Colunistas, Educação Vegana

Tratamento de choque não é educativo

Um tema que constantemente vem à tona, é se devemos ou não exibir documentários que mostram cenas de torturas e abates de animais não humanos, para as crianças. É uma dúvida comum em pais vegetarianos e/ou veganos. A dúvida é legitima. Mas será que a exibição é?

Crianças que vivem em duas casas (com pais separados), ou na casa dos pais e na dos avós, onde só um dos lados não consome animais e o outro sim. Crianças de pais vegetarianos que passam o dia na creche ou na escola onde a alimentação servida é ovo-galacto carnista. O que fazer para que minha criança não coma produtos de origem animal? O que fazer para que minha criança entenda que não se deve comer animais, ou seja, não deve aceitar essas “comidas” quando oferecidas fora de casa?

A solução para muitos é colocar a criança diante do documentário A Carne é Fraca ou do Terráqueos. A crença difundida é a de que as crianças da faixa etária que vai dos cinco aos dez anos irão se conscientizar de tudo que está sendo mostrado ali: confinamentos, tortura, estupro, esquartejamentos, evisceração, tiros, queimaduras no animal vivo, retirada da pele no animal vivo, castração sem anestésico, choques, pauladas, marretadas… Uma série de “argumentos” são apresentados para legitimar a exibição:

– Você é mãe/pai, ou seja, sabe o que é melhor para seu filho.
– Melhor conscientizar desde cedo com os documentários.
– A vida é cruel e violenta, por isso, tem que saber desde cedo como a vida é.
– Até adulto chora, eu chorei demais, as crianças também podem passar pelo mesmo.
– As crianças não são bobas, elas entendem o que se passa com o animal.
– O choque as tornará futuras vegetarianas ou veganas, com meu filho foi assim.
– Se meus pais tivessem mostrado pra mim quando era criança, teria me tornado vegetariano mais cedo.

É muito forte a ideia de que se é mãe ou se é pai, logo sabe de tudo que seus filhos precisam para crescerem sadios, tanto físico quanto psicologicamente. Basta olharmos para a sociedade como um todo e veremos que ser mãe ou ser pai não é garantia de que o filho será bem cuidado, bem assistido. Mas o que vale não é a boa intenção dos responsáveis? Nem tudo que vem de uma boa intenção gera um bom resultado. Que bom resultado pode advir da exposição de crianças de cinco a dez anos a cenas d’A Carne é Fraca e do Terráqueos? Provavelmente vão recorrer a meia dúzia de casos isolados onde crianças foram expostas e não sofreram um trauma com as cenas. E esses poucos viram a regra, o modelo a ser replicado a todas as crianças filhas de pais vegetarianos e/ou veganos. Às vezes, nos apegamos à exceção. Algumas crianças que assistem esse tipo de documentário com cenas reais de abates e torturas, e que de imediato fazem a conexão e param de comer animais e usá-los, e até começam a defender os animais. Só que isso não é o padrão na infância. Essa consciência animal (em termos Reganianos) não é comum nas crianças. Pelo contrário.

Em 1922, num trabalho intitulado “Sonho e Telepatia”, no segundo caso relatado por Freud, lemos o seguinte trecho da carta de um sonho recorrente da infância: “Animais sendo abatidos. – Quando ouvia os porcos gritando, sempre pedia socorro e gritava: “Você está matando uma pessoa!” (quatro anos de idade). Sempre me recusei a comer carne. A carne de porco invariavelmente me faz vomitar. Somente durante a guerra vim a comer carne e apenas contra a vontade; agora estou aprendendo a passar novamente sem ela. Cinco anos de idade. – Minha mãe estava dando à luz e eu a ouvia gritar.

Tive a sensação: “Há um ser humano ou um animal em grande aflição”, tal como tivera quando da matança dos porcos” (p.223-224). Depois de analisar essas duas lembranças da infância da moça, ou seja, a relação dos gritos da mãe no parto com o guinchado dos porcos ao serem abatidos; Freud diz: “Afirmei noutra parte que essas cenas de infância constituem ‘lembranças encobridoras’, selecionadas num período posterior, reunidas e não infrequentemente falsificadas no processo. Esse remodelamento subsequente serve a um fim às vezes fácil de adivinhar. Em nosso caso, quase se pode ouvir o ego da autora a glorificar-se ou acalmar-se por meio dessa série de recordações: ‘Fui desde a infância uma criatura nobre e compassiva. Aprendi muito cedo que os animais têm alma como nós e não podia suportar a crueldade para com eles. Os pecados da carne achavam-se longe de mim e conservei minha castidade até bem tarde na vida’” (p.227). O que pais vegetarianos e/ou veganos gostariam de tirar de lembranças como essas dessa moça, é que as cenas na infância foram benéficas para uma mudança de hábito no futuro. Ou seja, de uma criança carnista, para um adolescente e adulto vegetariano. Mas, tecnicamente falando, não é bem assim que acontece na maioria dos casos.

Não é atoa que existe a classificação dos filmes e desenhos pela faixa etária. O mínimo que se espera é que se respeite as fases do desenvolvimento psicológico da criança. Até mesmo a produção de desenhos infantis são divididos pela faixa etária. Se a Galinha Pintadinha é extremamente atrativa para uma criança de dois anos, já não o é para uma de sete anos. Para a de sete anos, o desenho tem uma outra linguagem, assim como para uma de dez anos.

Vivemos numa sociedade demasiadamente erotizada, ou melhor, obscenamente pornográfica, objetificando na quase totalidade o corpo feminino. Segundo o argumento acima, de que a vida é assim mesmo, logo as crianças devem saber o que se passa, deveríamos colocá-las diante da tela e exibir um filme pornô para ela “conscientizar-se” de “como as coisas são”. Quantas mulheres são violentadas por dia no Brasil? Deveríamos exibir cenas de estupro para as crianças “conscientizarem-se” que em nossa sociedade machista é assim que as mulheres são tratadas? As crianças que presenciaram ao vivo o violento genocídio em Ruanda em 1994, e que sobreviveram aos massacres (esquartejamentos, estupros, tiros…), são hoje adultos defensores contumazes da paz entre Tútsis e Hútus? Acreditar que assistir cenas de violência conscientiza crianças a se tronarem adultos pacíficos e respeitosos, para com a nossa espécie e para com as outras, é ignorar a história da humanidade, que nos diz o contrário.

Em 2002, chegou aos cinemas brasileiros o filme A Cidade de Deus. Na película, as crianças não só viam cotidianamente as cenas das mais diversas violências, elas conviviam. E de todas elas, só uma não seguiu o violento mundo do crime já na juventude, o Buscapé. A tese de que ver cenas de violência com os animais fará ter consciência de que aquilo é errado, não é universalizável, pelo contrário. Na maioria das vezes, o choque pode fazer o efeito oposto do almejado pela boa intenção. A empatia não trabalhada da forma correta pode dar lugar à frieza com a dor alheia. Durante uma década exibi esses documentários citados acima e muitos outros para meus alunos no ensino médio público na periferia da cidade de São Paulo.

Uma média de 700 alunos por ano. Sempre depois de muita aula teórica sobre os temas abordados nesses documentários. A faixa etária era outra, obviamente, de jovens e adultos. E a resposta unânime dos alunos que riam e saiam da sala de exibição tratando com desdem as imagens, era que já tinham visto aquilo antes; ou mostrado por algum parente ou por algum professor. Ou seja, a exibição sem dialogar sobre, sem discutir os fundamentos éticos, tendo a imagem por si só, passou do choque inicial à banalização do mal. Tornaram-se jovens frios, insensíveis com a dor expressada em outra espécie. Presenciei o mesmo com o público adolescente e jovem, ao dar aulas de direitos animais e veganismo em escolas no interior das Minas Gerais, ambiente rural. Ou seja, a maioria dos jovens cresceram vendo animais sendo mortos nos quintais de casa para servir de alimento para a família. Degola, enforcamento, mergulho em água fervente, esfaqueamento, marretada, evisceração… tendo como trilha sonora os gritos dos animais. Anos e anos na infância vendo ao vivo essa prática em casa (na casa da avó, do tio, do vizinho) forma adolescentes que banalizam a tortura e sofrimento dos animais de outras espécies, além da nossa. O mal passa a ser banal, comum e corriqueiro. Nas palavras dos próprios adolescentes: “sempre foi assim, é normal”. Se a exposição a cenas de abates de animais conscientiza-se crianças a se tornarem vegetarianas ou veganas, nos interiores do Brasil, onde elas vêm isso cotidianamente e ao vivo, concentraria a maior população vegetariana e vegana do nosso país.

O documentário A Carne é Fraca, tem muito mais especialistas falando sobre os diversos impactos do consumo de carne do que imagens de abates. Mas as poucas imagens na parte dois, que trata dos abates, é forte o suficiente para chocar quem acredita que a carne que come brotou dentro do supermercado. Crianças de cinco a dez anos não tem capacidade cognitiva necessária para entender e compreender o que os especialistas estão dizendo, o que sobra são as imagens. Se retomarmos a proposta do INR veremos que a produção desse documentário não foi visando esse público infantil.

Nina Rosa Jacob, que de forma muito honesta, me disse que por ela não conviver diretamente com crianças, fica difícil responder sobre os impactos dos documentários de abates sobre elas. Segundo ela, “Cinco anos me parece tão cedo… Mas com dez anos, creio que a maioria estaria apta a digerir o possível e ‘deletar’ o impossível de assimilar. Logicamente depende de cada ser, da sensibilidade pessoal de cada criança, dos mecanismos que cada uma criou para enfrentar realidades talvez desconhecidas. […] Sempre se pode começar com A Engrenagem e Vegana, que por serem em animação informam, mas por outro lado não contém o conteúdo chocante da experiência”, transmitida na A Carne é fraca e no Terráqueos. Para Nina Rosa, a exibição deveria vir acompanhada das atividades que constam na obra infantil: “Então, você ama os animais – um livro recheado de diversão e aventura para ajudar as crianças a ajudarem os animais”, também publicado pelo INR.

Segundo a psicóloga Dayane Lotti – que também é ativista vegana pelos direitos animais: “Não é educativo. Não conscientiza. Até porque nessa faixa etária é difícil falar em conscientização. Elas estão desenvolvendo outros mecanismos para isso. A imagem de um boi sendo morto, abatido, conscientiza tanto quanto a imagem de alguém levando um tiro no rosto. Eu não acho nenhum pouco aconselhável passar esses documentários para as crianças. Além de não ser saudável para o desenvolvimento delas, não adianta em nada no sentido de conscientização. Expor crianças a cenas de violência explicita, ainda por cima reais, não é em hipótese alguma algo benéfico. Sejam cenas de violência contra quem quer que seja”.

Não dá pra ignorar os últimos cem anos de psicologia infantil, de psicanálise voltada a análise da criança, dos estudiosos nos mais variados campos que estudam as crianças, e “achar” que só por que sou mãe ou pai e que minha ação é movida pela boa intenção, que está tudo bem. O diálogo é o melhor caminho. Desde a antiguidade sabe-se que as crianças aprendem por mimesis, ou seja, vão copiar e reproduzir o bom ou o mau exemplo. Quanto ao recurso audiovisual no processo educativo, temos muitos desenhos e filmes infantis cuja temática é mostrar que os animais não são comidas, não são objetos de entretenimento, que sentem dor, que são amigos, que merecem cuidado e respeito, etc. Sem tratamento de choque. Alguns exemplos podem ser: Vegana; Engrenagem; O segredo dos animais; A fuga das galinhas; Procurando Nemo; Madagascar; Lisa, a vegetariana; Bee movie (até a metade abolicionista e, infelizmente, conclui com uma mensagem bem-estarista)…

Se a exposição de crianças a cenas de violência formasse futuros adultos pacíficos, compreensivos e respeitosos quanto a dor alheia, o mundo não estaria onde está em termos éticos. Exposição a cenas de violência explícita nunca foi modelo de educação moral. Tratamento de choque nunca foi educativo.

Algumas indicações de leitura

KLEIN, M. “O desenvolvimento inicial da consciência na criança”. In: Contribuições à psicanálise. São Paulo: Mestre Jou, 1970. pp.335-347.

KRAMER, E. S. “Violência cultural ao imaginário das crianças”. In: AMORETTI, R. (org.). Psicanálise e violência: metapsicologia, clínica e cultura. Petrópolis: Vozes, 1992. pp. 79-90.

WALLON, H. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
___________. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1989.
___________. As origens do caráter na criança. São Paulo: Nova Alexandria, 1995.
___________. Os meios, os grupos e a psicogênese da criança. In: Psicologia e educação da infância. Lisboa: Estampa, 1975. pp. 163-179.
__________. As etapas da personalidade na criança. In: Objetivos e métodos da psicologia. Lisboa: Estampa, 1975. pp. 131-140.
WINNICOTT, D. W. “A criança no grupo familiar”. In: Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1989. pp. 101-110.
________________. “O aprendizado infantil”. In: Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 1989. pp. 111-116.

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Educação Vegana

A vaca sagrada de DeRose ou o bem-estarismo Zen Noção

Foto: Divulgação

No dia 15 de janeiro de 2017, o conhecido professor de Yôga, DeRose, publicou em sua página no facebook um texto intitulado: “O QUE É QUE VEGETARIANO COME?”. Texto que tem como fonte sua obra “Método de Boa Alimentação”. Na publicação lemos:

“Feijões de todos os tipos, sem bacon. Arroz. Farofas de tudo o que a sua imaginação permitir. Ervilhas, grão de bico, lentilhas. Batatas em todas as suas variedades, Cenouras e todos os demais legumes. Omeletes de tudo o que conseguir inventar. Todos os tipos de ovos. Sopas, as mais variadas, sem caldo de carne. Pães. Pão de queijo, pamonha de queijo, tutu de feijão, Curau, queijos e burratas, Iogurtes e coalhadas, tortas, tartines, quiches, pizzas, calzones, nhoques, espaguete, lasanha, fettuccine e outras massas. Risotos, bruschettas, polenta, ratatouille. Crepes franceses de queijo, gratin dauphinois, aligot, fondue de queijo, cuscus, homus, babaganuche, faláfel, tabule. Arroz com lentilha, arroz com aletria. Kibe de queijo sem carne. Esfiha de queijo. Acarajé, vatapá, obviamente, sem carne de camarão. Empadas, rissoles. Bolinhos de arroz. Bolinhas de queijo à milanesa. Croquetes de legumes. Pasteis, strogonoff. Empanadas argentinas, sanduíches de miga argentinos, sanduíches os mais variados. Spatzle (alemão). Praticamente todos os pratos hindus. Todos os doces de todos os países, menos os que levarem gelatina, já que gelatina é feita dos restos de sebo.

E, é claro, nada de saladas, nem soja, nem tofú, nem nenhuma dessas bufonarias estereotipadas.

[ Atenção: vegetariano e vegano são sistemas diferentes. Os veganos, não consomem laticínios, nem ovos, nem mel, nem nada que seja do reino animal. Mas não é o nosso caso. Sou vegetariano há 56 anos (aliás, prefiro me classificar como “não-carnívoro”). Minhas cachorras da raça weimaraner, que são cães de grande porte, nunca comeram carne nem ração que tivesse carne. Comem a minha comida. Cresceram mais que os cães da sua raça. Leia a história completa no meu livro “Anjos Peludos, Método para Educação de Cães”.]

Em tempo: o que se chama de vegetarianismo é o sistema que veio da Índia e que se usa lá com esse nome. Algumas pessoas no Ocidente, para ser mais específicas, resolveram chamar de ovolactovegarianismo.

O primeiro ponto que salta aos olhos é a exclusão da carne. O foco da dieta vegetariana segundo o professor seria isso, abolir a carne, permitindo leite e todos os seus derivados (queijos, iogurtes, coalhadas…), ovos (de todos os tipos) e mel. Gelatina também não pode por ela ser um subproduto da indústria da carne bovina. O problema é não matar a vaca sagrada. Sanduiches pode, “os mais variados”. Isso inclui sanduiche de peito de peru? “Farofas de tudo que a sua imaginação permitir”. Isso inclui farofa de formigas e outros insetos? “Praticamente todos os pratos hindus”. Isso inclui Biryani, Butter Chicken, Tandoori Chicken, Tikka Chicken, Kebab, Vindaloo e o Rogan Josh? Dos animais aquáticos, só o camarão se livrou da cínica gula bem-estarista.

O segundo ponto que chama atenção é a afirmação de que vegetarianos não comem “saladas, nem soja, nem tofu nem nenhuma dessas bufonarias estereotipadas”. O renomado professor não explica o motivo dos vegetarianos não consumirem essas “bufonarias estereotipadas”. Qual o problema com a salada? Qual o problema com o tofu?

O terceiro ponto é que segundo o professor, os veganos não comem nada de origem animal, o que não é o caso dele, ou melhor, ele diz, “não é o nosso caso”, no plural. Nesse “nosso” estaria incluso todos os seguidores do ilustríssimo método DeRose? Estaria ele falando em nome de todos os adeptos de sua filosofia de vida bem-estarista? Será que nenhum dos adeptos de seu método vive o modo de vida vegano abolicionista? DeRose tem mais de meio século de vivência, estudo e divulgação de seu modo de vida, ou seja, seu método. Nesses últimos 56 anos de vida que ele não come a vaca sagrada não teve tempo para estudar de forma séria e honesta todos os danos nefastos que a produção de leite e laticínios produz as vacas e aos seus filhotes? Isso sem tocar no impacto ambiental global e na questão médico-nutricional (contribuindo com uma infinidade de doenças nos humanos). É interessante notar que DeRose busca a origem do vegetarianismo na Índia, algo muito cômodo, pois se lá definem que vegetariano é quem não come a vaca sagrada, mas come de todo o resto do reino animal, então, está tudo certo. Ou seja, ele é um “não-carnívoro” ou o que o ocidente definiu como ovolactovegetariano. É difícil acreditar que uma pessoa tão letrada não saiba que ovolactovegetarianismo é uma contradição em termos, que é um termo criado no século XIX pela Sociedade Vegetariana britânica para angariar mais adeptos para sua entidade.

Devido alguns comentários em sua publicação questionando essa definição do que o vegetariano come, o renomado professor DeRose postou como resposta um outro texto, chamado, “PODEMOS CONTINUAR USANDO LÁCTEOS E OVOS?”, extraído do mesmo livro, “Método de Boa Alimentação”. Onde diz:

“Todos somos contra os maus-tratos perpetrados pelos (des)humanos para explorar os pobres irmãos de quatro e de duas patas, para industrializar seu leite e seus ovos. Por isso, recomendamos utilizar o mínimo possível de laticínios e de ovos. Mas também por esse motivo, procuramos só utilizar marcas de ovos caipiras orgânicos, as quais garantem que suas galinhas ciscam livremente. Pela mesma razão, buscamos utilizar marcas de leite as quais nos prometem que suas vaquinhas pastam livremente e são bem tratadas. No Brasil, conhecemos apenas a marca Leitíssimo.

Por outro lado, em toda a história da humanidade, sempre tivemos vacas, ovelhas, cabras, galinhas e outras aves que foram cuidadas como animais domésticos, bem tratados, vaquinhas que até recebiam nomes como “Mimosa”. Na minha infância eu tive uma galinha branca, chamada Odalisca, que me dava todos os dias um ovo. Ela andava solta pela nossa casa e brincava comigo como se fosse um cachorro, quando eu tinha cinco anos de idade.

Mais ou menos a partir da década de 1960, dependendo do país, indústrias de alimentos começaram a tratar os animais como objetos, mantendo-os confinados e cometendo uma série de atrocidades que são do conhecimento de qualquer pessoa de bem. Essa fase já está passando, pois a opinião pública está se mobilizando cada vez mais contra a desumanidade. Já há muitas leis de proteção dos animais e outras mais estão surgindo. Brevemente, voltaremos a contar com um tratamento digno dos bichos.

Na Índia, por exemplo, a vaca é sagrada. Em uma das minhas muitas viagens àquele país, perguntei por que a vaca era considerada como tal. Um indiano me respondeu: “Ela alimenta nossos filhos com o seu leite. Produz enormes quantidades de esterco que fertiliza os campos. Trabalha para nós a vida toda, puxando o arado que prepara a terra para o plantio. Depois, um dia, morre e, mesmo depois de morta nos ajuda, pois nos dá seu couro, seus ossos, seus chifres. Sim, ela é um animal sagrado, cuja existência louvamos.”

A questão não é ficarmos desnutridos ou desajustados socialmente por não consumir laticínios ou ovos. A questão é consumir menos laticínios, menos ovos e escolher bons fornecedores. O simples fato de não comermos carnes de nenhuma espécie já constitui protesto e colaboração suficiente.

De resto, temos que eleger políticos que já tenham um histórico de leis para a proteção dos animais, como é o caso do ambientalista Deputado Ricardo Trípoli. Tratemos de ser menos fanáticos e mais efetivos.

Quando o professor diz que “todos somos contra os maus-tratos”, novamente ele fala no plural, o que nos traz de volta a indagação feita acima “Estaria ele falando em nome de todos os adeptos de sua filosofia de vida bem-estarista?” Como todo bem-estarista, DeRose se opõe à produção industrial de laticínios e ovos. Assim como o faz outro renomado escritor, Jonathan Foer, em Comer Animais. Ambos os autores indicam ovos de galinhas criadas “soltas” e de vacas que vivem em idílicas fazendas. DeRose indica utilizar marcas de leite de produtores que “prometem” tratar bem suas propriedades (as vacas sagradas). Fica difícil acreditar que uma pessoa com o renome que o senhor DeRose tem realmente acredita no que está falando. DeRose não se importa nem um pouco com o status de produto, de coisa, de propriedade dado secularmente aos animais. Como todo bem-estarista, ele se preocupa com a maneira que usamos/tratamos os animais. Maus-tratos para o professor é produção industrial. Sua indicação é a marca Leitíssimo, que além de cuidar das vacas sagradas de forma tão bondosa a,

“fazenda possui escola bilingue para educação de crianças, programas de educação de jovens e adultos (EJA), programa voluntário de aulas extra-curriculares de inglês e treinamentos in loco no gerenciamento de pastagem, gerenciamento de animais, reprodução bovina e outras competências agrícolas”.

Na página da marca encontramos o argumento que DeRose acredita: “A marca Leitíssimo simboliza leite saudável e agricultura sustentável feita por pessoas que amam a terra e os animais”. Não é maravilhoso, como DeRose não acreditaria? Le meilleur des mondes possibles.

DeRose recorre a historia da utilização humana dos animais como argumento em defesa do uso que ele não vê problema em ser perpetuado. Chega a ser pueril a fala do professor dizendo que nosso uso dos animais é bondoso, pois até nome damos a eles. Nomeamos os animais, isso nos dá o direito de usá-los? Assim como é senso comum de galactomanos dizerem que a vaca sagrada DÁ o leite pra eles, DeRose teve uma galinha na infância que também DAVA o ovo pra ele. Chega ser ofensivo a racionalidade que todos nos buscamos fazer uso, ouvir um professor dizer umas coisas dessas e com convicção.

O conhecimento histórico do professor parece ser bem limitado, primeiro não foi a partir da década de 1960, que os animais não humanos passaram a ser produzidos industrialmente, mas a partir da Segunda Guerra Mundial e o tratá-los como objetos, vem desde a antiguidade. Para ilustrar, na Era Moderna, a convicção de que os animais não humanos eram coisas, objetos desprovidos de alma-linguagem-racionalidade, levou a explosão de pesquisas anatômicas (vivissecção) que perduram até hoje na maioria das Universidades. Segundo, o que o professor quer dizer com “pessoa de bem”? Bom, como sabemos que as atrocidades e barbáries cometidas contra os animais não humanos dentro da produção industrial são de conhecimento de um número restrito da população – como os veganos, os vegetarianos e os cínicos bem-estaristas –, somos levados a concluir que só eles são “pessoas de bem”? Não, é lógico que não. A conclusão é uma falácia. Nem todo vegano é uma “pessoa de bem”, muito menos os bem-estaristas. Pois estes últimos fazem o mal deliberadamente. Terceiro, a opinião pública até o momento tem contribuído muito mais na propagação de campanhas bem-estaristas, o que gera as leis bem-estaristas de manutenção do status de propriedade dado aos animais. A preocupação de DeRose é clara, o retorno a uma época em que os animais eram tratados dignamente. Mas em que momento da historia isso aconteceu? É possível ver dignidade num objeto, numa coisa? Para DeRose, as leis protetivas que desde o século XVI só legitimaram o uso dos animais não humanos e que estão sendo feitas aos montes atualmente é um indicativo de que a “fase” da reificação industrial dos animais está por findar.

A definição de vaca sagrada que DeRose usa, advinda de um indiano que ele ouviu em uma das muitas viagens que fez a Índia é assustadoramente especista. Fica difícil encontrar outra definição mais reificadora que essa. Ela trabalha pra nós a vida toda, tracionando/arando, tendo uma cria atrás da outra (caso contrário como ela DARIA o leite para alimentar os filhos dos humanos) e quando morre nos DÁ (mesmo morta ela DÁ) seu couro, ossos e chifres. Como não louvar a existência dessa COISA SAGRADA?

A conclusão de DeRose é a seguinte, não consumir laticínios e ovos nos leva a desnutrição e a sermos socialmente desajustados. Quem adota uma dieta vegetariana, ou seja, uma dieta livre de qualquer proteína animalizada – carnes, leite e derivados, mel, ovos, cochonilha e gelatina – para o renomado professor de Yôga, é uma pessoa socialmente desajustada e, por tabela, desnutrida. Para ele como um bom bem-estarista a questão é diminuir o consumo de industrializados e consumir de fazendas “felizes”, sustentáveis, provavelmente com selo verde, de bons fornecedores. Bons fornecedores são aqueles que como ele, não veem os animais como indivíduos sencientes, mas como produtos que devem ser bem cuidados para não desagradar o consumidor. Bons fornecedores são aqueles que “amam” a terra e os animais. Como todo bem-estarista, o argumento de que deixar de comer carne já é fazer muito pelos animais, não poderia deixar de aparecer. Não comer carne é protesto contra o quê, se a barbárie na produção de ovos e laticínios é mil vezes pior? Consumir leite e laticínios é financiar a cruel indústria de vitelos (baby beef).

Para DeRose, além de desajustados sociais e desnutridos, os adeptos de uma dieta vegetariana (livre de proteína animalizada), são fanáticos. Nenhuma novidade para quem está na luta pelos direitos animais há tempos. Tom Regan nos lembra em sua obra Empty Cages (Jaulas vazias) que a estratégia dos exploradores dos animais em parceria com as mídias, é classificar os bem-estaristas de bons moços, gente de bem; e os defensores dos direitos animais, de “extremistas e desajustados sociais”. A fala de DeRose representa o que Tom Regan chama em Defending Animal Rights (p.29) de nova retórica, retórica incendiária, aquela que chama os defensores dos direitos animais de “fanáticos”, “extremistas”, e “radicais”. Para DeRose, precisamos ser efetivos, e isso significa continuar a explorar vacas e galinhas (e não menos as abelhas) de forma humanitária e votar em políticos ambientalistas que usam a causa animal como plataforma política.

Por fim, concluo respondendo às duas perguntas títulos dos textos do renomado professor DeRose. O que é que vegetariano come? Então, caro professor, vegetariano come exclusivamente alimentos de origem vegetal: Cereais, grãos, verduras, legumes, frutas, sementes e nozes. Embora cogumelos e leveduras não sejam taxonomicamente vegetais, eles são biológica e popularmente associados a vegetais e podem ser consumidos por quem adota a dieta vegetariana. Mas o senhor sabe disso, tanto sabe que diz expressamente que há 56 anos não come a carne da vaca sagrada, por isso, “não-carnívoro”. Mas será que não come outras carnes? Bom, mas tanto faz comer outras carnes diante dessa defesa assombrosa do bem-estarismo no trato com a própria vaca sagrada que DÁ leite e da galinha que DÁ ovos de livre e espontânea vontade.

Podemos continuar usando lácteos e ovos? Então, caro professor, essa pergunta vindo de quem legitima a exploração animal como o senhor soa demasiadamente cínica e de má-fé. Se o senhor e os adeptos do seu método acreditam que a vida de seres sencientes de outras espécies não tem valor em si, que são meros objetos que podem ser bem cuidados para continuarem saciando suas gulas especistas, é obvio que a resposta será um sim. Para a resposta ser um não, é preciso ter interesse em agir eticamente nas relações com os outros, e dentre esses outros, estão as pessoas não humanas.

Professor DeRose, mais de meio século fazendo papel de Humpty Dumpty, com seu discurso bem-estarista Zen Noção que é um exemplo claro de “dito desconexo”.

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Colunistas, Educação Vegana

Educação vegana abolicionista e o problema do bem-estarismo

Educação vegana, como vem sendo definida há algum tempo, é uma ação direta pedagógica crítica e autocrítica, que busca levar ao maior número de pessoas a proposta ética que funda a teoria dos direitos animais e o modo de vida vegano. É uma pedagogia animalista abolicionista (1).

Engajar-se nessa forma de ativismo exige coerência no falar e no fazer. Educar veganamente só é possível dentro da perspectiva abolicionista. Por isso, os veganos e veganas que escolhem deliberadamente esse caminho sabem que o mesmo exige tanto coragem, prudência e senso de justiça, quanto paciência. Paciência e compreensão de que abolir habitus (disposição incorporada) e tradições milenares não se faz da noite para o dia, logo, diante de tanto sofrimento animal, não se deve sucumbir diante da anestésica ideologia bem-estarista.

É importante sempre lembrar do que se trata ao falar desse canto da sereia, chamado bem-estarismo. Como já foi publicado antes, o bem-estarismo é uma: “corrente filosófica, científica e jurídica que defende a diminuição do sofrimento dos animais não humanos, a eliminação da dor física e das formas de manejo e confinamento que possam produzir um grande dano neles como produtos, como propriedade, como fonte de lucro. O bem-estarismo propõe novas leis para diminuir a dor e sofrimento dos animais, mas não os vê como pessoas, indivíduos sencientes que não querem ser usados como coisas, a ideia é minimizar os danos no produto. O bem-estarismo defende maneiras menos dolorosas de exploração, como jaulas maiores, abates “humanitários”, criação extensiva, experimentação com anestésico, ou seja, o status de propriedade dado aos animais não humanos há séculos continua na proposta bem-estarista.

Para o bem-estarismo a vida dos animais não humanos tem menor valor moral que a dos animais humanos, por isso, sua atuação é direcionada a melhorar as condições em que os animais não humanos se encontram nas fazendas industriais, nos laboratórios, nos parques de entretenimento, e em todos os locais onde se encontram confinados. O bem-estarismo não vê problema algum no uso que fazemos dos outros animais, o problema, para os bem-estaristas está na maneira como usamos” (2).

Defender uma perspectiva bem-estarista é negar o modo de vida vegano e a teoria que o sustenta, os direitos animais. Ou a pessoa é vegana, e consequentemente abolicionista, ou é bem-estarista. Não é possível ser vegano e ser bem-estarista ao mesmo tempo. Se algum vegano ou vegana defende essa corrente, ela simplesmente está negando o que funda o modo de vida vegano que é a abolição de todo tipo de uso que os humanos fazem secularmente dos animais não humanos. Ser vegano e bem-estarista é tão contraditório quanto ser “ovolactovegetariano”. São contradições em termos. Veganismo e bem-estarismo são visões de mundo literalmente antagônicas, ou como bem sintetizou Daniel Lourenço: “Em verdade, a concepção bem-estarista (welfarism) e a dos direitos animais partem de premissas completamente distintas” (3).

Quando extrapolamos nossa escolha deliberada em não compactuar com o uso e a exploração animal adotando não só o modo de vida vegano, mas escolhendo educar os outros sobre essa perspectiva abolicionista, sobre esse novo olhar, nossa responsabilidade ética é expandida. Educar veganamente exige pesquisa séria sobre os fundamentos da teoria dos direitos animais e do modo de vida vegano. Ou seja, exige gastar tempo com leituras e mais leituras sobre Ética Animal, Nutrição, Geopolítica, História, Neurociências, entre outras áreas do conhecimento que sustentam a defesa da expansão do círculo moral para além do animal humano. Aquisição de conhecimento que deve ser mediada pelo debate crítico e autocrítico com apologistas e opositores aos direitos animais.

Ao estudar a história do movimento de defesa dos animais não humanos (4), constata-se que a corrente bem-estarista, desde seu início no século XVII, não trouxe nenhum avanço para os animais não humanos nas múltiplas formas que são costumeiramente usados pelos humanos. Muito pelo contrário do que afirmam os bem-estaristas, para os animais não humanos, não houve um avanço sequer, continuam sendo tratados como coisas, produtos. Deveres indiretos, nada mais. Talvez, para a consciência de quem explora e usa, aumentar a baia de confinamento das porcas de cinquenta centímetros para oitenta centímetros, seja um grande avanço. Aumentar a gaiola das galinhas, ou mesmo tirá-las da gaiola e colocá-las em galpões fechados, seja um grande avanço.

Há séculos a tese bem-estarista é a mesma: trocar a corrente pela corda; trocar a grade pequena pela média; aumentar o tanque de água e diminuir as apresentações das orcas; trocar a marreta pela pistola pneumática; não vivisseccionar antes de anestesiar… Mas com um diferencial hoje do de outrora, extremamente cínico como de costume, que todo esse “avanço” seja inspecionado e dirigido por um médico veterinário. Como os médicos que davam seu aval de autoridades nos campos da Alemanha nazista; assim como os médicos que davam seus laudos atestando o bem-estar dos presos políticos nos porões da repressão da ditadura militar brasileira. Para um bem-estarista, a presença de um médico veterinário nos campos de concentração e extermínio de animais não humanos é sinônimo de que os confinados ali são bem tratados, vivendo plenamente seu bem-estar a seu próprio modo (5).

A escolha em se engajar numa educação vegana abolicionista, seja formal ou não, exige reflexão crítica sobre a prática e, não menos, sobre a teoria que o sustenta. Reflexão crítica sobre as múltiplas possibilidades de sua aplicação. Segundo Freire, “É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática” (6). É esse movimento dialético que os bem-estaristas se recusam fazer. É uma negativa que não vem da ignorância, pelo contrário, são bem sabedores dessa necessidade concreta, a negação vem da má-fé. Defender bem-estarismo é agir com má-fé. Algo que não cabe aos veganos, muito menos àqueles que escolheram educar veganamente a partir da perspectiva abolicionista.

Os bem-estaristas fazem uma falsa crítica ao especismo, e são avessos à prática da autocrítica. Enquanto a educação vegana é movida pela convicção de que a abolição é possível, não da noite para o dia, mas concretamente possível; os bem-estaristas se engajam numa propaganda ideológica de desmoralização do abolicionismo animal. Os bem-estaristas defendem que a abolição do uso dos animais não humanos nunca ocorreu e nem dá sinais de que um dia vá ocorrer, se continuar com o atual discurso radical de que a única solução é a adoção do modo de vida vegano. Para os bem-estaristas, somente por via de leis que obrigam os “proprietários” a tratar bem suas propriedades (reformas na redução dos danos) vamos um dia alcançar o abolicionismo.

Para os bem-estaristas, somente por via de acordos entre mega organizações internacionais de “defesa animal” com indústrias multimilionárias de exploração animal, sobre a melhoria na forma de confinamento dos animais (reformas na redução dos danos), um dia chegaremos à abolição. Para os bem-estaristas, o importante é amenizar o sofrimento das vítimas, e isso é encarado como um avanço.  A questão ética que se coloca aqui e que os bem-estaristas fogem de responder é: e se trocarmos os animais não humanos por humanos, vocês defenderiam a redução e a amenização do sofrimento das vítimas ou lutariam pela total abolição?

Para os bem-estaristas, os abolicionistas animalistas não conseguiram uma “abolição” sequer até hoje. Para os bem-estaristas não basta estudar a senciência com um intuito de criar reformas no modo de usar os animais reduzindo danos na propriedade, é preciso ignorar as poucas, mas fundamentais, vitorias no processo de mudança no status moral dos animais adquirida pelos direitos animais, e consequentemente a abolição de alguns usos em contextos específicos. Se em séculos de bem-estarismo, com centenas de leis com o objetivo de redução dos danos, não tivemos nenhuma mudança no status moral dos animais não humanos provocada por elas; por outro lado, em poucas décadas de abolicionismo animal (desde novembro de 1944, passando pela explosão filosófico-científica iniciada pelo Grupo de Oxford) tivemos algumas vitorias. Apenas a título de ilustração:

– Quando cidades, Estados ou países proíbem a produção e comercialização de foie gras, não é um exemplo da abolição na prática?

– Quando a Costa Rica decidiu em 2013 fechar todos os seus zoológicos estatais, não é um exemplo de abolição na prática?

– A proibição de apresentações de animais não humanos em circos em dezenas de cidades e em alguns Estados brasileiros, não é um exemplo da abolição na prática?

– A recente decisão do STF quanto à vaquejada no Estado do Ceará, não é um exemplo de abolição na prática?

Os educadores veganos abolicionistas, formais ou não, são pessoas radicalmente convictas de que a abolição é possível. Não da noite para o dia, mas lentamente, com muita luta teórica e prática, nos mais variados campos. Nenhuma abolição de uma forma de preconceito e discriminação foi alcançada da noite para o dia, mas pela via de uma cansativa e longa batalha moral. A convicção de que a abolição é possível vem da fundamentação dos educadores veganos, leitores atentos da história (das escravizações, das colonizações, dos impérios).

Apesar de toda a história do movimento de defesa animal deixar bem claro que devemos tapar os ouvidos diante do canto das sereias bem-estaristas, pois, caso contrário, iremos naufragar nas profundas águas do especismo, muitos veganos e veganas hoje se deixam encantar por esses sons. Hoje já não cabe mais a desculpa de que “eu não sabia”. O conhecimento está massificado. Ser vegano e vegana significar ser adulto e não mais uma inocente criança, em termos éticos.

Para educar veganamente, devido à responsabilidade ética que lhe configura, não cabe inocência. O canto bem-estarista que nos anestesia a consciência, dizendo que aumentar as jaulas é reduzir danos, que tirar a carne do prato um dia da semana é um avanço, e que tudo que minimiza o sofrimento é um passo para a abolição, já não deveria encantar mais. Ser adepto do modo de vida vegano e reproduzir o canto bem-estarista é ser uma contradição ambulante, e um exemplo de incoerência e má-fé.

É preciso viver um veganismo como ele é: abolicionista. Logo, sem se deixar levar pelo canto anestésico do bem-estarismo, a versão mais monstruosa e cruel do especismo.

Notas:

1) Leon DENIS. Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio. São Paulo: LibraTrês, 2012. p.138. Leon DENIS (org.). Educação vegana e a perspectiva neoaristotélica contemporânea. In: Educação vegana: perspectivas no ensino de direitos animais. São Paulo: FiloCzar, 2016. p.13. (no prelo).

2)  Veja aqui.

3) Daniel B. LOURENÇO. Direito dos animais: fundamentação e novas perspectivas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Ed., 2008. p. 325.

4) Duas obras de fácil leitura sobre a história do movimento de defesa animal que indico são: “Animal revolution: changing attitudes towards speciesism” e “The political animal: the conquest of speciesism”, ambas de Richard Ryder. Além da monumental obra do Daniel Lourenço citada na nota anterior. Que é leitura obrigatória.

5) Veja “Comer Animais” de Jonathan Foer, um dos mais recentes tratados em defesa do bem-estarismo e da manutenção do status de coisas dado aos animais não humanos há séculos. Quanto à crítica ao bem-estarismo, veja as obras: “Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas”, “Galactolatria: mau deleite”, e, “Acertos abolicionistas: a vez dos animais” de Sônia Felipe, além de sua vasta produção em artigos.

6) Paulo FREIRE. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. p. 39.

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Colunistas, Educação Vegana

A questão dos conceitos

O fato do Brasil ser um país que nunca nutriu em seu povo a paixão pela leitura, pelos estudos, pelos debates no nível da razão, pelos raciocínios lógicos bem encadeados, faz com que essa mazela também atinja em cheio o movimento animalista.

É comum ouvirmos que os direitos animais e o modo de vida vegano são coisas de pessoas de classe média e alta. Movimento de burguês. Vejo uma contradição aqui em termos pedagógicos. No Brasil a Educação é nitidamente uma questão de classes. Os ricos ou burgueses têm capitais (econômico, cultural, social) a transmitir aos seus filhos; os pobres ou a massa vive no lado oposto, na ausência desses capitais. Logo, como entender a hercúlea dificuldade do movimento animalista – burguês segundo alguns – tem em entender e utilizar os conceitos de forma correta se são eles dotados de um capital intelectual e cultural privilegiado? O não uso correto dos conceitos no Brasil, não tem a ver com riqueza e pobreza culturais, mas na sua grande maioria, com ação de má-fé. Estudar ética prática e usar de forma correta conceitos e termos também exige mudança de atitude, de perspectiva, exige coerência no falar e no agir (práxis) e é aqui que mora o problema.

Os seis conceitos que considero os mais recorrentes nos debates sobre os direitos animais são: bem-estarismo, especismo, ética, senciência, veganismo e vegetarianismo.

Bem-estarismo
Corrente filosófica, cientifica e jurídica que defende a diminuição do sofrimento dos animais não humanos, a eliminação da dor física e das formas de manejo e confinamento que possam produzir um grande dano neles (como produtos, como propriedade, como fonte de lucro). O bem-estarismo propõe novas leis para diminuir a dor e sofrimento dos animais, mas não os vê como pessoas, indivíduos sencientes que não querem ser usados como coisas, a ideia é minimizar os danos no produto. O bem-estarismo defende maneiras menos dolorosas de exploração, como jaulas maiores, abates “humanitários”, criação extensiva, experimentação com anestésico, ou seja, o status de propriedade dado aos animais não humanos há séculos continua na proposta bem-estarista. Para o bem-estarismo a vida dos animais não humanos tem menor valor moral que a dos animais humanos, por isso, sua atuação é direcionada a melhorar as condições em que os animais não humanos se encontram nas fazendas industriais, nos laboratórios, nos parques de entretenimento, e em todos os locais onde se encontram confinados. O bem-estarismo não vê problema algum no uso que fazemos dos outros animais, o problema, para os bem-estaristas está na maneira como usamos.

Especismo
O criador da palavra especismo, o psicólogo Richard Ryder, se refere a ela assim: “Eu uso a palavra ‘especismo’ para descrever a discriminação generalizada praticada pelo ser humano contra outras espécies, e para estabelecer um paralelo com o racismo. Especismo e racismo são formas de preconceito que se baseiam em aparências – se o outro individuo tem um aspecto diferente deixa de ser aceito do ponto de vista moral. O racismo é hoje condenado pela maioria das pessoas inteligentes e compassivas e parece simplesmente lógico que tais pessoas estendam também para outras espécies a inquietação que sentem por outras raças. Especismo, racismo (e até mesmo sexismo) não levam em conta ou subestimam as semelhanças entre o discriminador e aquele contra quem este discrimina e ambas as formas de preconceito expressam um desprezo egoísta pelos interesses de outros e por seu sofrimento”.

Ou seja, na prática, sempre que se vê um pássaro na gaiola, um peixe num aquário, ou um mamífero não humano preso a uma corrente, está-se vendo especismo. Se alguém acredita que uma abelha ou uma rã tem menos direito à vida e à liberdade do que um chimpanzé ou um humano, ou considera animais humanos superiores a outros animais, está apoiando o especismo. Quem visita prisões aquáticas e zôos (prisões terrestres), vai a circos que incluem apresentações com animais não humanos, veste pele não humana, ou come carne, ovos, mel, leite e derivados, pratica o especismo. Se faz campanha para abates “humanitários” para vacas e galinhas ou confinamento menos cruel para suínos, perpetua o especismo. E o mal herdado da moral tradicional dos “bons costumes” torna-se natural e institucionalizado, e de geração em geração a barbárie vai se banalizando. Infelizmente, é simples assim.

Ética
Ramo da filosofia que investiga, reflete e cria teorias sobre a natureza do certo e do errado, bem e mal, responsabilidade, dever, obrigação, escolha, liberdade, virtude, normas morais e juízos de valor.
O biólogo e etólogo Marc Bekoff nos agracia com a seguinte reflexão: “sabemos que os animais sentem emoções e sofrem em nossas mãos, e isso acontece em nível global. A ética, com E maiúsculo, precisa ter um lugar em nossas atuais deliberações sobre como interagir com outros animais. E estou me referindo à ética da maneira como Sócrates a via, como a noção de “como devemos viver”. A ética requer uma avaliação crítica de quem somos e do que fazemos, justamente com uma visão do que queremos ser. A ética nos ajuda a calcular o melhor curso da ação quando existem muitas opções e as nossas informações são incompletas, condicionais ou conflituosas. Podemos nunca atingir o nosso ideal, mas é necessário formular um que nos sirva de orientação para que façamos escolhas melhores. Quando se trata de nosso relacionamento com os animais a nossa visão de quem eles são e do que significam para nós requer que mudemos o modo como sempre os tratamos. Sabemos que os seres animais não são “coisas” que existem para nossa conveniência. Os animais são seres subjetivos que têm sentimentos e pensamentos, e merecem respeito e consideração. Não temos o direito de subjugá-los ou dominá-los em proveito próprio – fazer com que a nossa vida fique melhor tornando a vida dos animais pior.”

Senciência
O conceito de senciência tem sua origem na junção dos termos “sensibilidade” e “consciência”. Vemos em vertebrados e invertebrados características que os tornam sencientes. Aos animais em relação aos quais podem surgir questionamentos, sobre, serem eles, ou não, sencientes, por uma questão de coerência concede-se o benefício da duvida.

A pensadora Mary Midgley é categórica ao dizer: “não, não somos como os animais, somos animais também”. A pergunta que sempre retomo é, qual a dificuldade em reconhecermos que somos só mais uma espécie entre milhões de outras? Negar a senciência, as emoções e sentimentos em outros animais é negar a própria animalidade que nos define. O que sentimos, eles também sentem, cada um a sua maneira, cada um na sua singularidade. Assim como nós, eles também querem viver livremente com os seus e felizes, comendo e bebendo o que escolheram comer e beber; brincando e se divertindo com quem escolheram brincar; servindo quando achar necessário para o bem do outro que está com ele; copulando com quem escolheram copular. Assim como nós… Simplesmente.

Veganismo
O termo “veganismo” foi criado em novembro de 1944 em Londres por Donald e Dorothy Watson, Elsie Shrigley e outros dissidentes da Vegetarian Society. A insatisfação com o foco de a sociedade vegetariana ser apenas a abstenção de carne (no singular, pois o vegetarianismo pregado de forma errônea pelas sociedades vegetarianas espalhadas pelo mundo é não comer carne bovina) levou esses dissidentes a fundarem a Sociedade Vegana, que estabeleceu um novo modo de vida: o Veganismo. Veganismo é um modo de vida ético que busca a abolição do uso que tradicionalmente os humanos fazem dos outros animais, para alimentação, lazer, vestuário, ciência e companhia. Veganismo é o primeiro passo na construção de uma biografia genuinamente ética, na direção da abolição da exploração animal e, não o último, como muitas pessoas pensam. Veganismo não é reservado a iluminados, puros, espíritos elevados, etc. Adotar o modo de vida vegano é escolher conscientemente – sabendo dos riscos e adversidades – um projeto existencial genuinamente ético e do mais puro altruísmo; é construir autonomamente sua biografia. Algo que está ao alcance de todo agente moral.

Praticar o veganismo é dedicar até o fim da vida aos estudos filosóficos, etológicos, nutricionais, políticos e históricos. Para isso é importante saber que a primeira mudança ao adotar esse modo de vida é interna, espiritual, no plano conceitual. Abandonar conceitos e expressões especistas. Procurar entender, compreender e aplicar a ideia de que todos os animais humanos e não humanos devem ter os mesmos direitos morais básicos respeitados. A mudança é interna, deixar de ver os outros animais como coisas, produtos e passar a vê-los como pessoas. Para essa mudança ocorrer de fato, para que a consciência se expanda é preciso muito estudo. Preguiça intelectual e analfabetismo funcional animalista não combinam com o modo de vida vegano, é na verdade uma contradição e provoca o chamado “tiro no pé” da causa animalista.

Adotar o modo de vida vegano é abolição não só do uso e exploração das outras espécies, mas abolição de toda emoção negativa para com os humanos que ainda não percebem a incoerência ética de suas ações especistas, e o mal que advém dessas atitudes. O veganismo é fundado no principio da não-violência (ahimsa), logo, cabe aos veganos e veganas se opor a lei de Talião. Nada mais contrário ao princípio básico pacifista do veganismo que vermos veganos e veganas pregando ódio a animais humanos que exploram, torturam e consomem outros animais; essa postura inaceitável vindo de quem se diz vegano ou vegana é a demonstração clara de que é mais fácil odiar e propagá-lo do que educar e conscientizar. Educar veganamente sem imposições, autoritarismos e belicismo é um trabalho árduo, cansativo e exige muita paciência, mas é a única via eticamente aceitável.

Vegetarianismo
É uma corrente dietética que preconiza a alimentação de origem vegetal. Logo, a pessoa que se abstém de carne (no singular, é bom ressaltar, para se referir somente à bovina, pois para o imaginário coletivo, peixes, aves, suínos são compostos de qualquer coisa menos carne, graças à propaganda das sociedades vegetarianas que divulgam há mais de um século essa incoerência), mas continua a consumir ovos, leite, laticínios, mel, cochonilha, peixes, aves, ou qualquer outro ingrediente de origem animal, não é vegetariana. Essa incoerência, e até um crime contra os animais não humanos, gera contradições em termos como: ovolactovegetarianismo, lactovegetarianismo, ovolactoapivegetarianismo, e por aí vai. São muitas as contradições em termos para legitimar o consumo biocida de secreções, menstruação e vomito de fêmeas de outras espécies. Vou repetir: se a pessoa tirou um produto de origem animal do prato, mas come outro, ela não é vegetariana.

Ser vegetariano é ser adepto de uma dieta exclusiva do reino vegetal.

Quando se trata de vegetarianismo, duas situações são corriqueiras em termos conceituais: a primeira é a da pessoa que há anos se acha vegetariana, pois acredita, já que foi dessa forma que a ensinaram, que não comer carne é ser vegetariano. Muitos até dizem: “Sou ovolactovegetariano”, como se essa frase representasse um “sou vegetariano”. Aí se uma pessoa mais atenta aos conceitos, diz: “não, você não é vegetariana. Você não como carne bovina, nada mais”. Essa fala é encarada como a máxima das ofensas, o até então “vegetariano” (que come de tudo menos carne bovina) sente-se como se tivesse um status rebaixado: “você esta dizendo que não sou mais vegetariano? Eu sou vegetariano sim, e há mais de 10 anos”. Não, você não deixou de ser vegetariano, na verdade, você nunca foi. A segunda situação é a infeliz insistência de muitos ativistas veganos de longa data em continuar falando, escrevendo e propagando o termo “vegetarianismo” como quem não come carne. Ou seja, tanto leigos quanto ativistas veganos de longa caminhada têm sérias dificuldades em usar o conceito de forma correta. Preferem continuar divulgando o antiquado equívoco das sociedades vegetarianas.

A partir da insistência em continuar divulgando um conceito errado, surge a questão: “Se vegetarianismo é uma dieta exclusiva do reino vegetal, qual o motivo de denominar quem se alimenta assim de vegetariano estrito?”

A caminho do respeito aos direitos morais básicos
Todos os animais têm uma vida própria que é importante para eles, à parte da utilidade que possam ter para nós. Eles não só vivem vagueando pelo mundo como pensam especistas e bem-estaristas, mas são conscientes dele. A vida de um animal é composta de muitas necessidades biológicas, espirituais e sociais; sua satisfação é fonte de prazer e felicidade, sua frustração ou contrariedade é fonte de sofrimento e dor. Nesse ponto fundamental, não há distinção entre os animais aprisionados em laboratórios, nas fazendas industriais, nos zoológicos, ou em qualquer cativeiro, com os humanos excluídos, aprisionados, sequestrados, escravizados, torturados…

Assim, do ponto de vista ético, e como diz Ryder, toda pessoa inteligente e compassiva hoje não aceita que o ser humano seja tratado como recurso de outrem, esse princípio deve também ser aplicado aos outros animais. Não tem outro caminho a não ser reconhecer que ambos, animais humanos e não humanos, precisam ter seus direitos morais básicos respeitados. Tom Regan coloca que “a filosofia dos direitos animais apenas exige que essa lógica seja respeitada”.

A função de todas as veganas e veganos no geral e, todos educadores veganos em especial, é levar a razão ao limite, em termos kantianos, “ousar fazer uso de seu próprio entendimento sem a tutela e o cerceamento de outro”. Depois de levar essa razão ao extremo, voltar, e apresentar bons argumentos que façam os outros, em especial os relutantes, pensarem sobre seu modo especista de se relacionar com o mundo. Para ter uma mudança de hábitos, é preciso, primeiro, ter uma mudança de mentalidade. O primeiro combate a ser travado é no plano conceitual, campo por excelência filosófico como pontuaram os pensadores Félix Guattari e Gilles Deleuze na obra “O que é a Filosofia?”. Ou seja, precisamos estudar ética prática de forma séria, minuciosa. Não é aceitável o analfabetismo funcional animalista. Não há espaço para reformas bem-estaristas, não são jaulas maiores, mas jaulas vazias; não são baias maiores, mas baias vazias; não são abates “humanitários”, mas o fim do abate. Os direitos animais não aceitam as reformas das injustiças, pois não é aceitável reformas de trabalho infantil, nem reformas na histórica submissão que as mulheres foram submetidas ao homem.

Todos os ativistas veganos e educadores veganos deveriam se dedicar aos estudos de ética aplicada, de maneira séria, para que através do conhecimento tenham consciência que para muitas pessoas, nossos argumentos, nossa base lógica, nosso raciocínio ético, não vale de nada. Para muitos especistas e bem-estaristas, os outros animais são coisas, produtos, inferiores e ponto. Não tem exemplo de empatia, altruísmo e raciocínio que convença especistas crônicos a mudar de perspectiva e ver que sua vulnerabilidade a todo tipo de dano é a mesma em todo ser animado. Essa situação criou um senso comum dentro da causa animal no Brasil, a idéia é a seguinte, toda vez que um ativista ou teórico da causa bate na tecla dos conceitos, do apego aos termos certos, a frase que sempre vem como resposta é: “Vocês gostam de ficar rotulando os outros” ou “eu não sigo rótulos”. Não são meras palavras, são conceitos que surgiram de reflexões deliberadas e que balizam os caminhos do movimento animalista, como muitos outros conceitos guiam muitos outros movimentos de justiça social. Não são rótulos no sentido pejorativo como fazem crer especistas, bem-estaristas e não comedores de carne que se acham vegetarianos, são conceitos construídos por uma longa tradição de pensamento ético. É interessante notar que essas pessoas do “não me rotule” seguem e se agarram a uma infinidade de rótulos quando lhe convém.

Lidar cotidianamente com essas pessoas não é motivo para sermos analfabetos funcionais animalistas, pelo contrário, existe um mar de relutantes a nossa volta, é pra eles (e em nome dos animais usados e explorados) que precisamos apurar nossos conhecimentos, estudando seriamente, e usando de forma adequada os conceitos.

Obs: esse texto foi basicamente extraído da obra “Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio” com algumas alterações.

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Colunistas, Educação Vegana

Sobre minhas aulas

“Quem não pode atacar o argumento ataca o argumentador”
Paul Valéry

O caso do meu desligamento da função de professor de filosofia designado por trabalhar em sala de aula temas que ainda provocam incômodos na maioria esmagadora da população, gerou indignação em milhares de pessoas. A essas pessoas indignadas (ativistas dos direitos animais, veganos, vegetarianos, socorristas, simpatizantes da causa animal ou não) sou imensamente grato, pela propagação do ocorrido, pelas assinaturas da petição. Petição que tinha como objetivo, que a Secretaria de Educação olhasse com mais cuidado para o caso ocorrido, teve-o alcançado.

Há pelo menos uma década eu apresento em sala de aula alguns conceitos fundamentais para se entender a proposta teórica dos direitos animais, desse recorte bioético da ética prática contemporânea chamado ética animal, alguns deles são: especismo, bem-estarismo, principio da igual consideração de interesses semelhantes, vulnerabilidade, veganismo, experimentação animal, senciência, somatofobia e direitos morais. Quando faço meu programa de aula no início do ano, ele tem como fio condutor a teoria dos direitos animais e sua prática o modo de vida vegano. Para concretizar esse programa de aula tenho que recorrer a toda historia da filosofia, e não menos, a das ciências e da literatura. Por mais que a seja a filosofia a área que tem o domínio da temática ética, o diálogo em sala de aula tem que ser interdisciplinar para melhor compreensão do tema.

Aqui temos o primeiro problema quanto as minhas aulas. A primeira reclamação de alguns alunos reforçada pelos coordenadores pedagógicos é a de que meu programa de aula não é de filosofia e que trata de um tema único. Começo meu ano letivo a partir de duas bases: a duvida metódica cartesiana e a Alegoria da Caverna de Platão. Como ilustração indico os seguintes filmes: Matrix, A ilha e O Show de Truman. Recorrendo a física, a química e a medicina, questiono se meus alunos estão de fato sentados nas cadeiras, se estão tocando suas canetas, até suas existências – se estão realmente ali na minha frente: “é possível você me provar que existe?”. Assim começa minhas aulas de ética animal.

Falar sobre especismo é falar de uma série de questões levantadas pelos filósofos há séculos, como a posse de “alma” na historia da filosofia. Quem tem alma, só os animais humanos ou os não humanos também a possui? A questão da linguagem. Somente os animais humanos possuem linguagem? O que dizem os filósofos da Grécia Antiga aos dias atuais? E a racionalidade. Os alunos sem saber repetem um mantra aristotélico: “somos um animal racional”. Ninguém duvida que somos um animal dotado de Logos. Mas e os outros? Só a filosofia dá conta dessas questões ou precisamos recorrer à etologia cognitiva e as neurociências?

Falar sobre a senciência é falar daquilo que nos caracteriza como animal. Nós humanos somos capazes de sentir dor e prazer e ter consciência desses estados, e isso é importante até para que possamos nos proteger de danos contra nossa existência. No entanto, devido a uma historia de inferiorização do não humano, somos educados a repetir que nós temos consciência e os outros animais não, eles tentam se proteger “por instinto”. Procuro mostrar aos alunos que isso é negar a animalidade que nos configura. Como discutir a senciência em sala de aula sem passar por Pitágoras, Teofrasto, Plutarco, Montaigne, Voltaire, Primatt, Bentham, Darwin, Singer, Regan, Damásio, entre outros pensadores e cientistas?

Em todo livro didático de filosofia tem pelo menos um capitulo dedicado à filosofia da ciência. O que me impediria de colocar a problemática da experimentação animal numa aula que tem como objetivo refletir sobre os alcances e limites das ciências? Como falar de experimentação animal sem passar pelo “pai” da filosofia moderna, René Descartes? Aristóteles herdou do pai que era médico na corte macedônica a paixão pelas pesquisas biológicas. Como ignorar nas aulas de filosofia que o Estagirita era um vivissector e exímio anatomista, dando detalhes das composições dos outros animais em seus tratados biológicos e ali já encontramos os rudimentos do que hoje entendemos por psicologia comparada? Ao tratar desse tema, temos um belo recurso visual que é o documentário ‘Não Matarás’, produzido pelo Instituto Nina Rosa. A exibição do documentário e o debate suscitado por ele leva muitos alunos a defenderem, sem a noção do conceito, aquilo que chamamos de bem-estarismo. Os alunos defendem que os experimentos com os animais não devem parar, para o bem da humanidade e para o “progresso” da ciência, mas desde que não tenha maus tratos e abuso aos animais; isso é bem-estarismo.

O bem-estarismo anda de mãos dadas com os deveres indiretos. Aqui somos levados a outro conceito, o de direitos morais. Como discutir essa temática sem passarmos pela deontologia em Kant e em Regan? Quem tem e quem não tem direitos morais básicos? Entramos também no campo do contratualismo e do seu antagonista, o utilitarismo. Apresento aos alunos correntes éticas fundamentais para pensarmos essas questões: deontologia, utilitarismo, ética do cuidado, ética das virtudes, entre outras. Ou seja, uma variedade de filósofos em toda a historia da filosofia precisa entrar no debate, são chamados a participar do debate. E o principio da igual consideração de interesses semelhantes do filósofo Peter Singer, não seria a teoria ética que responde melhor a infinidade de preconceitos que temos hodiernamente?

Bom, é impossível tratar de toda essa temática, confrontando o especismo com a senciência, o bem-estarismo com o abolicionismo, e não ouvir dos alunos a seguinte duvida: “professor, você come carne?” ou “você é vegetariano?”. Ao responder que minha dieta é vegetariana e que meu modo de vida é vegano, vem outra pergunta: “o que é isso?”. A resposta ou as repostas que me proponho a dar levam a um debate super rico em termos de interdisciplinaridade, pois os alunos recorrem, para defender os seus usos dos animais, a argumentos de ordem teológica, econômica, biológica, nutricional, jurídica, histórica, sociológica, e isso faz o debate ficar mais interessante. O meu não consumo de produtos de origem animal na minha dieta, já é algo que causa tanto um espanto quanto um incômodo, nos alunos e em seus pais. Por mais que os alunos levem para casa argumentos éticos, nutricionais e ambientais de que não precisamos nos alimentar de nada advindo dos animais, os pais se vêm numa situação de desconforto. Um desconforto totalmente compreensível, pois viveram até aquele momento com a crença de que a carne, os ovos, o leite e os laticínios são fundamentais e indispensáveis a nossa saúde. O problema é a interpretação que se faz dessa problemática apresentada em sala de aula, muitos alunos e seus pais interpretam que eu estou impondo um modo de vida vegano ou a dieta vegetariana a eles. Algo que nunca fiz, pois tenho plena consciência de que esse tipo de mudança é individual, e ninguém impõe veganismo para ninguém. Ser ou não ser vegano é uma decisão que cada indivíduo tem a capacidade de tomar, mas para tomar essa atitude, é preciso ter acesso ao debate, a teoria, a historia dessa ideologia. Quando o filho ou filha chega em casa e diz que não quer mais comer carne ou beber leite, os pais já buscam alguém a quem culpar por esse bárbaro crime que é seu filho ou filha deixar de comer um cadáver. E quem é esse infame corruptor? Eu. Foi o professor de filosofia que disse isso e aquilo sobre esse consumo especista. Logo ele é o culpado. Nenhum pai ou mãe consegue tratar seu filho ou filha como um ser que tem idade e capacidade racional para ler, ouvir, assistir um filme ou documentário e a partir daí chegar a conclusão que não é eticamente justificável aquele consumo até então naturalizado.

É interessante notar que um jovem de dezesseis anos já pode votar. Já tem esse “direito”. Ou seja, com essa idade ele tem capacidade de decidir politicamente quem melhor o representará numa câmara municipal ou estadual, no senado; tem capacidade segundo o PCN, segundo os documentos oficiais que cada Estado estabelece como currículo a ser seguido em filosofia, de entender a proposta ética de Kant, a metafísica de Aristóteles, a critica ao capitalismo de Marx, o existencialismo francês, o contratualismo clássico dos modernos, a vontade de potencia nietzscheniana, as falácias e silogismos tanto na lógica formal quanto na simbólica, os fragmentos dos pensadores originários, da dialética grega a hegeliana; tudo isso está nos manuais, esses são só alguns dos temas dos manuais de filosofia. Mas esse aluno, segundo seus pais e todo o corpo burocrático da escola, não tem condições de entender a temática animalista. É incapaz de ler, entender, discutir e tomar a decisão ética se vai ou não explorar outros animais, isso esse jovem não tem capacidade de fazer, é novo de mais, é inocente de mais, só adota esse tipo de atitude porque foi manipulado pelo professor vegano.

Qualquer pessoa que não é adepta do pensamento mágico, que vive o mundo real, sabe que uma parcela considerável dos jovens de quinze, dezesseis e dezessete anos, tem uma vida sexual ativa. No entanto, se em minhas aulas eu debato com eles sobre a sexualidade através do Banquete de Platão, da psicanálise freudiana ou do existencialismo francês; serei alvo de reclamações e ocorrências dos pais por estar incitando seus inocentes filhos a promiscuidade ou algo do tipo. Pouco importa para o senso comum a produção teórica dos grandes pensadores e pensadoras, o que importa é saber que Safo de Lesbos era lésbica, que os filósofos gregos eram homossexuais, que Agostinho teve um filho com uma prostituta, que Pedro Abelardo se relacionava sexualmente com sua aluna e eterna amante Heloisa, que Marx traiu a esposa com a empregada engravidando-a, que Arendt era amante de Heidegger quando aluna e depois já casada, que Simone de Beauvoir era bissexual e tinha uma relação aberta com Sartre e que ambos tinham relações com suas alunas, que Foucault morreu de AIDS devido uma vida homossexual extravagante… Tudo isso que relatei acima eu ouvi nos últimos anos. A vida sexual do individuo é mais importante que sua produção teórica, que suas reflexões que mudaram o rumo da humanidade em alguns campos do conhecimento. E eu, como Sócrates, serei sempre lembrado como um corruptor de menores.

Outra reclamação recorrente sobre minhas aulas envolve religião. Por mais que eu fale no primeiro dia de aula que não abordarei temas religiosos em minhas aulas, que ficarei em temas da ética aplicada e alguns temas clássicos da filosofia política, sempre tem algum aluno para perguntar algo envolvendo religião. Eu sempre disse que não gosto de falar de religião em sala de aula por saber que é um assunto que eles não conversam no nível da razão, buscando respaldo na historia e na antropologia, mas com um fervor típico da fé religiosa e do pensamento mágico e carregado de verdades absolutas, e isso traz problemas, pois em sala de aula temos católicos, protestantes, evangélicos, espíritas, budistas, umbandistas, ateus e por ai vai. Ou seja, sempre sai confusão entre os próprios alunos quando uma temática religiosa é posta por um deles. Mas ao falar de direitos animais, muitos alunos buscam um argumento legitimador de seu especismo na bíblia, “Deus fez os animais para nós comermos”, “só o homem é a imagem e semelhança de Deus”, “Só os humanos tem alma, os animais não”, e assim segue pseudos argumentos teológicos. Por mais que eu apresente como reposta argumentos de teólogos animalistas, ou mesmo de historiadores da antiguidade e de fontes filológicas, hermenêuticas e exegéticas pra mostrar que a defesa do consumo de animais no cristianismo primitivo pode estar ligado e erros de tradução, sou taxado e acusado de querer destruir a fé e as crenças dos meus alunos.

Nunca fui fã de livros didáticos. Por muitos anos não usei em sala de aula, prefiro usar as obras dos próprios filósofos ou artigos curtos de comentadores. Isso é motivo para mais e mais boletins de ocorrência contra minhas aulas. Infelizmente nosso país legou uma tradição aos jovens que é a de copiar. Não precisar saber ler, ler bem, com cuidado, saber compreender e discutir logicamente com autores e teorias, o importante é copiar o livro didático e ganhar alguns pontinhos ao final do bimestre. Colocar o aluno para copiar feito uma maquina é a prática de um professor modelo, e copiar mecanicamente é a prática de um aluno dedicado. Toda vez que inicia o ano, ao entrar na sala de aula e colocar alguns tópicos no quadro, ouço em coro: “é pra copiar professor?”. Aí eu respondo: “se vocês quiserem”. “Então não precisa copiar, professor?” retrucam os alunos, e eu respondo novamente, “gente, se vocês quiserem, copiem, se não achar necessário, não copie. Eu vou explicar esses temas aqui, tem alguns que aprendem só de ouvir, outros precisam copiar para rever em casa. São vocês que decidem.” Chego a brincar às vezes que essa prática cega deles, ensinada com tanto vigor pelas escolas, não lhes dá o direito de ter o titulo de copistas, como eram chamados os monges medievais, já que para os monges copiarem toda literatura antiga, tinha que ter domínio da língua grega. E infelizmente a maioria de nossos alunos não sabe nosso idioma.

Daí, sou chamado para comparecer em uma reunião para dar explicações do porque não uso o livro didático, e a conversa vai caminhando de forma sutil para algo do tipo: “o que você passa para os alunos, eles não têm nada no caderno? Tem alunos dizendo que sua aula é só conversa, e tem pais dizendo que você não passa nada”. Por mais que eu explique que minha aula é de filosofia, e que eu só preciso colocar alguns conceitos no quadro e depois explicá-los, intercalando com respostas as duvidas dos alunos ao que eu acabei de explicar. De nada adianta dizer que filosofia é confronto de idéias, mediado pela razão, por argumentos lógicos, e que para isso eu não preciso de livro didático. Eu não quero que meus alunos fiquem horas copiando o livro didático, quero que eles aprendam a pensar. É preciso aprender a pensar. E é isso que a filosofia faz, nos ensina a pensar de maneira correta. O que aprendi nesses últimos anos vivendo dentro do ambiente escolar é que ninguém, seja pais ou corpo burocrático, quer formar espíritos críticos, querem é jovens que fiquem calados, sentados, enfileirados, uniformizados e copiando sem parar feito máquinas. Educação bancária já dizia Paulo Freire.

Depois de algumas reclamações concordei em usar o livro didático no meio desse ano. Cometi um crime contra a humanidade, eu pedi aos alunos que copiassem no caderno a apresentação do livro Iniciação à Filosofia da filosofa Marilena Chaui. Os alunos se espantaram. “Como assim? Você Leon, está mandando a gente copiar essa página? Vai fazer como os outros professores que só sabem mandar a gente copiar?”. Não, não quero que vocês apenas copiem. A questão é que como fui acusado de tratar de temas polêmicos e de não usar o livro didático que o Estado mandou, vou mostrar como um livro didático de filosofia pode até ser mais polêmico do que comumente se crê, e vou tentar mostrar os limites da obra também. Então eu li e expliquei os poucos parágrafos que prefaciavam a obra. Texto curtíssimo e magnífico, tentei mostrar que já ali, a autora já mostrava a função crítica da filosofia, a função demolidora da filosofia diante dos costumes e tradições, das crenças costumeiras, das verdades absolutas, etc., e meu foco foi mostrar que nos capítulos seguintes a autora cumpria com o objetivo traçado no prefácio. O que aconteceu comigo? Recebi mais boletins de ocorrência e reclamações contra minhas aulas, agora porque eu pedi aos alunos que copiassem o prefácio de uma página do livro didático. Ora reclamam por não usar o livro didático (leia: por não mandar os alunos copiarem), ora reclamam por estar usando o livro como todos os professores da escola usam. Mas os outros podem, eu não.

Nesse ano, aconteceu algo interessante quanto ao uso de tecnologias. Eu nunca me importei com meus alunos usarem os celulares em aula. Desde que não atrapalhe os interessados na minha explicação, pode usar o celular à vontade. E muitos usavam para comprovar o que eu citava. Por exemplo, numa aula sobre o conceito de senciência, um aluno entrou na internet pelo celular e visualizou alguns sites que traziam a definição e veio me mostrar. Eu percebi que o primeiro link tinha uma definição errada e que o segundo era a definição que usualmente usamos. Aproveitei e avisei a sala que se fosse consultar a internet, era pra entrar no link que tínhamos acabado de ver pelo celular do aluno X. E assim aconteceu com indicações de filmes e de livros. Muitos já procuravam ali, na hora, em sala de aula pelo celular. Qual o resultado disso? Mais reclamações dos pais e dos professores, mais boletins contra minhas aulas, pois eu “estava influenciando os alunos a usarem celular nas aulas, e isso era contra o regulamento da escola”. O que me chamou a atenção foi uma reunião em meados de agosto, onde foi convidada uma palestrante para falar sobre uso de tecnologia na escola para os professores. E o que a especialista indicou e frisou que deve ser usado pelos professores e alunos como recurso didático? Sim, ele mesmo, o celular. E todo mundo hipocritamente bateu palma e elogiou a palestra, felizes e sorridentes. Opa! Mas espere um pouco, e o regulamento da escola que proíbe usar celular na sala de aula, como fica?

Dando continuidade ao uso das tecnologias como recurso didático, eu criei um grupo no facebook, chamado “filosofia na escola estadual …”, onde eu publicava artigos, documentários e filmes que eu comentava e explicava em sala de aula. Minha intenção era complementar o que já vinha sendo debatido em aula. Por exemplo, eu marquei uma prova sobre experimentação animal, objeção de consciência, etc, e coloquei as questões no quadro com um mês de antecedência. “Pessoal, essas aqui são as questões da prova do mês que vem, esse aqui é o documentário que trata dessa questão. Eu também coloquei eles lá no nosso grupo do facebook. Se algum colega não tiver acesso ao facebook, peça ao amigo que copie lá, ou imprima. Mas não terá problema algum se não acessar, pois o conteúdo da prova é o que estamos debatendo nas ultimas semanas”. Fui atacado por alguns alunos e pais, com a acusação de dar aulas pelo facebook, usando o nome da escola indevidamente ao nomear o grupo (filosofia na escola estadual…) e que eu estava discriminando os alunos que não têm acesso a internet. O que me chamou a atenção, é que para todas as matérias, qualquer trabalho exigido pelos professores, alunos que tinham e não tinham acesso a internet, chegavam na escola com o trabalho feito. Recorriam a casa de amigos, a lan house, a celulares, etc. Mas utilizar um grupo no facebook que apenas reforçava o que já tinha sido debatido em aula, é pedir um trabalho ao aluno que se assemelha ao de Sísifo. Fui informado que não poderia usar o nome da escola para fazer o grupo para os alunos, então eu mudei para “Filosofia na escola primaria de Springfield”. Foi a gota d’água. Foi parar em BO. Adiantou eu explicar que Os Simpsons são parte fundamental das minhas aulas de filosofia e ética aplicada? Óbvio que não. Uso não só os Simpsons, mas Batman, X-men, Superman, Crepúsculo, Matrix entre outros.

As reclamações surgem ao falar sobre os malefícios do leite e laticínios. Surgem ao definir ovo como menstruação de galinha. Ao criticar as políticas de sustentabilidade ecológicas que fecham os olhos para a pecuária e a indústria leiteira. As reclamações surgem por causa das críticas ao uso de animais para entretenimento, pois aqui é uma região de cavalgada e rodeio. Surgem das críticas a experimentação animal, prática comum (na semana científica) no ensino médio dos institutos federais da região. 70% dos BOs, foram registrados tendo como pano de fundo alguma temática animalista direta.

Outros 30% são oriundos da minha postura em aula, sentando sobre a mesa, e deixando que os alunos sentem onde querem, ou não, se não quiser sentar que fique em pé; do permitir que usem o celular na minha aula, por usar a tecnologia para facilitar o processo de aprendizagem dos alunos; do uso e do não uso do livro didático; por ter publicado no Facebook uma foto de família comemorando o dia do meu aniversário (11/09), e isso foi registrado como apologia ao crime; por pouco me importar se o aluno está ou não com o uniforme; se está usando boné ou não na minha aula.

Ao ser informado que alguns alunos, alguns pais e até alguns professores estão reclamando do impacto das minhas aulas, eu faço aquilo que sempre fiz. Disponho-me a conversar, peço pra marcar uma reunião, para que eu possa desfazer mal-entendidos, algo corriqueiro no mundo escolar. Não é novidade nenhuma que professores falam A, os alunos levam B para casa e os pais entendem C. Para explicar o que realmente eu disse em aula, é preciso que os pais venham até mim e conversemos. Mas o que fazer quando os pais se recusam a dialogar com o professor? A minha sala de aula sempre esteve aberta para pais, diretores, coordenadores pedagógicos, ou quem mais quiser assistir minhas aulas. Mas nunca se dispuseram assistir essas aulas tão perigosas. Eu confio profundamente na fundamentação teórica das teorias que apresento e discuto em aula. Utilizo de toda a historia da filosofia para sustentar minhas afirmações em aula.

Nos dois últimos anos estava lecionando como professor designado, basicamente um tapa-buraco onde não tem um corpo de profissionais todo efetivo. E pela resolução sobre a designação eu fui desligado de minha função, com uma punição de ficar afastado por três anos como designado. Após toda a repercussão que tomou meu caso, que agradeço imensamente a todos que divulgaram movidos pela indignação com a arbitrariedade típica de um Estado autoritário, sou informado que meu desligamento não tem vinculo com minhas aulas de direitos animais (70% das reclamações), mas sim pela minha postura antipedagógica, irresponsável até com o que é determinado como moralmente correto pela comunidade escolar (os 30% citados acima).

Há poucos meses passei no concurso público. Agora fui afastado como designado, mas em breve voltarei como professor efetivo de filosofia.

Para todos que quiserem saber mais sobre a acusação fundamental de que eu não dou aula de filosofia e de que não cumpro com o currículo oficial do Estado, leiam esse artigo.

Se quiserem ler minha reflexão sobre a prova oficial do Estado aplicada no meio desse ano, leiam.

Obrigado a todos pelo apoio ao meu trabalho.

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Colunistas, Educação Vegana

Avaliação de filosofia e o especismo institucionalizado

No inicio do ano letivo, na primeira reunião “pedagógica” é pedido aos professores que façam seu planejamento anual, ou seja, que coloquem no papel o conteúdo que irão trabalhar com os alunos durante o ano e, entregue o mesmo à coordenação pedagógica da unidade escolar.

Planejamento esse, que na verdade é mais uma copia do que reza a cartilha governamental: o que consta nos livros didáticos, nos PCNs, e no caso aqui, no CBC – Currículo Básico Comum. Não há nada de novo, é o eterno retorno do mesmo.

No meu caso, ao entregar meu planejamento parece surgir um problema para o corpo burocrático escolar, que na sua grande maioria não têm familiaridade com a Filosofia, com sua historia e com as reflexões críticas oriundas de sua prática. O suposto problema é que ao colocar como tema a ser trabalhado durante o ano, o especismo, a senciência, direitos morais, experimentação animal, abolicionismo versus bem-estarismo, direitos animais, entre outros, os mesmos não são encontrados na proposta curricular do Estado. É importante ressaltar que o CBC é uma proposta curricular, uma proposta, mas nas escolas “proposta” é sinônimo de obrigação. Essa incapacidade de encontrar tais temáticas na proposta curricular do Estado é devido a não familiaridade com a historia da filosofia e sua gigantesca variedade de temas desenvolvidos e debatidos no decorrer dos séculos.

Como a escola é uma instituição rígida que tem curricularmente se mantido em pé em cima do livro didático e da proposta curricular de Estado; pouco importa se na bibliografia de seu planejamento é colocada a fonte filosófica dos temas a serem desenvolvidos em sala de aula.

Os temas da ética animal causam um abalo, uma crise na moral tradicional seguida até então sem questionamento pelos alunos e alunas. As indagações que os alunos e alunas levam para casa advindas do incomodo causado pelas aulas de filosofia crítica animalista fazem com que os pais apresentem reclamações e ocorrências junto ao corpo burocrático da escola pedindo o fim das aulas de filosofia ou a expulsão do professor da unidade escolar.

No entanto, há poucos meses, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, enviou uma avaliação para ser aplicada nas escolas (PAAE – Programa de Avaliação de Aprendizagem Escolar). Nunca antes uma prova oficial tinha gerado tanta felicidade em um educador vegano. É uma avaliação de filosofia baseada no CBC e composta de onze questões. Segue cinco dessas questões. No primeiro enunciado lemos:

“Segundo Cícero, a natureza criou cada animal com seu corpo apropriado para evitar o que lhe faz mal, permitindo-lhe buscar o necessário a alimentação, ao abrigo e a manutenção da vida. Os animais não humanos são guiados apenas pelos sentidos e, por isso, não refletem sobre o mundo, nem tem consciência do passado, do presente e do futuro. O ser humano, por outro lado, é capaz de perceber a mudança temporal e, com isso, pode antecipar aquilo de que ele pode precisar no trajeto da sua vida.”

Essa questão é super interessante. Primeiro, vemos o uso do termo “animais não humanos”, algo comum apenas no meio animalista; depois temos a clássica divisão especista entre o ser humano e os outros animais pelo critério da posse de consciência, de noção temporal, ou seja, humanos agem pelo uso da razão e os outros animais movidos pelos sentidos. Somente esse enunciado dá uma aula inteira. Podemos responder ao especismo de Cícero com a ajuda de outros filósofos Greco-romanos como Plutarco e Porfírio. Podemos, também, discutir com os alunos sobre essa perspectiva especista em Heidegger que assim como Cícero, defende que os animais não humanos não se vêem no mundo.

Na segunda questão:

“A ampla maioria dos animais nasce sabendo o que fazer para sobreviver. Algumas poucas espécies passam por um período de aprendizagem. No entanto, os animais, mesmo quando aprendem, estão sempre direcionados a buscar coisas já existentes na Natureza. O leãozinho aprende a caçar, mas ele só aprende a caçar animais existentes na Natureza. Ele não é capaz de inventar um objeto. Os homens, pelo contrario, nascem sem saber o que fazer para sobreviver. Eles precisam inventar o que querem e o que vai satisfazer esse desejo.”

Nessa questão vemos como o especismo impede o ser humano de usar a própria lógica e racionalidade de que tanto se vangloria de possuir e os animais não. A estratégia de inferiorização é nitidamente aplicada, os animais até aprendem, mas restritos ao ambiente natural. Viver usando e modificando a seu próprio modo o seu habitat natural por parte dos animais é sinal de inferioridade. Os animais são apresentados como incapazes de inventar objetos, instrumentos para ajudar na manutenção de sua vida cotidiana. Hoje, inicio do século XXI, não há afirmação mais infeliz e fora de propósito, ainda mais vindo de profissionais que elaboram avaliações de filosofia. Gabar-se de que é a filosofia e os filósofos os que mais têm domínio no uso da razão, da lógica, é fácil; o problema aqui é ver se estão pensando minuciosamente mesmo, aplicando de fato essa lógica, pois afirmar que somente os humanos criam objetos para satisfazer desejos é risível, pueril e de uma desonestidade intelectual sem tamanho.

No quarto enunciado, onde os alunos deveriam diferenciar experiência de experimentação, temos:

“O Dr. Ramos foi à Roma para participar de um experimento científico. Antes, porém, visitou o Coliseu. Entrou devagar, imaginando a multidão agitada para assistir às lutas entre os gladiadores. Ficou pensando no luxo da corte imperial e também no suor e no sangue daqueles que muitas vezes perdiam a própria vida para proporcionar diversão ao povo.

No outro dia, Ramos foi até o complexo industrial farmacêutico, e, numa sala climatizada e depois de todos os procedimentos de assepsia de praxe, preparou a fórmula do fármaco experimental e aplicou a dose prescrita em doze camundongos. Dez dias depois, os camundongos foram sacrificados e seus fígados preservados para análise.”

Um ponto a ressaltar é que quando o educador vegano faz uma crítica à experimentação animal em aula, mesmo utilizando de uma ampla bibliografia (incluindo o próprio livro didático e o CBC que colocam a ciência sob o olhar da Ética, destacando os limites e impactos do “avanço” científico) e ilustrando com o documentário “Não Matarás”, ele é convocado a dar esclarecimentos devido às reclamações dos pais dos alunos. Será que o que incomoda é a perspectiva crítica abolicionista do educador vegano diante da apresentação da experimentação científica no CBC e no livro didático?

O enunciado da sétima questão diz:

“Uma das principais diferenças entre o homem e o animal é que os animais produzem o estritamente necessário, enquanto o homem produz o necessário, mas vai além e constrói a celebração, que está muito além da necessidade. O homem produz de verdade quando se vê livre da necessidade, porque ele projeta primeiro o que vai fazer e só depois executa o trabalho. O que ele faz e produz primeiro existe como projeto em sua mente e só depois se transforma, pelo trabalho, em realidade. A racionalidade, assim, é um dos melhores instrumentos que o homem possui para fazer projetos, para realizar os seus desejos. Desta reflexão, infere-se que a racionalidade é”

Nessa questão temos a clássica definição de razão instrumental. O enunciado é todo elaborado num clichê sociológico, cuja fonte é a obra O Capital de Karl Marx; quando esse se serve do exemplo da abelha e da construção de sua colmeia. A obra da abelha é magnífica, porém, como ela não é racional e age por mero instinto, sua construção é desqualificada diante da construção do mais tosco banco pelo homem, já que esse antes de construir o banco projetou-o em sua mente. Isso sim, para Marx, no embalo dos iluministas, é a representação máxima da racionalidade e, logo, de superioridade humana. A partir da definição de trabalho marxiana, pergunto: o que distingue o trabalho escravo humano do trabalho escravo equino? Marx era leitor de Darwin, inclusive teve a ideia de dedicar o primeiro volume d’O Capital ao evolucionista britânico. Mas Darwin prontamente recusou a homenagem. Será que o especismo de Marx e sua defesa da razão como um atributo exclusivo do humano foi fator que contribuiu para a recusa da homenagem?

Por fim a oitava questão traz:

“Somente o homem, através da cultura, é capaz de transformar a natureza, de modificá-la de acordo com seu desejo. Só os homens produzem as suas próprias condições de existência, adaptando a natureza aos seus desígnios. Mas muitas das qualidades (atributos) do ser humano são partilhadas com os outros animais do planeta. Porém, há uma qualidade (atributo) que é exclusiva do homem.

Essa qualidade é identificada como:

a)abstração, b) instinto, c) inteligência, ou d) linguagem.”

Esse enunciado da avaliação é interdisciplinar, um diálogo especista entre Filosofia, Sociologia e Antropologia. O clichê ultra-ultrapassado de que só o homem faz cultura, que só ele modifica a natureza construindo objetos para dar cabo a seus desejos, que somente ele é um ser biográfico. E como todo material pedagógico especista, precisa fechar tentando elencar algum atributo que supostamente é exclusivo do humano, que o distingue dos outros animais.

Essa avaliação oficial, de um programa do governo de Estado tanto pode ajudar a reforçar o especismo legado pela moral tradicional, como pode via análise de um educador vegano ajudar os alunos e alunas a compreenderem as falácias apresentadas nesses enunciados e não menos a ideologia dominante embutida neles.

Essas cinco questões da avaliação do PAAE, cuja fonte é o CBC (CBC que junto com os manuais de filosofia do ensino médio) são fundamentais na confirmação de que a introdução da teoria dos direitos animais e do modo de vida vegano nas aulas de filosofia é legítima e necessária. Restringir o trabalho pedagógico em aula a apenas duas fontes (livro didático e CBC) é limitado, demasiado limitado. Mas suponhamos que o professor seja “obrigado” a restringir seu material de trabalho ao livro didático, exemplo, Iniciação à Filosofia, de Marilena Chaui. Sem problemas. Textos especistas também servem para a desconstrução do especismo.

Na apresentação de sua obra a pensadora assim se expressa:

“Neste livro, procuraremos mostrar que as imagens costumeiras do filósofo [que vive no mundo da lua] e da filosofia [que é inútil] não correspondem à realidade. De fato, elas surgiram como tentativa para rebaixar a atividade do pensamento porque este questiona as crenças e os preconceitos que formam o senso comum da sociedade.
[…]
Este livro é um convite ao questionamento, à reflexão, ao trabalho do pensamento na busca da verdade, na compreensão do sentido de nossas idéias, de nossos sentimentos e emoções, dos valores de nossa cultura e de nosso desejo de liberdade e de felicidade.”

Filosofia é isso, questionamento das crenças cotidianas, das tradições e costumes. Reflexão crítica sobre o cultural ideologicamente passado como natural. É muita inocência do corpo burocrático das escolas acreditar que “impondo” o uso do livro didático e do CBC a manutenção da engrenagem da alienação estudantil e do status quo continuará funcionando como outrora. Quando o professor é movido por princípios políticos e éticos sólidos e munido de uma reflexão filosófica crítica o “convite” feito pelo livro didático é aceito sem problemas, assim como a “proposta” curricular do Estado, pois não existe material limitado que não possa ser usado para ampliar as fronteiras do nosso conhecimento sobre o mundo.

Referências

CHAUI, Marilena (2013). Convite à filosofia: ensino médio, volume único. 2. Ed. São Paulo: Ática.

DENIS, Leon (2012). Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio. São Paulo: Libratrês.

______ (org.) (2014). Educação & Direitos animais. São Paulo: Libratrês.

______ (2010). Direitos animais: um novo paradigma na educação. In: ANDRADE, Silvana (org.) Visão abolicionista: ética e direitos animais. São Paulo: Libratrês. p. 171-179.

______ (2013). Se não é Filosofia, é o que? Disponível em: https://www.anda.jor.br/23/07/2013/se-nao-e-filosofia-e-o-que-2
PAAE. http://paae.institutoavaliar.org.br/

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Colunistas, Educação Vegana

Bem-estarismo no livro didático

O movimento em defesa dos animais não humanos no Brasil, de cunho abolicionista, é algo bem recente, pouco mais que duas décadas. Comparado com outros países, em especial de língua inglesa, apenas começamos a engatinhar nessa caminhada. Mas devido ao maciço uso da internet, o conhecimento sobre o que é o modo de vida vegano, sua dieta vegetariana e sua fundamentação teórica, os direitos animais, tem atingido um numero bem expressivo de pessoas. Por outro lado, é justamente o uso de forma amadora, no calor da emoção, ou até mesmo de má-fé da internet que tem divulgado de maneira equivocada as definições de termos e distorcendo conceitos muito caros a historia da defesa ética dos animais não humanos.

Devido à popularização do movimento vegano, alguns autores de livros didáticos têm incluído em suas obras algumas referencias à problemática do status moral dos animais não humanos. A descoberta desses livros, que já estão no mercado editorial há alguns anos, tem causado uma certa euforia nos ativistas, seja aqueles que estão fora do mundo educacional escolar, seja daqueles que estão dentro da escola, mas a enxerga com um olhar romântico do século XIX.

Receber esses livros com jubilo e louvor e divulgá-los como algo magnífico e esplêndido para a causa animal ultrapassa a barreira da inocência e cai na mais pura má-fé. Essas obras trazem um discurso declaradamente bem-estarista, utilizando termos especistas para se referir a relação dos humanos com os não humanos. Se fundamentam em termos que a historia do movimento já mostrou serem mais que prejudiciais aos animais.

Espera-se que os educadores veganos abolicionistas não caiam nesse engodo bem-estarista. Aceitar e utilizar livros que reforçam termos e conceitos errados não contribui em nada para a causa. Sabemos que aceitar e usar esse tipo de material é reproduzir e reforçar aquilo que queremos abolir. É bem trabalhoso introduzir, debater e desenvolver uma consciência ética animalista abolicionista nas escolas, mais trabalhoso ainda, será, depois, desfazer o erro secular que agora vem maquiado como avanço. Pior ainda, não temos em todas as escolas do Brasil um educador ou educadora vegana (com um alto grau de leitura e conhecimento da literatura animalista abolicionista), nem pra introduzir o modo de vida vegano e os direitos animais, muito menos pra desfazer o que vem sendo divulgado como defesa dos animais, mas que não passa de bem-estarismo, especismo maquiado.

O argumento de que enquanto não temos livros didáticos animalistas abolicionistas, é um avanço que tenhamos alguns livros, de varias disciplinas, que introduzem um capitulo ou um box que seja, sobre o vegetarianismo, veganismo e direitos animais, mesmo que sejam definições erradas; essa é a velha falácia bem-estarista de que enquanto não vem a abolição, vamos nos contentando com o que tem de bem-estarismo por aí. Na linguagem bem-estarista: “já é um avanço”. Avanço pra quem?

O que impede um autor de livro didático de consultar as principais referencias na ética animal na hora de introduzir um box ou um capitulo sobre a temática do status moral dos animais em seu livro? Uma resposta simples, que não exige muito malabarismo intelectual é: seu especismo. Não dá pra esperar de autores especistas que escrevam capítulos ou boxes em seus livros numa linguagem vegana abolicionista. Esperar isso é inocência.

Inocência que deve passar longe da práxis dos educadores veganos. Inocência em demasia leva a estupidez, e essa à manutenção do status de coisa, de propriedade dado aos animais há séculos. Somente um educador bem-estarista comemora a introdução de conceitos equivocados em livros didáticos.

Que os poucos educadores veganos espalhados pelo Brasil sejam mais criteriosos, e principalmente críticos ao usarem livros didáticos. Crítica e autocrítica é uma das características que não devemos abandonar.

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Colunistas, Educação Vegana

Educação vegana e a desconstrução da razão

O ambiente de ensino é uma escola pública no interior de um Estado do sudeste brasileiro; o público é adolescente, com idade de catorze a dezoito anos; o tema da aula é o conceito de especismo, termo criado por Richard Ryder, e o “princípio da igualdade na consideração de interesses semelhantes” desenvolvido por Peter Singer.

Chama demasiadamente a atenção como uma ideia (como a suposta superioridade do ser humano sobre os não humanos) depois de muito divulgada, por séculos, torna-se um habitus, uma disposição incorporada. Como desconstruir essa ideia – o especismo – e abolir sua materialização, o costume de consumir tudo que é oriundo do uso dos animais não humanos?

A explicação sobre o que é especismo é clara. O conceito está bem definido em analogia com o racismo e o sexismo. Os alunos acompanham o raciocínio de Ryder e de Singer. Toda argumentação apresentada para mostrar a incoerência de um pensamento e ação racistas e igualmente a prática sexista, é aceita e apoiada. No entanto, quando o ser discriminado é de outra espécie, aí toda lógica, todo argumento por mais bem embasado que esteja parece se dissolver.

Os alunos recorrem a frases como, “estamos [humanos] no topo da cadeia alimentar”, “somos animais racionais e os outros animais são irracionais, agem por instinto”, “precisamos da carne por causa da proteína”, “somo seres sociais, desenvolvemos cultura”, “é um absurdo comparar humanos com os animais, nós temos alma, eles não”, “Deus criou os animais para nos servir, está na bíblia”, entre muitas outras. Para desconstruir cada frase o educador vegano precisa basicamente ser uma enciclopédia ambulante, ter um conhecimento razoável de biologia, historia, teologia, nutrição, filosofia, sociologia, etologia, zoologia e o que mais puder ler, mas essa não é a questão.

A questão é o peso do ensino antropocêntrico especista passado dia-a-dia nas escolas. Os alunos não aceitam a lógica que desmonta a ideologia e a prática especistas recorrendo aos conhecimentos adquiridos nas aulas de ciências, historia, português, matemática, artes, educação física… Da pré-escola ao ensino médio, são muitos anos ouvindo falácias legitimadoras da naturalização de uma cultura biocida. Como o educador vegano desconstruiria a razão instrumental que guia e inspira as ciências ensinadas nas escolas? Usando a razão crítica, a lógica, um apuradíssimo e radical raciocínio ético.

No entanto, os anos de experiência em sala de aula, de ação direta pedagógica no combate ao especismo já demonstrou que a razão tem seu limite, seja a que alimenta o uso dos animais não humanos, seja a que os defende numa abordagem vegana abolicionista. Para qualquer educador vegano bem nutrido filosoficamente, a desconstrução da razão antropocêntrico especista é algo fácil de fazer. Mas e quando o uso dos animais não esta centrado em argumentos, mas em costumes, em habitus? O que fazer quando um aluno diz: “professor, entendo perfeitamente o que o sr. disse. Concordo com tudo o que foi dito. Realmente não é justo o que se faz com os animais, mas eu gosto de beber leite com chocolate”?

É possível argumentar contra o “eu gosto”? A razão crítica tem o poder de desconstruir a razão instrumental, mas teria ela eficácia diante do “eu gosto”? Aparentemente catorze, dezesseis ou dezoito anos é muito pouco tempo para alguém se apegar tanto a prazeres gastronômicos e de entretenimento a ponto de dizer com excessiva convicção “eu sei que é injusto, que não é ético, mas eu gosto de comer, eu gosto de assistir… e não vou parar, é gostoso”. Como reeducar aqueles que foram educados a colocar os prazeres individuais supérfluos acima do direito a vida e a liberdade de outros indivíduos?

Será que além da desconstrução da razão, a educação vegana terá que também desconstruir sentimentos?

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A Compaixão

Em sua Retórica, Aristóteles nos dirá que a compaixão é uma forma de aflição provocada por um mal que fere outro indivíduo que não merece ser ferido. Sentimo-nos compadecidos, diz o filósofo, porque imaginamos que o mesmo pode acontecer conosco ou com alguém próximo a nós. Estaríamos aqui diante da empatia.

Aqueles que pensam gozar de uma excessiva felicidade, são propensos ao descomedimento, por terem todos os bens a sua disposição, acreditam não serem suscetíveis de sofrerem mal algum. Não pensam que o estado de vulnerabilidade a todo tipo de dano é inerente a todos os indivíduos, humanos e não-humanos. Do outro lado, temos os indiferentes com o sofrimento alheio por terem sofrido um mal tão intenso que não se comovem mais, são incapazes de se compadecer.

Segundo Aristóteles, para sentir compaixão é preciso encontrar-se num estado intermediário. Logo, dentro se sua proposta da busca do justo meio, seria algo como, nem dominado por uma paixão audaciosa ou por um espirito insolente, que impede de ver que pode a qualquer momento sofrer um dano; nem ser dominado por um temor excessivo, apavorado, vivendo mergulhado por inteiro no próprio sofrimento. O pensador ressalta a importância de recordarmos que, a nós e aos outros, acontecem semelhantes desgraças.

Muitas são as causas da compaixão, dentre elas, podemos citar:

a) Os diversos tipos de morte: compadecemo-nos ao saber e ver cenas de animais mortos após serem abandonados; mortos pelo transporte do seu habitat natural para algum cativeiro público ou particular; mortos após intensa tortura psicofísica, etc.;

b) Maus-tratos e ferimentos: compadecemo-nos ao ver animais sendo espancados, torturados, feridos com os mais diversos tipos de objetos, queimados, esquartejados vivos, etc.;

c) Doenças e falta de alimentação: compadecemo-nos ao ver cenas de métodos experimentais que inoculam doenças em animais humanos e não-humanos para aquisição de uma suposta cura de males humanos; ao ver animais doentes por negligência humana; sofrendo e extremamente debilitados por serem privados de alimento e bebida.

d) Carência de amigos e familiares: compadecemo-nos ao ver cenas de animais gregários sendo sequestrados, sendo tirados do convívio com seus amigos e parentes no seu habitat, para viverem o resto de uma miserável e degradante vida numa jaula ou aquário para satisfazer um frio e insano prazer humano (para Aristóteles, o ser arrancado de seus amigos e familiares constitui uma situação lastimável e é um dos males que gera a compaixão).

Podemos acrescentar aqui o dano/sofrimento que chega quando se espera um bem, sobretudo quando esse dano/sofrimento se repete muitas e muitas vezes. Outra situação que gera em nós compaixão é vermos o outro obtendo uma vantagem somente depois de ter sofrido demasiado dano. Para ilustrar esse exemplo, Aristóteles conta o caso dos presentes enviados pelo Grande Rei, a Diopites, no entanto esse último já estava morto quando da chegada dos presentes. Na causa animal, situação semelhante ocorre constantemente. Quando um grupo de ativistas prepara um resgate, mas chegar o momento efetivo do resgate, ou seja, da libertação daquele animal de uma situação de opressão, o mesmo já se encontra morto. Quantos resgatados nas ruas, extremamente debilitados, falecem ao chegar no consultório veterinário. O não conseguir desfrutar de um bem que estava próximo, gera compaixão.

Uma outra causa da compaixão é ver os animais não-humanos não desfrutando de bem algum ou não podendo gozar dos bens que possuem naturalmente. Essa é justamente a função do especismo, impedir que os animais não-humanos desfrutem do bem próprio de sua espécie. A principal causa da compaixão como uma excelência, é o sentimento de injustiça. Compadeço-me porque não é justo todo esse mal feito cotidianamente como algo natural. Dor é dor independente da espécie. Simples assim.

Com Aristóteles vemos que a compaixão vem da semelhança, da igualdade. Nos vemos no sofrimento do outro. Com kant, séculos depois, aprendemos que devemos desenvolver a capacidade de sentir compaixão. Isso faz dela uma virtude, pois se torna um esforço, um poder e uma excelência. Hoje sabemos que essa virtude teve grandes opositores, como os Estoicos, Spinoza, Nietzsche e Arendt; mas teve grandes defensores, dentre eles, Schopenhauer.

Schopenhauer via a compaixão como o motor por excelência da moralidade e a gênese – insuperável e não suscetível de ser abatida – de seu valor. A compaixão como virtude é antagônica à crueldade (que é vista como o mal maior) e ao egoísmo (como algo que está na origem de todos os males). O compadecer com todo o individuo que sofre, seja humanos ou não-humanos, faz da compaixão uma das mais universais de nossas virtudes.

É nossa condição de senciente, de sofrer e saber que sofre, que só aumenta a angustia, o pavor, o desespero; que nos iguala aos outros animais. Somos semelhantes como seres dorentes e sofrentes, por isso, aquele que compadece se vê no sofrimento do outro. A compaixão só tem sentido, ou melhor, só se realiza numa relação de igualdade entre aquele que sofre e aquele que compartilha do mesmo sentimento. Só nos compadecemos por aquele que respeitamos.

Nessa altura poderíamos indagar, é possível ensinar a ser compassivo? Sim. Tanto quanto é possível ensinar a ser frio e a banalizar a dor e o sofrimento que o outro está sentindo. É possível ensinar que dor é dor, independente da espécie que a sente.

As artes, que em toda sua historia sempre nos educou, pode ajudar no processo de despertar essa virtude. Na poética, ao dissertar sobre que fins os poetas devem ter em vista ao organizarem suas fábulas e que meios deveriam utilizar para que a tragédia surta efeito máximo, que é excitar o temor e a compaixão, Aristóteles nos diz que a compaixão nasce do vermos o outro sofrendo injustamente infortúnios. Podemos ler na obra:

“O temor e a compaixão podem nascer do espetáculo cênico, mas podem igualmente derivar do arranjo dos fatos, o que é preferível e mostra maior habilidade no poeta”.

Mais adiante o pensador assevera:

“Como o poeta deve proporcionarmos o prazer de sentir compaixão ou temor por meio de sua imitação, é evidente que estas emoções devem ser suscitadas nos ânimos pelos fatos”.

Na prática educativa vegana, é comum o uso de filmes e documentários, dentre eles, o mais famoso é o Terráqueos. Mais fiel aos fatos impossível. Mais realista na exibição do sofrimento animal impossível. Por mais que Aristóteles destaque que é o sofrimento do mais próximo que nos leva comumente a compaixão, o resultado da exibição do documentário Terráqueos é uma demonstração clara – não em 100% das vezes – que as distancias geográfica e biológica podem, se não somos especistas, praticamente desaparecer. Sentimos compaixão e angustia ao ver as torturas de outras espécies no outro lado do planeta.

Seja por uma peça teatral que imita o sofrimento animal, seja vendo o literal sofrimento num documentário, é importante enriquecer esse processo educativo com a consciência da senciência, ela contribui na formação de seres mais compassivos e empáticos.

Ser virtuoso é praticar cotidianamente pensamentos e ações virtuosas. Para tal, precisamos aprender com alguém, precisamos nos espelhar em alguém. E em geral os educadores são vistos como modelos, como exemplos; logo, que os educadores veganos sejam exemplos de indivíduos guiados pelo princípio da não-violência. Que a não-violência seja o telos a ser alcançado com uma vida dedicada ao exercício da prudência, da coragem, da temperança, da compaixão, sem os quais, não se faz justiça.

Assim como todas as outras virtudes, a compaixão como justo meio, o compadecer com as injustiças impostas aos animais humanos e não-humanos, deve ser algo a ser buscado. É algo que pode ser ensinado assim como aprendido. É uma virtude não só enriquecedora de nossa humanidade, mas muito além, é uma excelência da animalidade.

Referência

 

ARISTÓTELES. Retórica das paixões. São Paulo: Martins Fontes, 2000. (edição bilíngue: grego-português).
_____________. Arte Retórica e Arte Poética. São Paulo: Difel, 1964.
_____________. Poética. São Paulo: Abril Cultural, 1977 (Os pensadores).

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A Responsabilidade

“Como o objeto da escolha é algo ao nosso alcance, que desejamos após deliberar, a escolha será um desejo deliberado de coisas ao nosso alcance, pois quando, após a deliberação, chegamos a um juízo de valor, passamos a desejar em conformidade com nossa deliberação”
Aristóteles

Em sua Ética Nicomaqueia, Aristóteles diz que somos responsáveis por nossas más ações, tanto quanto pelas boas. Jean-Paul Sartre em seu O existencialismo é um humanismo, dirá algo parecido.

Seria a responsabilidade uma virtude? Seria ela uma excelência moral como a Justiça e a Temperança? Se tomarmos a virtude como um hábito ou disposição racional de escolher por deliberação, a responsabilidade, por nossas ações e omissões, é sim uma excelência moral. Quando se trata da causa animalista os DDAs e, em especial os educadores veganos, deveriam ser as pessoas guiadas por um desejo deliberado, qual seja: o de considerar igualmente interesses semelhantes aplicando assim a justiça a animais humanos e não-humanos.

Segundo a filósofa Sônia Felipe, “apenas a ética abolicionista animalista atinge o cerne da questão do antropocentrismo especista que rege a moralidade humana há milênios, pois ela é a única que sustenta a tese da igualdade de interesses entre seres igualmente sencientes, não se podendo mais discriminar um em favor dos outros […] não há como exigir que não nos causem dor, sofrimento, tormenta e morte, enquanto fazemos tudo isso aos outros animais”.

A responsabilidade ética do animalista, sua práxis, é um exercício diário de praticar aquilo que se prega no plano conceitual. Educadores veganos, geralmente, são vistos como exemplo de coerência entre o que se dizem e o que fazem. Os princípios éticos levantados em defesa dos animais não-humanos, também devem ser aplicados nas nossas relações com os humanos. Que exemplo um educador vegano  está dando ao pregar  a justiça para os animais não-humanos, mas pouco se importar com os impactos que causa ao humano? Que exemplo passa ao fazer altíssimas reflexões sobre a igualdade de direitos e respeito para com os animais não-humanos, mas agir de forma injusta voluntariamente para com o humano? Que exemplo esse animalista dá ao criticar os especistas por sobreporem seu desejo gastronômico (e o prazer advindo desse consumo) sobre a vida dos animais não-humanos, mas fazer o mesmo sobrepondo seus desejos, fantasias e fetiches sobre a vida de outros humanos, causando um mal psicofísico tão quanto o especista?

A responsabilidade ética deve nos impedir de criar subterfúgios para aplicar um principio honesto a um individuo, mas não ao outro em casos semelhantes. Platão nos ensinou que é melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la. A justiça e a igualdade moral que são os fins que tanto almejamos, deveriam estar acima de desejos irrefletidos, e esses se submeterem aos princípios éticos tão caros ao nosso aprimoramento moral. Agir se escondendo em subterfúgios, com desculpas, aplicando os princípios apenas onde lhe convém, é agir com má-fé. Como já sabemos, a má-fé é nitidamente uma mentira, pois mascara a total liberdade contida na responsabilidade do compromisso ético com a justiça. Agir de má-fé e agir covardemente.

A questão é colocada por Aristóteles da seguinte forma:

“Sendo os fins, então aquilo que nós aspiramos, e os meios aquilo sobre que deliberamos e que escolhemos, as ações relativas aos meios devem estar de acordo com a escolha e ser voluntárias. Ora: o exercício da excelência moral se relaciona com os meios; logo, a excelência moral também está ao nosso alcance, da mesma  forma que a deficiência moral. Com efeito, onde está ao nosso alcance agir, também está ao nosso alcance não agir, e  onde somos capazes de dizer “não”, também somos capazes de dizer “sim”; consequentemente, se agir, quando agir é nobilitante, está ao nosso alcance, não agir, que será ignóbil, também estará ao nosso alcance, e se não agir, quando não agir é nobilitante, está ao nosso alcance, agir, que será ignóbil, também estará ao nosso alcance. Se  está ao nosso alcance, então, praticar atos nobilitantes ou ignóbeis, e se isto era o que significava ser bom ou mau, esta igualmente ao nosso alcance ser moralmente excelentes ou deficientes” (E.N. III. 1113b5).

Os meios para se atingir um fim devem ser norteados pelo exercício da excelência moral, e a excelência que aqui evocamos é a responsabilidade. Nossa maneira de agir, em busca de fins abolicionistas e que nos fará felizes, resulta de disposições de nosso caráter. O educador vegano deveria ser conduzido por excelências morais como Justiça, Temperança, Fidelidade, Veracidade… E são esses hábitos forjadores de uma segunda natureza que o impedirá de ser moralmente deficiente, praticando voluntariamente ações injustas contra humanos também. O princípio ético de não provocar dano a vulnerabilidade de um ser senciente, deve ser aplicado a animais humanos e não-humanos.

Sabemos também que o educador vegano é aquele que – em termos sartrianos – se lança, que se projeta; a primeira escolha já foi tomada, adotar o modo de vida vegano como telos existencial, mas é no segundo ato, no materializar o desejo deliberado de educar veganamente, que ele se define. E será nesse projeto existencial ético, nessa práxis, que exige demasiada paciência, persistência, prudência e coragem, que ele tornar-se-á o que tiver projetado ser. O educador vegano tem plena consciência da responsabilidade que tal projeto exige. Responsabilidade que transcende sua restrita individualidade, mas que também não se restringe aos alunos em sala de aula; trata-se da responsabilidade ética por todos os animais humanos, não-humanos e pelos ecossistemas naturais. É nessa perspectiva que Sartre nos diz que todo indivíduo:

 

“ligado por um compromisso e que se dá conta de que não é apenas aquele que escolhe ser, mas de que é também um legislador pronto a escolher, ao mesmo tempo que a si próprio, a humanidade inteira, não poderia escapar ao sentimento da sua total e profunda responsabilidade”.

Ser educador vegano é assumir com convicção e honestidade, teórica e prática, o compromisso ético que a luta pela não-violência, pela justiça, pela igualdade moral exige. Compromisso que vem de um desejo deliberado, de uma escolha refletida, e que se substancia na responsabilidade que envolve não só o preocupar-se consigo mesmo, mas com toda a animalidade e o ambiente na qual ela está inserida. O educador vegano deve ter consciência, que como agente moral e capaz de  fazer escolhas deliberadas não lhe é permitido fugir a responsabilidade que o define, apelando a inocência, desconhecimento ou ignorância sobre os resultados de suas ações e/ou omissões.

Como exemplo de indivíduo que busca viver uma ética genuína, não pode haver fraquezas, pois outros agentes morais podem lhe ter como inspiração, como modelo, para uma futura mudança no modo de vida, de carnista galactomano e relutante bem-estarista para o vegano abolicionista.

O provocar dor/sofrimento em outro indivíduo para satisfazer prazeres viciosos é um problema sobre o qual todo agente moral deveria refletir. Não deveria ser tão difícil entender que impactamos tanto pela ação quanto pela omissão. Desde a antiguidade sabemos que realizar desejos não deliberados trás um prazer imediato, mas as conseqüências posteriores são más; no mínimo, causam dor.

Quando um agente moral que leva uma vida toda como intemperante, o resultado não pode ser outro senão o provocar imensa dor em si mesmo. O seu “direito” individual de danar-se a si mesmo para satisfazer seus desejos provoca sofrimento e muita dor, também, nos que estão a sua volta e que por você nutrem grande estima.
As escolhas de como queremos viver precisam ser pensadas, deliberadas. Toda pessoa que se vê como agente moral deveria pensar e repensar constantemente o que entende por “liberdade”. Se o uso de sua liberdade for danar outro ser, seja humano ou não-humano, essa liberdade precisa ser freada. Precisamos de Temperança, Justiça e Prudência, no pensar e no agir.

O pensador igualitarista Oscar Horta, ao comentar a defesa neoaristotélica dos animais realizada por Stephen R. L. Clark em sua obra The Moral Status of Animals, aponta que uma das faces de nossa natureza como agentes virtuosos é a capacidade de assumir responsabilidade para com os outros animais.

Não dá para ignorar o fato de que nossas escolhas provocam um impacto demasiadamente maior do que habitualmente imaginamos. Não é eticamente aceitável mudar de princípio quando muda os afetados pela sua ação; defendendo que algo só é injusto quando é praticado contra humanos ou contra animais não-humanos, mas somente quando o outro o faz, nunca quando você é o autor da ação.  Agir assim é agir com má-fé e distante dos princípios éticos que regem a práxis abolicionista animalista. Agir assim é fugir a responsabilidade inerente as escolhas que fazemos a todo instante, e é andar na contramão do modo de vida vegano.

Somos animais desejosos, mas que esses sejam deliberados. Somos animais que buscam prazeres, mas que sejam realizados depois de refletirmos sobre seus possíveis resultados, e que esses não firam psicofisicamente ninguém. A responsabilidade pelas escolhas que fazemos é o que nos define.

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A Simplicidade

Vivemos em um país onde a livrofobia e a epistemefobia são os pilares da cultura. Nunca fomos exemplo de um povo habituado a leitura, aos estudos minuciosos, pelo contrário, as escolas públicas são os locais por excelência da criação de traumas nos futuros leitores. Poucos são os alunos que saem da escola com gosto pela leitura, pelos estudos. A maioria nunca foi estimulada de forma prazerosa a frequentar uma biblioteca, a estudar pelo simples prazer de se enriquecer culturalmente.

A falta de hábito de leitura nos nossos adolescentes é um fator que muito prejudica no ensino dos direitos animais nas escolas. Se não lêem nem a literatura infanto-juvenil, o que dirá de obras e artigos de direitos animais, que são recheadas de argumentos de vários campos do conhecimento como: Filosofia, Etologia, Direito, Historia, Lógica, Neurociência, Nutrição, entre outros.

Diante desse cenário, cabe ao educador vegano engajado na introdução dos direitos animais na sala de aula, procurar simplificar ao máximo a mensagem que será passada. Comte-Sponville dirá que a simplicidade “é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara… é a vida… sem exageros, sem grandiloquência.” O filósofo a classifica tanto como uma virtude intelectual como moral.

É comum ouvir reclamações tanto dos adolescentes quanto de adultos, no dia-a-dia, que não entendem nada do que foi passado nas aulas de filosofia. É uma infeliz prática a de alguns pensadores, e no seu embalo, a da maioria dos professores da disciplina o rebuscamento da linguagem. Escrevem e falam num linguajar tão difícil (técnico) que gera no público nada mais que aversão ao conteúdo da aula.

A filosofia, e no caso aqui, a teoria dos direitos animais, se torna algo incompreensível; logo, inacessível aos reles mortais. Algo distante e sem sentido. Falar numa linguagem rebuscada, erudita, é sinal de status, de posse de um capital cultural que a maioria não tem. Mas num paupérrimo ambiente escolar qual serventia tem? Tornar o simples, complexo, não é sinal de inteligência, pelo contrário, a inteligência pode ser chamada de a arte de transformar o mais complexo em algo simples.

Montaigne critica aqueles que fazem uso de discursos refinados: “este anuncia preceitos em excesso, prenhes de dificuldades e pouco compreensíveis; emprega palavras sonoras e vazias que não se entendem e não suscitam nenhuma idéia…”. Mais adiante, em um trecho longo, mas importante para nos fazer refletir sobre como transmitir nossa proposta ética animalista para um público leigo e habituado ao exercício da preguiça intelectual, Montaigne diz:

“É estranho que em nosso tempo a filosofia não seja, até para gente inteligente, mais do que um nome vão e fantástico, sem utilidade nem valor, na teoria como na prática. Creio que isso se deve aos raciocínios capciosos e embrulhados com que lhe atopetaram o caminho. Faz-se muito mal em a pintar como inacessível aos jovens, e em lhe emprestar uma fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda? Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria quase mais divertido. Tem ar de festa e folguedo. Não habita onde haja caras tristes e enrugadas […]”

As questões são: porque complicar quando se pode simplificar, demorar quando se pode abreviar, obscurecer quando se pode esclarecer? Se viver o modo de vida vegano exige de nós a prática das virtudes, a apresentação da teoria dos direitos animais exige que a leveza da simplicidade seja o fio condutor; para que os princípios norteadores sejam compreensíveis para todos e discutíveis por todos, precisam ser claros e evidentes.

Sempre com os olhos no modo de vida simples pregado pelos greco-romanos, Montaigne nos ensina que: “A recompensa e a grandeza da verdadeira virtude estão na facilidade, utilidade e prazer do seu exercício; que ela apresenta tão poucas dificuldades que nela são igualmente fortes as crianças e os homens, os simples e sutis; e faz se pela moderação e não pela força. Sócrates, seu adepto favorito, propositadamente recusou a impô-la pela força, e passou a contar com a simplicidade e a brandura para fazê-la vencedora.”

Fitemos os olhos em Epicuro, mestre na simplicidade das palavras. Fitemos os olhos no modo de vida simples de animalistas como Sônia Felipe, Nina Rosa, Laerte Levai, Mauricio Varallo…

A verdade sobre os infortúnios que os animais não-humanos passam para que a sociedade mantenha seus especismos (eletivo e elitista) intactos deve ser dita numa linguagem simples, sem artifícios, pois é pequenez de espírito e imprudência (o não ver a quem se fala) querer se apresentar com uma linguagem rebuscada/refinada, permeada de expressões e vocábulos pouco conhecidos, atitude escolástica e infantil.

Que os educadores veganos conscientes da cultura livrofóbica brasileira, da aversão ao estudo inculcada nos nossos adolescentes nas escolas, não caiam no engodo do academicismo de um lado, e do analfabetismo funcional animalistta do outro. É possível transmitir a teoria dos direitos animais e sua prática vegana de maneira simples, mais clara, e porque não, de modo alegre, divertido? Sim. Para isso, que estudemos e nos dediquemos as mais diversas metodologias. A ludicidade, recurso tão comum as práticas de intervenção psicopedagógicas, façamos uso dela também.

A simplicidade é o caminho oposto da complexidade. É liberdade, leveza, transparência. Um falar e um agir simples é demonstração que nosso pensamento e nossa reflexão foram arejados pela simplicidade. Sem a simplicidade não há temperança.

O fato de que os animais não-humanos não são coisas, produtos, objetos destituídos de sentimentos e consciência, é algo simples de se entender e compreender. Se o público não está compreendendo que aquilo que nos iguala moralmente – a senciência e a vulnerabilidade – é o que deve passar a nos guiar eticamente, é porque algo no caminho entre a inocência e a consciência do fato esta impedindo. E na maioria das vezes essa barreira é a complexidade, a obscuridade, a pomposidade no expressar.

Pascal disse que “em geral, só imaginamos Platão e Aristóteles com grandes túnicas de pedantes. Eram pessoas honestas, e, como outros, rindo com seus amigos; e, quando se divertiram em fazer as suas Leis e a sua Política, fizeram-nas brincando. Era a parte menos filosófica e menos séria de suas vidas. A mais filosófica consistia em viver simples e tranquilamente.”

Esse é o espírito, simplicidade. Ser simples não exclui o instruir-se, o dedicar ao estudo constante da vida animal. Ao contrário do que parece, educar não é algo difícil, é algo simples. Difícil é desabituar-se de costumes violentos naturalizados desde a mais tenra idade. Difícil é forjar uma segunda natureza virtuosa não-violenta numa população onde o simples é tomado pela obscuridade, pela complexidade, pelo impossível. Para superar essa cultura da aversão a leitura, aos estudos, ao dar ouvidos à razão, é preciso simplificar nosso modo de discursar.

Educar é simples, mas por ser um exercício, cansa ao fim do dia. Torna-se uma tarefa árdua, mas não faz parte dela a complexidade. Crianças e jovens aprendem por mimesis; sejamos exemplo de que a prática da justiça para além da nossa espécie, com coragem e prudência, é algo possível de se realizar.

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A Amabilidade

O que é a amabilidade (praotés) para um grego da antiguidade? Acredito que o mesmo para nós atualmente: o contrário da violência, o antagonismo da dureza e da guerra. Praotés em grego também é mansidão, brandura.

A amabilidade designa a gentileza dos modos, a benevolência que garantimos para com o outro, humano ou não-humano. Em relação aos infortúnios dos vulneráveis, ela manifesta-se aproximando da generosidade ou da bondade. Uma disposição a receber o outro (seja da nossa espécie ou não, seja do mesmo sexo ou não, da mesma etnia ou não) como alguém a quem queremos bem.

Amabilidade é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, é a virtude; logo, o contrário da guerra, da crueldade, da brutalidade, da agressividade… Por vezes atravessada de angústia e de sofrimento, noutros momentos, clareada pela alegria e pela gratidão, mas sempre desprovida de ódio, de dureza, e de insensibilidade.

A amabilidade, como toda virtude, é uma força, uma disposição da alma, e essa força é a que vem da tranquilidade. Os gregos usavam a palavra ‘praos’ (dócil, calmo, manso, brando) que reunia os valores que compõe essa amabilidade. Próxima à generosidade e a compaixão, mas não a ponto de confundir-se com elas, podemos dizer que enquanto a generosidade deseja fazer o bem ao outro, a amabilidade se recusa a lhe fazer o mal. Se o compassivo sofre com o sofrimento do outro, o amável se recusa a produzir ou aumentar o estado de sofrência/dorência alheia.

Recusar-se a fazer sofrer, a destruir, a devastar, de um lado; respeitar, proteger e beneficiar, do outro. Para Montaigne, benegnidade aos animais e as árvores. Mas não devemos confundir amabilidade com a caridade, que ordena amar ao próximo como a ti mesmo, pois toda a historia da humanidade já nos ensinou que podemos viver sem caridade, mas sem um mínimo de amabilidade, não. Aristóteles a colocará como uma virtude integral, como meio termo na cólera, entre os extremos que são a irascibilidade e a frouxidão: “as pessoas que se encolerizam por motivos justos e com as pessoas certas, e, além disso, como devem, quando devem e enquanto devem, são dignas de louvor. Estas, então, serão as pessoas amáveis, pois a amabilidade é louvável”.

O status de coisas, produtos, mercadorias dado aos animais não-humanos há séculos por uma Filosofia, Teologia, Direito e Ciências especistas, é motivo mais que justo para encolerizarmos. Tratar seres sencientes como coisas inanimadas é fruto de um preconceito tão absurdo quanto o que submeteu negros aos brancos, e mulheres aos homens; e isso, é motivo para encolerizarmos. Novamente com Aristóteles, “…as pessoas que não se encolerizam com as coisas que devem encolerizá-las são consideradas insensatas, tanto quanto as que não se encolerizam de maneira certa, no momento certo, ou com as pessoas certas; pensa-se, com efeito, que tais pessoas não têm sensibilidade nem sofrem diante de uma ofensa(…)”.

É necessário não confundir – como o fazem os veganofóbicos e os bem-estaristas –, sentimentalismo com ser empático, amável e benevolente. Montaigne, para responder àqueles que riam da simpatia e benevolência que ele demonstrava para com os animais, recorria a argumentos teológicos.

Nos dias atuais, o filósofo estadunidense Tom Regan, deixa claro em sua obra que não se trata de sentimentalismo quando se defende direitos morais para os animais não-humanos, mas do mais puro exercício de raciocínio ético. Cabe a partir dessa leitura, ao educador vegano pontuar para seu público que a luta contra as injustiças praticadas diariamente contra os animais deve ser travada com a mesma intensidade como quando as vítimas são humanas. Regan, no entanto, não nega a paixão por detrás de sua teoria, já que denominou a filosofia como uma disciplinada paixão. A disciplina vem das horas de intensa dedicação solitária aos exercícios filosóficos. “Quanto à paixão”, diz Regan:

“Por vezes, e não raramente. Lágrimas me vêm aos olhos ao ver, ler ou ouvir sobre a condição de desgraça no qual os animais se encontram nas mãos dos humanos. Sua dor, seu sofrimento, sua solidão, sua inocência, sua morte. Cólera. Fúria. Pena. Pesar. Desgosto. A criação inteira geme sob o peso do mal que nós humanos infligimos a essas criaturas mudas e impotentes. São nossos corações, não apenas nossas cabeças, que clamam por um fim. Tudo isso, que exigem de nós que superemos, por eles, os hábitos e forças por detrás da opressão sistemática que sofrem. Todos os grandes movimentos, está escrito, passam por três momentos: ridicularização, debate e adoção. É a realização deste terceiro estagio, adoção, que requer de nós, tanto paixão quanto disciplina, nossos corações e nossas cabeças. O destino dos animais está em nossas mãos (…)”.

No mesmo sentido que Regan fala sobre a paixão, Peter Singer, em sua obra mais conhecida na defesa ética dos animais, Libertação Animal, assim se expressa: “Toda a criação agoniza sob o peso do mal que nós humanos infligimos a esses pobres seres. É nosso coração, não somente as nossas mentes, que clamam para um fim de tudo isso; que demandam que superemos, em nome deles os arraigados hábitos e força que sustentam sua sistemática opressão”.

Muitos educadores veganos acreditam que seu ativismo politico-pedagógico esta no estágio do debate, com a esperança que sua argumentação leve seu interlocutor ao terceiro estágio: a adoção do modo de vida vegano. Mas e quando seu ativismo é numa unidade escolar, e seu público tem de 14 a 18 anos e diante de toda injustiça cometida aos animais (sequestro, confinação, tortura, estupro, mutilação, extermínio) não se sensibiliza, não sofre, ou seja, não se encoleriza, diante dessa ofensa? Pois é isso que o especismo é, uma ofensa. Uma ofensa a nossa racionalidade e a nossa animalidade.

Diante de um público que ainda está no primeiro estágio, o da ridicularização; que é insensível e insensato como diz Aristóteles, talvez a amabilidade, essa paz de espirito como virtude, se apresente como algo fundamental para que o educador vegano não desista de continuar lutando por justiça para além da nossa espécie.

Referências

ARISTÓTELES (1999). Ética a Nicómaco. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales. (Ediciónbilingue: griego/castellano).

MONTAIGNE, Michel de (1972).Ensaios. São Paulo: Abril Cultural.

REGAN, Tom (1991). The Case for animal rights. In: BAIRD, R. M. & ROSENBAUM, S. E. Animal Experimentation: the moral issues. Amherst/New York: Prometheus Book. p. 77-88.

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