instintos e sentimentos maternos? Estamos permitindo a convivência necessária entre as mães e seus filhos, ou estamos roubando estes para satisfazer egoisticamente os nossos desejos e vontades? Ou será que não se pretende refletir sobre isso para não afetar a zona de conforto! É mais cômodo, obviamente, porém não isenta a co-responsabilidade em causar angústia, dor e sofrimento alheio.

Na moderna produção de leite, couro, ovos e carnes de todo o tipo, temos a exploração e expropriação não só da materialidade daquilo que extraímos e transformamos em produtos utilizáveis, mas de toda uma gama de afetividade sentida desde o ventre entre as mães e seus filhotes. Estamos produzindo “mães” impedidas de assim o ser, pois roubamos sem defesa seus filhotes e daí todas as possibilidades inerentes à condição e autonomia prática de sobrevivência e manutenção da vida. Mas humanos ficam horrorizados e solidários quando uma mãe tem seu filho roubado na maternidade de um hospital ou sequestrado em qualquer outro momento da vida.

Também mães humanas podem voluntariamente emprestar ou alugar a sua barriga para trazer uma vida ao mundo. Com as fêmeas de outras espécies as pseudo mães são sistematicamente obrigadas a gestar e parir seres-produtos, objetos ou coisas de valor. Pouco importa se as vacas vão passar dias em agonia berrando pelo filhote que lhes foi roubado nas primeiras 24 horas após o nascimento. Na condição de órfãos machos poderão ser logo abatidos ou mantidos confinados em lugares escuros por até 5 meses e abatidos para a carne de vitela ou baby beef. Caso sejam criados para o corte os bezerros machos serão castrados sem qualquer uso de analgésico.

Quem também tem o ventre explorado de modo semelhante às vacas, são as sensíveis mães suínas, igualmente estupradas por mãos humanas através da inseminação artificial e exauridas pelas sucessivas gravidezes. Seres sociáveis, sensíveis e inteligentes, são aprisionadas e espremidas em recintos com chão de concreto e baias cercadas de ferro que mal podem se mexer ou virar-se. Não podem construir ninho com palhas em buracos escavados na terra para parir e abrigar seus bebês, que entre 2 e 4 semanas serão separados da mãe, não sem antes ter os dentes cortados e os testículos extraídos sem qualquer analgésico. E onde foi parar a compaixão humana por essas fêmeas destituídas de tudo? No bacon, no toucinho, na linguiça, no pernil e no torresmo degustado pela “solidariedade” de mães e pais humanos.E o leitãozinho à pururuca pode ser atraente para enfeitar um buffet de madame ou uma ceia cristã.

Caso do porquinho deficiente que voltou a andar porque sua mãe recusava-se a deixá-lo desistir e o incentivava a levantar, erguendo-o com o focinho. Não satisfeita, a mamãe coruja encorajava seu filhote a andar mesmo quando ele desistia, usando a boca para colocá-lo em pé. “Era emocionante ver o empenho do porquinho que até se cansava de tanto tentar”, relata a tutora do animal, Amanda Kopp, no jornal britânico Daily Mail.

Outra situação emblemática é a dos pintinhos que nascem sem pai e sem mãe, pois são oriundos de ovos retirados das galinhas logo após a postura e levados para as incubadeiras artificiais, as chocadeiras. Sem o conforto de um ninho aquecido e protegido por uma galinha, jamais poderá ciscar a terra em busca de alimento e banho de areia e sequer terá convivência digna com os seus pares. Sendo fêmeas (poedeiras), terão o bico cortado e serão levadas para as granjas com luz artificial e condenadas a passar o resto de suas vidas confinadas em minúsculas gaiolas do tamanho de uma folha A4 sem poder esticar as asas e comendo apenas a única comida servida (ração). Enquanto isso, no caderninho de receitas da vovó cada vez mais vão enfiando ovos nos quitutes, sendo o seu uso desnecessário ou perfeitamente substituível. É fácil, já que não é nas mães humanas que vai doer. Os pintinhos machos normalmente são mortos no primeiro dia e sendo frango de corte, viverão espremidos em galpões escuros sem ventilação e luz natural.

Há inúmeras outras situações de fêmeas sendo cruelmente exploradas para fornecerem filhotes para a prática da vivissecção, para o comércio de filhotes, para a indústria de peles, para a diversão humana. etc. Na realidade, ausência total da dimensão solidária em estender e respeitar a condição peculiar de mãe às demais espécies.

Modernas fazendas de criação, onde as porcas são meras máquinas de fazer filhotes
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Para além do “feminismo” mulherista

Decorridos alguns dias após o dia 08 de março, em que é comemorado o dia internacional das mulheres, símbolo de uma luta histórica marcada pelo massacre ocorrido numa fábrica de tecidos em Nova York, no ano de 1857, onde aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas por reivindicar melhores condições de trabalho e equiparações salariais em relação aos homens, penso que está na hora de avançarmos e aprofundarmos a temática da igualdade e dos direitos de todas as fêmeas e não apenas das mulheres.

Do “mulherismo” temos que evoluir para o feminismo, de fato, ampliando os horizontes que levem a um mundo mais justo e pacífico a todas as fêmeas. Por tabela, esse feminismo ajudaria a combater o especismo (preconceito de espécie). Mas me assusta ver seres historicamente oprimidos, subjugados, inferiorizados e explorados pelos homens fazendo o mesmo sobre condição semelhante a outros seres. É possível atribuir “conquista” quando mulheres se igualam aos homens para imitá-los em suas características mais abomináveis como a prepotência, a arrogância, a sobrepujança e a soberba em relação às demais espécies? As touradas, os rodeios, as vaquejadas e gineteadas é que o digam, para exemplificar uma situação.

Se a aparência física serviu como condição para a inferiorização, repressão e subjugação da mulher pelo homem, tal como o maior ou menor grau de melanina na pele implicou na escravização de uns sobre outros, a mesma fundamentação também serve para rompermos a condição dominante de exploração humana sobre a vida animal. Trata-se de uma diferença apenas na aparência, porém semelhante na essência e relevância por desejos (necessidades) vitais, sentidos e sentimentos. O desejo por relacionar-se afetivamente com seus pares, a sede, a fome e o desejo de saciá-la com um alimento de sua escolha de acordo com sua natureza, a dor, a angústia, a tristeza, a alegria, etc, tudo isso nos equipara moralmente em direitos e deveres éticos que busquem por justiça e igualdade. E aí não cabem mais argumentos antropocêntricos e justificativas torpes para a manutenção dessa situação injusta de dominação e apropriação da vida alheia.

As fêmeas não humanas, por sua inerente e peculiar condição físico-reprodutora, são as maiores vítimas da exploração e da crueldade humana. São elas que através da cloaca, colo, ovários, útero, oviduto, vagina, tetas e outros órgãos ligados a reprodução e suprimento da vida, fornecem ao mercado seres-coisas-objetos que virão a ser seccionados, carimbados e embalados em saquinhos ou bandejinhas, com direito a código de barra e tudo. Tudo a gosto do freguês humano macho e fêmea. Esta, em sua grande maioria numa vida pós seios que nutrem bebês, continuam a dar seqüência na alimentação destes, se não preparando, ocupando-se na escolha daquilo que chegará a suas bocas. E é aí que machos que exploram fêmeas que exploram fêmeas, contribuem nesse sórdido e perverso sistema infernal ligado à indústria da carne, dos ovos e do leite. E aqui estamos tratando de uma instrumentalização mais ampla, cuja supremacia e controle da agroindústria e da pecuária em sua origem, se concentram basicamente nas mãos dos homens. Mas é claro que nesse meio do caminho poderá haver uma veterinária que ensine o peão a deflorar com o braço o ânus da vaca para limpeza do intestino e após, injetar na vagina o aparelho com esperma do touro; a mesma poderá ainda garantir para o patrão-fazendeiro o certificado de “bem estar” desses seres miseráveis, ainda que não peguem sol e nem escutem Beethoven. Sem falar da presença feminina nas linhas de produção dos frigoríficos.

Por tudo isso é que devemos pensar e agir para além dos interesses das fêmeas e machos humanos. É estranho lutar por liberdade de expressão, de autonomia do corpo e de movimentos quando agimos incoerentemente e preconceituosamente ao dispor da vida e dos corpos de bilhões de fêmeas e de machos pelo mundo afora!

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Veganismo não é religião

É muito evidente que nos dias atuais o veganismo tem servido para aglutinar denuncias legítimas em relação à teia de crueldade e exploração dos animais e as devidas reivindicações justas em defesa dos seus direitos. Mas, mais que um veículo, não único obviamente, para a conquista desses direitos, é em si um conceito que idealiza uma condição e modo de vida de estar vegano e com isso evitar hábitos e práticas que impliquem o sofrimento e a dor alheia a seres indefesos e sencientes. Para uns, movimento ativista que tenta romper paradigmas culturais moldados no antropocentrismo e especismo “civilizatório” e para outros o cotidiano traduzido numa ética prática de se fazer o dever de casa. É claro que ambas situações/condições se mesclam e se fundem na vida de muitos que assim assumem esse modo de vida vegano.

Como conceito que abrange essas inúmeras possibilidades pertinentes a uma decisão individual por escolhas de consumo que não impliquem exploração/utilização de animais é possível substituir o termo “vegano” por libertador ou abolicionista, pois na prática é esse o resultado mais imediato que se deseja, o de interromper esse sistema de escravização dos animais. É preciso ter em mente que cada indivíduo decreta a sua “Lei Áurea” aqui e agora, e a soma desses decretos individuais é que transformarão a grande estrutura desse sistema perverso.

O grande perigo de todo e qualquer idealismo é o apego aos rótulos que o identificam e com o veganismo não está sendo diferente. Assim como o “hábito não faz o monge”, apenas o rótulo “vegano(a)” não torna necessariamente alguém “superior” ou melhor que os outros. Se o espelho estiver embaçado e não for possível um olhar para si, basta a convivência real ou virtual com nossos pares de causa. Nesse sentido o veganismo acaba tendo semelhança com uma espécie de seita ou religião, onde o recém “convertido” tenta impor na marra sua crença ou mensagem de salvação, esquecendo sua condição “pecadora” pré-vegana! E muitas vezes a pregação pode mais afastar do que trazer “fiéis” para a causa e o fanatismo acaba sendo pior apenas para os animais. Nesse sentido basta reparar o que acontece nas redes sociais ou grupos de discussão. Se quiseres afastar um simpatizante ou futuro vegano para a causa basta colocá-lo num desses grupos.

O veganismo não é religião. E se assim for encarado, daí sim terá mais desafios e problemas para além daqueles intrínsecos ao mesmo. E a cartilha com mandamentos e deveres a serem cumpridos serão cobradas e patrulhadas, principalmente por colegas de dentro da “Igreja”. E ai daquele irmão que pecar e ainda tiver um resquício pregresso de conduta não vegana, seja por um detalhe em algum calçado ou vestimenta, seja pelo consumo desinformado de um produto (ainda que isentos de origem animal), porém de uma marca não vegana, seja por ocasião de uma confraternização entre familiares ou amigos e for visto entrando num restaurante do “mal”, seja por beber desinformadamente uma marca de bebida que patrocina eventos de exploração animal.

Enfim, há muitos exemplos desses “pecados” alvo de patrulhamento e condenação, que conforme o contexto, tornam-se piores que os ataques oriundos dos “infiéis não convertidos”. Até parece que os “puros” não frequentam mercados ou estabelecimentos que ofereçam produtos com ou sem exploração animal; que se utilizam de ferramentas da internet como as redes sociais que abrem espaço ou patrocínio também para a indústria da exploração! Interessante é que muitos veganos tem gasto mais energia entre si do que com aqueles que exploram e se beneficiam da vida animal.

É de suma importância que nessa caminhada alguém possa auxiliar o simpatizante, o protovegetariano e o vegano com alguma informação e esclarecimento (que implique ou não dar um passo adiante) a respeito de alguns produtos, marcas ou instituições que explorem ou não os animais, mas com uma didática respeitosa que não aponte o dedo arrogante de um “pastor” ou juiz da vida alheia. Impor modelo único de conduta e comportamento é coisa de religião. O contexto psicológico, familiar, social e local é extremamente diverso e complexo para ser encaixado ou engessado num único modelo a considerar-se “válido”. A vida de um vegano numa pequena cidade do interior, por exemplo, terá um modelo diferente comparado com a de um vegano de uma cidade grande ou de uma metrópole, onde este conta com inúmeras alternativas de produtos e comércio apropriado à disposição. Outra questão que não implica estar “certo” ou o “errado”, mas sim ter posturas distintas frente a uma mesma situação é daquele vegetariano ou vegano que é convidado a ir num almoço ou janta que terá animais ou derivados destes na refeição: Um prefere não frequentar esse ambiente e o outro decide levar um generoso prato vegano e mostrar que se pode comer saborosamente bem sem crueldade animal. Bem, ambas posturas devem ser respeitadas e nenhuma está sendo mais ou menos vegana. Porém, não faltará algum “guru” para julgar que um vegano “autêntico” não deva frequentar lugares profanos com rituais “pecaminosos”. Pois é, coisa de seita. E no fundo nem preciso dizer qual dos dois casos trará mais simpatia e possibilidades de adesão para a causa animal! Mas, ambos deverão ser respeitados em suas condutas.

Estar vegano ou ter propósitos veganos, ou ainda propósitos abolicionistas e libertários em prol dos animais? O que é mais razoável levando em conta que apenas as escolhas individuais não resolvem em sua totalidade os mecanismos de exploração animal e que devemos também atuar de modo coletivo a fim de um dia atingir um ideal 100% “vegano”? E nesse momento estou me referindo apenas ao ideal vegano sem entrar no ecoveganismo, que não só amplia como aprofunda a questão! Daí sim, parafraseando um ensinamento religioso, não sobraria um para atirar a primeira pedra.

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Para além da carne fraca

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A exploração e o uso de animais na alimentação humana extrapola qualquer explicação aparentemente óbvia sobre saciedade ou necessidade básica a determinada ingestão de calorias ou porcentagem x de proteínas diárias. Mais do que justificar um hábito alimentar em virtude da tradição, da cultura ou do corriqueiro costume por manter um paladar viciado em gordura animal, o fato é que comer carne (músculos, nervos, gorduras e vísceras de cadáveres de animais abatidos) em nossa sociedade transformou-se num verdadeiro dogma inatacável e intransponível. Ai daqueles que ousam atravessar o caminho do bife até o prato ou do hambúrguer de marca famosa!

O fato é que a operação Carne Fraca da Polícia Federal, revelando esquemas fraudulentos para escamotear a qualidade de uma carne imprópria para consumo, trouxe a tona não somente a vulnerabilidade de um sistema que não garante em sua totalidade e integralidade os padrões sanitários exigidos por lei, como também serviu para demonstrar o quanto nossa sociedade é refém de si mesma ao cultivar uma dieta equivocadamente centrada em produtos de origem animal. Mas, é necessário manter o dogma de comer carne a qualquer custo, ainda que a preocupação com a saúde fique restrita ao episódio momentâneo repercutido pela mídia. Nenhuma fala lembrando a obesidade que atinge mais de metade da população brasileira entre adultos e crianças, e suas consequências em termos de diabetes, colesterol, pressão alta e doenças cardiovasculares, e que entre outras causas estão associadas ao excessivo consumo calórico de gorduras e de proteína animal. Nenhuma fala lembrando o relatório divulgado em 2015 pela OMS – Organização Mundial da Saúde colocando as carnes vermelhas processadas na lista nº1 de alimentos carcinogênicos.

Muito se fala dos prejuízos econômicos, já que o Brasil lidera as exportações de carne bovina no mundo, porém ninguém fala do custo ambiental imensurável provocado pelas queimadas e pelo desmatamento, sobretudo na floresta Amazônica, para abertura de novas áreas de pastagem e criação de gado ou de cultivos de cereais para ração animal; dos gases estufa e das alterações climáticas; dos 15 mil litros de água desperdiçados para a produção de 1 kg de carne bovina, da contaminação do solo e dos recursos hídricos por esterco, pesticidas e fármacos.

Por fim é preciso lembrar dos 70 bilhões de seres sencientes abatidos violentamente e precocemente todos os anos pela indústria da morte, ou da carne. Aliás, a expressão “carne” é de um eufemismo tamanho que só perde em hipocrisia para “empresa fabricante de proteína”!

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A abolição da escravatura "moderna"

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Alguns anos antes da abolição da escravatura no Brasil em 1888, conforme o ambiente social e contexto histórico, muitas pessoas talvez se chocassem e até achassem um absurdo alguém propor o fim da escravidão dos negros, o fim das senzalas, dos quilombos, do pelourinho e defender que a cor da pele não servisse de motivo para que seres sensíveis não tivessem direitos, fossem desrespeitados e feridos em sua dignidade.

Hoje, em pleno século XXI o caminho que está sendo percorrido para a abolição da escravatura animal passa pelo mesmo discurso teórico e embasamento moral. Tal como o racismo ou o sexismo, o especismo (preconceito contra espécie) tem a mesma matriz discriminatória, pois procura minimizar os interesses semelhantes e vontades de uns baseando-se em aspectos irrelevantes como a aparência e formatação física. Melhor não pensar que os animais sentem e sofrem já que é conveniente aos humanos permanecerem em sua zona de conforto, usando e abusando cruelmente de seres indefesos transformados em produtos e objetos de consumo.

Hoje animais/mercadorias/escravizadas movimentam a economia brasileira e mundial assim como humanos/mercadorias/negros movimentavam no passado a economia colonial e o comércio internacional. Peças humanas e animais transformados em números e cifrões, pouco importando se os gemidos e a angústia que provinham ontem das masmorras e das senzalas hoje vem das granjas e dos galpões.

Mas o mundo está mudando e não é a toa que depois da Declaração de Cambridge sobre a Consciência Humana Animal, em 2013 em que renomados cientistas de cinco áreas da Neurociência atestaram a senciência dos animais, alguns países começaram a alterar o estatuto jurídico destes, transformando os mesmos em sujeitos de direitos e não mais apenas em seres moventes vinculados à posse ou propriedade humana.
Nesse sentido é que estamos propondo o fim dos “pelourinhos” e das “senzalas” modernas, representados hoje pelos matadouros, pelas granjas ou por qualquer espaço ou forma que submeta seres sensíveis e inteligentes à prisão, à crueldade e à perda do bem maior que possuem: a VIDA.

Diferente do passado, agora a “Lei Áurea” acontece de modo singular, quando alguém decide não mais consumir e contribuir com os produtos e meios desse sistema escravocrata! Nesse momento ele se torna um abolicionista!

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Cisão entre veterinários

A publicação do meu artigo “Médicos ou Veterinários do Mal?” aqui na ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais e Jornal VS gerou bastante polêmica e discussão não só no meio veterinário, mas entre simpatizantes e defensores dos direitos animais. O mesmo foi replicado nas redes sociais e vários Conselhos Regionais de Medicina Veterinária, fazendo coro ao CRMV-RS, incluindo o Conselho Federal, publicaram em seus portais, notas de apoio à posição da entidade do RS e repúdio às colocações do referido artigo.

Penso ser extremamente importante o debate, onde ficou muito claro que há uma divisão clara entre a classe, onde de um lado temos aqueles profissionais que optaram por não atuar naquilo que denomino de indústria da morte (animais de consumo) e acadêmicos de uma nova geração que se importa com o sofrimento animal e de outro lado, profissionais formatados e arraigados a conceitos ortodoxos que historicamente serviram para sobrepujar necessidades e direitos inerentes de outras espécies não humanas. E aí é possível entender tamanha objeção e resistência destes, pois são herdeiros de uma tradição antropocêntrica e especista muito presente em nossa sociedade e civilização. São milênios de exploração e concepção filosófica de domínio, com toda uma tradição e estrutura social que colocou os animais num plano de inferioridade, sentenciando aos mesmos a condição de seres/objetos/mercadorias a serviço da satisfação e desejos humano. E para referendar tudo isso uma indústria milionária midiática que aguça os prazeres palatáveis e incentiva o consumo dessas vidas transformadas em produtos.

Toda quebra de paradigma gera resistência e por mais que queiram alegar bem estar no manejo e criação de animais, todo o profissional que opta por trabalhar na indústria da carne (quando há outras opções) não poderá esquivar-se do paradoxo e da contradição de cuidar dos pacientes/vítimas para que “saudáveis”, ainda que ouçam Beethoven, sejam remetidos ao corredor da morte. Basta de hipocrisia, pois não consigo enxergar “bem estar” imposto a seres sencientes privados de direitos básicos, como a liberdade de movimentos, ausência de autonomia prática na escolha do alimento, na afetividade com os seus pares e principalmente no direito à vida, bem único e maior patrimônio de um ser.

Depois da Declaração de Cambridge sobre a Consciência Humana e Animal proclamada em julho de 2012 na Inglaterra e assinada por renomados cientistas de cinco especialidades da neurociência, atestando a senciência nos animais, não há mais desculpa para ninguém se eximir de suas escolhas e responsabilidades, principalmente daqueles que estudaram e se formaram para “cuidar” dos animais.

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Médicos ou veterinários do mal?

Creio que a grande maioria dos profissionais que decidiram cuidar da saúde dos animais e assim cursar e formarem-se em medicina veterinária, tomaram essa decisão e origem vocacional motivados por algum carinho e sentimento de zelo e proteção aos animais. É praxe ouvir de um veterinário que desde tenra infância sempre gostou de bichos e que por essa razão não teve dúvidas quanto à profissão escolhida! E após o vestibular vem o ingresso na faculdade, e o aluno se depara com um rol de disciplinas e de práticas que irão botar a prova o dito amor pelos animais.

Com toda uma justificativa em prol da ciência e arraigadas por uma tradição acadêmica cartesiana, em que a capacidade de sofrer do animal não tem valor algum, os alunos serão iniciados em experimentos vivisseccionistas com animais/vítimas/cobaias. Esse processo de dessensibilização, associado com outras práticas de utilização dos animais para fins humanos, refletirá na atuação de muitos destes profissionais para o resto de suas vidas. Interessante que nessa trajetória acadêmica poderia ser oferecido aos alunos alternativas e métodos eficazes sem o sacrifício de animais, mas que esbarram no conservadorismo e no dogmatismo antropocêntrico. E a vida de um sapo, de um ratinho, de um porquinho da Índia, de um coelho, de um cão, de um porco, de uma ovelha e de um boi abatido e seccionado refletirá e se multiplicará em outras milhares de vidas futuras que estarão à mercê de algum médico veterinário.

Boa parte do curso de Medicina Veterinária é voltada para a produção de animais de consumo. Tanto o aprimoramento tecnológico nas linhas de produção das granjas e das fazendas quanto o desenvolvimento genético de raças com características físicas que resultem em melhor qualidade e produtividade, terão como embrião deste processo, os ensinamentos de sala de aula e laboratórios universitários. Reflexão ética e abordagem moral pra quê? A agonia e a privação de direitos básicos de porcos ou aves em confinamento não farão parte de alguma consideração moral de um veterinário empregado nessa indústria da morte. Fêmeas bovinas e suínas estupradas através de inseminação artificial terão a orientação de um veterinário; filhotes marcados e castrados sem analgésicos terão o aval veterinário. Enfim, todas as etapas que envolvem a criação, o abate nos matadouros e até o acondicionamento das partes de um animal em bandejinhas terão a inspeção veterinária. O veterinário é peça fundamental nessa engrenagem de exploração cruel de seres sencientes, onde inexiste qualquer consideração ética coerente e muito menos algum sentimento nobre, tipo “amor” aos animais.

Veterinários a serviço da indústria da carne são como médicos em campos de concentração, que “cuidam” dos seus pacientes apenas com o intuito de torná-los aptos ao trabalho forçado ou até o momento de serem conduzidos à fila (brete) da morte. Também poderíamos imaginar médicos que se formam para cuidar de humanos e depois atuar exclusivamente para cometer eutanásia aos milhares em seus pacientes. Ainda bem que aqui os mesmos não comeriam as partes dos corpos de seus pacientes na brasa ou na panela.

A aplicação do termo “médico” é equivocada a veterinários que “cuidam” dos animais apenas como mercadoria, com garantia de qualidade a ser comercializada. E isso vale também para aqueles animais aprisionados e torturados em laboratórios, nas indústrias de peles e de filhotes, nos locais de exibicionismo e espetáculos de divertimento humano e outras situações em que tudo acaba sendo respaldado e legitimado por um “médico” veterinário nada amigo dos seus pacientes.

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Fita rosa nas tetas da vaca e o câncer de mama

O Outubro Rosa, que acontece no mundo inteiro, é uma campanha de conscientização que tem o intuito de chamar a atenção sobre o câncer de mama, problema que atinge mulheres em quase todas as faixas etárias, mas principalmente aquelas acima dos trinta anos.

Mas interessante é que em quase todas as notícias referentes a essa campanha de conscientização, a grande maioria enfatiza apenas a prevenção através do autoexame ou da mamografia. Muito pouca ênfase na prevenção através dos cuidados com a alimentação, stress, álcool, fumo, obesidade, reposição hormonal, diabetes e hereditariedade. Mesmo nesse último quesito, como diz o cardiologista Fernando Luchese, os fatores genéticos constituem-se como uma bomba relógio que você tenta desarmar ou não, dependo do estilo de vida que leva.

O Instituto Nacional do Câncer aponta o Rio Grande do Sul com a maior incidência dessa enfermidade. O alto consumo de gordura animal, carne e laticínios, pode favorecer a alta incidência desse tipo de câncer. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de Leeds e publicada na revista especializada British Journal of Câncer, com 35 mil mulheres com idades entre 35 e 69 anos, aquelas que passaram da menopausa e comem mais de 103 gramas de carne vermelha por dia ou carne processada, tem 64% mais chances de desenvolver a doença. Já as mulheres em período pós-menopausa que consomem cerca de 57 gramas de carne por dia têm 56% de chance de desencadear o câncer de mama. A pesquisa revelou que mesmo as mulheres jovens têm leve risco de desenvolver a doença se comerem carne vermelha todos os dias.

No livro intitulado “Your life in your hands” (A Tua Vida Nas Tuas Mãos) da professora de geoquímica Jane Plant, a mesma relata sua experiência pessoal de luta e sobrevivência a cinco tumores mamários, que mesmo passando pelas práticas convencionais de tratamento, só veio a ter a cura efetiva após seis semanas de abandono total do leite e seus derivados. Diz ela que a relação entre o consumo de lácteos e o câncer de mama é similar a do tabaco e o câncer de pulmão. E tudo começou numa viagem do seu marido, que também é cientista, à China. Constataram que tal enfermidade era virtualmente inexistente naquele país, onde apenas uma entre 10.000 mulheres morria de câncer de mama. Já no reino Unido morria uma para cada 12 mulheres. E a mesma constatação em relação aos homens e o câncer de próstata, pois a maioria da população chinesa é incapaz de tolerar o leite e por isso não o tomam. Lá não há o hábito de se dar leite de vaca para as crianças. E não pode ser uma simples casualidade que, mais de 70% da população mundial tem sido incapaz de digerir a lactose. E outra constatação interessante é que os chineses ou mesmo os orientais em geral, que adotam os hábitos da dieta ocidental, seja no seu próprio país de origem, ou quando passam a morar fora, acabam desenvolvendo esse tipo de câncer.´

Segundo a professora Plant, o leite de vaca é um grande alimento, mas só para os bezerros, pois a natureza não o destinou para ser consumido por nenhuma outra espécie. O leite só é natural para o filhote que recebe de sua própria mãe esse alimento. Fora disso torna-se um elemento estranho ao organismo de outra espécie adulta que já deixou a fase de amamentação. De todas as espécies mamíferas, a humana é a única que se comporta como filhote mesmo depois de adulta e teima em tomar leite até morrer de velha. Em média, aos três anos de idade perdemos duas importantes enzimas necessárias à decomposição e a digestão do leite, a renina e a lactase.

Além desse fato o leite possui em sua composição alto teor de gordura, caseína e um conveniente e bonito nome para milhões de células somáticas, que nada mais são do PUS. Não bastasse isso é frequente a contaminação com fezes e pesticidas. Então está na hora de aprofundar o debate e as campanhas que visam alertar esse grave problema que afeta homens e mulheres do mudo inteiro, e inserir nesse contexto o que se evidencia como consequência de um hábito tradicional, porém equivocado. Lá na origem da fazenda fêmeas bovinas são transformadas em escravas leiteiras, onde seus ventres exauridos e mamas judiadas e sugadas são meras máquinas de um lucrativo agronegócio. Ali também tem muito sofrimento e dor nas mamas.

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Colunistas, Eco Animal

Resgatando porcos pela boca

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Foto: Divulgação

O acidente do dia 25/08/2015 no trecho oeste do Rodoanel, em Barueri (SP), envolvendo o tombamento de uma carreta carregada de suínos e toda a calamitosa situação envolvendo esses verdadeiros passageiros da agonia, nos levam a pensar e a refletir não somente nos motivos que levaram os animais a estarem naquela situação, como nos muitos desdobramentos a serem almejados para além da ação de socorro aos sobreviventes dessa tragédia.

Este caminhão lotado de animais sacudidos pela trepidação extenuante e pelo ruído maçante de um motor potente em movimento é apenas um entre os milhares de veículos que trafegam por esse Brasil afora para completar uma etapa fatídica de toda uma cadeia produtiva relacionada ao consumo de bacon, presunto, linguiça, banha, torresmo, pernil, patê e mortadela suína. Esses produtos postos em cima da mesa para serem consumidos fecham um círculo trágico e torturante desses miseráveis seres desde o nascimento até a morte. Os caminhões que chegam às granjas para transportar por longas horas ou dias esses seres-mercadorias abarrotados, amedrontados e expostos às mais variadas temperaturas, apenas suprem uma demanda por paladares viciados em gordura animal.

E o pior de tudo é que estão levando crianças suínas para o abate já que suas breves vidas são de apenas 140 dias, o que equivale a uma criança humana, em média, de 3 anos. Na realidade a maior parte dos animais explorados para consumo tem sua vida interrompida quando bebê ou criança. Bebês suínos são separados de suas mães por volta dos 10 dias de vida e sendo machos tem seus testículos extraídos sem nenhum analgésico, tal como orelhas marcadas e rabinhos cortados. As fêmeas escolhidas para a reprodução terão seu calvário de máquina de fazer filhotes antecipado com hormônios que estimulam a ovulação e assim sucessivamente nas diversas gravidezes concebidas por meio de estupro, leia-se inseminação artificial. Assim terão seus ventres e suas vidas exauridas até encontrar a morte no matadouro.

Outra análise interessante refere-se às condições em que esses animais são transportados, seja por estarem amontados e debatendo-se mutuamente, seja pelas horas a fio sofrendo às adversidades do clima, além de famintos e sem água. Não estaria na hora de rever, ajustar e ampliar as leis relativas aos animais de consumo, já que são evidentes os maus tratos, os crimes contra a fauna e ao meio ambiente? E não me refiro apenas à forma cruel e deplorável com que são transportados, mas a todo o calvário que acontece nas sombras das granjas e das fazendas. Se não há diferenças relativas às sensações, aos sentimentos, à inteligência e ao comportamento entre cães e porcos, por exemplo, porque o tratamento jurídico diferenciado, que ignora a condição deplorável destes últimos? Imagine o escândalo que seria se o acidente fosse com cães???

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Do ponto de vista sanitário numa das fêmeas foi detectado um caso câncer e noutras a existência de larvas de berne. Sobre o câncer o próprio frigorífico admitiu ser comum o morte de animais nessa situação e quanto às larvas ninguém se manifestou. Isso demonstra a ineficiência e a omissão dos órgãos de fiscalização sanitária e inspeção veterinária. Vai ver que os embutidos preparados com essas carnes contenham ingredientes a mais em sua composição e que misturados, passam despercebidos pelo consumidor “inocente”.

Dos 110 porcos que estavam no caminhão, 64 foram resgatados pelos ativistas e levados a um santuário, sendo que 25 destes acabaram morrendo em função da gravidade dos ferimentos. O resgate dos animais pelos ativistas foi um ato heroico e louvável, que proporcionou aqueles bichos desfrutarem pela primeira vez do contato com a terra, da liberdade de movimentos e da degustação de alimentos apropriados a sua condição fisiológica e natural de vida. Bem diferente das monótonas rações e farelos de milho.

Graças ao acidente e ao resgate esses animais sobreviveram a duas tragédias! Mas trata-se de um caso isolado e a tragédia maior da granja e do matadouro acomete aos milhões de seus semelhantes pelo mundo afora. Quantos caminhões “macabros” cruzam as estradas sem qualquer empecilho levando seres dóceis, sensíveis e inteligentes para a agonia dos matadouros? Caso queira socorrer alguns desses comece por eliminá-los de sua dieta. É a maneira mais sensata, ética e prática de “libertá-los”, evitando traze-los ao mundo, poupando-os do sofrimento e da morte cruel.

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Colunistas, Eco Animal

Contribuindo para a falta de água através da dieta

O período de seca e estiagem que afeta a região Sudeste, sobretudo o estado de São Paulo, tem causado enorme preocupação não somente entre a população afetada, como também entre as autoridades públicas e especialistas da área ambiental e climatológica. E também não é para menos, já que logo ali adiante situação similar pode ocorrer e se expandir para outras regiões do Brasil, afetadas diretamente por influência dos fenômenos climáticos ambientais da região amazônica, sobretudo dos impactos causados à floresta tropical, tão ameaçada pela ação humana.

A grande maioria dos habitantes não só da região Sudeste, mas de outras regiões do Brasil, desconhece a influência preponderante que a floresta Amazônia exerce sobre o clima brasileiro em seus aspectos diversos, característicos e típicos de cada região, embora ligados e dependentes, do ponto de vista de seu equilíbrio, desse macro clima continental. E o mais interessante disso tudo é que grande parte das mudanças climáticas decorrentes dos impactos ambientais que estão acelerando o processo de destruição da floresta amazônica está relacionada com demandas de consumo oriundas justamente (não exclusivamente) daqueles que estão temendo e sofrendo com a falta de água nos aglomerados urbanos, porém abarrotados de carne e produtos lácteos em seus estômagos e geladeiras.

Segundo o INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 80% do desmatamento da Amazônia se deve à pecuária, que avança para cima da floresta criando novas áreas de pastagens e forragens, ocasionando queimadas que contabilizam 2/3 das emissões brasileiras dos gases estufa. Troca-se árvore e biodiversidade por boi e por soja e milho que vão alimentar este. Aliás, não só este, mas também os bois da Europa e da Ásia. As áreas de pasto triplicaram nos últimos 30 anos e a área desmatada acumulada atingiu, só no ano de 2007, 720 mil km2. A região amazônica responde por 41% dos abates bovinos no Brasil e um em cada três bifes consumidos vem de lá.

Mas, como se não bastasse contribuir com a destruição da floresta através do consumo de carne e laticínios e com isso sofrer com as mudanças climáticas que ocasionam o excesso ou a falta de água, o sujeito ainda desperdiça milhares de litros de água consumindo esses produtos. Todo o cuidado com a economia de água através das torneiras fechadas enquanto escova os dentes ou redução do tempo de banho escorrem esgoto afora com os 15 mil litros desta utilizados na produção de um quilo de carne bovina ou nos mil litros de água para a produção de um litro de leite. E ainda temos os 6.309 litros de água para 1 quilo de carne porco, 3.918 litros para 1 quilo de carne frango, 4.914 litros de água para 1quilo de queijo processado e 3.094 litros para 1 quilo de queijo fresco, 11.535 litros para 1 quilo de salsicha e 3.340 litros de água para a produção de 1 quilo de ovos.

A maior contribuição para evitar os impactos ambientais que afetam o clima e o desperdício de água passa pela mudança de hábitos que incluem a adoção de uma dieta realmente sustentável, que é a dieta vegetariana.

 

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Colunistas, Eco Animal

Roessler e os animais feitos de carne

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Henrique Luiz Roessler

O gaúcho Henrique Luiz Roessler, pioneiro do movimento ecológico brasileiro por atuar em defesa da fauna e da flora desde a década de 1930 e por fundar a primeira entidade ambientalista do Brasil em janeiro de 1955, a UPN – União Protetora da Natureza, talvez possa ser também o primeiro ativista a refletir e compartilhar sua preocupação com a situação vivida pelos animais de “consumo” para a alimentação. Nesse sentido seria na linha do que hoje definimos por bem-estarismo, pois, no contexto brasileiro de então, não seria possível que se vislumbrasse algo do tipo libertação ou abolicionismo animal, que é a não exploração sob todas as formas de nenhum animal, ainda que bem cuidado.

Em artigo publicado no Correio do Povo em 8 de fevereiro de 1963, intitulado “A Carne que Comemos”, Roessler começa a descrever a situação deplorável do gado sendo transportado ao matadouro em caminhões abarrotados, percorrendo dias de viagem sem alimentação e sem água, “prensados, sacudidos, impregnados de suas próprias dejecções, com seus membros tão entumecidos, que não podem se sustentar, menos avançar”. E aí as estocadas com varas pontiagudas que acabam ferindo os animais na hora do desembarque e o espancamento com porretes, onde frequentemente, descreve ele, fica alguma rês agonizante ou morta, porque caiu ou foi pisoteada por seus companheiros de infortúnio. Situação semelhante acontece com os caminhões superlotados de ovinos e suínos em estado de miséria e exaustão.

Em sequência, Roessler continua o texto descrevendo a situação dos animais nos matadouros, onde “se desenvolvem as mais dantescas e abomináveis cenas de matanças. (…) Entre charcos e valos de sangue e fedor e berros dos degolados em convulsões horríveis de agonia, entre montões de carne ainda palpitante e cadáveres de olhos virados pela morte (…) As vítimas são arrastadas para a sala de matanças, onde ficam espantadas pelo alarido dos morinbundos, recebem umas marteladas na cabeça e são sangrados ao tombarem”.

Sobre os cordeiros, descreve que são atadas as quatro patas e no embalo triste esperam a sua vez de morrer, instigando os leitores a imaginar o desespero das ovelhas mães ao verem diante delas os seus pequeninos e rechonchudos cordeirinhos gritando feito crianças na hora em que são degolados. Da mesma forma, sobre os porcos “que não se deixam sujeitar e recebem pontaços de faca aqui e ali (…)” esvaindo-se em sangue, debatendo-se até morrer. E quanto menor o matadouro, maior é a bestialidade dos carrascos, segundo Roessler, pois não há fiscalização e o “o povo do interior se acostuma às brutalidades”.

A preocupação em diminuir o sofrimento dos animais e com seu bem-estar fica evidente quando o ambientalista coloca que, diante da incapacidade de evitar as matanças, ao menos diminuam os indizíveis sofrimentos e pede a todas as pessoas conscientes que manifestem às autoridades e proprietários de frigoríficos seus protestos contra os requintes de perversidade e selvageria, torpeza e lentidão que prolongam o sofrimento das vítimas. Sugere o uso obrigatório da pistola de percussão mecânica e o choque elétrico, a exemplo dos matadouros estrangeiros. Por último, conclama a todos dizendo: “Não larguem o jornal com uma expressão de horror, mas sim venham auxiliar e aliviar os últimos instantes de milhões de animais sacrificados anualmente.”

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