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Florestas secas brasileiras são repetidamente degradadas mesmo em áreas não desmatadas

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Localizada no Nordeste do Brasil, a Caatinga, com seus matagais e florestas secas, é vista por muitos como pobre em biodiversidade. Como consequência, a região recebe poucos investimentos para ações de conservação. Entretanto, especialistas dizem que com mais de 900 espécies de plantas e animais, o bioma é o maior e mais diverso entre as florestas tropicais sazonalmente secas do mundo. É também o único bioma totalmente brasileiro e uma das regiões menos estudadas do globo.

Distribuídos em 47,1 mil fragmentos, apenas cerca de metade da vegetação da Caatinga resta — eespecialistas dizem o constante estresse hídrico a torna profundamente vulnerável às mudanças climáticas. Agora, um estudo recente aponta que mesmo essas áreas remanescentes não desmatadas estão severamente ameaçadas pela ação humana acumulada ao longo de décadas e séculos. Os autores chamam o efeito de distúrbio antrópico crônico, e observam que é altamente dependente da localização: áreas florestais ao norte e oeste são mais alterados do que aquelas no leste e sul da Caatinga.

Os pesquisadores, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e do World Resources Institute Brasil, queriam entender como a intensidade dessa alteração varia entre as diferentes regiões geográficas, tamanhos de fragmentos florestais e em função da distância às bordas dos áreas florestadas. Eles então contabilizaram os níveis de degradação que encontraram usando um índice, o índice de perturbação antropogênica crônica (CDI).

Cinco elementos, ou vetores, compõem o CDI: população humana, infraestrutura, pastagem, exploração madeireira e fogo. Cada um tem um impacto diferente em várias regiões da Caatinga e, juntos, eles respondem pelos índices de alteração encontrados pela equipe. O CDI vai de 0 a 1, e quanto maior o índice em uma determinada área, mais degradada ela fica. As áreas menos perturbadas foram encontradas nas regiões leste e centro do bioma (com fragmentos de floresta onde o CDI foi de 0,12) e as áreas mais degradadas no norte da Caatinga (com CDI de 0,80).

A Caatinga sozinha tem uma área total de 844.453 quilômetros quadrados, estendendo-se aproximadamente por 11% do território brasileiro. “Medir a degradação por meio de observação de campo em uma área tão vasta é extremamente difícil de fazer”, disse Carlos Roberto Fonseca, coautor e pesquisador do departamento de ecologia da UFRN, ao Mongabay em entrevista por telefone. “Queríamos exceder os resultados para a Caatinga como um todo, não apenas observar alguns pontos selecionados”, acrescentou.

Fonseca e colegas usaram dados existentes em vários bancos de dados — como o censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o censo bovino brasileiro e mapas oficiais de rodovias, ferrovias, barragens e linhas de energia — para estimar os impactos. Em seguida, cruzaram esses dados com o mapa censitário do IBGE, que possui uma grade de pixels. O objetivo era medir o impacto da degradação de cada pixel do mapa da Caatinga medindo os diferentes pesos de cpixeldados comada vetor calculado.

A degradação está distribuída de forma desigual pela Caatinga, uma vez que diferentes regiões estão sob diferentes tipos de pressão.

“A urbanização e a pecuária degradaram profundamente o litoral leste ao longo dos anos, enquanto na parte norte há muita extração de madeira e ocupação humana, e nem todos são sustentáveis ​​por causa da caça ilegal. Algumas outras regiões ainda estão preservadas e podem vir a ser áreas de conservação”, disse Fonseca.

O estudo, publicado em julho de 2020 no Journal of Applied Ecology, mostra que fragmentos menores da Caatinga eram muito heterogêneos, variando de pouco a altamente degradados. Fragmentos maiores de vegetação apresentam níveis médios de perturbação. Infraestrutura foi o vetor encontrado para causar a maior alteração (com um CDI de 0,86) e o fogo para causar a menor (com um CDI de 0,04). O impacto de todos os vetores — população humana, infraestrutura, pastagem, extração de madeira e fogo – foi maior nas bordas das áreas florestais.

Grandes obras de infraestrutura causam impactos amplos e imediatos ao meio ambiente. Por outro lado, o pastoreio, a extração de madeira e o fogo estão diretamente ligados à presença humana nos espaços remanescentes de vegetação e são responsáveis ​​por uma parte significativa de sua degradação crônica.

Em entrevista por telefone ao Mongabay, Marcelo Tabarelli, professor do departamento de botânica do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, disse que muitas famílias que vivem na região são altamente dependentes dos recursos naturais da Caatinga — e isso tem sido um longo processo histórico que se estende até o presente. “Eles extraem madeira para cozinhar, por exemplo, e também vendem para pequenas empresas vizinhas que dependem do carvão para combustível. Seus caprinos e bovinos se alimentam de pequenas porções de vegetação, e essa extração de biomassa é pequena, mas contínua”, disse Tabarelli, que não participou do estudo.

Tabarelli disse que esses padrões em tal cultura de extração doméstica foram amplamente negligenciados pela pesquisa ecológica. Ele disse que o estudo é importante porque lança luz sobre um aspecto esquecido de um bioma amplamente não estudado. “Mostra que as áreas remanescentes florestais da Caatinga estão expostas à extração de madeira e frutas e à agricultura de corte e queima. Este tipo de extração de nutrientes e biomassa faz parte da cultura tem sidosertaneja local de comunidades tradicionais aqui no Brasil e em muitas partes do mundo. ”

Esses efeitos crônicos de distúrbios também ocorrem em outras regiões onde grupos menores dependem exclusivamente da extração de recursos naturais para viver, como as florestas secas em partes da África e nas regiões rurais da Índia, acrescentou Tabarelli. “À medida que as comunidades humanas se reorganizam nesses espaços e outras espécies proliferam e se adaptam a essas áreas degradadas, ocorre um processo de homogeneização biológica. Na Índia, por exemplo, esse processo é mais radical e está relacionado a processos de invasões biológicas e colapso de estruturas florestais sobre a vegetação restante”.

Tabarelli disse que vê um vazio no planejamento do desenvolvimento sustentável da Caatinga. “A degradação ambiental não é um subproduto da mudança climática, mas aumentará à medida que a seca aumentar. Há uma carência histórica de medidas legais para enfrentar com eficácia os problemas da Caatinga e os dados sobre a desertificação são uma prova disso”, afirmou.

A pressão sobre biomas como a Caatinga aumentará com as mudanças climáticas, à medida que secas e outros eventos extremos se tornam mais frequentes e fazem com que as florestas percam produtividade, disse Tabarelli.

Nesse sentido, tanto ele quanto Fonseca destacam a necessidade de criação de áreas de conservação entre as regiões florestais remanescentes. “Apesar de metade da Caatinga estar perdida, a conectividade entre as áreas de vegetação remanescentes ainda é alta, e isso é fundamental para que os animais se desloquem de um lugar para outro”, disse Fonseca. Ele acrescentou que na primeira década dos anos 2000, “o Brasil caminhava em uma espiral ascendente — foi quando o país criou cerca de 80% das áreas de conservação do mundo. O cenário desacelerou nos anos Dilma Rousseff [2011 – 2016] e agora vivemos com uma perspectiva de retrocesso, arriscando sérias reversões em termos ambientais ”.


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